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contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.      11



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estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019.     

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Silviano Santiago, vamos encontrar sempre a arte narrativa de Lygia, adepta de uma verdade 



que não tem a ver com a Verdade absoluta, com a Verdade com maiúscula e sim com os seus 

efeitos precários, com a sua deriva que é apenas – e assombrosamente – ficção.  

De resto, muitas vezes as suas narrativas têm um desenvolvimento aparentemente linear 

que  a  certa  altura  se  suspende,  deixando  espaço  a  uma  realização  que  fica  ali  no  fundo, 

escondida  e  perversa:  ainda  uma  pergunta  sem  resposta  e  uma  resposta  escondida  no 

próprio  ato  de  perguntar.  Em  vários  momentos  da  sua  obra  Lygia,  de  fato,  nos  mergulha 

numa situação que, embora tenha ainda laivos de mistério, apresenta um caráter verossímil 

que  parece  pretender  uma  solução  lógica.  Quando,  porém,  a  tensão  narrativa  aparenta 

chegar ao seu acmé, o conto acaba, virando assim pelo avesso a lógica da narrativa policial, 

em que quando vamos descobrir o criminoso, desfazendo o seu álibi (o seu estar justamente, 

segundo a etimologia, alhures, estando, na verdade, perto do lugar do crime) e reconectando 

os  dois  planos  discursivos  (o  acontecido  que  os  personagens  contam  e  aquilo  que  de  fato 

aconteceu)  a  narrativa  acaba  (enquanto  a  leitura  é  obrigada,  às  vezes,  a  voltar  atrás,  para 

descobrir onde a verdade foi desviada, onde se encontra o engano).  

Pelo  contrário,  Lygia  coloca  a  solução  do  enigma  fora  da  cena  e  quando  a  verdade 

deveria  se  manifestar,  mergulhamos  na  dúvida.  Estou  pensando,  por  exemplo,  ao  conto 

“Meia-noite em ponto em Xangai”, incluído ainda em Antes do baile verde – coletânea, como 

se  vê,  cheia  de  pistas  para  entender  a  poética  da  escritora,  como  o  será,  depois,  também 



Seminário dos ratos. Trata-se da história de uma cantora que, depois de um concerto muito 

bem-sucedido na China, se espelha nua na casa de banho antes de mergulhar na banheira. 

Da  própria  banheira  chama  em  voz  alta  um  servidor  chinês  para  que  lhe  traga  o  seu 

cachorro,  mostrando-se  sem  vergonha  ao  jovem  criado.  Depois  dessa  cena  em  que  se 

acumula  uma  evidente  tensão  erótica,  a  cantora  veste  a  bata  e  sai  da  casa  de  banho  para 

atender ao seu agente que acaba de entrar no apartamento. Ela recebe com displicência os 

elogios exagerados do seu amigo e quando ele, num tom malicioso, afirma que ele desejaria 

“ser esse escravo para de vez em quando levar a toalha à madame”, ela responde: 

Não queira ser isso, meu caro... Esse chinês não existe. Pode me ver nua, pode me ver 

de  qualquer  jeito,  tanto  faz,  para  mim  ele  não  existe.  Não  sei  explicar,  mas  não  o 

considero realmente como gente. É como esta poltrona, este copo, esta almofada... Ou 

melhor, é como um bicho. Não me dispo diante do meu pequinês? É bom assim, fico 

tão à vontade (Telles, 2009, p. 86-87). 

Diante  dessas  afirmações  desumanas,  equiparando  o  sujeito  a  um  simples  objeto  ou  a  um 

animal,  poderíamos  esperar  uma  reação  violenta  por  parte  do  “escravo”,  acrescentando  à 

tensão erótica o desejo de vingança e a reafirmação da sua identidade viril.   

Temos  assim,  preparada  de  modo  essencial,  a  cena  do  crime,  provida,  aliás,  daqueles 

prenúncios  que  são  típicos  do  romance  policial  e  que  transparecem,  por  exemplo,  nesse 

diálogo entre a cantora e o seu agente: 

– 

Stevenson, você disse que a perfeição dura um minuto... 



– 

Shakespeare, madame, Shakespeare. 

– 

Tenho medo de ter alcançado já o meu minuto (Telles, 2009, p. 88). 



Estamos, em suma, à véspera de um desfecho brutal, acabando com a perfeição corporal e 

canora  da  mulher.  Com  efeito,  depois  de  se  ter  despedido  do  agente  e  de  ter  ordenado  ao 

servidor  chinês  de  apagar  todas  as  luzes  do  quarto  e  de  avisar  na  portaria  de  não  perturbar 

durante toda a manhã seguinte, ela se estende “molemente” numa poltrona. Na penumbra do 

apartamento, todavia, ela ouve ruídos sinistros e, assustada, exclama: 

– Wang, deixe de ser idiota e saia imediatamente, está me ouvindo? Vamos! Saia! 

O silêncio era agora tão compacto que os ruídos da rua já não conseguiam penetrá-lo. O 

cachorro  rosnou  mais  uma  vez,  lambendo  a  pata.  A  mulher  foi  se  encolhendo,  agarrada 

aos braços da poltrona. Cravou o olhar esgazeado no retângulo negro do céu. Encolheu-se 



Amor, humor e terror na ficção de Lygia Fagundes Telles    

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