Ciencias (História das)


História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)



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História e Filosofia da Ciência (colectânea de textos)                    
                                                
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aventurosa porque a sua presença foi objecto de alguma atenção por parte da PIDE, 
chegando a estar preso, durante três dias, de 21 a 23 de Fevereiro de 1943 (ou de 25 a 27), 
no Aljube por motivos, ousamos classificá-los, «kafkianos» (C-430608). 
Guido Beck  chega a Coimbra, não como um  refugiado judeu  de um país 
ocupado pelos nazis, mas como um professor de Física que vem dar lições na Universidade 
de Coimbra, «pour un bref séjour d’études à l’Université de Coimbra» (BECK, 1943a). 
Além de ser portador de um visto de entrada em Portugal, obtido num consulado em 
França (Lyon), está munido de uma «autorização de residência» temporária que tanto 
quanto se sabe era, inicialmente,  de seis meses(C-430608). Beck procurara este país por 
duas razões: pela sua neutralidade no conflito que assolava a Europa, poderia dar 
continuidade aos seus trabalhos, e também porque alimentava, muito provavelmente, a 
secreta esperança de aqui permanecer, o que constituiria um meio de conseguir pôr a salvo 
da Checoslováquia a sua mãe que, como se verificará pelas referências nas suas cartas, 
acabará deportada e morta num campo de concentração nazi (C-421214). Em Maio de 
1942, sentia que a sua situação era razoável: podia trabalhar em Coimbra e já conseguira um 
«permanent job» na Argentina (HAVAS, 1995, 31); restava-lhe aguardar pela sua mãe… 
É evidente que, embora a sua qualidade de cidadão fosse diferente da de milhares 
de refugiados que passavam pelo país, na prática as coisas iam dar ao mesmo. Portugal 
vivia na época o grande fluxo de judeus fugidos dos países ocupados
27
. Este movimento 
que já começara, embora em menor escala, em 1933,  assumira uma dimensão sempre 
crescente de tal modo que o governo, já a partir de 1938, desencorajava  estes cidadãos de 
permanecerem em solo português (MÜHLEN, 1995); assim, nestas condições, para Guido 
Beck eram muito baixas as hipóteses de continuar em Portugal com um contrato «precário» 
de professor, embora Mário Silva o tenha tentado (C-420607)
28
.  
                                                                                                                                                                          
1952. É interessante sublinhar que Corino de Andrade «estava a sofrer uma perseguição política com prisão 
quando o artigo foi publicado» (
in BARRETO e MÓNICA, 1999, vol-VIII:  440).   
27
 «(...) dos 100000 refugiados, que até ao Verão de 1944 atravessaram os países ibéricos, cerca de 40000 terão 
entrado em Portugal até Fevereiro de 1941. Devido ao forte fluxo por um lado, e devido ao atraso na saída 
por causa da guerra no mar, terão permanecido só em Lisboa, nos finais de 1940, 14000 pessoas estrangeiras» 
(MÜHLEN, 1995) 
28
 Relembre-se a título de exemplo, e como caso excepcional que «em 1937, o Prof. Pulido Valente obteve de 
Salazar ao qual, aliás, se opunha politicamente, a permissão para o preenchimento da cátedra de Anátomo-
patologia —inexistente em Portugal— pelo Prof. Wohlwill, um médico judeu alemão» (PIMENTEL, 1995). 
Este anatemo-patologista, cujo trabalho foi importantíssimo para a medicina portuguesa, chegou a 
naturalizar-se português para entrar nos quadros do Instituto Português de Oncologia, mas este facto 
implicou que «perdeu condições de trabalho e viu diminuir o salário que até aí recebia como cidadão 
estrangeiro (…) emigrou para os Estados Unidos da América onde veio a falecer»  (
in  BARRETO e 
MÓNICA, 1999, vol-VIII:  439).  

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