Chartier, Roger



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Resenha do livro - A história ou a leitura do tempo de Roger Chartier. Tradução de 

Cristina Antunes. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. 

 

 

 



 

 

 



 

           Rodrigo Gomes de Araújo



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Palavras-chave: historiografia, crise da história, história contemporânea  

Keywords: historiography, crisis in history, contemporary history 

 

Fruto  das  pesquisas  de  Roger  Chartier  sobre  as  mutações  da  disciplina  da 

história, realizadas desde o final dos anos de 1980,  A história ou a leitura do tempo 

apresenta um panorama da historiografia nas três últimas décadas. O ensaio aborda os 

principais  debates  recentes  da  disciplina  da  história,  desde  seu  estatuto  de  verdade, 

passando  por  sua  aceitação  social,  a  difícil  relação  entre  história,  memória  e  ficção, 

até  o  surgimento  do  livro  digital  e  as  novas  formas  de  apresentação  do  texto 

historiográfico. Desde seu primeiro livro publicado no BrasilA história cultural entre 



práticas e representações (1990) e seu célebre artigo “O mundo como representação”, 

publicado na revista dos Annales em 1989, o historiador vem se mostrando atento às 

reflexões teórico-metodológicas da disciplina. Em estudos posteriores, o autor buscou 

aliar a crítica textual à história do livro e da cultura, além estudar o recente impacto da 

cultura digital sobre a tradição escrita.  

Em  A  história  ou  a  leitura  do  tempo,  Chartier  tem  como  objetivo  discutir  a 

suposta “crise da história”. O ensaio se fundamenta nas questões postas por três livros 

seminais, publicados na década de 1970, que questionavam o estatuto de verdade da 

historiografia:  Como  se  escreve  a  história  (1971)  de  Paul  Veyne,  Meta-história 

(1973)  de  Hayden  White  e  A  escrita  da  história  (1975)  de  Michel  de  Certeau

1

.  As 


questões  suscitaram  grande  debate,  que  tinha  por  um  lado  a  defesa  da  disciplina  da 

história enquanto uma ciência produtora de verdade, e por outro como uma narrativa 

embasada métodos ficcionais.  

Só  o  questionamento  dessa  epistemologia  da  coincidência  e  a 

tomada  de  consciência  sobre  a  brecha  existente  entre  o  passado  e 

sua  representação,  entre  o  que  foi  e  o  que  não  é  mais  e  as 

construções  narrativas  que  se  propõem  ocupar  o  lugar  desse 

passado  permitiram  o  desenvolvimento  de  uma  reflexão  sobre  a 

história,  entendida  como  escritura  sempre  construída  a  partir  de 

                                                 

 

1



- Mestrando em História pela UFPR. 

2

 Estas são as datas de publicação original dos três livros, no Brasil foram publicados em 1998, 2008 e 



1994, respectivamente. 


figuras  retóricas  e  de  estruturas  narrativas  que  também  são  as  da 

ficção (p. 12).  

 

O  debate  inclui  o  italiano  Carlo  Ginzburg,  que  recorre  aos  conceitos  de 



Aristóteles para esclarecer que retórica e prova são indissociáveis, de modo que para o 

historiador,  a  historiografia  possui  uma  verdade  específica  pautada  nos  vestígios  do 

passado.  Michel  de  Certeau  apresenta  postura  similar,  segundo  ele,  para  que  o 

discurso  histórico  possua  credibilidade  há  a  necessidade  de  se  buscar  referências  no 

passado, como a citação das fontes. Para de Certeau, historiografia é, a um só tempo, 

narração e ciência, conhecimento e relato.  

De acordo com Chartier, as instituições e técnicas que norteiam a disciplina da 

história  devem  ser  consideradas  em  seus  contextos  específicos.  E  fazendo  uso  da 

sociologia  de  Pierre  Bourdieu,  o  autor  salienta  que  existem  leis,  determinações  do 

campo  que  ditam  o  que  é  ser  historiador,  “a  “instituição  histórica”  se  organiza 

segundo hierarquias e convenções que traçam as fronteiras entre os objetos históricos 

legítimos e os que não o são e, portanto são excluídos ou censurados” (p. 18). Deste 

modo é que no fim da década de 1990 o lugar social da história entra em questão e se 

torna preciso saber como as sociedades a interpretam.  

Atualmente a disciplina da história não é vista como a única forma de relação 

com o passado, há ainda a memória e a ficção. Em um amplo estudo, Paul Ricoeur se 

dedicou  a  analisar  as  diferenças  entre  memória  e  história.  Para  ele,  a  historiografia 

tem  um  compromisso  de  busca  da  veracidade,  enquanto  a  memória  costuma  ser 

entendida  como  se  fosse  naturalmente  verdadeira.  Em  A  memória,  a  história,  o 

esquecimento,  Ricoeur  distingue  o  trabalho  historiográfico  em  três  fases  distintas:  o 

estabelecimento  da  prova  documental,  a  construção  da  explicação,  e  a  apresentação 

em  forma  literária.  Mas,  salienta  Chartier,  “A  epistemologia  de  verdade  que  rege  a 

operação  historiográfica  e  o  regime  de  crença  que  governa  a  fidelidade  da  memória 

são  irredutíveis,  e  nenhuma  prioridade,  nem  superioridade  pode  ser  dada  a  uma  à 

custa da outra” (p. 24).  

A  respeito  da  relação  da  ficção  com  o  passado,  o  historiador  nos  diz  que  a 

escola do Novo  Historicismo nos permite perceber que determinadas obras literárias 

formaram representações coletivas do passado, que muitas vezes são mais eficientes 

que  a  narrativa  historiográfica.  É  o  caso  de  certas  obras  de  Shakespeare,  que 

remontam  a  história  inglesa.  Recentemente,  a  ficção  se  apropriou  de  métodos  da 



disciplina histórica, como o uso de fontes e a referenciação, isso dificulta ainda mais a 

distinção.  Entretanto,  Chartier  nos  alerta  que  em  meio  a  construções  identitárias  é 

necessário  estabelecer  critérios  de  verdade  histórica,  para  evitarmos  distorções  e 

construções ficcionais.  

Discutindo os estudos culturais, o autor destaca que apesar de ser a área com 

maior número de pesquisas atualmente, o campo da história cultural é bastante difícil 

de ser delimitado devido às múltiplas concepções de cultura.  

Conforme  suas  diferentes  heranças  e  tradições,  a  história  cultural 

privilegiou  objetos,  âmbitos  e  métodos  diversos.  Enumerá-los  é 

uma  tarefa  impossível.  Mais  pertinente  é,  sem  dúvida,  a 

identificação  de  algumas  questões  comuns  a  esses  enfoques  tão 

distintos (p. 35).     

   

Na história do livro, por exemplo, há dois grandes modelos interpretativos, o 



primeiro se relaciona ao modo de apropriação e recepção das obras, a forma como são 

lidas  pelas diferentes sociedades.  Outro modelo  se refere  à materialidade do texto, a 

comparação de diferentes edições. Pois a produção de um livro, inclusive sua escrita, 

é  um  processo  coletivo,  sujeito  a  uma  série  de  balizas  contextuais.  Além  disso,  a 

materialidade do texto, o estudo de seu suporte é fundamental para sua compreensão. 

A  comparação  de  publicações  distantes  no  tempo  e  de  suas  apropriações  revelam  a 

importância dos códigos culturais de contextos específicos.        

Também a controversa relação entre o popular e o erudito sempre foi um dos 

focos da história cultural. Chartier destaca novamente dois modelos de interpretação: 

um  no  qual  o  popular  é  visto  como  autônomo  e  independente  das  elites,  e  outro  no 

qual  o  popular  depende  do  erudito.  Para  o  historiador,  deve-se  buscar  distinções 

menos categóricas, e uma das soluções está nas apropriações que as sociedades fazem

construindo suas próprias representações.     

Mas  o  grande  desafio  da  história  cultural  é  pensar  a  articulação  entre  os 

discursos e as práticas, os meios de produção e a recepção, pois além do discurso, é 

necessário pensar nas condições e possibilidades de cada contexto.  

O objeto fundamental de  uma história que se propõe reconhecer a 

maneira  como  atores  sociais  dão  sentido  às  suas  práticas  e  a  seus 

enunciados  se  situa,  portanto,  na  tensão  entre,  por  um  lado,  as 

capacidades  inventivas  dos  indivíduos  ou  das  comunidades  e,  por 

outro, as restrições e as convenções que limitam – de maneira mais 



ou  menos  clara  conforme  a  posição  que  ocupam  nas  relações  de 

dominação – o que lhes é possível pensar, dizer e fazer (p. 49).  

 

Chartier  enfatiza  a  importância  do  conceito  de  representação  para  a  história 



cultural,  pois  através  dele  é  possível  vincular  as  posições  e  relações  sociais  com  o 

modo pelo qual os indivíduos percebem a si mesmos e aos outros.  

Outra  discussão  atual  da  historiografia  destacada  por  Chartier  diz  respeito  à 

fragmentação  temática  das  pesquisas.  Durante  os  anos  2000,  a  micro-história 

mostrou-se predominante. A resposta crítica foram os projetos de história global e de 

história comparada, protagonizados pelos alemães Reinhardt Koselleck e Jörn Rüsen. 

Mas  a  questão  de  como  fazer  um  estudo  de  caráter  global  ainda  não  encontrou 

respostas que possam definir o projeto enquanto história global.   

De  acordo  com  Chartier,  possivelmente  a  maior  transformação  na  forma  de 

apresentação  da  historiografia  e  na  relação  entre  o  leitor  e  o  texto  se  deve  à 

informática.  A  textualidade  eletrônica  permite  ao  leitor  ter  acesso  às  mesmas  fontes 

que o autor, podendo questionar a pesquisa. 

Ao  permitir  uma  nova  organização  dos  discursos  históricos, 

baseada  na  multiplicação  de  relações  hipertextuais  e  na  distinção 

entre  diferentes  níveis  de  texto  (do  resumo  das  conclusões  à 

publicação  de  documentos),  o  livro  eletrônico  é  uma  resposta 

possível, ou ao  menos apresentada como tal, à crise da edição nas 

ciências humanas (p. 61-62).  

 

Mais que uma resposta à crise, o livro digital pode significar uma alternativa 



para  a  publicação  de  obras  rejeitadas  pelas  editoras  devido  à  falta  de  interesse 

comercial.  Mas Chartier destaca que se trata de uma tecnologia bastante nova e ainda 

teremos de nos habituar a ela, sem sabermos se irá superar o livro tradicional.  

Chartier  conclui  seu  ensaio  dissertando  sobre  a  história  ser  uma  ciência  que 

articula  diferentes  tempos.  Sobretudo  desde  Fernand  Braudel,  vemos  que  os  estudos 

historiográficos  devem  relacionar  curta,  média  e  longa  duração.  Mas  não  devemos 

esquecer  que  esta  relação  temporal  é  uma  construção  feita  por  nós  mesmos,  assim 

como os sentidos que atribuímos ao passado. 

O  livro  nos  traz  um  interessante  panorama  da  historiografia  recente,  e  as 

principais  polêmicas  enfrentadas  pela  disciplina.  Chartier  consegue  realizar  uma 

síntese  dos  caminhos  traçados  no  campo  da  história  nos  últimos  trinta  anos. 



Entretanto há que se destacar que o historiador enfatiza alguns pontos em detrimento 

de  outros,  como  quando  discute  as  correntes  interpretativas  da  história  cultural, 

destaca  os  estudos  referentes  à  história  do  livro,  deixando  de  lado  outros  objetos 

também  característicos  da  abordagem  cultural,  como  a  música,  o  audiovisual  e  as 

artes  plásticas,  por  exemplo.  Além  disso,  enfoca  a  importância  dos  conceitos  de 

representação  e  apropriação,  concepções  das  quais  ele  próprio  é  um  dos  principais 

representante. Chartier deixa de mencionar importantes correntes de pesquisa como o 

contextualismo linguístico de Quentin Skinner e John Pocock, a história social alemã, 

em especial a história dos conceitos de Reinhardt Koselleck, e o atual destaque que os 

estudos  biográficos  vêm  apresentando  na  historiografia.  Contudo,  mesmo  que  o 

historiador  destaque  alguns  aspectos  que  julga  mais  relevantes  da  histografia  atual, 

deixando  outros  de  lado,  seu  ensaio  é  bastante  esclarecedor  e  consegue  sintetizar  os 

desafios atuais enfrentados pela historiografia.    

 

Referências 

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Tradução de Cristina Antunes. 

Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.  

   


 

 

 





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