Coronavirus e transculturalidade



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CORONAVIRUS E TRANSCULTURALIDADE

A pandemia da Covid-19 não deixa o comum dos mortais indiferente seja ele analfabeto, educado, rico ou pobre. Já constitui uma malha do tecido existencial do ser humano. A vulnerabilidade da humanidade face ao coronavírus interpela os cientistas a reconsiderar o modo de construção dos raciocínios modernos no qual foi montada a arquitectura da globalização. A OMS e os cientistas da vida já deram o que podiam dar até então na justificação dos procedimentos de mitigação e controlo da pandemia. No entanto, com a propagação generalizada do novo coronavírus, urge a necessidade de dar um olhar epistemológico na abordagem que os uns e os outros adotaram no processo de gestão da pandemia. A problemática que levantamos aqui é uma questão remota que por vezes sofre o veto do tabu nas tribunas oficiais: a colonização.

O século XIX foi marcado por um movimento expansionista das grandes potências europeias que ocuparam territórios “virgens” na África e na Ásia principalmente. As razões desta expansão foram múltiplas: a supremacia militar e económica da Europa naquela altura, o nível muito alto da instrução pública (em 1914 a Europa granjeou muitos prémios Nobel), a busca da matéria-prima para a produção industrial maciça ou a procura de mercados para o escoamento dos produtos industriais. Mas, esta lista seria incompleta se omitirmos mencionar a missão civilizadora da colonização:

« L’essor scientifique du XIXe siècle et l’accumulation des découvertes entraînèrent dans la population européenne une véritable foi dans la science et le progrès. Elle était persuadée que le devoir des Européens était de faire profiter de ces bienfaits les populations attardées qui croupissaient encore dans l’ignorance » (Bernard Phan 1999).

Esta missão civilizadora incluía a educação, a saúde e a religião. Naturalmente, a colonização torna-se nesta perspectiva um assunto altamente cultural em que dois esquemas culturais se cruzam em terra colonizada: as representações culturais dos autóctones e a cultura nova. A partir deste momento, as colonias entram num período de dominação cultural estrangeira durante a qual foram obrigadas a “esquecer” os seus valores culturais intrínsecos para adotar os das potências colonizadoras. Dai que, surgiu a instrução pública que conhecemos hoje e o sistema sanitário moderno que temos hoje em África. De salientar, que foi também a missão civilizadora da colonização que introduziu na África a cultura cristã de um Deus Todo-Poderoso que deixou instruções muito claras à humanidade sobre como lidar com o seu quotidiano num Livro Sagrado intitulado, A BÍBLIA SAGRADA.

La caractéristique d’une culture est d’être ouverte, parcourue de lignes de force spontanées, généreuses, fécondes “. (Fanon 2001, p. 46).

No entanto, a real condição cultural do autóctone ficou muito mais enriquecida do que pensamos. Ao lado da língua da colonização por exemplo, desenvolveu-se a língua materna (isto é o falar da população indígena). Se considerarmos o ex-império colonial português, além do Português, os ex-colonizados fazem uso das suas línguas maternas (contrariamente a Portugal que tem apenas o Português no seu repertório linguístico). O mesmo modelo foi desenhado no sistema sanitário. Além da medicina moderna legada pela colonização, continuou-se o desenvolvimento paralelo da medicina tradicional que chamamos vulgarmente de “medicina da avó”. Este dispositivo é explicitamente visível no continente asiático: na China ou na Índia por exemplo, existe uma dualidade sanitária que se completa perfeitamente: a medicina moderna e a medicina tradicional que migrou em conhecimento científico transmissível nas cadeiras universitárias. Em África, esta mesma medicina tradicional carece de estudos científicos com objectivo de codifica-la e enriquece-la, de forma a termos num futuro próximo alguns Institutos de medicina tradicional africana de referência.

Por outro lado, a África tornou-se o continente mais religioso. Após a fase de evangelização intercontinental inaugurada pela Europa durante a colonização, a mesma atravessou um deserto metafísico que abalou a fé cristã no continente europeu. A crise moral que conhece a Europa atualmente é um derivado do ateísmo voluntário do continente. A fé viva se encontra neste seculo XXI no continente africano, de tal modo que temos uma missão civilizadora para com o continente Europeu. Faltar de retribuir à Europa o que nos ensinou enquanto éramos ainda “primitivos” é falhar ao dever histórico.

Sobre este alicerce epistemológico, vamos aqui emitir a nossa opinião sobre como encarrar a pandemia da Covid-19 na África e principalmente em São Tomé e Príncipe.



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