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frente/ Rô, rô, rô, rô, rô,/ de uma gente alegre e 
tão contente,/ Rô, rô, rô, rô, rô.
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12 – CASA DE ROBERTO CARLOS – INT. – AMA-
NHECENDO
Roberto Carlos e os irmãos estão deitados numa 
grande cama de casal. Roberto está na pontinha 
da cama. 
A mãe empurra a cortina que faz as vezes de por-
ta e um facho de luz se projeta sobre as pernas 
deles. Ela entra no quarto e olha para cada um 
dos filhos. Faz um carinho em Roberto. 
13 – ôNIBUS – INT. – DIA
Roberto Carlos e sua mãe estão sentados num 
dos bancos de um ônibus praticamente vazio. Ele 
olha pela janela. Roberto está feliz, inquieto. Sua 
mãe está apreensiva. Acha que está fazendo o 
certo, mas está triste com a separação. Roberto 
Carlos vira-se para a mãe e pergunta:
ROBERTO CARLOS (OFF)
A  Febem  aceitou  receber  um  filho  da 
minha mãe, e ela decidiu que eu é que 
ia para lá. Isso me deixou todo contente, 
porque eu nunca era escolhido para nada. 
ROBERTO CARLOS
O que que tem lá na Febem?
MãE
Um monte de coisa boa...
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Ele volta a olhar para fora.
14 – FEBEM IMAGINáRIA – ExT. E INT. – DIA
Cena 1: Roberto está diante de um enorme por-
tão enfeitado. 
Um homem vestindo um fraque multicolorido e 
uma cartola (Tal qual um apresentador do circo) 
abre o portão e entra uma música alegre. 
Visão  subjetiva  de  Roberto.  Entramos  num 
travelling frontal e vemos o pátio cheio de ban-
deirinhas. 
Personagens coloridos cruzam o seu caminho:
– uma malabarista faz belos movimentos com 
um bastão, 
um acrobata passa dando saltos
– um engolidor de fogo passa à sua frente fa-
zendo seu número,
–  e  um  palhaço  que  lhe  oferece  um  enorme 
algodão-doce. 
– eles se aproximam de um Bedel mágico que 
está próximo a duas torneiras.
15 – RUA – ExT. – DIA
Roberto Carlos e sua mãe desembarcam do ôni-
bus e começam a andar por uma rua de terra 
hostil e deserta.
16 – FEBEM – ExT. – DIA
Cena 1: Eles param diante de um portão comum.
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ROBERTO CARLOS (OFF)
Quando a gente chegou lá, eu vi que a Fe-
bem era meio diferente do que eu pensava.
Cena 3: Roberto Carlos e a mãe passam por al-
guns meninos que formam fila.
BEDEL
Todo mundo em fila!
17 – RECEPçãO DA FEBEM – INT. – DIA
Numa  sala  com  uma  grande  janela,  a  mãe  de 
Roberto conversa com Pérola, uma funcionária 
de  cerca  de  40  anos.  Fora  da  sala,  vemos  que 
Roberto brinca.
PÉROLA
(Ocupada, mexendo em papéis enquanto 
fala) A senhora tem que assinar aqui e aqui.
MãE
(Hesitante) Não é fácil deixar o filho da 
gente com os outros.
Pérola olha e não fala nada. A mãe não se mexe 
até tomar atitude de revelar que não sabe escrever. 
MãE 
Eu tenho que assinar daquele outro jeito.
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PÉROLA
Ah, claro. (Pega uma almofada de carimbo)
Pérola carinhosamente ajuda a mãe põe o pole-
gar na almofada e “assina”.
PÉROLA
Aqui também.
MãE
Vai ser melhor para ele, não é?
PÉROLA
(Concorda com a cabeça sem convicção).
MãE
Ele  é  o  meu  caçula.  Se  Deus  quiser  vai 
virar doutor. (Pausa)
Com  ele  aqui  eu  vou  poder  trabalhar 
mais. Eu tenho outros nove em casa. 
PÉROLA
(Depois de verificar a assinatura) É só isso.
MãE
É? Bom, então eu acho que vou indo... (se 
levanta em direção à porta que leva ao 
pátio onde está Roberto Carlos)
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PÉROLA
Levanta-se também e aponta outra porta) 
É por aqui.
MãE
Eu vou dar tchau para ele.
PÉROLA
É  melhor  não.  Sem  a  despedida  vai  ser 
mais fácil para os dois.
MãE
Certeza?
PÉROLA
Eu  vejo  isso  todo  dia.  No  dia  da  visita 
(Olha  o  calendário),  faltam  20  dias,  a 
senhora vem e fala com ele.
Triste, a mãe lança um olhar para Roberto Car-
los e vira-se para o outro lado. Roberto Carlos 
vê a mãe já de costas e dá um sorriso para ela. 
A mãe sai por uma porta e Roberto Carlos fica 
assustado  e  depois  apavorado.  Bate  no  vidro 
e grita:
ROBERTO CARLOS
Mãe! Mãe!
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ROBERTO CARLOS (OFF)
Quando eu vi ela indo embora, eu pensei: 
minha mãe se esqueceu de mim. 
ROBERTO CARLOS
E eu?
Pérola se aproxima de Roberto Carlos. 
PÉROLA
(Delicada)  Vamos  conhecer  os  outros 
meninos.
ROBERTO CARLOS
Eu quero ir pra casa com a minha mãe.
PÉROLA
(Quase carinhosa) Agora sua casa é aqui.
18 – DORMITóRIO DA FEBEM – INT. – NOITE
Várias  camas  estão  dispostas,  uma  ao  lado  da 
outra , numa área comprida que é o quarto de 
dormir das crianças. Roberto está choramingando. 
ROBERTO CARLOS (OFF)
Na minha primeira noite na Febem, eu 
estava com saudade da minha mãe e dos 
meus irmãos. Então eu fiz a única coisa 
que eu podia fazer: chorei.
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De repente, na outra extremidade do cômodo, 
a porta se abre e o BEDEL aponta, ameaçador.
BEDEL
Quem é que está miando aqui?
Samuel, o menino que está na cama ao lado da 
de Roberto leva o dedo à frente do nariz e faz 
um schhh.
SAMUEL
Schh.
Percebendo o perigo, Roberto contém o choro.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Mas nem chorar eu podia.
19 – SALA – INT. – DIA
ROBERTO CARLOS (OFF)
Depois do café da manhã, eu ia ter a pri-
meira aula de educação física da minha 
vida. Eu imaginava que o professor era 
um  sujeito  muito  forte,  parecido  com 
o  Tarzan.  Mas  a  dona  Judith  lembrava 
mais um...
Cena 2: Entra Judith, a professora de educação 
física, uma mulher de 120 quilos. Ela traz uma 
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revista na mão. Podemos fazer sua entrada em 
câmera lenta, com efeito sonoro para reforçar 
as passadas pesadas.
ROBERTO CARLOS
... um hipopótamo. Quando ela andava, 
o chão até tremia. 
Cena 3: Vemos uma hipopótamo andando com 
os mesmos passos lentos de Judith.
JUDITH
(Já  como  mulher)  Vamos  lá,  seus  bocós, 
todo mundo em posição! Vamos! Atenção!
ROBERTO CARLOS
E ela falava tão alto que parecia que a 
gente era surdo.
Cena 4: Todo mundo fica em fila. Roberto Carlos 
é o primeiro da fila. Está perto de Samuel.
JUDITH
Agora vocês têm que fazer que nem eu. 
Atenção! 1,2,3,4...
JUDITH
Entenderam?
MENINOS
Entendemos!
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Ela senta-se na mesa, pega a revista e começa 
a contar.
JUDITH
Então  vamos  lá,  seus  molengas:  É  um, 
dois, três, quatro...
Cena 5: Judith pega a revista e começa a folheá-
la. E continua a contar, mas só mexendo a boca, 
sem falar.
JUDITH
(Cinco, seis, sete, oito. De novo...)
20 – SALA DA FEBEM – INT. – DIA
Roberto está diante de duas psicólogas. A outra 
(na verdade, uma estagiária) é bem mais jovem, 
e anota tudo numa prancheta. 
ROBERTO CARLOS (OFF)
Na Febem, de vez em quando  apareciam 
umas mulheres com uns óculos esquisitos. 
Eram as psicólogas.
PSICóLOGA
Você sabe contar, Roberto?
ROBERTO CARLOS
Contar?
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PSICóLOGA
Isso. Na aula de educação física você não 
conta os exercícios? Um, dois... 
ROBERTO CARLOS
Ah, tá! Sei.
PSICóLOGA
Então conta para mim.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Achei  que  ela  queria  que  eu  contasse 
que nem a professora de educação física, 
então eu comecei.
Roberto apanha uma revista qualquer.
ROBERTO CARLOS
É um, dois, três, quatro...
A partir daí ele finge estar lendo e apenas mexe 
os lábios, como a professora de educação física. 
A psicóloga e a estagiária ficam intrigadas.
ASSIST/PSICóLOGA
Roberto, Roberto!
ROBERTO CARLOS
Hã?
ASSIST/PSICóLOGA
Você podia começar de novo.
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ROBERTO CARLOS
Outra vez?
ASSIST/PSICóLOGA
Por favor.
ROBERTO CARLOS
É um, dois, três, quatro...
E, novamente, começa a balbuciar os números. 
A psicóloga olha para a estagiária e faz cara de 
“pobrezinho dele...”
Passagem de tempo. Roberto Carlos olha atenta-
mente para um painel onde há cavidades de vários 
formatos. Ele tem um objeto redondo na mão.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Eu achava as psicólogas meio esquisitas, 
mas tinha uma coisa que eu gostava nelas.
Ele  tenta  pôr  o  objeto  redondo  na  cavidade 
triangular.
PSICóLOGA
Não, meu amor, não é aí. 
ASSISTENTE
Toma.
Roberto estende a mão e a estagiária lhe oferece 
um biscoito.
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ROBERTO CARLOS (OFF)
É que toda vez que eu errava um teste, elas 
ficavam com pena e me davam um biscoito 
recheado. Aí que eu errava mesmo.
Falando baixo, a psicóloga fala para a estagiária, 
que faz anotações na prancheta.
PSICóLOGA
Anota aí no prontuário dele: Problemas 
de dislalia avançada, já com os primeiros 
sinais de dislexia e discalculia. 
Roberto mostra que tentou pôr o objeto redon-
do na cavidade quadrada.
ROBERTO CARLOS
Acertei agora, tia?
A  psicóloga  faz  uma  cara  de  pena,  balança  a 
cabeça e lhe dá outro biscoito.
21 – JARDIM (CANTO DE RC E SAMUEL) – ExT. – DIA
ROBERTO CARLOS (OFF)
Eu  gostei  daquele  negócio  de  doença 
porque aí as pessoas prestavam atenção 
em mim.
ROBERTO CARLOS
Sabia que eu tenho dis...disdislalia?
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SAMUEL
Isso dói?
ROBERTO CARLOS
(Põe  a  mão  na  barriga)  Só  de  vez  em 
quando.
22 – REFEITóRIO – INT. – DIA
Roberto  Carlos  é  servido  pelas  serventes  do 
refeitório.
ROBERTO CARLOS
Dá mais um pouco... Eu tenho discalculia.
Ela coloca mais um pouco de comida.
MULHER 1
Pois é, menina, ela teve câncer no útero, 
vê se pode?!
MULHER 2
Que horror, tadinha... Não tem doença pior.
23 – CONSULTóRIO – ExT. – DIA
Roberto Carlos na porta do consultório médico. 
O médico está sentado trabalhando e percebe 
a presença de Roberto.
MÉDICO
Você de novo? Já sei: está com dislexia 
na barriga.
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ROBERTO CARLOS
Não. Agora é outra coisa.
MÉDICO 
Que coisa?
ROBERTO CARLOS
Câncer no útero.
O médico fica pasmo. 
ROBERTO CARLOS (OFF)
O médico contou para todo mundo. Depois 
disso ninguém mais tinha pena de mim.
24 – PáTIO – ExT. – DIA
As  crianças  estão  arrumadas,  algumas  já  com 
os pais, algumas sozinhas, outras correm pelas 
escadas  e  corredores.  Roberto  fala  com  a  sua 
mãe num banco do pátio. Samuel está sozinho. 
Depois de certo silêncio, Roberto fala.
ROBERTO CARLOS
Eu quero ir para casa.
Silêncio. Mãe toma coragem.
MãE
Você vai acostumar. (Pequena pausa)
ROBERTO CARLOS
(Balança a cabeça negativamente)
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MãE
Aqui  você  não  tem  uma  cama  só  para 
você?
ROBERTO CARLOS
(Balança a cabeça afirmativamente)
MãE
Não tem comida e escola?
ROBERTO CARLOS
Tem.
MãE
Então, Roberto, aqui é bom. 
Novo silêncio, desta vez um pouco mais longo.
ROBERTO CARLOS
Você não quer mais eu?
Ela fica um tempo enorme sem falar, só segu-
rando o choro. Depois diz:
MãE
Se você perguntar isso de novo, eu te dou 
uma surra
Câmera se afasta.
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25 – PáTIO DA FEBEM – ExT. – DIA
Roberto Carlos e Samuel varrem uma sala, onde 
há uma pequena árvore de natal.. Outros me-
ninos trabalham: passam pano no chão, lavam 
janelas, ajudam no jardim. 
ROBERTO CARLOS (OFF)
A vida na Febem não tinha a menor gra-
ça, mais aí chegou o Natal e disseram que 
o Papai Noel vinha visitar a gente. Só que, 
para ganhar presente, a gente tinha que 
ser bonzinho e limpar tudo.
26 – TABLE-TOP
Musiquinha  de  natal  ao  fundo,  vemos  vários 
cartões e ilustrações do Papai Noel tradicional: 
ele andando no trenó, tirando presentes do saco; 
e uma propaganda antiga de bicicletas.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Eu ficava imaginando o Papai Noel che-
gando naquele trenó voador. E eu tinha 
certeza  que  ele  ia  trazer  uma  bicicleta 
para mim.
27 – PáTIO DA FEBEM – ExT. – DIA
Os  meninos,  de  banho  tomado,  vestindo  suas 
melhores  roupas  e  seus  congas,  esperam  por 
Papai Noel. Estão excitados e falam alto. O Bedel 
tenta impor alguma ordem.
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BEDEL
Psss!, sossega aí, molecada. Dá um pas-
sinho  para  trás  que  o  Papai  Noel  está 
chegando.
Os portões frontais se abrem e avança pelo pátio 
uma Kombi pobremente decorada com motivos 
natalinos. Um funcionário abre a porta do carro 
e então, para espanto de todos, quem dali sai é 
Judith, a professora de educação física, vestida 
de Papai Noel.
JUDITH
Oi, crianças! Hou, hou, hou!
SAMUEL
Esse não é o Papai Noel.
ROBERTO CARLOS
É a dona Judith.
MENINOS
Não é o Papai Noel! Não é!
Os  meninos  começam  a  vaiar  a  professora  de 
Educação Física, alguns até jogam seus congas.
ROBERTO CARLOS (OFF)
A única coisa que ela tinha em comum 
com o Papai Noel era o peso.
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PROFESSORA DE ED. FíSICA
Quieto todo mundo! E agora vamos fazer 
fila para receber os presentes.
Após  um  instante  de  dúvida,  os  meninos  re-
solvem improvisar uma fila. Um dos primeiros, 
Roberto vai murmurando baixinho. 
ROBERTO CARLOS
Bicicleta, bicicleta, bicicleta...
Mas quando ele chega diante da professora, re-
cebe dela um kit com dois lápis e uma borracha.
JUDITH
Como é que se fala?
ROBERTO CARLOS
(A contragosto) Obrigado, Papai Noel.
PROFESSORA DE ED. FíSICA
De nada. Próximo!
28 – SALA DA FEBEM – INT. – DIA
Pérola está guardando documentos num arquivo 
de ferro na mesma sala em que tratou, com a 
mãe de Roberto, a respeito da sua vinda para a 
Febem. Batem à porta.
PÉROLA
Entra.
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O Bedel abre a porta e faz Roberto  entrar. Ele 
está tímido, intimidado.
ROBERTO CARLOS
Não fui eu que entupiu a privada.
PÉROLA
Que privada?
ROBERTO CARLOS
Não sei.
PÉROLA
Bom, é o seguinte: você fez sete anos e 
agora vai ter que mudar.
ROBERTO CARLOS
(Ele fica alegre) Vou para casa?
PÉROLA
Não, vai passar para a outra turma.
ROBERTO CARLOS
(Decepcionado) A turma dos grandes?
PÉROLA
Isso. Quem tem de sete a 14 anos tem que 
ficar lá. À tarde o bedel vai levar você e 
os garotos que vão trocar de lado.
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ROBERTO CARLOS (OFF)
A Febem dos meninos maiores ficava do 
outro lado do muro. Era um outro mundo. 
ROBERTO CARLOS
Eu queria ficar aqui.
PÉROLA
Não dá mais, Roberto. Mas vai ser bom. 
Lá  tem  outras  coisas  para  fazer,  outros 
meninos... 
Roberto Carlos não responde nada, só olha para 
o vidro da sala.
29 – QUARTO – INT. – DIA
Roberto  Carlos,  Samuel  e  mais  dois  meninos 
estão  na  entrada  de  um  corredor  polonês. 
Destaque para Cabelinho de Fogo, que parece 
comandar a turma. 
ROBERTO CARLOS
Lá tinha mesmo outros meninos e outras 
coisas para fazer. A principal era apanhar.
Empurram  Roberto  e  Samuel  para  o  corredor 
polonês. Ali os dois levam tapas, socos e pon-
tapés. Cabelinho de Fogo bate com vontade. A 
imagem congela nele.
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ROBERTO CARLOS
Este  é  o  Cabelinho  de  Fogo.  Depois  eu 
falo dele.
30 – JARDIM (CANTO DE RC E SAMUEL) – ExT. – DIA 
ROBERTO CARLOS (OFF)
Para fazer parte da turma, a gente tinha 
que  parecer  durão.  E  para  ser  durão  a 
gente tinha que falar muito palavrão.  
SAMUEL
(Pensando) É... Caralho!
ROBERTO
Porra!
SAMUEL
Merda!
ROBERTO
Bosta!
SAMUEL
Cu!
ROBERTO
Buceta
SAMUEL
Veado!
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ROBERTO
Vagabunda!
SAMUEL
(Em dúvida) “Vagabunda” acho que não 
é palavrão.
ROBERTO CARLOS
Não?
SAMUEL
Não.
ROBERTO CARLOS
E putaquilamerda?
SAMUEL
Putaquilamerda é bacana.
OS DOIS
Putaquilamerda!
31 – PáTIO – ExT. – DIA
Roberto e sua mãe estão sentados num banco 
do  pátio.  Não  estão  muito  próximos.  Roberto 
presta atenção ao jogo. Parecem já estar ali há 
algum  tempo.  Às  vezes  jogadores  passam  em 
frente à câmera. Depois de olharem o jogo por 
algum tempo, ela fala: 
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MãE
(Longo silêncio) Seu irmão Oséias se ma-
chucou um dia desses. 
Roberto não pergunta nada, só presta atenção 
ao jogo.
MãE
Jogando bola.
ROBERTO CARLOS
(Olhando  o  jogo,  sem  prestar  atenção 
nela) Chuta ele!
MãE
E você? Tem muitos amigos?
ROBERTO CARLOS
(Continua olhando o jogo) Vai, Samuel!
MãE
Mês passado não deu pra vir te ver. Pre-
cisa de muita condução. É caro.
Continua silencioso. 
MãE
Ficou com saudade de mim?
ROBERTO CARLOS
(Silêncio) A mãe fica decepcionada e muda 
de assunto.
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MãE
Você está mais gordinho. 
Insert
 de uma falta de Cabelinho de Fogo em 
Samuel.  Roberto  Carlos  se  levanta,  um  pouco 
para se livrar do carinho, um pouco por indig-
nação com o lance.
ROBERTO CARLOS
Putaquilamerda!
A mãe se assusta com o palavrão e não fala mais 
nada. Os dois ficam vendo o jogo. 
32 – PRÉDIO DA FEBEM – ExT. – FIM DE TARDE
Pôr do sol. Num plano aberto, vemos a parede da 
Febem iluminada pelo sol do fim da tarde. Atrás 
de janelas protegidas com grades, os meninos 
olham para fora. A imagem lembra os detentos 
num presídio.
ROBERTO CARLOS(OFF)
Diziam que a vida lá fora era bem melhor, 
que a gente podia fazer qualquer coisa, 
que era só pedir que davam comida e di-
nheiro pra gente. A rua parecia um lugar 
encantado, mágico. 
33 – DORMITóRIO DA FEBEM – INT. – NOITE
Roberto Carlos dorme. Uma mão entra em quadro 
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e o sacode. Ele acorda assustado. Alguns meninos 
passam à sua frente. Samuel é o último deles.
SAMUEL
Vem, vamos embora.
34 – áREA PRóxIMA AO MURO – ExT. – NOITE
Roberto  chega  diante  de  um  muro  e  começa 
a escalá-lo com os outros meninos. Há buracos 
em  pontos  específicos.  Apoiando-se  neles,  os 
meninos ganham impulso e sobem.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Aquela foi a minha primeira fuga. Mas 
as fugas eram uma coisa tão comum que 
tinha  até  uns  buracos  no  muro  para  a 
gente subir por eles.
35 – RUA – ExT. – NOITE
A tomada mostra apenas as pernas de Roberto 
Carlos correndo com os pés enfiados no velho 
Conga.  Efeito  de  fusão.  As  pernas  do  menino 
de seis anos se transformam nas pernas de um 
menino de 13.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Logo depois me apanharam, mas eu fugi 
de  novo.  E  depois  me  apanharam  de 
novo e eu fugi de novo. E de novo e de 
novo. No final das contas, eu fugi umas 
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80 vezes da Febem. Mas na verdade eu 
nem sei por que eu fugia, porque lá eu 
tinha de tudo:
36 – CORREDOR – INT. – DIA
Revemos a cena do corredor polonês.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Companheirismo...,
37 – REFEITóRIO – INT. – DIA
Roberto estende um prato e recebe um pão e 
um copo de leite.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Comida de primeira...,
38 – SALA – INT. – DIA
Um funcionário mergulha sua cabeça na água. 
Ele a retira depois de um tempo.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Natação...,
39 – SALA – INT. – DIA
Um funcionário dá-lhe um tapa no rosto.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Orientação pedagógica...,
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40 – SOLITáRIA – INT. – DIA
Roberto é atirado numa cela pequenina.
ROBERTO CARLOS (OFF)
E às vezes tinha até quarto privativo.
41 – RUA – ExT. – DIA
Cena 1: Voltam as pernas de Roberto.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Mesmo com tudo isso, sempre que eu vol-
tava para a Febem, eu saía de lá correndo. 
Dos sete aos 13 anos, eu corri mais que 
jogador de futebol. 
Cena  2:  Roberto  corre  entre  a  multidão,  pega 
a bolsa de uma mulher e dispara. A partir daí, 
entra a música do canal 100, e a cena de correria 
passa a ser filmada em 48 quadros, como o antigo 
documentário, com closes no rosto e nas pernas 
dele e dos amigos – tudo entremeado por olhares 
de espanto dos transeuntes. A bolsa faz as vezes 
de  bola.  Lampião  corre  muito,  e  atira  a  bolsa 
para Samuel, que dá um belo salto para agarrá-
la, e Samuel a passa para Pereba, que dribla uns 
transeuntes antes de entregá-la para Roberto. 
ROBERTO CARLOS (OFF)
O  ataque  do  meu  time  era  eu,  o  Lam-
pião, que corria feito um ponta direita, 
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o Samuel, que pegava as coisas feito um 
goleiro, e o Pereba, que driblava que nem 
um centroavante.
Cena  3:  Roberto  Carlos  e  seus  dois  amigos,  já 
em outro lugar, anda tranquilamente pela rua, 
observando o conteúdo da bolsa da mulher.
ROBERTO CARLOS (OFF)
O problema é que o time adversário mar-
cava em cima.
Um policial entra em quadro e o agarra.
42 – PáTIO – ExT. – DIA
Pérola caminha acompanhada de Margherit, pes-
quisadora francesa com cerca de 40 anos.
PÉROLA
Seu português está ótimo.
MARGHERIT
Mas ainda tenho muito acento.
PÉROLA
Sotaque.
MARGHERIT
Sotaque. 
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PÉROLA
Imagina, tá melhor que o meu francês. 
Desde que eu voltei não falei mais. Estou 
totalmente enferrujada. 
MARGHERIT
(Ela  não  entende  o  que  é  enferrujada, 
mas não pergunta)
PÉROLA
Só tem uma palavra em francês que eu 
nunca esqueço.
MARGHERIT
Que palavra?
PÉROLA
Bufi.
MARGHERIT
Bufi? Não conheço.
PÉROLA
(bufa  como  os  franceses)  Já  viu  algum 
francês que não faz isso?
MARGHERIT
(Bufa também) Jamais.
PÉROLA
Vamos lá?
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Margherit ri. Elas andam pelos corredores e são 
notadas pelas crianças. Margherit é uma pessoa 
estranha ao lugar.
PÉROLA
E você, fica aqui até quando? 
MARGHERIT
Acho que uns dois, no máximo três meses. 
PÉROLA
E deu certo com a casa da Laura?
MARGHERIT
Deu. Foi perfeito, eu aluguei a casa dela 
enquanto ela estiver em Marselha.
Margherit  observa  os  meninos  que  circulam 
pelo pátio.
PÉROLA
Aqui também a casa é sua. Pode entrevis-
tar qualquer um dos meninos.
Pérola aponta para Douglas, um menino miudi-
nho que joga futebol com os colegas. 
PÉROLA
Se eu fosse você começava com aquele 
miudinho  ali,  com  a  bola.  Uma  graça. 
Chegou aqui com problema de coorde-
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nação motora, mas melhorou muito. Se 
bobear, vai ser jogador de futebol. 
Um garoto passa correndo e quase as atropela.
MARGHERIT
Houlá!!
Roberto  chega  escoltado  por  um  bedel  e  um 
policial  que  pode  ser  o  mesmo  da  sequência 
anterior. Ele anda de cabeça baixa. O bedel faz 
ele sentar num banco e conversa com o policial. 
Margherit vê toda a chegada de Roberto.
MARGHERIT
O que aconteceu com aquele menino?
PÉROLA
Foi recapturado...de novo.
Pérola  passa  a  mão  na  cabeça  de  um  menino 
tímido que passa por elas. Margherit ainda olha 
para Roberto. 
PÉROLA
O Ivanoel é craque em matemática. Con-
ta tudo que vê pela frente, até azulejo. 
Quem  sabe  não  vira  um  bancário,  não 
é, Ivanoel? 
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MARGHERIT
O que ele fez?
PÉROLA
Quem?
Margherit aponta para Roberto. 
PÉROLA
Ah, o Roberto. Fugiu de novo, ele foge 
toda hora...Esse menino é um problema. 
A gente já tentou de tudo com ele, mas 
não adianta.  
MARGHERIT
Quantos anos ele tem?
PÉROLA
Treze. E já rouba, fuma, cheira cola... Parece 
que não tem mais jeito. É irrecuperável.
MARGHERIT
Posso falar com ele?
PÉROLA
Tem certeza?
MARGHERIT
(Afirma com a cabeça)
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PÉROLA
(Bufa  à  francesa)  Você  que  sabe.  Qual-
quer coisa, é só gritar.
Cena 2: Pérola se retira. Margherit se aproxima 
de Roberto, que está cabisbaixo, sentado num 
banco. Subjetiva de Roberto, que vê os bicos dos 
sapatos vermelhos de Margherit.
ROBERTO CARLOS (OFF)
A primeira coisa que eu vi dela foi o bico 
dos sapatos.
Roberto continua de cabeça baixa. 
Margherit se abaixa e faz Roberto olhar para ela.
MARGHERIT
Oi, por favor, eu posso conversar com você?
ROBERTO CARLOS (OFF)
Eu  achei  aquilo  muito  estranho:  nunca 
ninguém tinha me dito “por favor”.
Roberto continua imóvel. 
MARGHERIT
Meu nome é Margherit. E o seu?
Nenhuma resposta. Ele fica olhando o gravador.
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MARGHERIT
Você nasceu aqui em Belo Horizonte? 
Nada de resposta.
MARGHERIT
Quantos anos você tem?
Nada.
MARGHERIT
Quantos  anos  você  tinha  quando  veio 
para cá?
Nada.
ROBERTO CARLOS 
Eu não vou falar nada não, dona. 
Ela volta a fita e ouvimos de novo sua última fra-
se. Ela sabe que assim está provocando Roberto.
ROBERTO CARLOS 
Eu não vou falar nada não, dona. 
Ele  finalmente  esboça  uma  reação,  olhando 
para o gravador. Ela percebe o interesse dele e 
repete o truque.
ROBERTO CARLOS 
Eu não vou falar nada não, dona. 
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ROBERTO CARLOS 
Eu não vou falar nada não, dona. 
ROBERTO CARLOS 
Eu não vou falar nada não, dona. 
Ele está olhando para o gravador.
MARGHERIT
D’accord,  já  vi  que  você  não  quer  falar 
nada não. Obrigada pelo seu tempo.
Margherit desliga o gravador e se levanta para 
sair. Depois dos primeiros passos, Roberto Car-
los diz: 
ROBERTO CARLOS
Tudo que eu falar vai ficar aí dentro?
MARGHERIT
Vai.
ROBERTO CARLOS
Quer saber como eu vim para cá?
MARGHERIT
Quero.
ROBERTO CARLOS
Bom, a minha família estava sem dinheiro, 
então a gente teve a idéia de assaltar um 
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banco. Eu, a minha mãe e os meus irmãos. 
A gente pegou uma Kombi, sabe Kombi? 
Então, a gente pegou uma Kombi e foi pro 
banco. A minha mãe que tava dirigindo.
43 – BANCO – INT. – DIA
Os  irmãos,  de  metralhadoras  e  revólveres  nas 
mãos, entram no banco. Eles vestem um figurino 
próprio  como  um  uniforme,  algo  que  tire  um 
pouco o realismo da cena.
MãE 
(Com um revólver grande na mão) O di-
nheiro! A gente quer o dinheiro!
MãE
Corre! Polícia! Pro carro!
A mãe grita:
MãE
Tudo  bem,  meu  filho,  fica  tranquilo. 
Você é menor, eles vão te mandar para 
a Febem. Lá vão te dar roupa, comida e 
escola! Você vai virar doutor.
44 – PáTIO – ExT. – DIA
ROBERTO CARLOS
Bom,
 
já vou! 
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Ela está impressionada com a narração de Ro-
berto. Roberto levanta e sai.
MARGHERIT
Depois a gente pode conversar mais?
ROBERTO CARLOS
Não dá. Eu vou fugir esta noite.
Margherit sorri, como se pensasse que era uma 
brincadeira dele.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Acho que ela pensou que era mentira. Mas 
não era. Naquela noite eu fugi mesmo.
45 – PRAçA – ExT. – DIA
Os meninos estão tomando banho numa fonte. 
Num  dado  momento,  Samuel  nota  a  chegada 
de Margherit e aponta para ela, que, de longe, 
vê a cena.
SAMUEL
Aquela mulher ali que tava te procurando 
ontem, ó. 
Margherit acena para Roberto. Ela está do outro 
lado da rua.
MARGHERIT
Olá!!!
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ROBERTO CARLOS
Putaquilamerda!
SAMUEL
É namorada, é?
ROBERTO CARLOS
Sua mãe que é minha namorada, palhaço!
MARGHERIT
Roberto!! 
ROBERTO CARLOS 
Eu vô me mandar.
SAMUEL
Tá com medo do quê? 
Margherit não para de acenar.
SAMUEL
Vê lá o que ela quer. 
Roberto vai até ela. Desconfiado e com ar amea-
çador encara Margherit que, tentando conter o 
medo, dá um passo para trás.
ROBERTO CARLOS
O quê que a dona tá querendo?
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MARGHERIT
Eu procurei você na Febem, e a Pérola me 
disse que você tinha fugido.
ROBERTO CARLOS
Quer me levar de volta?
MARGHERIT
Eu gostaria de conversar mais um pouco 
com você. 
ROBERTO CARLOS
Eu não gosto de conversa, não.
MARGHERIT
Mas você contou tão bem sua história e... 
Roberto  percebe  que  uma  dupla  de  policiais 
se aproxima
ROBERTO CARLOS
Não vai dar, não.
MARGHERIT
É rápido.
ROBERTO CARLOS
Outra hora, dona.
MARGHERIT
Quando?
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Roberto sai correndo e Margherit entende ao 
ver os policiais.
46 – ExT. RUAS DO CENTRO – DIA
Outro dia. Roberto Carlos anda apressado, ten-
tando se esquivar de Margherit que se esforça 
para acompanhar seu passo. 
MARGHERIT
Você pode andar mais devagar?
ROBERTO CARLOS
Pra quê?
MARGHERIT
Para conversar um pouco mais...
Roberto continua andando rápido. 
MARGHERIT
Espere...
Roberto para.
ROBERTO CARLOS
A dona tem grana aí?
MARGHERIT
Grana?
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ROBERTO CARLOS
É, dinheiro (Fazendo o gesto).
MARGHERIT
Ah, oui, tenho.
ROBERTO CARLOS
Então compra um cigarro pra mim.
MARGHERIT
Cigarro?  (Percebendo  uma  chance  de 
aproximação) Eu tenho aqui.
Vê que o dela está acabando.
ROBERTO CARLOS
(Aponta para um bar) Vai lá compra e eu 
espero aqui.
MARGHERIT
Tá bom.
Ela atravessa a rua e dá uma rápida olhada pra 
ver  se  ele  vai  esperar  mesmo.  Roberto  fica  lá 
como combinado. Ela entra no bar e de repente 
sai e começa a gritar pra ele. Ele não entende 
nada, fica com medo, mas ela gesticula, ele pensa 
em fugir, mas ela o chama.
ROBERTO CARLOS
Que foi?
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MARGHERIT
Que nome o cigarro? Tem muitos. 
Ele não acredita que ela gritou tanto pra isso.
ROBERTO CARLOS
Sei lá...qualquer um.
MARGHERIT
D’accord, d’accord.
Ela entra para comprar e volta para reencontrá-lo.
MARGHERIT
E...Voilá. 
Ela coloca o maço na mão dele. 
ROBERTO CARLOS
E o fósforo?
MARGHERITH
Ah! Merde!
47 – ExT. RUA – DIA
Margherit e Roberto mais uma vez conversam, 
sua turma está próxima.
ROBERTO CARLOS
Melhor a senhora se pirulitar, dona.
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MARGHERIT
Não entendi: pirulitar? 
ROBERTO CARLOS
(Para si) Ai, caralho! Quer dizer dá o pira, 
sair fora, entendeu?
MARGHERIT
Pirulita...Vamos fazer assim: você vai lá 
pra minha casa, eu faço um lanche para 
a gente e conversamos um pouco mais. 
ROBERTO CARLOS
A senhora quer que eu vá na sua casa?
MARGHERIT
Isso.
ROBERTO CARLOS
(Desconfiado) Quem mais tá lá? 
MARGHERIT
Não tem ninguém. 
ROBERTO CARLOS
Não vou cair nessa, não.
MARGHERIT
(Para os amigos) Está com medo de mim?
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ROBERTO CARLOS
Medo? De mulher? A senhora é que devia 
ter medo de mim.
Olha para os amigos, tirando sarro dela.
ROBERTO CARLOS
Doidona, né.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Eu olhei para os meus amigos e na cara 
deles estava escrito: “Vai lá e rouba tudo 
dessa trouxa!”
Roberto pensa mais um pouco e decide ir
48 – CASA DE MARGHERIT – INT. – DIA
Roberto está à mesa, pasmo com a quantidade 
de  comida  à  sua  frente.  Além  dos  sanduíches 
e  do  refrigerante,  temos  café,  leite,  pães-de-
queijo, uma rosca e dois ou três tipos de biscoi-
tos. Tudo está improvisado, nas embalagens da 
padaria. Roberto come e fala de boca cheia. O 
gravador está ligado em cima da mesa.
MARGHERIT
E a sua maman? Você nunca mais viu ela?
Roberto para de falar e comer.
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ROBERTO CARLOS (OFF)
Ela não parava de fazer perguntas e aqui-
lo  tava  me  enchendo.  Então  eu  resolvi 
encher a paciência dela também. 
Roberto solta um estrondoso arroto. Margherit 
olha para ele e diz:
MARGHERIT
Saúde.
Ele fica de ladinho na cadeira e solta um pum ba-
rulhento. Margherit finge que nada aconteceu.
ROBERTO CARLOS
Putaquilamerda,  esse  bolo  é  ruim  pra 
caralho! Maior bosta!
MARGHERIT
Como?
ROBERTO CARLOS
Esse bolo! Puta coisa seca da porra! Olha 
só: tudo esfarelado. Se foder! Prefiro pôr 
areia na boca do que ficar comendo essa 
porcaria cor de merda.
MARGHERIT
Se não quer, deixa de lado; come outra 
coisa. Tá esfarelando isso aqui mesmo.
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Pausa.
Ele se levanta e começa a andar pela sala.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Aquela paciência dela era irritante. Aí eu 
desisti e fui fazer o meu trabalho.
Roberto Carlos procura o que pode roubar. Mas 
decide pegar o gravador, pois sabe da impor-
tância  dele.  Ele  caminha  em  direção  à  porta. 
Margherit se levanta da cadeira.
MARGHERIT
Que você está fazendo?
ROBERTO CARLOS
Nada, ué!? 
MARGHERIT
Devolve esse gravador.
ROBERTO CARLOS
(Cínico) Que gravador?
Ela corre na direção dele. Ele foge.
MARGHERIT
Roberto!
Roberto  vai  abrir  a  porta  e  Margherit  tenta 
segurá-lo.  Ela  tenta  pegar  o  gravador  e  ele  a 
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empurra com força. Margherit cai, assustada. O 
gravador também cai, Roberto antes de sair pega 
a bolsa vira no chão pega o dinheiro da carteira, 
chuta o gravador e sai. Margherit muito nervosa 
pega o aparelho e verifica a extensão dos danos. 
Ela pode perder o controle e começar a falar um 
monte de coisas, talvez em francês. 
MARGHERIT
O gravador não!!
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49 – RUA – ExT. – DIA
Roberto sai correndo da casa e continua na rua. 
Ele também se assustou com o que aconteceu. E 
sente um pouco de medo. Enquanto corre, às ve-
zes olha para trás como se ela pudesse alcançá-lo.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Pensei que ela fosse correr atrás de mim 
ou gritar por socorro, mas nem isso ela 
conseguiu.
50 – SALA DA FEBEM – INT. – DIA
Margherit, sentada diante da mesa de Pérola, 
ainda está assustada. 
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MARGHERIT
Nem isso eu consegui.
PÉROLA
Eu não acredito, Margherit!
MARGHERIT
Foi uma loucura... 
PÉROLA
Foi mesmo.
MARGHERIT
Eu pensei que não ia ter problema.
PÉROLA
Margherit,  você  não  tem  idéia  do  que 
podia ter acontecido, esses meninos...
MARGHERIT
Eu sei. Eu errei.
PÉROLA
Olha, me promete uma coisa: nunca mais 
você vai levar esse moleque na tua casa!
MARGHERIT
Oui. Le promis.
 
Prometo. 
PÉROLA
Tem menino que sai do caminho. O Ro-
berto é um desses. Eu lembro quando ele 
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chegou  aqui,  pequinininho,  assustado, 
mas foi crescendo e caiu para o lado er-
rado. Fugiu com uma turma de meninos 
mais velhos, descobriu a rua. A mãe vinha 
visitar  e  ele  nunca  estava.  Isso  acabou 
separando  ele  ainda  mais  da  família. 
Acontece toda hora, Margherit. 
51 – RUA – ExT. – DIA
Roberto  e  seus  amigos  estão  andando  pelo 
centro,  felizes.  Ao  virar  numa  rua,  vê  Cabe-
linho de Fogo e sua turma. Eles andam pela 
rua como se fossem donos dela. Na turma de 
Roberto,  todos,  com  exceção  do  próprio  Ro-
berto, correm.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Esse é aquele tal de Cabelinho de Fogo. 
Eu queria ser que nem ele. O Cabelinho 
de Fogo era o rei da rua.
52 – RUA – ExT. – DIA
Cena imaginária. Cabelinho de Fogo, com uma 
coroa, vem andando pela rua. As pessoas não 
só abrem caminho para a sua passagem, como 
lhe entregam os relógios, bolsas e carteiras. Ele 
os apanha displicentemente e os vai passando 
para os seus auxiliares.
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ROBERTO CARLOS (OFF)
Quando  ele  passava,  as  pessoas  até 
abriam caminho. O cara tinha tanta moral 
que nem precisava roubar. Era só chegar 
perto que as pessoas já entregavam tudo.
53 – PRAçA – ExT. – DIA
Cabelinho  de  Fogo  se  põe  diante  de  Roberto 
Carlos, que precisa erguer a cabeça para falar 
com ele.
CABELINHO DE FOGO
Não fugiu por quê? Quer morrer? 
Roberto não sabe o que responder.
CABELINHO DE FOGO
Você é mudo ou retardado?
ROBERTO CARLOS
É...
CABELINHO DE FOGO
É o quê, caralho?
ROBERTO CARLOS
Eu quero entrar na sua turma.
Cabelinho de Fogo ri.
ROBERTO CARLOS
Eu já fumei maconha, cheirei thinner...
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CABELINHO DE FOGO
Você é muito fedelho, moleque.
ROBERTO CARLOS
Eu  sou  foda!  Olha  o  que  eu  já  peguei 
hoje. (Mostra dinheiro)
CABELINHO DE FOGO
Vai brincar no parquinho, vai. (Arranca o 
dinheiro da mão dele)
ROBERTO CARLOS
Putaquilamerda!
CABELINHO DE FOGO
Como é que é? Isso é jeito de falar comigo?
ROBERTO CARLOS
Eu quero entrar na sua turma, pô!
CABELINHO DE FOGO
Ah, é?
ROBERTO CARLOS
É.
CABELINHO DE FOGO
Então  você  vai  ter  que  passar  por  um 
teste. Tá a fim?
54 – FERROVIA – ExT. – DIA
Roberto Carlos segue a turma de Cabelinho de 
Fogo por entre vagões de trens abandonados. 
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Ao chegarem num determinado ponto, Cabe-
linho  de  Fogo  olha  para  os  lados,  como  que 
querendo se certificar de que não há ninguém 
por perto. 
CABELINHO DE FOGO
Baixa as calças, moleque.
ROBERTO CARLOS
O quê?
CABELINHO DE FOGO
Não ouviu? Baixa as calças.
Roberto percebe que está cercado pelos rapazes.
CABELINHO DE FOGO
Você não quer entrar para a turma? En-
tão, vai ter que ser mulher da gente.
Roberto tenta fugir, mas os garotos conseguem 
segurá-lo.  Roberto  grita,  esperneia.  A  câmera 
se  mexe  muito.  Pelo  som,  percebemos  que  os 
garotos batem e estupram Roberto. A cena deve 
ser violenta, incômoda.
55 – FERROVIA – ExT. DIA.
Cena 1: Como na primeira sequência, Roberto 
Carlos, todo estropiado, deita-se nos dormentes 
da linha férrea. O ruído de um trem vai crescen-
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do aos poucos, até ficar assustador. Montagem 
paralela entre o trem chegando e Roberto Car-
los deitado. Tem-se a impressão de que ele será 
atropelado, mas o trem passa na linha ao lado 
da qual ele se deitara.
ROBERTO CARLOS (OFF)
Naquele dia eu queria morrer. Mas nem 
isso eu consegui. 
Cena 2: Depois que o trem passa, ele se levanta e 
anda pelo trilho. Com dificuldade anda sem rumo.
56 – CASA DE MARGHERIT – ExT. DIA.
Tomada da porta frontal. Margherit aparece à 
porta e olha assustada para alguém. Sem dizer 
nada, Roberto Carlos avança rumo ao interior 
da casa; empurra Margherit para abrir caminho.
MARGHERIT
Quê isso? 
57 – CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Roberto Carlos sobe as escadas do sobrado. Mar-
gherit não fecha a porta da rua e tenta alcançá-lo.
MARGHERIT
Espera, menino! Volta aqui!
58 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Roberto tranca-se no banheiro e senta-se num canto.
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MARGHERIT 
Abre a porta! Roberto!
Roberto não responde, apenas olha para frente, 
sem expressão nenhuma.
MARGHERIT 
O que aconteceu? O que você quer?
Roberto fecha os olhos.
MARGHERIT 
Você não tem direito de invadir minha 
casa! Isso é uma violência!
Roberto continua encolhido no canto. Marghe-
rit anda de um lado para o outro, nervosa. Bate 
na porta.
MARGHERIT 
Roberto, sai já! Eu vou chamar a Febem! 
Vou chamar a polícia! Você tem um mi-
nuto para sair daí.
Neste um minuto, a câmera fica em Margherit. 
Ela não sabe se esmurra a porta ou chora, grita 
ou anda de um lado para o outro, se tem ódio 
ou medo. 
MARGHERIT 
Acabou o seu minuto.
Margherit desce as escadas.
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59 – CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Margherit tem o telefone nas mãos e chega a 
discar o número. Ouvimos em surdina o toque de 
quatro chamadas, mas ela desliga em seguida. 
Fecha a porta da casa.
60 – SALA DA CASA – INT. NOITE
Margherit  está  com  medo.  Ela  está  inquieta, 
anda pela sala. Senta, levanta. Olha para o cor-
redor do banheiro, sempre tensa com a possibi-
lidade dele sair. Ela não sabe o que fazer.
61 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. 
NOITE.
Margherit sobe a escada segurando um prato 
de comida. Coloca-o ao pé da porta.
MARGHERIT
Roberto, eu não chamei a polícia nem a 
Febem. Eu vou deixar você dormir aqui 
hoje,  mas  amanhã  eu  quero  que  você 
vá embora, entendeu? (Pausa)  Tem um 
prato com comida aqui para você.
62 – COzINHA/QUARTO DA CASA DE MARGHE-
RIT. INT. NOITE.
Cena 1: Margherit entra em seu quarto, tranca 
a porta e se deita, olhando para o teto. Depois 
se levanta e sai. 
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Cena 2: Insert de Margherit procurando algo na 
gaveta dos talheres.
Cena 3: Margherit volta, tranca a porta, coloca 
uma faca sob o travesseiro e se deita. 
63  –  CORREDOR  DA  CASA  DE  MARGHERIT  – 
INT. DIA.
Margherit passa pela porta do banheiro. Ela olha 
o prato com o sanduíche. Nada foi tocado. Ela 
gira a maçaneta, mas descobre que ainda está 
trancada. Desce as escadas.
64 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Cena 1: Roberto Carlos está nu. Ele entra na ba-
nheira e abre o chuveiro. Uma água suja escorre 
pelo ralo. Ele tampa o ralo com sua roupa e a 
banheira começa a encher.
Cena 2: A banheira está cheia. A água está suja. 
Ele submerge a cabeça e fica nessa posição por 
tempo suficiente para que se pense que ele está 
tentando se matar. Mas ele emerge e respira aos 
solavancos.
65 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Roberto Carlos coloca vários objetos na borda 
da banheira. Perfumes, desodorantes, etc. Meio 
que brinca com eles. Abre um vidro de acetona 
e cheira.
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66 – CORREDOR DA CASA DE MARGHERIT – INT. 
DIA.
Ela  põe  algumas  roupas  na  porta  ao  lado  do 
prato ainda cheio.
67 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Roberto Carlos olha pela fechadura do banheiro. 
68 – CORREDOR DA CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Margherit sobe as escadas e, passando em frente 
ao banheiro, apanha o prato vazio. 
MARGHERIT
Roberto, quando der, você pode deixar 
os meus óculos na porta? Por favor.
69 – BANHEIRO – INT. – NOITE.
Com as roupas deixadas na porta e já um tanto 
recuperado  dos  machucados,  Roberto  Carlos 
demonstra certa impaciência por estar ali preso. 
Depois de andar um pouco para lá e para cá e 
remexer nas gavetas, ele vai até a porta do ba-
nheiro e resolve abri-la devagar.
70 – SALA DA CASA DE MARGHERIT – INT. NOITE.
Margherit está assistindo à televisão com o vo-
lume baixo e de óculos. É algum filme de ação, 
com tiros ou derrapadas de carro. Ela identifica 
o rangido do assoalho lá em cima e aumenta o 
som da tevê propositalmente.
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71 – ESCADARIA DA CASA DE MARGHERIT – INT. 
NOITE.
Cena 1: Roberto Carlos se esgueira e se acomoda 
em algum ponto das escadas para assistir ao fil-
me. A cena deve ser parecida com a da sequência 
em que ele vê tevê pela primeira vez. Ficamos 
com a luz em seu rosto, ouvindo tiros, freadas, 
sirenes de polícia. O filme acaba. Margherit, sem 
olhar para ele, diz: 
MARGHERIT
Se  você  quiser,  pode  dormir  no  outro 
quarto, hoje. 
72 – QUARTO DA CASA DE MARGHERIT – INT. 
NOITE.
Roberto Carlos empurra uma cômoda para tran-
car a porta. Depois se deita. 
73 – QUARTO DE MARGHERIT – INT. DIA.
Ela passa pelo quarto dele, ela não está confor-
tável.
Ela  entra  no  quarto  tranca  a  porta.  Senta  na 
cama, respira.
Sentada na cama, ela fala ao gravador (em fran-
cês, é claro).
MARGHERIT
Agora ele está dormindo no quarto do 
lado. Eu queria estudar ele, mas não sei 
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se queria ele aqui, tão perto de mim. É 
como estudar um leão e o leão fugir para 
a sua casa. 
Ela para de falar, dá uma pausa, desliga o gra-
vador e
 
traga o cigarro.
74 – CASA DE MARGHERIT – INT. DIA.
Margherit está tomando o café da manhã quan-
do ouve passos atrás de si. Roberto Carlos desce 
as escadas, vai até a mesa e senta-se diante dela. 
Margherit  não  faz  nenhum  comentário.  Ele 
também não fala nada, só vai se servindo, com 
certa timidez. 
MARGHERIT
Você não quer falar nada?
Roberto Carlos responde que não com a cabeça.
MARGHERIT
Por que você veio para cá?
Roberto Carlos nem responde, só come.
Ela espera pra ver se ele vai falar aguma coisa, 
nada acontece e ela toma a frente.
MARGHERIT
Está bom. Se você não fala eu falo.
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Ele olha para ela disfarçadamente, curioso.
MARGHERIT
Eu nasci numa cidade chamada Marseille, 
num  país  chamado  França.  Minha  cor 
preferida é azul, eu sou pedadoga, meu 
signo é câncer, eu gosto mais de verão 
que de inverno, mais do dia que da noite 
e gosto de andar de bicicleta. A coisa mais 
linda que tem no mundo para mim é um 
cacho de uva da Champanhe, e a minha 
comida preferida é coq au vin...
ROBERTO
Cocô?
MARGHERIT
Co-co-vam. É galinha cozinhada com vinho.
ROBERTO
(Desconfiado)
MARGHERIT
Esta é a minha segunda vez no Brasil. An-
tes eu vim passear em Salvador e no Rio 
de Janeiro. Fiquei seis meses. Mas desta 
vez eu não vim passear, vim estudar. 
ROBERTO CARLOS
(Silêncio)
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MARGHERIT
É. Por isso que eu estava lá na Febem. E 
por isso que eu quero saber a sua história. 
Compris?
 
Entendeu? 
ROBERTO CARLOS
A dona fala tudo estranho.
MARGHERIT
É  que  onde  eu  moro,  as  pessoas  falam 
como eu. É uma língua diferente. Je parle 



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