Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência
II

 

 NOTA 



17 

O afastamento inconsciente da Nova Esquerda do marxismo foi devidamente observado. Ver 

especialmente comentários recentes sobre o movimento estudantil de Leonard Schapiro no New York Review of 

Books (5 de dezembro de 1968) e de Raymond Aron em La Révolution lntrouvable, Paris, 1968. 

Ambos,consideram a nova ênfase na violência como um tipo de retorno ou ao socialismo utópico pré-marxista 

(Aron) ou à anarquia russa de Nechaeve Bakunin (Schapiro), que “tinham muito a dizer sobre a importãncia da 

violência como fator de unidade, como a força unificadora em uma sociedade ou grupo, um século antes que 

essas mesmas idéias emergissem nos trabalhos de Jean-Paul Sartre e de Frantz Fanon”. Escreve Aron no 

mesmo espírito: Les chantres de la révolution de mai croient déPasser le marxisme... ils oublient un siécle 



d’histoire (p. 14). Para um não-marxista esse retorno dificilmente seria um argumento; mas para Sartre, que, 

por exemplo, escreve Un prétendu’déPassement’ du marxisme ne sera au pis qu’un retour au prémarxisme, au 



mieux que la redécouverte d’une pensée déja contenue dans la philosophie qu’on a cru déPasser (“Question de 

Méthode” in Critique de la raison dialectique, Paris, 1960, p. 17), esta se constituiria em uma formidável objeção. 

(O fato de que Sartre e Aron, embora se opondo politicamente, concordam plenamente quanto a esse ponto, é 

realmente digno de nota. Mostra até que ponto o conceito da História de Hegel domina igualmente o pensamento 

de marxistas e não-marxistas.) 

O próprio Sartre, em sua Crítica da Razão Dialética, fornece uma espécie de explicação hegeliana para o 

seu apoio à violência. O seu ponto de partida é que “a necessidade e a escassez determinaram a base 

maniqueísta da ação e da moral” na história atual, “cuja verdade baseia-se na escassez (e) deve manifestar-se 

em uma reciprocidade antagônica entre as classes”. A agressão é a conseqüência da necessidade em um mundo 

onde “não há o bastante para todos”. Nessas circunstâncias, a violência já não é um fenômeno marginal.”A 

violência e a contra violência são talvez contingências, mas são necessidades contingentes, e a conseqüência 

imperativa de qualquer tentativa de destruir essa desumanidade é que ao destruir no adversário a 

desumanidade dos contraman, somente posso destruir nele a humanidade do homem, e em eu descobrir a sua 

desumanidade. Se mato, torturo, ou escravizo, ... meu objetivo é suprimir a sua liberdade trata-se de uma força 

estranha,  de trop”. Seu modelo para uma condição onde “cada um é demais (...) Cada um é excessivo para o 

outro” é uma fila de ônibus, cujos componentes obviamente “se ignoram exceto com um número em uma série 

quantitativa”. Conclui ele: “Eles negam reciprocamente qualquer ligação entre cada um dos seus mundos 

 

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anteriores”. Daí, segue-se que a praxe “é a negação da transformação, que é por si só uma negação” – conclusão 

extremamente bem recebida, já que a negação de uma negação constitui uma afirmação. 

A falha no argumento parece-me óbvia. Há uma grande diferença entre “ignorando” e “negando”, entre 

“negando qualquer ligação” com alguém e “negando” a sua condição de “outro”; e para uma pessoa sã existe 

ainda uma considerável distância a ser percorrida dessa “negação” teórica às matanças, torturas e escravização. 

A maior parte das citações acima foram retiradas de R. D. Laing e de D. G. Cooper, Reason and Violence

A Decade of Sartres Philosoph), 1950-1960, Londres, 1964, Parte Três. Isto parece legítimo uma vez que na 

introdução Sartre afirma: j’ai lu attentivement l’ouvrage que vous ave. bien voulu me confier et j’ai eu le grand 




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