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     estud. lit. bras. contemp



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     estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019. 

isso comigo, eu ainda estou vivo, ouviram bem? Vivo!” (Telles, 1970/2009, p. 15). E aí, de modo 

aparentemente inconsequente, diz em voz alta: 

– Ratos. 

– Que ratos? 

– Ratos, querida, ratos – disse e sorriu da própria voz aflautada. – Já viu um rato bem de 

perto? Tinha muito rato numa pensão onde morei. De dia ficavam enrustidos, mas de noite 

se punham insolentes, entravam nos armários, roíam o assoalho, roque-roque... Eu batia no 

chão para eles pararem e nas primeiras vezes eles pararam mesmo, mas depois foram se 

acostumando  com  minhas  batidas  e  no  fim  eu  podia  atirar  até  uma  bomba  que 

continuavam  roque-roque-roque-roque...  Mas  aí  eu  também  já  estava  acostumado.  Uma 

noite um deles andou pela minha cara. As patinhas são frias. 

– Que coisa horrível, Tomás! 

– Há piores (Telles, 2009, p. 15).  

Para tentar reagir ao possível adultério, o protagonista do conto evoca a presença dos ratos, 

comparando  a  suspeita  infidelidade  da  mulher  e  o  seu  caso  com  um  hipotético  amante  à  sua 

juvenil convivência com os ratos, aqui apresentados como bichos furtivos e, ao mesmo tempo, 

audazes, roendo as bases da casa e, nas entrelinhas, do casamento. 

Mais uma vez, como se vê, o rato é o emblema inquietante prenunciando o desabar do Heim 

(da “casa”, justamente), é o bicho representando aquele Unheimlich que vai invadir a intimidade 

do  lar,  denunciando  seus  inconfessáveis  segredos,  tornando  patente  seu  Heimlich.  Na  visão  de 

Freud,  a  identificação  e  interpretação  desse  “familiar  estranho”  guarda  um  valor  hermenêutico 

enorme  no  desvendamento  das  neuroses  obsessivas,  apontando  justamente  para  a  nossa 

proximidade  ou  até  intimidade  com  aquilo  que  provoca  horror  ou  medo  e  que,  uma  vez 

descoberto e analisado na sua ambiguidade, pode permitir a cura.

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 Não acompanhando até o fim 



o  raciocínio  do  pai  da  psicanálise,  eu  diria  que  Lygia,  no  primeiro  conto  de  Seminário  dos  ratos

atribui àquelas formigas nojentas e misteriosas, que aparecem de noite e somem de dia, um papel, 

embora enigmático, de re-construção de uma realidade inquietante, enquanto os  ratos do conto 

final resolvem, através da destruição, uma situação de opressão, de perturbante anomalia.  

Não  se  pode  esquecer,  de  resto,  que  se  as  formigas  têm  como  objetivo  a  reconstrução  do 

corpo  descarnado  de  um  anão  e  como,  na  produção  de  Lygia,  os  ratos  aparecem  com 

indubitável frequência, desempenhando funções diferentes, a figura do anão volta, também ela, 

várias  vezes  nas  obras  da  escritora  e,  também  neste  caso,  com  significados  desiguais.  Se,  por 

exemplo,  a  “ciranda  de  pedra”  do  homônimo  romance  acaba  por  representar  a 

impenetrabilidade  de  um  círculo  de  amigos  excluindo  ou  marginalizando  a  protagonista,  no 

conto “Anão de jardim” de A noite escura e mais eu (publicado em 1995), essa figura, balançando 

entre o freak e o trash, guarda outro significado, como a própria autora esclarece: 

Um anão de jardim para mim representa a impossibilidade de justiça, a impunidade, e a 

impossibilidade  de  liberdade.  No  conto  “Anão  de  jardim”  [...]  você  tem  o 

aprisionamento  dele  no  material  de  que  é  feito  –  pedra  –  e  como  ele  sabe  que  vai  ser 

destruído pelas picaretas, pede um corpo de verdade para Deus. Na última versão que 

dei  ao  conto,  a anão  de  jardim  pede  para  ser  transformado  numa  serpente  para poder 

picar  Pilatos  no  calcanhar  [...].  O  anão  é  um  revoltado  com  o  fato  de  Cristo  ter  sido 

condenado e os apóstolos não reagirem (Telles apud IMS, 1998, p. 37). 

Se, então, o anão de pedra pede um corpo verdadeiro para fugir à destruição da casa, o 

anão  reduzido  a  esqueleto  é  o  guardião  secreto  da  casa  maldita.  Ambos,  porém,  –  assim 

como os anões dispostos em volta na “ciranda de pedra” – são os portadores não apenas de 

uma  vontade  de  justiça e de  libertação,  mas de  uma  luz  de  verdade,  de  um apego ao real 

contradizendo,  em  aparência,  o  seu  estatuto  freakish  que  os  coloca,  justamente  pela  sua 

natureza borderline, às margens da realidade

                                                 

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 Não por acaso, no interior do seu estudo sobre Das Unheimliche, Freud menciona o caso clínico do “homem dos ratos” (publicado por ele 



em 1909, com o título Bemerkungen über einen Fall von Zwangsneurose, isto é, Observações sobre um caso de neurose obsessiva). 

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