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contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.      17



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estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.     

17

 

A  resposta  parece  direta  e  simples,  envolvendo,  contudo,  nas  suas  dobras,  não  só  a 



complicação e a complexidade imagética do seu universo ficcional, mas também a emaranhada 

relação que a autora manteve, ao longo de toda a sua produção, com a inspiração. Se, de fato, 

“simples”  é,  etimologicamente,  aquilo  que  é  “dobrado  uma  vez”  (sym-plex),  na  simplicidade 

dessa  resposta  é  possível  entrever  a  ambiguidade  de  uma  escrita  balançando  sempre  entre 

cômico e trágico, entre liberdade e necessidade, entre, enfim, natural e sobrenatural. 

Querendo, todavia, chegar ao verdadeiro nó em volta do qual se dobra ou se enrosca a prosa 

narrativa  de  Lygia  Fagundes  Telles,  acho  que  não  podemos  senão  reportar  o  seu  trabalho 

literário  à  necessidade  constante  de  testemunhar.  E  isso,  aliás,  corresponde  ao  papel  que  a 

própria autora sente como fundamental na sua tarefa de escritora: “– Testemunhar o seu tempo 

–  respondi  a  um  jovem  que  me  perguntou  qual  é  a  função  do  escritor.  Volto  para  a  minha 

máquina de escrever e peço a Deus que me ajude” (Telles, 1980, p. 37). 

O  ofício  difícil,  concreto  e  duro  da  testemunha,  então,  se  combina  sempre  com  a 

metafísica  da  inspiração,  com  o  estado  aéreo  do  “endeusamento”,  com  o  caráter  aleatório 

do “entusiasmo”: aparentemente dois extremos que se tocam, num empenho constante em 

misturar a voz grossa e indignada de quem depõe em nome e por conta daqueles que não 

têm palavra com a voz sussurrada, soprada no ouvido pelo deus. Num importante ensaio, 

essa duplicidade é muito bem explicada: 

Lygia  Fagundes  Telles  acredita  fortemente  na  capacidade  crítica  da  literatura,  na  sua 

contínua  tentativa  de  designar  a  realidade  experienciada.  Acompanhar  sua  obra  é 

mergulhar  nos  labirintos  da  alma  humana,  mas  também  se  expor  aos  movimentos 

históricos  e  sociais,  vivenciar  o  sofrimento  das  opressões,  sentir  o  peso  dramático  das 

casualidades  a  desviar  planos  individuais,  aceitar  a  nossa  fragilidade  e  sorrir  das 

idiossincrasias de nosso comportamento (Régis, 1998, p. 88). 

E a mesma estudiosa acrescenta pouco depois: 

A literatura é o lugar do ensaio de um sujeito complexo (a entidade autor/leitor), onde ele 

fala e, ao mesmo tempo, sendo falado, ouve. Se a literatura diz algo é porque nela falam e 

dessa  fala  ela  é  testemunha.  [...]  Lygia  Fagundes  Telles  é  conduzida  pelo  desejo  de 

testemunhar  a  experiência  humana  em  seu  perene  ensaio  para  a  vida,  e a  vontade a  faz 

realizar, no discurso de invenção, a magnitude desse drama humano com tal mestria que, 

cativados, acabamos cúmplices de suas personagens (Régis, 1998, p. 91-92). 

A escritora então, instalando-se entre a voz e a escuta, se propõe como testemunha tanto 

da realidade social que a rodeia quanto da tragédia humana que nos envolve e que nos leva 

até os limites misteriosos e indecifráveis da existência. Apenas nesse entremeio, nesse limiar 

entre a denúncia “política” da opressão por parte de um Poder absurdo e incontestável (ou 

incontestável  justamente  pela  sua  absurdidade)  e  a  constatação  “passional”  (ou  seja, 

marcada  pela  com-paixão)  do  nosso  trágico,  comum  estar  no  mundo  sem  pertencer  a  ele, 

Lygia  pode  descobrir  a  fórmula  paradoxal  de  uma  escrita  que  tenta  falar  em  nome  e  por 

conta daqueles que vivem às margens da sociedade e do ser, despojados de toda dignidade 

humana, sobrevivendo na vergonha e no medo: 

Considero  o  meu  trabalho  de  natureza  engajada,  ou  seja,  comprometido  com  a  nossa 

condição  nesse  escândalo  das  desigualdades  sociais.  Quase  peço  desculpas  ao  leitor 

quando ele me faz perguntas sobre a criação literária – ah, sempre o mistério que não tem 

explicação, nem o mistério nem o ser humano. Participante deste tempo e desta sociedade, 

tento  mostrar  as  chagas  desta  sociedade  –  é  o  que  posso  fazer.  Então  fico  assim 

constrangida  quando  se  queixam,  eu  devia  passar  mais  esperança  para  o  leitor,  não? 

Pergunto  agora,  é  possível  ser  otimista  diante  de  tamanha  crueldade?  de  tamanho 

desamor?  (Telles, 2002, p. 90).  

A ficção é vista, então, como a tentativa de ficar fiel ao compromisso com “a nossa condição”, 

tanto  social  quanto  humana,  mas  ela  é  também  um  “mistério”  provocando  constrangimento  à 

escritora, ciente de que ela nunca chega a dizer plenamente o drama vivido pelos outros (pelos 

marginais, pelos esquecidos, pelos oprimidos, por aqueles que não têm voz...).   



Amor, humor e terror na ficção de Lygia Fagundes Telles    

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