Como Vejo o Mundo



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oeconomicus  da  economia  clássica?  Ora,  na  realidade,  a  ciência  concreta,  a  de  nosso
cotidiano,  jamais  teria  sido  criada  e  mantida  viva,  se  este  homem  de  ciência  não  houvesse
aparecido, pelo menos em grandes linhas, em grande número de indivíduos e durante longos
séculos.
É  claro,  não  considero  automaticamente  um  homem  de  ciência  aquele  que  sabe  manejar
instrumentos  e  métodos  julgados  científicos.  Penso  somente  naqueles  cujo  espírito  se  revela
verdadeiramente científico.
No momento atual, em que situação no corpo social da humanidade se encontra o homem de
ciência? Em certa medida, pode felicitar-se de que o trabalho de seus contemporâneos tenha
radicalmente  modificado,  ainda  que  de  modo  muito  indireto,  a  vida  econômica  por  ter
eliminado  quase  inteiramente  o  trabalho  muscular.  Mas  sente-se  também  desanimado,  já  que
os resultados de suas pesquisas provocaram terrível ameaça para a humanidade. Porque esses
resultados  foram  apropriados  pelos  representantes  do  poder  político,  estes  homens
moralmente  cegos.  Percebe  também  a  terrível  evidência  da  fenomenal  concentração
econômica engendrada pelos métodos técnicos provindos de suas pesquisas. Descobre então
que o poder político, criado sobre essas bases, pertence a ínfimas minorias que governam à
vontade, e completamente, uma multidão anônima, cada vez mais privada de qualquer reação.
Mais  terrível  ainda  se  lhe  impõe  outra  evidência.  A  concentração  do  poder  político  e
econômico  nas  mãos  de  tão  poucas  pessoas  não  acarreta  somente  a  dependência  material
exterior do homem de ciência, ameaça ao mesmo tempo sua existência profunda. De fato, pelo


aperfeiçoamento  de  técnicas  requintadas  para  dirigir  uma  pressão  intelectual  e  moral,  ela
impede o aparecimento de novas gerações de seres humanos de valor, mas independentes.
Hoje, o homem de ciência se vê verdadeiramente diante de um destino trágico. Quer e deseja a
verdade e a profunda independência. Mas, por estes esforços quase sobre-humanos, produziu
exatamente os meios que o reduzem exteriormente à escravidão e que irão aniquilá-lo em seu
íntimo. Deveria autorizar aos representantes do poder político que lhe ponham uma mordaça.
E como soldado, vê-se obrigado a sacrificar a vida de outrem e a própria, e está convencido
de que este sacrifício é um absurdo. Com toda a inteligência desejável, compreende que, num
clima  histórico  bem  condicionado,  os  Estados  fundados  sobre  a  idéia  de  Nação  encarnam  o
poder  econômico  e  político  e,  por  conseguinte,  também  o  poder  militar,  e  que  todo  este
sistema conduz inexoravelmente ao aniquilamento universal. Sabe que, com os atuais métodos
de  poder  terrorista,  somente  a  instauração  de  uma  ordem  jurídica  supranacional  pode  ainda
salvar a humanidade. Mas é tal a evolução, que suporta sua condenação à categoria de escravo
como  inevitável.  Degrada-se  tão  profundamente  que  continua,  a  mandado,  a  aperfeiçoar  os
meios destinados à destruição de seus semelhantes.
Estará realmente o homem de ciência obrigado a suportar este pesadelo? Terá definitivamente
passado o Tempo em que sua liberdade íntima, seu pensamento independente e suas pesquisas
podiam  iluminar  e  enriquecer  a  vida  dos  homens?  Teria  ele  se  esquecido  de  sua
responsabilidade  e  sua  dignidade,  por  ter  seu  esforço  se  exercido  unicamente  na  atividade
intelectual?  Respondo:  sim,  pode-se  aniquilar  um  homem  interiormente  livre  e  que  vive
segundo sua consciência, mas não se 88
pode  reduzi-lo  ao  estado  de  escravo  ou  de  instrumento  cego.  Se  o  cientista  contemporâneo
encontrar tempo e coragem para julgar a situação e sua responsabilidade, de modo pacífico e
objetivo,  e  se  agir  em  função  deste  exame,  então  as  perspectivas  de  uma  solução  racional  e
satisfatória  para  a  situação  internacional  de  hoje,  excessivamente  perigosa,  aparecerão
profunda e radicalmente transformadas.


http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource 89
Este é um livro exemplar: não apenas o
resumo, simples e accessível a todos, da
mais famosa teoria física contemporânea —
a da relatividade —, mas sobretudo a
apresentação do pensamento humanista de
um dos 'gênios' da humanidade.
Como Vejo o Mundo
é um texto em que Albert Einstein volta os
olhos para os problemas fundamentais do ser
humano — o social, o político, o econômico, o
cultural — e torna clara a sua posição diante
deles: a de um sábio radicalmente consciente
de que sem a liberdade de ser e agir, o
homem — por mais que conheça e possua —
não é nada.


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
SEMPRE
UM BOM
LIVRO
90


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