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Seminário  dos  ratos,  a  prosa  da  escritora  esconda  segredos  que  apenas  uma  interpretação  não 

peremptória  nem  prescritiva,  mas  continuamente  reversível,  aberta  de  modo  incessante  para 

outras hipóteses hermenêuticas, pode eventualmente patentear – cientes, justamente, do caráter 

                                                 

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 Sobre a importância do humor (ou melhor, do sense of humour) e sobre o seu estatuto complexo, se pode ler também o que Telles 



escreveu em A disciplina do amor (1980, p. 22-23). 


––––––––––––    Ettore Finazzi-Agrò

 

 



estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.     

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ilusório (que, como se sabe, vem do latim  in-ludere, “brincar com (e dentro de)”, mas também, 

“zombar”,  “enganar”)  da  literatura.  A  linearidade  do  desenvolvimento  narrativo  e  o  caráter 

transparente  da  estrutura  significante  (a  “bolha  de  sabão”,  mais  uma  vez)  rebentaria,  assim, 

deixando atrás de si apenas um novelo ou uma mancha pegajosa de significados a serem sem 

fim  polidos  e  destrinçados  –  ficando  longe,  por  isso,  de  qualquer  norma  ou  gramática  da 

representação  e  se  atendo,  ainda  e  sempre,  à  perspectiva  apontada  por  Silviano  Santiago  de 

uma  sobreposição  ou  de  um  cruzamento  constantes  entre  o  “contar  direito”  e  o  “contar 

mentiroso”  que  abrem  para  um  “lugar  ficcional  híbrido  e  espaçoso”,  riscado  por  “um 

emaranhado de linhas” (Santiago, 1998, p. 102). 

A  questão  que  resta,  talvez,  é  como  conciliar  tudo  isso,  de  forma  lógica,  com  a  função 

testemunhal  que  Lygia  atribui  a  si  mesma  enquanto  escritora:  ou  seja,  se  a  assunção  de  uma 

realidade disfórica ou até trágica por parte da autora está sempre vinculada a uma “suspeita do 

avesso”,  a  uma  dimensão  discursiva  “egoísta  e  auto-suficiente”  (Santiago,  1998,  p.  102),  à 

virtualidade,  enfim,  de  uma  leitura  irônica  ou  até  bem-humorada  dos  dramas  sociais  e 

humanos, como levar a sério o seu engajamento e a sua vontade de testemunhar uma condição 

marcada  pela  desigualdade  ou  pela  incumbência  do  Fado?  Acho  que  a  resposta  só  possa  ser 

encontrada, mais uma vez, naquele entremeio entre a possibilidade de dizer uma verdade que 

não se possui (ou que não pode ser colocada em palavras) e a impossibilidade de denunciar que 

só se torna instantaneamente efetiva através da árdua e intermitente possibilidade de falar em 

nome e por conta daqueles que (já) não podem. Nessa “inseparável intimidade” entre o virtual 

e o contingente, nesse ponto ilocável onde “um possível vem a existir” se relacionando com a 

impossibilidade  (Agamben,  1998,  p.  137,  tradução  nossa),  é  que  se  coloca,  precariamente  e 

teimosamente, a testemunha, reafirmando continuamente a posição liminar do sujeito, suspenso 

entre “o que é” e “o que pode (vir a) ser”: 

Me alinhei ao lado dos humildes e descobri que não era bastante humilde para ficar junto 

deles, falsa a minha curvatura, falso o meu despojamento. Me alinhei ao lado dos fortes e 

vi que não era suficientemente forte para sustentar por mais tempo aquela arrogância [...]. 

Teria que subir acima desse rolo, pisar nele – ah, meu Deus, mas era isso o que eu queria? 

Não, também não era isso. Quis ficar só para ser verdadeira, agora queria apenas ficar só e 

então  sonhei  que  era  uma  rainha  num  coche  desgovernado  [...].  Mas  quem  me  detesta 

tanto  assim  para  me  atacar  até  no  sonho?  quis  saber  e  nesse  instante  vi  minha  imagem 

refletida no espelho (Telles, 1980, p.14). 

Acho que toda a produção de Lygia Fagundes Telles nos fala – nessa perspectiva solidária e, 

ao mesmo tempo, solitária, em que o “eu” se espelha apenas na sua angustiante e envergonhada 

incapacidade de testemunhar –, de um mundo cambaleante e incerto, onde ao escritor não resta 

senão  assumir  uma  posição  também  ela  duvidosa  e  enigmática,  expressa,  porém,  sempre 

através de uma “caligrafia firme” que nos conduz nos meandros da realidade (histórica, social, 

humana...)  exprimindo,  na  oscilação  entre  o  humor  (e  o  afastamento  irônico  a  respeito  dos 

trágicos acontecimentos por ela contados) e o amor (e a com-paixão em relação aos outros), a 

sua  escolha  de  afirmar  o  possível  através  do  impossível  (e  vice-versa),  de  encontrar  a 

pontualidade do sujeito na dispersão dos objetos que o rodeiam (e vice-versa).  

A  conclusão  nesse  sentido,  como  numa  ciranda  de  pensamentos,  não  pode  senão  remeter 

para  as  considerações  iniciais,  identificando  no  conluio  entre  a  dimensão  da  memória  e  a  da 

invenção  a  cifra  mais  evidente  da  narrativa  dessa  grande  escritora  que  é  testemunha  do  seu 

tempo  na  medida  em  que  ela  reinventa  o  real  na  rememoração  dele  –  para  o  tornar,  enfim, 

representável  em  toda  a  sua  inverossímil  verossimilhança  e  aberto  para  um  leitor  que  é 

destinatário  e  cúmplice,  na  ilusão  de  uma  ficção  que  aparenta  ser  verdadeira  e  na  de-lusão  de 

uma verdade que se mostra sempre, tragicamente ou ironicamente, fictícia. 

Daí, mais uma vez e até o fim, a pergunta tremenda e irrespondível: “A invenção fica sendo 

verdade quando se acredita nela?” 

 

 




Amor, humor e terror na ficção de Lygia Fagundes Telles    

–––––––––––– 

 




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