Ciencias (História das)


História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)



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História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)                    
                                                
[211] 
 
Em princípios de 1616 Galileu estava em Roma na tentativa de evitar a 
condenação da doutrina coperniciana. Contudo a 5 de Março deste ano a Sagrada 
Congregação colocou no index dos livros proibidos todos aqueles que mencionassem o 
movimento da Terra e localização fixa do Sol, a interdição é o destino do 
De Revolutionibus 
Orbium Caelestium. Antes desta data, o cardeal Bellarmino, responsável pelas decisões do 
papado em matéria de fé, convocou Galileu pessoalmente para lhe dar a conhecer as 
deliberações da igreja, fazendo-lhe saber que  a doutrina coperniciana podia ser aceite a 
título de pura hipótese astronómica (este seria o objectivo de Copérnico). Esta teoria era 
considerada como  um artifício matemático, destinado a «melhor explicar as aparências 
celestes», mas Galileo devia abster-se de «afirmar absolutamente» e verdadeiramente que a 
Terra se move em torno do Sol.  
Galileu retorna a Florença trazendo na bagagem a interdição de defender e 
ensinar o Sistema Coperniciano.  
O aparecimento de três cometas em Agosto de 1618 propiciou ao Padre Grassi 
a elaboração de uma obra na qual defende a teoria de Tycho Brahe
10
, propondo uma 
determinada tese para a explicação do brilho destes astros.  Galileu abre uma polémica com 
o seu 
Discorso sulle Comete, onde, defendendo uma hipótese diferente, admitindo 
implicitamente, e de um modo bastante criptográfico, o sistema coperniciano. É 
importante acentuar que o pano de fundo desta prolixa e inconclusiva polémica reside na 
disputa entre os diferentes sistemas cosmológicos. A obra com que Galileu termina a sua 
intervenção nesta polémica é
 O Saggiatore (O Ensaiador), publicada em 1623 sob a égide da 
Academia dei Lincei
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 e dedicada ao cardeal Maffeo Barberini que em 10 de Agosto desse 
mesmo ano sob ao pontificado como Urbano VIII. 
O Ensaiador é a obra de Galileu mais 
pobre quanto ao conteúdo científico, não tem o valor da novidade do 
Sidereus  nas 
descobertas astronómicas, nem o valor doutrinário dos 
Diálogos na defesa do novo sistema, 
nem a importância teórica dos 
Discursos no enunciado das leis do movimento.  
Embora nesta obra o tema central seja a natureza dos  cometas que Galileu, 
erradamente, assumia como um fenómeno óptico e não como um objecto físico, as suas 
paginas contêm considerações cujo valor filosófico é inquestionável.  É o que se passa com 
o conceito de matéra, assumindo Galileu, em clara oposição aos  aristotélicos, que os 
atributos da matéria ou substância são caracterizados geométrica e mecanicamente.  Para os 
antigos, as propriedades da matéria eram definidas pelas sensações provocadas, o cheiro, o 
sabor e a cor definiam as qualidades dos corpos com base nos quais eles eram estudados. 
Galileu afirma sem rebuço que estas propriedades não eram inerentes às substâncias, mas 
dependiam efectivamente do observador, elas não residiam nos corpos observados, mas no 
corpo sensitivo. Nesta objecção de Galileu está implícita a necessidade de uma nova 
linguagem para descrever a natureza: os objectos físicos são descritos pelas suas 
propriedades geométricas e mecânicas cujos termos apropriados a usar são o número, a 
distância, o movimento. Galileu defende com o calor habitual que coloca nas suas 
polémicas a concepção atomista da matéria sem jamais recorrer ao termo átomo, mas 
referindo-se a «corpúsculos infímos»
12
Foi no 
Saggiatore que Galileu avançou com a sua 
                                                           
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 O cometa de 1577 e as considerações que em torno deste objecto celeste, foram feitas por Tycho Brahe. 
11
 Academia fundada em 1603 por Frederico Cesi com o objectivo de estudar, sem dissertações retóricas, os 
fenómenos naturais; por convite, Galileu integra-a no ano de 1611 (?).  
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 ROSSI, P.,1999, 
La Naissance de la Science Moderne, Paris, Ed. du Seuil, p.141.  

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