Cap 00 corpo historia 2014. pmd


particularmente no estrato superior da burguesia, mas também, em certa medida



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particularmente no estrato superior da burguesia, mas também, em certa medida,
em suas camadas médias. Os membros dessa sociedade multiforme falavam a
mesma língua em toda a Europa: inicialmente o latim e o italiano, depois, o francês.
Liam os mesmos livros, tinham os mesmos gostos, as mesmas maneiras e – com
diferenças de grau – o mesmo estilo de vida, submetendo-se a uma convenção
muito rígida de conduta, a uma grande formalidade quanto à moderação dos afetos
e a uma regulação cada vez mais rigorosa das maneiras e da gestualidade.
Não obstante suas divergências políticas, que não eram poucas, e em que
pesassem as numerosíssimas guerras que travavam entre si, essas elites orienta-
vam-se quase unanimemente e por períodos mais ou menos longos na direção de
um centro, que era Paris. A partir de um determinado momento, a comunicação
entre uma corte e outra, isto é, no interior da sociedade formada pelas classes
aristocráticas, tendeu a ser mais intensa do que a que existia entre os membros de
uma corte e os outros estratos de sua própria região, especialmente as camadas
populares. Uma expressão dessa tendência discriminatória encontramos na língua
comum que as aristocracias falavam, independentemente da região em que vives-
sem – língua que era inacessível à população em geral (Elias, 1993).
O uso da língua latina na Idade Média (Burke, 1993; Bloch, 1968), cuja
importância é bem conhecida, apresenta-nos uma rápida e boa ilustração do que
essa primeira modalidade de cultura medieval configurava. Em primeiro lugar,
herdado do Império Romano, o latim constituía o idioma oficial da Igreja Católica
– papel que veio desempenhando até os nossos dias inclusive, nos documentos
papais, nos tribunais eclesiásticos, nos sínodos, nas encíclicas, nas missas...
Sabemos ser bastante comum, em diversas religiões, que se utilize uma
linguagem sagrada como marcador ritual de separação relativamente a pessoas,
coisas e assuntos profanos. Por certo este era um dos aspectos do latim litúrgico
e clerical. Em 1562, o Concílio de Trento ainda condenava as traduções da
Bíblia para os vernáculos e proclamava ser anátema a sustentação de idéia dife-
rente. Entretanto, não se deve desprezar que este lado ritual da utilização do
latim pouco se deveria coadunar com a vocação expansionista e conversora do
catolicismo. A esta tendência convinha, obviamente, dirigir-se ao grosso da
população, expressando-se por instrumentos de longo alcance, capazes de rom-
per fronteiras lingüísticas e culturais. Adiante veremos como a Igreja superou
esta aparente contradição.
O latim caracteriza bem, em nossa história, os meios sociais que se
querem universais, embora simultaneamente aristocráticos e distintos. Ele per-
maneceu quase sempre onde quis permanecer o elitista. Ao mesmo tempo, seu
abandono, freqüentemente polêmico, foi normalmente defendido em nome de
alguma bandeira de ‘democratização’. Assim, paradoxalmente, foi em latim
que Erasmo clamou pela divulgação da bíblia aos grandes públicos, advogan-
do a tradução nos diversos vernáculos. Foi ainda nessa língua que geralmente


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se expressaram os que escreveram até fins do século XVII. Galileu, Descar-
tes, Bacon, Hobbes, Locke, Newton produziram em latim, salvo excepcional-
mente. Montaigne o teve como sua primeira língua.
Nas universidades, durante quase toda a história, foi em latim que se falou
e, sobretudo, que se registraram os conhecimentos. Ainda nos últimos anos do
século XIX, autores como Bergson, em1889, e Durkheim, em 1892, apresenta-
ram em latim suas teses de doutoramento ou, pelo menos, algumas partes delas. É
nesse idioma, já em pleno século XX, que se aprendem as classificações zoológi-
cas e botânicas, que se formulam os remédios, que se estuda Direito, que se milita
parcialmente na profissão jurídica e que se oficiam trechos de alguns ritos, como
formaturas e homenagens universitárias. Passando do ‘alto’ ao ‘baixo’, também é
essa a língua que freqüentemente se utiliza para fazer referência àquilo que causa
constrangimento se mencionado em linguagem habitual: daí expressões como
membrum virile, coitus interruptus, vagina dentata etc.
A cultura de elite extrapolava, como se vê, as particularidades locais e
regionais. Transcendia tanto o espaço quanto o tempo. Alimentava-se de lendas e
textos da Antigüidade clássica, bem como dos mitos cristãos relativamente recen-
tes. Seus estabelecimentos fundamentais eram as cidades, os castelos, os con-
ventos, os mosteiros e as catedrais. Especialmente – e de interesse particular para
os nossos propósitos no presente trabalho – nessa cultura já se podiam encontrar
os gérmens da ‘decência’, da ‘diligência’, da ‘gravidade’, da ‘modéstia’, da ‘or-
dem’, da ‘prudência’, da ‘razão’, do ‘autocontrole’, da ‘sobriedade’, da ‘frugali-
dade’... Ela constituiu o terreno, no qual já estavam lançadas as sementes daquilo
que Max Weber mais tarde viria a celebrizar na tradição das ciências sociais,
servindo-se da expressão “ascetismo mundano”. Indispensável registrar: essa
cultura, associada aos dominantes, só se tornou relevante por volta do século IX.
Até então prevalecia, quase sozinha, uma cultura cujas características gerais
em grande parte se contrapunham, de modo quase antinômico, às que acabei de
desenhar. Trata-se de uma cultura predominantemente pagã, cujos princípios dis-
crepavam dos do cristianismo e cuja inspiração nada, ou muito pouco, tinha a ver
com a cultura clássica. Esta outra era uma cultura ligada aos ritos e aos mitos
pagãos, a uma visão de mundo ingênua, espontânea e sinceramente entregue a cren-
ças e práticas mágicas. Era um universo em que se falavam os patoás, os dialetos
locais, em que se empregavam falares que às vezes eram de aldeia, às vezes, regionais
– raramente indo além dessa escala mais ou menos pontual. Trata-se de um universo
que cultivava suas próprias mitologias ancestrais, seus ritos particulares e diversifica-
dos. Os costumes provêm das velhas tribos que precederam ou que invadiram o
Império Romano. São práticas e crenças que carregam em si origens longínquas, que
se devem a povos preexistentes ao cristianismo e ao Estado. E esta é uma caracterís-
tica de todo fundamental para o entendimento dos fatos que adiante analisaremos.


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Tal cultura tem base na tradição oral, nas transmissões diretas de geração
a geração. Edifica-se, sobretudo, na efervescência inflamada da convivência
social e na dramatização da vida cotidiana. Sua localização: nas casas, nas ruas,
nos mercados, nas tabernas, nas estalagens, nas praças, nas rinhas de galos, nas
rodas de jogos, de música ou dança, nas igrejas paroquiais. Enfim, uma cultura
materializada nos lugares e nos tempos em que a vida se dava, em que as coisas
aconteciam. Mesmo quando presente nas cidades, essa cultura – a do homem coti-
diano da Idade Média – era de coloração fundamentalmente camponesa: de caçado-
res e agricultores, de homens diretamente relacionados com o mundo dos animais,
das plantas, dos ventos, das chuvas, das temperaturas, das estações, dos astros...
A esta cultura do homem cotidiano costuma-se dar o nome de popular. Não
vejo grandes razões para implicar com tal designação, já de certo modo consagra-
da nos meios acadêmicos e fora destes. No entanto, talvez seja necessário obser-
var que o termo carrega um quê de anacrônico, quando remetido ao contexto medie-
val. É que, rigorosamente, a idéia de povo não fará sentido pleno senão em perío-
dos históricos bastante posteriores – por volta ou a partir do século XVIII –,
quando a separação entre povo e elite ter-se-á configurado com bastante niti-
dez, e quando as fronteiras entre as várias culturas do povo e as culturas de elite
(também variadas) terão começado a ser mais significativas do que as relações e
interpenetrações que apresentavam.
É importante ressaltar que, no contexto medieval, isto que depois se cha-
mou de ‘popular’ era em grande medida a cultura de todo mundo. Naquele tempo,
a elite participava vigorosamente da cultura de todos e era de certo modo bicultural:
o padre que falava latim, falava também o patoá de sua região (aspecto importante
para a divulgação do catolicismo); o nobre que vivia em castelo conhecia igual-
mente as tradições populares e delas tomava parte; o senhor honrado em sua
culminância era também personagem das festas folclóricas, conhecia as mitologias
locais, das quais era muitas vezes um figurante central; o leitor culto lia, quase
sempre em voz alta, para um público que continha pessoas mal alfabetizadas ou
analfabetas, os mesmos textos e os mesmos livros que circulavam em todos os
meios sociais (Chartier, 1995); até mesmo o doutor da universidade era “exatamente
o contrário do homem de gabinete, do pesquisador solitário” (Verger, 1990:65).
Os membros da elite conheciam canções e histórias populares, cultuavam
relíquias e imagens devotas, participavam das festas de santos, dos festivais
sazonais, do natal, do carnaval, dos solstícios... Mascaravam-se e cometiam
saliências carnavalescas, divertiam-se com palhaços, tanto nas cortes como nas
tavernas. Regozijavam-se com as touradas, com os açulamentos de cães e ur-
sos, com as rinhas de galos. Mais tarde, deliciaram-se, como citadinos e cam-
poneses, com os romances de cavalaria. Clientes, os curandeiros possuíam em
todos os pavimentos da hierarquia social. Até mesmo o clero participava da
cultura popular: frades jogavam bola, encenavam comédias, dançavam e toca-
vam instrumentos. Esses religiosos, normalmente filhos de artesãos ou campo-


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neses, com mais freqüência ainda eram biculturais, transitando da universidade
à praça e ao mercado. Registre-se que este traço foi uma arma importantíssima
para a estratégia de conversão que a Igreja viria a empregar.
Em síntese, cultura de elite e cultura popular não se opunham totalmente nos
tempos medievais, nos quais as contradições eram mais horizontais (por exemplo,
entre corporações, cidades etc.) que verticais (como entre classes sociais domi-
nantes e dominadas, ricos e pobres, mestres e aprendizes). Pelo menos estas cultu-
ras não se ojerizavam, antes do final do século XVI, no mesmo sentido em que
vieram a se antipatizar a partir da Idade das Luzes até os nossos dias. Até então – e
ainda por muito tempo, em particular nas camadas inferiores, mas não somente –,
os mitos e, principalmente, os ritos cristãos se misturavam com os das tribos bárba-
ras. As línguas românicas se mesclavam cada vez mais com as invasoras. O lugar
onde se vivia era partilhado por múltiplas culturas (perigosa e artificialmente redu-
zidas aqui a duas), que confluíam e se misturavam nos seres humanos. Convergiam
nas pessoas, embora se contradissessem nos princípios e na inspiração.
Até o século XVI, o que se encontra é imbricamento, amálgama, não oposi-
ção entre estas duas culturas. Durante séculos, os cenários públicos – igreja, taverna,
praça do mercado – eram comunitariamente usados para todos os propósitos, laicos
ou religiosos, festivos ou graves, ostentosos ou humildes, apesar das objeções
repetidas (e isto, obviamente, por serem pouco respeitadas) do alto clero, católico
e posteriormente protestante (Burke, 1989). Mistérios eram encenados abertamen-
te. O adro das igrejas era usado para danças e banquetes. Nas vésperas das festas
dos santos padroeiros, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças, pas-
savam as noites a comer e a beber, a cantar e a dançar, assumindo as mesmas
atitudes íntimas com o sagrado e o mesmo estilo imoderado. Atitudes e estilo que
nos pareceriam hoje totalmente exagerados e, em grande medida, incompreensíveis.
Esta cultura de todos existiu de modo pleno até por volta de 1500. Ao lado
dela, desenvolvia-se pouco a pouco uma cultura para os instruídos – processo
que se verificou por toda a Europa, em ritmos diversificados, embora aumentando
o fosso sempre e inexoravelmente. Em 1800, na maior parte do continente, o
clero, a nobreza, os profissionais liberais, os burgueses, já haviam quase comple-
tamente abandonado às classes subalternas aquela cultura que outrora pertencera
a todos. Destas últimas, as elites se queriam, agora e doravante, dramaticamente
separadas – distanciadas criticamente, afastadas por visões de mundo totalmente
incompatíveis, como não havia acontecido anteriormente na história ocidental.
‘Povo’, nesses novos tempos, passou a significar outra coisa. Não mais
‘todos’, ou ‘gente’. Mas ‘simples’, ‘humilde’, ‘pobre’, ou mesmo ‘eles’. No
terreno da religião, por exemplo, até 1500 a maioria dos pastores sempre fora da
mesma origem cultural de seus rebanhos. Os reformadores introduziram modifi-
cações nesse panorama, para eles promíscuo, almejando de ora em diante um


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clero ‘culto’: mais do que os católicos, os sacerdotes protestantes tenderam a ser
universitários de formação; todavia, mesmo entre os primeiros, os seminários
foram cada vez mais se multiplicando, especialmente depois do Concílio de Trento.
Assim, o pároco que dançava, que se mascarava, que fazia piadas no púlpi-
to, foi substituído pelo sacerdote sério, educado e distante. Os nobres começaram
a adotar maneiras mais ‘polidas’, estilos mais autoconscientes de comportamen-
to. Passaram a cultivar o autocontrole, as posturas corporais estudadas e artificiais.
Abandonaram o hábito de comer misturados a seus dependentes, retirando-se
para salas de jantar separadas. Deixaram de lutar corpo-a-corpo com seus cam-
poneses. Aprenderam a falar e a escrever ‘corretamente’, segundo regras formais
e de acordo com gramáticas normativas. Procuraram, enfim, marcar diferenças
por todos os meios. Como se não bastasse esse movimento socialmente localiza-
do, as elites tenderam a ser imitadas pelos meios sociais adjacentes, isto é, por
aqueles que pretendiam fingir-se de nobres – mesmo com todos os ridículos que
normalmente acompanham essas situações.
A nova cultura aos poucos se retirou e começou a viver separadamente
nos castelos, nas universidades, nas bibliotecas, nas escolas, nas catedrais. Não
apenas se afastou: passou a segregar. Em grande medida passou a desprezar e
detestar a antiga cultura tradicional que, no entanto, continuava existindo e sen-
do atuante para a maioria da sociedade. Essa antiga cultura, agora ‘folclórica’,
transformou-se em objeto de rejeição e ao mesmo tempo de interesse fascinado
e algo mórbido (etnografia, arqueologia, folclore etc) de intelectuais que, já a


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