Conquista do reassentamento coletivo


Uma luta por direitos humanos: a trajetória da comunidade de Piquiá



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Uma luta por direitos humanos: a trajetória da comunidade de Piquiá  

A  cidade  de  Açailândia  é  ponto  estratégico  para  a  Estrada  de  Ferro  Carajás  e, 

apesar do aumento do Produto Interno Bruto (PIB) regional, os resultados da instalação 

da  ferrovia  são criticados por não terem melhorado os indicadores  de desenvolvimento 

humano na cidade, ter gerado impactos ambientais por causa da exploração dos recursos 

naturais e problemas sociais através do crescimento desordenado do local (FRANKLIN, 

2008, p. 187).  

Piquiá é um dos bairros mais antigos de Açailândia-MA, vila que surgiu em 1958, 

com o início da construção da BR Belém-Brasília. Uma área do local, conhecida depois 

como Piquiá de Baixo, foi ocupada na metade dos anos 60. Vieram famílias atraídas pela 

chance de vencer as dificuldades, começar uma vida nova em um pedaço de chão fértil.  

Eram agricultores que queriam viver, plantar e construir outros sonhos. Com o fim das 

obras da BR 222, que ligou a região à capital São Luís, perto de 1972, mais moradores se 

fixaram no bairro, atraídos pela exploração madeireira e a agricultura.  

Joaquim Amaral de Sousa chegou com 17 anos à Açailândia, em 1962. A trajetória 

da família dele foi decisiva para o surgimento de Piquiá de Baixo. Junto com os pais e 

quatros irmãos, saiu de Vitória da Conquista-BA naquele começo da década de 60, no 

período do inverno. Em 1968, a construtora Mendes Júnior chegou com uma novidade: a 




construção de um trecho da BR 222.  Mais gente chegava e as disputas pelas terras em 

torno da estrada se intensificaram, o que levou a família de Joaquim a vender parte dos 

terrenos.     

Após a conclusão da BR 222, perto de 1972, a construtora deixou um espaço para 

a primeira escola, a Escola Municipal Almirante Barroso. Fundada oficialmente em 1974, 

guarda os registros dos que passaram pelo bairro. É considerada uma das mais antiga de 

Açailândia. A comunidade de Piquiá estava crescendo nos anos 70. Já havia uma demanda 

pela escola, o que mostrava ter ali um bairro pulsando

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 Outro morador que chegou no final dos anos 60 em Piquiá foi Antônio Araújo, à 



época com 18 anos. O objetivo era conseguir um emprego, para isso saiu da cidade de 

Santa Inês-MA, distante 383 km, para concretizar seu intento. Antonio se recorda que o 

ambiente de trabalho e de moradia era bom na comunidade nos anos 70, quando trabalhou 

na agricultura familiar.  

Na década seguinte, começou um processo que Antonio nomeiou de “batalha”. A 

instalação da Estrada de Ferro Carajás e de cinco siderúrgicas trouxeram problemas para 

os  moradores:  Ferro  Gusa  do  Maranhão  S/A  (Fergumar),  Viena  Siderúrgica  e  Cia, 

Companhia  Siderúrgica  Vale  do  Pindaré  (Covap),  Gusa  Nordeste  e  Siderúrgica  do 

Maranhão  S/A  (Simara),  responsáveis  pelo  melhoramento  do  minério  a  ser  exportado. 

Começara o barulho dia e noite da ferrovia e a poluição do ar com a poeira escura dos 

fornos.  O  agricultor  foi  um  dos  que  apoiou  a  mobilização  para  que  os  direitos  dos 

moradores fossem respeitados. “Antes da associação (dos moradores) todos andavam de 

cabeça baixa”, relata Antonio, que ficou viúvo anos depois. A esposa começou a passar 

mal e uma das queixas era a respiração difícil. Ela não resistiu e faleceu.   

Próxima à casa do agricultor Antonio Araújo, em Piquiá de Baixo, está localizada 

a  primeira  escola  do  bairro.  A  primeira  diretora  Clarinda  de  Sousa  Brandão,  79  anos, 

residiu em Piquiá de Baixo até 2008, quando saiu por causa dos danos causados pela má 

qualidade de vida. “Eu via da minha casa o fogaréu do ferro descendo da Gusa. Se não 

tivesse saído tinha  morrido”, enfatiza. Clarinda afirma que  na chegada as siderúrgicas 

havia  promessa  de  muito  emprego,  o  que  não  se  concretizou  porque  as  empresas  já 

traziam funcionários de Minais e São Paulo. 

                                                             

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 A Escola Almirante Barroso, primeira escola de Piquiá, traz placa de fundação de 31 de julho de 1974. 



As atas escolares existentes nela registram turmas crescentes desde 1976. A primeira apresentou 38 alunos 

em idade escolar. Em 1977, duas turmas são documentadas: 33 e 38 alunos respectivamente. O número 

crescente de alunos, registrada pela escola, reforça o relato dos moradores de que,  nos anos 70, o bairro 

começou a receber mais moradores.  




 A piauiense Angelita Alves de Oliveira, 66 anos, chegou em Piquiá em 1975, e 

se admirou com o que encontrou. “Era um lugar bem movimentado, tinham comércios 

grandes,  havia  muitas  serrarias”,  rememora.  A  vinda  estava  repleta  de  expectativa.  A 

família dela já tinha migrado para o Maranhão anos antes, em 1959, em busca de terra 

para melhorar as condições de vida. Alguns anos antes do posto, Angelita percebeu que 

começaram a desmatar uma área perto do riacho de Piquiá de Baixo. Ao conversar com 

os  operários,  soube  que  seria  uma  ferrovia  do  projeto  Grande  Carajás,  que  iria  levar 

minério  da  Serra  do  Carajás-PA  ao  porto  da  capital,  São  Luís.  A  estrada  passaria  no 

bairro. E que em dez anos, tudo ficaria pronto. 

Os anos passaram e o trecho da ferrovia foi finalizado, com os primeiros testes em 

1984.  E  as  mudanças  não  pararam.  Entre  1984  e  1988,  as  primeiras  duas  siderúrgicas 

chegaram: Viena Siderúrgica e Companhia Vale do Pindaré. Para isso, recorda Angelita, 

a paisagem do bairro mudou: “compraram os terrenos dos fazendeiros, o terreno da Viena 

era do seu Zé Miúdo. Foram comprando as terras e foram se agregando e tomaram de 

conta”. Em 1990, mais uma siderúrgica e instalou, a Gusa Nordeste. 

A  chegada  da  Gusa  Nordeste,  impactou  complemente  a  vida  de  Angelita  e  sua 

família.  Os  fornos  da  siderúrgica  foram  construídos  no  terreno  ao  lado  da  casa  onde 

moravam. E os problemas nunca cessaram. Após 28 anos, o dia a dia dos moradores se 

tornou uma luta contra a destruição. “Você precisa ver o meu quintal. Praticamente todo 

acabado.  Não tem  utilidade  mais  para  nada”,  diz.  Quem  percorre  hoje  os  5  mil  e  100 

metros quadrados do terreno atrás da residência da família tem uma sensação horrível de 

perda, de aniquilamento. Os frutos nas árvores estão revestidos de uma poeira negra. 

 O teto de cada cômodo da casa, onde Angelita mora desde 1982, é recoberto por 

um plástico, preso aos caibros de madeira, onde se acumulam os resíduos expelidos pela 

siderúrgica. É uma tentativa de impedir que os respirem. Angelita, que tem problemas na 

coluna, agravado por limpar a casa intensamente, se recorda de um episódio que resume 

a  “queda  de  braço”  contra  a  destruição:  “Eu  conversei  com  o  meu  filho  Bernardo  e 

decidimos  plantar  açaís  e  buritis.  Num  dia  plantamos  111  pés.  E  não  falhou  um.  Mas 

quando  estavam  grandinhos,  a  água  veio  dos  altos  fornos  com  tudo.  Quebrou  uma 

ribanceira que a Gusa construiu, embora tenha parado a construção no meu quintal, e a 

água quente derrubou tudo, acabou com tudo”, relembra. 

Para fazer frente ao processo de precarização da vida em curso, os moradores de 

Piquiá  de  Baixo,  parte  do  bairro  onde  as  siderúrgicas  se  instalaram,  começaram  a  se 

mobilizar em 1989 por seus direitos, quando criaram a primeira Associação de Moradores 




(ACMP)

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. Mas o processo se intensificou com a carta enviada pelo então presidente da 



associação,  Edvard  Dantas,  ao  então  presidente  Luís  Inácio  Lula  da  Silva,  em  2005, 

solicitando apoio contra a poluição e as mortes em Piquiá de Baixo.  

  




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