Da teoria geral aos novos direitos


Breves considerações acerca da violência simbólica



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Breves considerações acerca da violência simbólica

Ao se analisar a violência na sociedade, parte-se da premissa de não a compreender de forma simplória, imaginando que ela só se manifeste na forma física, pois suas facetas são inúmeras nas relações sociais. Conforme relembra Calderone “pensar la idea de violencia simbólica implica pensar, necesariamente, el fenómeno de la dominación en las relaciones sociales, especialmente su eficacia, su modo de funcionamiento, el fundamento que la hace posible. (CALDERONE, 2004, p. 1). ”.

Neste compasso, seguindo o mesmo entendimento de Calderone, em sua obra “Topologia da violência” o autor Byung-Chul Han preleciona que em diversas oportunidades a violência se encontra no cerne do sistema social, ou, ainda, no contexto sistêmico em que este se encontra. (HAN, 2017, p. 161). No mesmo caminhar, Bourdieu ao abordar a teoria do habitus, refere que os indivíduos ao adquirirem comportamentos habituado-repetitivos, por meio do inconsciente, podem sofrer formas de violência sem necessariamente compreenderem-nas como tal, ou, ainda, naturalizando-as.

Com isso, se observa que, inúmera vezes, pela ausência do caráter físico da violência, é na forma silenciosa que ela se enraíza na sociedade, onde o poder por meio de diversos contextos, passa a dominar indivíduos e grupos, o que pode ser considerado como meio de dominação (HAN, 2017, p. 162).

Assim, resta evidente que a violência, e, mais ainda, a simbólica, passa a anular a subjetividade e a alteridade nos indivíduos, o que muito se assemelha ao que Axel Honneth entende por reificação, ou seja, o processo de objetificação e coisificação dos sujeitos, processos que impedem o ser humano de sentir-se “ele mesmo”, anulando aquilo

que o diferencia dos demais. A reificação se dá de forma tão violenta, que o próprio indivíduo é capaz de se objetificar, seja pelo viés de seu trabalho, ou do próprio corpo (HONNETH, 2018).

Destarte, embora nas análises de Lukács a reificação tenha se dado direcionada ao caráter capitalista, em razão do período histórico de suas escritas, ela pode ser vista nas práticas cotidianas de diversas formas, nos momentos onde um ser humano vê o outro como mero objeto, ao passo que não o reconhece como sujeito. Desta forma, o observador não percebe o mundo, e quem está a sua volta como ser humano digno de direitos e cidadania (HONNETH, 2018, p. 86-87).

Por sua vez, Han defende que todas as espécies de violência e de não reconhecimento do outro, derivam do poder e da dominação, e tais processos atingem a sociedade, ainda que alguns indivíduos não possuam tal entendimento, e acabam soterrados pelas variadas formas de coerção social. Neste sentido, seja a violência em sua forma sistêmica, física ou simbólica, ela alimenta os sistemas de poder na sociedade, passando a figurar com um sistema de engessamento, englobando os indivíduos em teias de regras e normas como “presos” do sistema dominante, e por consequência, privados de suas subjetividades e desejos (HAN, 2017, p. 168).

Diz-se, com isso, que a violência simbólica possui tamanha perspicácia e potência, que é capaz de engessar a sociedade e os corpos sem o uso da força (em sua forma física), na medida em que a mera junção entre sociedade e sistema ressignificam práticas dominantes no decorrer da história, por meio de sistemas simbólicos de dominação, os quais em sua maioria são excludentes e negatórios de reconhecimento, de modo que o poder, ainda que de forma invisível, é extremamente eficiente, e têm produzido inúmeras situações de segregação social. Logo, no processo de análise da reificação, Honnet refere que esta deve ser analisada também nas formas cotidianas, mas, igualmente, como economicamente utilizável nas relações sociais (HONNETH, 2018, p. 11).

Na mesma seara da violência simbólica, portanto, os valores morais e culturais ultrapassados, fomentam situações discriminatórias, na medida em que estipulam padrões a serem seguidos para as vivências na sociedade, reduzindo os corpos a condição de meros objetos imersos em um sistema de anulação dos corpos, das sexualidades, da religiosidade, e de outras escolhas possíveis pelos indivíduos. É neste emaranhado de relações que a violência simbólica toma forma e é reproduzida no contexto sociocultural, o que acarreta na necessidade de uma profunda reflexão acerca de tais práticas, a fim de



se caminhar para um modelo de sociedade que não fomente tais situações, tampouco reproduza formas de dominação que busquem objetificar alguns sujeitos e grupos em prol do bem-estar social e moral de outros, contexto em que se inserem as mulheres Trans, as quais muitas vezes são marginalizadas e invisíveis diante de situações de objetificação e negação de suas identidades.

Afinal, esta dominação, e por consequência, uma castração poda de forma violenta desejos e vivências, surgindo muitas vezes como uma “falta de algo”, neste caso, a falta de uma vida com cidadania, liberdade e autonomia. (WARAT, 2004, p. 63). A castração, assim, anula as formas de expressão cotidiana, mirando nas mulheres Trans, as quais se sentem presas a padrões que não desejam obedecer, o que confirma o poder da castração, seja ela simbólica ou palpável, uma vez que este processo engole identidades e vontades em nome daquilo que não á aceito culturalmente. A castração, portanto, “é uma armadilha preparada ao desejo, pelo pavor ao distinto, a tudo que não é conjuntamente verossímil [...].”. (WARAT, 2004, p. 63). O que se busca romper, enfim, são as amarras que pretendem incansavelmente excluir a mulheres Trans dos espaços sociais, por meio de uma gênese de dominação, se buscando, em contrapartida a eliminação de uma unidade identitária que não mais tem espaço na sociedade atual, a qual é visivelmente plural, mas que insiste em se manter como ideal.

Por meio desta mudança de perspectiva em relação às mulheres Trans, e ao diferente como um todo, acredita-se que por meio do “vazio erótico” que nos impulsiona a despojar-nos de todas as couraças, dogmas e vaidades que nos levam ao imobilismo”6, seja possível que, quem diverge dos padrões ora referidos, passe a vislumbrar uma vida com maior liberdade no que concerne ao campo identitário e subjetivo. Defende-se o vazio erótico em razão de que, como preleciona Warat, este nos possibilita enxergar e sentir coisas outras que não nossos dogmas, na medida em que não mais há uma prisão àquilo que estava posto, e sim uma abertura para o que pode ser modificado.





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