Como Vejo o Mundo



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Alocução a meninos
É tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer. Caros meninos,
como  estou  feliz  por  vê-los  hoje  diante  de  mim,  juventude  alegre  de  um  país  ensolarado  e
fecundo.  Pensem  que  todas  as  maravilhas,  objetos  de  seus  estudos,  são  a  obra  de  muitas
gerações,  uma  obra  coletiva  que  exige  de  todos  um  esforço  entusiasta  e  um  labor  difícil  e
impreterível.  Tudo  isto,  nas  mãos  de  vocês,  se  torna  uma  herança.  Vocês  a  recebem,
respeitam-na, aumentam-na e, mais tarde, irão transmiti-la fielmente à sua descendência. Deste
modo somos mortais imortais, porque criamos juntos obras que nos sobrevivem. Se refletirem
seriamente  sobre  isto,  encontrarão  um  sentido  para  a  vida  e  para  seu  progresso.  E  o
julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras épocas será mais verdadeiro. OS
CURSOS  DE  ESTUDOS  SUPERIORES  DE  DAVOS  Senatores  boni  viri,  senatus  autem
bestia. Um professor suíço meu amigo escrevia um dia,
deste modo engraçado, a uma faculdade universitária que o havia irritado. As comunidades se
preocupam  muito  menos  com  os  problemas  de  responsabilidade  e  de  consciência  do  que  os
indivíduos.  Ora,  os  acontecimentos,  as  guerras,  as  repressões  de  toda  espécie  traumatizam  a
humanidade  sofredora,  queixosa,  exasperada.  E  no  entanto,  somente  uma  cooperação  para
além dos sentimentos poderia estabelecer algo de valor. A maior alegria para um amigo dos
homens  está  aqui:  à  custa  de  terríveis  sofrimentos,  organiza-se  um  empreendimento  coletivo
com o único objetivo de desenvolver a vida e a civilização.
Esta alegria imensa foi-me oferecida quando ouvi falar dos cursos de estudos superiores em
Davos,  desta  obra  de  salvamento,  inteligentemente  concebida  e  habilmente  dirigida,  que
corresponde a uma grave necessidade não percebida de imediato. Com efeito, muitos jovens
vêm  para  aqui,  para  este  vale  maravilhosamente  batido  de  sol  para  reencontrar  a  saúde.
Afastado,  porém,  dos  estudos  e  de  sua  disciplina  fortificante,  entregue  a  desânimos
depressivos,  o  doente  perde  paulatinamente  seu  dinamismo  mental,  e  o  sentimento  de  sua
função essencial na luta pela vida. Torna-se de certa maneira uma planta de estufa, e mesmo
depois  da  cura  do  corpo,  dificilmente  reencontra  a  via  da  normalidade.  É  este  o  caso  da
juventude  estudantil.  A  ruptura  do  treino  intelectual  em  anos  decisivos  para  a  formação
provoca um atraso, dificilmente recuperável mais 17
tarde.
Contudo, em geral, um trabalho intelectual moderado não prejudica a saúde. Chega mesmo a
prestar serviço, indiretamente, de certo modo à semelhança de um exercício físico razoável.
Foram  portanto  estes  cursos  de  ensino  superior  criados  neste  espírito.  De  acordo  com  esta
convicção  ambicionam  para  vocês  uma  formação  profissional  preparatória,  mas  também  um
novo  estímulo  para  a  atividade.  O  programa  intelectual  propõe  um  trabalho,  um  método  e
regras  de  vida.  Não  se  esqueçam  de  que  esta  instituição,  em  medida  muito  apreciável,
contribui  para  estabelecer  relações  entre  homens  de  nações  diferentes,  para  fortalecer  o
sentimento de pertencerem a uma determinada comunidade. Neste sentido, a eficácia da nova


instituição  se  manifesta  ainda  mais  proveitosa  porque  as  circunstâncias  de  sua  criação
sublinham  bastante  a  recusa  a  qualquer  posição  política.  Serve-se  mais  à  causa  da
compreensão internacional na medida em que se participa de uma obra que promova a vida.
Para  mim  é  uma  alegria  refletir  sobre  este  programa.  Porque  a  energia  e  a  inteligência
presidiram  à  criação  dos  Cursos  de  Ensino  Superior  de  Davos  e  o  empreendimento  já
ultrapassou  o  cabo  das  dificuldades  inerentes  a  cada  fundação.  Possam  eles  prosperar,
oferecer  a  muitos  um  enriquecimento  interior,  e  suprimir  assim  a  severidade  da  vida  no
sanatório. ALOCUÇÃO PRONUNCIADA JUNTO AO TÚMULO DE H. A. LORENTZ (1853-
1928)  Representando  os  sábios  do  país  de  língua  alemã,  de  modo  especial  a Academia  das
Ciências da Prússia, mas sobretudo discípulo e admirador entusiasta, eis-me diante do túmulo
do  mais  excepcional  e  mais  generoso  de  nossos  contemporâneos.  Seu  luminoso  espírito
esclareceu  o  laço  entre  a  teoria  de  Maxwell  e  as  criações  da  física  atual,  para  a  qual
contribuiu  com  importantes  trabalhos  em  que  impôs  resultados  e  sobretudo  seus  métodos.
Viveu  sua  vida  com  uma  perfeição  minuciosa,  como  uma  obra-prima  de  enorme  valor.
Incansavelmente,  sua  bondade,  magnanimidade  e  senso  de  justiça,  junto  com  uma  intuição
fulgurante sobre os homens e as situações, fizeram dele, onde quer que trabalhasse, o Mestre.
Todos o escutavam com alegria, pois compreendiam que não procurava impor-se, mas servir.
Sua obra, seu exemplo continuarão a agir para esclarecer e guiar as gerações. A AÇÂO DE H.
A.  LORENTZ  A  SERVIÇO  DA  COOPERAÇÃO  INTERNACIONAL  Com  a  enorme
especialização causada pela pesquisa científica e imposta pelo século XIX, é muito raro que
individualidades  de  primeira  plana  em  seu  campo  específico  tenham  a  possibilidade  e  a
coragem  de  prestar  eminentes  serviços  à  comunidade  no  nível  das  instâncias  políticas
internacionais.  Pois  isto  implica  uma  grande  capacidade  de  trabalho,  inteligência  viva  e
reputação fundada em trabalhos de grande envergadura. Exige também uma independência em
relação a preconceitos nacionais, bem rara em nossos dias e, por fim, grande devotamento às
metas comuns a todos. Jamais conheci alguém que tivesse unido todas estas qualidades e de
modo  tão  exemplar  quanto  H.A.  Lorentz.  Mas  sua  ação  espantosa  revela  ainda  um  outro
mérito:  personalidades  independentes  e  de  temperamento  decidido,  com  frequência  as
encontramos  entre  os  sábios;  elas  não  se  inclinam  com  facilidade  diante  de  uma  autoridade
estranha  e  não  se  deixam  facilmente  comandar.  Mas  quando  Lorentz  exerce  as  funções  de
presidente, estabelece-se então um clima de alegre cooperação, mesmo se os homens reunidos
se  separam  quanto  às  intenções  e  aos  modos  de  pensar.  O  segredo  deste  sucesso  não  se
explica  unicamente  pela  compreensão  imediata  dos  seres  e  dos  feitos  ou  pelo  absoluto
domínio da expressão; mas antes de tudo, percebe-se que H.A. Lorentz está todo entregue ao
serviço  em  questão  e  unicamente  preocupado  com  esta  necessidade.  Nada  desarma  tanto  os
intratáveis quanto agir desse modo. Antes da guerra, a atividade de H.A. Lorentz a serviço das
relações internacionais limitava-se às presidências dos congressos de física. Recordemo-nos
dos  dois  congressos  Solvay,  realizados  em  Bruxelas  (1909-1911).  Depois  veio  a  guerra
européia, o golpe mais terrível que se podia conceber 18
para aqueles que se preocupavam com o progresso das relações humanas. Já durante a guerra,
e
mais  ainda  depois  de  terminada,  Lorentz  trabalhou  pela  reconciliação  internacional.  Seus
esforços visavam em particular o restabelecimento das cooperações proveitosas e amigáveis


de  sábios  e  de  sociedades  científicas.  Quem  não  conhece  uma  empresa  destas  não  pode
imaginar  sua  dificuldade.  Os  rancores,  nascidos  da  guerra,  se  perpetuam,  e  muitos  homens
influentes  se  aferram  a  posições,  irreconciliáveis  a  que  se  deixaram  levar  pela  pressão  dos
acontecimentos.  O  esforço  de  Lorentz  parece  com  o  do  médico:  tem  de  tratar  de  um  doente
indócil  que  recusa  tomar  os  medicamentos  cuidadosamente  preparados  para  sua  cura.  Mas
H.A.  Lorentz  não  desiste  uma  vez  que  reconheceu  a  exatidão  de  uma  atitude.  Imediatamente
depois da guerra, participa da direção do “Conselho de Pesquisa” fundado pelos sábios das
potências  vitoriosas,  com  a  exclusão  dos  sábios  e  dos  corpos  científicos  das  potências
centrais.  Por  esta  medida,  criticada  pelos  sábios  das  potências  centrais,  ele  tinha  em  vista
influir  sobre  esta  instituição  para  que  ela  se  tornasse,  ao  crescer,  real  e  eficazmente
internacional.  Após  repetidos  esforços,  conseguiu,  junto  com  outros  sábios  que  aderiram  à
mesma  política,  fazer  suprimir  dos  estatutos  do  Conselho  o  tristemente  célebre  parágrafo  da
exclusão  dos  sábios  dos  países  vencidos.  Sua  meta,  porém,  o  restabelecimento  de  uma
cooperação normal e frutuosa dos sábios e das sociedades científicas, não foi ainda atingida
porque  os  sábios  das  potências  centrais,  ressentidos  por  haverem  sido  durante  dez  anos
eliminados  de  todas  as  organizações  científicas  internacionais,  tomaram  por  hábito  uma
prudente reserva. Há ainda uma esperança viva: os esforços de Lorentz, desejo de conciliação
mas também compreensão do interesse superior, irão conseguir dissipar os mal-entendidos.
Finalmente,  H.A.  Lorentz  emprega  suas  forças  de  outra  maneira  a  serviço  dos  objetivos
intelectuais  internacionais.  Aceita  ser  eleito  para  a  comissão  de  cooperação  intelectual
internacional da S.D.N. criada, há cinco anos, sob a presidência de Bergson. Há um ano, H.A.
Lorentz a está presidindo e, com o apoio eficaz do Instituto de Paris, sempre sob sua direção,
orienta  uma  mediação  ativa  entre  diversos  centros  culturais  no  campo  intelectual  e  artístico.
Ainda  aqui,  a  efetiva  influência  de  sua  personalidade  inteligente,  acolhedora  e  simples
permitirá manter o bom rumo. Sua divisa, sem discursos mas em atos, diz: “não dominar, mas
servir”!  Que  seu  exemplo  contribua  para  que  seja  este  o  clima  intelectual!  H.A.  LORENTZ,
CRIADOR E PERSONALIDADE
No  início  do  século,  H.A.  Lorentz  foi  considerado  pelos  físicos  teóricos  de  todos  os  países
como  um  mestre  e  com  toda  a  razão.  Os  físicos  das  novas  gerações  não  chegam  a  perceber
exatamente  o  papel  decisivo  de  H.A.  Lorentz  na  elaboração  das  idéias  fundamentais  para  a
teoria  física.  É  incompreensível,  mas  é  verdade!  Insensivelmente,  as  idéias  fundamentais  de
Lorentz  se  nos  tornaram  tão  familiares  que  nos  esquecemos  de  sua  força  inovadora  e  da
simplificação  das  teorias  elementares,  tornada  possível  graças  a  elas.  Quando  H.A.  Lorentz
começou,  a  teoria  do  eletromagnetismo  de  Maxwell  estava  se  impondo.  Mas  esta  teoria
apresentava  curiosa  complexidade  dos  elementos  de  base,  a  ponto  de  esconder  os  traços
essenciais.  A  noção  de  campo  substituíra  a  de  ação  a  distância,  e  os  campos  elétrico  e
magnético não eram ainda considerados realidades primitivas, mas antes como momentos da
matéria ponderal que se tratava como contínuos. Por conseguinte, o campo elétrico parecia se
decompor  em  vetor  da  força  do  campo  elétrico  e  vetor  da  deslocação  dielétrica.  Estes  dois
campos  eram,  na  hipótese  mais  simples,  ligados  pela  constante  dielétrica;  foram,  porém,  em
princípio, considerados e tratados como realidades independentes. O mesmo acontecia com o
campo  magnético.  De  acordo  com  esta  concepção  fundamental,  tratava-se  o  espaço  vazio
como  um  caso  especial  da  matéria  ponderal  em  que  a  relação  entre  força  de  campo  e
deslocamento aparecia particularmente simples. Daí a consequência de que o campo elétrico e


o  campo  magnético  não  podiam  ser  considerados  independentes  do  estado  de  movimento  da
matéria, vista como portadora do campo.
Após estudo da pesquisa de H. Hertz sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, 19
perceber-se-á melhor e mais sinteticamente a concepção da eletrodinâmica de Maxwell, que
então
prevalecia.
É  aí  que  a  inteligência  de  H.A.  Lorentz  se  manifesta  com  toda  a  eficácia.  Ajuda-nos  a
progredir  e  a  nos  ultrapassar.  Com  uma  lógica  cerrada,  apóia  seu  raciocínio  nas  seguintes
hipóteses:  a  sede  do  campo  eletromagnético  é  o  espaço  vazio.  Neste  espaço  somente  há um
único vetor do campo elétrico e um único vetor do campo magnético. Este campo é produzido
pelas  cargas  elétricas  atômicas  sobre  as  quais  o  campo  exerce,  por  sua  vez,  as  forças
pôndero-motrizes.  Uma  ligação  do  campo  eletromotor  com  a  matéria  ponderal  somente  se
produz  porque  as  cargas  elementares  elétricas  estão  rigidamente  ligadas  às  partículas
atômicas  da  matéria.  Mas,  para  a  matéria,  a  lei  do  movimento  de  Newton  continua  válida.
Nesta  base  assim  simplificada,  Lorentz  funda  uma  teoria  completa  de  todos  os  fenômenos
eletromagnéticos  então  conhecidos,  bem  como  os  da  eletrodinâmica  dos  corpos  em
movimento.  É  uma  obra  de  lógica  extrema,  muito  clara  e  muito  bela.  Resultados  assim,  em
ciência experimental, raramente são alcançados. O único fenômeno não explicável pela teoria,
isto é, sem hipóteses suplementares, chama-se então a célebre experiência Michelson-Morley.
Ora, sem a localização do campo eletromagnético no espaço vazio, esta experiência não pode
levar à teoria da relatividade restrita. O progresso decisivo consiste em aplicar as equações
de Maxwell ao espaço vazio ou, como se dizia então, ao éter.
H.A. Lorehtz chegou mesmo a encontrar a transformação que tem seu nome, “transformação de
Lorentz”,  sem  aí  observar  caracteres  de  grupo.  Para  ele,  as  equações  de  Maxwell  para  o
espaço  vazio  só  eram  aplicáveis  em  um  determinado  sistema  de  coordenadas,  aquele  que
parecia distinguir- se por seu repouso em relação a todos os outros sistemas de coordenadas.
Isto apresentava uma situação verdadeiramente paradoxal, porque a teoria parecia restringir o
sistema  de  inércia  ainda  mais  estreitamente  do  que  a  mecânica  clássica.  Essa  circunstância
inexplicável  do  ponto  de  vista  empírico devia  conduzir  à  teoria  da  relatividade  restrita.
Graças  ao  convite  amigo  da  Universidade  de  Leyde,  por  várias  vezes  estive  nesta  cidade  e
sempre me hospedava em casa de meu caro e inesquecível amigo Paul Ehrenfest. Tive assim a
oportunidade  de  assistir  às  conferências  de  Lorentz  para  um  pequeno  círculo  de  jovens
colegas,  quando  já  se  havia  aposentado  do  ensino  geral.  Tudo  quanto  vinha  deste  espírito
superior era claro e belo como uma obra de arte e tinha-se a impressão de que seu pensamento
se expressava com facilidade e clareza. Jamais tornei a viver semelhante experiência. Se nós,
os  jovens,  não  houvéssemos  conhecido  H.A.  Lorentz  a  não  ser  como  um  espírito
particularmente lúcido, nossa admiração e estima já seriam extremas. Mas o que eu sinto ao
pensar  em  Lorentz  é  coisa  totalmente  diferente.  Para  mim,  pessoalmente,  valia  mais  do  que
todos  os  outros  que  encontrei  em  minha  vida.  Ele  dominava  a  Física  e  a  Matemática  e,  de
igual  maneira,  dominava-se  a  si  mesmo  sem  dificuldade  e  com  serenidade  constante.  Nele  a
ausência  de  fraqueza  humana  jamais  deprimia  seus  semelhantes.  Cada  um  sentia  sua
superioridade,  mas  ninguém  se  acabrunhava  por  isso.  Embora  tivesse  grande  intuição  dos
homens  e  das  situações,  conservava  extrema  cortesia.  Jamais  agia  por  constrangimento,  mas


por  espírito  de  serviço  e  de  auxílio  mútuo.  Extremamente  consciencioso,  concedia  a  cada
coisa a importância devida, porém não mais. Seu temperamento muito alegre o protegia. Olhos
e  sorriso  se  divertiam.  Apesar  de  totalmente  devotado  ao  conhecimento  científico,  estava
convencido de que nossa compreensão não pode ir muito longe na essência das coisas. Esta
atitude,  meio  cética,  meio  humilde,  só  vim  a  compreendê-la  verdadeiramente  em  idade  mais
avançada.
A linguagem, ou pelo menos a minha, não pode corresponder corretamente às exigências deste
ensaio de reflexão a respeito de H. A. Lorentz. Queria então tentar lembrar-me de duas curtas
sentenças de Lorentz. Elas tiveram sobre mim profunda influência: “Sou feliz por pertencer a
uma nação pequena demais para cometer grandes loucuras”. Em conversa, durante a primeira
guerra  mundial,  com  um  homem  que  tentava  persuadi-lo  de  que  os  destinos  se  forjam  pela
força e pela violência, respondeu: “O senhor tem talvez razão, mas eu não gostaria de viver
num universo assim”.
20
JOSEPH POPPER-LYNKAEUS
Era  mais  do  que  um  engenheiro  e  um  escritor.  Fazia  parte  daquelas  poucas  personalidades
marcantes,  alma  e  consciência  de  uma  geração.  Ele  nos  convenceu  de  que  a  sociedade  é
responsável  pelo  destino  de  cada  indivíduo  e  nos  mostrou  como  concretizar  esta  obrigação
moral. A comunidade ou o Estado não encarnam verdadeiros símbolos, porque um direito se
fundamenta  deste  modo:  se  o  Estado  exige  uma  abnegação  do  indivíduo,  se  tem  este  direito,
em compensação deve dar ao indivíduo a possibilidade de um desenvolvimento harmonioso.
SEPTUAGÉSIMO ANIVERSARIO  DE ARNOLD  BERLINER  Gostaria  de  dizer  aqui  a  meu
amigo  Arnold  Berliner  e  aos  leitores  de  sua  revista As  Ciências  da  Natureza  por  que  o
aprecio, a ele e a sua obra, de modo tão veemente; é aliás preciso que o diga
aqui,  senão  não  terei  mais  ocasião.  Nossa  educação  objetiva  tornou  “tabu”  tudo  o  que  é
pessoal  e  um  homem  só  em  circunstâncias  excepcionais,  como  esta,  pode  transgredir  essa
regra.  Após  ter-me  justificado  como  agora,  volto  à  terra  no  mundo  objetivo.  O  campo  dos
fatos  cientificamente  analisados  estendeu-se  prodigiosamente  e  o  conhecimento  teórico
aprofundou-se  além  do  previsível.  Mas  a  capacidade  humana  de  compreensão  é  e  sempre
estará  ligada  a  limites  estreitos.  Torna-se  portanto  inelutável  que  a  atividade  de  um  único
pesquisador  se  reduza  a  um  setor  cada  vez  mais  restrito  em  relação  ao  conjunto  dos
conhecimentos.  Por  conseguinte,  toda  especialização  impossibilitaria  uma  simples
compreensão geral do conjunto da Ciência, indispensável no entanto para o vigor do espírito
de  pesquisa,  e,  por  consequência,  afastaria  inexoravelmente  outros  progressos  da  evolução.
Desse modo se constituiria uma situação análoga àquela descrita na Bíblia de modo simbólico
pela  história  da  torre  de  Babel.  Um  pesquisador  sério  experimenta  um  dia  ou  outro  esta
evidência dolorosa da limitação. Malgrado seu, vê o círculo de seu saber ir apertando-se cada
vez mais. Perde então o senso das grandes arquiteturas e se transforma em operário cego num
conjunto imenso. Sentimos todos o esmagamento desta servidão; mas, que fazer para libertar-
nos?  Surge  Arnold  Berliner  e  inventa  para  os  países  de  língua  alemã  um  instrumento  de
utilidade  exemplar.  Percebe  que  as  publicações  populares  existentes  bastavam  para  a
vulgarização  e  o  estímulo  dos  espíritos  profanos.  Mas  entende  que  uma  revista,
sistematicamente dirigida com o máximo cuidado, se impõe para os conhecimentos científicos


dos sábios. Estes querem conhecer e compreender a evolução dos problemas, os métodos e os
resultados  para  poderem  formar  um  juízo  pessoal.  Durante  longos  anos,  persegue  esta  meta,
inteligentemente,  incansavelmente,  e  nos  satisfez  plenamente,  a  nós  e  à  Ciência.  Jamais  lhe
seremos  bastante  reconhecidos  por  este  serviço.  Precisava  obter  a  colaboração  de  autores
científicos  de  renome,  mas  também  obrigá-los  a  expor  seu  assunto  da  forma  mais  acessível,
mesmo  para  um  não-iniciado.  Por  várias  vezes  falou-me  sobre  os  problemas  que  devia
resolver  para  chegar  a  sua  meta  e,  um  dia,  definiu-me  seu  tipo  de  dificuldade  por  esta
adivinhação: que é que é um autor científico? Resposta: “o cruzamento entre uma mimosa e um
porco-espinho”.  A  obra  de  Berliner  existe.  Porque  tinha  paixão  pelas  idéias  claras  nos
domínios mais vastos. Este desejo o estimulou durante toda a vida. Vontade apaixonada que o
obrigou a compor com muita assiduidade, durante muito tempo, um tratado de física do qual
um estudante de medicina dizia-me, há bem pouco tempo: “Sem este livro, não sei como teria
podido  compreender  os  princípios  da  física  nova,  levando  em  conta  o  tempo  de  que
dispunha.”  A  luta  de  Berliner  pelas  sínteses  claras  permitiu-nos,  de  maneira  especial,
compreender  ao  vivo  os  problemas  atuais,  os  métodos  e  os  resultados  das  ciências.  Sua
revista continua sendo indispensável para a vida científica de nossos contemporâneos. Tornar
vivo, manter vivo este conhecimento é mais importante do que resolver um caso particular. 21
SAUDAÇÕES A G.B. SHAW
Raros são os espíritos com suficiente domínio de si mesmos para ver as fraquezas e loucuras
de  seus  contemporâneos  sem  cair  nas  mesmas  armadilhas.  Estes  solitários,  porém,  depressa
perdem a coragem e a esperança de melhoria moral, porque aprenderam a conhecer a dureza
dos homens. Somente a um pequenino número foi dado, por seu humor delicado, seu estado de
graça, fascinar sua geração e apresentar a verdade sob o aspecto impessoal da forma artística.
Saúdo hoje, com a mais viva simpatia, o maior mestre neste gênero. A todos nós ele encantou
e instruiu. B. RUSSELL E O PENSAMENTO FILOSÓFICO
Ao  ser  convidado  pela  redação  para  escrever  alguma  coisa  sobre  Bertrand  Russell,  minha
admiração  e  estima  por  ele  me  impeliram  a  aceitar  imediatamente.  À  leitura  de  suas  obras
devo  inúmeros  momentos  de  satisfação,  o  que  —  exceção  feita  de  Thorstein  Veblen  —  não
posso dizer de nenhum outro escritor científico contemporâneo. Mas bem depressa verifiquei
que  era  mais  fácil  prometer  do  que  cumprir.  Ora,  prometi  escrever  algumas  idéias  sobre
Russell filósofo e teórico do conhecimento. E quando comecei a redigir, cheio de confiança,
verifiquei  logo  em  que  terreno  escorregadio  me  aventurava.  Porque  sou  um  escritor
inexperiente,  só  me  arriscando  com  prudência  até  aqui  a  falar  sobre  física.  Para  o  iniciado,
portanto, a maior parte de meu artigo poderá parecer pueril; reconheço-o de antemão. Mas um
pensamento  me  consola.  Quem  fez  a  experiência  de  pensar  em  outro  domínio  sobrepuja
sempre  aquele  que  não  pensa  de  modo  algum  ou  muito  pouco.  Na  história  da  evolução  do
pensamento  filosófico  através  dos  séculos,  uma  questão  vem  sempre  em  primeiro  lugar:  que
conhecimentos  o  pensamento  puro,  independente  das  impressões  sensoriais,  pode  oferecer?
Será  que  tais  conhecimentos  existem?  Do  contrário,  que  relação  estabelecer  entre  nosso
conhecimento  e  a  matéria  bruta,  origem  de  nossas  impressões  sensíveis? A  estas  questões  e
algumas outras estreitamente relacionadas corresponde uma desordem de opiniões filosóficas,
absolutamente inimagináveis. Ora, nesta progressão de esforços meritórios, mas relativamente
ineficazes,  uma  linha  indestrutível  vai  se  traçando  e  se  reconhece:  um  crescente  ceticismo


manifesta-se diante de qualquer tentativa de procurar explicar pelo pensamento puro “o mundo
objetivo”,  o  mundo  dos  “objetos”  oposto  ao  mundo  simplificado  das  “representações  e  dos
pensamentos”. Observemos aqui que, para um filósofo clássico, as aspas (“ ”) são empregadas
para  indicar  um  conceito  fictício,  que  o  leitor  momentaneamente  aceita,  apesar  de  refutado
pela crítica filosófica.
A crença elementar da filosofia em sua gênese reconhece no pensamento puro a possibilidade
de descobrir todo o conhecimento necessário. Era uma ilusão, cada qual pode compreendê-lo
com  facilidade,  se  se  esquecer  provisoriamente  das  aquisições  ulteriores  da  filosofia  e  da
ciência física. Por que se admirar, se Platão concede à “Idéia” uma realidade superior à dos
objetos  empiricamente  experimentados?  Spinoza,  Hegel  inspiram-se  no  mesmo  sentimento  e
raciocinam fundamentalmente da mesma forma. Poder-se-ia quase fazer  a  pergunta:  sem  esta
ilusão será possível no pensamento filosófico inventar algo de grandioso? Mas deixemos de
lado  esta  interrogação.  Diante  da  ilusão,  bastante  aristocrática,  do  poder  de  percepção
ilimitada do pensamento, existe outra ilusão bem plebéia, o realismo ingênuo, segundo o qual
os objetos “são” a pura verdade de nossos sentidos. Ilusão que ocupa a atividade diária dos
homens e dos animais. Na origem, as ciências se interrogam deste modo, sobretudo as ciências
físicas. As  vitórias  sobre  as  duas  ilusões  nunca  se  separam.  Eliminar  o  realismo  ingênuo  é
relativamente fácil. Russell define de forma muito característica este momento do pensamento
na  introdução  a  seu  livro An  inquiry  into  Meaning  and  Truth.  “Começamos  todos  com  o
realismo ingênuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos são assim como parecem ser.
Admitimos que a erva é verde, que a neve é fria e que as pedras são duras. Mas a física nos
assegura que o verde das ervas, o frio da neve e a dureza das pedras não são o mesmo verde,
o  mesmo  frio  e  a  mesma  dureza  que  conhecemos  por  experiência,  mas  algo  de  totalmente
diferente. O observador que pretende observar uma pedra, na realidade observa, se 22
quisermos acreditar na física, as impressões das pedras sobre ele próprio. Por isto a ciência
parece
estar  em  contradição  consigo  mesma;  quando  se  considera  extremamente  objetiva,  mergulha
contra a vontade na subjetividade. O realismo ingênuo conduz à física, e a física mostra, por
seu  lado,  que  este  realismo  ingênuo,  na  medida  em  que  é  consequente,  é  falso.  Logicamente
falso, portanto falso.”
À parte sua perfeita formulação, estas linhas expressam algo em que eu jamais pensara. Para
um  olhar  superficial,  o  pensamento  de  Berkeley  e  de  Hume  parece  o  oposto  do  pensamento
científico.  Mas  o  enunciado  acima  de  Russell  revela  uma  relação.  Berkeley  insiste  sobre  o
fato de que não percebemos diretamente os “objetos” do mundo exterior por nossos sentidos,
mas  que  os  órgãos  de  nossos  sentidos  são  afetados  por  fenômenos  ligados  como  causa  à
presença  dos  “objetos”.  Ora,  esta  reflexão  suscita  a  convicção  por  já  raciocinar  como  a
ciência física. Se não se tem bastante confiança na maneira de pensar física, mesmo em suas
grandes linhas, não há razão alguma para impor qualquer coisa entre o objeto e o ato de ver
que  isola  o  sujeito  em  relação  ao  objeto  e  torna  problemática  “a  existência  dos  objetos”. A
mesma técnica de reflexão em ciência física e os resultados assim obtidos revolucionaram a
tradicional  possibilidade  de  compreender  os  objetos  e  suas  relações  pelo  lado  único  do
pensamento  especulativo.  Aos  poucos,  se  firmava  a  convicção  de  que  todo  conhecimento
sobre  os  objetos  era  inexoravelmente  uma  transformação  da  matéria  bruta  oferecida  pelos


sentidos.  Sob  esta  apresentação  geral  (formulada  intencionalmente  em  termos  vagos),  esta
proposição  é  aceita  comumente.  A  convicção  repousa  assim  sobre  dupla  prova:  a
impossibilidade  de  adquirir  conhecimentos  reais  pelo  puro  pensamento  especulativo,  mas
sobretudo  a  descoberta  dos  progressos  dos  conhecimentos  pela  via  empírica.  Primeiro,
Galileu  e  Hume  justificaram  este  princípio  com  uma  perspicácia  e  uma  determinação  totais.
Hume bem compreendia que conceitos, julgados essenciais por nós — por exemplo, a relação
causal  —,  não  podem  ser  obtidos  a  partir  da  matéria  fornecida  pelos  sentidos.  Esta
compreensão  o  levou  ao  ceticismo  intelectual  diante  de  qualquer  conhecimento.  Quando  se
lêem  suas  obras,  fica-se  espantado  de  que  depois  dele  tantos  filósofos,  em  geral  bem
considerados, tenham podido redigir tantas páginas tão confusas e encontrado leitores gratos.
Contudo  Hume  marcou  com  sua  influência  os  seus  melhores  sucessores.  E  nós  o
reencontramos  na  leitura  das  análises  filosóficas  de  Russell:  o  estilo  preciso  e  a  expressão
simples  são  os  mesmos  de  Hume.  O  homem  aspira  profundamente  ao  conhecimento  certo.  E
por esta razão, o sentido da obra de Hume nos comove. A matéria bruta sensível, única fonte
de  nosso  conhecimento,  nos  modifica,  nos  faz  crer,  esperar.  Mas  não  pode  conduzir-nos  ao
saber e à compreensão de relações que revelam leis. Kant então propõe um pensamento. Sob a
forma em que foi apresentada é indefensável, porém marca um nítido progresso para resolver
o  dilema  de  Hume.  “O  empírico,  no  conhecimento,  jamais  é  certo”  (Hume).  Se  queremos
conhecimentos  certos  temos  de  baseá-los  na  razão.  Tal  é  o  caso  da  geometria,  tal  o  do
princípio  de  causalidade.  Estes  conhecimentos,  mais  alguns  outros,  formam  uma  parte  de
nosso  instrumento-pensamento.  Por  conseguinte  não  devem  ser  obtidos  pelos  sentidos.  São
conhecimentos a priori.
Hoje  todo  o  mundo  sabe,  evidentemente,  que  os  famosos  conhecimentos  nada  têm  de  certo,
nada de intimamente necessário, como Kant acreditava. Mas Kant colocou o problema sob o
ângulo  desta  constatação.  Temos  um  certo  direito  de  pensar  conceitos  que  a  matéria
experimental sensível não pode dar-nos, se permanecermos no plano lógico em face do mundo
dos objetos. Penso que é preciso ainda superar esta posição. Os conceitos que aparecem em
nosso  pensamento  e  em  nossas  expressões  linguísticas  são  —  do  ponto  de  vista  lógico  —
puras  criações  do  espírito  e  não  podem  provir  indutivamente  de  experiências  sensíveis.  Isto
não  é  tão  simples  de  admitir  porque  unimos  conceitos  certos  e  ligações  conceptuais
(proposições)  com  as  experiências  sensíveis,  tão  profundamente  habituais  que  perdemos  a
consciência do abismo logicamente insuperável entre o mundo do sensível e o do conceptual e
hipotético.  Por  isto,  incontestavelmente,  a  série  de  números  inteiros  marca  uma  invenção  do
espírito humano, um instrumento criado por ele para facilitar e ordenar algumas experiências
sensíveis.  Não  existe  possibilidade  alguma  de  tirar  este  conceito  da  própria  experiência
sensível. Escolho de 23
propósito  a  noção  do  número  porque  pertence  ao  pensamento  pré-científico  e  seu  aspecto
operatório
é facilmente identificável aqui. Mas quanto mais nos aproximamos dos conceitos elementares
na vida cotidiana, tanto mais o peso de hábitos arraigados nos embaraça para reconhecermos
o  conceito  como  criação  original  do  espírito.  Assim  se  elaborou  uma  concepção  fatal  e
gravemente  errônea  para  a  compreensão  das  relações  reais  e  imediatas:  os  conceitos  se
constituiriam  a  partir  da  experiência  e  em  seguida  da  abstração,  mas  com  isto  perdem  uma


parte de seu conteúdo. Desejo mostrar por que esta concepção me parece tão errônea. Se se
aceita a crítica de Hume, formula-se logo a idéia de que todo conceito ou toda hipótese devem
ser  rejeitados  do  espírito  como  “metafísica”,  por  não  serem  extraídos  da  matéria  bruta
sensível. Porque todo pensamento só recebe seu conteúdo material através da relação com o
mundo  sensível.  Julgo  perfeitamente  exata  esta  idéia;  em  compensação,  uma  construção  que
sistematiza dessa forma o pensamento me parece falsa. Pois esta pretensão lógica, levada ao
extremo,  excluiria  inevitavelmente  qualquer  pensamento  como  metafísico.  Para  que  o
pensamento  não  degenere  em  metafísica,  quer  dizer  em  parolice,  é  preciso  que  um  número
suficiente  de  proposições  de  um  sistema  conceptual  esteja  ligado  de  modo  exato  às
experiências  sensíveis  e  que  o  sistema  conceptual,  na  função  essencial  de  ordenar  e  de
sintetizar  o  vivido  sensível,  revele  a  maior  unidade,  a  maior  economia  possível.  Afinal,  o
“sistema”  exprime  um  livre  jogo  (lógico)  de  símbolos  por  meio  de  regras  (lógicas)
arbitrariamente  dadas.  De  igual  maneira,  tudo  isto  é  válido  para  traduzir  o  cotidiano;  e  até
para pensar as Ciências, sob uma forma mais consciente e mais sistemática.
Aquilo que vou dizer torna-se então mais claro: Hume, por sua crítica lúcida, possibilita um
progresso  decisivo  da  filosofia.  Mas  causa,  sem  responsabilidade  de  sua  parte,  um  real
perigo, porque esta crítica suscita um “medo da metafísica” errado, por realçar um vício da
filosofia  empírica  contemporânea.  Este  vício  corresponde  ao  outro  extremo  da  filosofia
nebulosa  da  antiguidade,  quando  ela  pretendia  poder  dispensar  os  dados  sensíveis,  ou  até
mesmo  desprezá-los.  Apesar  de  minha  admiração  pela  perspicaz  análise  apresentada  por
Russell  em Meaning  and  Truth,  tenho  receio  de  que  também  aí.  o  espectro  do  medo
metafísico haja causado alguns estragos.
Esta  angústia  me  explica,  por  exemplo,  o  papel  da  razão  para  conceber  a  “coisa”  como  um
“feixe  de  qualidades”,  qualidades  que  devem  ser  abstraídas  da  matéria  pura  sensível.  Este
fato  (duas  coisas  devem  ser  consideradas  uma  única  e  a  mesma  coisa  se  se  correspondem
respectivamente em suas qualidades) nos obriga a avaliar as relações geométricas dos objetos
como  qualidades.  (De  outro  modo,  seríamos  obrigados,  de  acordo  com  Russell,  a  declarar
serem “a mesma coisa” a Torre Eiffel em Paris e a torre de Nova Iorque.) Diante disto, não
vejo perigo “metafísico” em acolher o objeto (objeto no sentido da física) como um conceito
independente no sistema ligado à estrutura espacial- temporal que lhe pertence.
Levando em conta esses esforços, estou contente ainda por descobrir, no último capítulo, que
não  se  pode  dispensar  a  “Metafísica”.  Minha  única  crítica  esclarece  a  má  consciência
intelectual que se sente através das linhas.
OS ENTREVISTADORES
Se  pedem  publicamente  a  alguém  que  dê  as  razões  de  tudo  quanto  declarou,  mesmo  por
brincadeira,  num  momento  de  capricho  ou  de  despeito  momentâneo,  é  em  geral  coisa
desagradável,  mas  afinal  de  contas  normal.  Mas  se  publicamente  vêm  pedir-lhe  uma
justificativa  daquilo  que  outros  disseram  em  nome  do  senhor,  sem  que  pudesse  proibi-lo,
então  sua  situação  seria  aflitiva.  “Quem  é  este  coitado?”  poderão  perguntar.  Na  verdade,
qualquer  homem  cuja  popularidade  basta  para  justificar  a  visita  dos  entrevistadores!  Podem
não acreditar! Tenho tanta experiência sobre este assunto, que não hesito em referi-la.
Imaginem,  uma  bela  manhã,  um  repórter  lhe  faz  uma  visita  e  pede  amavelmente  que  dê  sua
opinião  sobre  seu  amigo  N.  A  princípio  o  senhor  sente  alguma  irritação  diante  desta
pretensão. Mas bem depressa percebe que não há escapatória possível. Porque se recusar uma


resposta  equivalerá  a:  “Interroguei  o  homem  que  é  tido  pelo  melhor  amigo  de  N.,  mas  ele
recusou prudentemente”. Desta 24
atitude,  o  leitor  tirará  inevitáveis  conclusões.  Então,  já  que  não  há  nenhuma  escapatória,  o
senhor
declara:
“N. tem um caráter alegre, franco, estimado por todos os amigos. Sabe ver o lado bom de cada
situação.  Pode  assumir  responsabilidades  e  chega  a  realizá-las  sem  restrição  de  tempo.  Sua
profissão é sua paixão, mas ama a família e dá à esposa tudo quanto tem...” Isto significará:
“N. não leva nada a sério. Possui o raro talento de se fazer amar por todos e se esforça para
isto por um comportamento exuberante e amável. Mas é de tal forma escravo de sua profissão
que  não  pode  refletir  sobre  assuntos  pessoais  ou  interessar-se  por  questões  estranhas  a  sua
pesquisa.  Trata  a  esposa  com  excesso  de  cuidados,  escravo  abúlico  de  seus  desejos...”  Um
verdadeiro  profissional  em  reportagem  diria  tudo  isto  num  estilo  ainda  mais  incisivo.  Mas
para  o  senhor  e  seu  amigo  N.,  já  é  bastante.  Porque  no  dia  seguinte,  N.  lê  isto  no  jornal  e
outras  frases  do  mesmo  gênero  e  sua  cólera  contra  o  senhor  explode  com  fúria,  apesar  do
caráter alegre e franco. A ofensa que lhe fizeram fazem com que o senhor fique profundamente
aborrecido porque gosta realmente de seu amigo.
Então?! que fazer nesta situação? Se descobrir um método, eu lhe suplico, ensine-me para que
possa aplicá-lo imediatamente.
FELICITAÇÕES A UM CRÍTICO
Ver com os próprios olhos, sentir e julgar sem sucumbir à fascinação da moda, poder dizer o
que  se  viu,  o  que  se  sentiu,  com  um  estilo  preciso  ou  por  uma  expressão  artisticamente
cinzelada,  que  maravilha.  Será  preciso  ainda  felicitá-lo?  MINHAS  PRIMEIRAS
IMPRESSÕES DA AMÉRICA DO NORTE Tenho de cumprir a promessa de dizer em poucas
palavras  minhas  impressões  sobre  a  América  do  Norte.  Não  é  tão  simples  assim.  Porque
nunca é simples julgar como observador imparcial, quando se foi acolhido com tanta afeição e
exagerada estima quanto o fui na América. Por isto, uma observação prévia:
O culto da personalidade é a meus olhos sempre injustificado. É claro, a natureza reparte seus
dons de maneira muito diferente entre seus filhos. Mas, graças a Deus, existe grande número
de filhos generosamente dotados e, na maior parte, levam uma vida tranquila e sem história.
Parece-me  portanto  injusto  e  até  de  mau  gosto,  ver  umas  poucas  pessoas  incensadas  com
exagero e, além do mais, gratificadas com forças sobre-humanas de inteligência e de caráter.
É este meu destino! Ora, existe um contraste grotesco entre as capacidades e os poderes que
os homens me atribuem e aquilo que sou e o que posso. A consciência deste estado de coisas
falacioso  seria  insuportável,  se  uma  soberba  compensação  não  me  consolasse.  Porque  é  um
sinal encorajador em nossa época, tida por tão materialista, que transforme homens em heróis,
quando  as  finalidades  de  tais  heróis  se  manifestam  exclusivamente  no  domínio  intelectual  e
moral.  Isto  prova  que  o  conhecimento  e  a  justiça  são,  para  grande  parte  da  humanidade,
julgados superiores à fortuna e ao poder. Minhas experiências me mostraram a predominância
desta  estrutura  ideológica  em  grau  elevado  nesta  América  acusada  de  ser  tão  materialista.
Depois  desta  digressão,  vou  falar  de  meu  assunto,  mas,  peço,  não  dêem  a  minhas  modestas
observações  mais  importância  do  que  têm.  Para  um  visitante,  a  primeira  e  mais  viva
admiração é provocada pela assombrosa superioridade técnica e racional deste país. Mesmo


os objetos de uso comum são mais resistentes e mais sólidos do que na Europa, e as casas tão
mais  funcionais!  Tudo  é  calculado  para  economizar  o  trabalho  humano.  Porque  este  é  caro,
uma vez que o país é pouco povoado em comparação com os recursos naturais. Mas b preço
elevado  da  mão-de-obra  estimula  e  desenvolve  de  modo  fabuloso  os  meios  técnicos  e  os
métodos de trabalho. Por contraste, pensa-se na Índia ou na China, superpovoadas, em que o
irrisório  preço  da  mão-de-obra  humana  impediu  o  desenvolvimento  dos  meios  técnicos.  A
Europa ocupa posição intermediária. Quando o maquinismo se desenvolve 25
bastante,  ele  se  torna  rentável  e  custa  menos  do  que  a  mão-de-obra  humana.  Na  Europa,  os
fascistas
deveriam  refletir  sobre  isto!  Porque,  por  motivos  de  política  a  curto  prazo,  trabalham  por
aumentar  a  densidade  da  população  em  suas  respectivas  pátrias.  Por  outro  lado,  os  Estados
Unidos,  mais  reservados,  se  fecham  sobre  si  mesmos  por  um  sistema  de  imposto  proibitivo
sobre  as  mercadorias  estrangeiras.  Pode-se  exigir  de  um  visitante  inofensivo  que  quebre  a
cabeça?  Pode-se  realmente  estar  seguro  de  que  cada  pergunta  comporta  uma  resposta
inteligente?  Segunda  surpresa  para  o  visitante;  presta  atenção  na  atitude  americana  feliz  e
positiva  diante  da  vida.  Nas  fotografias  nota-se  este  sorriso  dos  seres,  símbolo  de  uma  das
principais forças dos americanos. Mostra-se amável, consciente de seu valor, otimista e sem
inveja, ao passo que o europeu julga os contactos com os americanos inocentes e agradáveis.
Em  compensação,  o  europeu  demonstra  espírito  crítico,  forte  consciência  de  si,  falta  de
generosidade  e  de  auxílio  mútuo,  exige  muito  de  seus  divertimentos  e  de  suas  leituras,
relativamente aos americanos. Mas no final das contas, revela-se bastante pessimista. A vida
suave,  o  conforto  têm  um  lugar  importante  nos  Estados  Unidos.  Sacrificam-lhes  fadiga,
preocupação e tranquilidade. O americano vive mais em função de uma meta precisa e para o
futuro  do  que  o  europeu. A  vida,  para  ele,  é  mais  um  devir,  não  um  estado.  Neste  sentido  é
radicalmente diferente do russo e do asiático, mais ainda do que do europeu. Todavia existe
outro  domínio  em  que  o  americano  se  assemelha  mais  ao  asiático  do  que  o  europeu.
Reconhece ser menos estritamente egotista do que o europeu, encarado psicologicamente e não
economicamente.
Fala-se  mais  “nós”  do  que  “eu”.  Sem  dúvida,  isto  resulta  de  que  os  usos  e  a  convenção
ocupam  lugar  importante,  o  ideal  de  vida  dos  indivíduos  e  sua  atitude  moral  e  estética
parecem  mais  conformistas  do  que  na  Europa.  Este  fato  explica  em  grande  parte  a
superioridade  econômica  americana  sobre  a  Europa.  Com  efeito,  com  mais  rapidez,  mais
facilidade  do  que  na  Europa  se  organizam  o  trabalho,  sua  repartição,  eficácia  na  fábrica,  na
universidade  ou  até  em  um  instituto  particular  de  beneficência.  Esta  atitude  social  talvez
provenha  parcialmente  da  influência  inglesa.  Violento  contraste,  enfim,  com  os
comportamentos  europeus:  a  zona  de  influência  do  Estado  é  relativamente  fraca.  O  europeu
admira-se de que o telégrafo, o telefone, as estradas de ferro, a escola pertençam na maioria a
sociedades  particulares.  Já  explicamos  isso  acima.  A  atitude  mais  social  do  indivíduo  o
permite.  Além  do  mais,  a  repartição  fundamentalmente  desigual  dos  bens  não  provoca  as
desigualdades  insuportáveis  sempre  pela  mesma  razão.  O  senso  de  responsabilidade  social
dos ricos se revela mais vivo aqui do que na Europa. Acham muito natural consagrar grande
parte de sua fortuna, e até mesmo de sua atividade, a serviço da comunidade. Imperiosamente,
a  opinião  pública  (poderosa!)  o  exige  deles.  Acontece  então  que  as  funções  culturais  mais


importantes podem ser confiadas à iniciativa particular e que o raio de ação do Estado neste
país seja relativamente bastante reduzido.
Contudo  o  prestígio  da  autoridade  do  Estado  diminuiu  singularmente  por  causa  da  Lei  Seca.
Nada é mais prejudicial, para o prestígio da lei e do Estado, do que promulgar leis sem ter os
meios  para  fazê-la  respeitar.  É  uma  evidência  reconhecida  que  o  índice  crescente  de
criminalidade  neste  Estado  depende  estreitamente  desta  lei.  Sob  outro  aspecto,  a  proibição
contribui, no meu entender, para o enfraquecimento do Estado. O botequim oferecia um lugar
onde  os  homens  tinham  a  oportunidade  de  trocar  suas  ideias  e  opiniões  sobre  os  negócios
públicos. Oportunidade que aqui desaparece, a meu ver, a ponto de fazer com que a imprensa,
controlada  em  grande  parte  pelos  grupos  interessados,  exerça  uma  influência  determinante  e
sem contraste sobre a opinião pública. O inegável valor do dinheiro neste país se revela ainda
mais forte do que na Europa, mas parece-me decrescer. Aos poucos se substitui a idéia de que
uma  grande  fortuna  não  é  mais  indispensável  para  uma  vida  feliz  e  próspera.  No  plano
artístico, sinto a mais viva admiração pelo gosto que se manifesta nas construções modernas e
nos objetos da vida diária. Em compensação, relativamente à Europa, julgo o povo americano
menos aberto para as artes plásticas e para a música. Admiro profundamente os resultados dos
institutos de pesquisa científica. Entre nós, com 26
muita injustiça, se interpreta a superioridade crescente da pesquisa americana exclusivamente
como
fruto  do  poder  do  dinheiro.  Ora,  devotamento,  tolerância,  espírito  de  equipe,  senso  da
cooperação  contribuem  de  modo  singular  para  seu  sucesso.  Para  terminar,  uma  observação!
Os  Estados  Unidos,  hoje,  representam  a  força  mundial  tecnicamente  mais  avançada.  Sua
influência sobre a organização das relações internacionais nem se pode medir. Mas a grande
América e seus habitantes ainda não manifestaram até agora profundo interesse pelos grandes
problemas internacionais, e sobretudo por aquele, terrivelmente atual, do desarmamento. Isto
deve  mudar,  no  interesse  mesmo  dos  americanos. A  última  guerra  provou  que  não  há  mais
continentes  isolados,  mas  que  os  destinos  de  todos  os  povos  estão  hoje  estreitamente
imbricados.  Por  conseguinte,  será  preciso  que  este  povo  se  convença  de  que  cada  habitante
seu tem uma grande responsabilidade no domínio da política internacional. Este país não deve
se  resignar  com  a  função  de  observador  inativo,  esta  função  com  o  correr  do  tempo  se
revelaria nefasta para todos. RESPOSTA ÀS MULHERES AMERICANAS
Uma liga de mulheres americanas julgou dever protestar contra a entrada de Einstein em sua
pátria. Recebeu a seguinte resposta:
“Jamais  encontrei,  da  parte  do  belo  sexo,  reação  tão  enérgica  contra  uma  tentativa  de
aproximação.  Se  por  acaso  isto  aconteceu,  jamais,  em  uma  só  vez,  tantas  mulheres  me
repeliram”. Não têm razão, estas cidadãs vigilantes? Deve-se acolher um homem que devora
os  capitalistas  calejados  com  o  mesmo  apetite,  a  mesma  volúpia  com  que,  outrora,  o
Minotauro cretense devorava as delicadas virgens gregas e que, além do mais, se revela tão
grosseiro  que  recusa  todas  as  guerras,  com  exceção  do  inevitável  conflito  com  a  própria
esposa?  Escutai  portanto,  vós,  mulheres  prudentes  e  patriotas;  lembrai-vos  também  que  o
Capitólio da poderosa Roma foi outrora salvo pelo cacarejar de suas fiéis patas. 27
CAPÍTULO II
Política e pacifismo


SENTIDO ATUAL DA PALAVRA PAZ
Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações.
Compreendiam sua importância. Mas hoje, esta posição moral é rechaçada pelos progressos
técnicos.  E  nossa  humanidade  civilizada  descobre  o  novo  sentido  da  palavra  paz:  significa
sobrevivência. Do mesmo modo, seria concebível que um homem, em sã consciência, pudesse
fugir  à  sua  verdadeira  responsabilidade  diante  do  problema  da  paz?  Em  todos  os  países  do
mundo,  grupos  industriais  poderosos  fabricam  armas  ou  participam  de  sua  fabricação;  em
todos os países do mundo, eles se opõem à resolução pacífica do menor litígio internacional.
Contra  eles,  porém,  os  governos  atingirão  este  objetivo.  essencial  da  paz,  quando  a  maioria
dos  eleitores  os  apoiar  energicamente.  Porque  vivemos  em  regime  democrático  e  nosso
destino  e  o  de  nosso  povo  dependem  inteiramente  de  nós.  A  vontade  coletiva  se  inspirará
nesta íntima convicção pessoal. COMO SUPRIMIR A GUERRA
Minha  responsabilidade  na  questão  da  bomba  atômica  se  limita  a  uma  única  intervenção:
escrevi uma carta ao Presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de
experiências  de  grande  envergadura  para  o  estudo  e  a  realização  da  bomba  atômica.  Eu  o
disse. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios
alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo.
Assumi portanto minhas responsabilidades. E no entanto sou apaixonadamente um pacifista e
minha maneira de ver não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um
crime em tempo de paz. Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação
conjunta,  já  que  não  superam  os  conflitos  por  uma  arbitragem  pacífica  e  não  baseiam  seu
direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. Participando
da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, concebem e executam os planos mais
detestáveis.  Precipitam-se  para  a  guerra.  Mas  hoje,  a  guerra  se  chama  o  aniquilamento  da
humanidade. Protestar hoje contra os armamentos não quer dizer nada e não muda nada. Só a
supressão  definitiva  do  risco  universal  da  guerra  dá  sentido  e  oportunidade  à  sobrevivência
do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra
a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa
que seja acusado de anti-social ou de utópico?
Gandhi  encarna  o  maior  gênio  político  de  nossa  civilização.  Definiu  o  sentido  concreto  de
uma política e soube encontrar em cada homem um inesgotável heroísmo quando descobre um
objetivo e um valor para sua ação. A Índia, hoje livre, prova a justeza de seu testemunho. Ora,
o  poder  material,  em  aparência  invencível,  do  Império  Britânico  foi  submergido  por  uma
vontade inspirada por idéias simples e claras.
QUAL O PROBLEMA DO PACIFISMO?
Senhoras, Senhores,
Meus agradecimentos por me permitirem exprimir minhas idéias sobre este problema. Alegro-
me por terem os senhores me proporcionado a ocasião de expor brevemente o 28
problema  do  pacifismo.  A  evolução  dos  últimos  anos  de  novo  pôs  em  foco  como  temos
poucas
razões  para  confiar  aos  governos  a  responsabilidade  na  luta  contra  os  armamentos  e  as
atitudes  belicosas.  Mas  também  a  formação  de.  grandes  organizações,  mesmo  com  muitos


membros, não pode por si só nos aproximar da meta. Continuo a afirmar que o meio violento
da  recusa  do  serviço  militar  é  o  melhor.  É  proclamado  por  organizações  que,  em  vários
países,  ajudam  moral  e  materialmente  os  corajosos  objetores  de  consciência.  Por  este  meio
podemos  mobilizar  os  homens  quanto  ao  problema  do  pacifismo.  Porque  esta  questão,  posta
assim tão direta e concretamente, interpela as naturezas íntegras sobre esse tipo de combate.
Porque, na verdade, trata-se de um combate ilegal, mas de um combate pelo direito real dos
homens  contra  seus  governos,  já  que  estes  exigem  de  seus  cidadãos  atos  criminosos.  Muitos
bons  pacifistas  não  gostariam  de  praticar  o  pacifismo  desta  maneira,  invocando  razões
patrióticas.
Nos  momentos  críticos,  porém,  poder-se-á  contar  com  eles.  A  guerra  mundial  provou-o
cabalmente.
Agradeço-lhes  sinceramente  por  me  terem  dado  a  ocasião  de  lhes  manifestar  de  viva  voz
minha opinião.
ALOCUÇÃO  NA  REUNIÃO  DOS  ESTUDANTES  PELO  DESARMAMENTO  Graças  às
descobertas  da  ciência  e  da  técnica,  as  últimas  gerações  nos  ofereceram  um  magnífico
presente de valor: poderemos nos libertar e embelezar nossa vida como nunca outras gerações
o puderam fazer. Mas este presente traz consigo perigos para nossa vida, como nunca antes.
Hoje,  o  destino  da  humanidade  civilizada  repousa  sobre  os  valores  morais  que  consegue
suscitai em si mesma. Por isto a tarefa de nossa época de modo algum é mais fácil do que as
realizadas pelas últimas gerações.
Aquilo  de  que  os  homens  precisam  como  alimentação  e  bens  de  uso  corrente  pode  ser
satisfeito  ao  cabo  de  horas  de  trabalho  infinitamente  mais  reduzidas.  Em  compensação,  o
problema da repartição do trabalho e dos produtos fabricados se mostra cada vez mais difícil.
Percebemos todos que o livre jogo das forças econômicas, o esforço desordenado e sem freio
dos  indivíduos  para  adquirir  e  dominar  já  não  conduzem  mais,  automaticamente,  a  uma
solução  suportável  deste  problema.  É  preciso  uma  ordem  planificada  para  a  produção  dos
bens, o emprego da mão-de-obra e a repartição das mercadorias fabricadas; trata-se de evitar
o  desaparecimento  ameaçador  de  importantes  recursos  produtivos,  o  empobrecimento  e  o
retorno ao estado selvagem de grande parte da população.
Contudo,  se  na  vida  econômica  o  egoísmo,  “monstro  sagrado”,  acarreta  consequências
nefastas, na vida política internacional causa estragos ainda mais atrozes. Agora os progressos
da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens
descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e
os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-
se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do
direito  à  guerra.  Mas  a  guerra  não  é  um  jogo  de  sociedade  onde  os  parceiros  respeitam
escrupulosamente as regras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não
valem nada. Somente a rejeição incondicional da guerra pode salvar-nos. Porque a criação de
uma  corte  de  arbitragem  não  basta  de  forma  alguma  nesta  circunstância.  Seria  preciso  que
também  os  tratados  incluíssem  a  afirmação  de  que  as  decisões  de  semelhante  corte  seriam
aplicadas  coletivamente  por  todas  as  nações.  Afastada  esta  certeza,  jamais  as  nações
assumirão  o  risco  do  desarmamento.  Imaginemos!  Os  governos  americano,  inglês,  alemão,
francês exigem do governo japonês a imediata cessação das hostilidades contra a China, sob
pena de um boicote estrito de todas as mercadorias “made in Japan”. Julgam os senhores que


um governo japonês assumiria para seu país um risco tão grande? Ora, contra toda a evidência
isto não se deu. Por quê? Cada pessoa, cada nação receia verdadeiramente por sua existência.
Por quê? Porque cada qual só tem em vista o 29
próprio proveito, imediato e desprezível, e não quer considerar primeiro o bem e o proveito
da
comunidade.
Por isso eu lhes declarei, logo de início, que o destino da humanidade repousa essencialmente
e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz,
será absolutamente necessário haver renúncia e restrição. Onde haurir forças para semelhante
modificação?  Alguns  já  desde  a  juventude  tiveram  a  possibilidade  de  fortalecer  o  espírito
pelo estudo e de manter um modo claro de julgar. São os antigos, eles olham para os senhores
e  esperam  que  lutem  com  todas  as  energias  com  o  fito  de  obter  afinal  aquilo  que  nos  foi
recusado.
SOBRE O SERVIÇO MILITAR


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