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     estud. lit. bras. contemp



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     estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 56, e562, 2019. 

movimentando  entre  factum  e  fictum,  em  suma,  o  autor  atua  num  âmbito  em  que  a  criação  é 

sempre re-criação do lido ou do vivido, memória dentro da invenção, mais uma vez, e vice-versa. 

É  possível  evocar  a  propósito  de  “A  caçada”,  embora  se  deslocando  longe  do  contexto 

expressivo  e  temporal  do  conto  de  Lygia  e  se  colocando  numa  perspectiva,  por  assim  dizer, 

inversa,  um  filme  como  The  Purple  Rose  of  Cairo,  em  que  um  ator  sai  da  tela  entrando  na 

realidade,  mas  o  intuito  ideológico  e  o  clima  psicológico  do  texto  são  totalmente  outros 

daqueles do filme de Woody Allen – e, de resto, a narrativa acaba de forma bem mais trágica: 

Comprimiu as palmas das mãos contra a cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o 

suor que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado. Abriu a boca. E lembrou-

se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor! 

“Não...”,  gemeu  de  joelhos.  Tentou  ainda  agarrar-se  à  tapeçaria.  E  rolou  encolhido,  as 

mãos apertando o coração (Telles, 2009, p. 72). 

Essa  morte  sem  porque,  essa  morte  absurda  e  irracional,  colocada  ainda  dentro  e  fora  do 

quadro  (o  homem  tenta  se  agarrar  à  tapeçaria  dentro  da  qual  ele  já  está,  de  fato,  incluído), 

parece a conclusão de um pesadelo não fosse o fato de que ele já tinha passado por um pesadelo 

em  que  se  via  morrer,  dessa  vez  preso  numa  rede,  no  fundo  de  um  fosso  onde  se  mexiam 

“serpentes  enleadas  num  nó  verde-negro”  (Telles,  2009,  p.  71).  O  sonho,  portanto,  antecipa 

aquilo que vai acontecer de verdade, numa verdade que parece um sonho. 

A  lógica  do  conto,  nesse  sentido,  remete  para  si  mesma,  num  circuito  de  “réplicas”  e  de 

“(auto)citações”,  para  usar  os  termos  de  Virno,  em  que  o  tempo  fica  preso  numa  espécie  de 

eterno  retorno.  E  nesse  círculo  (ou  ciranda)  sem  saída,  aquilo  que  parece  aflorar  é  uma  certa 

ideia  de  literatura  ou,  mais  em  geral,  do  fazer  artístico  que  conota  a  produção  de  Lygia 

Fagundes  Telles: a  hipótese que entre escrita e vida  – e entre a fronteira última da escrita e a 

instância  mortal  –  não  existem  distinções  nítidas,  mas  confins  porosos,  como  fluidos  são  os 

limiares entre o sonhar e o acordar, entre loucura e lucidez, entre aquilo que está fora do quadro 

(ou  da  tapeçaria)  e  aquilo  que  está  dentro  dele.  Como  Silviano  Santiago,  mais  uma  vez, 

esclareceu: “Na criação literária de Lygia, a escrita da memória e o texto da literatura confluem 

aflitivamente para o lugar entre, aberto pelo contar direito e o contar mentiroso, para a brecha 

ficcional, abrigo e esconderijo do narrador” (Santiago, 1998, p. 100). 

Citando, aliás, justamente “A caçada”, o grande crítico e escritor mineiro acrescenta que: 

A  voz  narrativa  ganha  peso  ao  oscilar  entre  a  verdade  e  a  mentira,  a  memória  e  a 

imaginação, o feminino e o masculino, a sanidade e a loucura, o humano e o animal. Ela 

muitas  vezes  se  deixa  contaminar  por  uma  segunda  narrativa,  exterior  a  ela  [...].  Na 

contaminação, perfazem as duas vozes narrativas uma única. Tudo o que é uno é duplo, 

tudo o que é duplo é uno, daí o gosto pelas ambiguidades (Santiago, 1998, p. 100-101). 

O gosto, eu diria talvez, pelo neutro, ou seja, por aquilo que (segundo a etimologia) não é 

nem uma coisa nem a outra e é as duas coisas ao mesmo tempo: é este o âmago da poética de 

Lygia,  nos  seus  embates  com  uma  realidade  que  não  a  satisfaz  e  com  um  sonho  que  fica 

sempre suspenso no território à parte do inconsciente. 

Misturar  as  duas  dimensões  significa  produzir  textos  que  não  podem  ser  rotulados  nem 

como  totalmente  realistas  nem  como  puramente  fantásticos,  mas  que  tecem  e  retecem  o  véu 

transparente  sob  o  qual  se  esconde  e  se  revela a  verdade  peculiar  da  ficção.  “A  invenção  fica 

sendo verdade quando se acredita nela?” pergunta-se a escritora, numa entrevista concedida a 

Edla  van  Steen  (Santiago,  1998,  p.  100),  se  e  nos  colocando  uma  questão  sem  resposta,  ou 

melhor, cuja resposta está dobrada na própria pergunta. A autonomia da arte fica presa nessa 

argamassa, nesse espaço pegajoso e neutro que não tem saída ou cuja única saída possível é, por 

um lado, o abandono ao devaneio puro e, pelo outro, a entrega a um impuro realismo: embora a 

escritora tenha, de vez em quando, experimentado esses extremos, acho, todavia, que aquilo em 

que ela sempre tem acreditado é o valor de verdade (de veridicidade e de verificabilidade) que 

a  ficção  possui  e  a  possibilidade  que  toda  verdade  tem  de  se  revelar  pela  vertente  ficcional. 

Nesse entremeio que se abre entre o “contar direito” e o “contar mentiroso”, mencionado por 


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