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Oui!
Telefone toca e confirmam a reunião com o côn-
sul. Ele saca alguma coisa estranha e ela, tensa.
MARGHERIT
Alô.  Oui.  (Fica  de  costas  para  Roberto)
Demain? Oui, tre bien,
 
d´accord.  
MARGHERIT
(Disfarçando) Onde a gente parou mesmo?
ROBERTO CARLOS
Amanhã a gente podia fazer coq au vin.
MARGHERIT
Não vai dar. Amanhã eu vou almoçar com 
o cônsul da França.
ROBERTO CARLOS
Com quem?
MARGHERIT
O  cônsul  é  um  homem  que  cuida  dos 
franceses que estão aqui no Brasil.
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Ele  percebe  vagamente  que  isso  não  é  uma 
boa notícia.
ROBERTO CARLOS
Ah...tá.
MARGHERIT
É que meu visto vai vencer.
ROBERTO CARLOS
E daí?
MARGHERIT
O  visto  é  um  documento  que  deixa  eu 
ficar aqui no Brasil. 
ROBERTO CARLOS
E você... vai ter que voltar?
MARGHERIT
Ainda não sei direito. (Pausa grande) Mas 
um dia eu tenho que voltar para a França. 
A minha casa é lá.
Roberto fica desapontado, mas tenta disfarçar.
ROBERTO CARLOS
E a sua pesquisa? (Como se falasse e eu?)
MARGHERIT
(Pausa) Já acabou.
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100 – FEBEM (PáTIO) – ExT. DIA.
Pérola e Margherit conversam no meio de crian-
ças pequenas.
PÉROLA
(Levemente  surpresa)  Daqui  a  uma  se-
mana? Já?!
MARGHERIT
É.
PÉROLA
Então essa é uma conversa de despedida?
MARGHERIT
(Responde  que  sim  com  a  cabeça)  Oui, 
oui, ces’t la fin.
PÉROLA
Bom, espero que o Roberto tenha ajuda-
do na sua pesquisa.
MARGHERIT
Ajudou muito. (Sorri) Você também.
Silêncio. Por alguns instantes observam as crianças 
que andam de “cabeça baixa” num clima triste.
PÉROLA
Vai ser difícil pra ele.
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MARGHERIT
Vai.  Mas  o  Roberto  não  é  mais  aquele 
menino de cabeça baixa que eu conheci 
aqui na Febem. 
PÉROLA
O Roberto teve sorte. 
Margherit assume uma postura superior. 
MARGHERIT
Não foi só sorte. Foi trabalho. Eu sabia 
que um menino de 13 anos não pode ser 
considerado irrecuperável.
PÉROLA
O seu trabalho, minha amiga, foi fazer 
o  papel  de  mãe.  Você  levou  o  menino 
para casa, deu roupa , comida e carinho... 
(Respira fundo) Eu ia adorar ter dinheiro 
para cuidar de cada criança como se ela 
fosse  única.  Mas  não  dá.  O  que  se  faz 
aqui é política pública. Isso é uma guerra.
MARGHERIT
Uma guerra que vocês estão perdendo.
PÉROLA
Ela  já  começou  perdida.  Quando  uma 
mãe chega aqui e entrega o filho, é por-
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que ela já perdeu a guerra para a pobre-
za. Ela espera que a gente faça milagre. 
E a gente até tenta. Mas milagre é coisa 
que só acontece de vez em quando.
MARGHERIT
(Fica sem saber o que dizer, procura um 
cigarro, acha)
 
PÉROLA
E ele? Já sabe?
MARGHERIT
Não. Acabei de falar com o cônsul.
Pausa.
PÉROLA
Bom, quando estiver tomando um vinho 
lá em Marselha, lembre de seus amigos 
pobres aqui.
Elas  se  levantam,  brincadeira  de  amigas,  olho 
nos olhos. Se abraçam.
MARGHERIT
Au revoir, ma Pérola.
101 – BANHEIRO DA CASA DE MARGHERIT – INT. 
DIA.
Cena 1: Roberto Carlos está trancado no banhei-
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ro, sentado sobre o vaso, como no primeiro dia 
em que chegou à casa de Margherit. Ele olha 
para aquele ambiente com um olhar de despe-
dida. Ele levanta e vai até a banheira. Chegando 
lá, ele abre as torneiras.
Cena 2: Roberto Carlos entra na banheira e veda 
o ralo da banheira com uma camisa ou toalha. 
Depois observa por uns instantes a água a subir. 
Ficando em pé, liga também o chuveiro. Dali ele 


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