Carlos Bastien Os primeiros leitores portugueses de Marx economista



Baixar 334.66 Kb.
Pdf preview
Página1/22
Encontro23.06.2021
Tamanho334.66 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


Carlos Bastien 

 

 



Os primeiros leitores portugueses de Marx economista 

1.  As primeiras referências à obra de Marx 

 

As revoltas populares que alastraram em quase toda a Europa em meados do século XIX e, sobretudo, a 



revolução de Fevereiro de 1848 em França, são acontecimentos capitais da história política e da história das 

ideologias na sociedade contemporânea. Com efeito, é nesse período que a burguesia atinge o fim da sua fase 

revolucionária, que a classe operária nascida da revolução industrial assume um papel activo e demarcado na 

cena histórica, que representantes operários tomam pela primeira vez assento num governo nacional, que a 

perspectiva do socialismo — ainda que então se tratasse apenas de um socialismo vago que mal se distinguia 

do democratismo radical — se torna preocupação dominante. Diversos jornais e clubes, sobretudo em França, 

davam expressão a esse movimento de ideias protagonizado pelas diversas seitas socialistas e proudhonianas, 

numa época em que o reformador Proudhon havia já publicado o seu Sistema de Contradições Económicas 

em que Marx, ainda numa relativa obscuridade, havia já dado à estampa o Manifesto Comunista e a Miséria da 

Filosofia, anunciando o marxismo. 

Em Portugal, não obstante a quase inexistência de um proletariado industrial moderno e o não acompa-

nhamento do movimento revolucionário europeu de 48, os acontecimentos de além-fronteiras não deixaram de 

encontrar  algum  eco.  Alguns  espíritos  ilustrados  iniciavam  pouco  depois  a  propaganda  dos  novos  ideiais  de 

igualdade económica e de instrução popular enquadrados nos sistemas ideológicos que ressoavam na França 

e lançavam as primeiras associações operárias e os primeiros exemplares de uma imprensa socialista, ao mes-

mo tempo que a Universidade começava, também ela, a ser tocada pelas novas ideias. 

Foi neste contexto que as páginas de jornais como o Eco dos Operários, A Península A Esmeralda, ou de 

revistas chegadas ao meio académico coimbrão, como O Instituto, se abriram a afirmações de um pensamento 

socialista, a discussões em torno das ideias de Proudhon e que, nessa sequência, um Marx ainda em parte pré-

marxista  começava,  discretamente,  a  ser  conhecido  e  a  influenciar,  ainda  que  ao  de  leve,  alguns  autores 

portugueses mais actualizados e preocupados com o que se ia fazendo lá por fora. 

Uma possível — e num caso inequívoca — influência da obra de Marx surgiu precisamente no desenvolvi-

mento  de  uma crítica  a  Proudhon,  que  então  gozava  já  de  assinalável  favor  nos  meios  políticos,  literários  e 

científicos  portugueses.  Dessa  literatura,  e  no  período  que  medeia  entre  1852  e  1854,  sobressaem  três 

acontecimentos  de  natureza  teórica  e  ideológico-doutrinária  protagonizados  por  Amorim  Viana,  por  Oliveira 

Pinto e por Martens Ferrão. 

 

Se este último autor se limitava a contrapor a Proudhon um vago sistema doutrinário, apontando de pas-



sagem algumas incoerências e manifestando divergências conceptuais relativamente ao reformador francês

1



recusando por exemplo — apoiado em Bastiat — a noção de valor de troca, já Viana ia um pouco mais fundo na 

crítica da Filosofia da Miséria. 

Com efeito, também este autor se lançaria na crítica do sistema doutrinário proudhoniano

2

, devendo no 



entanto sublinhar-se desde já que não se tratava de autor directamente influenciado pelo marxismo nascente 

—  tão  pouco  citava Marx  — muito  embora não  deixasse  de evidenciar  um relativamente vasto conhecimento 




quer  das obras  de  Proudhon  quer  das  polémicas  em  que  este  se havia  envolvido com  as  diversas  correntes 

socialistas. 

Viana, que tal como Ferrão não era adepto do socialismo [embora apoiante episódico de posições políticas 

socialistas]

3

  , e  que  tomava erradamente  Proudhon  por  qualificado seguidor  do  método  dialéctico hegeliano, 



não  deixava  de  ser  sensível  à  circunstância  de  os  debates  idológico--teóricos  se  deslocarem  então  para  o 

terreno da economia política — «Proudhon aplica estas doutrinas à economia política e pretende dar-lhe assim 






Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal