Como Vejo o Mundo



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Encontro12.08.2021
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Carta ao ministro Rocco, em Roma
“Senhor e mui digno colega,
Dois homens, dos mais notáveis e mais afamados dentre os cientistas italianos, dirigem-se a
mim em sua angústia moral e rogam-me que vos escreva a fim de evitar a cruel iniquidade que
ameaça  os  sábios  da  Itália.  De  fato,  deveriam  prestar  um  juramento  em  que  se  exalta  a
fidelidade ao 14
sistema fascista. Eu vos peço, portanto, que aconselheis o Senhor Mussolini no sentido de que
se
evite  esta  humilhação  para  a  nata  da  inteligência  italiana. Apesar  das  diferenças  de  nossas
convicções políticas, um ponto fundamental, eu sei, nos reúne: ambos conhecemos e amamos,
nas obras-primas do desenvolvimento intelectual europeu, os valores supremos. Eles exigem
liberdade de opinião e liberdade de ensino porque a luta pela verdade deve ter precedência
sobre todas as outras lutas. Sobre este fundamento essencial, nossa civilização pôde nascer na
Grécia  e  celebrar  sua  ressurreição  no  tempo  da  Renascença  na  Itália.  É  um  Bem  supremo,
pago  pelo  sangue  dos  mártires,  estes  homens  íntegros  e  generosos. A  Itália  hoje  é  amada  e
honrada, graças a eles.
Não  é  minha  intenção  discutir  convosco  os  danos  causados  à  liberdade  humana  e  as
possibilidades de justificação pela razão de Estado. Mas o combate pela verdade científica,
afastado dos problemas concretos da vida cotidiana, deveria  ser  considerado  intocável  pelo
poder  político.  Não  será  de  bom  aviso  deixar  que  os  servidores  sinceros  da  verdade  vivam
em  paz  o  tempo  necessário?  Não  será  também  este  o  interesse  do  Estado  italiano  e  de  sua
reputação no mundo?” LIBERDADE DE ENSINO...
A RESPEITO DO CASO GUMBEL
Há  muitas  cátedras,  mas  poucos  professores  prudentes  e  generosos.  Há  muitos  grandes
anfiteatros,  mas  poucos  jovens  sinceramente  desejosos  de  verdade  e  de  justiça.  A  natureza


fornece  muitos  produtos  medíocres  e  raramente  produtos  mais  finos.  Bem  o  sabemos,  que
adiantam queixas? Sempre foi assim e assim será sempre. É preciso aceitar a natureza como é.
Mas,  ao  mesmo  tempo,  cada  época  e  cada  geração  elaboram  sua  maneira  de  pensar,
transmitem-na  e  constituem,  assim,  as  marcas  características  de  uma  comunidade.  Por  isto
cada um deve participar na elaboração do espírito de seu tempo. Comparemos o espírito da
juventude universitária alemã de há cem anos com a de hoje. Naquela época acreditava-se na
melhoria  da  sociedade  humana,  julgava-se  de  boa  fé  cada  opinião  e  praticava-se  aquela
tolerância, vivida nos conflitos narrados por nossos autores clássicos. Ambicionava-se então
maior unidade política, seu nome era a Alemanha. A juventude universitária e os mestres do
pensamento  viviam  destes  ideais.  Hoje,  da  mesma  forma,  tende-se  para  o  progresso  social,
acredita-se  na  tolerância  e  na  liberdade,  procura-se  maior  unidade  política,  a  Europa.  Mas
hoje, a juventude universitária não mais corresponde nem às esperanças e ideais do povo nem
dos  mestres  do  pensamento.  Todo  observador  de  nossa  época,  sem  paixão  nem  preconceito,
tem de reconhecê-lo. Hoje estamos reunidos para nos interrogar sobre nós mesmos. O motivo
do encontro chama- se o caso Gumbel. Porque este homem, cheio do espírito de justiça, com
um  zelo  inalterável,  grande  coragem  e  exemplar  objetividade,  escreveu  sobre  um  crime
político  não  expiado.  Por  suas  obras  presta  assim  imenso  serviço  à  comunidade.  Mas  hoje,
sabemos que este homem foi atacado pelos estudantes e em parte pelo corpo docente de sua
universidade.  Tentam  mesmo  excluí-lo.  Desencadeia-se  a  paixão  política.  Ora,  eu  assumo  a
responsabilidade  pelo  que  digo:  quem  quer  que  leia  as  obras  de  H.  Gumbel  com  retidão  de
espírito,  sentirá  as  mesmas  impressões  que  eu  próprio  senti.  Temos  precisão  de
personalidades como a sua, se quisermos constituir uma comunidade política sadia. Que cada
um  reflita  em  sua  alma  e  sua  consciência,  que  chegue  a  uma  idéia  baseada  nas  próprias
leituras  e  não  nas  conversas  dos  outros.  Que  se  proceda  assim,  e  o  caso  Gumbel,  após  um
início pouco glorioso, não deixará de servir à boa causa.
MÉTODOS MODERNOS DE INQUISIÇÃO
O problema que os intelectuais desse país têm de enfrentar parece muito grave. Os políticos
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reacionários,  agitando  o  espectro  de  um  perigo  externo,  conseguiram  sensibilizar  a  opinião
pública
contra  todas  as  atividades  dos  intelectuais.  Graças  a  este  primeiro  sucesso,  tentam  agora
proibir a liberdade do ensino e expulsar de seu posto os recalcitrantes. Isto se chama aniquilar
alguém pela fome.
Que  deve  fazer  a  minoria  intelectual  contra  este  mal?  Só  vejo  uma  única  saída  possível:  a
revolucionária,  da  desobediência,  a  da  recusa  a  colaborar,  a  de  Gandhi.  Cada  intelectual,
citado diante de uma comissão, deveria negar-se a responder. O que equivaleria a estar pronto
a  deixar-se  prender,  a  deixar-se  arruinar  financeiramente,  em  resumo,  a  sacrificar  seus
interesses pessoais pelos interesses culturais do país.
A  recusa  não  deveria  fundar-se  sobre  o  artifício  bem  conhecido  de  objeção  de  consciência.
Mas um cidadão irrepreensível não aceita submeter-se a uma tal inquisição, em total infração
do espírito da constituição. E se alguns intelectuais se manifestarem, bastante corajosos para
escolher este caminho heróico, eles triunfarão. A não ser assim, os intelectuais deste país não
merecem coisa melhor do que a escravidão que lhes está prometida. EDUCAÇÃO EM VISTA


DE UM PENSAMENTO LIVRE Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se
tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira
um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo,
do  que  é  moralmente  correto. A  não  ser  assim,  ele  se  assemelhará,  com  seus  conhecimentos
profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.
Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para
determinar  com  exatidão  seu  lugar  exato  em  relação  a  seus  próximos  e  à  comunidade.  Estas
reflexões  essenciais,  comunicadas  à  jovem  geração  graças  aos  contactos  vivos  com  os
professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais. É assim que se expressa e se
forma  de  início  toda  a  cultura.  Quando  aconselho  com  ardor  “As  Humanidades”,  quero
recomendar esta cultura viva, e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia. Os
excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto de
eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os
progressos  nas  ciências  do  futuro.  É  preciso,  enfim,  tendo  em  vista  a  realização  de  uma
educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga
do  espírito  pelo  sistema  de  notas  entrava  e  necessariamente  transforma  a  pesquisa  em
superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como
um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.
EDUCAÇÃO/EDUCADOR
Muito cara senhorita,
Li cerca de dezesseis páginas de seu manuscrito que me causou prazer. Tudo ali, inteligente,
bem  apreendido,  muito  justo,  em  certo  sentido  independente,  mas  ao  mesmo  tempo  tão
feminino, quer dizer, dependente e eivado de ressentimentos. Eu também fui tratado de igual
maneira por meus professores, que não gostavam de minha independência e esqueciam-se de
mim  quando  tinham  necessidade  de  assistentes.  (Confesso  mesmo  que,  estudante,  era  mais
negligente  do  que  a  senhora.)  Todavia  não  seria  útil  escrever  fosse  o  que  fosse  sobre  este
período  de  minha  vida  e  não  me  agradaria  assumir  a  responsabilidade  de  impelir  alguém  a
imprimi-lo  ou  a  lê-lo.  Não  tem  graça  nenhuma  queixar-se  de  outrem,  se  o  nosso  próximo
encara a vida de modo bem diferente. Desista de ajustar contas com um passado desagradável
e guarde o manuscrito para seus filhos. Eles se alegrarão e pouco lhes importará o que dizem
ou pensam seus professores. Enfim, estou em Princeton apenas para a pesquisa científica e não
para a pedagogia. 16
Preocupam-se demais com ela, principalmente nas escolas americanas. Ora, não existe outra
educação  inteligente  senão  aquela  em  que  se  toma  a  si  próprio  como  um  exemplo,  ainda
quando não se possa impedir que esse modelo seja um monstro! AOS ALUNOS JAPONESES
Meus cumprimentos a vocês, alunos japoneses, e tenho razões especiais para fazê-lo. De fato,
visitei pessoalmente o belo país de vocês, suas cidades, suas casas, montanhas e florestas, e aí
vi as crianças japonesas descobrirem o amor da pátria. Tenho sempre sobre minha mesa um
grosso livro cheio de desenhos coloridos por vocês.
Quando  receberem  esta  carta,  de  tão  longe,  meditem  simplesmente  sobre  esta  idéia.  Nossa
época  dá  a  possibilidade  da  colaboração  entre  homens  de  diferentes  países,  num  espírito
fraterno  e  compreensivo.  Antigamente  os  povos  viviam  sem  se  conhecerem  mutuamente,


tinham receio uns dos outros ou até mesmo odiavam-se reciprocamente. Que o sentimento de
compreensão fraterna lance cada vez maiores raízes nos povos. Eu, o velho, e de muito longe,
saúdo os alunos japoneses: possa sua geração nos humilhar um dia!
MESTRES E ALUNOS


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