Como Vejo o Mundo



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3374Como-Vejo-o-Mundo
Ao secretário alemão da Sociedade das Nações
Prezado Senhor Dufour-Feronce,
Não  quero  deixar  sua  amável  carta  sem  resposta  porque  o  senhor  poderia  se  enganar  ao
considerar meu ponto de vista. Minha decisão de não mais comparecer a Genebra baseia-se na
evidência  adquirida  por  dolorosa  experiência:  a  comissão  em  geral  não  manifesta  em  suas
sessões  a  firme  vontade  de  realizar  os  progressos  indispensáveis  para  as  relações
internacionais.  Muito  ao  contrário,  assemelha-se  a  uma  paródia  do  adágio ut  aliquid  fieri
videatur.* Vista deste modo, a comissão me parece até mesmo pior do que a Sociedade das
Nações em conjunto. Por ter querido me bater com todas as forças pela criação de uma Corte
Internacional de Arbitragem e de regulamentação colocada acima dos Estados, e porque este
ideal representa muitíssimo para mim, creio dever deixar esta Comissão. A Comissão aprovou
a  repressão  das  minorias  culturais  nos  vários  países  porque,  nestes  mesmos  países,  ela
constituiu  uma  “Comissão  Nacional”,  único  laço  teórico  entre  os  intelectuais  do  Estado  e  a
Comissão. Esta política deliberada afasta-a de sua função própria: ser um apoio moral para as
minorias  nacionais  contra  toda  opressão  cultural.  Além  disso,  a  Comissão  manifestou  uma
atitude de tal forma hipócrita em face do problema da luta contra as tendências chauvinistas e


militaristas do ensino nos diversos países, que não se pode esperar tenha uma atitude decisiva
nesse  domínio  essencial,  fundamental.  A  Comissão  constantemente  se  dispensou  de  ser  o
apoio  de  personalidades  ou  de  organizações  que,  de  modo  irrecusável,  se  empenharam  por
uma ordem jurídica internacional e contra o sistema militar.
A  Comissão  jamais  tentou  impedir  a  integração  de  membros  que  bem  sabia  serem
representantes  de  correntes  de  idéias  fundamentalmente  diversas  daqueles  que  tinha  a
obrigação de representar.
Não quero mais enumerar outras acusações, pois estas poucas objeções dão suficiente motivo
para  se  compreender  minha  decisão.  Não  quero  no  entanto  me  arvorar  em  acusador.  Mas
devia explicações sobre minha atitude. Se eu tivesse uma esperança, ainda que fosse mínima,
teria agido de modo diferente, pode crer.
SOBRE A QUESTÃO DO DESARMAMENTO
A realização de um plano de desarmamento era ainda mais complicada porque, em geral, não
se  encarava  claramente  a  enorme  complexidade  do  problema.  De  ordinário  a  maioria  dos
objetivos se obtém por escalões sucessivos. Lembremo-nos por exemplo da transformação da
monarquia  absoluta  em  democracia!  Mas  aqui  o  objetivo  não  suporta  nenhum  escalão.  Com
efeito,  enquanto  a  possibilidade  da  guerra  não  for  radicalmente  supressa,  as  nações  não
consentirão  em  se  despojar  do  direito  de  se  equipar  militarmente  do  melhor  modo  possível
para  esmagar  o  inimigo  de  uma  futura  guerra.  Não  se  poderá  evitar  que  a  juventude  seja
educada  com  as  tradições  guerreiras,  nem  que  o  ridículo  orgulho  nacional  seja  exaltado
paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos
cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente
isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não
se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca.
* “Para dar a impressão de que se faz algo.” (N. do E.). 33
Na vida das nações, uma realização de estrutura tão profundamente diferente implica uma
força moral nova e uma recusa consciente de tradições fundamente arraigadas. Aquele que não
está pronto a entregar, em caso de conflito e sem condições, o destino de seu país às decisões
de uma Corte internacional de arbitragem e que não está pronto a se comprometer solenemente
e  sem  reservas  a  isto  por  um  tratado,  não  está  realmente  decidido  a  eliminar  as  guerras. A
solução é clara: tudo ou nada.
Até  este  momento,  os  esforços  empregados  para  conseguir  a  paz  fracassaram,  porque
ambicionavam  somente  resultados  parciais  insuficientes.  Desarmamento  e  segurança  só  se
conquistam  juntos,  A  segurança  não  será  real  a  não  ser  que  todas  as  nações  tomem  o
compromisso  de  executar  por  completo  as  decisões  internacionais.  Estamos  portanto  na
encruzilhada  dos  caminhos.  Ou  tomaremos  a  estrada  da  paz  ou  a  estrada  já  frequentada  da
força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis!
De  um  lado,  liberdade  dos  indivíduos  e  segurança  das  comunidades  nos  esperam.  Do  outro,
servidão  dos  indivíduos  e  aniquilamento  das  civilizações  nos  ameaçam.  Nosso  destino  será
aquele que escolhermos.
A  RESPEITO  DA  CONFERÊNCIA  DO  DESARMAMENTO  EM  1932  1.  Consentem  que
comece por uma profissão de fé política? Ei-la. O Estado foi criado para os homens, e não o
inverso.  Pode-se  apresentar  o  mesmo  arrazoado  tanto  para  a  Ciência  quanto  para  o  Estado.


Velhas máximas buriladas por seres que situavam a pessoa humana no cume da hierarquia dos
valores!  Eu  teria  vergonha  de  repeti-las,  se  não  estivessem  sempre  ameaçadas  de  mergulhar
no esquecimento, sobretudo em nossa época de organização e de rotina. Ora, a tarefa principal
do  Estado  consiste  nisto:  proteger  o  indivíduo,  oferecer-lhe  a  possibilidade  de  se  realizar
como pessoa humana criativa.
O  Estado  deve  ser  nosso  servidor  e  não  temos  obrigação  de  ser  seus  escravos.  Esta  lei
fundamental é vilipendiada pelo Estado, quando nos constrange à força ao serviço militar e à
guerra. Nossa função de escravos se exerce então para aniquilar os homens de outros países
ou para prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifícios ao Estado só
é  um  dever  quando  contribuem  para  o  progresso  humano  dos  indivíduos.  Estas  proposições
talvez pareçam evidentes para um americano, mas de modo algum para um europeu. Por este
motivo,  esperamos  que  a  luta  contra  a  guerra  desperte  poderoso  eco  entre  os  americanos.
Falemos  agora  desta  conferência  do  desarmamento.  Refletindo  sobre  ele,  devemos  sorrir,
chorar  ou  esperar?  Imaginem  uma  cidade  habitada  por  cidadãos  irascíveis,  desonestos  e
rixentos.  Seria  permanente  o  risco  de  morrer  e  permanente,  portanto,  a  terrível  angústia,
neutralizando  qualquer  evolução  normal.  A  autoridade  da  cidade  quer  então  suprimir  estas
condições pavorosas... mas cada magistrado e concidadão não aceita, sob nenhuma condição,
que lhe proíbam trazer um punhal no cinto! Depois de longos anos de preparação, a autoridade
decide debater em público o problema e propõe este tema de discussão: comprimento e corte
do  punhal  individual  autorizado  a  ser  trazido  no  cinto  durante  os  passeios?  Enquanto  os
cidadãos conscientes não tomarem a dianteira graças à lei, à justiça e à polícia para impedir
as  punhaladas,  a  situação  ficará  a  mesma.  A  determinação  do  comprimento  e  do  corte  dos
punhais  autorizados  só  favorecerá  os  violentos  e  belicosos  e  lhes  submeterá  os  mais  fracos.
Os  senhores  compreendem  todo  o  sentido  desta  comparação.  Temos  com  efeito  uma
Sociedade  das  Nações  e  uma  Corte  de  Arbitragem.  Mas  a  Sociedade  das  Nações  mais  se
parece  a  uma  sala  de  reunião  do  que  a  uma  assembléia  e  a  Corte  não  tem  meios  de  fazer
respeitar seus vereditos. Em caso de agressão, nenhum Estado encontrará segurança junto da
Sociedade das Nações. Não se esqueçam, pois, desta evidência quando avaliarem a posição
da França e sua recusa de se desarmar, sem segurança. Os senhores julgarão então com menor
severidade  do  que  se  costuma  fazer.  Cada  povo  deve  compreender  e  querer  as  limitações
necessárias a seu direito de soberania, cada povo deve intervir e associar-se aos outros povos
contra  qualquer  transgressor  das  decisões  da  Corte,  oficialmente  ou  secretamente.  Senão,
manteremos o clima geral de anarquia, de ameaça. A 34
soberania ilimitada dos diversos Estados e a segurança em caso de agressão são proposições
inconciliáveis,  apesar  de  todos  os  sofismas.  Haverá  ainda  necessidade  de  novas  catástrofes
para incitar os Estados a se empenharem em executar todas as decisões da Corte Internacional
de Justiça? Nas bases de sua recente evolução, nossa esperança para o próximo futuro é bem
reduzida. Cada amigo da civilização e da Justiça, porém, tem de se bater para convencer seus
semelhantes  da  inevitável  necessidade  desta  obrigação  internacional  entre  os  Estados.
Objetar-se-á com razão que esta idéia valoriza demais o sistema jurídico, mas negligencia as
psicologias  nacionais  e  os  valores  morais.  Fazem  ver  que  o  desarmamento  moral  deveria
preceder  o  desarmamento  material. Afirma-se  também,  com  verdade,  que  o  maior  obstáculo
para  a  ordem  internacional  consiste  no  nacionalismo  exacerbado,  denominado  ilusória  e


simpaticamente de patriotismo. Com efeito, nos últimos cento e cinquenta anos, esta divindade
adquiriu um poder criminoso angustiante e extraordinário. Para vencer esta objeção, é preciso
entender  que  os  fatores  racionais  e  humanos  se  condicionam  reciprocamente  e  convencer-se
disto.  Os  sistemas  dependem  estreitamente  de  concepções  tradicionais  sentimentais,  e  delas
extraem  as  razões  de  existir  e  de  se  proteger.  Mas  os  sistemas  elaborados,  por  sua  vez,
influenciam poderosamente as concepções tradicionais sentimentais.
O  nacionalismo,  hoje  espalhado  por  toda  parte  de  maneira  tão  perigosa,  se  desenvolve
perfeitamente  a  partir  da  criação  do  serviço  militar  obrigatório,  ou,  belo  eufemismo,  do
exército nacional. Exigindo dos cidadãos o serviço militar, o Estado se vê obrigado a neles
exaltar  o  sentimento  nacionalista,  base  psicológica  dos  condicionamentos  militares. Ao  lado
da religião, o Estado deve glorificar em suas escolas, aos olhos da juventude, seu instrumento
de força brutal. A introdução do serviço militar obrigatório, eis a principal causa, a meu ver,
da  decadência  moral  da  raça  branca. Assim  se  coloca  a  questão  da  sobrevivência  de  nossa
civilização e até mesmo de nossa vida! Por isto o poderoso influxo da revolução francesa traz
inúmeras  vantagens  sociais,  mas  também  a  maldição  que,  em  tão  pouco  tempo,  caiu  sobre
todos  os  outros  povos.  Quem  quer  desenvolver  o  sentimento  internacional  e  combater  o
chauvinismo  nacional,  tem  de  combater  o  serviço  militar  obrigatório.  As  violentas
perseguições  que  se  abatem  sobre  aqueles  que,  por  motivos  morais,  recusam  cumprir  o
serviço militar, serão menos ignominiosas para a humanidade do que as perseguições a que se
expunham nos tempos passados os mártires da religião? Ousar-se-á hipocritamente proclamar
a guerra fora da lei, como o faz o pacto Kellog, enquanto se entregam indivíduos sem defesa à
máquina  assassina  da  guerra  em  qualquer  país?  Se,  no  espírito  da  conferência  do
desarmamento  não  quisermos  nos  limitar  ao  aspecto  do  sistema  jurídico,  mas  desejarmos
também incluir, de modo prático e leal, o aspecto psicológico, será preciso tentar oferecer, a
cada  indivíduo,  por  via  internacional  a  possibilidade  legal  de  dizer  não  ao  serviço  militar.
Esta  iniciativa  jurídica  suscitaria  sem  dúvida  alguma  poderoso  movimento  moral.  Numa
palavra.  Simples  convenções  sobre  a  redução  dos  armamentos  não  dão  absolutamente
segurança.  A  Corte  de  Arbitragem  obrigatória  deve  dispor  de  um  executivo  garantido  por
todos  os  Estados  participantes.  Este  interviria  por  sanções  econômicas  e  militares  contra  o
Estado violador da paz. O serviço militar obrigatório tem de ser combatido porque constitui o
principal  foco  de  um  nacionalismo  mórbido.  Aqueles  que  fazem  objeção  de  consciência
devem  portanto  ser  de  modo  particular  protegidos  internacionalmente.  2.  O  engenho  dos
homens  nos  ofereceu,  nos  últimos  cem  anos,  tanta  coisa  que  teria  podido  facilitar  uma  vida
livre e feliz, se o progresso entre os homens se efetuasse ao mesmo tempo que os progressos
sobre  as  coisas.  Ora,  o  laborioso  resultado  se  assemelha,  para  nossa  geração,  ao  que  seria
uma navalha para uma criança de três anos. A conquista de fabulosos meios de produção não
trouxe a liberdade, mas as angústias e a fome. Pior ainda, os progressos técnicos fornecem os
meios  de  aniquilar  a  vida  humana  e  tudo  o  que  foi  duramente  criado  pelo  homem.  Nós,  os
velhos, vivemos esta abominação durante a guerra mundial. Porém, mais ignóbil do que este
aniquilamento, vivemos a escravidão vergonhosa a que o homem se vê arrastado pela guerra!
Não é pavoroso ser constrangido pela comunidade a realizar atos que cada um, diante de sua
consciência, considera criminosos? Ora, poucos foram aqueles que 35
revelaram  tanta  grandeza  de  alma  que  se  recusaram  a  cometê-los.  No  entanto,  a  meus  olhos,


são os
verdadeiros heróis da guerra mundial.
Há  uma  luzinha  de  esperança.  Tenho  a  impressão  hoje  de  que  os  chefes  responsáveis  dos
povos  têm  sincera  intenção  e  vontade  de  abolir  a  guerra.  A  resistência  a  este  progresso
absolutamente necessário apóia-se nas tradições malsãs dos povos: transmitem-se de geração
em  geração,  através  do  sistema  de  educação,  como  um  cancro  hereditário.  A  principal
defensora de tais tradições é a instrução militar e sua glorificação, bem como aquela fração da
imprensa  ligada  às  indústrias  pesadas  ou  de  armamento.  Sem  desarmamento,  nada  de  paz
duradoura. Inversamente, os armamentos militares ininterruptos, nas atuais normas, conduzem
inevitavelmente a novas catástrofes.
Por  isso  a  conferência  sobre  o  desarmamento  de  1932  será  decisiva  para  esta  geração  e  a
seguinte. As  conferências  precedentes  terminaram  por  resultados,  confessemos,  desastrosos.
Por conseguinte, impõe-se a todos os homens perspicazes e responsáveis que conjuguem todas
as energias para cristalizar cada vez mais na opinião pública o papel essencial da conferência
de  1932.  Se,  em  seus  países,  os  chefes  de  Estado  encarnarem  a  vontade  pacífica  de  uma
maioria  resoluta,  então  e  só  assim  poderão  realizar  este  ideal.  Cada  um,  por  suas  ações  e
palavras, pode ajudar na formação desta opinião pública.
O  malogro  da  conferência  será  certo  se  os  delegados  ali  se  apresentarem  com  instruções
definitivas,  cuja  aceitação  se  transformaria  em  questão  de  prestígio.  Esta  política  parece  ter
sido  descartada.  Porque  as  reuniões  de  diplomatas,  delegação  por  delegação,  reuniões
frequentes  nos  últimos  tempos,  foram  consagradas  a  preparar  solidamente  a  conferência  por
discussões  sobre  o  desarmamento.  Este  processo  me  parece  muito  feliz.  Com  efeito,  dois
homens ou dois grupos podem trabalhar com um espírito judicioso, sincero e sem paixão, se
não intervier um terceiro grupo que é preciso levar em conta no debate. E se a conferência for
preparada seguindo este processo, se os gestos teatrais forem excluídos e se uma verdadeira
boa  vontade  criar  um  clima  de  confiança,  somente  então  poderemos  esperar  uma  saída
favorável. Neste gênero de conferências, o sucesso não depende da inteligência ou da perícia,
mas  da  honestidade  e  da  confiança.  O  valor  moral  não  pode  ser  substituído  pelo  valor
inteligência e eu acrescentaria: Graças a Deus!
O ser humano não pode se contentar com esperar e criticar. Deve lutar por esta causa, tanto
quanto  puder.  O  destino  da  humanidade  será  o  que  prepararmos.  A  AMÉRICA  E  A
CONFERÊNCIA DO DESARMAMENTO EM 1932 Os americanos estão hoje inquietos com
a  situação  econômica  de  seu  país  e  suas  consequências.  Os  dirigentes,  cônscios  de  suas
responsabilidades,  esforçam-se  principalmente  por  resolver  a  terrível  crise  de  desemprego
em seu próprio país. A idéia de estarem ligados ao destino do resto do mundo, particularmente
ao da Europa, mãe pátria, se encontra menos viva do que em tempo normal.
Mas a economia liberal não irá resolver automaticamente as próprias crises. Será preciso um
conjunto  de  medidas  harmoniosas  vindas  da  comunidade,  para  realizar  entre  os  homens  uma
justa repartição do trabalho e dos produtos de consumo. Sem isso, a população do país mais
rico  se  asfixia.  Como  o  trabalho  necessário  para  as  necessidades  de  todos  diminuiu  pelo
aperfeiçoamento  da  tecnologia,  o  livre  jogo  das  forças  econômicas  não  consegue  sozinho
manter  o  equilíbrio  que  permita  o  emprego  de  todas  as  forças  de  trabalho.  Uma
regulamentação  planificada  e  realista  se  impõe  a  fim  de  se  utilizarem  os  progressos  da
tecnologia no interesse comum. Se daqui em diante a economia não pode mais subsistir sem


rigorosa planificação, esta é ainda mais exigida pelos problemas econômicos internacionais.
Hoje, poucos indivíduos pensam realmente que as técnicas de guerra representam um sistema
vantajoso, aplicável à humanidade para resolver os conflitos humanos. Mas os outros homens
não têm lógica nem coragem para denunciar o sistema e impor medidas que tornem impossível
a  guerra,  este  vestígio  selvagem  e  intolerável  dos  tempos  antigos.  Será  preciso  ainda  uma
reflexão profunda para detectar o sistema e depois uma 36


coragem a toda prova, para quebrar as cadeias desta escravidão, o que exige uma decisão
irrevogável e uma inteligência muito lúcida. Aquele que deseja abolir de fato a guerra tem de
intervir  com  energia  para  que  o  Estado  do  qual  é  cidadão  renuncie  a  uma  parte  de  sua
soberania  em  proveito  das  instâncias  internacionais.  Deve  preparar-se,  no  caso  de  algum
conflito de seu país, para submetê-lo à arbitragem da Corte internacional de justiça. Exige-se
dele que lute com todas as forças pelo desarmamento geral dos Estados, previsto até mesmo
pelo lamentável tratado de Versalhes. Se não se suprime a educação do povo pelos militares e
pelos  patriotas  belicosos,  a  humanidade  não  poderá  progredir.  Nenhum  acontecimento  dos
últimos anos foi tão humilhante para os Estados civilizados quanto esta sucessão de malogros
de todas as conferências anteriores sobre o desarmamento. Os politiqueiros ambiciosos e sem
escrúpulos,  por  suas  intrigas,  são  os  responsáveis  por  esse  fracasso,  mas  também,  por  toda
parte, em todos os países, a indiferença e a covardia. Se não mudarmos, pesará sobre nós a
responsabilidade do aniquilamento da soberba herança de nossos antepassados. Receio muito
que  o  povo  americano  não  assuma  sua  responsabilidade  nesta  crise.  Porque  assim  se  pensa
nos Estados Unidos: “A Europa vai perder-se se se deixa levar pelos sentimentos de ódio e de
vingança  dos  seus  habitantes.  O  Presidente  Wilson  havia  semeado  o  bom  grão.  Mas  aquele
solo  europeu  estéril  fez  nascer  o  joio.  Quanto  a  nós,  somos  os  mais  fortes,  os  menos
vulneráveis, e tão cedo não recomeçaremos a nos intrometer nas questões dos outros”. Quem
pensa assim é um medíocre que não enxerga nada além da ponta do nariz. A América não pode
lavar as mãos diante da miséria européia. Pela exigência brutal do pagamento de suas dívidas,
a América  acelera  a  queda  econômica  da  Europa  e  com  isto  também  sua  decadência  moral.
Ela  é  responsável  pela  balcanização  européia  e  participa  também  da  responsabilidade  por
esta  crise  moral  na  política,  incitando  assim  o  espírito  de  desforra  já  alimentado  pelo
desespero. A nova mentalidade não encontrará um dique nas fronteiras americanas. Seria meu
dever  adverti-los:  suas  fronteiras  já  foram  transpostas.  Olhem  ao  redor  de  vocês,  tomem
cuidado! Basta de tanto palavreado! A conferência do desarmamento significa para nós, e para
os senhores, a última oportunidade de salvar a herança do passado. Os senhores são os mais
poderosos,  os  menos  atingidos  pela  crise,  é  portanto  para  os  senhores  que  o  mundo  olha,  e
confia esperançoso. A CORTE DE ARBITRAGEM
Um  desarmamento  planificado  e  rápido  não  será  possível  a  não  ser  que  esteja  ligado  à
garantia  de  segurança  de  todas  as  nações  que  o  assinaram,  cada  uma  em  separado,  sob  a
dependência  de  uma  Corte  de  Arbitragem  permanente,  ngorosamente  independente  dos
governos. Incondicional compromisso dos Estados-membros: aceitar os vereditos da Corte e
pô-los em execução.
Três cortes separadas: Europa-África, América e Ásia. A Austrália unida a alguma das três.
Uma  Corte  de  Arbitragem  idêntica  para  os  conflitos  não  resolvidos  nas  três.  A
INTERNACIONAL DA CIÊNCIA
Durante  a  guerra,  quando  a  loucura  nacional  e  política  atingia  o  auge,  Emile  Fisher,  numa
sessão  da  Academia,  exclamou  com  vivacidade:  “Os  Senhores  não  podem  nada,  mas  a
Ciência  é  e  será  internacional”.  Os  melhores  sábios  sempre  souberam  disto  e  viveram  com
paixão,  mesmo  que  em  épocas  de  crise  política  tenham  ficado  submersos  no  meio  de  seus
confrades  de  menor  envergadura.  Quanto  à  multidão  de  indivíduos,  apesar  de  seu  direito  de
voto,  durante  a  última  guerra  e  nos  dois  campos,  ela  traiu  o  depósito  sagrado  que  lhe  fora
confiado!  A  Associação  internacional  das  Academias  foi  dissolvida.  Congressos  se


realizaram e ainda se realizam com a exclusão dos colegas dos países antes inimigos. Graves
razões  políticas,  apresentadas  com  um  cerimonial  hipócrita,  impedem  que  o  ponto  de  vista
objetivo, necessário para o êxito deste nobre ideal, possa predominar.
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Que podem fazer as pessoas honestas, não abaladas pelas agitações apaixonadas do imediato,
a fim de recuperar aquilo que já se perdeu? E até mesmo no momento presente, não se podem
mais  organizar  congressos  internacionais  de  grande  envergadura  por  causa  da  extrema
agitação  da  maioria  dos  intelectuais.  E  os  bloqueios  psicológicos  contra  o  restabelecimento
das associações científicas internacionais se fazem sentir duramente, a ponto de uma minoria,
cheia  de  idéias  e  sentimentos  mais  elevados,  não  conseguir  superá-los.  No  entanto  esta
minoria  coopera  na  meta  suprema  de  restabelecer  as  instâncias  internacionais  no  sentido  de
manter  estreitas  relações  com  os  sábios  de  mesma  generosidade  moral,  e  intervindo
constantemente  na  própria  esfera  de  ação  para  preconizar  medidas  internacionais.  Mas  o
sucesso,  o  sucesso  definitivo  pode  demorar.  É  absolutamente  necessário.  Aproveito-me  da
ocasião  para  felicitar  grande  número  de  meus  colegas  ingleses.  Porque,  durante  todos  estes
longos  anos  de  fracassos,  conservaram  bem  viva  a  vontade  de  salvaguardar  a  comunidade
intelectual.
Em  toda  parte,  as  declarações  oficiais  são  mais  sinistras  do  que  os  pensamentos  dos
indivíduos. As pessoas honestas têm de abrir os olhos, não se deixarem manipular, enganar:

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