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alhures,  nessa  discrepância  espaciotemporal,  nessa  hora  duvidosa,  suspensa  entre  duas 

dimensões  (o  espaço  normal  e  normativo  –  marcado  pela  hora  de  Greenwich  –  e  o  espaço-

tempo “exótico”), que se joga o destino da narrativa e da sua impenetrável verdade. Retomando 

as  considerações  de  Valéry,  enfim,  é  “na  fronteira”  que  se  sustenta  o  sonho  acordado  dos 

                                                 

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 Valéry, Paul. Cahiers, I. Paris: Gallimard, 1973, p. 1289. 




––––––––––––    Ettore Finazzi-Agrò

 

 



estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.     

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personagens de Lygia: sonho que se pode tornar pesadelo ou sublimação da realidade, ficando, 



porém,  sempre  a  meio  caminho  entre  aceitação  irônica  e  recusa  assombrada  daquilo  que  já 

aconteceu e que volta a nos perseguir como um destino inelutável.  

Nessa  situação  duvidosa,  nesse  limiar  entre  duas  dimensões  se  encontra,  por  exemplo,  o 

protagonista do conto “A mão no ombro”, ainda do Seminário dos ratos: um homem que passeia 

sem rumo num jardim silencioso e desconhecido, perseguido por uma presença misteriosa que 

ele imagina ser a própria Morte. Descobrimos a certa altura que essa cena – “como num quadro, 

com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário” (Telles, 1984, p. 119) – é, na verdade, 

apenas um sonho, mas quando o protagonista acorda ele se convence de que o pesadelo foi, de 

fato, uma premonição. Cumpre mesmo assim, para tentar afastar o medo da morte, os gestos 

costumeiros: tomar café, barbear-se, folhear o jornal, fumar um cigarro e aspirar o perfume dos 

jasmins  –  “os pequeninos  prazeres”,  “os pequeninos  objetos”  (Telles,  1984,  p.  125).  Saindo  de 

casa,  porém,  ele  vai  se  reencontrar  no  mesmo  jardim  do  pesadelo:  “Um  jardim  inocente.  E 

inquietante  como  o  jogo  de  quebra-cabeça  que  o  pai  gostava  de  jogar  com  ele:  no  caprichoso 

desenho de um bosque estava o caçador escondido” (Telles, 1984, p. 125). 

Estamos, como se vê, perto da atmosfera e do significado de “A caçada”: também aqui, temos 

uma realidade sonhada e um sonho se tornando real, num vai-e-vem entre duas dimensões que, 

na verdade, definem a estranha relação entre vida e morte. O protagonista de “A mão no ombro” 

tenta fugir – tanto na situação onírica quanto no pesadelo que vai vivenciar depois de acordado – 

desse lúgubre caçador, emblema e portador do Fim. Por isso ele procura se posicionar, ao mesmo 

tempo, dentro e fora do quadro, até ser absorvido, todavia, pela cena sonhada/vivida: 

Não  era  absurdo?  Isso  da  realidade  imitar  o  sonho  num  jogo  onde  a  memória  se 

sujeitava ao planificado. [...] Sentiu o braço tombar, metálico, como era a alquimia? Se 

não fosse o chumbo derretido que lhe atingira o peito, sairia rodopiando pela alameda, 

descobri!  Descobri.  A  alegria  era  quase  insuportável:  da  primeira  vez,  escapei 

acordando.  Agora  vou  escapar  dormindo.  Não  era  simples?  Recostou  a  cabeça  no 

espaldar  do  banco,  mas  não  era  sutil?  Enganar  a  morte  saindo  pela  porta  do  sono. 

Preciso dormir, murmurou fechando os olhos. Por entre a sonolência verde-cinza viu 

que retomava o sonho no ponto exato em que fora interrompido. A escada. Os passos. 

Sentiu o ombro tocado de leve. Voltou-se (Telles, 1984, p. 128-129). 

O tema da Morte e da sua relação misteriosa com aquilo que podemos ainda chamar de 

sonho (embora seja, mais exatamente, uma projeção fantasmática daquilo que vai realmente 

acontecer ou que já aconteceu), assume um papel importante na prosa de Lygia Fagundes 

Telles, tanto assim que ele volta num outro conto angustiante como “A fuga”, incluído em 

A  estrutura  da  bolha  de  sabão  –  onde  também  a  narrativa  que  dá  o  título  ao  volume  é 

atravessada e concluída por uma sensação de Fim iminente.  

Em “A fuga”, de fato, o protagonista que tenta fugir “daquela COISA medonha que ficara lá 

atrás”  (Telles,  1991,  p.  67),  é,  na  verdade,  alguém  que  já  morreu  e  que,  num  devaneio 

horrorizado  e  assustador,  tenta  se  afastar  do  caixão  onde  jaz  o  seu  corpo,  até  se  encontrar 

definitivamente “lá dentro”. A estrutura da bolha de sabão, de resto, é o primeiro livro publicado 

depois da morte Paulo Emílio Salles Gomes e – sem querer, obviamente, criar um espelhamento 

direto entre a experiência real da autora e a sua produção ficcional – podemos, todavia, atribuir 

ao  dado  biográfico  a  responsabilidade  de  uma  atenuação  da  ironia  ou  da  distância  com  que 

Lygia  trata  da  assuntos  relacionados  com  a  Morte.

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  Como  se  sabe,  aliás,  esta  coletânea  teve 



uma gênese bastante peculiar, visto que se a ideia de coligir alguns contos dispersos nasceu em 

1973,  a  escritora  decidiu  publicá-los  apenas  em  1978  com  o  título  Filhos  pródigos.  Quando  em 

1986 ela recebeu a tradução francesa da obra, intitulada La structure de la bulle de savon, a autora 

achou  que  esse  nome  (que  correspondia  àquele  do  último  conto  e  que  era,  aliás,  o  título 

originário do volume) era o mais adequado, acrescentando no breve prefácio da edição de 1991: 

“Há em grego a palavra Ananke: o fado. O destino. Eis que o livro acabou reaparecendo com o 

mesmo nome que lhe foi dado naquele ano remoto” (Telles, 1991, p. 7).  

                                                 

17

 O livro, de resto, é dedicado “A Paulo Emílio, que gostava das minhas ficções”.  




Amor, humor e terror na ficção de Lygia Fagundes Telles    

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