Conversas1



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        1. CONVERSAS1...


Profa. Dra. Andréa Serpa

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.


Entretanto são palavras simples:
definem partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença dos séculos.


E tudo é proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade
Quando nos aventuramos pelos tortuosos caminhos de pesquisar com o cotidiano, e não sobre ele, enfrentamos muitas encruzilhadas, algumas armadilhas e certos desafios. Negarmos a “coisificação” que transforma os sujeitos em objetos e a arrogância que transforma o pesquisador em soberano defensor do estatuto da verdade produzida por uma realidade única e inexorável, nos obriga a enfrentar que mergulhamos em um rio de águas profundas sem saber exatamente o que esperar do que vamos encontrar. As águas são turvas, as correntezas imprevisíveis e as certezas que usamos como salva-vidas, muitas vezes não nos salvam, ao contrário, algumas vezes até nos arrastam para o fundo.

Ao compartilhamos nossas trajetórias, experiências e reflexões com os outros sujeitos com quem vamos produzindo a pesquisa estes se tornam também narradores, parceiros na pronúncia do mundo. Contudo, dizê-lo é muito mais simples do que fazê-lo.

Partilhar as experiências, assim como as narrativas e as reflexões produzidas coletivamente pressupõem assumir uma escrita sobre a qual, ao registrarmos, podemos ter certa autoria, mas não o controle. Significa produzir um texto onde as vozes não sejam apenas um ponto de apoio, as escoras, onde vou erguer o prédio de minha sabedoria, sob as quais vou erguer minhas argumentações e verdade, mas exatamente o contrário, são vozes que nos desequilibram, nos convidam para o embate e para o debate. Significa produzir um texto marcado pelo movimento de vozes que se atravessam, e ao se atravessarem provocam umas nas outras mudanças de rumo, mudanças de perspectivas. Que ao se atravessarem vão formando uma trama que não se submete ao nosso desejo cartesiano de desfiar o real para encontrar-lhe as pontas e assim arrumá-lo em nosso carretel. Vozes que ao se cruzarem e ao se encontrarem, provocam novas experiências umas nas outras, deixam marcas.

Sujeitos que, como nos aponta Bhabha, encontram-se muitas vezes em antagonismo ou contradições, não apenas em relação uns aos outros, mas a si mesmos, pois como eu, são constituídos de muitas vozes, tempos e espaços diferentes, histórias que podemos até reescrever, mas que deixam ranhuras, marcas, textos ocultos inscritos em nós. Sujeitos que são desafiados a produzir juntos e pensar juntos encontram-se – um encontro raramente harmonioso e tranquilo – neste espaço da tradução e da negociação. Traduções que tantas vezes nos traem, negociações nem sempre possíveis. No encontro com o outro, eu sujeito plural, polifônico, muitas vezes reconheço partes adormecidas ou ignoradas de mim mesmo, e assim posso refletir sobre elas. O outro se apresenta como um espelho que reflete, muitas vezes, as partes invisíveis de mim. A dialogicidade aqui compreendida é composta, não apenas pelo enfrentamento e/ou negociação entre diferentes lógicas externas, mas pelo enfrentamento/negociação entre diferentes lógicas internas que nos compõe e dialogam com diferentes lógicas internas que compõem os outros sujeitos. Não apenas duas lógicas que se contrapõem, mas sujeitos ambivalentes, compostos por muitas lógicas, que se contrapõem. Na conversa, o deslizar entre estas lógicas.

Neste encontro, esta negociação entre diferentes lógicas e desejos, percepções e medos, levaram-me a buscar aprofundar minhas reflexões sobre a conversa como noção (conceito ou princípio) potencial, e como uma necessidade de coerência teórico epistemológica, para desenvolver uma pesquisa com o cotidiano. Contudo preciso dizê-lo, não tenho a pretensão – nem Bakthin me permitiria – de ser inaugural.

A conversa como metodologia de retrorreflexão vem sendo utilizada por alguns grupos que buscam nesta prática criar um lugar de encontro onde os sujeitos possam reinventar a si e a suas realidades através da palavra compartilhada.


As rodas de conversa, metodologia bastante utilizada nos processos de leitura e intervenção comunitária, consistem em um método de participação coletiva de debates acerca de uma temática, através da criação de espaços de diálogo, nos quais os sujeitos podem se expressar e, sobretudo, escutar os outros e a si mesmos. Tem como principal objetivo motivar a construção da autonomia dos sujeitos por meio da problematização, da socialização de saberes e da reflexão voltada para a ação. Envolve, portanto, um conjunto de trocas de experiências, conversas, discussão e divulgação de conhecimentos entre os envolvidos nesta metodologia.(http://www.agb.org.br/XENPEG/artigos/Poster)
Onde se inicia a pesquisa com o Cotidiano? Quando se inicia? Os caminhos de minha pesquisa foram feitos de muitos começos, tantos que percebi que a pesquisa não foi feita de começos, mas de muitos e infinitos meios: fragmentos da vida da escola, acontecimentos e falas recolhidas aqui e ali, desabafos no café, professoras que adentram minha sala e meus pensamentos com suas angústias e alegrias, com suas dúvidas e descobertas, festas, decretos, provas, bilhetinhos...

Um destes muitos começos/meios foram às conversas entre o grupo de professoras alfabetizadoras de minha escola, que despertaram a mim, assim como a outras pesquisadoras do Grupalfa, para a potencialidade daquelas conversas como uma das formas possíveis de investigarmos com o cotidiano. Uma metodologia que se produz com os sujeitos e suas vozes em um movimento dinâmico e imprevisível. A cada nova palavra, a cada novo acontecimento, a cada nova experiência ressignificado na palavra do outro a pesquisa abria-se para uma nova trilha. Caminhos abertos pela conversa...

Caminhos que nos impõe certos desafios. Como produzir um texto de pesquisa onde as vozes dos sujeitos sejam respeitadas em sua diferença e não reduzidas por mim aos meus interesses? Ao assumirmos que não acreditamos, na existência da neutralidade, nem na pesquisa, nem no autor que a narra, como produzir um texto onde as contradições e as ambivalências presentes nos sujeitos e em mim não sejam invisibilizadas, para produzir um texto “limpo” de nossas incongruências, mas ao contrário, o precioso material de nossa investigação, reflexão e produção de um conhecimento coletivo? Isso é possível? É possível uma pesquisa que siga o ritmo vertiginoso, os caminhos tortuosos do pensamento vivo em seu movimento? Dizer, pensar, redizer, repensar... Afinal do que se trata nossa pesquisa?

Trata-se, isto sim, de modos de fazer cotidianos, artes outras que a racionalidade dominante, carregada de emoções, intuições, imaginação criadora e de outra racionalidade, que combinam possibilidades geradoras de inúmeras alternativas capazes de desenvolver trajetórias impossíveis de pra determinar, porque caóticas, e, por consequência, auto-poéticas, imprevisíveis, diferentes a cada momento, só se deixando ver por quem aprendeu a ver para além do instituído.(Garcia, Alves. 2006).
Para uma concepção de ciência que pretende apreender o “todo”, não. Para uma ciência que pretende dissecar este todo em partes desarticuladas, não. Mas para uma ciência que se interessa pelas relações complexas, pelo pensamento que vai se produzindo na pronúncia da palavra compartilhada, talvez. Talvez seja possível aprender com a palavra que flui, com a palavra que ainda não foi sacralizada, aprender com o que ainda é semente, com o que ainda esta em produção no interior de cada sujeito, aprender com o latente. Talvez seja possível aprender também com as nossas dúvidas e silêncios. No entanto, não é possível aos pesquisadores e pesquisadoras com o cotidiano vencer este desafio – nem muitos outros – sozinhos(as).

Na produção da pesquisa com o cotidiano acredito que seja fundamental a prática da orientação coletiva. O diálogo produzido no espaço da orientação coletiva, tanto com as orientadoras/orientador e seu grupo de orientandos, quanto – como acontece no Campo de Pesquisa com o Cotidiano da UFF – com todas as doutorandas/doutorandos do campo, é primordial para apresentar a pesquisadora/pesquisador novas possibilidades de leitura e interpretação de suas experiências, ampliando as possibilidades de compreensão e reflexão sobre os acontecimentos vividos, sobre as entrevistas, sobre os caminhos da pesquisa.

A interlocução, tanto com os sujeitos da pesquisa, quanto com os autores, professoras, professores e colegas, servem de bússola – pois quando estamos perdidas nos indicam caminhos possíveis – de combustível – pois quando estamos cansadas nos potencializam com novos desafios – e de alimento – pois quando nos sentimos vazias nos enchem de outros saberes. Na leitura do outro me encontro e também me perco, o outro tantas vezes me exige um exercício de paciência e humildade, de escuta e compreensão nem sempre fácil, mas assim me ressignifico, me compreendo, me desafio. Nos olhos do outro, dos muitos outros, o leme da ética, do respeito, da seriedade que a pesquisa, seus sujeitos e lugares merecem.

Sempre acreditei no diálogo como o lugar onde os sujeitos, que se assumem como narradores, compartilham experiências. Estes aspectos – a experiência, a narrativa e o diálogo – são para mim indissociáveis e complementares, os fios que formam o tecido da pesquisa, e assim como acredito, do processo de ensinoaprendizagem também.

As experiências que constituem os sujeitos ao serem narradas permitem que estes sujeitos interajam criando representações de si mesmos e do mundo. O diálogo surge como o lugar onde é possível tecer o encontro entre as diferentes experiências e narrativas, assim como, refletir sobre estas, nos diferentes espaçostempos em que se encontram e se desafiam. O confronto entre as diferentes experiências que nos constituem e a partilha de diferentes narrativas faz do encontro entre os sujeitos uma prática potencialmente educativa.

Explorar a potencialidade desse encontro, compreendendo as relações entre a produção das experiências, narrativas e diálogos como os fios com os quais acredito se produzam as pesquisas e as práticas pedagógicas significativas, vem se constituindo um desafio em busca dos sentidos do meu fazer/ser professora/pesquisadora. Com estes fios vou tecendo minha pesquisa, meu texto, minha prática. Muitos outros se apresentam ao longo da produção desta escrita, contudo, quero neste momento pensar como estes três conceitos se articulam e me permitem pensar os caminhos da pesquisa – e sua escrita – com o cotidiano.

Para Benjamim2 a experiência é a fonte onde os narradores bebem. Experiências que vão se constituindo tanto no conhecimento adquirido ao longo de anos de permanência em certo lugar, como naquelas adquiridas no caminhar pelo mundo. Podemos refletir então que, se nossa narratividade encontra, por um lado, um terreno fértil nas experiências que a proximidade, que a familiaridade e o conhecimento histórico sobre certo lugar nos permite, brota também, por outro, nas experiências adquiridas no caminho, no vagar – e vagabundear – pelo mundo. Olhar do nativo e do estrangeiro. Olhar antigo, olhar amigo, olhar do novo, olhar de novo. Olhar os minúsculos fios que tecem a trama, assim como a paisagem tecida que só com a distancia podemos perceber.

Narrar é a possibilidade de compartilhar essas experiências. Acreditar na possibilidade de que essas experiências entre nossos olhares nativos e estrangeiros – e penso que, de certa forma, sempre possuímos ambos – possam ser dividas e multiplicadas.

Fiel a este princípio minha proposta inicial para a formação do grupo de pesquisa para discutir Avaliação no CIEP Compositor Donga foi: diante de tantas preocupações e questões comuns, reunirmo-nos para debatê-las em busca de uma maior compreensão sobre nossas práticas, sobre nossos fazeres, sobre nossos sucessos e fracassos. As professoras que compuseram inicialmente o grupo são professoras que de alguma se oferecem à conversa, que expressam continuamente o desejo de querer refletir coletivamente sobre as questões de nosso fazer pedagógico, professoras que compartilharam – em 2008 – o desafio de assumirem a “classe” de alfabetização. Essa conversa foi dirigida as professoras que de alguma forma, ao longo de nossa convivência, demonstraram inquietações, angústias, desejos de conversar, e o convite foi estendido à equipe técnico pedagógica da escola por uma questão ética de respeito as profissionais que coordenam os processos. Permaneci no exercício de sedução para que o grupo se ampliasse e outras professoras participassem de nossas conversas, já que aconteciam no espaçotempo destinado ao nosso centro de estudos integral3. Infelizmente, por muitos e diferentes motivos, que podemos apenas conjecturar, isso não aconteceu. O que move alguns sujeitos a desejarem participar do diálogo e o que os paralisa? Porque algumas aceitaram com entusiasmo a possibilidade de conversar sobre questões que as mobilizam no dia-a-dia, enquanto outras professoras – que vivem angústias parecidas – e até mesmo a própria coordenação pedagógica da escola esquivou-se do debate? Não tenho as respostas para estas questões. Milhares são os fios que tecem nossos desejos e os nossos receios.

A primeira conversa, no café, no corredor, no tempo roubado, emprestado aqui e ali, foi individual, com cada professora, para explicar que eu entendia a pesquisa como uma prática indissociável de nosso caminhar coletivo. Expliquei a cada uma que por nossa história recente na rede e no país, meu interesse tem se voltado para as questões relativas à avaliação e seu atravessamento em nossas práticas diárias, por isso neste primeiro momento estava propondo que este fosse o foco do grupo, que iria à medida que fôssemos caminhando, definindo coletivamente quais questões seriam fundamentais ao nosso debate, quais eram – para além das minhas – as nossas questões.

Foi interessante notar que apesar do foco estar previamente negociado, nossas ideias fugiam de nós nos levando para aqueles lugares onde nossos sentimentos nos mantinham ancoradas: a dor de nosso trabalho não reconhecido, a insegurança diante do olhar (e do julgamento/avaliação) dos outros; nossos saberes não valorizados; os saberes de nossos alunos que não valorizávamos, ou aqueles que mesmo quando valorizávamos não sabíamos como expressar; a alegria do sucesso; a necessidade de nos dizermos, de nos mostrarmos, de nos pensarmos. A necessidade de nos tornarmos senhoras de nossa palavra, de nos enunciarmos e anunciarmos, de nos tornarmos sujeitos na pronúncia do mundo, do nosso mundo. Comecei ali a me dar conta de que a conversa não seria prisioneira de meus interesses ou questões. Que assumir a conversa seria assumir seguir por onde a palavra nos guiasse, e humildemente, aprender com ela. Claro que não segui mansamente por esse caminho. Tentei resistir. Vigiar o “foco” para que não nos perdêssemos em nossos bate-papos. Com o tempo percebi que não nos perdíamos, ao contrário, nos encontrávamos com nossa própria palavra. Com nós mesmas.

Sentadas em semicírculo, enquanto conversávamos sobre nossas experiências, as linhas que separavam os diferentes espaçostempos onde nossas trajetórias foram se constituindo e produzindo saberes sobre “a” escola e sobre a “nossa” escola, foram se diluindo, se cruzando e se complementando. Nas memórias compartilhadas, sobre nossos tempos de escola, sobre as escolas que frequentamos e sobre as escolas que produzimos, nos aproximamos e nos afastamos, ora falamos de uma escola que nos é próxima, conhecida, familiar, ora tecemos nossas críticas, pontuamos como estrangeiras, as suas contradições e incongruências. Ao nos movermos para diferentes espaçostempos nossas identidades deslizam para outras escolas, para outro tempo, onde habitávamos este lugar – institucional – não apenas como professoras, mas também, como alunas.

Ao compartilharmos estas experiências, selecionadas por nossas memórias, percebemos que não mais poderíamos tecer as generalizações, que tantas vezes fazemos, sobre as práticas pedagógicas – assim como o julgamento moral de sua perversidade ou virtude – de forma tão linear ou simplória, pois os sentidos que estas práticas adquiriram para nós, eram absolutamente diversos. Memórias de práticas similares – presentes em vários cotidianos escolares – adquiriram sentidos diversos e produziram lembranças e relações diversas com “a” escola. Nossas memórias nos falavam de “escolas”.

A importância deste movimento, de investigar nossos saberes produzidos pela familiaridade, pela proximidade com a escola, assim como investigar nossas memórias sobre nossas experiências com a escola, nos possibilitam tecer numa mesma narrativa as duas formas de experiência apontadas por Benjamim.

Se Benjamim nos convida a pensar sobre a relação entre narrativa e experiência, Larosa nos provoca com a dimensão que a palavra (conceito) experiência possa adquirir.

Vivemos em um espaçotempo que se autoproclama “era da comunicação”. E de fato os meios de comunicação foram uma das revoluções mais significativas em nosso modo de vida nas últimas décadas. Os meios de comunicação aproximaram o mundo. (Aproximaram? Que múltiplos sentidos podem ser lidos nesta palavra? O que ela revela, o que ela esconde?).

Sofremos uma avalanche diária de informações, e enquanto o espaço parece se expandir ao infinito o tempo parece se reduzir no sentido contrário. Vivemos muitas coisas ao longo de nossos dias, e as vivemos com tamanha velocidade que rapidamente desaparecem sem deixar grandes vestígios em nós. Em outras palavras, a multiplicidade e velocidade com que vivemos os acontecimentos não permitem, geralmente, que se constituam como experiências. Eles passam por nós, mas em nós não se fixam, em nosso peito não fazem morada, não são digeridos, não são absorvidos e, portanto, não nos transformam.

Uma experiência deixa marcas. Uma experiência muda nossos rumos, nossos sonhos, nossas vidas. Uma experiência também surge como uma porta que se abre e nos apresenta novas possibilidades de caminhos. Nossas experiências são a essência de nossas narrativas. Podemos contar ou descrever uma vivencia, um fato, um acontecimento. Mas quando narramos uma experiência, convidamos outros seres humanos a compartilharem conosco de nossa humanidade. Narrar uma experiência é abrir-se ao encontro. E talvez, seja exatamente este encontro que percamos na troca diária e desesperada de milhares de informações, tantas vezes inúteis.

As experiências a quais nos referimos, portanto, são aquelas que não são esquecidas, não são embotadas pelo tempo, ao contrário, são aquelas que quanto mais narramos, quanto mais revisitamos, mais se expandem em nós, mais nos produzem como sujeitos. São aquelas que quanto mais compartilhamos, mais significados encontramos, mais cresce em nosso peito e mais fundo nos marca a alma. São aqueles nossos alunos que nos ensinam a ser professoras, com quem sempre aprendemos algo, quando invadem nossas lembranças nos provocando um meio sorriso, uma meia tristeza...

Estas experiências, ao serem narradas, compartilhadas com outros sujeitos, às vezes são envoltas por uma aura de cumplicidade e respeito, onde mesmo ideias contrárias, se permitem ouvir com atenção. A experiência dota a narrativa de certa legitimidade e profundidade que a informação fortuita raramente possui. O narrado talvez não seja compatível ou mesmo simpático à minha “verdade”, mas ao ser narrado com verdade, ao ser ouvido com verdade, permite que eu perceba quantas verdades existem mundo a fora, permite que eu repense, que eu reflita sobre as minhas “verdades”. Um encontro nem sempre possível, encontro, tantas vezes, raro. Por isso um momento importante quando acontece. Mas um encontro que vem acontecendo em muitas escolas, que vem sendo vivenciado por muitas professoras-pesquisadoras, por muitas pesquisadoras-professoras que juntas vem aprendendo o poder transformador da palavra compartilhada, como narra a professora-pesquisadora Mitsi Lacerda:


Foi Renata quem me fez pensar nisso. Ela é uma das participantes de nosso grupo de professoras ontem contamos e refletimos as histórias de escola. Fez-me pensar nisso quando disse “as coisas que eu falei no grupo já não falaria hoje, e as hipóteses que eu apresentei também não seriam as mesmas. Hoje eu penso diferente”. (Lacerda, 2002).
A nossa escola, enquanto instituição, foi fundada sob os pilares do racionalismo. Enciclopédica e bancária quantas aulas ainda hoje não passam de um desfile de conhecimentos desconectados, desarticulados e sem sentido? O tecnicismo, amplamente desenvolvido nos anos de chumbo e que agora vem mostrando novo fôlego e vitalidade, ressurgindo com novas roupagens em várias propostas dos gestores em Educação de vários municípios, vem sustentado na crença de que o ser humano se desenvolve – adquire conhecimentos que o transformam qualitativamente – através da aquisição dessas informações.

Contudo, se nossa razão é capaz de adquirir e processar informações, estas por si só, não serão suficientes para produzir uma transformação dos sujeitos em sua relação com o mundo. E é exatamente neste ponto que a experiência faz toda a diferença. Na experiência conhecer, viver, sentir, perceber, tornam-se elementos indissociáveis na produção do saber. Conhecer não basta. Identificar, diferenciar, reconhecer, e todos os verbos que “aprendemos” a utilizar para pré-fabricar nossos “objetivos”, não bastam. É preciso sentir. É preciso ser afetado pela vida do outro, pela narrativa do outro, pela experiência do outro. É preciso tornar-se senhor de sua própria palavra, narrá-la e ressignificá-la a cada narrativa. E é preciso escrever este (inter) texto com o outro.

Acredito, portanto, que a produção de saberes acontece na partilha das experiências, na dialogicidade do ato de ensinaraprender, e que “tentar” racionalizar o conhecimento, apagando as marcas de nossa subjetividade, de nossos sonhos e desejos, de nossos medos e crenças, produz – entre muitos outros, é verdade – um certo tipo de conhecimento escolar pelo qual todos nós, de uma forma ou outra, passamos: um conhecimento que passa por nós, nos atravessa, sem em nós inscrever marcas mais profundas, sem em nós encontrar sentidos. Um conhecimento que muitas vezes nos permite marcar as respostas “certas”, mas não a nos comprometermos com elas. Conhecer (e diferir, reconhecer, relacionar, etc.) é fundamental para saber. Mas só conhecer não basta, é preciso produzir saberes, e este, assim como entendo, acontece na relação dialógica com o outro e na relação dialética com o mundo.

Ao pesquisarmos assumimos uma postura dialógica diante das enunciações do outro e de nossas enunciações. O que dizemos, o que o outro diz, nossas experiências, as experiências dos outros, nossa narrativa, a narrativa dos outros estão em constante movimento. E é exatamente isso que a professora Renata anuncia: o movimento de seu pensamento frente ao movimento do pensamento dos outros. Encontramos, não raramente, em livros produzidos a partir de diálogos, de conversas entre sujeitos que compartilham o mesmo ofício, espaço ou sonho, momentos em que um dos interlocutores assume: “agora você me fez pensar algo que nunca tinha pensado” ou “agora falando com você eu me dei conta”. Fazer o outro pensar. Pensar com o outro. Essa é a metodologia, o princípio, o caminho que esta pesquisa escolheu trilhar.

Interagimos com todas as vozes sociais que nos cercam, que acolhemos consciente e inconscientemente no mundo, produzimos um enunciado que nos precede – já que muitas vozes se farão ouvir em nossos textos – e um enunciado que espera resposta – que se apresenta ao mundo não de forma passiva, mas interativa, propositiva, provocativa.

Estas relações dialógicas travadas entre diversos enunciados são espaços de permanente tensão. O diálogo é este espaço de luta entre as vozes sociais, que por sua vez são também plurais. “Bakhtin não é apenas o filósofo das relações dialógicas em sentido amplo; o diálogo é também, no seu pensamento, a metáfora daquilo que poderíamos considerar como sua grande utopia” (Faraco, 2003, p.72) talvez este seja o aspecto onde sua voz (ou vozes) mais se faça necessária à nossa compreensão sobre pesquisa, e sobre ensinoaprendizagem. Quando releio certas passagens que escrevi, penso no quanto a utopia de Bakhtin – assim como a utopia de Freire – são vozes que constituem a minha própria utopia.

Contudo, se por um lado, acredito no diálogo como uma possibilidade de negociação entre diferentes lógicas, acredito também que esta negociação é tensa, difícil e muitas vezes encontra limites – principalmente quando nos encontramos na fronteira – nem sempre clara – entre o diferente e o antagônico – mas acima de tudo, acredito que é o caminho para compreendermos a complexidade do mundo, sua dinâmica, sua pluralidade e formas possíveis de negociação e construção coletiva. Compreendermos que existem muitos mundos por serem pesquisados e descobertos quando nos movemos ao encontro dos outros e de suas “estranhas” lógicas. Jorge Luis Borges, falando com admiração sobre um hábito japonês de acreditar – e preferir – que o interlocutor tenha razão, nos faz pensar nas possibilidades de nossa utopia: “Podemos estar errados, o interlocutor pode estar tão errado quanto nós, mas de qualquer forma, o fato de supor que o interlocutor tem razão é um bom prelúdio para o diálogo”. (Borges, 2009). Nesta perspectiva o diálogo é possível não só porque abrimos mão de nossas certezas, mas porque ao mesmo tempo, nos permitimos pensar que talvez, o outro tenha algo a nos dizer, algo a nos ensinar.

Minha utopia, entretanto, não é uma utopia ingênua, de quem acredita ser fácil ou “sempre” possível dialogar com tantos outros. Nem sempre é, ou pelo menos, nem sempre assim percebemos no espaçotempo presente onde o diálogo é produzido. Por isso não podemos compreender nossas conversas apenas como um diálogo que acontece em um tempo linear, de entendimento harmônico, ou de superação dialógica constante e continua.

Resolvi que meu caminho na pesquisa exigiria a presença viva e encarnada de muitos outros sujeitos. Por isso venho defendendo a conversa como o lugar fundamental e privilegiado onde estes sujeitos se encontram, se desafiam, se complementam, se antagonizam, se movem e se transformam.

E foi a própria pesquisa que fez com que eu me movesse nesta direção que ainda não sei se compreendo bem. A conversa. Mais uma vez, os caminhos da pesquisa desafiam-me a mergulhar em águas turvas, sem certeza do chão sob meus pés. Agarro-me aos meus companheiros de jornada – Bakthin e Freire – como criança em primeiro dia de aula: desejo, mas não quero ir. Ir para onde? Ir com quem? Ir por quê?

Penso em minhas colegas professoras, que compartilharam comigo suas experiências e comigo teceram a narrativa da pesquisa. Sim o que temos e fazemos é, com certeza, uma conversa, uma roda de conversas. Mesmo que a timidez e a opressão da filmadora tenha nos inibido no inicio, é claro que o que tivemos (e ainda temos) é uma conversa. Uma conversa que flui, que segue meio sem rumo, sem direção... cada uma com seu novelo de verdades, de saberes, de experiências ao colo vai cruzando seu fio com a outra. Puxa, amarra, desfaz. Às vezes formamos lindos mosaicos, às vezes a trama se esgarça. Paramos, mudamos de rumo, depois retomamos os pontos frágeis de outros lugares. Voltamos ao dito, rememoramos, reelaboramos. Mas não serão diálogos? Serão conversas? Mas não sou eu quem – inicialmente – provoca os debates com questões, então não será uma entrevista? Ou um grupo focal?

Se a entrevista, no sentido a ela atribuído pelo dicionário, como conferência ou conversação entre pessoas, assume um sentido que se aproxima das nossas conversas, na prática social, tão comum nos meios de comunicação, ou na prática metodológica assumida em várias pesquisas, ganha sentidos e contornos diferentes, talvez exatamente por filiar-se a pressupostos epistemológicos diferentes. Em muitas entrevistas, espera-se uma separação de papeis entre os sujeitos: o que vai responder – e tentar não ser pego em armadilhas que o comprometam com respostas que gerem consequências inesperadas – e o que vai inquirir, aquele que deve se manter o mais impassível o possível diante das respostas para não influenciar o entrevistado. O entrevistador figura, nesta perspectiva, como aquele de quem se espera um controle, um roteiro astuto e eficaz, de perguntas inteligentes capazes de extrair do entrevistado o máximo de informações que, em seu julgamento, sejam do interesse público. Existe um desejo de distância, uma certa crença na imparcialidade e neutralidade do entrevistador, que deve conduzir o entrevistado, rumo “a” verdade. Em outra perspectiva o entrevistador assume uma outra postura, buscando uma conversa mais dialogizada, onde se deixa surpreender, questiona, discorda, pensa e repensa junto com o entrevistado. Ele vai tecendo junto com o entrevistado os caminhos por onde a conversa desliza, flui sem respeitar muito as margens pré-estabelecidas. Uma entrevista pode ser uma conversa ou uma arguição, depende dos sujeitos que nela se colocam, de suas crenças, interesses e possibilidades.

Em nossa perspectiva, não existe um inquisidor. Os sujeitos interagem, produzindo um diálogo onde todos levantam questões, provocações, reflexões. Onde as respostas não terminam em um ponto, mas em reticências, que movimentam o pensamento do outro.

Diferentes experiências são narradas, e nas narrativas somos levadas ora ao riso, ora às lágrimas, ora à indignação ou sonho. Quantas vezes paramos e dizemos: agora você me fez pensar outra coisa... e percebemos assim o quanto o pensamento do outro vai convidando o meu a realizar um movimento vertiginoso onde pensamos não só sobre o que o outro diz, mas sobre o que dizemos, não só sobre a experiência que o outro narra, mas sobre nossa própria experiência ressignificada no pensamento do outro. Aprendemos com o outro mais sobre nós. O que sabemos amplia-se, morre, renasce. As professoras vão assumindo e se revezando no protagonismo das questões e das respostas, e não há lugares fixos: questionam-se umas as outras e a mim. Não existem roteiros, não existe um lugar onde se deva chegar, o caminho da conversa e sua própria tessitura é o lugar.

Lógicas que se enfrentam ou se complementam formando outra coisa: uma ideia que às vezes perambula entre o lá e o cá sem achar um lugar fixo... e o silêncio. O silêncio que se apresenta também, como um texto a ser lido. Afinal, não lemos no silêncio a concordância ou desaprovação? A indiferença arrogante, ou o acolhimento carinhoso? O silêncio é um texto que se inscreve entre os espaços das palavras, como o negro espaço entre as estrelas, que se não existisse, não seria possível ver o que brilha. Diante da presença da palavra vigorosa de uns, não se ouve o silêncio oprimido de outros? Plateia das vozes espetaculares e barulhentas, não existe o silêncio da prudência?

Mas podem as ideias vagar sem encontrar pouso? Sem demarcarem seus territórios e neles fincarem suas bandeiras? Às vezes quando paramos diante do pensamento do outro e abandonamos nosso lugar sem ir necessariamente para outro, parece que sim... ficamos ali, habitando um lugar que não reconhecemos como lugar, lugar nenhum, mas que vai se configurando como o lugar do silêncio, o lugar das incertezas, o lugar tão temido por nós e nossa lógica moderna. Lugar mal-dito, porque tememos e de certa forma desconhecemos as palavras para o que ainda não é límpido e certo. Porque será que ainda acreditamos que só as certezas são dignas das palavras? Ou porque acreditamos que os silêncios são fruto, apenas de incertezas? Nosso texto foi sendo produzido, também, por palavras incertas e silêncios convictos.

As informações que se amontoam em nossos correios eletrônicos, ou piscam tentando ganhar um segundo de nossa atenção, apresentam-se geralmente como certezas inquestionáveis, apesar de não sobrevirem a mais nova certeza inquestionável (e científica!) da semana que vem. Muitas vezes passamos anos acreditando que uma experiência que nos marcou profundamente só tem uma interpretação possível, e de repente o outro me faz compreender que o que vivi e o que narrei pode ser compreendido de outra maneira. De muitas outras maneiras. Por isso a narrativa de uma experiência é mais que descrever. É mais que simplesmente contar uma “historinha” para o deleite da plateia.

Ao compartilharmos uma experiência a retiramos de seu lugar fixo para entregá-la ao mundo, e não sendo mais apenas nossa, ela ganha milhares de outras narrativas possíveis, milhares de tons, milhares de possibilidades. Uma pesquisa sempre será apenas uma, ou algumas, dessas possibilidades, mas a sua leitura por outros sujeitos será uma porta aberta para o infinito.

Diálogos ou conversas? O que produzimos em nossas pesquisas? O que experimentamos em nossas práticas? Por que quando produzimos alguns textos, encontros, seminários, reflexões fazemos uma opção distinta? Conversas com professoras, diálogos com professoras? Aprendemos que cada palavra é um conceito. Que conceito distingue conversa de diálogo? Existe uma distinção? Acredito que toda conversa é um diálogo. Mas todo diálogo se produz como uma conversa?

Onde dorme meu coração? Não sei. Talvez nos dois. Talvez não exista uma fronteira que coloque estes termos em lugares tão fixos e por isso seja tão difícil reconhecer-lhes as semelhanças e diferenças. Talvez diálogos e conversas não sejam assim tão indissociáveis na forma como os compreendo e utilizo, ou ainda na forma como compreendem e utilizam tantos pesquisadores e pesquisadoras.

Como Latour me ensinou a desconfiar dessas fronteiras fixas, dessas palavras (conceitos) que arrastam suas correntes e âncoras, na tentativa sempre vã, de não se deixarem levar pela correnteza de significados, produzidos pelo movimento da própria língua, eu tenha dificuldades de encontrar-lhes um lugar. Então este deverá ser apreendido por cada um, como um banquete servido para que cada qual se sirva, como desejar. Como aprisionar em um único – e verdadeiro – sentido, palavras que são produzidas em contextos históricos e sociais tão plurais, tão diversos?

Minha pretensão não permite que eu vá além de oferecer alguns elementos para a reflexão sobre alguns dos muitos sentidos e possibilidades que estas palavras (conceitos) oferecem às nossas pesquisas e fazeres pedagógicos, e assim examinar-lhes o potencial metodológico que conferem às nossas pesquisas com o Cotidiano, e como os sentidos que a elas atribuímos relacionam-se dialeticamente com nossas práticas como pesquisadores e pesquisadoras. Não se trata de definir qual o sentido “exato” as palavras/conceitos conversa, ou diálogo, ou entrevista, possuem. Mas quais os sentidos que estas palavras foram adquirindo no caminho desta pesquisa, na açãoreflexãoação, dos sujeitos. Quais sentidos são coerentes com as escolhas teóricas que fazemos.

Muito próximas no sentido a elas atribuído pelo dicionário – conversação, troca de ideias e informações – como estas palavras (conceitos) foram sendo separadas pelo uso e adquirindo um sentido tão diverso? Por que uma – diálogo – é tão utilizada e possui amplo referencial teórico, enquanto a outra – conversa – ficou relegada a um plano menor?

Como ambas habitam em mim, talvez seja assim mesmo que eu deva seguir. Uma já é velha companheira e apego-me a ela como um náufrago em mar bravio. A outra é companhia querida, que me acompanha por toda parte, mas vulgar. O sagrado e o profano, a pesquisa e sua escrita, um dos grandes desafios para aqueles que desejam pesquisar com o cotidiano.

O diálogo é um conceito desenvolvido e utilizado de diferentes formas por diferentes campos de pesquisa. Mesmo possuindo compreensões distintas e plurais, que subsidiam práticas distintas e plurais, encontra-se no lugar do sagrado, lugar do instituído, goza de uma aura de cientificidade enquanto a conversa, prática vulgar, do homem ordinário, das gentes do mundo, assim como tantas outras práticas humanas, são tratadas, muitas vezes, com indiferença, como uma trivialidade indigna das artes da ciência.

Como pesquisadora do Cotidiano, ensinaram-me a revirar o lixo. A olhar para tudo que é desprezado, invisibilizado ou ignorado por ser considerado menor. As práticas pequenas, as pequenas ranhuras que se escondem por trás de cada texto, os sussurros, as sombras. A conversa surge então como uma destas práticas.

Como tantas outras coisas que acabam se tornando invisíveis pela exposição, a conversa é uma prática cotidiana, sobre a qual não prestamos muita atenção, pelo menos até que sintamos falta de ter com quem conversar! Aí o vazio que se instala nos faz perceber a importância do banal, e a conversa, ignorada em sua presença, torna-se uma dor quase insuportável em sua ausência. Muitos na sua falta enlouquecem. Mas o que é uma conversa? E de que conversa, afinal, falamos?

Em nosso dia a dia usamos milhares de expressões que revelam a complexidade dessa palavra. Temos “conversas de pé de orelha”, “conversa fiada”, “conversa de comadre”, “uma conversa séria”, “conversa difícil”, “uma conversinha”, “conversa pra boi dormir”, etc. No entanto nem toda interação humana, mediada pela palavra, é compreendida como uma conversa. Assim como nem tudo que chamamos de conversa, a conversa em seus múltiplos sentidos, é a conversa que me interessa particularmente refletir e defender como uma metodologia potencializadora de nossas pesquisas e práticas.

Ao longo do nosso dia podemos entabular uma série de diálogos, curtos ou longos, que não se configuram necessariamente como conversa que desejamos investigar como metodologia. Podemos passar horas falando com um colega de trabalho sobre uma atividade que estejamos fazendo juntos, solicitar informações, prestar informações, sem que uma “conversa” seja estabelecida. Um casal convive diariamente, vai ao mercado, fala das contas, dos filhos e uma hora um deles se queixa: “nós não conversamos mais!”.

Se nosso primeiro pensamento sobre o que é “conversa” nos leva para o lugar comum, vulgar, trivial, quando pensamos no oposto, a ausência de conversa, esta ganha outros sentidos: torna-se a necessidade de partilhar algo mais profundo, mais intenso, mais verdadeiro, e é esta exatamente a dimensão da conversa que me interessa explorar. Quando ausente, a conversa adquire uma importância fundamental nas relações humanas. Ao nos ressentirmos de sua ausência, geralmente reconhecemos que a “conversa” é o fio que nos conecta aos outros seres humanos de uma forma mais íntima, pessoal e significativa. Falamos com muita gente, mas precisamos ter com quem conversar.

Na obra “As ligações perigosas” de Choderlos de Laclos, escrita na forma de cartas entre as personagens, e adaptada para o cinema, a Marquesa de Merteuil exige que o Visconde de Valmont encerre seu relacionamento – maquiavelicamente tramado pelos dois – com a madame de Tourvel. Na obra de Laclos a Marquesa – quando percebe que a paixão do Visconde tornou-se real – envia a Valmont, em um claro desafio, um roteiro jocoso e perverso para encerrar uma relação indesejada, que o Visconde, no livro, encaminha a madame de Tourvel.4

O cinema coloca as personagens frente a frente, e diante de uma madame de Tourvel desesperada, Valmont repete mecanicamente “está fora do meu controle” (não tenho culpa, não posso fazer nada a respeito). A mulher vai se dilacerando frente aquele homem, buscando por ele em cada enunciado ávido por uma resposta, enquanto ele ao repetir impassivelmente o mesmo texto, e apenas o mesmo texto, oferecendo apenas a mesma resposta a toda nova interlocução, encerra qualquer possibilidade de conversa.

Rompe o vínculo, porta-se intencionalmente como um “outro”, coloca-se na posição do estranho, cerra a porta da comunicação que existia entre os amantes. Ela adoece e morre.

Quantas vezes diante de um interlocutor buscamos desesperadamente “fazer contato”, argumentamos, provocamos, alteramos o tom e o ritmo das palavras, mas ouvimos mecanicamente a mesma resposta a todas os nossos enunciados? Quantas vezes nossos alunos tentam em vão estabelecer algum vínculo, articular uma conversa enquanto repetimos mecanicamente, de forma quase dogmática, nossos regimentos, nossas normas, nossas verdades, sem ouvi-los? Para que uma conversa exista é preciso muito mais do que duas pessoas que falem. É fundamental duas pessoas que realmente se ouçam. Duas pessoas que realmente se importem com o que é dito.

O contrário também é verdadeiro. Como ouvimos na canção: “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar, e nem deixou-a só num canto... 5. E o que muda quando mudamos o jeito de falar? Um dia alguém chega senta-se ao lado de um outro alguém e de repente em uma frase, em um breve enunciado – às vezes até mesmo em um breve silêncio – se estabelece o vínculo, a partilha, o entendimento e o reconhecimento onde minha humanidade encontra a sua6.

No entanto, aprendi, ou me dei conta, em uma conversa de botequim, que este encontro nem sempre acontece, no mesmo espaçotempo para os dois interlocutores. Muitas vezes o entendimento, a negociação é atravessada por tantos sentimentos – vaidade, amargura, teimosia, mágoa, arrogância, etc. etc. – que deixamos de nos ouvir uns aos outros. Outras vezes não são sentimentos, mas ideias, concepções, nossas filiações e convicções que só nos permitem – quando permitem – ouvir parte do que o outro diz. E penso que não tenhamos como fugir disso. Temos nossos sentidos sempre atravessados por nossas crenças, temos que compreender os limites de nossa compreensão, de nossa possibilidade de tradução, ter a consciência de que a compreensão absoluta não existe.

O que não significa que uma conversa não possa acontecer – ou continue acontecendo – dentro de cada um dos interlocutores, horas, dias ou mesmo anos depois. Pois o tempo ao nos deslocar, nos permite não só ad-mirar o que não foi visto, mas ouvir o que foi dito, repensar o que foi dito. O tempo nos permite viver outras experiências e estas nos possibilitam retomar uma conversa antiga, com novos entendimentos, recriando a conversa vivida em um tempo passado.

Conversava com uma amiga (professora também) na mesa de um bar – lugar que sempre me inspira boas conversas – e ela me relatava seus conflitos no trabalho e sua dificuldade para conviver com as diferentes concepções de mundo, de infância, de educação, que encontrava tanto com o grupo de professoras e agentes educativas, quanto com a equipe dirigente da creche onde trabalha7. Narrava-me o quanto se tornavam polemicas as muitas questões que levantava nas reuniões: as práticas religiosas nas rotinas da creche; a falta de higiene em algumas práticas (como usar um único sabonete para dar banho nas crianças); a falta de um objetivo pedagógico claro nas dezenas de atividades festivas; a burocracia que roubava tempo de atividades mais importantes; a ausência constante da direção, etc. Questões que a faziam ser combatida, que desgastavam sua relação com o grupo, fazendo-a sentir-se só, como se fosse uma educadora perdida no túnel do tempo, vivendo em uma escola que pensava não ser possível mais existir. Mas que, infelizmente, ainda existem.

Enquanto isso, meu pensamento vagava, percorrendo suas palavras, mas também as reflexões do meu texto, o que me fez questioná-la porque insistia em argumentar, reclamar, defender posições que sabia não seriam bem recebidas pelo grupo? Perguntei-lhe se achava que estava sendo ouvida? Se achava que valia a pena tanto desgaste? (às vezes nem eu acredito nas perguntas tolas que faço! Poderia botar a culpa no álcool, mas não era ainda o caso). Ela disse que sim! Que embora as relações continuassem ruins, muitas ações, muitos fazeres pedagógicos acabavam se transformando, mesmo quando suas colegas não admitiam sua influência nesta mudança. Bakthin se apresenta sem cerimônias em nossa conversa, e pergunta: mas isso importa? A autoria importa? Não será a transformação que a palavra produz no outro o mais importante? Então as ideias que você tem e defende são só suas? Elas não pertenceram a tantos outros antes de ti? Quantas dessas ideias não foram também estranhas, de difícil digestão, e depois tornaram-se suas?

Ela me fez pensar então, o quanto eu estava vendo a conversa, muitas vezes, em um espaçotempo linear, fixo, e talvez marcada por minha própria vivencia na pesquisa, como uma experiência idealizada, entre sujeitos idealizados. Pude perceber que a palavra pronunciada pode ficar como semente plantada em nós por muito tempo. Uma conversa pode estar acabada para um sujeito, mas permanece encarnada no outro, mesmo que este outro demore a se dar conta das palavras que movem. São as vozes a que Bakthim se refere, que permanecem em nós, perdem sua origem, sua autoria, mas preservam o mais importante, produzindo profundas transformações no processo de se tornarem nossas. Assim penso na potencia da conversa, não apenas entre os iguais, ou semelhantes, mas entre os diferentes.

Permanece, contudo, a necessidade que esta conversa se produza como uma experiência, ainda que precise de tempo para maturar, ser digerida, ser absorvida, esta conversa precisa deixar marcas, precisa seguir viva dentro de nós.

Uma outra professora – que trabalha em minha escola – entra nervosa em minha sala. Ela é minha colega e confia que eu possa ajudá-la a decidir sobre que atitude tomar em uma situação referente a uma criança que teve um excelente desenvolvimento, mas que se encontra, em sua avaliação, muito aquém do que deveria possuir para seguir em frente, questão recorrente em meu/nosso cotidiano. Ela narra sua aflição, os caminhos e os descaminhos de seu pensamento, que se encontra confuso, nebuloso, em conflito: reprová-la e correr o risco de “jogar no lixo” todo o trabalho de motivação e autoestima conquistados a duras penas, que modificou a relação da criança com o seu próprio processo de aprendizagem ou aprová-la e correr o risco de ser criticada por não saber avaliar uma criança sem “condições” de cursar o ano seguinte? Seu pensamento devaneia e ela fala comigo e consigo ao mesmo tempo, eu acompanho agradecida pelas coisas que ela me faz também pensar: quantas vezes ela foi rigorosa em seus critérios de aprovação/reprovação para depois constatar que outros alunos, muito “piores” que os seus retidos, cursavam a série posterior? Quantas vezes ela reprovou um aluno e este perdeu o interesse e piorou seu rendimento ao invés de melhorar? Quantas vezes ela reteve um aluno que em dois meses de aula no ano seguinte apresentava um desenvolvimento muito acima da turma o que além de gerar um arrependimento na professora, desestabilizava o trabalho em sala, já que ela desejava (e acreditava) na organização de uma turma homogênea? (E ela me desperta para algo que ainda não tinha pensado: como a retenção também produz heterogeneidades, sendo uma contradição dentro da própria lógica que a defende).

Eu escuto, pergunto, questiono, sugiro. Pensamos juntas sobre as escolhas e os caminhos. Não travamos uma batalha de palavras. Não existe – necessariamente – a intenção de vitória de um argumento ou de uma ideia. Existe uma partilha. Um convite para entrar em um labirinto de pensamentos e ajudar a encontrar algum caminho. Ela sabe que possuo muitas opiniões contrárias a algumas de suas práticas. Mas sabe também que a respeito como professora interessada, comprometida e séria que é. Ela não me procura para confirmar o que já sabe, mas para discutir, refletir e dividir o peso de uma decisão que sabe ser muito séria na vida de uma criança. Uma decisão que não pode ser leviana, tomada com a arrogância de quem conhece todas as respostas. Assim como sabe que eu também não possuo “todas” as respostas, mas compreendo cada criança em sua singularidade como uma questão única, um desafio único a ser investigado e refletido, motivo sim, para muita conversa.

Walter Carlos Costa ao nos apresentar a concepção do oral de Borges nos convida a pensar sobre o momento que eu e a professora vivemos:


(...) não se trata simplesmente de conversa mundana ou de conversa para fins de comunicação imediata, tampouco se trata de conversa de salão literário: é uma conversa elaborada, em que os interlocutores compartilham leituras e opiniões sobre os problemas do ofício.”(Costa in Borges,2009)
A conversa surge como uma reflexão compartilhada sobre as experiências que vivemos e que vão nos constituindo, que nos desafia a pensar com o outro sobre o mundo que vivemos e fazemos. Mas isso não seria o conceito de diálogo compreendido em Freire? Quando defende que não podemos pensar sem os outros, nem para os outros, mas com os outros?

Kavaya (2007) nos apresenta uma interessante reflexão sobre o conceito de diálogo em Freire e a Ondjango (casa de conversa) africano/angolano, feita de pau-a-pique, circular e sem laterais, à sombra de uma grande árvore:


Trata-se da casa de conversa, de reunião, de hospedagem, de partilha de bens/refeição/serviços, de educação/iniciação sociocultural, de entretenimento e/ou de fazer justiça. Antes de tudo, se trata de uma casa, ponto de partida e ponto de confluência; de uma casa com as condições de se poder sentar, reunir junto de alguns mais-velhos; trata-se de um lugar de encontro.
O que me chamou atenção nesta “casa de conversa” foi exatamente seu caráter plural e sua importância social. Ondjango tanto é o local dos fóruns oficiais para se deliberar sobre questões sociais e políticas, quanto é um local de hospedagem, de festa. Tanto é utilizada como espaço de educação das novas gerações, como espaço de encontro para partilha. Centro vital da organização social de um povo, não separa o que em nossa cultura seria profano – encontro para relatar acontecimentos cotidianos e vulgares – do que consideramos sagrado – questões de justiça por exemplo – e que por ser sagrado é restrito aos iniciados, exige fronteiras, portas fechadas, vigias e trancas, austeridade.

A vida partilhada não é dividida em diferentes espaços (e estes não possuem necessariamente uma hierarquia) possui apenas um: Ondjango, o lugar de conversa. O lugar onde os sujeitos devem se encontrar e dividir suas experiências, criar com suas diferentes narrativas a identidade de seu povo.

Quando discutimos o conceito de espaço como o lugar praticado (Certeau), para além de sua configuração física, mas sua produção pelos sujeitos que nele se encontram e ali instauram formas do viver, a Ondjango nos mostra um mesmo lugar, que vai se transformando em diferentes espaços segundo as práticas dos sujeitos, ganhando novos contornos segundo a finalidade dos encontros, segundo a intenção das conversas. As configurações que este lugar adquire, não são, portanto, criadas pela organização material do mesmo, mas pelas diferentes formas que adquire a palavra.

Aqui, a linguagem define o espaço. Não existe a tentativa de limitá-lo ou produzi-lo no controle de sua arquitetura, mobiliários, horários, regimentos. Assim o mesmo lugar – para eles sempre sagrado mesmo quando nas atividades mais simples ou cotidianas – ganha seus contornos pela palavra:


Aí, segundo a pertinência do vivenciado, o ohango (conversa/diálogo) tomava vários significados: “ondjango”, enquanto “ulonga” (relato da vida desde o encontro anterior), “elongiso” (ensinamento e aprendizado), “ekuta” (partilha de bens alimentares), “ekongelo” (reunião de caráter deliberativo), “ekanga/okusomba/okusombisa” (reunião para fazer justiça e sentenciar para punir ou absolver o argüido), “okupapala” (encontro de entretenimento, festas e danças culturais e tradicionais, conforme a situação vivida no momento: morte caça, casamento, iniciação sociocultural e comunitária, acolhimento de uma visita etc.), “ondjuluka” (encontro para organizar um mutirão comunitário a favor de algum da comunidade em situação de doença, problema socioeconômico, intervenção de ajuda na sua lavoura etc.) (Kavaya, 2007).

Ondjango convida-me a pensar no quanto, e até que ponto, a disposição das cadeiras, a organização do espaço escolar, reflete-se realmente na produção ou não, de “lugares de conversa”. Sem menosprezar o poder da organização espacial, as fronteiras visíveis e invisíveis que se erguem entre os sujeitos pela força da arquitetura e planejamento estratégico de um espaço, sou assaltada pela memória de quantos “círculos” de silêncio, belicosos e autoritários, participei. Quantas aulas estive onde um aluno inicia um relato de suas experiências e todos, subvertendo a disposição das carteiras, viram-se para ouvi-lo com atenção e respeito, e estabelecem uma conversa.

Ondjango convida-me também a pensar nas diferentes intencionalidades das conversas. Conversas de relatos, troca de experiências, entretenimento... conversas para se fazer justiça, se ensinar, resolver problemas. Algumas mais livres, outras mais diretivas, todas compreendidas como conversas, na dimensão do encontro, da necessidade do encontro.

Para referir-se a linguagem (ou palavra) os gregos usavam mytos e logos. Separava-se assim, a palavra mítica, mágica, religiosa, a palavra que narrava o sagrado, da palavra que expressaria o pensamento e a realidade. Os mytos que possuíam em sua narrativa o poder encantado de organizar e nos ajudar a compreender a realidade vão perdendo sua importância diante do logos: a palavra racionalizada, expressão das ideias, dos conceitos, da verdade. Lançadas às sementes que cresceriam no solo fértil da modernidade, começavam a gestar o mundo cindido entre o sagrado e o profano, entre a razão e todas as outras formas de conhecer o mundo, consideradas indignas, menores, e por isso mesmo eclipsadas pela luz da ciência. Mas a palavra seguiu sendo razão e encantamento, pensamento e magia. Nossas narrativas continuaram a existir como mytos e logos, e ambos nos constituem, indissociavelmente.

Em nossa cultura, ou melhor, nos traços ocidental e racionalista de nossa complexa cultura mestiça, a conversa é profana na origem e na forma. A conversa não exige questionários, métodos e fórmulas, a conversa nem sempre tem um objetivo claro ou pré-determinado, e tampouco um fim pré-concebido, ela não exige planejamento ou controle, mas como percebemos, nem sempre necessita deles para ser considerada produtiva ou um sucesso.

Neste sentido desenha-se certa fronteira com o conceito de diálogo em Freire que nos adverte que: “O diálogo não pode converter-se num bate-papo desobrigado que marche ao gosto do acaso entre o professor ou professora e os educandos” (2005).

Compartilho com Freire a crença da intencionalidade e a compreensão de que a prática pedagógica é uma prática diretiva: quem ensina, ensina algo, a alguém8. Como sujeitos produzidos pela modernidade, fomos ensinados a sempre ter um projeto para o mundo. E de fato temos, pois acreditamos que o mundo precisa sim, ser transformado.

Entretanto a prática da pesquisa chamou minha atenção exatamente para a potencialidade educativa do acaso. Realmente temos, muitas vezes, na conversa a “desobrigação” de chegarmos a um ponto pré-determinado, conquistar conhecimentos pré-concebidos, atingir um objetivo. Contudo, isso não significa que conhecimentos não tenham sido produzidos, que pessoas e realidades não tenham se transformado neste processo. A potencia do acaso está exatamente na ausência do roteiro. Sem caminhos rígidos a serem percorridos, sem margens, sem fronteiras, as conversas nos levam para lugares – e saberes – insuspeitáveis, exatamente por isso revela o novo, o que ainda vai latente em nossos corações, as incertezas que nos moverão para o desconhecido. Exatamente por isso não permite que nossas pesquisas, ao trilharem apenas pelos caminhos desejáveis, se tornem a confirmação de nossas certezas, e não, a investigação de nossas dúvidas.

Certa ausência de controle – sobre a pesquisa e sua escrita – provoca insônias, calafrios e mal estar, com certeza. Mas toda essa insegurança é compensada pela riqueza das descobertas que nos permitimos encontrar. Conversar não é interrogar, não é arguir, não é separar os sujeitos entre os que elaboram as perguntas – e analisam as respostas segundo seus manuais – e aqueles que respondem as perguntas – às vezes de forma “errada” e “insatisfatória”; não é estabelecer um diálogo dividido entre os que sabem e os que não sabem; os que possuem as chaves da compreensão da palavra do outro, e os que não compreendem nem mesmo o que dizem.

Não podemos fazer pesquisa com estranhos. Não podemos ser sujeitos estranhos ao universo da pesquisa. Não fale com estranhos! Nossas mães nos aconselhavam zelosas. Não fale com estranhos! Tantas mães repetem cautelosas. No entanto, nós só “falamos” com os estranhos. Mas com eles não conversamos. Os “estranhos” são aqueles que nos parecem hostis, e como bem nos alertam nossas mães, nem sempre nos querem bem, ou nos fazem bem. E como nos veem como estranhos também, não acreditam facilmente em nosso bem querer. Por isso não podemos conversar com eles. E por isso também, nem sempre eles querem conversar conosco. Conversamos com nossos companheiros, que mesmo quando nos recriminam, discordam ou debocham, nos amam, nos querem bem. Contudo, quando conversarmos com um “estranho”, ele deixa de ser estranho, sem necessariamente que isto o converta a um “mesmo”. A conversa – em minha utopia – possibilita o encontro com o “outro” que permanece “outro” sem necessariamente ser “estranho” (bizarro, esquisito, fora do comum9). Eis o poder e a magia da conversa.

O sucesso da conversa é a entrega. É o encontro. Que, no entanto, como vimos, nem sempre acontecem no mesmo momento para os diferentes interlocutores. Uma conversa acontece realmente onde existe cumplicidade, segurança, confiança, respeito, dignidade e afeto. As pessoas que conversam afetam-se com o que é dito pelas outras, porque compreendem que o dizer das outras pessoas é importante, porque as pessoas que falam são ou tornaram-se – com o deslocar no tempoespaço – importantes. Naturalmente isso não exclui a tensão, o conflito que às vezes adia o final de uma conversa – se é que ela termina – por muito tempo.

Falamos com muita gente, mas quando insistimos na conversa, mesmo as mais difíceis, é porque confiamos que o outro está nos ouvindo, mesmo que nem sempre concordando. A conversa é uma profissão de fé no outro ser humano, e em sua capacidade de nos ouvir, e quem sabe um dia, mesmo sem concordar, nos compreender.

Falamos muito o tempo inteiro, mas conversamos mesmo apenas em algumas ocasiões. E talvez saibamos intuitivamente exatamente o momento em que uma conversa começa. Quantas vezes convivemos meses, anos com algumas pessoas, e depois de uma “conversa”, saímos com a sensação de ter conhecido alguém novo? De que a relação com aquela pessoa não será mais a mesma.

Quando o que é dito ganha uma relevância mais profunda, as pessoas envolvidas na conversa reposicionam seus corpos, aproximam seus ouvidos, olham nos olhos, as vozes se alteram. Existe uma resposta física, emocional e mental a uma conversa. Existe um desejo de participar, um desejo de ouvir e ser ouvido. Um desejo de mergulhar no outro, de saber mais, de ouvir mais. Decifrá-lo e devorá-lo. Antropofagia.

Essa conversa pode ser com um amigo, com um professor, com um aluno, como pode ser com um compositor, com um pintor, com um autor, com um outro ser humano que nos toque e crie em nós essa estranha necessidade do encontro. E essa saudade, de tanta gente, que fala comigo, que me aconchega, ensina e consola, mas que jamais conhecerei...

Para uma perspectiva científica moderna, pseudamente neutra, esta conversa é inconcebível, pois é rica demais em subjetividades, é humana demais para ser fonte de informações sobre o universo humano. Para a pesquisa com o cotidiano, é uma opção de conhecer e pensar sobre a vida e sobre os sujeitos, com os sujeitos no momento em que a vida acontece.

Para nossa prática pedagógica é uma questão a ser refletida: entre tantos os momentos que passamos em uma sala de aula, quando conversamos? Será que conversar é mesmo perda de tempo? E o quanto este compartilhar experiências, ouvir o outro, narrar-se potencializa o ato de aprender? Será que o controle sobre os diálogos pedagógicos para que não escapem ao acaso produz um diálogo pedagogicamente potencializador entre os sujeitos?

Acredito que aprendemos uns com os outros, quando compartilhamos nossas experiências, quando nos sentimos seguros para nos narrarmos e confiamos em nossos companheiros. Acredito que quando fazemos isso estabelecemos com os outros um diálogo, e que uma das formas que este diálogo assume em nosso cotidiano é a conversa. E digo uma das, porque o diálogo pode assumir muitas formas, e algumas delas, como vimos, possuem fronteiras, normas, objetivos, que geralmente a conversa não respeita. Conversa não possui roteiro. Nem estruturado, nem superestruturado Conversa é fluxo.

Para Jorge Luis Borges os gregos inventaram o diálogo – e segundo ele com o diálogo o princípio civilizatório – e assim os homens descobriram que não precisavam se matar diante de alguma discordância podiam dialogar. Penso que talvez sim, os gregos tenham produzido um dos conceitos de diálogo que mais marcaram nossa civilização ocidental, mas a conversa, desconfio, é bem mais antiga...

Tão importante para a cultura e civilização Grega, que alguns filósofos da Antiguidade Clássica, desenvolveram um conceito de diálogo como método. Havia uma intencionalidade e uma diretividade na discussão para que o discípulo compreendesse determinada ideia ou conceito. Em uma relação assimétrica um interlocutor – reconhecido como mestre – utilizava a forma de perguntas e respostas para desconstruir as ideias pré-concebidas – vulgares, erradas – dos pupilos, para em seguida orientá-los, com o mesmo método de perguntas e respostas para as conclusões que esperava que alcançassem.

Percebemos que, quando assim compreendido, o diálogo assume alguns a priores: primeiro se estabelece o conhecimento dos “pupilos” como um conhecimento restrito, falho, incompleto, portanto negado como conhecimento. Segundo se acredita que o conhecimento do mestre, ao contrário, é expressão da “verdade”. O diálogo neste sentido – e não esqueçamos que o diálogo como conceito tem muitos sentidos e alguns bastante diversos deste – torna-se o caminho utilizado para fazer com que os sujeitos abandonem suas próprias ideias e convicções e assumam as do mestre como suas.

Os sofistas, filósofos do período socrático, apresentavam-se como mestres da oratória e da retórica, artes fundamentais para uma atuação política na polis. Para os sofistas não importava onde estava “a” verdade, pois “a” verdade estaria com aquele que melhor a apresentasse e defendesse, aquele que houvesse desenvolvido a arte da persuasão.

Aquele que tivesse aprendido a usar a palavra como espada. A palavra para desarmar e vencer o outro. O diálogo – quando nesta perspectiva – muitas vezes nos desafia para um duelo. Quando nesta forma, o diálogo apresenta-se como uma lógica que combate à outra e tenta provar-se superior em “verdade”.

A conversa que interessa a nossa pesquisa é aquela que permite que uma lógica ressignifique-se na outra, expanda-se na outra, aprenda com a outra. Enquanto nesta perspectiva de diálogo alguém sai vencedor do debate, na conversa, na perspectiva que defendo, não vencemos ou perdemos, aprendemos. E aprender significa tanto ganhar como perder muitas coisas...eu, por exemplo, quanto mais aprendo, mais perco a paz.

Minha contribuição a esta conversa não será lançar luz sobre as trevas. Não será oferecer soluções ou respostas, mas contribuir na busca de outras reflexões possíveis, em busca de outras práticas e outras escolas possíveis, não porque eu acredite que não façamos um trabalho sério e comprometido com nossos alunos, mas exatamente por esta seriedade e comprometimento que nos exige buscar sempre, criar sempre, investigar sempre, pois o mundo está permanentemente se recriando, e os desafios são muitos.

Minha contribuição a esta conversa será ser, de certa forma e neste momento, a fiandeira dessas muitas linhas que se cruzaram: nossos saberes humanos, docentes, outros saberes, nossos não-saberes e os não saberes dos outros...

O diálogo travado na conversa perde sua hierarquia – mestre/pupilo – assim como sua diretividade. A conversa é por natureza democrática, rizomática, indirigível. Começa em um ponto que não necessariamente foi aquele que você estipulou para começar, e termina em lugares absolutamente imprevisíveis. A conversa em sua dialogicidade e dinâmica nos produz outros na interação com as experiências dos narradores, não possuindo, portanto, garantia de portos-seguros onde ancorarmos. Mesmo quando partimos com um mapa, os ventos, as mares, e a própria viagem vai nos transformando e transformando nossos caminhos. É preciso deixar-se levar...

Uma conversa também, nem sempre se encerra quando nos despedimos, pois seguimos uns nos outros, continuando mentalmente, por muito tempo, a conversa inacabada...






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