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particular para o dormir, menos ainda para o sono privado; nenhum lugar espe-



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particular para o dormir, menos ainda para o sono privado; nenhum lugar espe-
cífico para o comer, nem para a alimentação de determinadas pessoas individu-
alizadas; não havia lugares destinados exclusivamente para trabalhar, receber
visitas, ter relações sexuais, pensar...
Este amontoamento não tinha necessariamente a ver com pobreza. Era um
modo de ser. Era implementação de padrões culturais que se manifestavam repetida-
mente, nas mais variadas esferas da existência – seja na superposição das casas, no
apinhamento das ruas ou na utilização, por diversas pessoas simultaneamente, de
uma mesma cama, de um mesmo prato, de um mesmo banco etc. Eis uma ilustra-
ção: a invenção da privada, no final do século XVI, constituiu, como sabemos, um
aperfeiçoamento técnico fundamental para o cotidiano de nossas sensibilidades con-
temporâneas. Contudo, a absorção social desta inovação não foi nada rápida. Por
muito tempo ainda, a ‘privada’ se conservou pública e as funções que aí se
deveriam segregar continuaram misturadas com outras atividades do viver diário.
Para termos uma idéia mais precisa, consideremos que mesmo a privada ‘seca’,
com aura de novidade inglesa, só foi introduzida na França no século XVIII.
A respeito da tese da ‘pobreza’, o que dizer do fato de que o palácio de
Versalhes, construído sem medir despesas, não possuísse privadas ou banheiros,
que seus corredores, seus pátios, suas alas estivessem cheios de matérias fecais?
Assim, as casas que conhecemos hoje, com seus cômodos e móveis especializados,
representam uma modificação de mentalidade e sensibilidade posterior ao século
XII e que apenas muito lentamente se difundiu pelo restante da sociedade, enfren-


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tando resistências em todos os estratos sociais. Não obstante, esta modificação
definiu um ideal arquitetônico cuja realização até hoje é um indicador de privilégio de
classe. O desejo de intimidade é uma invenção das classes dominantes, ponto cen-
tral de uma mentalidade individualista e pedra angular de um sistema econômico e
político. Não é apenas um progresso optativo: representa uma visão de mundo, a
que cedo ou tarde todos deverão se submeter.
Tal situação, de uma cidade “na escala do humano”, como se sabe, não
perdurou. Uma das transformações mais evidentes do cenário europeu foi o cres-
cimento da população. Em 1500 havia cerca de oitenta milhões de pessoas no
continente. Em 1800 tal número foi para mais de o dobro, beirando os cento e
noventa. Um dos correlativos desse crescimento numérico foi a urbanização, pois
acarretava menos espaço nos campos, aumentando circularmente o poder de atração
da cidade que oferecia mais oportunidades de trabalho – modo eufêmico de dizer
que ela ‘exigia’ trabalhadores para sustentar os negócios e os modos de vida
burgueses – além de agir mais incisivamente sobre os imaginários. Em 1500,
segundo dados de Fernand Braudel (1975), havia apenas quatro cidades com mais
de cem mil habitantes (Istambul, Nápoles, Paris e Veneza), mas em 1800 havia
vinte e três. Em 1700, mais de três quartos da população britânica ainda vivia no
campo; em 1851, os habitantes da cidade eram maioria (Thomas, 1988). Em
Londres, para voltarmos a nosso exemplo, contavam-se quarenta mil pessoas no
século XIV e mais de um milhão no princípio do XIX.
Se tivéssemos de percorrer Paris nos anos de 1640 ou Londres antes do
grande incêndio de 1666, ficaríamos impressionados com a absoluta concentra-
ção humana em um pedaço geográfico considerado minúsculo pelos padrões
modernos. As casas se aglomeravam em ruas que não tinham mais de três metros
e meio de largura, com inesperadas clareiras de vastos espaços abertos. De fato,
à medida que nos aproximássemos das novas construções, vizinhas aos muros de
Paris, ou da terra-de-ninguém situada entre a City de Londres e Westminster, não
veríamos uma gradativa diminuição na concentração de casas, mas uma quebra
repentina; passaríamos de ruas apinhadas a casas isoladas, dispostas praticamente
como propriedades campestres.
Após o grande incêndio em Londres e na década de 1680 em Paris, a aglome-
ração populacional nas duas cidades começou a tomar uma nova forma. A terra quei-
mada ou ociosa não foi pura e simplesmente ocupada. Foi reorganizada de acordo
com um novo princípio, o da praça: uma praça radicalmente distinta das existentes nas
pequenas cidades medievais, tanto em aparência quanto em função. Os princípios de
design das praças em Londres romperam com o passado medieval de um modo bas-
tante diverso dos que caracterizaram as praças parisienses. Mas essas duas revoltas
contra passado levaram à mesma finalidade social (Sennett, 1989).
Menos visível, mas não menos importante do que este desenvolvimento
das cidades, foi um conjunto de modificações econômicas que ficou conhecido
como revolução comercial, que configurou em grande medida a consagração do


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capitalismo e de sua cultura, materializando-se por uma inédita expansão do co-
mércio dentro da Europa, entre cidades e campo, das cidades entre si e mesmo
com o resto do mundo. Associada a isto, houve uma grande modificação nas
redes de comunicação e de transportes, bem como nas relações entre as culturas
urbanas e rurais, fazendo com que a variedade cultural da Europa fosse gradual-
mente substituída pela homogeneidade do Estado e de uma cultura mais ou menos
cosmopolita. Ainda assim, para não exagerarmos as coisas, é necessário lembrar
que, não obstante todas essas mudanças, em 1800 menos de três por cento da
população européia viviam em cidades com mais de cem mil habitantes e que
essas pessoas, na maioria, ainda trabalhavam em oficinas e pequenos ateliês, e não
em grandes fábricas.
As tendências, contudo, já estavam bem claramente assinaladas. O
desequilíbrio do terceiro plano, a que fiz referência no início deste capítulo, mos-
trava-se cada vez mais nítido. Os muito ricos iam ficando ainda mais ricos e se
separando dos pobres. Entre as cidades e os campos, o fosso não cessava de
aumentar. A elevação contínua do nível de existência, a partilha desigual dos fru-
tos, a diferenciação dos papéis sociais avivaram o contraste entre cidades e cam-
pos, casas ricas e casas pobres, masculino e feminino, enquanto a circulação
sempre mais rápida dos homens e das idéias fazia esfumarem-se os


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