Ciencias (História das)


História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)



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História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)                    
                                                
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embora o seu exemplo tenha  sido responsável por um determinado magistério de 
influência. Bento de Jesus Caraça, que assistiu às suas aulas e por ele foi convidado para 
assistente, foi um dos tocados por esta acção influenciadora, acção que também se 
estendeu a Ruy Luís Gomes, o que é atestado pela escolha dos seus temas de trabalho. Mas 
a presença de Ruy Luís Gomes numa Faculdade de Ciências, ensinando Física Matemática, 
dava-lhe, à partida, melhores condições para chamar à colaboração na sua investigação 
professores e alunos; e é isso que vai acontecer.  
No domínio da Física, a investigação era inexistente, contudo o Laboratório de 
Física da Faculdade de Ciências de Lisboa procurou junto da JEN apoio financeiro para 
garantir a actividade dos bolseiros então regressados. O depoimento do primeiro bolseiro 
doutorado no estrangeiro, e docente deste laboratório, Manuel Valadares, ao retomar a sua 
actividade, é muito expressivo da situação vivida: 
«(...) voltei com a convicção de que era preciso criar entre nós a investigação 
científica no domínio da Física. Ela nunca tinha existido entre nós, à parte alguns 
casos esporádicos realizados mais com objectivo de satisfazer imposições legais do 
que como consequência de um desejo, de uma necessidade cultural (...) Voltando ao 
País com esta convicção de que me deveria entregar à obra de criar, ou contribuir 
para criar um Centro de Investigação em Física, estava naturalmente indicado fazê-
lo na escola onde era assistente. Aqui não havia, de facto, material algum que 
servisse para trabalhar no domínio onde me especializara, nem quase havia lugar 
para trabalhar. Eu já vinha, aliás, preparado para me deparar em tal situação e não 
sofri por isso desânimo algum; era preciso começar-se fosse em que condições 
fosse: começou-se. Basta dizer-lhe que a primeira instalação que montei foi toda (à 
exclusão duma velha bobina que tinha sido pertença do colégio de Padres de 
Campolide...) com material emprestado. Alguns meses depois desta instalação estar 
a funcionar alguém me sugeria a possibilidade de ir como professor auxiliar para 
Coimbra; recusei: tinha encetado uma obra e queria levá-la até ao fim. O trabalho 
foi prosseguindo com o apoio de algumas boas vontades e a hostilidade mais ou 
menos disfarçada de outros (...)». (Carta de Manuel Valadares para Ruy Luís Gomes, 
in SALGUEIRO, 1978: 3) 
Importa aqui reter, da parte de Valadares, esta ideia de investigação «como 
consequência de um desejo, de uma necessidade cultural», bem ao contrário da atitude mais 
frequente daqueles professores que faziam trabalhos esporádicos, necessários para 
satisfazer as imposições de uma carreira, um trabalho que jamais poderia alimentar uma 
actividade de pesquisa continuada. Em Valadares, este «desejo» e «necessidade cultural», 
era, sob o ponto de vista pessoal, a vontade interior de se dedicar à investigação, de tomar 
esta actividade como o seu modo de vida. O espírito de alguns bolseiros regressados 
coincidia com o espírito  manifestado por Valadares: afastavam-se das necessidades 

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