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Olhava atentamente para o quadro pintado a óleo da sala da minha 
casa. Posso detalhá-lo de maneira precisa como se eu mesmo fosse o autor 
desta obra tão nítida. Árvores verdes, altas e frutíferas, deixavam-me a 
impressão de que elas estavam balançando ao sabor do vento. No chão, a 
relva que abrigava aos insetos diversos e de multicores parecia que havia 
um colorido feito a lápis de cera.
A casinha. Há! A casinha, com telhas avermelhadas e dos fundos 
saía uma chaminé com fumaça acinzentada e faíscas incandescentes que 
subiam pelos ares.
Na fachada uma porta estreita e uma janela voltadas para o nascente.  
O sol amarelo lançando seus raios como se estivesse sorrindo.
Surgiu pelo caminho uma estrada de pedra e andando por ela um 
homem alto, magro, feioso, branco, conduzindo uma vaquinha e um 
bezerro.
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SALVEI-ME NAS ASAS 
DE UM ANJO
I


O cãozinho era uma companhia fiel ao lado do homem; dando latidos 
inibidos para mostrar que ali estava em defesa do amigo.
Ao lado da pequena morada galinhas, pintinhos e outras aves faziam 
a festa, pois, no quintal havia uma mulher gorda, baixa e de avental, que 
pelo aspecto há tempos não o lavava, seus chinelos de dedos arrastando 
fazia barulho como se quisesse impor sua presença, ela jogava milhos para 
os bichos que corriam para seus pés com urgência para se alimentar.
O céu tão azul, com nuvens a se confundir com lindos bordados 
feitos nas almofadas de renda de bilros em cor branca e delas poderíamos 
até criar estampas diversas como: carneirinhos, anjos e quem sabe até um 
rosto humano, é a imaginação quem manda. Continuei com os olhos fixos 
no quadro, parece que sai de mim de tanto tentar dar vida aquela cena que 
fora presente de natal que uns parentes de minha mãe haviam trazido do 
Rio de Janeiro, era motivo de admiração e elogios por todas às pessoas que 
entravam na minha casa.
Meu pai se orgulhava e fazia comentários sobre a riqueza de 
detalhes observada na obra de autor desconhecido que por muito tempo 
enfeitava nossa sala.
12
Fim


Era cedo ainda e já se podia contemplar os primeiros raios de sol 
pelas venezianas da janela, acordei com sede e levantei-me devagar para 
não acordar Marina que ressonava em uma  beliche superior, calcei as 
meias e saí pé ante pé, a sala estava clara, não precisei acender um toco de 
vela que minha mãe sempre deixava ao alcance de nossa mão em caso de 
blecaute, não entrarmos em pânico.
De repente uma voz distante:
 - Zeca.
Olhei para os lados e não vi ninguém.
Lembrei-me do meu pai dizer que homem não pode ter medo, medo não é 
coisa de homem.
Pensei:
- Ora bolas, tenho que ter medo, só tenho dez anos, ainda nem uso 
calças compridas.
- Tenho medo sim.
E a voz insistiu:
-Aqui, Zeca, no quadro.
Retruquei espantado:
-No quadro!
- Quadro não fala.
Esfreguei os olhos, deveria está dormindo em pé.
Era Luiz, um menino que surgiu na janela onde nascia o sol. Sorriu para 
mim como se me conhecesse. Acredito que me conhecia mesmo. Há  quanto 
tempo aquele quadro não estava plantado ali na parede?
O garoto franzino e risonho me fez o convite:
- Zeca, quer vir brincar aqui?
- É só pular.
-Olha a relva macia e a areia pra jogar bola!
13
II


Num piscar de olhos estávamos montados no lombo de um burro 
aos galopes pela estradinha de pedras.
Luiz ouviu a voz de seu pai:
Aquele homem magro do quadro, agora ali tão perto e verdadeiro.
- Filho!
- Cuidado com o garoto, ele pode não está acostumado com a vida 
do campo.
Olhei para trás e gritei:
- De tanto admirar a paisagem do quadro na sala de minha casa, já 
conheço bem os caminhos, aprendi muito com o meu imaginário!
O homem deu uma risada. Entrou em casa com o botijão de leite 
ainda quentinho. Encheu um copo e tomou.
De longe avistávamos a chaminé soltando fumaça, certamente era a 
mulher de avental preparando quitutes deliciosos para a família.
Ela saiu para o quintal, foi ao poço e de lá puxou água para matar a sede 
dos animais. Falava com cada um com muito carinho e cheia de graça:
- Malhada, venha beleza, tomar água para fortalecer seu leite e 
alimentar seu bezerrinho. -Venha depressa.
- Oh! Bolinha de lã! Como está fofinho, meu carneirinho, faça mé, 
mé, vamos, faça!
- Peludo! Cãozinho amigo, olha lá sua vasilha!
- Está cansado. Não?
- Este caminho é tão longo.
E continuava a falar palavras de carinho para todos:
- Linda moça nova, galinha poedeira, quero fazer muitas omeletes.
E para os pintos amarelos, pingo de ouro e para os pretinhos, pérola negra,
 e  assim, a mulher ia conquistando cada um.
14
Fim


Tomamos banho no riacho de água cristalina, nem me importei por 
não está com roupas apropriadas.
Pulávamos feito piabas, saltos rápidos e a água subia, tão limpa e 
brilhante que suas bolhas pareciam pérolas.
Luiz apoderou-se da linha, anzol e isca e jogou na água no afã de 
encher o cesto de peixes, fez inúmeras tentativas e nada, o sol muito 
quente, queimava as maçãs de nosso rosto sem piedade.
O menino do quadro decepcionado:
- Eu tentei, queria que você provasse como é saboroso o peixe daqui.
Consolei-o dizendo:
- Que nada, você é um grande pescador.
- Acho que os peixes estão descansando.
- Quem sabe amanhã, eles não saem de suas locas?
Deitamos na areia branquinha do riacho, jogando as pedras frias pra 
dentro, aproveitando a tranquilidade do ambiente perguntei:
- Luiz, onde fica a escola?
- E a praça?
- Por onde você passeia?
Ele fitou-me e senti um vazio em seu olhar.
- Vamos diga!
O menino falou:
- Não há nada disso aqui.
Continuei:
- Não sabe ler?
- E as histórias não sabe contar?
- Nunca ouviu?
Luiz admirado:
 -E você sabe histórias?
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III


- Quais?
- Você pode me contar?
Demonstrando alegria:
- Claro, muitas, posso lhe ensinar.
- Vou lhe contar muitas histórias e então, você verá como o mundo é 
grande.
- Vai muito além do que nós sonhamos.
Luiz ouviu de longe o grito de sua mãe, aquela Senhora gorda de avental 
surrado:
- Filho!
- Guarde o animal e se prepare para o almoço.
Pegamos o burro e levamos para o estábulo, demos água e capim, 
fechamos a porteira e saímos com a vara de pescar e nenhum peixe.
Estávamos queimados de sol, mas, nenhum cansaço ainda tinha muito a 
descobrir naquele dia.
Luiz não escondia seu contentamento, olhava para mim com muita 
admiração como se eu fosse do outro mundo. Talvez ele ainda não tivesse 
se dado conta de que eu vinha realmente do outro mundo.
Percebi com muita estranheza que todos me olhavam sem fazer pergunta 
como se eu já fizesse parte daquela realidade cheia de fantasias.
Cheguei a pensar:
- Será que não desconfiam que eu venha de outro mundo?
Fomos nos aproximando daquela casinha de porta estreita , na sala 
uma mesa com três cadeiras de madeira e o assento de couro de carneiro, 
o corredor comprido nos conduzia à cozinha. Sobre a mesa uma 
diversidade de frutas que davam um colorido especial ao ambiente.
A Senhora de avental abanava as brasas do fogão à lenha ateando o 
fogo para apressar a refeição.
16


Dirigiu-se a mim com estranheza, foi o primeiro momento em que 
percebi que não era daquele lugar:
  - De onde vem, menino?
Luiz não me deixou responder, trocou o tema da conversa.
 - Vamos lá, me fale das histórias que você conhece.
Olhei a Senhora de avental surrado, fiquei atrapalhado, porém tentei 
começar:
 - Eu... Eu... Já li o livro de um menino que... que...queria desenhar 
uma jiboia, contudo, quando ele mostrava  para as pessoas sua arte 
ninguém entendia, sendo motivo de muita angústia e fez inúmeras 
tentativas, mas, até que...ah! Esqueci o resto, só sei que ele era um príncipe 
pequeno.
- Um  príncipe, menino?
- Acho que sim. Zeca demonstra cansaço.
O olhar daquela senhora me deixava desconsertado, quem sabe, ela 
já sabia que eu era de outro mundo. O almoço servido nos pratos, 
estávamos com muita fome, ficamos tempo demais pescando no riacho, 
inutilmente.
Saboreei a refeição.  Incrível o sabor!
Minha mãe diz que o melhor tempero para a comida é a fome, pode 
ser verdade, mas  não neste caso.
Tomamos suco de goiaba. A fruta fora tirada do pé pelo homem 
magro e feioso.
As goiabas eram enormes, amarelas com o interior vermelho, o suco 
muito gostoso lembrou-me Marina. Ela gosta muito de goiaba.
Fiquei pensando:
- Depois do almoço, qual seria o próximo passo? Sem nenhuma 
inibição perguntei ao Luiz.
17


Ele deu resposta imediata através de gestos.
Juntou as duas mãos espalmadas e as colocou no lado do rosto e inclinou a 
cabeça.
Falei sorrindo:
 -Dormir...
Juntos demos uma grande risada.
Na casinha de porta estreita, não percebi que tinha amplos alpendres 
com redes armadas. Sentei em uma com cuidado por não ter costume de 
dormir em uma delas.
Luiz deitou-se muito à vontade e deu muitos balanços altos que dava 
a impressão de estar em um parque de diversões, disso eu entendo bem.
- Na sua casa é assim? Perguntou Luiz.
- Não. Temos beliches, ou seja, camas duplas, utilizamos escadas 
para subir.
- Eu não descanso muito, porque estudo pela manhã e à tarde, faço 
os deveres da escola.
A professora passa muitos, muitos deveres.
A tarde chegou e com ela um vazio no meu coração, sem entender o  por 
quê.
Ansioso por querer saber qual seria a próxima aventura.
Luiz ouviu sua mãe lhe chamar:
- Acompanhe seu pai.
Luiz me lançou um olhar convidativo. Imediatamente, compreendi a 
mensagem e de um pulo já estava na estrada de pedras, nem procurei 
chinelos, acredito ter feito esta viagem com os pés descalços.
Perguntei curioso:
- Para onde vamos?
Ele sorriu brincando:
18


- Não tenha medo. Tudo aqui é previsível.
O dia faz a troca com a noite, sem consulta, quando olhamos para o 
céu a lua chegou sem pedir licença e assim todo dia é o mesmo dia.
Exclamei:
- Será que vocês não tem sono?
- E o amanhecer?
Acompanhamos os passos do homem magro para guardar a 
vaquinha e o bezerro.
- Entre aí malhada, leve seu filho.
A vaquinha entrou sem questionar.
Mais à frente abriu o chiqueiro das galinhas, linda moça nova, sempre no 
comando dos pintinhos.
Passamos no estábulo, lá estava o burrinho recolhido para a lida no dia 
seguinte.
Bolinha de Lã latia e corria com rapidez.
Retornamos para a casa para o banho e nos preparar para ver a chegada da 
lua.
Ao nos aproximarmos da casa, olhei e vi a chaminé trabalhando e pensei:
- Que cheiro de café!
Quando chegamos à cozinha, pratos cheinhos de sopa e a fumaça subia.
- Que delícia!
Lembrei-me da minha mãe e quis chorar, todavia Luiz chega aos 
gritos:
- Ei, menino do outro mundo!
Já estou folgado. Agora quero que termine a história do príncipe menino.
- Ah! Podemos deixar para depois?
- Estou com uma saudade não sei de quê.
- Vou tentar descobrir a razão do meu vazio.
Fim
19


O homem magro e feioso saiu de casa no final da tarde, certamente 
para pescar, pois, conduzia a  vara e o anzol. Ia ao riacho de água cristalina, 
que eu também não via no quadro.
Camisa aberta, calça dobrada até o joelho, seguiu pela estrada de 
pedra, esta, sim, eu via com clareza na pintura a óleo.
Andou, andou, até desaparecer ao longo do caminho.
Quis segui-lo, porém  a Senhora gorda achou por bem esperá-lo.
Enquanto isso, ela foi ao coqueiro subiu sem pedir ajuda e com as mãos 
tirou dois cocos e os colocou no bolsão do avental, num piscar de olhos ela 
saiu escorregando, escorregando pelo tronco e pisou no chão diante dos 
meus olhos apavorados.
 Exclamei:
- Incrível!
Quase sem acreditar no que tinha acabado de ver. Em seguida, pegou o 
marisco e raspou os cocos e, vez por outra, cantava:
- Volta jangadeiro amor meu.
- Estou preparando o tempero para 
-Para o peixe que peixe que é todo teu.
lá, lá, lá...
e o marisco dava a melodia aos versos.
Pelo contentamento da boa senhora, ela aguardava uma boa 
pescaria, leite de coco e verduras cortadas.
De longe, uma voz quase imperceptível parecia em apuros:
-Socoooooooooooooooorro!
-Socoooooooooooooooorro!
-Quem me há de acudir?
O tempo parou. Ficamos em silêncio a ouvir para saber de qual direção 
vinha aquele apelo.
IV
20


A senhora de avental foi até o alpendre e nós lhe acompanhamos.
Ela olha para Luiz com aflição:
- É teu pai.
- Vamos até lá.
Luiz reluta:
- Mas não sabemos que direção tomar.
Ela, em passos largos, é por ali. E seguiu na  estrada de pedra  e  fizemos 
carreira.
-Pernas pra que te quero?
De longe, ela reconheceu o homem magro, espichado no chão.
Luiz, coitadinho, banhado de lágrimas e com voz trêmula, soluçava em 
desespero.
A mulher indaga com urgência:
-O que houve homem de Deus?
- Tu gritando desse jeito?
Ele, confuso, apontou para o riacho, porém o nosso susto não fora 
menor, pois na beirinha da água, podíamos visualizar uma cabeça grande, 
quase fora da água e um vulto de um corpo comprido como se fosse uma 
calda, parado indiferente a tudo que o rodeava naquele momento.
- Meu Deus! Exclamei apavorado.
Luiz murmurou:
- Um jacaré!
Nos entre olhamos e a imaginação foi pelos ares.
Pensando no perigo a que fomos submetidos durante a manhã de nossa 
pescaria.
Ainda imóveis, não sabíamos como superar aquele vexame, pois 
para a região não era um evento comum.A tremer de medo, fomos ficar 
próximo do casal que também estava em pânico.
21


Perguntamos ao homem magro:
- O  senhor está ferido?
Ele nos olhou com olhos de pavor:
- Foi por pouco, no primeiro lance, ele engoliu a isca com vara, anzol 
e tudo, não comeu a minha mão por que fui rápido demais e o deixei só 
querendo.
Exclamamos:
- Graças a Deus!
A senhora gorda e de avental lamentou:
- Adeus peixada, vamos para casa comer os ovos da linda moça 
nova.
Não deixei por menos:
- Ei, Luiz, que lugar previsível é este?
Ele sorriu:
- Confias!
No caminho para casa o homem feioso ia amparado pela mulher.
Fui tomado por um pensamento insistente:
- O que podemos fazer para liquidar com este jacaré?
- Caso contrário não vamos mais tomar banho no riacho.
-E pescaria agora só se for de jacaré.
Apelei para Luiz que estava se recuperando do susto:
- Você não acha que deveríamos pedir ajuda?
Ele ainda atônito; choramingando:
- Impossível. Aqui é muito longe de tudo, chamam até de paraíso 
esquecido por Deus.
Temos que aguardar um tempo até o jacaré cansar de esperar pela 
próxima presa. Quem sabe toma outro rumo e nunca mais volta.
Nesta noite a fumaça não será vista na chaminé. Este episódio deixou 
22


todos com poucas palavras e ações.
Tomamos banho e sentados, à mesa, em silêncio profundo, 
comemos os ovos da linda moça nova com pirão.
O homem magro nada colocou na boca, estava pensativo e arredio
acredito que este pavor que sentira devia ser singular em sua vida.
Levantou-se do assento de couro e saiu em busca de acolhida no 
quarto do casal.
Quando chegou à porta, olhou para nós e falou em tom de preocupação:
- Eh... pequenos, de agora para frente, todo cuidado é pouco, em busca de 
peixe.
E desapareceu porta adentro.
A senhora gorda, um pouco mais tarde, passou por nós com uma 
xícara coberta com umas folhas verdes, quem sabe era um chá para 
acalmar o homem.
Fim
23


Passado  o  susto,  a  Senhora  de  avental  sentou-se  à  mesa  conosco  e 
começou a contar que, antigamente, para as bandas do paraíso esquecido por 
Deus, viveu um feiticeiro, cuja casa ficava às margens do riacho, dizem que 
ele tinha um grande caldeirão e que seus dias e noites eram reservados para 
fazê-lo  ferver.  Uma  vez  ou  outra  saia  pela  mata  em  busca  de  ervas  para 
preparar misturas e fazer feitiços.
Um dia, sexta-feira, era dia treze, ele colocou tanta coisa na fervura 
que o caldeirão foi aos ares, explodindo com casa, feiticeiro e tudo, dizem 
que era meio - dia e que de longe se avistava as tochas de fogo que o vento 
levava.
Luiz espantado, indagou:
- Esta história eu nunca ouvi ninguém contar.
- E depois o que aconteceu?
Eu arregalei os olhos para o lado da mulher:
- Misericórdia! Sangue de Cristo!
Ela deu continuidade ao relato e nós esquecemos os pratos.
- pois é isso é coisa do povo antigo.
Luiz  ansioso:
- Continue, mamãe.
E a narrativa discorria:
-Ele andava pelas redondezas, pedindo ajuda a um e a outro. 
Dizem que com as doações fazia as mandingas, feitiços para prejudicar o 
povo do lugar.
Os moradores resolveram não ajudar mais, pois na casa onde ele 
andava, morriam os bichos que lá tivesse.
Morria gato, cachorro, galinha, carneiro, vaca.
Até uma moça que criava um sagui e andava com ele no ombro, um 
dia, o feiticeiro  olhou e o bichinho amanheceu o dia morto. 
V
24


Depois destes fatos a população resolveu não ajudar mais e, com o tempo, 
ele foi se isolando, todo mundo com medo foi se mudando daqui.
Vivendo sozinho, lá perto do riacho, até os peixes foram desaparecendo de 
lá e o riacho foi engolido pelo mar.
Certo dia, fazendo feitiçaria, descobriu uma porção que o 
transformaria em um bicho feroz e depois de experimentar a dose e jogar 
restante no riacho, ele criou água demais e surgiu um enorme jacaré.
E para acabar esta história, o bicho vem reclamar as coisas que o feiticeiro 
perdeu.
Nós mesmos nunca tínhamos visto o jacaré encantado. Agora 
deveremos ter muito cuidado, antes era só lenda, porém agora nós vimos 
de perto com nossos olhos que a terra há de comer um dia.
O dia fora muito puxado, cheio de aventuras, esta conversa de lugar 
previsível, fica uma dúvida, somente o tempo dará a resposta.
Olhei para o corredor da cozinha, vi uma escuridão de amedrontar, mas 
caminhei até a sala.
Era uma noite em que a lua resolveu repousar, mesmo assim 
conseguia vê a areia branquinha ao redor, o céu estava muito alto, eu 
jamais tinha percebido que ele se afastava da terra. Fiquei imaginando os 
quilômetros de distancia, não consegui e pensei:
- Puxa vida, isso é incalculável para a minha idade.
Nesta noite as estrelas combinaram lá no céu, para surgirem todas de uma 
vez. Com espanto meus olhos não cansavam de admirar aquele tecido todo 
bordado em linhas de prata com pedras de brilhantes e eu apontava com o 
dedo indicador:
-Ah! Todas as formas e tamanhos!
O céu corria de um lado para o outro incansavelmente, comparo a passos 
de dança.
25


Minha cabeça, meu pescoço e meus olhos não aguentaram o 
movimento do céu, era um ritmo que eu desconhecia.
Deitei na areia branquinha, de olhos para cima, toquei no solo bem 
limpinho, era uma viagem em que poucas pessoas se disporiam a fazer, 
acompanhar o passo do firmamento.
Com a respiração ofegante de tanto tentar acompanhar as peripécias 
celestiais, não percebi que havia uma sombra escura por trás de mim, ao se 
aproximar, aquele manto branco, com os orifícios dos olhos faiscando em 
brasa e gestos muito rápido nos braço como se fosse voar a qualquer 
momento.
Arregalei os olhos, de súbito, andei para trás me arrastando no chão 
como um caranguejo, lá na frente, fiquei de pé e não economizei a 
garganta:
- Não!
- Socorro, socorro, socorro!
- Acudam-me, um fantasma!
- É o feiticeiro da caldeira, veio me buscar!
-Socorrrrrrrrrrrrrrrrroooooooooooooo!
O vulto parou na minha frente. Pensei:
- não posso mais gritar.
- Vou acalmar o sangue e tentar falar.
Com voz de pavor, enfrentei, tentando uma conversa amistosa.
- Acho que não há diálogo entre fantasma e menino.
Embora muito assustado, disse:
- Senhor feiticeiro, boooa noite!
- O riacho é pra lá.
O feiticeiro fazia:
- UUUUUUUUUUU ! Na minha direção.
26


E olhou para trás, sempre com as asas ao vento.
De repente se utilizando do fator surpresa, correu para cima de mim.
Num fôlego único, corri pra dentro da casa sem destino certo e aos berros:
- Não, senhor feiticeiro!
Estava tão aterrorizado que caí no colo da senhora gordo e de 
avental surrado.
Banhado em lágrimas, o feiticeiro olhou para mim e soltou uma rizada 
ensurdecedora e foi logo tirando os tocos de velas que estavam em seus 
olhos e jogando para longe o manto que o cobria, ouvi a voz de Luiz:
- Corajoso amigo do outro mundo?
Forçava a visão sem acreditar que era o menino franzino do quadro que 
me pregava esta peça.
Olhei com mais calma e falei:
- Esta brincadeira é de mau gosto, não gostei,   imaginei que fosse o 
fantasma do feiticeiro em busca das coisas perdidas na explosão.
- Cheguei a pensar que seria enfeitiçado igual ao jacaré.
A senhora de avental, pela primeira vez, me lançou um olhar de carinho e 
ralhou com  Luiz austeramente:
- Meu filho, com amigos não fazemos estas travessuras, tenha 
cuidado, às vezes, por conta dessas brincadeiras perdemos a oportunidade 
de conservar bons amigos.
Luiz de cabeça baixa aproximou-se de mim:
- Desculpe-me, vamos contar as estrelas?
Olhei para ele e senti que seu arrependimento era sincero e me adiantei:
Fim
27


Conheço tudo do céu, estrelas, planetas, constelação, meteoros e... 
Nem sei mais o que.
Luiz encantado:
- Você é amigo das estrelas?
Zeca já recuperado do susto:
- Não. Eu já estudei sobre os astros na minha escola.
Luiz ainda curioso:
- Acredito que, quando conhecemos a pessoa ,é porque, somos 
amigo dela. Não?
Continuei com paciência:
- As estrelas não são pessoas, são astros iluminados, elas têm luz 
própria, quase não percebemos o seu deslocamento, chegamos até a pensar 
que é o céu que anda, mas, na verdade, são os astros que fazem a 
caminhada. Você entende?
Luiz demonstrando interesse:
- Entendi. Fale mais, quero saber tudo sobre os astros.
Pensando bem a escola me deu a oportunidade de conhecer tudo isso, na 
aula de ciências.
Já tenho dez anos, já faço o quarto ano sempre me interessou o 
estudo da astronomia, sentia-me bem poder passar para Luiz tudo que 
aprendi, pois ele vive distante de tudo, é outro mundo.
De repente, encontrei uma maneira de explicar melhor.
Peguei um graveto e comecei a desenhar o sistema solar, não sabia tudo, 
mas, aos poucos, fui lembrando;
Na areia branquinha desenhei um sol feliz e sorridente rodeado de 
raios.
E aos poucos foram surgindo os planetas.
 - Vamos falar de estrelas.
VI
28


Luiz animado:
- Quero saber tudo do céu.
Zeca, solícito, coloque-se à disposição:
- Além das estrelas que já lhe falei, também há os planetas.
- veja os planetas, são onze, todavia só lembro-me de alguns.
Zeca desenhou uns círculos em diversos tamanhos, veja, estes são 
planetas, eles não têm luz própria e giram em torno de uma grande estrela 
e é ela que empresta luz para eles.
Luiz compreendendo:
- Se o sol fosse estrela. Ele poderia emprestar?
Zeca satisfeito:
- Claro. O sol é uma estrela.
- Valeu! Dr. Sabe tudo, está aprendendo mesmo.
-PARABÉNS!
Neste momento, os meninos celebram o grande aprendizado com um 
toque de mãos abertas, posição frontal e com a devida força para um 
rápido estalo.
O pequeno aprendiz não tirava os olhos negros e brilhantes do chão, 
acompanhando. Assim, todos os gestos realizados por aqueles pequenos e 
ágeis dedos.
Luiz apresenta um grau de curiosidade peculiar nas crianças, elas 
conseguem fazer uma tempestade de perguntas ao mesmo tempo.
- E agora o que você está desenhando?
Zeca, orgulhoso de si mesmo, responde com categoria:
- Desenhando os planetas.
Luiz olha para o céu e indaga baixinho:
- Como poderia identificar os planetas?
A resposta chega veloz:
29


-Não pode. Nossos olhos são pequenos demais para realizar este 
feito. Nós não temos olhar de gavião.
Zeca convenceu Luiz de que o céu é muito longe para ter visão exata 
das coisas, temos que usar um instrumento, que coloca no olho e tem uma 
lente que torna as coisas pequenas em grandes. Solicitou que ele olhasse 
para os desenhos com atenção que já era de grande ajuda.
Começou a nomear os planetas:
- Veja, este é Plutão. Ele é bem pequenino,  chamam-no  até de anão.
- Terra é o nosso planeta. Luiz, você vive na Terra. 
Nosso planeta é diferente, ele tem água, ar e muita natureza. Por isso, 
vivemos aqui, mas, os astronautas, eles vivem viajando no espaço para 
descobrir novidades pelo céu.
Zeca, com convicção:
- Fique sabendo que o homem já foi à lua e voltou, e outros também 
foram, e já  voltaram e ouvi dizer que ainda vamos fazer passeios incríveis. 
- já imaginou arrumar as mochilas e viajar numa imensa neve 
espacial com destino a lua? 
 
-Olhe, Saturno, ele é diferente, não é só redondinho não, ele tem uns 
anéis e é bem perto do sol.
Luiz se manifesta:
- Então lá não tem inverno e  nem primavera, as flores não nascem e 
nem as frutas.
- Deve ser difícil viver lá.
Zeca concorda:
- É verdade. Onde não há chuva, é impossível viver.
- Zeca, e os dedos sãos para Saturno usar os anéis? 
Pergunta Luiz,
-Ora, meu rapaz, não seja bobo. Saturno não é gente, 
30


anéis é um nome inventado para diferenciá- lo dos outros, talvez.
- Agora, Marte! O planeta vermelho, dizem que tem gente por lá, ele 
é bem pequeno.
Comecei abrir a boca, bocejando de sono, pedi ao  meu amigo que 
me arranjasse um abrigo para repousar, sentia-me cansado.
Ele se negou, pois, com certeza, eu havia tirado uma venda dos seus 
olhos inocentes. 
Acredito que ele olhava para o céu, porém, não  percebia seus mistérios e 
grandeza.
Luiz me parecia alguém com sede de saber coisas novas e eu, senti 
necessidade de ajudá-lo.
 Naquela noite, eu estava encerrando os ensinamentos.   
O sono estava-me vencendo, embora soubesse que para ele, esta busca em 
conhecer o céu. que o acompanhava a vida inteira era uma forma de 
desvendar e trazê-lo para um mundo mais real.
A partir de agora o firmamento será como um véu  que a cada 
ventania se abrirá numa nova faceta.
Morto de cansado e tentando compreender a euforia de Luiz, com os 
olhos insistindo em fechar, ele me cutuca com força:
- Veja lá! A lua apareceu. Ela resolveu iluminar o céu que eu não 
conhecia, esta noite e fora de hora.
Ouvi a voz da senhora gorda:
- Luiz, hoje o dia foi comprido. Vamos nos recolher.
- Traga o garoto com você.
Agradeci a Deus por estas palavras, agora ia poder me deitar e 
descansar.Levantei-me da areia branquinha me batendo com as mãos para 
tirar a areia do corpo,  pulei para me livrar da sujeira.
Por alguns instantes, pensei : Se minha mãe estivesse aqui, eu 
31


ouviria:
- Olha o banho! Direto para o banheiro. 
Dormi profundamente. Assim imaginava.
Fim
32


Uma voz baixinha ao meu ouvido.
- Zeca, olha que clarão lá no terraço, parece ter alguém procurando 
algo, veja a lanterna de cor verde.
Sonolento, o garoto retruca:
-Por favor, vamos dormir, estou morto.
- Você duvida! Dá uma olhadinha pela janela.
Nem me mexi, somente olhei pelo canto do olho.
Pulei da rede, sem acreditar que aquele povo não tinha noite e nem dia.
O clarão estava dentro do quarto. Luiz caiu na cama, e eu imóvel,
ouvi outra vez a voz, porém não era do amigo, que deveria ter morrido de 
pavor.Até meus pensamentos estavam atrapalhados, pois a luz ofuscante 
não dava chance nenhuma  para formar uma ideia.
Em dado momento, a luz se afastou um pouco, aí pude ver o que se 
passava naquele ambiente.
Pairando sobre a areia branquinha um objeto não identificado, 
brilhando e piscando muitas luzes e de forma oval, percebi uma portinha 
aberta, dela saiu um ser pequenino.
Todo vestido de verde, o homenzinho caminhou em rumo a janela, 
com dificuldade colocou a cabeça, olhou firmemente com os olhos 
esbugalhados  em minha direção, e de súbito, corri para onde estava. Luiz 
e exclamei:
- O que é isso?
- De onde surgiu esta criaturinha estranha?
Luiz mais assustado do que eu:
- Sei lá. -Será que não é seu amigo das estrelas?
Vou falar com ele para me certificar de onde ele vem, porém antes de 
colocar meu plano  em prática ele tentou nos falar: 
- Olá! Parecem assustados. Não tenham medo, eu venho onde me 
VII
33


chamam e vi vocês tão curiosos. 
Resolvi visitá-los.
Luiz meio atrapalhado:
- Não chamei ninguém, estávamos conversando com os astros.
- Você chamou, Zeca? Indagou Luiz.
-Eu!
- Não.
E aproveitando este início de conversa, eu resolvi tomar a frente do 
diálogo, afinal quem entendia de astros era eu.
- Diga meu amigo, o que procura?
O homenzinho levantou os olhos horríveis e disse:
Ah! Ando em um disco voador, aquelas luzes piscando é dele, ao 
passarmos por esta região, vi que estavam  desenhando coisas muito 
parecidas com as que conheço, pois sou do céu.Vocês desenharam a minha 
casa, reconheci de longe.
Juntos, sem acreditar:
- Sua casa!
É eu moro no planeta vermelho.
Há muitos anos visitamos a Terra, mas ninguém acredita. Todos nos 
chamam de Extraterrestre, já estamos acostumados, vocês Terráqueos têm 
medo de nós e estudam onosso comportamento. 
Somos do bem, já levamos muita gente conosco, mas não se adaptaram aos 
nossos costumes.
Agora que vocês mostraram curiosidade, eu pergunto:
- Não querem ir comigo passear um pouco?
- Chegar bem perto da lua?
Eu me manifestei já tranquilo depois das explicações:
- Não quero.
34


-E você, Luiz, não gostaria de ir, quem sabe não ficava mais 
conhecedor e nem precisava mais incomodar meu sono.
Luiz assustado:
- Eu! Estou bem conhecendo só um pouquinho das coisas do céu.
- Olhe, seu cria... não, desculpe. 
- Seu homenzinho, o Zeca é muito estudioso, louco pelas coisas dos 
astros e ele também é um menino do outro mundo.
- Pense, seria a companhia ideal, o Senhor não teria mais trabalho de 
ensiná- lo, ele já é quase professor dessas coisas aí que o senhor fala.
-Amigo da onça! Era só o que faltava depois de tudo que fiz para lhe 
ajudar, ainda me deparo com uma falsidade dessas. Fala Zeca com ar de 
decepção.
-Pois é, Luiz e este seu lugar tão previsível vai me matar do coração.
Zeca, zangado, se dirige ao homenzinho sem medo:
- Olhe, vá por esta estradinha de pedras  lá o Senhor vai encontrar 
outras pessoas, quem sabe não as convida?
- Agora me dê licença pra dormir, tive um dia imprevisível, num 
lugar previsível.  Pulei na rede e deixei os dois lá teimando.
Fui tomado por um profundo sono de cansado.
Logo cedo, esperei que minha mãe me chamasse como de costume e 
nada. Continuei de olhos fechados, buscando na memória o corrido na 
madrugada e lembrava levemente.
Ouvi um bem- te vi- na janela, ele mesmo chamava seu nome, 
pensei:
- Pobre pássaro tem que acordar sozinho e sua solidão o faz gritar 
seu próprio nome.
Ele insistia:
- Bem- te- vi! Bem- te- vi...
35


Continuei perdido na ilusão de que iria ouvir minha mãe dizer:
- Quer perder a hora de escola, Zeca?
E nada.
Aguardei Marina gritar.
- Levanta coisinha lenta.
- É uma lesma!
Ninguém me chamou. Só a insistência do pássaro.
Resolvi abrir os olhos e reconheci que não estava em minha casa, pois não 
temos telhas  avermelhadas e falei:
- Ei! Amigo, acorda, já é tarde, até os passarinhos que não tem nada 
pra fazer  já saíram dos ninhos e haja a cantar.
Olhei pra cama de Luiz, estava vazia e bem arrumada, lembrei da 
visita do homenzinho verde. 
Imaginei:
- O garoto foi levado no disco e a culpa é minha por não  ter 
permanecido acordado.
 -E agora?
- Meu Deus! Traga o meu amigo de volta!
E já chorando, me levantei, de súbito, já preparando uma boa explicação 
para dar a Senhora gorda e o homem magro.
- O que vou dizer?
O homenzinho deixou claro que é desacreditado.
- O que fazer?
Adentrei no corredor da casinha, em pânico, fui logo abordado pelo 
homem magro, que 
voltou-se para mim bem sério e interrogou:
Nesta hora levitei.
36


- Que noite comprida, meu rapaz.
Respondi com os olhos dançando nas caixinhas:
- Dormi muito, estava cansado.
Esperei que ele me perguntasse pelo filho. E nada,
A cada minuto, parecia um século e o Luiz não aparecia.
O homem magro me ofereceu leitinho quente das tetas da malhada, 
agradeci.
Desceu pela garganta que parecia está engolindo pedra.
Saí pela porta da cozinha, nada de Luiz.Resolvi falar:
- O senhor sabe... 
Nem terminei a frase, avistei a senhora gorda com um amontoado de 
roupa na cabeça e Luiz arrastando o burro pela estrada de pedras.
Aliviei o coração, porém não escapei da pergunta do homem magro:
- O que você tinha pra me perguntar?
- Nada, não, senhor.
- Queria saber onde eles estavam.
E apontei para estrada com o dedo indicador.
Continuou o homem:
- Acordamos cedinho, hoje é dia de lavar a roupa da casa e como a 
senhora está com medo do jacaré, foi para um corrente de água limpa que 
fica longe daqui.
- Luiz quis lhe chamar, porém desistiu, disse que vocês tiveram uma 
noite cheia de emoções.
Sussurrei:
- Que emoções, espero está sonhando com tudo isso.
Chegaram, tomaram água do pote e Luiz dirigiu-se a mim:
Pensei até que ia falar sobre o episódio da madrugada, porém desconfio 
que ele não recordou de nada.
37


- Dormiu muito?
- Parecia uma pedra, por isso não lhe chamei.
A senhora gorda, mexe no  botijão do leite, balança e percebe que 
tem pouco.
Dirigiu-se a mim com o bule na mão.
- Tome! Vá fazer a ordenha.
Pensei:
- Ordenha! Quem é a ordenha? Porém de todo modo tomei o bule de 
sua mão e fiquei sem saber para onde ir.
- Vamos, garoto, a malhada está no curral.
Caminhei com o bule balançando na mão, cheguei, olhei para a vaquinha e 
perguntei:
- Vaquinha, me diga o que é ordenha! 
E a vaca mungia, nem sequer me enxergava.
Por instante lembrei-me do quadro e não havia impresso na 
memória nenhum curral, todavia ia tentar realizar a tarefa imposta a mim, 
só não sabia como.
Sem esperar, Luiz aparece de mansinho. Quem sabe para me 
socorrer daquela aflição.
- E aí, vaqueiro? Falou o amigo.
Com olhar aflito supliquei:
-Ajude-me, por favor.
- Vou ajudar você, hoje vai aprender coisas do campo, sou grato por 
me ajudar com as estrelas.
Lembrei-me de perguntar: Luiz recebemos uma visita do outro mundo ou 
sonhei? 
O menino simplesmente olhou para mim e disse com ar de riso:
- Arranjei um amigo que sonha demais.
38


Percebi que era mais um dos meus sonhos incríveis.
Ele me apressou:
- Vamos fazer a ordenha?
Aliviado gritei: - vamos é agora.
Luiz começou a coordenar as instruções:
-Pegue aquele banquinho que está ali encostado na porta do curral.
-Não se esqueça da cordinha para amarrar nas canelas da malhada.
Perguntei: - para quê?
- O bom vaqueiro não faz perguntas, anda ligeiro.
Luiz dono da situação pediu que Zeca amarrasse as canelas da vaca.
Não, ela vai me chutar, vou cair bem longe.
- Que nada, medroso, chegue de mansinho, passe a mão no lombo 
dela, a malhada é uma vaquinha sabida, dócil e amiga.
Zeca tentou:
- Valeu! De primeira acertou.
Luiz aplaudiu o amigo e o resto foi fácil com  ajuda .Encheram o bule de 
leite e seguiram para a casinha pela estrada de pedras, cuja chaminé já ia 
com a fumaça pelas alturas.
A senhora gorda com panelas no fogo e o homem magro fazendo o 
machado gritar na mata, tirando lenha para alimentar mais ainda o fogo.
O  pai de Luiz chegou junto com a gente e sentou-se à mesa com alegria:
-Ora, vejam, o bule cheinho de leite.
- Quem diria!
- A ocasião faz o ladrão, de fraqueza este menino não morre mais.
E foi momento de muita alegria na cozinha.
Passei horas pensando assim:
- A vida é muito divertida, ontem dei aula de estrelas, com certeza 
Luiz jamais esquecerá, hoje tive aulas de ordenha também não vou 
39


esquecer.
À medida que estamos ensinando, também aprendemos.
Zeca esboçou ar de felicidade e todos ficaram curiosos para saber a razão.
Desconversou e convidou o amigo para sair. A mãe de Luiz interferiu:
- Sente e tome mais café com rosca de goma, que acabei de tirar do 
forno, ainda está  quentinha, aproveite. 
Perguntei curioso:
- Como conseguem alimento aqui?
-Não vi nenhum mercadinho.
A resposta veio rápida:
- Ora, ora, bom menino, tudo aqui é produzido por nós. Disse a mãe 
de Luiz.
Continuei:
-E dinheiro. Como ganham?
A senhora respondeu:
-Não. Estamos aqui desde sempre. Estamos vivos  e isso nos basta.
- Nada nos falta.
Fim
40


Luiz percebeu que eu estava muito calado e pensativo, talvez sentindo falta 
do que já  havia dito. 
“falta não sei de quê.”
Já fora da casa, saímos juntos pela estrada de pedras, mas nem 
pensar em passar perto  
do riacho, só de lembrar do feiticeiro, dava vontade de correr, parecia 
perder o comando das pernas.
Puxou um fio de conversa comigo:
- Sabe aonde estamos indo?
Respondi com certa frieza:
- Não faço a menor ideia.
- Mesmo assim vou acreditar que será um bom lugar.
- Desculpe, sempre esqueço que aqui é tudo muito previsível.
- Então, com certeza, vamos fazer tudo o que fizemos ontem, 
tirando somente o episódio do jacaré. Concorda?
Luiz sorrindo:
- Acho que calculei mal esta história de previsível.
Zeca um pouco depressivo;
- Acredito que sim, a menos que hoje apareça um novo jacaré 
encantado.
Luiz sentiu frieza nas palavras do menino do outro mundo e tentou 
consolá-lo;
- Você pode ficar bem tranquilo, hoje vamos ao pomar colher lindos 
e maduros frutos,  mamãe vai fazer doce em compotas. 
De longe avistou as árvores tão verdes e enfeitadas de frutos que 
podem ser comparadas com lindas árvores de natal. Frutos vermelhos, 
amarelos e lilás. Antecipou-se em chegar mais rápido para saborear 
aquelas delicias naturais. 
VIII
41


De olhos fixos no colorido. Exclamou:
- Muito mais belos de perto!
Colocamos o cesto no chão.
Subimos na mangueira, fizemos dela nosso abrigo aéreo.
Ficamos horas a fio pulando de galho em galho.
Os pássaros espantaram-se com a nossa presença, para eles éramos 
intrusos.
Olhei para o chão.
Via-os pipilarem angustiados em busca de alimento para levar aos 
seus ninhos.Fizemos de contas que não compreendíamos a pressa deles e 
continuamos com bravura fazendo dos galhos gangorras e altos balanços.
Percebi que o sol estava muito inibido, pois o pomar tinha uma 
sombra espetacular, acredito que por conta  do dia anterior ter sido muito 
intenso,  ele tenha tirado hoje para descansar de tantas peripécias que 
aprontamos.
As nuvens escuras vagavam com dificuldade, concluí que elas 
estavam muito pesadas, cheias d’agua. Chamei Luiz por um instante, ele 
estava se deliciando com uma linda manga rosa.
- Veja, o céu está muito escuro, já não sei mais se é dia, ou a noite 
chegou cedo demais.
Luiz falou com a sabedoria de quem conhece o lugar onde mora:
- Não é nada disso.
- É muita chuva que não tarda a chegar.
- Vamos embora, o riacho vai encher e tudo que é terra fica cheio, 
não vamos poder passar.
Contemplei o riacho de cima e vi o quanto era linda aquela vista que 
contrastava o verde e o azul do espelho d’agua numa visão panorâmica e o 
céu caminhando em transformação de cores, de azul em cinza.
42


Quando fizemos os primeiros movimentos para descer, eis que a 
chuva não esperou, as nuvens não suportaram tamanho peso da água e 
começaram a vazar em bicas incríveis.E choveu torrencialmente e não 
tivemos mais tempo para descer da árvore, a água caía em tubos de tão 
forte.
De repente tive a impressão de ver o céu se partir ao meio ali 
mesmo, na minha frente, pois, os raios iluminavam aquele pequeno 
espaço, os trovões vinham com tanta força que parecia que a árvore ia ser 
arrancada pela raiz.
Tentamos nos proteger na copa da mangueira e conosco os pássaros 
que outrora pipilavam no solo nos faziam companhia dividindo o mesmo 
cantinho.
Por uma brecha da copa da árvore quase fechada, contemplava uma fileira 
de formigas em busca do formigueiro, embora muito espertas e 
trabalhadoras, não previram tamanha catástrofe e agora tinham deixado 
para trás o alimento colhido para alimentação da colônia por todo inverno.
Quanta rapidez destes pequenos seres que na luta pela sobrevivência 
atropelavam umas  as outras. A chuva caía tão forte e nós permanecemos 
ali na árvore encorujados e morrendo de frio. 
A comunicação entre nós dois ficou quase impossível, nossos lábios 
travaram. Luiz, coitadinho, com dificuldade conseguiu balbuciar:
- A. a... minha mãe deve está preocupada com a nossa ausência, acho 
que anoiteceu.
- Meu pai, com certeza, está entrando e saindo sem parar de tanta 
ansiedade.
- Você faz ideia de que horas são?
Respondi baixinho:
- Não. Acho que anoiteceu, hoje não tem estrelas e nem lua.
43


Zeca, como faremos para nos comunicar? Pergunta Luiz: Eu só estava 
escutando sem vontade de falar, não sabia mais o que dizer, já não pensava  
coisa com coisa.
Estávamos em uma altura privilegiada, do alto poderíamos ver toda a 
região.Lancei meus olhos sobre o riacho, a chuva sobre ele caía pesada em 
quilos.
Sussurrei para Luiz:
- Você consegue vê o riacho?
- Vou tentar, o tronco está muito liso, tenho medo de escorregar.
Luiz deu uma olhadinha e exclamou:
- Deus do céu! Está fazendo ondas.
- Com a chuva, o jacaré vai embora, acho que ele gosta de pouca 
água. 
Zeca retruca;
- Tomara que sim.
Perdemos a noção do tempo, não sabíamos o quanto  estávamos ilhados na 
copa da  árvore.
Pelo cansaço e dormência no corpo, já passou do limite,  a chuva 
não dá trégua e o vento que a trazia   provocava um maneio na árvore.
- Luiz. Chamei com urgência.
- Olha em direção a tua casa, parece que tem uma estrela saindo pela 
janela do nascente;
O garoto se espantou:
- Nossa Senhora! Mamãe acendeu o menorá.
Zeca sem conter a curiosidade:
- Menorá. O que é isto?
- Morde a gente? Na terra do previsível tudo é possível.
Luiz retaliou, imediatamente, estava só esperando a oportunidade:
44


- Não. Assim como as estrelas e os planetas não têm dedos e não são 
gente, assim também é o menorá, ele é uma coisa, mamãe só usa em caso 
de emergência.
- Se aqueça me falando mais do menorá.
- Ah! É um candelabro sagrado de sete braços e cada um com uma 
vela.
Zeca, você com este olhar de gavião, tente ver alguém em minha casa.
O menino do outro mundo diminuiu os olhos com o intuito de 
enxergar melhor, tentativa infeliz, fez tanta força nos olhos na busca de 
capturar qualquer sinal, mas nela via e nada.
-Lamento! Não estou conseguindo. A noite chegou pra valer! Zeca 
fala com tristeza.
Luiz com ar de desânimo:
- É. Quem é louco de sair de casa com uma chuva deste tamanho?
- Você olhou para o chão, com está?
Zeca descrente faz um relato da situação por está em lugar com mais 
visibilidade:
- Lamento. O riacho transbordou e a água está chegando no pé da 
mangueira, estamos  ilhados, a estrada desapareceu.
Neste momento foram tomados por um silêncio fúnebre, 
estarrecedor.
Zeca se manifesta quebrando a pausa:
- Você imagina que horas são?
Luiz respondeu com a voz embargada:
- Pelo tamanho da minha sede, já é muito tarde.
- A hora precisa, não sei, porque eu acompanho o tempo pelo sol ou 
pela lua e estes, aqui não apareceram.
Zeca retruca:
45


- Verdade, estão descansando e aqui não virão.
O tempo passando e o desespero foi tomando conta de nós.
Não dizíamos mais nada senão esperar um milagre. Depois de um tempo, 
Zeca disse para Luiz:
- Acho que vamos morrer.
- Quero lhe dizer que, apesar das circunstancias, estes foram os 
melhores momentos da minha vida e que tudo que vivi aqui vou levar 
comigo para o céu quem sabe.
-A sua amizade é presente que recebi das estrelas, quando você 
lembrar de mim olhe para o céu serei a estrela mais brilhante que você 
poder enxergar, estarei lá em cima cuidando de sua família. E quanto ao 
jacaré, vou prendê-lo na estrela mais distante da Terra que houver, vou 
fazer com que ele perca o caminho do paraíso esquecido por Deus. Em 
prantos e apavorado, Zeca ainda encontrou força para uma despedida.
-Guarde estes versos que vou recitar e mostre a Senhora gorda e ao 
homem magro.



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