Como Vejo o Mundo


particularmente significativo da tradição judaica



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particularmente significativo da tradição judaica.
O  judaísmo  não  é  uma  fé.  O  Deus  judeu  significa  a  recusa  da  superstição  e  a  substituição
imaginária para este desaparecimento. Mas é igualmente a tentação de fundar a lei moral sobre
o temor, atitude deplorável e ilusória. Creio no entanto que a possante tradição moral do povo
judeu já se libertou amplamente deste temor. Compreende-se claramente que “servir a Deus”
equivale a “servir à vida”. Com esta finalidade, as melhores testemunhas do povo judeu, em
particular  os  profetas  e  Jesus,  se  bateram  incansavelmente.  O  judaísmo  não  é  uma  religião
transcendente.  Ocupa-se  unicamente  da  vida  que  se  leva,  carnal  por  assim  dizer,  e  de  nada
mais.  Julgo  problemático  que  possa  ser  considerado  como  religião  no  sentido  habitual  do
termo, tanto mais que não se exige do judeu nenhuma crença, mas antes o respeito pela vida no
sentido  suprapessoal.  Existe  enfim  outro  valor  na  tradição  judaica,  que  se  revela  de  modo


magnífico  em  numerosos  salmos.  Uma  espécie  de  alegria  embriagadora,  um  maravilhar-se
diante  da  beleza  e  da  majestade  do  mundo  exalta  o  indivíduo,  mesmo  que  o  espirito  não
consiga conceber sua evidência. Este sentimento, onde a verdadeira pesquisa vem haurir sua
energia espiritual, lembra o júbilo expresso pelo canto dos pássaros diante do espetáculo da
natureza. Aqui se manifesta uma espécie de semelhança com a idéia de Deus, um balbuciar de
criança diante da vida. Tudo isto caracteriza o judaísmo e não se encontra em outra parte sob
outros  nomes.  Com  efeito,  Deus  não  existe  para  o  judaísmo,  onde  o  respeito  excessivo  pela
letra esconde a doutrina pura. Contudo considero o judaísmo como um dos simbolismos mais
puros e mais vivos da idéia de Deus, sobretudo porque recomenda o princípio do respeito à
vida. É revelador que, nos mandamentos relativos à santificação do Sabat, os animais sejam
expressamente  incluídos,  de  tal  forma  a  comunidade  dos  vivos  é  percebida  como  um  ideal.
Mais 50
nitidamente ainda se expressa a solidariedade entre os humanos, e não é por acaso que as
reivindicações  socialistas  emanem  sobretudo  dos  judeus.  Como  é  viva  no  povo  judeu  a
consciência  da  sacralização  da  vida!  É  muito  bem  ilustrada  até  na  historiazinha  que  Walter
Rathenau  me  contou  um  dia:  “Quando  um  judeu  diz  que  caça  por  seu  prazer,  ele  mente”. A
vida é sagrada. A tradição judaica manifesta esta evidência. CRISTIANISMO E JUDAÍSMO
Se se separa o judaísmo dos profetas, e o cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo
de todos os acréscimos posteriores, em particular aqueles dos padres, subsiste uma doutrina
capaz  de  curar  a  humanidade  de  todas  as  moléstias  sociais.  O  homem  de  boa  vontade  deve
tentar corajosamente em seu meio, e na medida do possível, tornar viva esta doutrina de uma
humanidade  perfeita.  Se  realizar  lealmente  esta  experiência,  sem  se  deixar  eliminar  ou
silenciar pelos contemporâneos, terá o direito de se julgar feliz, ele e sua comunidade.
COMUNIDADE JUDAICA
Discurso pronunciado em Londres
Tenho  dificuldade  em  vencer  minha  atração  por  uma  vida  de  retiro  tranquilo.  Todavia  não
posso me furtar ao apelo das sociedades O.R.T. e O.Z.E.*. Ele evoca o apelo de nosso povo
judeu tão duramente perseguido. E eu lhe respondo. A situação de nossa comunidade judaica
dispersa  pela  terra  indica  igualmente  a  temperatura  do  nível  moral  no  mundo  político.  Que
poderia haver de mais revelador para avaliar a qualidade da moral política e do sentimento de
justiça  que  a  atitude  das  nações  diante  de  uma  minoria  indefesa,  cuja  única  singularidade
consiste em querer manter uma tradição cultural? Ora, esta qualidade está desaparecendo em
nossa época. Nosso destino prova-o tragicamente. Porque a atitude dos homens para conosco
fornece a prova: é preciso portanto consolidar e manter esta comunidade. A tradição do povo
judeu comporta uma vontade de justiça e de razão, proveitosa para o conjunto dos povos de
ontem e de amanhã. Spinoza e Karl Marx estavam impregnados desta tradição.
Quem quer manter o espírito deve se preocupar também com o corpo, que é seu invólucro. A
sociedade  O.Z.E.  presta  serviços  ao  corpo  de  nosso  povo,  no  sentido  literal  da  palavra.  Na
Europa Oriental, ela trabalha sem descanso para manter o bom estado físico de nosso povo, lá
onde  já  é  severamente  oprimido  na  sobrevivência  econômica,  ao  passo  que  a  sociedade
O.R.T.  está  a  postos  para  conjurar  uma  terrível  injustiça  social  e  econômica  a  que  o  povo
judeu  está  submetido  desde  a  Idade  Média.  Com  efeito,  desde  a  Idade  Média,  as  profissões


diretamente  produtivas  nos  foram  proibidas,  fomos  então  obrigados  a  nos  entregar  a
profissões mercantis. Nos países orientais, ajudar realmente o povo judeu equivale a dar-lhe
livre  acesso  a  novos  setores  profissionais  e  por  essa  causa  o  povo  judeu  se  bate  no  mundo
inteiro. A sociedade O.R.T. trabalha com eficácia para resolver este problema delicado.
Os senhores, compatriotas ingleses, estão convidados para esta obra de grande envergadura,
dela  participando  e  continuando  o  trabalho  criado  por  homens  superiores.  Nestes  últimos
anos,  e  mesmo  nestes  últimos  dias,  causaram-nos  uma  decepção  que  deve  ser  de  grande
interesse para todos os senhores. Não lamentemos nossa sorte! Mas procuremos encontrar no
fato  um  motivo  suplementar  de  viver  e  de  manter  nossa  fidelidade  à  causa  da  comunidade
judaica.  Creio  muito  sinceramente  que,  de  modo  indireto,  nós  preservamos  os  objetivos
comuns  da  humanidade.  Ora,  estes  devem  continuar  a  ser  para  nós  os  mais  elevados.  *
Sociedade  de  estímulo  ao  trabalho  artesanal  e  agrícola.  —  Sociedade  para  a  proteção  da
saúde dos judeus. 51
Reflitamos também que dificuldades e obstáculos impelem à luta e a provocam, dando saúde
e vida a toda a comunidade. A nossa não teria sobrevivido, se apenas tivéssemos vivido nos
prazeres.  Disto  estou  intimamente  persuadido.  Um  consolo  ainda  mais  belo  nos  espera.
Nossos amigos não são uma multidão, mas entre eles há homens de inteligência e senso moral
elevadíssimos. Consideram um ideal de vida aperfeiçoar a comunidade humana e libertar os
indivíduos  de  qualquer  opressão  aviltante.  Estamos  contentes  e  felizes  por  contar  entre  nós
hoje  homens  deste  calibre.  Não  pertencem  ao  mundo  judeu,  mas  conferem  a  esta  importante
sessão  uma  solenidade  particular. Alegro-me  por  ver  diante  de  mim  Bernard  Shaw  e  H.  G.
Wells. Suas concepções da vida me seduzem. O senhor, Sr. Shaw, foi bastante feliz em ganhar
a afeição e a estima alegre dos homens num terreno em que outros ganharam o martírio. Não
apenas  o  senhor  pregou  a  moral  aos  homens,  mas  soube  zombar  daquilo  que  para  todos
parecia um tabu inviolável. O que fez, somente um artista era capaz. O senhor fez surgir de sua
caixinha mágica inúmeras figurinhas que se parecem com os homens, e criou-as, não de carne
e osso, mas de espírito, de fineza e de graça. Elas chegam a se assemelhar aos homens mais do
que nós próprios, tanto que esquecemos de que não se trata de criações da natureza, mas obra
sua.  O  senhor  movimenta  estas  figurinhas  em  um  pequeno  universo,  onde  as  graças  estão
vigilantes e impedem todo o ressentimento. Quem quer que tenha observado este microscópico
universo  terá  descoberto  nosso  universo  real  visto  sob  nova  luz.  Vê  as  figurinhas  se
introduzirem  tão  habilmente  nos  homens  reais  que  estes  de  repente  adquirem  nova  imagem,
bem diferente da anterior. E por colocar nas mãos de todos nós o espelho, o senhor nos ensina
a  libertar-  nos,  como  quase  nenhum  de  nossos  contemporâneos  o  soube  fazer.  Com  isto  o
senhor retirou da existência algo de seu peso terrestre. Nós lhe estamos agradecidos do fundo
do coração e aplaudimos o acaso que nos gratificou, através de penosos sofrimentos, com um
médico  da  alma,  com  um  libertador.  Pessoalmente  eu  lhe  agradeço  pelas  inesquecíveis
palavras  dirigidas  a  meu  irmão  mítico,  que  complica  muito  minha  vida,  embora  em  sua
grandeza rija, honorífica, no fundo não passe de um camarada inofensivo.
Aos  senhores,  meus  irmãos  judeus,  repito  que  a  existência  e  o  destino  de  nosso  povo
dependem  menos  de  fatores  exteriores  que  de  nossa  fidelidade  às  tradições  morais  que  nos
sustentaram  durante  séculos  na  vida,  apesar  das  terríveis  tempestades  desencadeadas  sobre
nós.  Sacrificar-se  a  serviço  da  vida  equivale  a  uma  graça.  ANTI-SEMITISMO  E


JUVENTUDE ACADÊMICA
Enquanto vivíamos num gueto, o fato de pertencermos ao povo judeu acarretava dificuldades
materiais, às vezes até perigos físicos; em compensação jamais problemas sociais e psíquicos.
Com  a  emancipação,  a  situação  de  fato  se  modificou  radicalmente,  em  particular  para  os
judeus que se encaminharam às profissões liberais.
O jovem judeu na escola e na universidade está sob a influência de uma sociedade estruturada
de maneira nacional. Ele a respeita, admira-a, recebe sua bagagem intelectual; sente que lhe
pertence,  mas  ao  mesmo  tempo  percebe  ser  tratado  por  ela  como  estrangeiro,  com  um  certo
desdém  e  até  alguma  aversão.  Mas  arrastado  pela  sugestiva  influência  desta  força  psíquica
superior  mais  do  que  por  considerações  utilitárias,  ele  se  esquece  de  seu  povo  e  de  suas
tradições e se considera definitivamente integrado aos outros, enquanto procura se disfarçar, a
si  e  aos  outros,  mas  sem  resultado  porque  esta  conversão  é  sempre  unilateral.  Assim  se
reconstitui a história do funcionário judeu convertido, ontem como hoje digna de lástima! As
causas  são,  não  a  falta  de  caráter  ou  a  ambição  desmedida,  mas  antes,  como  já  fiz  notar,  a
força  de  persuasão  de  um  ambiente  mais  ponderável  em  número  e  em  influência.
Evidentemente bom número de filhos muito dotados do povo judeu contribuiu largamente para
os  progressos  da  civilização  européia,  mas,  com  algumas  exceções,  seu  comportamento  não
foi  sempre  desta  natureza?  Como  para  todas  as  doenças  psíquicas,  a  cura  exige  uma  clara
explicação da natureza e das causas do mal. Temos de elucidar perfeitamente nossa condição
de estrangeiro e daí deduzir as consequências. É estúpido querer convencer outrem, mediante
todo tipo de raciocínio, de nossa 52
identidade intelectual e espiritual com ele. Porque a própria base de seu comportamento não é
obtida pela mesma camada cerebral. Temos de emancipar-nos socialmente, encontrar por nós
mesmos a solução para nossas necessidades sociais. Temos de formar nossas sociedades de
estudantes, comportar-nos frente a não-judeus com toda a cortesia, mas com lógica. Queremos
também viver a nosso modo, não imitar os costumes dos espadachins e dos beberrões. Nada
disto nos diz respeito. Pode-se conhecer a cultura da Europa e viver como bom cidadão de um
Estado,  sem  deixar  de  ser  ao  mesmo  tempo  um  judeu  fiel.  Não  nos  esqueçamos  disto  e
façamos  assim!  O  problema  do  anti-semitismo,  em  sua  manifestação  social,  será  resolvido
então. DISCURSO SOBRE A OBRA DE CONSTRUÇÃO NA PALESTINA 1. Há dez anos,
tive a alegria de encontrá-los pela primeira vez. Tratava-se de incrementar a idéia sionista e
tudo  ainda  estava  no  futuro.  Hoje,  podemos  encarar  estes  dez  anos  passados  com  alguma
alegria. Porque neles, as forças conjuntas do povo judaico realizaram na Palestina uma obra
magnífica de construção, perfeitamente eficaz e bem superior a nossas mais loucas esperanças.
Assim superamos a dura provação que os acontecimentos dos últimos anos nos infligiram. Um
trabalho incessante, sustentado por uma ideologia elevada, conduz  lenta  mas  seguramente  ao
êxito.  As  últimas  declarações  do  governo  inglês  marcam  uma  volta  a  uma  avaliação  mais
correta  de  nossa  situação.  Nós  o  reconhecemos  com  gratidão.  Todavia  não  nos  esqueçamos
nunca  da  lição  desta  crise.  O  estabelecimento  de  uma  satisfatória  cooperação  entre  judeus  e
árabes  não  é  problema  da  Inglaterra,  mas  nosso.  Nós,  judeus  e  árabes,  temos  de  nos  pôr  de
acordo entre nós acerca das linhas diretrizes de uma política de comunidade eficaz e adaptada
às  necessidades  dos  dois  povos.  Uma  solução  honrosa,  digna  de  nossas  duas  comunidades,
exige  de  nós  a  seguinte  convicção:  o  objetivo,  capital  e  magnífico,  conta  tanto  quanto  a


própria  realização  do  trabalho.  Reflitamos  neste  exemplo:  a  Suíça  representa  uma  evolução
estatal mais progressista do que qualquer outro Estado, justamente por causa da complexidade
dos problemas políticos. Mas sua solução exige, por hipótese, uma constituição estável, já que
se  refere  a  uma  comunidade  formada  de  vários  agrupamentos  nacionais.  Muito  ainda  há  por
fazer. Mas um dos pontos mais ardentemente desejados por Herlz já foi alcançado. O trabalho
pela Palestina ajudou o povo judeu a descobrir em si a solidariedade e a forjar para si uma
disposição  de  ânimo.  Porque  todo  organismo  tem  precisão  dela  para  se  desenvolver
normalmente.  Aquele  que  deseja  compreendê-lo  realmente  pode  ver  hoje  esta  evidência.
Aquilo que realizamos para a obra comum, não a realizamos somente por nossos irmãos, na
Palestina, mas para a moral e a dignidade de todo o povo judeu. 2. Estamos hoje reunidos para
comemorar  uma  comunidade  milenar,  seu  destino  e  seus  problemas.  É  uma  comunidade  de
tradição  moral,  que  nos  momentos  de  provação  sempre  revelou  sua  força  e  amor  pela  vida.
Em todas as épocas, suscitou homens que encarnaram a consciência do mundo ocidental, e que
defenderam a dignidade da pessoa humana e da justiça. Enquanto esta comunidade for cara a
nosso  coração,  ela  se  perpetuará  para  a  salvação  da  humanidade,  embora  continue  informal
sua  organização.  Há  algumas  décadas,  homens  inteligentes,  entre  eles  o  inesquecível  Herzl,
pensaram  que  tínhamos  necessidade  de  um  centro  espiritual  para  manter  o  sentimento  de
solidariedade  no  momento  da  provação.  Assim  se  desenvolveu  a  idéia  sionista  e  a
colonização na Palestina. Pudemos ver os sucessos dessas realizações, sobretudo nos inícios
cheios de promessas.
Com satisfação, foi-me dado verificar que esta obra tinha grande impacto no moral do povo
judeu. Minoria dentro das nações, o judeu conhece problemas de coexistência, mas sobretudo
tem de se haver com outros perigos, mais íntimos, inerentes à sua psicologia. Nestes últimos
anos,  a  obra  de  construção  sofreu  uma  crise  que  pesou  enormemente  sobre  nós  e  ainda  não
está totalmente superada. Contudo as últimas notícias provam que o mundo e em particular o
governo inglês estão dispostos a reconhecer os elevados valores morais, revelados em nosso
ardor  pela  realização  sionista.  Neste  exato  momento,  tenhamos  um  pensamento  reconhecido
para com nosso chefe Weizmann que assegurou o êxito da boa causa com um devotamento e
uma 53
prudência sem igual.
As dificuldades encontradas provocaram felizes consequências. De novo mostraram o poder
dos  laços  entre  os  judeus  de  todos  os  países,  principalmente  acerca  de  seu  destino.  Mas
esclareceram nossa maneira de ver o problema palestino, libertando-a das impurezas de uma
ideologia  nacionalista.  Proclamou-se  abertamente  que  nossa  meta  não  é  a  criação  de  uma
comunidade política, mas que nosso ideal, fundado na antiga tradição do judaísmo, se propõe
a  criação  de  uma  comunidade  cultural,  no  sentido  mais  amplo  do  termo.  Para  consegui-lo,
temos  de  resolver,  nobremente,  publicamente,  dignamente,  o  problema  da  coabitação  com  o
povo  irmão  dos  árabes.  Temos  a  oportunidade  de  provar  aquilo  que  aprendemos  durante  os
séculos  de  um  passado  vivido  duramente.  Se  descobrirmos  o  caminho  exato,  ganharemos  e
serviremos de exemplo para outros povos.
Aquilo  que  empreendemos  para  a  Palestina,  nós  o  realizamos  pela  dignidade  e  a  moral  de
todo o povo judeu.
3. Alegro-me com a ocasião que me é oferecida de dizer algumas palavras à juventude deste


país, fiel aos objetivos gerais do judaísmo. Não desanimem pelas dificuldades que temos de
enfrentar  na  Palestina.  Situações  deste  tipo  constituem  experiências  indispensáveis  para  o
dinamismo de nossa comunidade.
Com  razão  criticamos  as  medidas  e  as  manifestações  do  governo  inglês.  Não  devemos
contentar-nos  com  isto,  mas  procurar  também  tirar  suas  conseqüências.  Devemos  manter  em
nossas relações com o povo árabe a mais extrema vigilância. Graças a esta atitude, poderemos
evitar  que  no  futuro  tensões  muito  perigosas  venham  a  se  manifestar  e  poderiam  ser
aproveitadas como uma provocação a atos belicosos. Com facilidade poderemos atingir nosso
objetivo, porque nossa realização foi e é concebida de maneira a servir também aos interesses
concretos da população árabe. Conseguiremos então impedir a situação catastrófica tanto para
os  judeus  quanto  para  os  árabes  de  apelar  para  a  potência  mandatária  como  árbitro.  Neste
espírito,  seguiremos  a  via  da  sabedoria,  mas  também  das  tradições  que  dão  à  comunidade
judaica seu sentido e sua força. Porque esta comunidade não é política e não deve vir a sê-lo.
Exclusivamente  moral,  assim  ela  existe.  Unicamente  nesta  tradição  poderá  encontrar  novas
energias, e unicamente nesta tradição reconhece sua razão de ser.
4. Há dois milênios, o valor comum a todos os judeus está encarnado em seu passado. Para
este  povo  disperso  pelo  mundo  somente  existia  um  único  lugar,  ciosamente  mantido,  o  da
tradição. Evidentemente judeus, enquanto indivíduos, criaram grandes valores de civilização.
Mas o povo judeu, como tal, não parecia ter a força das grandes realizações coletivas. Tudo
se transformou agora. A História confiou-nos nobre e importante missão sob a forma de uma
colaboração ativa para construir a Palestina. Irmãos notáveis já trabalham com todas as forças
para a realização deste objetivo. Temos a possibilidade de instalar focos de civilização nos
quais todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na
Palestina  um  lugar  para  as  famílias  e  para  uma  civilização  nacional  própria,  que  permita
despertar o Oriente Médio para uma vida econômica e intelectual. A meta preconizada pelos
chefes sionistas não quer ser política, mas antes social e cultural. A comunidade na Palestina
deve  aproximar-se  do  ideal  social  de  nossos  antepassados,  tal  como  está  escrito  na  Bíblia;
deve ao mesmo tempo tornar-se um lugar para os encontros intelectuais modernos, um centro
intelectual  para  os  judeus  do  mundo  inteiro.  A  fundação  de  uma  Universidade  judia  em
Jerusalém  representa,  nesta  ordem  de  idéias,  uma  das  metas  principais  da  organização
sionista.
Fui  nestes  últimos  meses  à  América  para  auxiliar  a  constituir  a  vida  material  desta
Universidade.  O  sucesso  dessa  campanha  impôs-se  por  si  mesmo.  Graças  à  incansável
atividade,  à  generosidade  ilimitada  dos  médicos  judeus,  recolhemos  bastantes  meios  para
iniciar a fundação de uma faculdade de medicina e imediatamente começamos seus trabalhos
preparatórios.  De  acordo  com  os  atuais  resultados,  sem  dúvida  alguma  obteremos  as
estruturas materiais indispensáveis para as outras faculdades, e sem delongas. A faculdade de
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medicina deve ser concebida principalmente como um instituto de pesquisa. Agirá diretamente
para
o  saneamento  do  país,  função  indispensável  em  nossa  empresa.  O  ensino  em  um  nível  mais
alto só se desenvolverá mais tarde. Como já se encontrou suficiente número de sábios capazes
e  responsáveis  para  uma  cátedra  na  Universidade,  a  fundação  da  faculdade  de  medicina,  ao


que parece, não coloca mais problemas. Noto no entanto que um fundo particular foi previsto
para a Universidade, fundo absolutamente separado dos capitais necessários à construção do
país.  Para  estes  fundos  particulares,  nos  últimos  meses,  graças  ao  incansável  esforço  do
professor  Weizmann  e  de  outros  chefes  sionistas  na  América,  reuniram-se  somas  muito
importantes, graças sobretudo às elevadas doações da classe média. Termino por um vibrante
apelo aos judeus alemães. Que contribuam, apesar da terrível situação econômica atual, para
possibilitar com todas as suas forças a criação de um lar judeu na Palestina. Não, não se trata
de  um  ato  de  caridade,  mas  de  uma  obra  que  diz  respeito  a  todos  os  judeus.  Seu  êxito  será
para  todos  a  ocasião  da  mais  perfeita  satisfação.  5.  Para  nós,  judeus,  a  Palestina  não  se
apresenta sob o aspecto de uma obra de caridade ou de uma implantação colonial. Trata-se de
um problema de fundo, essencial para o povo judeu. E em primeiro lugar, a Palestina não é um
refúgio  para  os  judeus  orientais,  mas  antes  a  encarnação  renascente  do  sentimento  da
comunidade nacional de todos os judeus. Será necessário, será oportuno despertar e reforçar
este  sentimento?  A  esta  pergunta  não  respondo  levado  por  um  sentimento  reflexo,  mas  por
sólidas razões. Digo sim sem reserva alguma. Analisemos rapidamente o desenvolvimento dos
judeus  alemães  nestes  últimos  cem  anos!  Há  um  século,  nossos  antepassados  viviam,  com
raras exceções, no gueto. Eram pobres, sem direitos políticos, separados dos não-judeus por
um  muro  de  tradições  religiosas,  de  conformismo  na  vida  e  de  jurisdições  limitativas.
Estavam mesmo fechados, em sua vida intelectual, dentro da própria literatura. Eram pouco e
superficialmente  marcados  pelo  possante  despertar  que  havia  sacudido  a  vida  intelectual  da
Europa desde a Renascença. Mas estes homens, de pouca importância e sem grande influência,
guardavam uma força superior à nossa. Cada um deles pertencia por todas as fibras de seu ser
a uma comunidade da qual se sentia membro integral. Exprimia-se e vivia em uma comunidade
que  nada  exigia  dele  que  fosse  de  encontro  com  seu  modo  de  pensar  natural.  Nossos
antepassados de então eram certamente miseráveis física e intelectualmente, mas socialmente
se  revelavam  de  espantoso  equilíbrio  moral.  Depois  houve  a  emancipação,  que,  de  repente,
ofereceu  ao  indivíduo  possibilidades  de  progresso  insuspeitadas.  Os  indivíduos,  cada  qual
por  seu  lado,  adquiriam  rapidamente  situações  nas  camadas  sociais  e  econômicas  mais
elevadas da sociedade. Com paixão haviam assimilado as conquistas principais que a arte e a
ciência ocidental criaram. Participavam com intenso fervor deste movimento, e eles próprios
criavam  obras  duradouras.  Devido  a  esta  atitude,  adotaram  as  formas  exteriores  do  mundo
não-judeu  e  aos  poucos  foram  se  afastando  de  suas  tradições  religiosas  e  sociais,  aceitando
costumes,  padrões  de  vida,  modos  de  pensar  estranhos  ao  mundo  judeu.  Poder-se-  ia  pensar
que  iriam  assemelhar-se  completamente  aos  povos  entre  os  quais  viviam,  povos
quantitativamente mais numerosos e política e culturalmente mais bem coordenados, ao ponto
de,  em  algumas  gerações,  nada  mais  subsistir  de  visível  do  mundo  judeu.  Completo
desaparecimento  da  comunidade  judaica  parecia  inevitável  na  Europa  Central  e  Ocidental.
Ora,  nada  disto  aconteceu.  Os  instintos  das  nacionalidades  diferentes,  ao  que  parece,
impediram  uma  fusão  completa;  a  adaptação  dos  judeus  aos  povos  europeus  entre  os  quais
viviam, a suas línguas, a seus costumes e até parcialmente a suas formas religiosas, não pôde
destruir  o  sentimento  de  ser  um  estrangeiro,  que  se  mantém  entre  o  judeu  e  as  comunidades
européias que o acolhem. Em última análise, este sentimento de estranheza constitui a base do
anti-semitismo.  Este  não  será  extirpado  do  mundo  por  escritos,  por  bem  intencionados  que
sejam. Porque as nacionalidades não querem se misturar, mas seguir o próprio destino. Uma


situação pacífica só se instaurará na compreensão e na indulgência recíprocas. Por esta razão,
é importante que nós, judeus, retomemos consciência de nossa existência como nacionalidade
e  que  recuperemos  de  novo  o  amor-próprio  indispensável  a  uma  vida  realizada.  Temos  de
reaprender de novo a interessar-nos lealmente por nossos antepassados e por nossa 55
história, e devemos, como povo. assumir missões suscetíveis de reforçar nosso sentimento de
comunidade.  Não  basta  que  participemos  como  indivíduos  do  progresso  cultural  da
humanidade,  é  preciso  também  que  enfrentemos  o  gênero  de  problemas  que  competem  às
comunidades  nacionais.  Eis  a  solução  para  um  judaísmo  novamente  social.  Peço-lhes  que
considerem o movimento sionista nesta perspectiva. A história, hoje, nos confiou uma missão,
a  de  participar  eficazmente  na  reconstrução  econômica  e  cultural  de  nossa  pátria.  Pessoas
entusiastas  e  notavelmente  dotadas  analisaram  a  situação  e  muitos  de  nossos  melhores
concidadãos  estão  prontos  para  se  consagrarem  de  corpo  e  alma  a  esta  tarefa.  Que  cada  um
dos senhores considere realmente suas capacidades em relação à obra e contribua com todas
as forças!
A “PALESTINA NO TRABALHO”
Entre  as  organizações  sionistas,  a  “Palestina  no  trabalho”  representa  a  que  mais  bem
corresponde  pela  atividade,  de  modo  mais  preciso,  à  categoria  mais  digna  de  estima  das
pessoas de lá, trabalhadores manuais, transformando o deserto em colônias florescentes. Estes
trabalhadores  são  uma  seleção  de  voluntários  vindos  de  todo  o  povo  judeu,  uma  elite  de
homens corajosos, conscientes e desinteressados. Não se trata de operários sem categoria, que
vendem sua força a quem mais paga, mas homens instruídos, de espírito vivo e livres, cuja luta
pacífica  com  um  solo  abandonado  redunda  em  proveito  de  povo  inteiro,  mais  ou  menos
diretamente.  Diminuir,  se  possível,  a  rudeza  de  seu  destino  significa  salvar  vidas  humanas
singularmente  preciosas.  Porque  o  combate  dos  primeiros  colonos  contra  um  solo  ainda  não
saneado se traduz por esforços duros e perigosos e uma abnegação pessoal rigorosa. Somente
uma testemunha ocular pode compreender como é justa esta idéia. Por isso, aquele que ajuda
estes homens, possibilitando a melhoria dos utensílios, ajuda a obra de modo benéfico. E esta
classe  de  trabalhadores  é  a  única  a  tornar  possíveis  sadias  relações  com  o  povo  árabe:  e  é
este  o  objetivo  político  mais  importante  para  o  sionismo.  Com  efeito,  as  administrações
aparecem e desaparecem. Em compensação as relações humanas constituem na vida dos povos
a  etapa  decisiva.  Assim  sendo,  um  auxílio  à  “Palestina  no  trabalho”  significa  também  a
realização de uma política humana e respeitável na Palestina, e ainda um combate útil contra
os vagalhões nacionalistas retrógrados. Porque o mundo político em geral e, em menor escala,
o  pequeno  universo  da  obra  palestina,  ainda  sofrem  suas  consequências.  RENASCIMENTO
JUDAICO


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