Ciencias (História das)


História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)



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História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)                    
                                                
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A sua «autorização de residência» terminará, ou não será prorrogada, no dia 31 de 
Julho de 1942 (C-430608) e, a partir desse dia,  Guido Beck encontra-se efectivamente na 
condição de refugiado, um cidadão em fuga e em trânsito por Portugal, com destino a um 
outro país de acolhimento, a Argentina, onde já tinha um emprego à sua espera. De uma 
situação razoável, a vida portuguesa de Beck  passou a uma situação deveras periclitante, 
pois caso não tivesse o visto do país de destino, com a respectiva passagem já prevista
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, era 
expulso, isto é, mandado de volta  para a França ocupada. A partir de Agosto assiste-se à 
preocupação de Beck  em conseguir o visto para a Argentina (C-420808), o seu país de 
acolhimento e, simultaneamente, não só em procurar apoio financeiro (C-420910) para o 
pagamento da viagem num dos raros navios que a faziam
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, como angariar fundos que lhe 
permitissem, enquanto aguardava o embarque, subsistir.  
Sublinhe-se que as características da sua personalidade o impedem de cair em 
atitudes de prostração ou desânimo. Enquanto espera os documentos trabalha com os seus 
orientandos em Sintra (C-420916) e, aproveitando o maravilhoso cenário natural desta vila, 
dá longos passeios (C-430800?); e, apesar da sua instabilidade, faz todos os esforços para 
encontrar uma solução para a situação difícil em que estava Aniceto Monteiro (C-421207; 
C-421214; C-430128), contri-buindo decisivamente para a sua resolução (C-440412; C-
450700?). É exemplo desta serenidade, e dum sentido de humor que sempre o 
acompanhou, a carta que do Aljube escreve a Bento de Jesus Caraça (C-430221).  
Sem antecipar quaisquer conclusões, é importante que se frize dois outros traços 
marcantes do carácter de Beck, realçados pelas condições adversas em que viveu em 
Portugal desde Agosto de 1942 até à sua partida: o seu espírito de missão, missão científica, 
e a sua disponibilidade em contribuir de um modo activo para resolver situações de 
injustiça ou perseguição em que se encontravam outros cientistas. Aquele espírito de que 
estava imbuído era de tal forma forte que, mesmo relativamente mal tratado pelas 
instâncias oficiais do Estado Português, o leva a prestar contas de uma forma detalhada, 
junto do IAC, da sua missão em Portugal (C-430129a,b), recebendo, já na Argentina, uma 
resposta lacónica da parte desta instituição (C-430408). Quanto aos esforços a que não se 
                                                           
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 «(...) Em regra, até chegarem a Portugal, os refugiados necessitavam de um visto de saída da Alemanha ou 
dos países ocupados, outro de entrada na “zona livre” francesa, um visto de trânsito espanhol, outro visto de 
trânsito português, um visto de entrada no país de destino, sujeito a quotas, e a passagem aérea ou marítima 
para o “Novo Mundo”» (PIMENTEL, 1995). 
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 «(...) as capacidades de transporte de passageiros civis por barco no Atlântico tinham-se tornado precárias, 
depois de os americanos terem cancelado em 1940 o tráfego marítimo civil transantlântico e somente 2 
barcos espanhóis, 1 argentino e 1 chileno manterem a ligação entre a Europa e o Novo mundo (…)» 
(MÜHLEN, 1995). 

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