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  A  partir  deste  ponto  do  texto,  a  designação  do  documento  surgirá  sempre  de  forma  abreviada: LC. 4



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A  partir  deste  ponto  do  texto,  a  designação  do  documento  surgirá  sempre  de  forma 
abreviada: LC.

“¿Se puede decir, efectivamente, desde un punto de vista muy general, que lo que diferencia 
el ‘viaje’ de todos los desplazamientos humanos imaginables, es que culmina para el viajero 
en un relato? Caso particular de un hecho más general todavía: cualquier toma de posesión 
territorial se realiza a través de un relato, aunque sea el que produce o falsifica la prueba de un 
derecho. Se agudiza una tensión entre la historia (el viaje tal y como fue, y como tal, inefable) 


ORDENAR O MUNDO PELA FRONTEIRA IMAGINADA: O CASO DO LIVRO DO CONHECIMENTO
HISTORIAS DE FRONTERA. FRONTERAS CON HISTORIA
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María Jesús Lacarra, por sua vez, defende que o princípio do verosímil 
e do crível não funcionava para os autores e leitores destas obras da mes‑
ma forma que para os actuais. Os critérios que estavam na sua base eram 
inequivocamente distintos
5
. Os leitores de então liam a obra segundo uma 
pluralidade  de  perspectivas,  as  quais,  como  assinala  Hans  Robert  Jauss, 
determinavam a concepção das próprias obras
6

Baseando‑se no conceito central de “horizonte de expectativas” – que 
se define pelo conjunto de expectativas culturais, éticas e literárias mani‑
festadas pelos leitores no preciso momento histórico em que a obra sur‑
ge –, Jauss defende que, para além da tradicionalmente aceite estética de 
produção  e  representação,  existe  outra  ainda  mais  determinante,  pois, 
situada  a  um  nível  profundo,  que  está  na  base  dessa  própria  produção: 
uma  estética  de  recepção  e  influência.  Esta  estética  tem  por  alicerces  a 
precedente experiência literária dos leitores e, sobretudo, o seu horizonte 
de expectativas relativamente à obra que está para vir. Este estado mental 
predispõe e influencia o autor durante o próprio processo de concepção 
da obra.
Por  outras  palavras,  é  tão  importante  conhecer  o  auditório  e  saber 
o  que  este  espera  como  conhecer  o  próprio  significado  da  mensagem. 
O horizonte de acolhimento e as expectativas do auditório impõe‑se, pois, 
como  fundamentais  num  estudo  que  pretende  abordar  a  relação  entre 
y  la  geografía;  entre  el  tiempo  irrecuperable  y  el  espacio  permanentemente  disponible.  Por 
esta razón resulta inadmisible, en este nivel profundo, en este tema y en esta época, el criterio 
que opone, en nuestra mente, lo ‘real’ y lo ‘imaginario’. El autor y su público eran indiferentes 
al criterio de credibilidad: ¡se seguía ilustrando con dibujos fantásticos el texto de Marco Polo 
ciento  veinte  años  después  de  que  fuera  dictado!”,  em  Zumthor,  Paul.  1994.  La  Medida  Del 
Mundo – Representatión del espacio en la Edad Media. Madrid: Cátedra, 290.

Cf. Lacarra, María Jesús. 1999. “El Libro del Conosçimiento: un viaje alrededor de un mapa”. Em 
Libro del conosçimiento de todos los rregnos et tierras et señorios que son por el mundo, et de las señales et 
armas que han, ed. facsimilar del Manuscrito Z (Múnich, Bayerische Staatsbibliothek, Cod. Hisp. 150), eds. 
María Jesús Lacarra et al., 78. Zaragoza: Institución “Fernando El Católico” (CSIC).

Cf. Jauss, Hans Robert. 1985. “Literary history as a challenge to literary theory”. Em Toward an 
Aesthetic of Reception. Paris: University of Minnesota Press, 3‑45.


ORDENAR O MUNDO PELA FRONTEIRA IMAGINADA: O CASO DO LIVRO DO CONHECIMENTO
HISTORIAS DE FRONTERA. FRONTERAS CON HISTORIA
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uma obra literária de carácter ficcional e as suas possíveis ligações com a 
realidade histórica. 
No caso de textos como o LC, que mediante a utilização da primeira pes‑
soa fazem‑se enquadrar no modelo autobiográfico, certamente que os leito‑
res operavam uma associação entre a obra e outras produções semelhantes, 
como eram as relações de viagens dos missionários. Desta forma, os textos 
imaginários ganhavam em autenticidade e credibilidade – o inverosímil do 
itinerário do LC não impediu que fosse referência para os conquistadores 
das Canárias, ou até, como defende Peter Russell, eventualmente para as 
expedições de D. Henrique no litoral ocidental africano
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Paul Zumthor salienta também o facto de os autores medievais, até 
bem dentro de Quinhentos, parecerem conscientes de estarem a relatar 
coisas difíceis de crer. Daí a necessidade de se apoiarem nos autores anti‑
gos, nas autorictas, como base legitimadora para a sua mensagem
8
.
Não é por isso de estranhar que nos países da Cristandade os relatos 
de viagem tivessem exercido sobre os seus leitores uma grande influência, 
quer pelos factos que nomeavam quer pela significação de que se reves‑
tiam na mentalidade colectiva. Tratava‑se, afinal, de responder a uma ne‑
cessidade desse público.
É  também  fundamental  não  esquecer  que  os  livros  de  viagens  para 
além de uma função informativa desempenhavam uma função pragmática: 
o leitor fazia uma integração interior da viagem narrada, ou seja, esta lei‑
tura funcionava também como um movimento escatológico do indivíduo, 
alterando e determinando consequentemente a sua visão do mundo que o 
rodeava. Este fenómeno, como salienta Pedro Cátedra, se bem que se veri‑

Cf. Russell, Peter E. 1997. “A Quest Too Far: Henry the Navigator and Prester John”. Em The 
Medieval Mind: Hispanic Studies in Honour of Alan Deyermond, eds. I. Macpherson e R. Penny, 401‑
‑416.  Londres:  Tamesis;  Russell,  Peter  E.  1981.  “The  Infante  Dom  Henrique  and  the  Libro  del 
conoscimiento del mundo”. Em In memoriam Ruben Andressen Leitão, ed. J. Sommer Ribeiro, vol. II, 
259‑267. Lisboa: Imprensa Nacional‑Casa da Moeda, Lisboa.

Zumthor, La medida, 285‑303.

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