Como Vejo o Mundo



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de Ostende, 5 de abril de 1933
Soube por fonte absolutamente segura que a Academia das Ciências falou, em uma declaração
oficial, sobre a “participação de Albert Einstein na abominável campanha de imprensa levada
a efeito na França e na América”.
Declaro  que  jamais  participei  de  uma  campanha  e  devo  acrescentar  que  nunca  assisti  a
qualquer  coisa  deste  gênero.  Em  realidade,  no  máximo  em  algumas  reuniões  contentaram-se
com lembrar e comentar as ordens e manifestações oficiais de personalidades responsáveis do
governo  alemão,  bem  como  o  programa  relativo  ao  aniquilamento  dos  judeus  alemães  no
domínio econômico.


As declarações que entreguei à imprensa referem-se à minha demissão da Academia e à minha
renúncia à cidadania prussiana. Baseei minha decisão neste argumento: jamais viverei num 46
lugar onde os cidadãos suportam a desigualdade de direitos perante a lei e onde as idéias e o
ensino
dependem de controle do Estado.
Já expliquei com clareza meu ponto de vista sobre a Alemanha atual, com as massas enfermas
psiquicamente, e também expliquei minha opinião sobre as causas dessa moléstia. Em escrito
entregue,  para  fins  de  difusão,  à  Liga  Internacional  para  a  Luta  contra  o Anti-  semitismo  —
texto  não  diretamente  destinado  à  imprensa  —  eu  pedia  a  todos  os  homens  sensatos  e  ainda
fiéis  aos  ideais  de  uma  civilização  ameaçada,  que  unissem  todos  os  esforços  para  que  esta
psicose  das  massas  que  se  manifesta  na  Alemanha  de  maneira  tão  horrível  não  venha  a  se
alastrar mais ainda.
Teria sido fácil para a Academia conseguir o texto exato de minhas declarações antes de se
pronunciar  a  meu  respeito  da  maneira  como  o  fez.  A  imprensa  alemã  reproduziu  minhas
declarações  de  modo  tendencioso,  como  se  poderia  esperar  de  uma  imprensa  amordaçada
como  a  de  hoje.  Declaro-me  responsável  por  cada  palavra  publicada  por  mim.  E  espero,  já
que  ela  se  associou  a  esta  difamação,  que  leve  também  esta  declaração  ao  conhecimento  de
seus membros, bem como do público alemão, diante do qual fui caluniado. DUAS CARTAS
DA ACADEMIA DA PRÚSSIA
I
Berlim, 7 de abril de 1933
Digníssimo Sr. Professor,
Como  secretário  atualmente  em  exercício  da Academia  da  Prússia,  acuso  o  recebimento  de
sua comunicação, datada de 28 de março, pela qual pede demissão desta Academia. Na sessão
plenária  de  30  de  março,  a  Academia  tomou  conhecimento  de  sua  saída.  Se  a  Academia
lamenta profundamente esta saída, o pesar se baseia principalmente no fato de que um homem
do mais alto valor científico, cuja atividade exercida durante longos anos entre os alemães e o
fato  de  pertencer  à  nossa  Academia  deveriam  ter  integrado  na  maneira  de  ser  e  de  pensar
alemã, tenha se adaptado, atualmente e no estrangeiro, a um meio-ambiente que — certamente
e em parte pelo desconhecimento das circunstâncias e dos reais acontecimentos — se empenha
em difundir juízos errôneos e suspeitas injustificadas para prejudicar o povo alemão. De um
homem  que  por  tanto  tempo  pertenceu  a  nossa Academia,  teríamos  o  direito  de  esperar  sem
dúvida que, sem considerações sobre sua posição política pessoal, se poria ao lado daqueles
que em nossa época defendem nosso povo contra uma campanha de calúnias. Nestes dias de
suspeitas em parte escandalosas, em parte ridículas, como teria sido poderoso no estrangeiro
seu  testemunho  em  favor  do  povo  alemão.  Que,  ao  contrário,  seu  testemunho  tenha  sido
aproveitado  por  aqueles  que,  superando  a  fase  de  desaprovação  do  atual  governo,  se
consideram no direito de rejeitar e combater o povo alemão, isto nos causou grande e amarga
desilusão, que nos teria constrangido a um rompimento, mesmo que sua carta de demissão não
nos houvesse chegado às mãos.


Com nossos profundos respeitos,
von Ficker.
II
11 de abril de 1933
A Academia das Ciências comunica, a respeito, que sua declaração do dia 1° de abril de 1933
não se baseia exclusivamente nas informações da imprensa alemã, mas sobretudo nos jornais
estrangeiros,  particularmente  belgas  e  franceses,  que  o  Sr.  Einstein  não  rejeitou.  Além  do
mais, a 47
Academia veio a conhecer, entre outras coisas, sua declaração à Liga contra o Anti-semitismo,
declaração  largamente  difundida  sob  sua  forma  literal,  em  que  dirige  ataques  contra  a  volta
alemã  à  barbárie  de  tempos  de  há  muito  esquecidos. Aliás,  a Academia  verifica  que  o  Sr,
Einstein,  que,  segundo  a  própria  declaração,  não  participou  de  nenhuma  campanha,  nada
absolutamente  fez  para  contestar  as  calúnias  e  as  difamações;  no  entanto,  julgava  que  um  de
seus  membros  mais  antigos  tinha  o  dever  de  combatê-las.  Muito  ao  contrário,  o  Sr.  Einstein
fez  declarações  no  estrangeiro  que,  como  testemunho  de  um  homem  de  reputação
internacional,  foram  aproveitadas  e  deformadas  naqueles  meios  que  desaprovam  o  atual
governo alemão e contestam e condenam a totalidade do povo alemão.
Pela Academia das Ciências da Prússia,
H. von Ficker, E. Heymann,
secretários perpétuos.
RESPOSTA DE ALBERT EINSTEIN
Le Coq/Mer, Bélgica,
12 de abril de 1933
Acabo  de  receber  sua  carta  de  7  de  abril  e  deploro  imensamente  o  estado  de  espírito  que
revela.
Quanto aos fatos, eis minha resposta.
A afirmação sobre minha atitude retoma sob outra forma sua declaração anterior: os senhores
me  acusam  de  ter  participado  de  uma  campanha  contra  o  povo  alemão.  Repito  minha  carta
precedente: sua afirmação é uma calúnia. Os senhores também observam que “um testemunho”
de  minha  parte  em  favor  do  “povo  alemão”  teria  tido  imensa  repercussão  no  estrangeiro. A
isto respondo. Semelhante testemunho, como os senhores o imaginam, significaria para mim a
negação de todas as concepções de justiça e de liberdade, pelas quais me bati durante a vida
inteira. Tal testemunho, como dizem, não teria servido à honra do povo alemão, degradado e
aviltado. Não teria o lugar de honra que o povo alemão conquistou na civilização mundial. Por
um testemunho assim, nas atuais circunstâncias e mesmo de modo indireto, eu teria permitido o
terrorismo dos costumes e a aniquilação de todos os valores.
Justamente por estas razões eu me senti moralmente obrigado a deixar a Academia. Sua carta
me confirma quanta razão tenho eu em fazê-lo. CARTA DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DA
BAVIERA Munique, 8 de abril


Senhor,
Em sua carta à Academia das Ciências da Prússia, o senhor fundou sua demissão no estado de
fato reinante na Alemanha. A Academia das Ciências da Baviera, que o elegeu há alguns anos
como membro correspondente, é igualmente uma Academia alemã, em total solidariedade com
a Academia da Prússia e as outras. Por conseguinte, sua ruptura com a Academia das Ciências
da Prússia não pode ficar sem influência sobre suas relações com nossa Academia. Depois do
que se passou entre o senhor e a Academia da Prússia, queremos portanto perguntar-lhe como
encara suas relações conosco?
A Presidência da Academia das
Ciências da Baviera
48
RESPOSTA DE ALBERT EINSTEIN
Le Coq/Mer, 21 de abril de 1933
Baseei  minha  demissão  da  Academia  das  Ciências  da  Prússia  nesta  evidência:  na  situação
atual, não posso ser cidadão alemão nem me encontrar, seja de que modo for, sob a tutela do
Ministério  da  Instrução  Pública  da  Prússia.  Esta  razão  por  si  só  não  me  obrigaria  a  uma
ruptura com a Academia da Baviera. No entanto, se desejo que meu nome seja riscado da lista
dos  membros  correspondentes,  tenho  uma  outra  razão.  As  Academias  reconhecem  como
principal responsabilidade sua a promoção e a salvaguarda da vida científica de um país. Ora,
as comunidades culturais alemães, na medida em que posso sabê-lo, aceitaram sem protestos
que  uma  parte  não  pequena  de  sábios  e  de  estudantes  alemães,  bem  como  de  trabalhadores
dependentes da instrução acadêmica, tivesse sido privada da possibilidade de trabalho e até
mesmo de viver na Alemanha! Com uma Academia que tolera semelhante segregação, mesmo
por constrangimento exterior, eu jamais poderei colaborar!
RESPOSTA AO  CONVITE  PARA  PARTICIPAR  DE  UMA  MANIFESTAÇÃO  Estas  linhas
são  a  resposta  ao  convite  dirigido  a  Einstein  para  participar  de  uma  manifestação  francesa
contra  o  anti-semitismo  alemão. Analisei  cuidadosamente,  sob  todos  os  pontos  de  vista,  seu
pedido  tão  importante.  Porque  ele  me  diz  respeito  de  modo  muito  íntimo.  Recuso-me  a

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