Como Vejo o Mundo


Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por



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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.


 ALBERT EINSTEIN
 
 
Como vejo
 
o mundo
     
Tradução de H. P. de Andrade
 
11ª edição
 
 
 
 
 
 
 
EDITORA
 
NOVA
 
FRONTEIRA
 
1
Titulo original
MEIN WELTBILD


© 1953, Europa Verlag, Zurich
Direitos adquiridos para a língua portuguesa, no Brasil, pela EDITORA NOVA FRONTEIRA
S.A.
Rua Maria Angélica, 168 — Lagoa — CEP: 22.461 — Tel.: 286-7822 Endereço Telegráfico:
NEOFRONT
Rio de Janeiro — RJ
Capa
DULCE MARY
Revisão
LUIZ AUGUSTO MESQUITA
FICHA CATALOGRAFICA
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Einstein, Albert, 1879-1955.
E35c  Como  vejo  o  mundo  / Albert  Einstein;  tradução  de  H.  P.  de Andrade.  Rio  de  Janeiro:
Nova Fronteira, 1981.
Tradução de: Mein Weltbild


1. Einstein, Albert, 1879-1955 1. Título CDD — 925 81-0094 CDU — 92 Einstein
2
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SUMÁRIO
Capítulo I
COMO VEJO O MUNDO
Como  vejo  o  mundo  .................................................................................................  8  Qual  o
sentido da vida? ............................................................................................. 9 Como julgar um
homem?...........................................................................................  9  Para  que  as  riquezas?
..............................................................................................  10  Comunidade  e  personalidade
....................................................................................  10  O  Estado  diante  da  causa  individual
............................................................................ 
11 

bem 


mal
......................................................................................................  11  Religião  e  ciência
.................................................................................................. 12 A religiosidade da pesquisa
...................................................................................... 
13 
Paraíso 
perdido
.....................................................................................................  14  Necessidade  da  cultura
moral 
.................................................................................... 
14 
Fascismo 

Ciência
................................................................................................ 
14 
Liberdade 
de 
ensino
...............................................................................................  15  Métodos  modernos  de
inquisição  ...............................................................................  15  Educação  em  vista  de  um
pensamento 
livre................................................................... 
16
Educação/Educador................................................................................................ 
16 
Aos
alunos  japoneses  ..............................................................................................  17  Mestres  e
alunos  ....................................................................................................  17  Os  cursos  de
estudos  superiores  de  Davos.....................................................................  17  Alocução


pronunciada  junto  do  túmulo  de  H. A.  Lorentz  ..................................................  18 A  ação  de
H.A.  Lorentz  a  serviço  da  cooperação  internacional  ...........................................  18  H.A.
Lorentz,  criador  e  personalidade  .........................................................................  19  Joseph
Popper-Lynkaeus...........................................................................................21 
Septuagésimo
aniversário de Arnold Berliner .................................................................21 4
Saudações a G.B. Shaw ............................................................................................22
B.  Russell  e  o  pensamento  filosófico  ............................................................................22  Os
entrevistadores...................................................................................................24  Felicitações
a  um  crítico  ...........................................................................................25  Minhas  primeiras
impressões  da  América  do  Norte  ..........................................................25  Resposta  às
mulheres americanas ................................................................................27 Capítulo II
POLÍTICA E PACIFISMO
Sentido  atual  da  palavra  paz......................................................................................  28  Como
suprimir  a  guerra?  .........................................................................................  28  Qual  o
problema  do  pacifismo?  .................................................................................  28  Alocução  na
reunião  dos  estudantes  pelo  desarmamento  ...................................................  29  Sobre  o
serviço  militar  ............................................................................................  30  A  Sigmund
Freud...................................................................................................  30  As  mulheres  e  a
guerra  ............................................................................................  31  Três  cartas  a  amigos  da
paz 
...................................................................................... 
31 
Pacifismo 
ativo
..................................................................................................... 
32 
Uma 
demissão
......................................................................................................  33  Sobre  a  questão  do
desarmamento .............................................................................. 33 A respeito da conferência
do  desarmamento  em  1932  ......................................................  34 A América  e  a  conferência
do  desarmamento  em  1932  .....................................................  36  A  Corte  de  Arbitragem
............................................................................................  37  A  Internacional  da  ciência
........................................................................................  37  A  respeito  das  minorias
........................................................................................... 
38 
Alemanha 

França
................................................................................................  38  O  Instituto  de  cooperação
intelectual  ...........................................................................  39  Civilização  e  bem-estar
........................................................................................... 39 Sintomas de uma doença da vida
cultural ..................................................................... 40 5
Reflexões sobre a crise econômica mundial....................................................................40
A  produção  e  o  poder  de  compra  .................................................................................42
Produção 

trabalho 
.................................................................................................43
Observações  sobre  a  atual  situação  da  Europa.................................................................43  A
respeito da coabitação pacífica das nações ..................................................................44 Para a
proteção  do  gênero  humano  ..............................................................................45  Nós,  os
herdeiros ....................................................................................................45 Capítulo III
LUTA CONTRA O NACIONAL-SOCIALISMO
PROFISSÃO DE FÉ
Correspondência  com  a Academia  de  Ciências  da  Prússia  ..................................................46
Carta  da  Academia  de  Ciências  da  Baviera  ....................................................................48


Capítulo IV
PROBLEMAS JUDAICOS
Os  ideais  judaicos  ..................................................................................................  50  Há  uma
concepção judaica do mundo? ........................................................................ 50 Cristianismo e
judaísmo  ..........................................................................................  51  Comunidade  judaica
...............................................................................................  51  Anti-semitismo  e  juventude
acadêmica  ........................................................................  52  Discurso  sobre  a  obra  de
construção  na  Palestina............................................................  53  A  “Palestina  no  trabalho”
......................................................................................... 
56 
Renascimento 
judaico
............................................................................................. 
56 
Carta 

um
árabe....................................................................................................  57  A  necessidade  do
sionismo  .......................................................................................  57  Aforismos  para  Leo
Baeck ....................................................................................... 58 6
Capítulo V
ESTUDOS CIENTÍFICOS
Princípios 
da 
pesquisa 
..............................................................................................59
Princípios da física teórica.........................................................................................60 Sobre o
método da física teórica .................................................................................62 Sobre a teoria
da  relatividade  .....................................................................................65  Algumas  palavras
sobre  a  origem  da  teoria  da  relatividade  geral  ..........................................67  O  problema  do
espaço,  do  éter  e  do  campo  físico.............................................................69  Johannes  Kepler
.....................................................................................................74  A  mecânica  de  Newton  e
sua  influência  sobre  a  formação  da  física  teórica  .............................76  A  influência  de
Maxwell  sobre  a  evolução  da  realidade  física..............................................80  O  barco  de
Flettner..................................................................................................82 A causa da formação
dos  meandros  no  curso  dos  rios.  Lei  de  Baer  .......................................84  Sobre  a  verdade
científica 
.........................................................................................87 

respeito 
da
degradação do homem de ciência ...............................................................87
7
CAPÍTULO I
Como vejo o mundo
COMO VEJO O MUNDO
Minha  condição  humana  me  fascina.  Conheço  o  limite  de  minha  existência  e  ignoro  por  que
estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu
me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam
inteiramente,  mas  ainda  para  outros  que,  por  acaso,  descobri  terem  emoções  semelhantes  às
minhas.  E  cada  dia,  milhares  de  vezes,  sinto  minha  vida  —  corpo  e  alma  —  integralmente
tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro
de  receber.  Mas  depois  experimento  o  sentimento  satisfeito  de  minha  solidão  e  quase
demonstro  má  consciência  ao  exigir  ainda  alguma  coisa  de  outrem.  Vejo  os  homens  se
diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho
ser  acessível  e  desejável  para  todos  uma  vida  simples  e  natural,  de  corpo  e  de  espírito.
Recuso-me  a  crer  na  liberdade  e  neste  conceito  filosófico.  Eu  não  sou  livre,  e  sim  às  vezes


constrangido  por  pressões  estranhas  a  mim,  outras  vezes  por  convicções  íntimas.  Ainda
jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o
que  quer,  mas  não  pode  querer  o  que  quer”;  e  hoje,  diante  do  espetáculo  aterrador  das
injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz
sofrer.  Suporto  então  melhor  meu  sentimento  de  responsabilidade.  Ele  já  não  me  esmaga  e
deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor.
Não  posso  me  preocupar  com  o  sentido  ou  a  finalidade  de  minha  existência,  nem  da  dos
outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem,
alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer
e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a
instintos  de  grupo.  Em  compensação,  foram  ideais  que  suscitaram  meus  esforços  e  me
permitiram  viver.  Chamam-se  o  bem,  a  beleza,  a  verdade.  Se  não  me  identifico  com  outras
sensibilidades  semelhantes  à  minha  e  se  não  me  obstino  incansavelmente  em  perseguir  este
ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora,
a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o
luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social.
Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto
a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria,
a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta,
diante  desses  laços,  curioso  sentimento  de  estranheza,  de  afastamento  e  a  idade  vem
acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da
comunicação  e  da  harmonia  entre  mim  e  os  outros  homens.  Com  isso  perdi  algo  da
ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião,
um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
A  virtude  republicana  corresponde  a  meu  ideal  político.  Cada  vida  encarna  a  dignidade  da
pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que
seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva
admiração  e  veneração.  Não  quero  e  não  mereço  nada.  Imagino  qual  seja  a  causa  profunda,
mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas idéias que descobri. Mas a
elas  consagrei  minha  vida,  uma  vida  inteira  de  esforço  ininterrupto.  Fazer,  criar,  inventar
exigem  uma  unidade  de  concepção,  de  direção  e  de  responsabilidade.  Reconheço  esta
evidência.  Os  cidadãos  executantes,  porém,  não  deverão  nunca  ser  obrigados  e  poderão
escolher sempre seu chefe.
8
Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal
republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence
por  seu  gênio,  mas  seu  sucessor  será  sempre  um  rematado  canalha.  Por  esta  razão,  luto  sem
tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e
contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse
naufrágio  o  desaparecimento  da  ideologia  republicana.  Aí  vejo  duas  causas  terrivelmente
graves.  Os  chefes  de  governo  não  encarnam  a  estabilidade  e  o  modo  da  votação  se  revela
impessoal.  Ora,  creio  que  os  Estados  Unidos  da  América  encontraram  a  solução  desse
problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente


e  afirma  de  verdade  seu  compromisso.  Em  compensação,  o  sistema  político  europeu  se
preocupa  mais  com  o  cidadão,  com  o  enfermo  e  o  indigente.  Nos  mecanismos  universais,  o
mecanismo  Estado  não  se  impõe  como  o  mais  indispensável.  Mas  é  a  pessoa  humana,  livre,
criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam
arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir
qualquer  prazer  em  desfilar  aos  sons  de  música,  eu  desprezo  este  homem...  Não  merece  um
cérebro  humano,  já  que  a  medula  espinhal  o  satisfaz.  Deveríamos  fazer  desaparecer  o  mais
depressa  possível  este  câncer  da  civilização.  Detesto  com  todas  as  forças  o  heroísmo
obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível
que  existe.  Preferiria  deixar-me  assassinar  a  participar  desta  ignomínia.  No  entanto,  creio
profundamente  na  humanidade.  Sei  que  este  câncer  de  há  muito  deveria  ter  sido  extirpado.
Mas  o  bom  senso  dos  homens  é  sistematicamente  corrompido.  E  os  culpados  são:  escola,
imprensa,  mundo  dos  negócios,  mundo  político.  O  mistério  da  vida  me  causa  a  mais  forte
emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém
não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-
vivo  e  seus  olhos  se  cegaram.  Aureolada  de  temor,  é  a  realidade  secreta  do  mistério  que
constitui  também  a  religião.  Homens  reconhecem  então  algo  de  impenetrável  a  suas
inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável.
Homens  se  confessam  limitados  e  seu  espírito  não  pode  apreender  esta  perfeição.  E  este
conhecimento  e  esta  confissão  tomam  o  nome  de  religião.  Deste  modo,  mas  somente  deste
modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a
recompensar  e  a  castigar  o  objeto  de  sua  criação.  Não  posso  fazer  idéia  de  um  ser  que
sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim é ele
um  fraco,  medroso  e  estupidamente  egoísta.  Não  me  canso  de  contemplar  o  mistério  da
eternidade  da  vida.  Tenho  uma  intuição  da  extraordinária  construção  do  ser.  Mesmo  que  o
esforço  para  compreendê-lo  fique  sempre  desproporcionado,  vejo  a  Razão  se  manifestar  na
vida. QUAL O SENTIDO DA VIDA?
Tem  um  sentido  a  minha  vida?  A  vida  de  um  homem  tem  sentido?  Posso  responder  a  tais
perguntas  se  tenho  espírito  religioso.  Mas,  “fazer  tais  perguntas  tem  sentido?”  Respondo:
“Aquele  que  considera  sua  vida  e  a  dos  outros  sem  qualquer  sentido  é  fundamentalmente
infeliz, pois não tem motivo algum para viver”.
COMO JULGAR UM HOMEM?
De acordo com uma única regra determino o autêntico valor de um homem: em que grau e com
que finalidade o homem se libertou de seu Eu? 9
PARA QUÊ AS RIQUEZAS?
Todas  as  riquezas  do  mundo,  ainda  mesmo  nas  mãos  de  um  homem  inteiramente  devotado  à
idéia  do  progresso,  jamais  trarão  o  menor  desenvolvimento  moral  para  a  humanidade.
Somente  seres  humanos  excepcionais  e  irrepreensíveis  suscitam  idéias  generosas  e  ações
elevadas.  Mas  o  dinheiro  polui  tudo  e  degrada  sem  piedade  a  pessoa  humana.  Não  posso
comparar a generosidade de um Moisés, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de
uma Fundação Carnegie qualquer.
COMUNIDADE E PERSONALIDADE


Ao  refletir  sobre  minha  existência  e  minha  vida  social,  vejo  claramente  minha  estrita
dependência intelectual e prática. Dependo integralmente da existência e da vida dos outros. E
descubro ser minha natureza semelhante em todos os pontos à natureza do animal que vive em
grupo.  Como  um  alimento  produzido  pelo  homem,  visto  uma  roupa  fabricada  pelo  homem,
habito  uma  casa  construída  por  ele.  O  que  sei  e  o  que  penso,  eu  o  devo  ao  homem.  E  para
comunicá-los  utilizo  a  linguagem  criada  pelo  homem.  Mas  quem  sou  eu  realmente,  se  minha
faculdade  de  pensar  ignora  a  linguagem?  Sou,  sem  dúvida,  um  animal  superior,  mas  sem  a
palavra a condição humana é digna de lástima.
Portanto  reconheço  minha  vantagem  sobre  o  animal  nesta  vida  de  comunidade  humana.  E  se
um  indivíduo  fosse  abandonado  desde  o  nascimento,  seria  irremediavelmente  um  animal  em
seu  corpo  e  em  seus  reflexos.  Posso  concebê-lo,  mas  não  posso  imaginá-lo.  Eu,  enquanto
homem, não existo somente como criatura individual, mas me descubro membro de uma grande
comunidade humana. Ela me dirige, corpo e alma, desde o nascimento até a morte.
Meu  valor  consiste  em  reconhecê-lo.  Sou  realmente  um  homem  quando  meus  sentimentos,
pensamentos  e  atos  têm  uma  única  finalidade:  a  comunidade  e  seu  progresso.  Minha  atitude
social portanto determinará o juízo que têm sobre mim, bom ou mau. Contudo, esta afirmação
primordial  não  basta.  Tenho  de  reconhecer  nos  dons  materiais,  intelectuais  e  morais  da
sociedade  o  papel  excepcional,  perpetuado  por  inúmeras  gerações,  de  alguns  homens
criadores de gênio. Sim, um dia, um homem utiliza o fogo pela primeira vez; sim, um dia ele
cultiva  plantas  alimentícias;  sim,  ele  inventa  a  máquina  a  vapor.  O  homem  solitário  pensa
sozinho  e  cria  novos  valores  para  a  comunidade.  Inventa  assim  novas  regras  morais  e
modifica a vida social. A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o
progresso  moral  da  sociedade  depende  exclusivamente  de  sua  independência.  A  não  ser
assim,  a  sociedade  estará  inexoravelmente  votada  ao  malogro,  e  o  ser  humano  privado  da
possibilidade de comunicar.
Defino uma sociedade sadia por este laço duplo. Somente existe por seres independentes, mas
profundamente  unidos  ao  grupo.  Assim,  quando  analisamos  as  civilizações  antigas  e
descobrimos  o  desabrochar  da  cultura  européia  no  momento  do  Renascimento  italiano,
reconhecemos estar a Idade Média morta e ultrapassada, porque os escravos se libertam e os
grandes espíritos conseguem existir.
Hoje, que direi da época, do estado, da sociedade e da pessoa humana? Nosso planeta chegou
a  uma  população  prodigiosamente  aumentada  se  a  comparamos  às  cifras  do  passado.  Por
exemplo, a Europa encerra três vezes mais habitantes do que há um século. Mas o número de
personalidades criadoras diminuiu. E a comunidade não descobre mais esses seres de que tem
necessidade  essencial.  A  organização  mecânica  substituiu-se  parcialmente  ao  homem
inovador.  Esta  transformação  se  opera  evidentemente  no  mundo  tecnológico,  mas  já  em
proporção inquietadora também no mundo científico.
A  falta  de  pessoas  de  gênio  nota-se  tragicamente  no  mundo  estético.  Pintura  e  música
degeneram e os homens são menos sensíveis. Os chefes políticos não existem e os cidadãos
fazem pouco caso de sua independência intelectual e da necessidade de um direito moral. As
organizações 10
comunitárias  democráticas  e  parlamentares,  privadas  dos  fundamentos  de  valor,  estão
decadentes


em numerosos países. Então aparecem as ditaduras. São toleradas porque o respeito da pessoa
e o senso social estão agonizantes ou já mortos. Pouco importa em que lugar, em quinze dias,
uma campanha da imprensa pode instigar uma população incapaz de julgamento a um tal grau
de loucura, que os homens se prontificam a vestir a farda de soldado para matar e se deixarem
matar.  E  seres  maus  realizam  assim  suas  intenções  desprezíveis.  A  dignidade  da  pessoa
humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar e nossa humanidade
civilizada sofre hoje deste câncer. Por isso, os profetas, comentando este flagelo, não cessam
de  anunciar  a  queda  iminente  de  nossa  civilização.  Não  faço  parte  daqueles  futurólogos  do
Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha esperança.
A  atual  decadência,  através  dos  fulminantes  progressos  da  economia  e  da  técnica,  revela  a
amplidão  do  combate  dos  homens  por  sua  existência.  A  humanidade  aí  perdeu  o
desenvolvimento livre da pessoa humana. Mas este preço do progresso corresponde também a
uma diminuição do trabalho. O homem satisfaz mais depressa as necessidades da comunidade.
E  a  partilha  científica  do  trabalho,  ao  se  tornar  obrigatória,  dará  a  segurança  ao  indivíduo.
Portanto, a comunidade vai renascer. Imagino os historiadores de amanhã interpretando nossa
época. Diagnosticarão os sintomas de doença social como a prova dolorosa de um nascimento
acelerado  pelas  bruscas  mutações  do  progresso.  Mas  reconhecerão  uma  humanidade  a
caminho. O ESTADO DIANTE DA CAUSA INDIVIDUAL
Faço a mim mesmo uma antiquíssima pergunta. Como proceder quando o Estado exige de mim
um  ato  inadmissível  e  quando  a  sociedade  espera  que  eu  assuma  atitudes  que  minha
consciência rejeita? É clara minha resposta. Sou totalmente dependente da sociedade em que
vivo. Portanto terei de submeter-me a suas prescrições. E nunca sou responsável por atos que
executo  sob  uma  imposição  irreprimível.  Bela  resposta!  Observo  que  este  pensamento
desmente com violência o sentimento inato de justiça. Evidentemente, o constrangimento pode
atenuar em parte a responsabilidade. Mas não a suprime nunca. E por ocasião do processo de
Nuremberg, esta moral era sentida sem precisar de provas.
Ora,  nossas  instituições,  nossas  leis,  costumes,  todos  os  nossos  valores  se  baseiam  em
sentimentos  inatos  de  justiça.  Existem  e  se  manifestam  em  todos  os  homens.  Mas  as
organizações  humanas,  caso  não  se  apoiem  e  se  equilibrem  sobre  a  responsabilidade  das
comunidades, são impotentes. Devo despertar e sustentar este sentimento de responsabilidade
moral; é um dever em face da sociedade.
Hoje  os  cientistas  e  os  técnicos  estão  investidos  de  uma  responsabilidade  moral
particularmente  pesada,  porque  o  progresso  das  armas  de  extermínio  maciço  está  entregue  à
sua  competência.  Por  isto  julgo  indispensável  a  criação  de  uma  “sociedade  para  a
responsabilidade  social  na  Ciência”.  Esclareceria  os  problemas  por  discuti-los  e  o  homem
aprenderia  a  forjar  para  si  um  juízo  independente  sobre  as  opções  que  se  lhe  apresentarem.
Ofereceria também um auxílio àqueles que têm uma necessidade imperiosa do mesmo. Porque
os cientistas, uma vez que seguem a via de sua consciência, estão arriscados a conhecer cruéis
momentos. O BEM E O MAL
Em  teoria,  creio  dever  testemunhar  o  mais  vivo  interesse  por  alguns  seres  por  terem
melhorado o homem e a vida humana. Mas interrogo-me sobre a natureza exata de tais seres e
vacilo.  Quando  analiso  mais  atentamente  os  mestres  da  política  e  da  religião,  começo  a
duvidar  intensamente  do  sentido  profundo  de  sua  atividade.  Será  o  bem?  Será  o  mal?  Em
compensação,  não  sinto  a  menor  hesitação  diante  de  alguns  espíritos  que  só  procuram  atos


nobres  e  sublimes.  Por  isto  apaixonam  os  homens  e  os  exaltam,  sem  mesmo  o  perceberem.
Descubro esta lei prática nos 11
grandes artistas e depois nos grandes sábios. Os resultados da pesquisa não exaltam nem
apaixonam. Mas o esforço tenaz para compreender e o trabalho intelectual para receber e para
traduzir transformam o homem.
Quem ousaria avaliar o Talmude em termos de quociente intelectual? RELIGIÃO E CIÊNCIA
Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos
homens  e  trazer  lenitivo  a  suas  dores.  Recusar  esta  evidência  é  não  compreender  a  vida  do
espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do
ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e
condicionamentos  levaram  os  homens  a  pensamentos  religiosos  e  os  incitaram  a  crer,  no
sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa
se  revelam  múltiplas.  No  primitivo,  por  exemplo,  o  temor  suscita  representações  religiosas
para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da
história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano
tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles
as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos
propícios  desses  seres  pela  realização  de  ritos  ou  de  sacrifícios.  Porque  a  memória  das
gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de
seres que ele próprio criou. A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada,
mas  essencialmente  estruturada  pela  casta  sacerdotal,  que  institui  o  papel  de  intermediário
entre  seres  temíveis  e  o  povo,  fundando  assim  sua  hegemonia.  Com  frequência  o  chefe,  o
monarca  ou  uma  classe  privilegiada,  de  acordo  com  os  elementos  de  seu  poder  e  para
salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta
política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses.
Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a
mãe  ou  o  chefe  de  imensos  grupos  humanos,  todos  enfim,  são  falíveis  e  mortais.  Então  a
paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus.
Deus-  Providência,  ele  preside  ao  destino,  socorre,  recompensa  e  castiga.  Segundo  a
imaginação  humana,  esse  Deus-Providência  ama  e  favorece  a  tribo,  a  humanidade,  a  vida,
consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião
vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo
judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral.
As  religiões  de  todos  os  povos  civilizados,  particularmente  dos  povos  orientais,  se
manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos.
Por  isto  desconfiamos  do  preconceito  que  define  as  religiões  primitivas  como  religiões  de
angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a
religião-moral  predomina  onde  a  vida  social  atinge  um  nível  superior.  Estes  dois  tipos  de
religião  traduzem  uma  idéia  de  Deus  pela  imaginação  do  homem.  Somente  indivíduos
particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta
experiência  religiosa.  Todos,  no  entanto,  podem  atingir  a  religião  em  um  último  grau,
raramente  acessível  em  sua  pureza  total.  Dou  a  isto  o  nome  de  religiosidade  cósmica  e  não
posso  falar  dela  com  facilidade  já  que  se  trata  de  uma  noção  muito  nova,  à  qual  não


corresponde  conceito  algum  de  um  Deus  antropomórfico.  O  ser  experimenta  o  nada  das
aspirações  e  vontades  humanas,  descobre  a  ordem  e  a  perfeição  onde  o  mundo  da  natureza
corresponde  ao  mundo  do  pensamento.  A  existência  individual  é  vivida  então  como  uma
espécie  de  prisão  e  o  ser  deseja  provar  a  totalidade  do  Ente  como  um  todo  perfeitamente
inteligível.  Notam-se  exemplos  desta  religião  cósmica  nos  primeiros  momentos  da  evolução
em  alguns  salmos  de  Davi  ou  em  alguns  profetas.  Em  grau  infinitamente  mais  elevado,  o
budismo  organiza  os  dados  do  cosmos,  que  os  maravilhosos  textos  de  Schopenhauer  nos
ensinaram  a  decifrar.  Ora,  os  gênios-religiosos  de  todos  os  tempos  se  distinguiram  por  esta
religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem,
portanto nenhuma Igreja 12
ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos
da
história  humana  se  nutriam  com  esta  forma  superior  de  religião.  Contudo,  seus
contemporâneos  muitas  vezes  os  tinham  por  suspeitos  de  ateísmo,  e  às  vezes,  também,  de
santidade.  Considerados  deste  ponto  de  vista,  homens  como  Demócrito,  Francisco  de Assis,
Spinoza se assemelham profundamente.
Como  poderá  comunicar-se  de  homem  a  homem  esta  religiosidade,  uma  vez  que  não  pode
chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais
importante  da  arte  e  da  ciência  consiste  em  despertar  e  manter  desperto  o  sentimento  dela
naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a
religião  de  um  modo  totalmente  diferente  da  concepção  clássica.  A  interpretação  histórica
considera  adversários  irreconciliáveis  ciência  e  religião,  por  uma  razão  fácil  de  ser
percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode
absolutamente  encarar  a  idéia  de  um  ser  a  intervir  no  processo  cósmico,  que  lhe  permita
refletir  seriamente  sobre  a  hipótese  da  causalidade.  Não  pode  encontrar  um  lugar  para  um
Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber
um  Deus  que  recompensa  e  castiga,  já  que  o  homem  age  segundo  leis  rigorosas  internas  e
externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo
que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi
acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento
moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de
modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem
de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
É portanto compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e
perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel
mais  poderoso  e  mais  generoso  da  pesquisa  científica.  Somente  aquele  que  pode  avaliar  os
gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais científicas
inovadoras  não  existiriam,  pode  pesar  a  força  do  sentimento,  único  a  criar  um  trabalho
totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura
do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência
a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os
mecanismos  da  mecânica  celeste,  por  um  trabalho  solitário  de  muitos  anos.  Aquele  que  só
conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente


a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos
indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço. Aquele
que  devotou  sua  vida  a  idênticas  finalidades  é  o  único  a  possuir  uma  imaginação
compreensiva  destes  homens,  daquilo  que  os  anima,  lhes  insufla  a  força  de  conservar  seu
ideal,  apesar  de  inúmeros  malogros.  A  religiosidade  cósmica  prodigaliza  tais  forças.  Um
contemporâneo  declarava,  não  sem  razão,  que  em  nossa  época,  instalada  no  materialismo,
reconhece-se  nos  sábios  escrupulosamente  honestos  os  únicos  espíritos  profundamente
religiosos.
A RELIGIOSIDADE DA PESQUISA
O  espírito  científico,  fortemente  armado  com  seu  método,  não  existe  sem  a  religiosidade
cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de
quem esperam benignidade e do qual temem o castigo — uma espécie de sentimento exaltado
da mesma natureza que os laços do filho com o pai —, um ser com quem também estabelecem
relações  pessoais,  por  respeitosas  que  sejam.  Mas  o  sábio,  bem  convencido  da  lei  de
causalidade  de  qualquer  acontecimento,  decifra  o  futuro  e  o  passado  submetidos  às  mesmas
regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas
simplesmente  com  os  homens.  Sua  religiosidade  consiste  em  espantar-se,  em  extasiar-se
diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os
pensamentos  humanos  e  todo  seu  engenho  não  podem  desvendar,  diante  dela,  a  não  ser  seu
nada irrisório. Este sentimento desenvolve 13
a  regra  dominante  de  sua  vida,  de  sua  coragem,  na  medida  em  que  supera  a  servidão  dos
desejos
egoístas.  Indubitavelmente,  este  sentimento  se  compara  àquele  que  animou  os  espíritos
criadores religiosos em todos os tempos.
PARAÍSO PERDIDO
Ainda no século XVII, os cientistas e os artistas de toda a Europa mostram-se ligados por um
ideal  estreitamente  comum  de  tal  forma  que  sua  cooperação  mal  se  via  influenciada  pelos
acontecimentos  políticos.  O  uso  universal  da  língua  latina  ajudava  a  consolidar  esta
comunidade.  Pensamos  hoje  nesta  época  como  um  paraíso  perdido.  Depois,  as  paixões
nacionais destruíram a comunidade dos espíritos, e o laço unitário da linguagem desapareceu.
Os cientistas, instalados, responsáveis por tradições nacionais exaltadas ao máximo, chegaram
mesmo a assassinar a comunidade.
Hoje  estamos  envolvidos  numa  evidência  catastrófica:  os  políticos,  estes  homens  dos
resultados práticos, se apresentam como os campeões do pensamento internacional. Criaram a
Sociedade das Nações!
NECESSIDADE DA CULTURA MORAL
Sinto  necessidade  de  dirigir  à  vossa  “Sociedade  para  a  cultura  moral”,  por  ocasião  de  seu
jubileu,  votos  de  prosperidade  e  de  sucesso.  Não  é,  na  verdade,  a  ocasião  de  recordar  com
satisfação aquilo que um esforço sincero obteve no domínio da moral, no espaço de setenta e
cinco  anos.  Porque  não  se  pode  sustentar  que  a  formação  moral  da  vida  humana  seja  mais
perfeita hoje do que em 1876.
Predominava então a opinião de que tudo se podia esperar da explicação dos fatos científicos
verdadeiros e da luta contra os preconceitos e a superstição. Sim, isto justificava plenamente a


vida e o combate dos melhores. Neste sentido, muito se adquiriu nestes setenta e cinco anos, e
muito  se  propagou  graças  à  literatura  e  ao  teatro.  Mas,  fazer  desaparecer  obstáculos  não
conduz  automaticamente  ao  progresso  moral  da  existência  social  e  individual.  Esta  ação
negativa exige, além disso, uma vontade positiva para a organização moral da vida coletiva.
Esta  dupla  ação,  de  extrema  importância,  arrancar  as  más  raízes  e  implantar  nova  moral,
constituirá a vida social da humanidade. Aqui a Ciência não pode nos libertar. Creio mesmo
que  o  exagero  da  atitude  ferozmente  intelectual,  severamente  orientada  para  o  concreto  e  o
real,  fruto  de  nossa  educação,  representa  um  perigo  para  os  valores  morais.  Não  penso  nos
riscos  inerentes  aos  progressos  da  tecnologia  humana,  mas  na  proliferação  de  intercâmbios
intelectuais  mediocremente  materialistas,  como  um  gelo  a  paralisar  as  relações  humanas. A
arte, mais do que a ciência, pode desejar e esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e
estético.  A  compreensão  de  outrem  somente  progredirá  com  a  partilha  de  alegrias  e
sofrimentos. A atividade moral implica a educação destas impulsões profundas, e a religião se
vê com isto purificada de suas superstições. O terrível dilema da situação política explica-se
por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, nenhuma saída para os
homens. FASCISMO E CIÊNCIA


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