Cultura africana



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AMARRANDO TECIDOS E DESATANDO PRECONCEITOS: BONECAS 



ABAYOMI COMO ESTRATÉGIA DE ENSINO-APRENDIZAGEM DA HISTÓRIA E 

CULTURA AFRICANA

*

 



 

FERNANDA SOARES DE OLIVEIRA

**

 

 



O presente texto tem por objetivo descrever e refletir sobre uma oficina de bonecas abayomi 

realizada  no  ano  de  2015  numa  escola  de  ensino  fundamental  da  rede  pública  de  Vitória  da 

Conquista-BA.  Ela  se  constituiu  como  uma  das  atividades  promovidas  pelo  projeto  “Jogos 

Africanos:  Ensino  de  História  da  África  e  Cultura  Africana”  realizado  pelo  subprojeto 

História do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID. Tal projeto se 

efetivou como resposta à Lei Federal nº 10.639 sancionada em 2003 e inseriu-se no contexto 

escolar objetivando conduzir os educandos a uma maior compreensão, respeito e valorização 

da história e a cultura africana e afro-brasileira, bem como a promoção de uma maior reflexão 

acerca  da  diversidade  social  e  étnica,  pretendendo  combater  o  racismo,  a  discriminação  e  o 

preconceito  tão  presentes  nas  relações  dos  sujeitos  educativos  e,  portanto,  nas  práticas 

pedagógicas das escolas.  

É evidente que nossa sociedade é marcada pelo racismo e conservadorismo, onde as minorias 

encontram-se  na  base  da  pirâmide  social,  refletindo  assim,  na  discriminação  que  atinge  de 

forma  cruel  negros  e  indígenas.  Isso  se  explica  desde  as  raízes  do  Brasil,  onde  o  evento  da 

colonização  e  suas  repercussões  deixaram  uma  herança  discriminatória  e  etnocêntrica  no 

terreno das mentalidades, com isso, o legado racista se propagou ao longo da história e precisa 

ser combatido diariamente. Munanga (2005, p.15) ressalta que 

Alguns  dentre  nós  não  receberam  na  sua  educação  e  formação  de  cidadãos,  de 

professores  e  educadores  o  necessário  preparo  para  lidar  com  o  desafio  que  a 

problemática da convivência com a diversidade e as manifestações de discriminação 

delas resultadas colocam quotidianamente na nossa vida profissional.  

À vista disso,  notamos  que mediante  a educação,  empreendida  numa perspectiva libertadora 

de tomada de consciência, o panorama do racismo estabelecido em nossa sociedade pode ser 

modificado. Afinal, as escolas são espaços compostos pela diversidade cultural, social, étnica, 

                                                           

*

  Trabalho  fruto  das  ações  do  PIBID/HISTÓRIA  da  UESB,  projeto  financiado  pela  Coordenação  de 



Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

 

**



  Graduanda  do  curso  de  História  pela  Universidade  Estadual  do  Sudoeste  da  Bahia  (UESB)  e  bolsista  do 

programa  PIBID  da  Coordenação  de  Aperfeiçoamento  de  Pessoal  de  Nível  Superior  (CAPES). 



fernandasoaresdeoliveira@hotmail.com

 



 

 



sexual  e  de  gênero  constituindo-se  como  ponto  de  encontro,  bem  como  de  embate  das 

diferenças.  Diante  dessa  realidade  os  educadores  devem  promover  a  reflexão  acerca  das 

diversidades  e  pluralidades,  afim  de  transformar  o  espaço  escolar  em  um  ambiente  de 

desconstrução  de  preconceitos,  prevenção  da  exclusão  social  e  promoção  da  igualdade.  Isso 

deve  ser  realizado  mediante  o  desenvolvimento  de  atividades  e  estratégias  que  estimulem  o 

pensar pluralista, diversificado e transgressor das práticas alienantes e cristalizadas. 

A  lei  10.639  promulgada  em  2003  alicerçou-se  nessa  expectativa,  estabelecendo-se  como 

provedora  de  ações  afirmativas  para  a  inclusão  de  forma  digna  do  negro  na  sociedade.  A 

referida  lei  estabelece  a  obrigatoriedade  do  ensino  de  história  e  cultura  africana  e  afro-

brasileira  nas  instituições  públicas  e  privadas  de  ensino  médio  e  fundamental,  devendo  ser 

contemplada  pelas  disciplinas  de  Literatura,  História  e  Educação  Artística.  Afirma  no  seu 

parágrafo 1º do artigo 26-A que deve ser inserido dentro do conteúdo programático “o estudo 

da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e 

o  negro  na  formação  da  sociedade  nacional,  resgatando  a  contribuição  do  povo  negro  nas 

áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil” (BRASIL, 2003).   

Pirini e Bellé (2011) destacam a necessidade de transmitir e a valorizar as diversas culturas e 

incluí-las  no  currículo  escolar,  desenvolvendo,  assim,  uma  consciência  crítica  em  nossa 

sociedade.  Ressaltam  que  é  preciso  “buscar,  com  o  apoio  da  escola,  caminhos  que  nos 

conduzam a uma situação social mais justa, que contemplem as muitas culturas de nosso país, 

dando  atenção  às  “minorias”,  às  diferenças  de  gênero,  de  classe,  de  raça  e  de  etnia”.  Nas 

palavras de Botelho:  

Aspectos da cultura afro-brasileira precisam ser percebidos e explorados por todos e 

todas  que  participam  do  sistema  educacional  brasileiro,  como  estratégia  para 

minimizar  os  preconceitos,  as  discriminações  e  o  racismo  que  imperam  em  nossa 

sociedade  atingem,  sobretudo,  estudantes  negros  e  negras  de  nosso  país 

(BOTELHO, 2007, p. 178). 

Nosso  sistema  educacional,  bem  como  nossa  sociedade  de  uma  maneira  geral,  seja  pelos 

meios  de  comunicação  em  massa,  seja  pelos  mais  variados  viés,  se  acostumou  a 

supervalorizar  a cultura  europeia e  estadunidense, fechando os olhos para o conhecimento  e 

valorização  das  manifestações  de  cultura  provenientes  de  outros  lugares  do  globo.  Além 

disso,  foi  criada  uma  repulsa  a  tudo  que  diz  respeito  ao  continente  africano,  sejam  seus 



 

 



indivíduos naturais ou descendentes, suas religiões ou suas manifestações culturais. A África 

foi  estigmatizada  e  coberta  de  preconceito,  em  decorrência  disso  os  afro-brasileiros  são 

vítimas  de  discriminação  e  exclusão  social  cotidianamente.  O  educador  deve  trabalhar  no 

sentido oposto, contemplando as culturas não dominantes, apresentando aos discentes aqueles 

que  foram  excluídos  da  história,  afim  de  desenvolver  a  consciência  crítica,  o  respeito  as 

minorias e a valorização da pluralidade de riquezas culturais da humanidade.  

É necessário que esse trabalho seja realizado de maneira didática, afim de que seja absorvido 

pelos discentes. Pensando nisso o subprojeto História do Programa Institucional de Bolsas de 

Iniciação  à  Docência  –  PIBID  realizou  o  projeto  “Jogos  Africanos:  Ensino  de  História  da 

África e Cultura Africana”, delineando diversas estratégias para conduzir os educandos a uma 

maior  compreensão,  respeito  e  valorização  da  história  e  a  cultura  africana  e  afro-brasileira, 

bem  como  a  promoção  de  uma  maior  reflexão  acerca  da  diversidade  social  e  étnica,  e  a 

desconstrução de qualquer tipo de preconceito e discriminação.  

Dentre as estratégias adotadas pelo projeto para alcançar as metas traçadas podemos destacar 

o desenvolvimento de trabalhos de movimentação corporal, como teatro e dança; a realização 

de aulas oficina ministradas pelas bolsistas; a exibição de filmes e comentários realizados por 

professores  convidados,  onde  os  educandos  puderam  ver  a  África  através  das  lentes 

cinematográficas e posteriormente escrever sobre essa experiência; o estudo, experimentação 

e torneios de jogos de tabuleiro provenientes do continente africano, bem como a confecção 

artesanal  desses  tabuleiros;  a  produção  de  histórias  em  quadrinhos  e  de  bandeiras  de  países 

africanos;  a  realização  de  um  sarau  de  poéticas  e  cantares  africanos,  onde  os  discentes 

estudaram sobre poetas naturais de países da África e poetas negros do Brasil e declamaram 

suas  poesias;  a  realização  de  uma  oficina  de  bonecas  de  pano  abayomi;  entre  outras 

atividades. Neste texto nos atentaremos para a descrição e reflexão dessa última. As ações do 

projeto  foram  atreladas  à  ludicidade,  onde  recorremos  aos  jogos  e  a  arte,  em  suas  variadas 

expressões,  para  atrair  a  atenção  dos  estudantes,  levando-os  a  refletir  questões  mais 

complexas.  

A  oficina  de  bonecas  abayomi  foi  uma  das  estratégias  didáticas  adotadas  pelo  projeto  por 

constituir-se  elemento  nato  da  África,  apresentando-se  como  um  recurso  válido  e  precioso, 

pois  valoriza  a  cultura  africana  e  contribui  para  o  reconhecimento  da  cultura  afro-brasileira, 




 

 



uma  vez  que  faz  parte  da  herança  cultural  dos  negros  africanos  para  o  Brasil.  Costa; 

Rodrigues; Santos e Silva (2015, p.2) ressaltam que 

Essas  bonecas  que  são  feitas  de  pedaços  de  tecidos  preto,  constituem  uma  ação 

didático–pedagógica que pode permear pelos caminhos da História num trabalho de 

construção e/ou resgate de identidades culturais, uma vez que, parte do princípio da 

ruptura de conceitos estéticos hegemônicos.  

Abayomis  são  bonecas  negras  produzidas  com  materiais  reaproveitados,  como  tecidos  e 

malhas. Sua técnica de confecção consiste na amarração de tecidos com nós e/ou tranças sem 

uso  de  cola,  costura  ou  qualquer  estrutura  rígida  interna  (madeira  arame,  etc.).  Nas 

indumentárias  as  fitas,  bordados,  restos  de  bijuterias  e  miudezas,  garantem  o  requinte  do 

acabamento. A boneca não possui demarcação de olho, nariz, nem boca, afim de favorecer o 

reconhecimento da identidade das múltiplas etnias africanas.  

Para alguns estudiosos a boneca Abayomi teve origem nos navios negreiros, onde as mulheres 

rasgavam  parte  de  suas  vestes  e  confeccionavam  pequenas  bonecas  somente  com  nós  para 

acalentar  as  crianças  durante  as  terríveis  viagens,  servindo  também  como  amuleto  de 

proteção. A palavra abayomi tem origem yorubá e significa encontro precioso: abay=encontro 

e  omi=precioso,  podendo  também  significar  aquele  que  traz  felicidade  ou  alegria.  O  ato  de 

presentear alguém com uma abayomi é revestido de uma simbologia, denotando que a pessoa 

que a presenteia está oferecendo ao outro o que tem de melhor. 

A  despeito  da  narrativa  supracitada,  a  origem  documentada  das  bonecas  abayomi  se  dá  em 

1988  com  a  artesã  Waldilena  Martins,  educadora  popular,  militante  no  Movimento  de 

Mulheres  Negras.  Ela fundou, juntamente com  outras  mulheres, uma Cooperativa Abayomi, 

afim de dar ênfase ao resgate da identidade negra, fazendo da arte popular um instrumento de 

conscientização,  resistência  e  sociabilização.  O  objetivo  da  cooperativa,  como  ressaltam 

Escobar e Gottert (2010, p.2), é “estimular as relações de cooperação e generosidade, para o 

fortalecimento  da  auto-estima  e  reconhecimento  da  identidade  afro-brasileira  de  negros  e 

descendentes, buscando superar as desigualdades de gênero e integrando a memória cultural 

brasileira”. 

As  bonecas  Abayomi  abarcam  uma  questão  mais  ampla  que  a  arte  ou  o  artesanato,  como 

destacam Escobar e Gottert (2010, p.1-2) “Abayomi não é uma pessoa ou apenas uma boneca 




 

 



de pano, não é somente uma técnica ou simplesmente uma teoria, ela  é movimento daqueles 

que  com  ela  conhecem  e  interagem  com  a  sua  própria  história  e  a  do  seu  povo”.  Ou  como 

aponta a artesã e militante Lena Martins (2010), as abayomi são “uma bandeira poética”.  

Ensinamos  arte  não  meramente  para  capacitar  crianças  a  fazerem  quadros 

artisticamente [ou para confeccionar bonecas de pano, somente], ou para determinar 

se um objeto é suficientemente bom para justificar a apreciação e o reconhecimento, 

mas, sim, para capacitar os estudantes a penetrar, sondar, compreender uma obra de 

arte. A compreensão é atingida por meio da interpretação, na qual a obra é vista em 

relação ao contexto em que está situada (EFLAND, 2005, p. 187).  

Além dos aspectos supracitados, a proposta de trabalho com as bonecas abayomi rompe com 

conceitos  hegemônicos  e  estabelece  um  diálogo  com  a  Nova  História,  cuja  tendência  é 

conhecer  a  história  dos  indivíduos  comuns  que  são  costumeiramente  marginalizados  das 

narrativas  históricas.  Sob  o  prisma  da  Nova  História,  a  didática  vai  além  dos  textos 

convencionais, possibilitando que a História seja trabalhada em sala de aula de forma lúdica, 

rompendo com os grilhões da linguagem tradicional. Ernesta Zamboni (1998) enfatiza  

a  existência  de  inúmeras  outras  linguagens  que  produzem  também  outras 

representações  utilizadas  em  sala  de  aula  e  que  são  diretamente  voltadas  para  a 

produção  e  compreensão  do  conhecimento  histórico,  principalmente  em  uma 

sociedade  imagética  como  a  nossa,  caracterizada  pela  comunicação  de  massa,  pela 

força das imagens produzidas para e pela televisão. 

Diante  do  exposto,  notamos  a  necessidade  de  inserção  de  novas  metodologias  na  prática 

docente,  e  a  proposta  de  trabalho  com  a  boneca  abayomi  é  uma  alternativa  eficiente  para  a 

satisfação dessa  carência, em  especial no que tange o ensino de história  e cultura africana  e 

afro-brasileira,  sendo  que  esse  foi  lançado  à  margem  dos  discursos  históricos  pela 

historiografia  tradicional.  Além  do  mais,  é  importante  destacar  que  as  bonecas  abayomi 

contribuem  significativamente  para  a  construção  de  uma  aprendizagem  prazerosa,  onde  o 

lúdico  constitui-se  como  uma  ferramenta  eficaz  para  a  participação  interativa,  ultrapassando 

as atividades rotineiras e muitas vezes maçantes das escolas. 

É por este motivo que, trabalhar as relações étnicas raciais por meio da construção 

das bonecas abayomi, abre possibilidades para novas situações pedagógicas em que 

o  aluno  possa  construir  valores,  transformar  pensamentos  discriminatórios,  sem 

imposições.  Construir  seus  conhecimentos  e  acima  de  tudo  exercer  seus  atos  de 

cidadania,  compreendendo  que  somente  pelo  respeito  ao  próximo  criará  novos 

significados para transpor barreiras que ainda persistem nos espaços escolares acerca 

das relações étnicas raciais. (CRUZ; SILVA, 2012, p.4) 



 

 



A oficina de bonecas abayomi promovida pelo projeto  “Jogos Africanos: Ensino de História 

da  África  e  Cultura  Africana”  foi  aplicada  nas  turmas  do  ensino  fundamental  II  no  ano  de 

2015  no  Centro  Municipal  de  Educação  Professor  Paulo  Freire  (CAIC)  pelos  bolsistas  e 

professora  supervisora  do  subprojeto  História  do  Programa  Institucional  de  Bolsas  de 

Iniciação  à  Docência  (PIBID)  da  Universidade  Estadual  do  Sudoeste  da  Bahia  (UESB), 

campus de Vitória da Conquista.  

O projeto ofereceu também outras oficinas, como teatro, dança, paródias/músicas e histórias 

em quadrinhos. Os educandos foram distribuídos entre elas de acordo com suas preferências. 

Inicialmente  os  meninos  demonstraram  resistência  ao  se  inscrever  na  oficina  de  bonecas 

abayomi,  provavelmente  por  conta  dos  receios  e  preconceitos  incutidos  na  sociedade  pela 

cultura  sexista,  onde  boneca  é  considerada  “coisa  de  menina”.  A  separação  dos  brinquedos 

por gênero é uma prática que pode afastar as crianças de muitas experiências enriquecedoras e 

importantes para sua formação humana, além de acarretar no reforço estereótipos machistas. 

A resistência inicial dos meninos para com a oficina de bonecas abayomi foi quebrada a partir 

do  momento  em  que  o  primeiro  garoto  se  inscreveu,  sendo  que,  incialmente,  só  haviam 

meninas  inscritas,  mas  o  fato  de  um  garoto  ter  demonstrando  interesse  foi  contagiante  e 

encorajador para os demais, sendo que o quadro mudou completamente a partir de então. 

A  oficina  foi  realizada  primeiramente  com  os  alunos  do  8º  ano  do  ensino  fundamental,  em 

seguida foi a vez dos educandos do 9º ano, afim de não tumultuar o ambiente com um número 

muito grande de discentes. A dinâmica adotada consistiu de leitura inicial de um texto  a fim 

de explicar a história das bonecas abayomi. Em seguida, foi realizada uma discussão com os 

estudantes  acerca  do  sentido  da  atividade  dentro  do  projeto  “Jogos  Africanos:  Ensino  de 

História  da  África  e  Cultura  Africana”.  Logo  no  início  já  pudemos  notar  uma  grande 


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