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Quando a gente vai dormir



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Quando a gente vai dormir
Temos que rezar
 
para o medo sumir.
Quando o dia amanhecer
Agradeça ao sol
 por ter coragem de nascer
Quando a chuva vier
Não se desespere
“Seja um menino de fé.”
E Luiz chorando, bem baixinho, considerou necessário que seu 
amigo levasse para a outra vida uma recordação sua.
Zeca, você está me ouvindo? A voz soluçando:
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O menino do outro mundo responde:
- Estou aqui ainda, mas não sei por quanto tempo.
- Ouça, diz Luiz;
Eu era como passarinho
Que vivia triste e sozinho, conheci um amigo
Que me libertou do ninho.
Luiz continua:
- Só sei dizer isto e que nunca lhe esquecerei.
Ah! Queria te pedir que quando chegar do outro lado, fala lá que eu fiquei 
aqui em cima da mangueira e que um mensageiro avise a minha mãe, que 
não está tudo bem, mas se ela der um jeito de me salvar, vai ficar melhor.
Recostamo-nos no caule. Luiz esperando a mãe, eu, a morte.
Fiquei na direção do menorá, este eu não podia perder de vista. Meus 
olhos pesados de sono e fadiga, enquanto Luiz chorava baixinho, 
balbuciando palavras quase impossíveis  de entender, mesmo assim, ainda 
pude captar:
- Será que meu cãozinho encontrou abrigo?
- O que minha mãe está pensando?
- O que estará acontecendo?
- Mamãe não pode mandar ninguém a nossa procura, não sabe onde 
estamos.
-Meus Deus! Pôs-se a gritar bem alto.
- socorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrro!
-Quem há de nos acudir?
Zeca com calma:
-Luiz, Deus não é surdo, ele não está ouvindo por causa da chuva e, 
mesmo assim, quando eu escorregar daqui, e for pro céu, eu aviso que 
você
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ficou corajosamente dependurado. 
E Luiz continua sua súplica:
- Senhor, envia um anjo, daquele bem anjo, com asas de penas e 
tudo!
Zeca parecia debochar do desespero do amigo:
- Luiz, quem sabe a chuva não passa? A menos que seja um dilúvio.
Luiz aflito:
- E o que é dilúvio? É feitiço de chuva?
Nada disso. Diz Zeca:
-O dilúvio foi uma chuva bem grande que Deus mandou para acabar 
o mundo e lavar os pecados da terra. Foram somente quarenta dias e 
quarenta noites.
Luiz interfere:
- Meu Deus, foi uma vida inteirinha.
Zeca continua:
- Deus chamou um homem velhinho chamado Noé e disse que ele 
construísse uma barca enorme e  durante a construção, ele fosse 
convidando as pessoas para ajudar porque o mundo ia se acabar, todavia, 
ninguém acreditou, chamavam-no de velho louco e ele continuou fazendo, 
até que um dia, Deus disse a ele:
- Noé, junta toda tua família e um casal de animais  de espécies 
diferentes, para entrar na barca e fecha a porta por dentro que eu 
mandarei um anjo para fechar por fora.
- É, Luiz, não deu outra, foi muita chuva e todo mundo correu para 
se socorrer, mas a  porta estava trancada.
E Luiz ouvindo foi acalmando o ânimo:
- Então vamos nos salvar, porque nós acreditamos.
Zeca descrente:
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- Pode ser com esse choro todo. Quem sabe?
Luiz pensou:
- Já pensou se Deus disse isso pra minha mãe e ela não teve tempo 
de me avisar?
- Meu Deus! Envia um anjo!
Resolvemos fazer um acordo, depois de conversa vai e conversa vem, já 
mais confiantes, que iríamos fiscalizar o sono um do outro. Quando um 
estivesse cochilando, o outro daria um susto e assim passaríamos o tempo 
que pudéssemos. E assim fizemos.
Dormi encostado no tronco da árvore, quando Luiz percebeu o meu 
silêncio gritou:
- O jacaré!
De repente, desencostei e olhei para um lado e para outro, Luiz havia 
trocado as lágrimas   pelo sorriso, já era um bom sinal.E a chuva 
continuava forte, trovões, relâmpagos e muita água caindo sobre a terra.
O interessante é que no primeiro momento foi desespero, dor e 
lágrimas, mas com o correr do tempo todos o desespero foi acomodado 
dentro de nós e passamos a conviver  com menos medo.
Chegou à hora do sono de Luiz, ele se recostou procurando 
segurança no tronco e até fez um travesseirinho com as folhas. Luiz 
dormia como se estivesse em casa, surgiu, de repente, um clarão, vindo do 
riacho. 
Cheguei a comparar com uma tocha de fogo, mas não era 
avermelhada, era brilhante como uma estrela, até pensei que fosse cadente, 
mas estava se aproximando demais da mangueira, nosso abrigo.
Quando percebi tanta proximidade, tive medo, pensei que fosse 
mais uma invenção do lugar previsível.Arranquei uma manquita verde e 
joguei em Luiz que, de súbito, abriu seus grandes olhos 
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negros e começou a surtar:
- Meu Deus vou morrer agora!
- Zeca, o mundo está se acabando, o dilúvio!
- Onde está Noé?
- Quero ir na barca!
 - Que luz é esta?
Zeca que também não estava muito calmo pediu:
- Calma, é um clarão, acho parecido com uma estrela cadente, mas 
está muito perto de  nós.
- Nada podemos fazer, somente esperar.
Zeca teve uma ideia:
- Vamos fingir que estamos dormindo, seja o que for vai ter que se 
manifestar, é bom nem respirar.
O clarão chegou bem perto e  ouviu-se uma voz forte:
- Vamos! Acordem. É hora de partir!
Falamos em coro:
- Partir! Para onde vai nos levar?
- Quem é você?
A luz afastou-se e percebemos as lindas asas cheias de penas e plumas em 
tom claro e brilhante.
- Sou quem você chamou, Luiz e quanto a você Zeca, lamento dizer: 
- não vai morrer agora.
- Fale-nos quem é você? Com cara de menino e penas de 
passarinho?
Respondeu reclamando do frio e das penas molhadas:
- Sou um anjo. Às suas ordens.
Luiz demonstrando muita alegria:
- De verdade?
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A resposta veio num belo sobrevoo ao redor da frondosa mangueira. 
E todos riram muito.
- Vão comigo ou desistiram e preferem ficar por aqui mesmo?
O visitante alado ainda diz:
- Vim do céu. De tanto ouvirem o choro de Luiz, mandaram-me em 
missão.
-E a missão é tirá-lo daqui e agora.
E o anjo abriu as longas asas e colocou cada um debaixo delas e perguntou:
- Malas prontas?
Luiz disse:
-Agora mesmo.
O anjo respondeu:
- Só se for já. 
Todos prontos?
- sim: gritamos com alívio.
O anjo fez força nos pés e alçou o voo mais inacreditável do mundo.
Na viagem pelo céu, sentíamos que a velocidade era muito alta, mas nada 
de medo, sobrevoamos toda a região e Luiz, com alegria, mostrava tudo 
que lá continha:
- Olha lá minha casa, o riacho. Gente, virou mar. 
Deve está cheinho de peixe. E se empolgava:
- Não tem mais a estrada, mas ainda bem que minha casa está segura 
no lugar. 
O anjo sugeriu:
- Não querem aproveitar, já que a chuva diminuiu, passear pelas 
nuvens? 
Luiz eufórico:
- Vamos sim. Vamos chegar pertinho das estrelas.
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O anjo parecia não ter pressa, fazia as mais incríveis acrobacias no céu, 
fazia das nuvens  verdadeiras estradas no céu.
Zeca perguntou para Luiz:
-Não está na hora de voltarmos?
- Você não está com saudade da sua mãe?
- Olha lá! O menorá continua aceso, Luiz, a Senhora Gorda ainda 
está agoniada.
O anjo percebeu a preocupação de Zeca e ponderou:
- Vocês devem está cansados, foram muitos dias longe de casa, 
devem está com saudade e precisam se alimentar e vestir roupas quentes.
Luiz se espanta:
- Muitos dias? Foi o dilúvio então?
O anjo sorrindo:
- Claro que não. 
Depois de horas de revoadas no céu nas asas do anjo  recebem o aviso 
angelical:
- Preparem-se para aterrissagem.
- Senhores passageiros, apertem o cinto de segurança.
E, de repente, o anjo começou a taxiar e perder velocidade e em 
questão de segundos estávamos na areia branquinha da casa de Luiz.
Fim
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Luiz correu em busca da porta de entrada gritando:
- Mamãe, mamãe, cheguei!
- Venha aqui, quero lhe apresentar o anjo de asas de passarinho!
Enquanto isso, Zeca lá fora fazia os agradecimentos e conversava sobre a 
viagem ao céu:
- Sabe, da próxima vez, eu quero ir até o céu, de verdade, quero ver 
Jesus e a manjedoura.
- Quero ver outros anjos, lá deve ter aos montes.
O anjo demonstrando pressa:
- Quando precisar, é só chamar.
Zeca se vira para chamar Luiz para a despedida:
Luiz! O anjo já vai! 
- Senhor Magro!
- Senhora Gorda!
E nesta empolgação nem percebeu que o anjo levantou as asas e 
partiu.
Luiz saiu da casa com o pai e a mãe saltando para a despedida e para 
espanto de todos o  anjo havia desaparecido.
 Zeca espantou-se:
- Estava aqui agora mesmo. Por onde ele foi?
A senhora aliviada, pois a chuva já estava bem fina, falou:
- Vamos entrar, para se alimentar e dormir.
Na mesa ninguém se entendia, cada um tinha uma história para contar;
- Mamãe, a senhora sabia que o Zeca quase morre de medo?
- Até se despediu de mim.
- Ele chorou tanto que parecia um bebê.
Zeca interferiu:
- Ei, o chorão era você, não parava nenhum instante, precisou de 
IX
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muitas histórias para lhe acalmar.
- E o anjo veio do céu por conta de tantos gritos.
A senhora Gorda não entendia nada, pois o anjo, ela não tinha visto, podia 
ser imaginação de menino medroso.
Mais uma vez percebi que a Senhora Gorda tinha um sentimento 
nobre. Ela nos abraçou com muito calor, apertava com força em nossos 
braços sem acreditar que depois daquela chuva, nós havíamos sobrevivido. 
E falou cheia de carinho;
- Cheguei a pensar que estariam afogados, ou que o jacaré tinha 
devorado os dois de uma só vez. Desde o momento em que a chuva 
começou a cair, meu coração não se aquietou, batia feito zabumba em 
noite de samba.
Zeca interfere cheio de gentilezas:
- Que nada, senhora, aguentamos firme, estávamos vendo de longe a 
luzinha da  emergência.Luiz na tentativa de contar sobre seu 
contentamento, porém mamãe tinha urgência em verificar a integridade 
física de nós dois.
A impressão que eu tinha era que a senhora Gorda não havia engolido 
muito esta história  de anjo com asa de passarinho não.
Do nada ela indagou:
- Agora digam como chegaram até aqui sãos e salvos?
Luiz gritou:
- Eu conto primeiro, pois quem pediu ajuda ao anjo fui eu.
E Zeca inconformado:
- Acontece que de céu eu entendo, até lhe ensinei sobre os planetas.
Luiz complementa:
- Eu pedi ajuda primeiro e o anjo me ouviu.
A boa senhora usando o espírito de justiça:
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-Fale Zeca, você é visita. Merece respeito.
Zeca falou em tom solene:
- Obrigado, senhora.
E continuou:
- Avistei um clarão e desconfiei de uma bola de fogo, mas achei 
muito claro, parecia uma estrela. Luiz puxou a mãe pela mão e disse; 
mamã, e o anjo tinha cara de menino. Eu pedi que ele sobrevoasse toda a 
região, eu queria saber como estavam os animais e não vi o estábulo e nem 
o curral e nada de chiqueiro das galinhas e fiquei muito triste.
- Onde estão, mamãe?
- O cãozinho?
A senhora percebeu a insatisfação de Zeca e tomou mais uma decisão com 
justiça:
- Chega de anjo por hoje e as respostas virão amanhã. Hora de 
dormir.
Luiz acatou:
- Sim, mamãe.
Zeca se retira com tristeza:
- Boa noite, senhor!
O senhor magro e feioso dirigiu-se à mulher:
- Que história de anjo? Menino sonha demais.
- A chuva deve ter feito as crianças deliraram.
E a senhora concordando:
- Ora anjo, ora anjo, neste fim de mundo! E saiu arrastando os 
chinelinhos de dedo.
Depois da conversa sem entendimento, tomamos uma sopa quente e 
a chuva já estava dando uma trégua, fomos para o quarto descansar destes 
dias enfadonhos e  ainda falamos da viagem nas asas do anjo, durante um 
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bom tempo, e finalizaram dizendo:
- E o ser alado saiu e desapareceu neste lindo céu azul com nuvens 
gordas de chuva.
Luiz falava descontroladamente:
- Zeca, quando amanhecer o dia, vou pegar o burro e vou procurar o 
anjo.
Zeca já vencido pelo sono ainda conseguiu dizer:
- Se tiver burro ainda e se tiverem baixado as águas.
E Luiz insistia:
-Você vai comigo?
Zeca permaneceu calado, Luiz olhou para a rede onde o menino estava 
deitado e  percebeu que Zeca tremia feito vara verde.
Perguntou:
- O que você tem?
Zeca permanece em silêncio .  Luiz levantou-se e tocou em Zeca e falou:
- Você está pegando fogo!
Gritou aflito pela mãe que ainda estava acordada, acomodando os animais 
que 
sobreviveram no quintal, quando ouviu a voz de Luiz desesperada.
- Mamãe, o menino está soltando fogo pelas ventas!
Quando a Senhora tocou na testa de Zeca, apavorou-se!
- É febre!
- Seu corpo está todo vermelho e suando como chaleira.
- Nunca vi nada parecido.
-Ligeiro! Água fria e um pano limpo para as compressas.
Luiz foi às carreiras tirou a água do pote e uma toalha da gaveta, em 
segundos estava nos pés da Senhora.
Começaram as compressas na testa de Zeca que se mexia 
involuntariamente, sem parar.O pai de Luiz trouxe uma xícara com chá 
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frio de camomila para acalmar o menino que estava sofrendo. A mãe 
indaga ao filho:
-O que aconteceu para este menino ser acometido de tamanho mau?
Luiz tenta explicar:
-Muita chuva, ficamos com as roupas molhadas muito tempo.
Todos silenciam tentando entender o delírio de Zeca. O menino começou 
a se mexer com Veemência.
Todos correm para junto dele na tentativa de entender o que ele diz.
O pai de Luiz fala com preocupação: Este menino não está acostumado 
com a vida no campo, por isso adoeceu.
Zeca fala sem ser compreendido:
- Mamãe, mamãe!
- Veja o quadro, entrei nele e agora não posso sair!
- Quero voltar, me tira daqui!
- Tenho saudade. Saudade, saudade!
Luiz tenta interferir, inutilmente:
- Você fala com quem?
Luiz já banhado em lágrimas.
-Quem é sua mãe?
- Que quadro é este?
São muitas informações que Luiz tenta entender e não consegue, 
pois seu conhecimento é limitado.
Implora ao amigo que fale com ele:
- Sou eu, Luiz, não lembra?
- Você prometeu não me esquecer.
- Sem você voltarei para o ninho e ficarei tão só.
- Olhe! Quero lhe mostrar tudo que aprendi com você.
As estrelas têm luz própria.
- O sol é uma estrela.
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- Você me ouve, Zeca?
Luiz se afasta do amigo, chorando copiosamente, pois parece entender que 
está  perdendo o amigo.
Zeca recomeça o delírio:
- Preciso ir embora, mamãe, o anjo, vou nas asas do anjo.
-Não tem nome, é anjo com cara de menino, vou com ele, vou nas 
asas.
- Adeus! Senhora, seu café é cheiroso, cuide bem da Linda moça 
nova.
- Senhor magro, cuidado com o jacaré.
- Luiz fica na janela onde nasce o sol.
Luiz aproxima-se do corpo febril do amigo e chorando aperta a sua mão e 
fala em sussurro:
- Leva-me.
Zeca, embora fora de si, por conta da febre, parece não entender:
- Este mundo é seu, tão perto das estrelas, tão perto dos anjos.
Luiz soluçando:
- Não vá menino do outro mundo.
- Adeus menino das estrelas,
Zeca acalma-se por conta do chá, mas adormeceu profundamente.
Fim
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          De repente, espreguiçou-se diante do quadro, passou a mão pelo 
pijama, olhou para os  pés calçados em meias. Olhou para a janela, o sol 
vinha nascendo, desbravando o dia cheio de aventuras.
Achou-se estranho, e com um sentimento de saudade, de algo 
inexplicável, olhou para a, cozinha, atraído pelo cheiro forte do café, 
correu em direção ao aroma.
Exclamou:
- Mamãe!
A mãe admirada:
- O que você esta vendo neste quadro que lhe deixou tão 
concentrado diante dele?
Zeca sorriu:
- Mamãe, estou chegando de uma longa viagem ao quadro, lá tem 
vida, as pessoas são gentis.
A mãe fingindo acreditar:
- Que coisa inusitada, peça licença aos amigos gentis, tome banho, 
vista a farda.
- É hora de escola.
Zeca confiante;
- É preciso aprender muitas coisas, a escola não ensina tudo,
- É bom saber coisas do céu, para quando eu for novamente as asas 
do anjo, ele se orgulhar de mim.
A mãe, sem dá importância grita:
- Marina, desocupe o banheiro, que temos aqui um garoto viajado, 
cansado e  conversador e que precisa ir à escola.
A irmã aparece na porta da cozinha enrolada na toalha e reclama:
- Ei, Zequinha, está virando lobisomem?
- passa a noite deitando e levantando e saindo para a cozinha.
A mãe com ar de preocupação:
X
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- É a tecnologia. O Zeca está sem freio. Ligado direto. Tem sonhos 
estranhos.
- Sabe o que ele me disse, Marina?
Marina pergunta:
- O quê?
- Deve ter sido algo hilário. Não?
A mãe responde;
- Ele entrou no quadro da sala, aquele que veio do Rio de Janeiro, 
conheceu pessoas  gentis e viveu aventuras e até sobrevoou nas asas de um 
anjo.
Marina demonstra compreensão:
- Deixe mamãe, são sonhos, para criança da idade do Zeca tudo é 
possível. Ao afastar-se da cozinha, Marina passa em frente ao quadro já tão 
antigo e curiosamente  fica parada, observando, quando Zeca entra na sala 
e toma um susto;
- Má! Saia daí! O quadro é encantado.
-Encantado. Entendeu?
Mamãe grita da cozinha:
- Vai ser mais uma para viajar nas asas de um anjo?
- Chega!
- Pé no chão!
- Vida real!
- Era uma vez!
Zeca aproveitou a ausência de Marina e o silêncio de mamãe e deu 
uma última olhada  no quadro e percebeu que o menino da janela, onde o 
sol nasce acenou para ele. Um aceno que o fez parar. A mãozinha 
espalmada, onde somente os dedos se mexem.
Zeca com muita saudade piscou o olho direito para ele, num adeus 
que eles entendiam o tamanho da dor. Sussurrou baixinho, olhando para 
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os lados conferindo se não havia ninguém e:
- Adeus, amigo!
- Eu volto no próximo sonho.
Fim
61


O tempo passou rápido  demais, Marina casou com  Roberto e foi morar 
muito longe. Dificilmente ela aparecia para nos visitar. Em nossa casa ficamos 
eu e mamãe, não podia deixá-la, a solidão fazia muito mal à ela. 
Um dia, saí para trabalhar, na porta, ela me fez um estranho pedido:
-Meu filho, eu estou triste por que sei que vou morrer e vou lhe 
deixar sozinho, gostaria  que você arranjasse alguém que o fizesse feliz. 
Neste dia, percebi que já não era mais aquela criança que sonhava e tornava 
as aventuras 
gostosas realidades.
Tornei-me um homem sozinho, e muitas vezes, me deparei parado 
na frente do quadro que permanecia na sala da minha casa. Penetro o olhar, 
de forma tão verdadeira, que chego a misturar a minha vida, como dizia 
a minha mãe em minha infância:
- Temos que ter pé no chão.
- Meu pé no chão, com a vida que eu poderia ter tido no Paraíso 
esquecido por Deus.
Quando olho para o quadro velho que nunca saiu do lugar.
Fico me perguntando:
- Será que o Luiz ficou como eu?
- Vivendo só do sonho?
 Minha mãe, aquela mulher que mantinha o comando da casa e das nossas 
vidas em suas mãos, depois do falecimento de meu pai,  quando eu tinha 
apenas três meses, portanto,  não cheguei a conhecê-lo. Agora, era minha 
filha, falava baixinho e não me dava mais ordens. E me questiono:
- Como terá ficado a senhora Gorda depois de tantos anos?
Neste momento estou diante do quadro pintado a óleo na sala da minha 
casa, cuja  vizinhança não cansava de ter elogios a sua beleza e riqueza de 
detalhe, esta história você conhece. o que vai ser novidade é que diante do 
XI
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