Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência
Der Spiegel, 10 de fevereiro, 1969, p.30.) Essa nova versão lingüisticamente vulgarizada (e não intelectualmente) 

dos velhos absurdos do comunismo dos anos trinta, de que a vitória do fascismo seria para o bem de todos 

aqueles que o combatiam, é ou puro teatro, a variante “revolucionária” da hipocrisia, ou dá testemunho do 

idiotismo político dos “seguidores”. Só que há quarenta anos atrás era a política deliberadamente pró-Hitler de 

Stalin, e não apenas algumas teorias estúpidas, que os fundamentavam. Na verdade, não há razão para 

surpresa com o fato de que os estudantes alemães dedicam-se mais à teorização e menos à ação política para a 

qual são menos bem-dotados, assim como para o julgamento crítico do que seus colegas de outros países 

politicamente mais afortunados; nem de que “o isolamento de mentes inteligentes e vitais... na Alemanha”, é 

mais pronunciado, a polarização mais desesperada, do que em outros locais, e o seu impacto sobre o clima 

político de seu próprio país, com exceção dos fenômenos de reação, é quase nenhum. Eu também concordaria 

com Spender (ver The Berlin Youth Model, in op. cit.) sobre o papel desempenhado nessa situação pelo passado 

ainda recente, de maneira que os estudantes têm ressentimentos, não apenas por causa de sua violência, mas 

por também despertarem lembranças (...) também eles têm aspecto de fantasmas que se levantam de sepulturas 

apressadamente cobertas”. E, no entanto, quando tudo já foi dito e registrado,’ permanece o faiõ estranho e 

inquietador de que nenhum dos novos grupos de esquerda na Alemanha, cuja ruidosa oposição às políticas 

nacionalistas ou imperialistas de outros países tem sido notoriamente extremista, tem-se dedicado seriamente 

ao reconhecimento da Linha “Oder-Neisse”, a qual, afinal, é a questão crucial da política externa alemã e a 

pedra de toque do nacionalismo alemão desde a derrota do regime de Hitler. 

 

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Daniel Bell é cuidadosamente esperançoso por estar consciente de que o trabalho científico e técnico 

depende do “conhecimento teórico (que) é procurado, testado, e codificado de uma maneira desinteressada” (op. 

cit). Talvez esse otimismo possa ser justificado enquanto os cientistas e tecnologistas permanecerem pouco 

interessados no poder e voltados para o prestígio social, isto é, enquanto não tiverem poder e nem governarem. 

O pessimismo de Noam Chomsky, “nem a história, nem a psicologia e nem a sociologia nos dão qualquer razão 

particular para aguardarmos com esperança o domínio dos novos mandarins”, pode ser excessivo; não existem 

ainda precedentes históricos, e os cientistas e intelectuais que, com tão deplorável regularidade, estiverem 

sempre disponíveis para servir a qualquer governo que estivesse no poder, não são “meritocratas”, mas sim, 

 

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arrivistas. Mas Chomsky está inteiramente correto ao levantar a questão: “De forma muito geral, que 

fundamentos existem para se supor que aqueles cuja reivindicação do poder se baseia no conhecimento e na 

técnica serão mais benignos no exercício do poder do que aqueles que o reivindicam com base em riquezas 

materiais ou em sua origem aristocrática?” (op. cit, p. 27). E existem razões para que seja levantada a pergunta 

complementar: que base existe para se supor que o ressentimento contra uma meritocracia, cujo domínio se 

baseia exclusivamente em dons “naturais”, isto é, na capacidade intelectual, não será mais perigoso, ou mais 

violento do que o ressentimento de grupos oprimidos anteriormente, que tinham pelo menos o consolo de que a 

sua condição não fora causada por sua própria culpa? Não será plausível supor que esse ressentimento irá 

abrigar todas as inclinações assassinas de um antagonismo racial, distinto de meros conflitos de classe, visto 

que se relacionará também a dados naturais que não podem ser mudados, e daí a condição da qual alguém só 

se libera através da exterminação daqueles que possuem um Q.I. mais alto? E já que o poder numérico daqueles 

em desvantagem será esmagador e a mobilidade social quase que ausente, não será provável que o perigo de 

demagogos, de líderes populares, será tão grande que a meritocracia seria forçada à tirania e ao despotismo? 

 

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Stewart Alsop, em um artigo de muita percepção, “‘The Wallace Man”, em Newsweek (21 de outubro de 

1968) afirma: “Pode ser pouco liberal a atitude do homem de ‘Yallace ao recusar-se a enviar os seus filhos a 

escolas piores em nome da integração, mas também não deixa de ser natural. E também não deixa de ser 

natural que ele se inquiete com a preocupação de sua esposa, ou com o fato de estar perdendo a sua autoridade 

em casa, que é afinal tudo o que possui! Cita ele também a declaração mais eficaz da demagogia de George 

Wallace: “Há 535 membros no Congresso e muitos desses liberais também têm filhos. Sabe quantos deles 

enviam seus filhos a escolas públicas em Washington? Seis”. Outro exemplo de fundamental importância de 

uma política de integração mal concebida foi recentemente publicado por Neil Maxwell em The Wall Street 

Journal (8 de agosto de 1968). O governo federal promove a integração das escolas no Sul através da contenção 

de fundos em casos de desobediência flagrante. Em um caso destes, USS 200.000 de ajuda anual foram retidos. 

“Do total, US$ 175.000 foram diretamente para escolas negras (...) Os brancos imediatamente aumentaram os 

impostos para repor os outros US$25.000.” Em resumo, aquilo que presumivelmente irá ajudar à educação dos 

negros exerce na verdade um “impacto esmagador” em seu sistema educacional e absolutamente nenhum 

impacto nas escolas brancas. 

 

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No sombrio clima das discussões entre os estudantes ocidentais, estas questões quase nunca têm uma 

chance de serem esclarecidas; na verdade, “esta comunidade, verbalmente tão radical, sempre procurou e 

encontrou uma fuga”, nas palavras de Cünter Crasso É também verdade que este fato é de se notar, de modo 

especial e irritante, nos estudantes alemães e em outros membros da Nova Esquerda. “Eles não sabem nada, 

mas sabem de tudo”, conforme afirmou um jovem historiador em Praga, segundo Crasso Hans Magnus 

Enzensberger é porta-voz da atitude geral alemã; os tchecos sofrem de “um horizonte extremamente limitado. A 

sua substância política é escassa”. (Ver Cünter Crass, op. cit., pp. 138-142.) Em contraste com esta mistura de 

estupidez e impertinência, a atmosfera entre os rebeldes do Leste é refrescante, embora seja de estremecer o 

preço exorbitante pago por ela. Jan Kavan, líder estudantil tcheco, escreve: “Os meus amigos da Europa 

Ocidental têm me dito que estamos apenas lutando por liberdades democrático-burguesas. Mas não consigo 

distinguir entre liberdades capitalista,s e socialistas. O que reconheço são as liberdades humanas básicas” 

(Ramparts, setembro, 1968). E seguro presumir que ele teria uma dificuldade semelhante com a distinção entre 

“violência progressiva e repressiva”. Entretanto, seria errado concluir, como tão freqüentemente se faz, que o 

povo nos países ocidentais não têm reclamações legítimas precisamente em questões de liberdade. Realmente, é 

apenas natural “que a atitude dos tchecos para com os estudantes Ocidentais é até certo ponto colorida pela 

inveja”. (Citado de um jornal estudantil por Spenderop. cit., p. 72) mas é também verdade que a eles faltam 

certas experiências menos brutais e ainda assim, muito decisivas em matéria de frustração política. 

 

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