Capítulo 4 as condiçÕes históricas dos fascismos «O partido da nação em cólera»



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Capítulo 4
AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS DOS FASCISMOS


1. «O partido da nação em cólera»

A tensão estabelecida entre os dois pólos do eixo endógeno e a forma como este eixo planeava a sua articulação real ou simplesmente possível com o eixo exógeno servem para definir todos os tipos de movimento fascista, mas não bastam para explicar o seu triunfo e a conversão num regime, ou a sua derrota e a incapacidade de fundar um Estado. E para solucionar a questão é improcedente qualquer tentativa de definir com minúcia estatística uma base social comum a todos os regimes fascistas.

Na Itália, onde a maioria da população urbana era avessa ao fascismo1, a componente agrária assumiu uma notável importância. No final de 1921, um ano antes da tomada do poder, entre os membros do partido fascista contavam-se menos de 3% de industriais e empresários, mas subiam a 12% os proprietários fundiários e os camponeses que cultivavam terras próprias, do mesmo modo que os operários da indústria compunham 16% dos filiados, enquanto os trabalhadores agrícolas representavam praticamente 25%2. Um autor pretendeu que a política agrária de Mussolini tivera como objectivo criar uma nova classe de camponeses pequenos proprietários, para constituírem a base mais sólida do regime3, e defendeu mesmo que a conquista da Abissínia e a fundação do Império se destinaram acima de tudo a obter espaços que pudessem ser colonizados por famílias de pequenos agricultores sem descontentar os latifundiários italianos4. Também no Japão os pequenos camponeses detentores de terras, juntamente com os proprietários de pequenas empresas industriais e comerciais, forneceram uma base social ao militarismo fascista5. Esta situação reflectiu a estrutura global da sociedade nipónica, em que o proletariado industrial não só representava uma percentagem bastante reduzida da população activa como estava em boa medida disperso por empresas pouco concentradas6. E na Roménia, onde a população agrícola formava 4/5 do total7 e a sua hostilidade à sociedade urbana assumia frequentemente a forma do ódio aos judeus, especialmente concentrados nas cidades8, foi entre as massas rurais mais pobres que o fascismo radical e fanaticamente anti-semita de Corneliu Codreanu encontrou simpatia e fidelidades, embora mais tarde mobilizasse também um número significativo de operários9. Do mesmo modo, na Áustria o fascismo de Dollfuss tinha a sua base no meio rural10.

Encontramos uma situação oposta na Argentina, onde a base social do peronismo, tal como pode ser analisada através dos resultados da eleição presidencial de 1946, era constituída acima de tudo pelo operariado das indústrias urbanas e acessoriamente pelos trabalhadores dos campos, enquanto os grandes proprietários de terras e de gado e mesmo os pequenos patrões, os funcionários e os técnicos não se entusiasmaram por Perón ou adoptaram uma atitude francamente hostil11.

Na França de Vichy, pelo contrário, um relatório policial indicou no final de 1942 que os operários eram hostis à Revolução Nacional e permaneciam fiéis às ideias socialistas ou comunistas12. Por outro lado, depois dos acordos laborais do palácio Matignon, de 7 de Junho de 1936, assinados pela CGT e pelos representantes da grande indústria na presença de membros do governo do Front Populaire, o pequeno e o médio patronato consideraram-se sacrificados economicamente e passaram a votar às poderosas organizações dirigidas pelos maiores industriais a mesma hostilidade que já votavam ao proletariado revolucionário, criando assim as condições que permitiriam alguns anos depois à corte do marechal Pétain fundar o État Français e decretar a Revolução Nacional13.

A base social do fascismo foi também muito diversificada na Hungria, onde todas as facções tiveram em comum o apoio que lhes era prestado pelos funcionários do Estado e pelos oficiais do exército oriundos sobretudo da pequena fidalguia rural, a quem se juntavam, na ala conservadora, os maiores senhores da terra e os grandes patrões da indústria e da finança e, na ala radical, um número considerável de pequenos camponeses ou mesmo jornaleiros e de operários não qualificados14. Do mesmo modo, embora fosse o clero o principal sustentáculo do fascismo eslovaco, o apoio social de que beneficiava o Partido da Unidade Nacional, chefiado por monsenhor Tiso, incluía a burguesia e sobretudo a população rural, ou mesmo uma parte do operariado15. Porém, outro exemplo do fascismo católico, o rexismo belga, deparara com a indiferença do operariado dos grandes centros industriais16.

Igualmente diversificada foi a base social do nacional-socialismo alemão. Numerosos historiadores pretendem encontrar o segredo da ascensão do NSDAP no facto de em 1923 os desempregados constituírem 1/3 dos membros do partido, e 1/5 por ocasião da tomada do poder17. Todavia, será que isto ajuda a elucidar os motivos da entrada de Hitler na Chancelaria quando sabemos que, em 1931, 78% dos filiados no Partido Comunista da Alemanha estavam desempregados, uma cifra que subiu para 85% no ano seguinte18? Entretanto, nesses primeiros anos da década de 1930, os desempregados só formavam um pouco menos de 60% das SA de Hamburgo; o maior crescimento de membros do NSDAP não proveio das grandes cidades e zonas industriais, onde o desemprego mais se fazia sentir, mas das pequenas cidades e áreas rurais19. Os desempregados, indicaram dois historiadores, «tenderam mais a aproximar-se dos comunistas do que dos nazis»20. Se servir para alguma coisa uma lista de cerca de duzentos membros do partido de Hitler nos seus primórdios, vemos que cobria todos os estratos profissionais da população de Munique21, e o NSDAP pretendia que no amplo leque social da sua base se encontrava o microcosmo da comunidade nacional que haveria de instaurar22. Esta amplitude nunca deixou de caracterizar o nacional-socialismo germânico. «Eu disse e repeti aos meus apoiantes que a nossa vitória era uma certeza matemática, porque, ao contrário da social-democracia, não rejeitávamos ninguém que pertencesse à comunidade nacional», explicou Hitler aos comensais em Novembro de 194123. Na mesma perspectiva, um estudioso da política observou que «a atracção do nazismo não se exerce sobre nenhum grupo social em particular, mas sobre certos elementos em todos os grupos»24. Sabe-se que o crescimento eleitoral do NSDAP se deveu sobretudo aos estratos intermédios, artesãos, pequenos comerciantes, funcionários, profissões liberais, que aliás constituíam entre os filiados do partido uma percentagem superior à que ocupavam na sociedade em geral. Mas também entre os camponeses os nacionais socialistas obtiveram apoio, sobretudo em 1932 por parte dos pequenos agricultores do norte e do noroeste, embora parece que mais como eleitores do que como membros do partido25. E apesar de o operariado ter permanecido em grande medida fiel aos candidatos social-democratas e comunistas, os nacionais-socialistas atraíram boa parte dele, sobretudo jovens empregados de pequenas oficinas localizadas em cidades secundárias. Nos três últimos anos antes da ascensão de Hitler à Chancelaria e durante o Terceiro Reich, a classe operária, que representava quase metade da população, formava cerca de um terço dos membros do NSDAP, o que mostra que não foi desprezável a penetração nacional-socialista nesse meio26.

O facto de a base do fascismo ter sido diferente consoante os países revela, sob um ponto de vista comparativo, o único proveitoso em história, que o fascismo atravessou todas as camadas da sociedade. Esta diversidade constata-se igualmente em cada país, e mesmo que um dado movimento se tivesse apoiado sobretudo num certo meio isto não o impedia de beneficiar de simpatias nas restantes camadas sociais.

Têm sido muitos os autores a explicar o fascismo invocando questões decorrentes da crise das camadas intermédias. Trata-se para uns de evitar a análise das contradições surgidas no processo revolucionário, enquanto para outros é uma oportunidade de absolver o grande capital das suas culpas históricas. E esta interpretação nem sequer pode aplicar-se a todos os casos, porque na Argentina a classe média não estava em risco de proletarização nem foi peronista27. Mas, se for bem utilizada, a perspectiva pode ser proveitosa e liga-se a um facto frequentemente assinalado pelos historiadores — a importância assumida pelo lumpenproletariat nos fascismos, mesmo quando mal se esboçavam as suas primeiras manifestações. As razões desta participação são simples. Qualquer que seja a sua origem, os déclassés mantêm-se socialmente individualizados, excluídos de um tecido de relações próprias, e mesmo que economicamente tenham sido precipitados na classe trabalhadora, no plano político, tal como no ideológico, procuram recusar este facto, e esquecê-lo quando não o podem esconder.

«A pequena burguesia italiana está hoje cheia de rancor mais ou menos contra todos», escreveu com notável acuidade Adriano Tilgher no final de 1919. «Contra o governo, que a deixa agonizar na fome e no abandono e que, em Versailles, não soube realizar nem o programa expansionista nem o democrático; contra os novos-ricos, que sugaram o seu sangue e dele fizeram ouro; contra o proletariado, que não quis a guerra e que, todavia, saiu dela enriquecido, robustecido e politicamente triunfante. Os pequenos-burgueses nunca olharam os proletários com tanto rancor como hoje, quando eles próprios são mais proletários do que os proletários. Este estado de espírito explica o furor anti-socialista dos arditi e dos Fasci di Combattimento, cujos membros pertencem quase todos às classes médias»28. Rancor e fúria tanto maiores, decerto, quanto o governo dissolvera em Janeiro de 1919 as unidades de arditi29. Nestas condições, embora a perda de estatuto suscitasse atitudes de revolta, a ausência de inserção num quadro de classe, ou mesmo num simples quadro profissional, fazia com que tais formas de contestação se processassem obrigatoriamente no âmbito da sociedade em geral. Ora, na dinâmica das lutas, quando a sociedade não é rompida pelas clivagens de classe reconstitui-se com um grau superior de coesão, por isso os déclassés contribuíram para o restabelecimento das hierarquias e divulgaram as formas mais paradoxais do radicalismo conservador. Quando foram eles a conduzir o movimento, animaram uma revolta aristocrática feita por não-aristocratas.

O caso alemão é dos mais sugestivos. Os déclassés, observou Ernst von Salomon, que se considerava um deles, «eram provavelmente a única classe que tinha um verdadeiro interesse em superar a luta de classes»30. Os assalariados de colarinho branco arvoravam pretensões sociais desprovidas de qualquer justificação económica e, embora as suas remunerações não fossem muito superiores às do operariado ou pudessem até ser inferiores, o trajar, o estilo de vida, os gostos culturais aproximavam-nos do comportamento das classes dominantes31. Mas na vida corrente cada um apresenta-se de uma certa maneira menos para revelar aquilo que é do que para se destacar daquilo que não deseja ser. O facto de os empregados de colarinho branco tomarem aquelas atitudes significaria que todos eles pertenciam à classe capitalista dos gestores, mesmo situando-se nos seus níveis mais baixos? Ou quereria simplesmente dizer que a maior parte se recusava a assumir a sua integração no proletariado? «Geralmente o processo é parafraseado como correspondendo a uma proletarização tendencial dos estratos sociais médios», escreveu um economista alemão. «Mas esta proletarização foi precedida pela repulsa que suscitou, pelo temor que inspirou e pelas emoções geradas por essa ameaça, com as quais estava paradigmaticamente relacionada a mentalidade emocionalmente prevertida de Hitler»32. Uma coisa é pertencer ao estrato inferior de uma classe dominante e outra, muitíssimo diferente, é viver no ressentimento de ter sido lançado na classe explorada. Neste último caso as posições políticas da grande maioria dos trabalhadores de colarinho branco assentariam na falsidade e eles constituiriam, por conseguinte, um material humano facilmente atraído pelos demagogos. Foi esta a linha de raciocínio prosseguida na época por Henri de Man. Quem vota nos nacionais-socialistas, explicou ele, são as «classes ditas médias», já proletarizadas ou correndo o risco de o ser. Talvez mais numerosos ainda fossem os membros da «pequena burguesia dita nova», os empregados e os funcionários. E havia ainda «os agricultores que, cada vez mais empobrecidos e endividados, se vêem abruptamente privados da crença tradicional na ordem de coisas estabelecida». «Sob o ponto de vista estatístico», resumiu de Man, «não nos enganaríamos muito se disséssemos que o nacionalismo fascista é um movimento típico das classes médias e dos proletários de colarinho branco»33.

A crise económica alemã precipitada em 1923 pela ocupação franco-belga do Ruhr esclareceu a situação dessa gente. Em 1924 cerca de duzentos mil empregados bancários haviam sido lançados no desemprego e, nesse ano, o número de assalariados activos no ramo dos seguros representava pouco mais de um terço do número de 1918. Em meados de 1924 o número de funcionários públicos dependentes do governo central havia caído para cerca de 32% do que fora no início do ano anterior, e os empregados de colarinho branco nos serviços de assistência pública em Outubro de 1924 correspondiam a cerca de 2% do que tinham sido em Outubro de 1919. Quanto ao número dos seus colegas empregados pelos estados e pelos municípios, a crise ocasionou uma diminuição para metade. Calculou-se também que no sector comercial a quantidade de funcionários encarregados das vendas se tivesse reduzido cerca de 25%34. O fascismo pôde surgir a estas camadas sociais como uma esperança contra a ameaça iminente de proletarização35. «Com uma situação tão desesperada no mercado de trabalho é natural que proliferem as agências de emprego fraudulentas», observou em 1924 Fritz Schröder, dirigente sindical socialista que treze anos mais tarde, depois de se ter exilado, haveria de regressar clandestinamente ao seu país para ser preso pouco depois e desaparecer sem deixar traço. Mas ele não sabia então o que os acasos da luta política lhe reservavam, e podia prosseguir com humor, dando o exemplo de «um vigarista de Hamburgo que publicou um anúncio oferecendo lugares para engenheiros na América do Sul e num único dia recebeu mais de quatro mil respostas»36. Embora numa escala muitíssimo mais considerável e com repercussões de outra dimensão, foi semelhante a trapaça em que os desempregados de colarinho branco se viram envolvidos por Adolf Hitler37.

Na relutância em se identificarem com quem ganhava a vida numa fábrica, as camadas intermédias em crise manifestavam o apego aos valores tradicionais e a recusa de uma situação social potencialmente subversiva, opondo-lhe uma vocação de ordem. Ao mesmo tempo, porém, a proletarização só poderia ser sustida mediante a inversão dos processos económicos, e devemos entender esta aspiração como um prevertido desejo de revolta contra alguns mecanismos do capital. Evitar a proletarização era sair da ordem para melhor entrar na ordem. Todavia, a ordem é implacável nos seus efeitos. E os não-aristocratas que conduziram rebeliões aristocráticas destinadas a salvar os colarinhos brancos da proletarização converteram-se, no dia seguinte, numa nova elite presidindo a uma massa de neoproletários.

A iminência da proletarização das classes intermédias só poderia ser um factor significativo na mobilização fascista se se repercutisse pelo resto da sociedade38. Um comentador observou que «não tem sentido averiguar qual a classe que pôs o fascismo no poder. Não houve nenhuma classe que, sozinha, tivesse podido pôr o fascismo no poder»39. À mesma conclusão chegou, mas seguindo um percurso inverso, um economista alemão: «[...] o que caracteriza a natureza fascista do nacional-socialismo é a falta de uma base social de poder. Como o fascismo não possui alicerces sociais específicos que por si próprios, e sem Hitler, possam sustentar o nacional-socialismo, ele não dispõe efectivamente de opção: ou se apodera da integralidade do poder, conseguindo mediante o controlo do aparelho de Estado o que lhe falta em raízes sociais, ou a sua força se desintegra contra a estrutura social [...]»40. A revolta efectuou-se na ordem porque a sociedade foi afectada globalmente e na mesma direcção. O fascismo aproveitou uma conjuntura histórica que em certos países se fez sentir com efeitos convergentes na totalidade dos níveis sociais, e só onde a sociedade foi abalada ao mesmo tempo de cima a baixo é que o fascismo triunfou e se converteu num regime. Depois da segunda guerra mundial Maurice Bardèche, o mais sábio dos fascistas franceses, chamou a atenção para «a impossibilidade de o fascismo se desenvolver fora dos períodos de crise. Porque ele não tem um princípio fundamental. Porque não tem uma clientela natural. É uma solução heróica. [...] É o partido da nação em cólera. E principalmente [...] dessa camada da nação que usualmente se satisfaz com a vida burguesa, mas que as crises perturbam, que as atribulações irritam e indignam, e que intervém então brutalmente na vida política com reflexos puramente passionais, quer dizer, a classe média. Mas essa cólera da nação é indispensável ao fascismo»41. É certo que aquela situação de crise colocava problemas distintos a cada uma das classes e das camadas sociais, mas o fascismo pretendia possuir uma solução comum para esta diversidade de questões. Quando Hitler se orgulhava de ser o único orador que, ao discursar para um público diferenciado, conseguia fazer com que cada pessoa escutasse as mesmas palavras consoante os seus anseios próprios, ele estava a evocar, para além da sua indubitável destreza demagógica, a amplitude social do movimento que chefiava. «A grande habilidade do partido nazi antes de 1933», observou Simone Weil, «foi a de se apresentar aos operários como um partido especificamente operário, aos camponeses como um partido especificamente camponês, aos pequenos-burgueses como um partido especificamente pequeno-burguês, etc. Isto era-lhe fácil, porque mentia a toda a gente»42. A filósofa enganou-se, porém, ao julgar que seria fácil mentir a toda a gente.

O fascismo não se pode entender como um movimento de classe, mas como um movimento social global, triunfante graças a uma conjuntura que só se gerou em certos países. É esta conjuntura que cabe definir.


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