Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência


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Para ter acesso a outros títulos libertos das violentas convenções do mercado, acesse: 

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Autor: Hannah Arendt 

Título: Da Violência 

Título Original: On Violence 

Tradução: Maria Claudia Drummond 

Data Publicação Original: 1969/1970 

Data da Digitalização: 2004 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Esta obra foi formatada e revisada por um de nossos colaboradores, está liberada a sua 

distribuição gratuita ou por justo-social valor, pode ser reproduzida no todo ou em parte 

preservando seu conteúdo e o nome do autor, sendo bem coletivo de toda a humanidade.  

 

2




 

Í

NDICE

 

 

 



 

C

APÍTULO 



I

   


 

 

 



 

 

 



 

 

 



C

APÍTULO 



II

   


 

 

 



 

 

 



 

 

 



15 

C

APÍTULO 



III

   


 

 

 



 

 

 



 

 

 



25 

 

A



PÊNDICES

   


 

 

 



 

 

 



 

 

 



38 

N

OTAS



  

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

46 



 

 

 



3


C

APÍTULO 

 

 



 

Essas reflexões foram provocadas pelos acontecimentos e debates dos 

últimos anos, vistos no contexto do século XX, o qual tornou-se de fato, conforme 

predissera Lênin, um século de guerras e revoluções. Portanto, um século da 

violência que atualmente se acredita seja seu denominador comum. Há, 

entretanto, um outro fator na situação atual o qual, embora previsto por todos, 

tem pelo menos importância igual. O progresso técnico dos instrumentos da 

violência alcançou agora o ponto onde objetivo político algum poderia 

corresponder ao seu potencial de destruição ou justificar o seu emprego real em 

conflitos armados. Portanto, a guerra – árbitro definitivo e impiedoso nos conflitos 

internacionais – perdeu muito de sua eficácia e quase que todo o seu glamour. O 

xadrez apocalíptico que se desenrola entre as superpotências, isto é, entre 

aquelas que se movimentam nos níveis mais altos de nossa civilização, está sendo 

jogado de acordo com a regra “se qualquer um dos dois ‘vencer’, é o fim de 

ambos”;

1

 é um jogo que não apresenta qualquer semelhança com quaisquer jogos 



que o precederam. O seu objetivo racional é a dissuasão e não a vitória; e a 

corrida armamentista, não mais uma preparação para a guerra, somente se 

justifica agora argumentando-se que mais e mais dissuasão é a melhor garantia 

da paz. Para a indagação de como poderemos um dia desembaraçar-nos da óbvia 

insanidade dessa situação, não existe resposta. 

Uma vez que a violência – distinta do poder, força ou vigor – necessita 

sempre de instrumentos (conforme afirmou Engels há muito tempo atrás)

2

, a 



revolução da tecnologia, uma revolução nos processos de fabricação, manifestou-

se de forma especial no conflito armado. A própria substância da violência é 

regida pela categoria meio/objetivo cuja mais importante característica, se 

aplicada às atividades humanas, foi sempre a de que os fins correm o perigo de 

serem dominados pelos meios, que justificam e que são necessários para alcançá-

los. Uma vez que os propósitos da atividade humana, distintos que são dos 

produtos finais da fabricação, não podem jamais ser previstos com segurança, os 

meios empregados para se alcançar objetivos políticos são na maioria das vezes 

de maior relevância para o mundo futuro do que os objetivos pretendidos. 

 

4




Ademais, ao passo que os resultados das ações humanas escapam ao 

controle dos seus atores, a violência abriga em seu seio um elemento adicional de 

arbitrariedade; em lugar algum desempenha a fortuna, boa ou má sorte, papel 

mais decisivo nas atividades humanas do que no campo de batalha, e essa 

intromissão do inesperado não desaparece quando é chamado de “acontecimento 

fortuito” e é considerado cientificamente suspeito, e nem poderia ser eliminado 

através de simulações, cenários, teorias, e outros artifícios. Não existe certeza no 

que diz respeito a essas questões, nem mesmo uma certeza final de destruição 

mútua sob certas e calculadas circunstâncias. O mero fato de que aquelas 

pessoas que se dedicam ao aperfeiçoamento dos meios de destruição atingiram 

finalmente um nível de desenvolvimento técnico onde o seu objetivo, a luta 

armada, chegou a ponto de desaparecer em sua totalidade em virtude dos meios 

à sua disposição

3

, parece um irônico lembrete dessa imprevisibilidade que a tudo 



permeia, e que encontramos no momento em que nos aproximamos dos domínios 

da violência. A razão principal por que os conflitos armados ainda existem, não é 

nem um desejo secreto de morte da espécie humana, ou um irreprimível instinto 

de agressão, nem, finalmente, e mais plausivelmente, os sérios perigos 

econômicos e sociais inerentes ao desarmamento: porém o simples fato de que 

substituto algum para esse árbitro final nas relações internacionais apareceu 

ainda no cenário político. Não estava Hobbes correto ao afirmar: “Pactos, sem as 

medidas coercitivas, nada mais são do que palavras?” 

Nem é provável que apareça um substituto enquanto a independência 

nacional, ou seja, a independência do domínio estrangeiro, e a soberania do 

Estado, ou seja, a reivindicação de um poderio ilimitado e irrestrito nas relações 

internacionais, permaneçam identificados. (Os Estados Unidos da América 

figuram entre os poucos países onde uma verdadeira separação entre liberdade e 

soberania é pelo menos teoricamente possível na medida em que as próprias 

bases da República Americana não fiquem ameaçadas. Tratados com países 

estrangeiros, de acordo com a Constituição, são parte integrante do Direito 

interno e conforme observou o juiz James Wilson em 1793 – “à Constituição dos 

Estados Unidos o termo soberania é totalmente estranho”. Mas a época dessa 

separação clara e altiva da linguagem tradicional e da estrutura política 

conceitual do Estado-nação europeu já há muito se passou; a herança da 

Revolução Americana está esquecida, e o governo americano, por bem ou por 

mal, incorporou-se à herança da Europa como se fora ela patrimônio seu – sem 

 

5



saber, infelizmente, que o declínio do poderio europeu precedeu-se e foi 

acompanhado por falência política, a falência do Estado-nação e de seu conceito 

de soberania). O fato de que a guerra seja ainda a última  ratio, o antigo 

prolongamento da política por meio da violência, na política externa dos países 

subdesenvolvidos, não é argumento contra o fato de ser obsoleta, e o fato de que 

apenas os pequenos países sem armas nucleares e biológicas possam manter 

uma guerra não oferece consolo. 

Não é segredo que o famoso acontecimento fortuito tem mais probabilidade 

de dar-se naquelas partes do mundo onde o velho refrão “Não há qualquer 

alternativa à vitória” conserva um alto grau de plausibilidade. 

 

Nessas circunstâncias, existem, de fato, poucas coisas mais atemorizantes 



do que o prestígio sempre crescente dos “donos do saber” de mentalidade 

científica que vêm assessorando os governos durante as últimas décadas. O 

problema não é que eles tenham suficiente sangue-frio para “pensar o 

impensável”, mas sim que não pensam. Ao invés de se entregarem a essa 

atividade tão antiquada e impossível de ser computada, levam eles em conta as 

conseqüências de certas hipóteses sem que possam, entretanto, testar essas 

presunções em relação aos acontecimentos reais. A falha lógica nessas 

construções hipotéticas de eventos futuros é sempre a mesma: aquilo que parece 

à primeira vista uma hipótese – com ou sem as suas alternativas implícitas, de 

acordo com o nível de sofisticação – transforma-se imediatamente, geralmente 

após alguns parágrafos, em um “fato”, que dá origem então a toda uma sucessão 

de não-fatos semelhantes, com o resultado de que o caráter puramente 

especulativo de toda a iniciativa cai no esquecimento. Desnecessário dizer-se, 

trata-se aqui não de ciência, mas de pseudociência, “a tentativa desesperada das 

ciências sociais e comportamentais”, nas palavras de Noam Chomsky, “de imitar 

as características superficiais das ciências que realmente possuem conteúdo 

intelectual”. E a mais óbvia e “mais profunda objeção a esse tipo de teoria 

estratégica não é sua utilidade limitada, mas os seus perigos, pois pode levar-nos 

a acreditar que temos uma compreensão dos eventos e controle sobre o s’eu 

desenrolar que não possuímos”, conforme observou Richard N. Goodwin 

recentemente em uma resenha que teve a rara virtude de detectar o “humor 

inconsciente” característico de muitas dessas teorias pseudo-científicas.

5

 

6




Eventos, por definição, são ocorrências que interrompem processos e 

procedimentos de rotina; somente em um mundo onde nada de importância 

acontece jamais, poderia o sonho do futurólogo tornar-se realidade. As previsões 

do futuro nada mais são do que projeções dos processos e procedimentos 

automáticos do presente, isto é, de acontecimentos que provavelmente se 

passarão se os homens não agirem e se nada de inesperado acontecer; toda ação, 

por bem ou por mal, e todo acidente necessariamente destroem todo o padrão em 

cuja estrutura movimenta-se a previsão e onde encontra seu fundamento. (A 

observação de Proudhon, “A fecundidade do inesperado supera grandemente a 

prudência do estadista”, felizmente é ainda verdadeira. Excede ela mais 

obviamente os cálculos do especialista). Taxar esses acontecimentos inesperados, 

imprevistos e imprevisíveis de “acontecimentos fortuitos”, ou “de últimos suspiros 

do passado”, condenando-os a irrelevância ou à famosa “lata de lixo da história”, 

é o mais antigo artifício nesse campo; o artifício, sem dúvida, ajuda a esclarecer a 

teoria, mas ao custo de removê-la para mais longe da realidade. O perigo reside 

em que essas teorias são não apenas plausíveis, por fundamentarem-se em 

tendências realmente possíveis de se discernir, mas em que, por causa de sua 

consistência interior, possuem um efeito hipnótico; fazem adormecer o nosso bom 

senso, que nada mais é que o nosso órgão mental que se destina a perceber, 

compreender e lidar com a realidade e com os fatos. 

Ninguém que se dedique à meditação sobre a história e a política consegue 

se manter ignorante do enorme papel que a violência desempenhou sempre nas 

atividades humanas, e à primeira vista é bastante surpreendente que a violência 

tão raramente tenha sido objeto de consideração.

6

 (Na última edição da 



Encyclopedia of Social Sciences “violência” nem mesmo merece uma menção). Isso 

mostra até que ponto tomou-se a violência e a sua arbitrariedade como fatos 

corriqueiros e foram, portanto negligenciadas; ninguém questiona ou examina 

aquilo que é óbvio para todos. Aqueles que nada mais viram do que violência nas 

atividades humanas, convencidos de que eram “sempre acidentais, nem sérios, 

nem precisos” (Renan) ou que Deus apoiava sempre os batalhões maiores, não 

tiveram mais nada a dizer sobre a violência ou a História. Qualquer um que 

procurasse algum sentido nos registros do passado estava quase que destinado a 

encarar a violência como um fenômeno marginal. Seja Clausewitz, referindo-se à 

guerra como “a continuação da política por outros meios”, ou Engels, definindo-a 

como aceleradora do desenvolvimento econômico

7

, a ênfase está na continuidade 



 

7



política ou econômica, na continuidade de um processo que permanece 

determinado por aquilo que precedeu o ato de violência. Portanto, os estudantes 

de relações internacionais sustentaram até recentemente que “é uma máxima que 

uma resolução militar, em desacordo com as fontes culturais mais profundas do 

poder nacional, não poderia ser estável” ou que, nas palavras de Engels, “seja 

onde for que a estrutura de puder de um país contradiga o seu desenvolvimento 

econômico” é o poder político com os seus meios de violência que sofrerá a 

derrota


8

Hoje em dia todas essas antigas verdades sobre o relacionamento entre a 



guerra e a política ou sobre a violência e o poder tornaram-se inaplicáveis. À 2ª 

Guerra Mundial não se seguiu a paz, mas sim uma guerra fria e o 

estabelecimento do complexo militar-industrial. Falar da “prioridade do potencial 

para a luta armada como a principal força de estruturação da sociedade”, 

sustentar que “os sistemas econômicos, as filosofias políticas, e a corpora juris 

servem e estendem o sistema bélico e não vice-versa”, concluir que “a própria 

guerra é o sistema social básico, dentro do qual outros tipos de organização social 

conflitam ou conspiram” – tudo isso parece muito mais plausível do que as 

fórmulas do século XIX de Engels ou Clausewitz. Ainda mais conclusivo do que 

essa simples reversão proposta pelo autor anônimo do Report from Iron Mountain 

– ao invés de ser a guerra “uma extensão da diplomacia (ou da política, ou da 

busca dos objetivos econômicos)”, a paz é a continuação da guerra por outros 

meios – é o verdadeiro desenvolvimento das técnicas da guerra. Conforme as 

palavras do físico russo Sakharov: “Uma guerra termonuclear não pode ser 

considerada uma continuação da política por outros meios (de acordo com a 

fórmula de Clausewitz). Seria um meio de suicídio universal

9

”. 


Ademais, sabemos que “umas poucas armas poderiam varrer da face do 

planeta todas as outras fontes de poder nacional em alguns momentos

10

”, que 


foram criadas armas biológicas que possibilitariam a “pequenos grupos de 

indivíduos perturbar o equilíbrio estratégico” e seriam suficientemente baratas 

para serem produzidas por nações incapazes de desenvolver o poderio nuclear”

11



que “dentro de poucos anos” soldados robôs terão tornado os soldados humanos 

completamente obsoletos”

12

 e que, finalmente, no conflito armado convencional os 



países pobres são muito menos vulneráveis do que as grandes potências 

precisamente “por serem subdesenvolvidos”, e porque a superioridade técnica 

pode ser “muito mais um ônus do que uma vantagem” nas guerras de guerrilha

13



 

8



O que essas desconfortáveis novidades representam é uma completa reversão nas 

relações entre o poder e a violência, como prenúncio de outra, nas relações 

futuras entre as grandes e pequenas potências. A quantidade de violência à 

disposição de qualquer país poderá dentro em breve deixar de ser uma indicação 

digna de confiança do poderio daquele país ou uma garantia confiável contra a 

destruição por parte de uma potência substancialmente menor e mais fraca. E 

isso carrega uma sinistra similaridade com uma das mais antigas te9rias da 

ciência política, isto é, que o poder não pode ser medido em termos de riqueza, 

que a abundância de riqueza pode desgastar o poder, que as riquezas são 

particularmente perigosas para o poder e bem-estar das repúblicas – uma idéia 

que não perde a sua validade por haver sido esquecida, especialmente em uma 

época em que a sua verdade adquiriu uma nova dimensão de validade tornando-

se aplicável também ao arsenal de violência. 

Quanto mais dúbio e incerto tornou-se o instrumento da violência nas 

relações internacionais; mais ganhou em fama e atração na política interna, 

especificamente em se falando de revolução. A fonte retórica marxista da Nova 

Esquerda coincide com o constante crescimento da convicção inteiramente não-

marxista, proclamada por Mao Tsé-tung, segundo o qual o “poder brota’do cano 

de uma arma”. Certamente, Marx tinha consciência do papel desempenhado pela 

violência na História, mas esse papel era para ele secundário; não a violência, 

mas sim as contradições da antiga sociedade causaram o seu fim. A emergência 

de uma nova sociedade foi precedida de, mas não causou, violentas 

manifestações, as quais ele associou às dores do parto que precedem, mas não 

causam, o nascimento orgânico. Da mesma maneira considerava ele o Estado 

como um instrumento de violência sob o controle das classes dominantes; mas o 

verdadeiro poder das classes dominantes não consistia ou baseava-se na 

violência. Definia-se através do papel desempenhado pelas classes dominantes na 

sociedade, ou, mais exatamente, por seu papel no processo de produção. Tem-se 

freqüentemente observado, e algumas vezes deplorado, que a Esquerda 

revolucionária sob a influência dos ensinamentos de Marx rejeitava o emprego 

dos meios violentos; a “ditadura do proletariado” – abertamente repressiva de 

acordo com os escritos de Marx sucedeu à revolução e destinava-se, como a 

Ditadura Romana, a durar por um período estritamente limitado. O assassinato 

político, com exceção de uns poucos atos terroristas isolados, perpetrados por 

pequenos grupos de anarquistas, era basicamente uma prerrogativa da Direita, 

 

9




enquanto os motins armados organizados permaneciam uma especialidade dos 

militares. A Esquerda estava convencida de que “todas as conspirações são não 

apenas inúteis como também maléficas. Sabiam eles perfeitamente que as 

revoluções não se fazem de forma intencional e arbitrária, mas que são sempre e 

em todos os lugares o resultado necessário de circunstâncias inteiramente 

independentes da vontade e da orientação de certos partidos e de classes 

inteiras

14

”. 



 

Em nível de teoria houve algumas exceções. Georges Sorel, que no princípio 

do século tentou unir o marxismo à filosofia de vida de Bergson obtendo um 

resultado, que embora em um nível muito mais baixo de sofisticação, é 

estranhamente semelhante ao amálgama feito por Sartre de existencialismo e 

marxismo referente à luta de classes em termos militares, e mesmo 

assim,terminou ele por nada propor de mais violento do que o famoso mitO da 

greve geral, um tipo de ação que hoje consideraríamos tomo parte do arsenal da 

política não-violenta. Há cinqüenta anos atrás mesmo essa modesta proposta 

granjeou-lhe a fama de fascista, apesar de sua entusiástica aprovação de Lenine 

e da Revolução Russa. Sartre, que no seu prefácio ao livro de Fanon Les dámnés 

de la Terre, vai muito além de Sorel em suas famosas Réflexions sur la violence – e 

até além do que o próprio Fanon, cujo argumento deseja apropriar à sua 

conclusão e menciona ainda “as observações fascistas de Sorel”. Isso mostra até 

que ponto Sartre está inconsciente de sua discordância básica com relação a 

Marx sobre a questão da violência, especialmente ao afirmar que “a violência 

irreprimível é o homem recriando a si mesmo”, e que é através da “fúria louca” 

que os “desgraçados da terra” podem “tornar-se homens”. Essas noções são mais 

dignas de nota porque a idéia do homem criando a si mesmo está contida 

estritamente na tradição do pensamento hegeliano e marxista; trata-se da própria 

base de todo o humanismo de esquerda. Porém de acordo com Hegel o homem 

“produz” a si mesmo através do pensamento

15

, enquanto que para Marx, que 



virou de cabeça para baixo o “idealismo” de Hegel, foi o trabalho, a maneira 

humana de metabolismo com a natureza, que preencheu essa função. E embora 

se possa argumentar que todas as teorias do homem criando a si mesmo têm em 

comum uma rebelião contra a própria realidade da condição humana – nada é 

mais óbvio do que o fato de que o homem, seja como membro da espécie ou como 

indivíduo, mio deve a sua existência a si mesmo – e que portanto o que Sartre, 

 

10



Marx, e Hegel têm em comum é mais relevante do que as atividades específicas 

através das quais esse não-fato teria presumivelmente se dado. No entanto, não 

se pode negar que um vácuo separa as atividades essencialmente pacíficas do 

pensamento e do trabalho de todos os atos de violência. “Abater um europeu é 

matar dois pássaros com uma só pedra... obtém-se um homem morto e um 

homem livre”, afirma Sartre em seu prefácio. É esta uma sentença que Marx 

jamais poderia ter escrito’6. 

Citei Sartre para demonstrar que essa nova mudança de posição no 

pensamento dos revolucionários, em apoio à violência, pode passar despercebida 

até mesmo a um de seus porta-vozes mais claros e representativos

17

 e tornar-se 



ainda mais digna de nota por não se tratar, evidentemente, de uma noção 

abstrata na história das idéias. (Se se colocar de cabeça para baixo o conceito 

“idealístico” do pensamento, poder-se-ia chegar ao conceito “materialista” do 

trabalho; jamais se poderá chegar à noção de violência). Sem dúvida alguma tudo 

isso tem a sua própria lógica, mas é uma lógica que se origina da experiência, e 

essa experiência era totalmente desconhecida a qualquer das gerações anteriores. 

A paixão e o élan da Nova Esquerda, sua credibilidade, encontram-se 

estreitamente ligados ao estranho desenvolvimento suicida das armas modernas, 

é essa a primeira geração a crescer à sombra da bomba atômica. Eles herdaram 

da geração de seus pais a experiência de uma intromissão maciça da violência 

criminosa na política: aprenderam no colégio e na Universidade a respeito dos 

campos de concentração e de extermínio, sobre genocídio e tortura

18

, sobre o 



assassinato indiscriminado de civis na guerra sem o qual as modernas operações 

militares não são mais possíveis, ainda que restritas às armas “convencionais”. A 

sua primeira reação foi de repulsa a todas as formas de violência, uma adoção 

quase que automática de uma política de não-violência. Às grandes vitórias desse 

movimento, especialmente no campo dos direitos civis, seguiu-se o movimento de 

resistência à guerra do Vietnam, o qual se manteve como fator importante na 

determinação do clima de opinião neste país (os EUA). Mas não é segredo que as 

coisas mudaram desde então, que os adeptos da não-violência estão na defensiva, 

e seria frivolidade dizer que apenas os “extremistas” estão se rendendo à 

glorificação da violência, tendo descoberto – como os camponeses argelinos de 

Fanon – que “só a violência vale a pena”

19



Os novos militantes foram denunciados como anarquistas, niilistas, 

fascistas vermelhos, nazistas, e com maior justificativa, “ludistas destruidores de 

 

11



máquinas”

20

, e os estudantes contaram com “slogans” igualmente sem sentido 



como “Estado policial”, ou “fascismo latente do capitalismo moribundo, e com 

muito maior justificativa, “sociedade de consumo”

21

. O seu comportamento foi 



atribuído a todos os tipos de fatores sociais e psicológicos – à excessiva 

permissividade em sua educação nos Estados Unidos, a uma reação explosiva em 

face do excessivo autoritarismo na Alemanha e Japão, à falta de liberdade na 

Europa do Leste e liberdade excessiva no Ocidente, à desastrosa falta de 

empregos para estudantes de sociologia na França e à superabundância de 

carreiras em quase todas as áreas nos Estados Unidos – todos parecem 

suficientemente plausíveis, entretanto os contradiz o fato de que a rebelião 

estudantil é um fenômeno global. Um denominador comum do movimento do 

ponto de vista social parece estar fora de questão, mas é verdade que 

psicologicamente essa geração parece caracterizar-se em todos os lugares pela 

sua coragem, uma estarrecedora disposição para a ação, e uma não menos 

estarrecedora confiança na possibilidade de mudança

22

. Mas essas qualidades 



não constituem causas, e ao se perguntar o que, na verdade, provocou esses 

acontecimentos totalmente inesperados nas Universidades em todo o mundo, 

parece absurdo ignorar o fator mais óbvio e talvez mais potente, para o qual, 

ademais, não existe qualquer analogia ou precedente – o simples fato de’que o 

progresso tecnológico está levando, em muitos casos, diretamente ao desastre

23



que as ciências, ensinadas e aprendidas por essa geração parecem não apenas 

incapazes de desfazer as desastrosas conseqüências de sua própria tecnologia, 

mas alcançaram um estágio em seu desenvolvimento onde “não há nada que se 

possa fazer que não possa se transformar em guerra

24

”. (Certamente, nada é mais 



importante para a integridade das Universidades as quais, nas palavras do 

Senador Fullbright, traíram a confiança pública ao tornarem-se dependentes de 

projetos de pesquisa patrocinados pelo governo

25

 – do que uma separação 



rigorosa entre a pesquisa orientada para a guerra e para todas as atividades 

afins; mas seria ingenuidade esperar que isso mudasse a natureza da ciência 

moderna ou que impedisse o esforço de guerra, ingenuidade também negar que 

as limitações resultantes pudessem levar a uma diminuição dos padrões 

universitários

26

. A única coisa que essa separação parece não acarretar é uma 



retirada geral dos fundos federais; pois, como observou Jerome Lettvinn do M.I.T. 

recentemente: “O governo não pode se dar ao luxo de não apoiar-nos

27

” assim 


como não podem as universidades se dar ao luxo de não aceitareq1 os fundos 

 

12




federais; porém isso significa que elas “devem aprender como tornar estéril o 

apoio financeiro” (Henry Steele Commager), tarefa árdua, mas não impossível, em 

vista do enorme aumento do poder das Universidades nas sociedades modernas). 

Em resumo, a proliferação aparentemente irresistível de técnicas e máquinas, 

longe de ameaçar certas classes de desemprego, ameaça a existência de nações 

inteiras e provavelmente de toda a humanidade. 

 

É natural que a nova geração viva com uma maior consciência da 



possibilidade do fim do mundo que as pessoas “com mais de trinta anos”, não por 

serem mais novas, mas porque foi esta a sua primeira experiência decisiva no 

mundo. (Aquilo que é “problema” para nós “está inserido na carne e no sangue 

dos jovens”.)

28

 Se se fizer a um representante dessa geração duas simples 



perguntas: “Como você gostaria que fosse a sua vida daqui a cinco anos?” As 

respostas serão bem freqüentemente precedidas de: “Desde que ainda exista um 

mundo”, e “Desde que eu ainda esteja vivo”. De acordo com as palavras de George 

Wald, “defrontamo-nos com uma geração que não está de maneira alguma certa 

de que tem um futuro

29

”. Pois o futuro, como afirma Spender, é “como uma 



bomba-relógio enterrada, porém ressoando o seu tique-taque, no presente”. A 

freqüente pergunta: “Quem são eles, essa nova geração?” fica-se tentado a 

responder “aqueles que escutam o tique-taque”. E à outra pergunta: “Quem são 

esses que os negam totalmente?” a resposta poderia bem ser “aqueles que não 

sabem, ou recusam-se a enfrentar, as coisas como realmente são”. 

 

A rebelião estudantil é um fenômeno global, mas as suas manifestações 



variam, certamente, de um país a outro, e com freqüência de uma Universidade a 

outra. Isto é particularmente verdadeiro em relação à prática da violência. A 

violência se manteve em grande parte uma questão de teoria e retórica onde o 

conflito entre as gerações não coincidiu com o conflito entre tangíveis interesses 

de grupos. Isto aconteceu em particular na Alemanha, onde os professores que 

gozavam de estabilidade empregatícia tinham interesse em salas de aula e 

seminários superlotados. Nos Estados Unidos, o movimento estudantil tinha-se 

radicalizado onde quer que intervenham a polícia e a sua brutalidade em 

demonstrações essencialmente não-violentas; ocupação de prédios da 

administração,  sit-ins; etc. A violência mais séria entrou em cena apenas com o 

aparecimento do movimento Black Power no campus. Estudantes negros, aceitos 

 

13




em sua maioria sem as qualificações necessárias, consideravam a si mesmos e 

organizaram-se como grupo de interesse representando a comunidade negra. O 

seu interesse era diminuir os padrões acadêmicos. Eram eles mais cautelosos do 

que os rebeldes brancos, mas ficou claro desde o princípio (antes mesmo dos 

incidentes na Universidade de Cornell e no City College em Nova Iorque) que com 

eles a violência não era questão de teoria e retórica. Ademais, enquanto a rebelião 

estudantil nos países ocidentais não pode em lugar algum contar com o apoio 

popular fora das Universidades – e via de regra encontra hostilidade no mesmo 

momento em que utiliza meios violentos –, encontra-se uma grande minoria da 

comunidade negra atrás da violência verbal ou real dos estudantes negros!

30

. A 


violência negra pode ser compreendida em analogia à violência dos operários nos 

Estados Unidos na geração passada; e embora, tanto quanto sei, apenas 

Staughton Lynd tenha feito a analogia entre as manifestações trabalhistas e a 

rebelião estudantil explicitamente

31

, parece que os meios acadêmicos, em sua 



curiosa tendência para render-se ainda mais às exigências negras, mesmo 

quando ridículas e abusivas

32

, do que às reivindicações morais desinteressadas 



de alto nível, de maneira geral, dos rebeldes brancos, também pensa nesses 

termos e sente-se mais à vontade quando confrontada com interesses acrescidos 

de violência do que quando se trata de uma questão de “democracia participante” 

não-violenta. A aceitação por parte das autoridades universitárias das exigências 

negras tem sido freqüentemente explicada através dos “complexos de culpa” da 

comunidade branca; parece-me mais provável que o quadro de professores assim 

como as administrações e as juntas diretoras estão meio conscientes da verdade 

óbvia de uma conclusão do documento oficial: “Relatório sobre a Violência na 

América”: “A força e a violência parecem ser técnicas bem-sucedidas de controle 

social e persuasão se tiverem amplo apoio popular”.

33

 

A nova e inegável glorificação da violência pelo movimento estudantil tem 



uma peculiaridade curiosa. Enquanto a retórica dos novos militantes é 

claramente inspirada por Fanon, os seus argumentos teóricos; geralmente nada 

contêm, a não ser uma mistura de todos os tipos de resíduos marxistas. Isto 

lealmente deixa intrigada qualquer pessoa que já tenha lido Marx ou Engels. 

Quem poderia chamar de marxista uma ideologia que depositou a sua fé em 

“líderes sem classe”, acredita que “no proletariado a rebelião encontrará sua 

ponta de lança urbana”, e está certa de que “gangsters iluminarão o caminho 

 

14




para o povo

34

”. Sartre com sua grande habilidade retórica deu expressão à nova 



fé. “A violência”, acredita agora, sob a influência do livro de Fanon, “como a lança 

de Aquiles, é capaz de curar as feridas que infligiu”. Se isso fosse verdade, a 

vingança seria a cura para a maior parte de nossos males. Esse mito é mais 

abstrato, mais distante da realidade, do que jamais o fora o mito de Sorel da 

greve geral. Rivaliza com os piores excessos retóricos de Fanon, tais como, “a 

fome com dignidade é preferível ao pão no cativeiro”. Não é necessária qualquer 

história ou teoria para refutar essa afirmação; o observador mais superficial dos 

processos que se desenrolam dentro do corpo humano sabe da sua inverdade. 

Porém houvesse ele afirmado que o pão comido no cativeiro com dignidade é 

preferível ao bolo saboreado na escravidão, teria sido perdido o objetivo retórico. 

Lendo essas afirmações grandiloqüentes e irresponsáveis – e aquelas aqui 

citadas são bastante representativas, exceto que Fanon ainda consegue manter-

se mais próximo da realidade do que a maioria – e olhando-as da perspectiva do 

que sabemos sobre a história das rebeliões e revoluções, fica-se tentado a negar o 

seu significado, a atribuí-las a um modismo passageiro, ou à ignorância e 

nobreza de sentimentos de pessoas que se expuseram a acontecimentos e 

evoluções sem precedentes, sem quaisquer meios para manipulá-los 

mentalmente, e que, portanto, curiosamente revivem pensamentos e emoções dos 

quais havia Marx esperado libertar a revolução de uma vez por todas. Quem 

jamais duvidaria que as vítimas da violência sonham com a violência, que os 

oprimidos “sonham diariamente pelo menos uma vez em colocarem-se” na pele do 

opressor, que os pobres sonham com as posses dos ricos, os perseguidos com 

uma troca “do papel de caça para aquele do caçador” e os últimos do reino onde 

“os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos”?

35

 A questão, conforme 



a via Marx, é que os sonhos nunca se tornam realidade

36

. A raridade das 



rebeliões de escravos e das revoltas entre os deserdados e humilhados é notória; 

nas poucas ocasiões em que ocorreram foi precisamente a “fúria louca” que 

transformou sonhos em pesadelos para todos. Em instância alguma, tanto 

quanto sei, foi à força dessas explosões “vulcânicas”, nas palavras de Sartre, igual 

à pressão sobre elas exercida. Identificar os movimentos de libertação nacional 

com tais explosões é profetizar o seu fim – independentemente do fato de que a 

improvável vitória não resultaria em uma transformação do mundo (ou do 

sistema), mas apenas em uma transformação em relação às pessoas. Pensar, 

finalmente, que existe uma tal coisa como uma “Unidade do Terceiro Mundo”, a 

 

15




quem se poderia dirigir o novo “slogan” da era da descolonização. “Nativos de 

todos os países subdesenvolvidos, uni-vos!” (Sartre) é repetir as piores ilusões de 

Marx em escala muito aumentada e com consideravelmente menos justificativa. 

O Terceiro Mundo não é uma realidade, mas sim uma ideologia

37



 



A questão persiste: por que os novos empregadores da violência estão 

inconscientes de sua discordância decisiva com relação aos ensinamentos de Karl 

Marx ou, em outras palavras, por que se agarram com teimosa tenacidade a 

conceitos e doutrinas que foram não apenas refutados por desenvolvimentos de 

fato, mas são claramente inconsistentes com sua própria política? O único 

“slogan” positivo apresentado pelo novo movimento, a reivindicação de 

“democracia participante” que ecoou por todo o globo constituindo o denominador 

comum mais significativo das rebeliões no Oriente e no Ocidente, deriva do que 

há de melhor na tradição revolucionária – o sistema de conselhos, ou câmaras 

municipais, o único fruto autêntico, embora sempre derrotado, desde o século 

XVIII. Porém referência alguma a esse objetivo seja em palavra ou substância 

pode ser encontrada nos ensinamentos de Marx e Lenine, os quais procuravam, 

ao contrário, uma sociedade na qual a necessidade de ação pública e participação 

nas questões públicas teriam “definhado” juntamente com o Estado. Por causa de 

uma curiosa timidez nas questões teóricas, contrastando estranhamente com a 

sua indomável coragem na prática, o “slogan” da Nova Esquerda permaneceu em 

um estágio declamatório, para ser invocado de modo bastante inarticulado contra 

a democracia representativa ocidental (a qual está próxima de perder mesmo, a 

sua função meramente representativa em favor das enormes máquinas 

partidárias que “representam” não os membros do partido, mas os seus 

(funcionários) e contra as burocracias socialistas com base em um só partido, as 

quais excluem em princípio a participação. 

Ainda mais surpreendente nesta estranha lealdade ao passado é a aparente 

inconsciência da Nova Esquerda, do ponto onde o caráter moral da rebelião – fato 

agora largamente aceito

39

 – colide com a sua retórica marxista. Nada, de fato, 



relativo ao movimento é mais impressionante do que o seu desinteresse; Peter 

Steinfels, em um artigo digno de nota sobre a “Revolução Francesa de 1968” em 



Commonweal (26 de julho de 1968) estava muito certo ao escrever: “Péguy pode 

ter sido um patrono adequado para a revolução cultural, com seu desprezo pelos 

‘mandarins’ da Sorbonne e também a sua fórmula, ‘A Revolução social será moral 

 

16




ou não existirá’”. Certamente que todos os movimentos revolucionários têm sido 

liderados pelos desinteressados, que se motivavam pela compaixão ou por uma 

paixão pela justiça, o que é verdade também no que diz respeito a Marx e Lenine. 

Entretanto Marx, conforme sabemos, havia, de maneira eficaz, transformado em 

tabu essas “emoções” – se hoje o Sistema rejeita argumentos morais taxando-os 

de “emocionalismo” está então muito mais próximo da ideologia marxista do que 

os rebeldes – e teria resolvido o problema dos líderes “desinteressados” com a 

noção de que são a vanguarda da humanidade, incorporando o interesse último 

da história humana

40

. Entretanto, também eles tiveram que adotar os interesses 



não especulativos e práticos das classes trabalhadoras e identificar-se com ela; 

somente isso deu-lhes uma base firme. E é exatamente isso que aos rebeldes tem 

faltado desde o princípio e que não têm sido capazes de encontrar apesar da 

desesperada luta à cata de aliados fora das Universidades. A hostilidade dos 

trabalhadores em todos os países é uma questão a ser registrada

41

, e nos Estados 



Unidos o colapso completo de qualquer cooperação com o movimento Black 

Power, cujos estudantes estão enraizados mais firmemente em sua própria 

comunidade e, portanto em melhor situação, foi a mais amarga decepção para os 

rebeldes brancos. (Se foi ou não sábia a decisão de Black Power de se recusar a 

desempenhar o papel de proletariado para os líderes “desinteressados” de cor 

diferente é outra questão). 

Não deve surpreender que na Alemanha, o velho lar do movimento da 

Juventude, um grupo de estudantes proponha agora incluir em suas fileiras 

“todos os grupos organizados de juventude”

42

. É Óbvio o absurdo dessa proposta. 



 

Não tenho certeza de qual será a explicação, eventualmente, para essas 

inconsistências; mas suspeito que a razão profunda para essa lealdade a uma 

doutrina típica do século XIX tem algo a haver com o conceito de Progresso, com 

a relutância em separar-se da noção que unificava o Liberalismo, o Socialismo e o 

Comunismo em uma “Esquerda” mas que em lugar algum alcançou o nível de 

plausibilidade e sofisticação que encontramos nos escritos de KarI Marx. (A 

inconsistência tem sido sempre o calcanhar de Aquiles do pensamento liberal que 

combinava uma inabalável lealdade ao Progresso a uma recusa não menos severa 

em glorificar a História nos termos marxistas e hegelianos, os únicos que 

poderiam justificá-lo e garanti-lo). 

 

17




A noção segundo a qual existe o progresso da humanidade como um todo, 

era desconhecida anteriormente ao século XVII, evoluiu para transformar-se em 

opinião bastante comum entre os hommes de lettres do século XVIII. E tornou-se 

um dogma quase que universalmente aceito no século XIX. Mas a diferença entre 

as noções mais antigas e seu estágio final é decisiva. O século XVII, cujos 

melhores representantes no que diz respeito a esse assunto eram Pascal e 

Fontenelle, encarava o progresso em termos de um acúmulo de conhecimentos 

através dos séculos, ao passo que para o século XVIII a palavra implicava uma 

“educação da humanidade” (a Erziehung des Menschengeschlechts de Lessing) 

cujo fim iria coincidir com a maioridade do ser humano. O progresso não era 

ilimitado, e a sociedade sem classes de Marx vista como o reino da liberdade que 

poderia ser o final da História freqüentemente interpretada como uma 

secularização da escatologia cristã ou o messianismo judeu – na verdade ainda 

carrega a marca registrada da Era do Iluminismo. Ao iniciar-se o século XIX, 

porém, todas essas limitações desapareceram. Agora, de acordo com as palavras 

de Proudhon, o movimento é le fait primitif e “as leis do movimento são eternas”. 

Esse movimento não tem princípio nem fim: Le mouvement est; voilá tout! Quanto 

ao ser humano, tudo que podemos afirmar é “nascemos passíveis de perfeição, 

mas jamais seremos perfeitos”

43

. A idéia de Marx tomada emprestada de Hegel, 



segundo a qual todas as antigas sociedades abrigam as sementes de suas 

sucessoras da mesma maneira como todo organismo vivo abriga as sementes de 

sua descendência é não apenas a mais engenhosa mas também a única garantia 

conceitual da eterna continuidade do progresso na História; e uma vez que os 

movimentos desse progresso originam-se supostamente das colisões de forças 

antagônicas é possível interpretar todo “retrocesso” como necessário porém 

temporário. 

Certamente, a garantia de que no fim a análise apóia-se em pouco mais que 

uma metáfora não é a base mais sólida onde erigir uma doutrina, mas isso, 

infelizmente, o marxismo compartilha com muitas outras doutrinas filosóficas. A 

sua grande vantagem torna-se clara tão logo seja comparada a outros conceitos 

da História tais como “eternas repetições de acontecimentos”, o crescimento e a 

queda dos impérios, a seqüência casual de acontecimentos essencialmente 

desconexos – todos eles podendo ser igualmente documentados e justificados, 

porém nenhum é capaz de garantir uma continuidade de tempo linear e 

progresso contínuo na História. E o único conceito alternativo nesse campo, a 

 

18



antiga noção de uma Era de Ouro no princípio, da qual tudo se teria originado, 

implica na desagradável certeza de um contínuo declínio. Certamente, há alguns 

efeitos melancólicos na reconfortante idéia de que precisamos apenas de 

caminhar em direção ao futuro, o que não nos é dado evitar, de todo modo, para 

que encontremos um mundo melhor. Há em primeiro lugar o simples fato de que 

o futuro da humanidade em geral nada tem a oferecer à vida individual cuja 

única certeza é a morte. E se não se levar isso em conta, se só se pensar em 

generalidades, há o argumento óbvio contra o progresso que, de acordo com as 

palavras de Herzen: “O desenvolvimento humano é uma forma de injustiça 

cronológica, uma vez que aos retardatários é dado tirar proveito do trabalho de 

seus predecessores sem pagar o mesmo preço”

44

. Ou nas palavras de Kant: “Será 



sempre intrigante (...) que as gerações anteriores pareçam levar adiante a sua 

tarefa somente em benefício do próximo (...) e que somente a última tenha a boa 

sorte de habitar a obra já terminada”

45



Entretanto essas desvantagens, só raramente percebidas, são mais do que 

compensadas por uma enorme vantagem: o progresso não apenas explica o 

passado sem quebrar a continuidade do tempo como pode servir de guia para as 

futuras ações. Foi isso que Marx descobriu ao revirar Hegel de cabeça para baixo: 

modificou ele a perspectiva do historiador; ao invés de olhar para o passado, 

podia ele agora contemplar o futuro confiantemente. O progresso responde à 

difícil pergunta: “E o que fazer agora?” A resposta, ao mais primário nível, afirma: 

“Deixe-nos desenvolver aquilo que temos para que se torne maior, melhor, etc. (A 

fé dos liberais, irracional à primeira vista, no crescimento, e tão característica de 

nossas atuais teorias políticas e econômicas, depende dessa noção.) Nas camadas 

mais sofisticadas da esquerda, a resposta seria que desenvolvêssemos as atuais 

contradições transformando-as em sua síntese básica. Em qualquer um dos 

casos estamos certos de que nada de novo e totalmente inesperado poderá 

acontecer, nada exceto os resultados “necessários” daquilo que já sabemos.

46 

Como são reconfortantes as palavras de Hegel, “nada mais surgirá exceto aquilo 



que já existia”.

47

Não necessito acrescentar que todas as nossas experiências nesse século, o 



qual tem constantemente nos confrontado com o inesperado, estão em flagrante 

contradição com essas noções e doutrinas, cuja popularidade parece consistir em 

oferecer um refúgio confortável, especulativo ou pseudocientífico da realidade. 

Uma rebelião estudantil quase que exclusivamente inspirada por considerações 

 

19



morais certamente que deve figurar entre os acontecimentos totalmente 

inesperados desse século. Essa geração, treinada como as suas predecessoras 

apenas em noções superficiais dos vários tipos de teorias sociais e políticas, 

ensinou-nos uma lição sobre a manipulação ou, melhor dizendo, os seus limites, 

que seria melhor não esquecermos. Os homens podem ser “manipulados” através 

da coerção física, tortura, ou inanição, e suas opiniões podem ser formadas 

arbitrariamente por meio de informações falsas transmitidas de maneira 

deliberada e organizada, mas não através de “meios de persuasão ocultos”, a 

televisão, a propaganda, ou qualquer outro meio psicológico em uma sociedade 

livre. Infelizmente a refutação da teoria pela realidade tem sido sempre na melhor 

das hipóteses um processo longo e precário. Os aficionados da manipulação, 

aqueles que a temem sem razão não menos que os que nela depositam as suas 

esperanças, dificilmente observam a realidade das coisas. (Um dos melhores 

exemplos de teorias atingindo as raias do absurdo aconteceu durante a recente 

questão do People’s Park em Berkeley. Quando a polícia e a Guarda Nacional, 

portando rifles, baionetas desembainhadas e lançando gás de helicópteros, 

atacou os estudantes desarmados – poucos dentre eles “haviam lançado algo 

mais perigoso do que epítetos” – alguns membros da Guarda confraternizaram-se 

abertamente com seus “inimigos” e um deles abaixou os braços, gritando: “Não 

consigo agüentar mais”. O que aconteceu? Na época esclarecida em que vivemos, 

uma tal atitude só se justificaria através da insanidade: “ele foi levado às pressas 

para um exame psiquiátrico e diagnosticou-se que sofria de agressões 

reprimidas”). 

 

O progresso é, certamente, mercadoria mais séria e mais complexa em oferta 



na feira de superstições de nossa época49. A crença irracional do século XIX no 

progresso ilimitado encontrou aceitação universal principalmente por causa do 

impressionante desenvolvimento das ciências naturais as quais, desde o início da 

idade moderna, tornaram-se realmente “ciências universais” e, portanto poderiam 

aguardar a perspectiva interessante da infindável exploração da imensidade do 

universo. Que a ciência, ainda que não mais limitada pela finitude da terra e de 

sua natureza, seja objeto de infindável progresso não está de maneira alguma 

assegurado; que a pesquisa estritamente científica no campo das humanidades, a 

chamada  Geisteswissenschaften que lida com os produtos do espírito humano, 

deva por definição chegar a um final é óbvio. A incessante e insensata exigência 

 

20



de pesquisas originais em certas áreas, onde só a erudição é agora possível, 

conduziu ora à pura irrelevância, o famoso conhecimento sempre mais vasto 

sobre temas cada vez mais limitados, ou ao desenvolvimento de uma pseudo-

erudição a qual na verdade destrói o seu objeto

50

. É digno de nota o fato de que a 



rebelião dos jovens, na medida em que não é motivada exclusivamente moral ou 

politicamente, têm sido dirigidas principalmente contra a glorificação acadêmica 

da erudição e da ciência, ambas ainda que por diferentes razões, estando 

gravemente comprometidas a seus olhos. E é verdade não ser de maneira alguma 

impossível havermos atingido em ambos os casos um ponto crucial, o momento 

dos resultados destrutivos. Não só cessou o progresso da ciência de coincidir com 

o progresso da humanidade (seja o que for que isso acarrete), como poderá esse 

fato até mesmo trazer o fim dessa mesma humanidade, assim como o maior 

progresso da erudição poderá muito bem terminar colo a destruição de tudo 

aquilo que fez com que a erudição valesse à pena. O progresso, em outras 

palavras, não mais serve como padrão por onde avaliar o processo de 

transformação desastrosamente rápido que liberamos. 

Já que o que nos interessa é basicamente a violência, devo fazer uma 

advertência –quanto às tentações de um mal-entendido. Se encararmos a História 

em termos de um processo cronológico contínuo, cujo progresso, ademais é 

inevitável, a violência’ na forma de guerras e revoluções poderá parecer 

constituir-se na única interrupção possível. Se isso fosse verdade, se somente a 

prática da violência tornasse possível à interrupção dos processos automáticos no 

que diz respeito às ações humanas, os pregadores da violência teriam ganhado 

um ponto importante. (Teoricamente, tanto quanto sei, tal coisa nunca se 

comprovou, mas parece-me incontestável que as atividades estudantis dos 

últimos anos baseiam-se na realidade dessa convicção). É a função, entretanto, 

de toda ação, distinta do simples comportamento, interromper aquilo que de 

outra maneira teria prosseguido automaticamente e, portanto de forma previsível. 

 

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