Da teoria geral aos novos direitos


O humano, por meio da máquina



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O humano, por meio da máquina

Para além do ser humano híbrido já descrito acima, tem-se que a obra Encarcerados (SCALZI, 2018) trouxe à baila uma outra ilustração mais interessante ainda: após uma pandemia de uma gripe (triste coincidência existente na obra) capaz de deixar o corpo absolutamente inábil, porém, com a mente totalmente funcional (daí o termo, encarcerados), muitas pessoas se viram capazes de voltar à convivência comunitária por intermédio de máquinas, literalmente, robôs controlados por conexões

instaladas diretamente em seus cérebros. De maneira interessante, o escritor construiu uma realidade para além de um ser humano híbrido: um ser humano que só consegue viver e conviver por intermédio de uma máquina.

E, o mais interessante: todas as interações sociais, o exercício de atos da vida civil, e, até mesmo, a vivência da intimidade, eram realizados por intermédio das máquinas idealizadas no romance, as quais, de diversas formas, eram adaptáveis para melhor expressar a personalidade do respectivo dono. Porém, a própria noção de dono da máquina foi progressivamente descontruída na estória: elas permitiam que seu usuário convivesse e exercesse sua afetividade. Ao passo, os mesmos mecanismos de integração cerebral poderiam ser usados para se ligar mental e fisicamente a outros seres humanos específicos (chamados de integradores), que permitiam que os encarcerados sentissem novamente prazeres físicos, dores, dentre outros. A partir dessa ideia, Scalzi (2018) construiu até mesmo uma verdadeira teoria da responsabilidade penal perante aqueles que causassem injusto mal a uma das máquinas (respondendo por homicídio, eventualmente). Em verdade, elimina-se ou confunde-se, em muito, a fronteira entre pessoa e máquina, coisa (res) e pessoa.

E, muito embora essa realidade ainda se afigure distante deste início de Século XXI, de outro lado, não se pode negar que a teorização em questão é riquíssima para se pensar a respeito de normas regentes do uso de tecnologias da atualidade que, controladas remotamente por um ser humano, podem promover interações reais entre este, pessoas e locais, ou, até mesmo, permitir que um ser humano elimine outra vida por meio desses dispositivos (como os drones) (BAUMAN, 2013).

Além disso, em muito se discute como máquinas remotamente tripuladas poderiam promover uma maior integração entre as pessoas e comunidades, permitindo- lhes ver e compreender seu espaço de convivência e vivência sob outras perspectivas. Nesse sentido, há experimentos pelos quais comunidades pobres passaram a compreender melhor os limites e a ter outros olhares sobre seu território e local de convivência (SOTO, 2018), por intermédio do uso de drones artesanais.

Outra questão que se levanta, a partir da obra, é a capacidade de interação e construção de vínculos cada vez maiores por meio de tecnologias da comunicação. Por meio de redes sociais, cada vez mais, a personalidade é (des)construída e exercida, inclusive, com papel determinante no cenário político. Em Encarcerados (SCALZI, 2018), há uma rede exclusivamente criada para as pessoas acometidas pela doença criada no romance, nas quais, até mesmo pessoas que nunca viveram experiências com seus

corpos materiais estabeleciam relações absolutamente diferentes das que hoje se concebem.

Diante disso, questiona-se sobre a legalidade da construção de um personagem paralelo à vida (como os avatares dos dias de hoje), com direitos e bens paralelos ao da pessoa real que os conduz, como, cada vez mais se observa em relação ao mundo paralelo dos jogos e sua economia. Um caso interessante nesse sentido, seria o estudo de questões autorais referentes à banda GorilaZ, cujos componentes são criações virtuais, tendo sido mantida em sigilo, por anos, a real identidade de seus componentes. Certamente, são questões que podem ser muito bem ilustradas e pensadas a partir do romance construído por Scalzi (2018).





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