Capitulo 2- o património e a didáctica da História



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INTRODUÇÃO 
 
“O professor não pode ser mais um dos que enchem as escolas sem a sentirem, sem 
fazerem nada para melhorar o ensino em Portugal. (…) É necessário saber o que é a 
Escola e a sua história ao longo dos tempos (…).” A Escola Nova, através do respeito 
pelo  indivíduo,  pela  sua  criatividade,  é  uma  Escola  dinâmica  baseada  na  ciência 
psicológica  no  respeito  pelos  direitos  humanos,  nomeadamente  pelos  da  criança. 
Pretende  assim  a  formação  de  um  homem  livre  e  tolerante,  sensato  e  pacífico, 
portanto  ela  é  uma  Escola  virada  para  a  comunidade,  inserida  na  comunidade  e  nos 
seus valores culturais.” 
Miguel Monteiro
2
 
 
 
A  escolha  do  tema  deste  trabalho  de  dissertação  -  A  relação  Escola-Museu: 
contributo para uma didáctica do património - surge, estreitamente, ligada à dinâmica 
de  uma  experiência  de  ensino-aprendizagem  desenvolvida,  sob  a  forma  de  um 
Trabalho  de  Projecto,  com  alunos  do  7º  e  do  9º  anos  da  Escola  Secundária  Raul 
Proença  das  Caldas  da  Rainha,  ao  longo  dos  anos  lectivos  de  2007-2008  e  2008- 
-2009. 
 
Foi o referido Trabalho de Projecto pensado e elaborado para ser desenvolvido 
no  contexto  de  uma  relação  Escola-Museu,  segundo  uma  perspectiva  própria  da 
história local e de acordo com uma didáctica do património. 
 
A este propósito reconhecemos que a nossa opção por um trabalho de projecto, 
centrado numa relação Escola-Museu e numa perspectiva de história local, se ficou a 
dever, em grande parte, à nossa particular sensibilidade a esta problemática decorrente 
do  facto  de  sermos  membros  de  um  grupo  de  estudos  de  história  local,  sediado  na 
cidade das Caldas da Rainha, conhecido pela designação de PH- Grupo de Estudos
3
, o 
                                                           
 
2
 Miguel MonteiroA Ilha Pedagógica, Lisboa, Plátano Editora, 1987, pp. 31 e 45. 
3
 PH- Associação Património Histórico formalmente constituída no dia 8 de Janeiro de 1993. Entre os 
vários impulsionadores deste projecto, destacam-se os historiadores, João Bonifácio Serra e Luís Nunes 
Rodrigues. Para uma retrospectiva desta associação, vide, João B. Serra, 21 anos, pela História: Caldas 
da Rainha, Caldas da Rainha, Património Histórico-Grupo de Estudos, 2003

pp. 38-43. 


Introdução 

 
qual, ao longo dos últimos vinte anos tem desenvolvido um trabalho de investigação e 
divulgação de temáticas de âmbito local. 
 
Do  nosso  envolvimento  nesse  projecto,  resultou  uma  crescente  percepção  e 
convicção  pessoal  no  sentido  de  que  a  história  local  é  dotada  de  grandes 
potencialidades  em  termos  do  ensino  da  História  a  realizar  no  âmbito  da  função 
educativa  da  escola.  Razão  pela  qual,  não  apenas  equacionámos  a  possibilidade  de 
realizar  um  Trabalho  de  Projecto,  centrado  nessa  área  do  saber,  mas  também 
encarámos  a  necessidade  de  o  fazer  acompanhar  de  um  trabalho  reflexivo  teórico- 
-prático  apoiado  num  conjunto  de  obras  relacionadas  com  as  questões  relativas  à 
função  educativa  da  escola,  ao  ensino  da  História,  ao  património,  à  cidadania,  à 
pedagogia e à didáctica. 
 
Acerca  destas  questões  e  obras  que  delas  se  ocupam,  a  bibliografia  elencada, 
no  âmbito  deste  trabalho,  é  demonstrativa  de  um  itinerário  reflexivo  em  que  nos 
envolvemos com o objectivo de levar a cabo um aprofundamento de ideias no campo 
da história local, da função educativa da escola, do ensino da História, do património, 
da  cidadania  e,  em  particular,  na  área  do  pensamento  pedagógico-didáctico, 
apresentado  segundo  várias  perspectivas  e  reflectindo  diferentes  dinâmicas 
conceptuais e experimentais. Sendo de considerar que o referido trabalho reflexivo foi 
realizado em função da necessidade de uma ponderação das situações e condições de 
aprendizagem  de  modo  a  encontrar  as  formas  de  ajustamento  mais  adequadas  às 
nossas práticas de ensino, quantas vezes, eivadas de hábitos/rotinas e, por isso mesmo, 
carecidas de um confronto salutar e fomentador de caminhos de mudança em termos 
de  atitudes,  formas  de  relação-comunicação,  procedimentos  e  estratégias  a  adoptar 
com um sentido inovador e renovador. 
 
Estes  são,  pois,  os  contornos  de  uma  experiência  de  ensino-aprendizagem 
sobre a qual  fizemos incidir a presente reflexão marcada pela prevalência da história 
local,  enquanto  área  do  saber  e  do  ensino  da  História,  dotada  de  especiais 
potencialidades  formativas  quando  nos  colocamos  na  perspectiva  de  uma  educação 
escolar que, no essencial, preconiza uma personalização dos alunos no sentido de uma 
formação  para  a  cidadania.  Razão  pela  qual  quisemos  abrir  este  nosso  trabalho  de 
dissertação com uma reflexão inicial susceptível de nos situar face a uma problemática 


Introdução 

 
histórica que outrora esteve sujeita a desconfianças, mas que, entretanto, foram sendo 
ultrapassadas  para  bem  do  progresso  do  conhecimento  histórico  local  e  consequente 
enriquecimento  cultural  das  comunidades  que  se  dedicam  à  pesquisa  e  estudo  das 
memórias veiculadas, em grande parte, pelos respectivos bens patrimoniais. 
 
Face  a  esta  constatação  e  porque  reconhecemos  a  relevância  da  história  local 
no contexto da função educativa da escola, justifica-se que voltemos à nossa reflexão 
inicial  sobre  a  dinâmica  de  construção  do  conhecimento  histórico,  equacionada  no 
âmbito  da história local, para dizer que ela se constituiu num momento  de particular 
fecundidade intelectiva, estreitamente ligada à necessidade de interpretar/compreender 
os conceitos, aparentemente contraditórios, de  «parte» e de  «todo», de  «particular» e 
de «múltiplo». 
 
A  este  propósito,  importa  dizer  que  esse  momento  de  especial  fecundidade 
intelectiva  se  traduziu  numa  oportunidade  para  equacionar  um  conjunto  de  ideias 
explicativas  e  justificativas  de  uma  opção  formativa  e  de  uma  orientação 
metodológica,  subjacentes  à  implementação  e  desenvolvimento  de  um  Trabalho  de 
Projecto, que envolveu a participação activa dos nossos alunos. 
 
É,  pois,  à  luz  dessa  reflexão  e  das  ideias  nela  envolvidas  que  se  manifesta  a 
nossa  visão  do  que  pode  e  deve  ser,  por  um  lado,  um  adequado  entendimento  da 
história  local  para  fins  educativos  e,  por  outro  lado,  uma  adequada  utilização  dessa 
mesma história local a traduzir na base de uma relação escola-meio. Ou seja, com essa 
reflexão,  quisemos  dar  expressão  a  uma  mundividência  pedagógico-didáctica  no 
contexto  da qual  a função educativa da escola, a  mediar por um  processo  de ensino- 
-aprendizagem, sob a forma de um Trabalho de Projecto, foi pensada como podendo e 
devendo  ser,  simultaneamente,  a  realização  de  um  acto  formativo,  dirigido  à  pessoa 
dos  alunos, e a prestação de um  serviço cultural  à comunidade de que eles são parte 
integrante  e  promessa  de  um  futuro  melhor  a  construir,  desde  já,  através  do 
cumprimento de três ordens de objectivos. 
 
Uma primeira ordem de objectivos relacionados com a razão de ser da escola, 
enquanto  espaço  educativo,  prioritariamente,  orientado  para  uma  personalização  dos 
alunos no sentido de uma formação para a cidadania. 


Introdução 

 
 
Uma segunda ordem de objectivos relacionados com uma intenção de construir 
respostas adequadas às necessidades e expectativas da comunidade à qual, em última 
instância, se destina a acção educativa da escola. 
 
Uma terceira ordem de objectivos relacionados com a necessidade de criar, na 
escola,  práticas  de  ensino  inovadoras  susceptíveis  de  proporcionar  aos  alunos 
experiências  de  aprendizagem  baseadas  na  autonomia  e,  por  conseguinte,  numa 
adequação a formas de participação na construção do conhecimento que se constituam 
nas primícias do exercício de um espírito de cidadania em desenvolvimento. 
 
Estamos,  pois,  perante  três  ordens  de  objectivos,  marcados  por  um  sentido 
integrador da acção educativa da escola, que, no essencial, deve estar orientada para o 
cumprimento do grande objectivo de uma formação para a cidadania alicerçada numa 
tripla dimensão: 
 
Uma  primeira  dimensão  de  carácter  pessoal,  traduzida  numa  personalização 
dos alunos e a consubstanciar pela interiorização do princípio da responsabilidade. 
 
Uma  segunda  dimensão  de  carácter  comunitário  traduzida  na  elaboração, 
proposição,  assunção  e  consecução,  por  parte  da  escola,  de  estratégias  educativas  e 
culturais  susceptíveis  de  propiciar  uma  dinâmica  de  intercâmbio  Escola-Museu 
fomentadora  de  um  enriquecimento  da  identidade  cultural  e  de  um  consequente 
reforço  dos  laços  sociais  a  consubstanciar  pela  interiorização  do  princípio  da 
solidariedade. 
 
Uma terceira dimensão de carácter autonómico traduzida no desenvolvimento 
integrado  de  práticas  de  ensino  e  de  experiências  de  aprendizagem  suscitadoras  de 
processos relacionais-comunicacionais (professor/alunos e alunos/alunos) e formas de 
trabalho abertas a consubstanciar pela interiorização do princípio da liberdade. 
 
Para imprimir uma visão integrada a cada uma destas dimensões e respectivos 
princípios de conduta cívico-moral, fundamentadoras dos valores estruturantes de um 
verdadeiro  espírito  de  cidadania,  elaborámos,  durante  a  fase  de  concepção  do 
Trabalho  de Projecto,  centrado na história local  e numa didáctica do património,  um 
modelo esquemático, englobante e de aspecto dinâmico, com o objectivo de articular 
uma  multiplicidade  de  componentes  e  vertentes  que  se  nos  depararam  com  alguma 


Introdução 

 
complexidade  e,  ao  mesmo  tempo,  com  uma  exigência  de  simplificação,  de  modo  a 
que a parte e o todo pudessem surgir sob a forma de uma percepção unificadora que 
permitisse  uma  melhor,  mais  adequada  e  correcta  implementação  e  consecução  das 
linhas de força organizadoras do referido Trabalho de Projecto. 
 



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