Cap 00 corpo historia 2014. pmd


particular, travestida de conhecimento



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particular, travestida de conhecimento.
Notemos, primeiramente, com Umberto Eco (1989), que a própria idéia de
Idade Média é uma noção residual. É necessário tê-lo sempre em mente: quando
alguém fala em Idade Média, refere-se a algo que não sabe muito bem como situar
entre duas Idades, ou duas Eras, digamos, ‘ilustres’. De um lado, a Antigüidade,
tendo toda positividade e sempre existindo com pleno e todo direito. De outro, as
Idades Moderna e Contemporânea, que são os tempos do capitalismo, da Revolu-
ção Industrial e do progresso – também considerados pelos teóricos, historiado-
res, pensadores políticos, bem como pelo senso comum, com positividade em si.
Entre elas figura alguma coisa ambígua, que se chamou de ‘média’: tempo não
definido por qualquer positividade.


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Ao contrário, até: em geral a Idade Média é definida pelo negativo. Cha-
mar algo de antigo, em grande medida é chamar de ‘clássico’. Qualificar de
moderno é elogiar e despertar orgulho. Mais ainda é adjetivar de pós-moderno.
Referir-se, porém, a algo ou alguém como medieval é quase como utilizar uma
categoria de acusação, uma vez que esse tempo passou a ser considerado
como a época dos bárbaros, como a Idade das Trevas, como a noite de mil
anos... Ela nada tem daquela Antigüidade, pela qual temos certo respeito e
nostalgia. Nada apresenta da Modernidade, em relação à qual nutrimos pro-
fundo sentimento de glória e mesmo de orgulho. Nada disso. Exceto no círcu-
lo restrito de poucos especialistas – e, ainda assim, somente desde tempos
muito recentes –, para a Idade Média cabem somente as acusações mais
preconceituosas. Obviamente não nos deixaremos surpreender por esta arma-
dilha que o etnocentrismo nos prepara.
Depois, encontramos aí uma questão teórica crucial, fonte de muitos
enganos e preconceitos contra o mundo medieval. Esta questão decorre do
fato de pensarmos viver em uma sociedade que progride, que evolui, que se
desenvolve, que busca metas e está sempre crescendo na direção de um está-
gio social aperfeiçoado. Concebemos a história, em conseqüência, como uma
sucessão de degraus progressivos, avanços, realizações, conquistas em rela-
ção a estágios antecedentes e que nos levariam à perfeição da sociedade futu-
ra. Seria bom que tomássemos prudente distância relativamente aos perigos
embutidos nessa concepção de tempo e de história.
No plano específico da história ocidental, esta concepção reproduz o modo
mais geral pelo qual, muitas vezes, teóricos, ideólogos e senso comum encara-
ram a própria trajetória da sociedade humana. Quem, dentre nós, não ouviu pelo
menos uma vez a história que narra como, no início dos tempos, os homens
foram seres subjugados pela natureza, hostilizados pelo mundo? Nessas con-
cepções, os homens são invariavelmente apresentados como seres frágeis: não
possuíam a garra de certos animais, a força de outros, velocidade ou resistência
comparáveis... O homem vivia nos primeiros tempos como um pobre-coitado,
apanhando do mundo e sendo sacrificado. Não obstante, era dotado de inteli-
gência – faculdade que pôde materializar em ferramentas, instrumentos. Com
inteligência e ferramentas, o homem, segundo tal teoria, começou a reverter o
quadro inicial. De escravo da natureza, foi-se progressivamente transformando
em senhor dela. Cada passo da história da humanidade passou a ser uma vitória
do homem sobre o mundo e sobre si mesmo.
Todos já ouvimos essa narrativa em algum lugar: no cinema, nos livros de
antropologia, nos museus, na página um dos manuais de desenvolvimento
econômico. Essa teoria, que é na verdade o mito de origem da sociedade industrial,
conta como a ciência e a tecnologia, pilares desta sociedade, são importantes e legíti-
mas. Narra como a maneira de viver baseada na ciência e na tecnologia é intelectual-


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mente necessária, além de emocionalmente desejável. Procura seduzir e convencer.
Não pretendo estender-me sobre este assunto, que já mereceu minha aten-
ção em outro lugar (Rodrigues, 1989). Quero registrar, entretanto, que os per-
cursos atuais da pesquisa antropológica tornam tal narrativa bem pouco veros-
símil. Em primeiro lugar, não há qualquer razão de ordem ecológica para que se
aceite essa teoria baseada no pressuposto de uma miséria original. Afinal, toda
espécie vive em ambiente propício à singularidade de sua vida. Espécie inadaptada
ao próprio habitat simplesmente não existe: seus grupos migram ou desapare-
cem. Por que razão os homens seriam os únicos cronicamente inadaptados a
seu mundo? Por que seriam eles os solitários seres fadados a não se sentir em
casa, os alvejados pela hostilidade de seu próprio ambiente?
O raciocínio sobre dados arqueológicos, ademais, vem demonstrando
cada vez mais claramente que esse ser humano primordial não vivia absoluta-
mente à míngua. Até onde se pode ir no tempo, os materiais arqueológicos são
surpreendentemente numerosos e de tipologias múltiplas, apesar da grande difi-
culdade de conservação que os milênios suscitam. As sepulturas contêm ali-
mentos, os ossos muitas vezes são decorados, o que quer dizer que esses ho-
mens praticavam ritos e não eram seres exclusivamente movidos pelo estôma-
go. A propósito, pergunte-se de passagem: que vivente à míngua poderia se dar
ao luxo de oferecer alimentos a defuntos?
Existem ainda os estudos etnográficos (Lizot, 1980) sobre sociedades atuais
de caçadores e coletores, demonstrando que vivem muito longe de uma suposta
penúria, longíssimo de uma alegada miséria original. Ao contrário, contestando
radicalmente um raciocínio de índole evolucionista, em geral são os agricultores
(que, segundo esta teoria imagina, constituem um passo além na evolução social
em relação aos caçadores-coletores) os que costumam ser mais maltratados pelo
mundo e escravizados pelo trabalho. Por analogia – e inesperadamente para essa
teoria da miséria original –, exatamente os caçadores da Idade da Pedra é que
constituiriam o que Marshall Sahlins (1974) irônica e provocativamente designou
de “a primeira sociedade de abundância”.
Há finalmente um ponto definitivo para os nossos propósitos. Quando se
imagina que a história seja progressiva, evolutiva e que cada passo seja uma con-
quista na direção de determinadas metas, obrigatoriamente se imagina também
que tudo o que for conseguido no último estágio deverá ser inexistente nos primei-
ros tempos, ou, no máximo, existente de modo apenas rudimentar (Clastres, 1980).
Assim, se fabulamos que a história da humanidade deverá chegar ao homem que
domina o planeta, certamente essa narrativa deverá começar pelo homem subju-
gado por este. Se essa ‘estória’, por meio de múltiplas conquistas, deságua em
uma sociedade rica, claro está que no começo é a pobreza que reina; se atingirá as
‘melhores’ formas de relacionamento sexual, é evidente que no primeiro degrau
haverá a promiscuidade primitiva...


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O núcleo do raciocínio é o seguinte: se esse degrau inicial nunca tiver existi-
do, é preciso que seja urgentemente inventado, porque essa ficção é o que sustenta
o edifício da história. Sem esse artifício, a construção dessa estória  (ou história,
tanto faz) implode. Toda teoria baseada nas idéias de progresso e evolução cai por
terra, se não estiver sustentada por esse primeiro momento lógico-fictício.
Decorrência perfeitamente compreensível, essa teoria-mito autoriza
hierarquizar homens e sociedades. Propõe a existência de homens que já teriam
realizado mais total e plenamente a humanidade. Inventa homens totalmente ho-
mens, como nós, habitantes da sociedade industrial, plenamente senhores da ciên-
cia e da tecnologia, da razão e da ferramenta, por um lado, e, por outro, homens
a meio caminho, ainda no início das conquistas, homens rudimentares, à espera
de realizar plenamente a humanidade. Evidentemente, trata-se também de uma
teoria de poder, um mito de legitimação a autorizar intervenções. Sugere implicita-
mente que é possível ir ao outro, com toda a licença, para tentar aniquilar sua
alteridade, exibindo o argumento de estar a lhe levar uma humanidade de que é
carente. Pelo viés dessa teoria, a intervenção se transforma magicamente em ca-
ridade: tira-se o outro do fundo do poço de sua ignorância e escravidão e se o
transporta às luzes da humanidade plena.
A Idade Média dos preconceitos desempenha exatamente esse papel de degrau
zero do capitalismo e do socialismo. É inventada, de certo modo, com o fito de nos
convencer dos progressos representados pelo capitalismo sobre o feudalismo, do soci-
alismo sobre o capitalismo, do comunismo sobre o socialismo... Independentemente de
colorações políticas de direita ou de esquerda, quem acredita no mito do progresso –
teoria ou senso comum – deverá necessariamente fabular esse degrau zero, que é a
Idade Média negativa. Isto porque tal é o contraponto lógico, político e ideológico do
sentido de tudo o que será ‘conquistado’ pelo progresso. Encontramos aqui, por conse-
guinte, mais um sinal de alerta, fundamental para não viciar previamente o raciocínio que
vamos desenvolver: controlar tanto quanto possível nossos ímpetos e inclinações pro-
gressistas, com o intuito de poder considerar a Idade Média em seus próprios termos.
Há ainda, nesta armadilha, um dispositivo muito sutil e imensamente importan-
te, talvez a mais grave ameaça contra a qual nos precaver. Ao definir-se negativamente
a Idade Média por aquilo que ela efetivamente não é, a acusação se fantasia de veros-
similhança e adquire grande probabilidade de ser tomada por verdadeira, caso não se
redobrem os esforços de atenção no sentido de contextualizar e relativizar as proposi-
ções que a materializam. Várias dessas proposições passariam perfeitamente por verí-
dicas ou inquestionáveis, se não fossem puras negatividades; se não se limitassem
exclusivamente a ser mera expressão do ponto de vista capitalista e industrial. Isto é,
se não fossem essencialmente estranhas ao universo a que pretendem se referir.
Alguns exemplos tornarão essas palavras menos nebulosas. Imaginemos
que se diga que a Idade Média não tenha produzido grandes pintores e composito-
res. Escorregaremos na constatação fácil, se não lembrarmos imediatamente que


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os critérios e temáticas estéticos eram outros. E que, dado o espírito comunitário
do ateliê artístico medieval, a obra de arte não era considerada expressão de uma
personalidade autônoma, sendo a grande inspiração justamente a cópia e a imita-
ção dos mestres (Hauser, 1964; Chastel, 1991).
‘Artista’, aliás, é um termo inexistente ainda no Renascimento – se com
ele pretendemos nos referir a um especialista que, isolado das guildas e
corporações, trabalha sozinho em seu estúdio, para solitariamente produzir, com
ofuscamento de seus colaboradores, ‘a’ obra que concebe sem a intervenção, a
demanda ou a encomenda de outrem. Assim, é fácil compreender que o hábito
de realizar ou assinar obras artísticas individualmente ainda não se tivesse alas-
trado com a força que viemos a conhecer depois da emergência da cultura
individualista, e que pudesse mesmo passar, nos tempos medievais, por pecado
de orgulho. As primeiras assinaturas, tímidas, tinham aliás um aspecto que nos
pareceria bastante canhestro: “a obra que tu vês, Fulano a fez sabiamente”, ou
“Beltrano me fez” (Castelnuovo, 1989:256-257).
Embora no século XIII tenham aparecido os primeiros arquitetos, orgulho-
sos de si mesmos, respeitados, e assinando as obras com seus nomes (Duby,
1988b), era muito mais freqüente que o indivíduo negasse a autoria de uma músi-
ca, recusando sua responsabilidade. Mesmo sendo o verdadeiro compositor, nor-
malmente dizia que a ouviu de uma terceira pessoa (Burke, 1989). A Idade Média
era um tempo em que os autores se copiavam em cadeia, sem qualquer preocupa-
ção de citar-se. Tempo em que a originalidade podia ser mal interpretada, aproxi-
mando-se do pecado de orgulho, como acabei de observar (Eco, 1988). Keith
Thomas refere-se a um caso em que um arqueiro foi acusado de bruxaria, sim-
plesmente porque atirava bem demais (1971).
Suponhamos também que se afirme que a Idade Média não tenha feito gran-
des progressos na direção de uma ciência inteiramente racional. Em âmbito geral, a
afirmativa tem algo de verdadeiro, enquanto proposição factualmente absoluta. Não
obstante, seremos induzidos a erro se não a relativizarmos, considerando que na-
quela época a separação entre sujeito e objeto de conhecimento não se tinha ainda
completamente constituído, e que a atitude de olhar imparcial e objetivamente para o
mundo, embora fosse uma possibilidade aberta aqui e ali, não era prevalecente na
cultura, não era preocupação preferencial das pessoas, nem era valor particularmen-
te apreciado. Nos saberes, nas técnicas ou nas artes, as mentes generalistas e
polivalentes preponderavam sobre os especialistas, talvez ainda por nascer.
Ainda um terceiro exemplo. Quando se atribui à Idade Média incapacidade
de acumular grandes riquezas e de investir, antes de tropeçar na obviedade factual
do argumento, não deveríamos considerar que a acumulação capitalista não era
um princípio cultural do medioevo, não constituía meta ambicionada daqueles
tempos, e que em seu lugar existia uma ética presidida pelo prazer não adiado, pela
consumação, pelo esbanjamento e pela distribuição?


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Assim como ocorreu com os povos primitivos (‘sem’ Estado, ‘sem’ classes,
‘sem’ escrita, ‘sem’ história etc.), é comum procurar-se caracterizar a Idade Média
por ausências, ou seja, como um momento da história ao qual ‘faltavam’ traços que
consideramos fundamentais. Ora, afirmar que uma árvore não é um pé de carambola,
definindo-a, portanto, negativamente, é dizer muito pouco ou quase nada sobre ela.
Do mesmo modo, ao acusar-se a Idade Média de não possuir algo semelhante à
ciência, na verdade não se está propriamente falando da Idade Média: está-se tratan-
do de algo muito importante para a cultura pós-renascentista, não para a medieval.
Por semelhante caminho, o raciocínio foge. Foge da positividade do medieval
ao preferir abordá-lo pelo seu negativo, de modo estranho privilegiando nele exa-
tamente o que nele não existe. Obviamente não iremos muito longe, tentando
compreender macacos através da ausência de escamas. Porém o mais perigoso,
em raciocínios deste teor, está na insídia da persuasão que aí reside, pois quem
define a Idade Média por aquilo que efetivamente ela não é pode muito facilmente,
em seqüência, convencer que a definição, assim como seus corolários, seja intei-
ramente correta. Raciocinando pelo negativo, corro o risco de me deixar seduzir,
de me enganar por meu próprio raciocínio, de errar e permanecer no erro.
É importante também, preliminarmente, observar que a Idade Média que
nos é mostrada com mais freqüência e por divulgação em larga escala – nos livros
escolares, nos filmes de cinema e televisão, nas peças de teatro, na literatura de
ficção, nos best-sellers, isto é, aquela Idade Média romanceada dos cavaleiros,
das bruxas, dos carrascos, da Inquisição, da fome, das pestes, das torturas –
corresponde normalmente ao cenário final dos tempos medievais. Este retrato
configura mais propriamente a fisionomia de uma sociedade em crise, o rosto de
um sistema social, político e econômico que se defrontava dramaticamente com
seus limites e que se encontrava em vias de transformação.
Carrascos, bruxas, torturas, pestes, pobreza etc. não são as figuras típicas
da sociedade medieval organizada. Aparecem, do modo mencionado, como ex-
pressões da crise daquele tempo e têm um caráter político muito claro. Não se
pode dizer com absoluta certeza se são atribuíveis ao passado e seu colapso, ou se
devem-se à emergência do futuro e de seus novos poderes. Ocorre, entretanto,
que esses fenômenos e personagens se acomodam muito mal à idéia que gosta-
mos de cultivar sobre os progressos do capitalismo: compreende-se, então, a
quase insensível e irresistível tendência, que é ao mesmo tempo teórica e ideológi-
ca, a empurrá-los para trás no tempo.
Não se trata, de modo algum, de propor que vários desses eventos e perso-
nagens não estivessem presentes na Idade Média. Todavia, é necessário fazer uma
justa contextualização deles. Por exemplo: a bruxa existia, mas era personagem
mais ou menos rotineiro e cotidiano. Seu lugar por excelência não era absoluta-
mente a fogueira (Ginzburg, 1988). Existia como a sua vizinha e coexistia perfei-
tamente com esta. O Malleus Maleficarum, mais conhecido como o martelo das


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feiticeiras, de Heinrich Kramer e Jacob Sprenger, apareceu em Estrasburgo em
1487. Mesmo considerando-se que a perseguição às bruxas houvesse começado
havia um século, não se trata de algo exatamente medieval.
O carrasco também existia, mas sua importância nem de longe é comparável
à que veio a atingir no Século das Luzes e seguintes, quando foi até mesmo neces-
sário inventar máquinas para racionalizar o seu serviço (Lecherbonnier, 1991). Com
freqüência o verdugo não era alguém distinto do senhor local, que desempenhava
papel semelhante ao de juiz, além do de executor de sentenças. Torturas igualmente
existiam, embora o suplício da roda tenha sido introduzido na França em 1534, por
Francisco I (Delarue, 1980). Ao lado disso, é preciso considerar que as torturas
recebiam um sentido bem particular, no âmbito de concepções muito específicas
sobre corpo e alma, sobre o significado da dor, do sofrimento e da salvação.
É claro que existe uma duração, digamos, ‘oficial’, da Idade Média, so-
bre a qual muita tinta já escorreu das penas dos historiadores. Evidentemente,
não é com essa duração que estou convidando o leitor a trabalhar. Não é essa
duração, essa cronologia da história convencional, o que interessa ao antropólo-
go, mais preocupado com grandes conjuntos significativos do que com encade-
amentos de eventos. Na verdade, é uma Idade Média existente, por assim dizer,
ao lado e fora da Idade Média oficial, uma Idade Média ‘real’, que nos ocupará
(Le Goff, 1980). Colocarei todas as aspas do mundo na palavra ‘real’. Mas com
isso quero dizer que meu interesse se voltará para uma Idade Média que transbor-
dou e ultrapassou em muito os limites fixados pelas datações oficiais, um medieval
que permaneceu e que permanece, constituindo uma espécie de subsolo presente
e atuante em nossa cultura contemporânea.
Trataremos, assim, de uma Idade Média que em grande medida remanesce
como prática, como pensamento e como sentimento. Não apenas nas classes
populares, inclusive nas dos países de capitalismo avançado e industrializado, como
já destaquei. Estaremos lidando, nas páginas que se seguem, com algo ainda mais
efetivamente presente, com uma permanência indelével, inscrita em filigrana no ínti-
mo de nosso ser contemporâneo: enquanto nosso outro específico, o medieval, em-
bora possa estar cronologicamente ausente, continua insistentemente presente como
virtualidade atuante.
Fácil compreender: aquilo que não quero ser é parte ‘inabstraível’ do que
sou; aquilo que uma sociedade renega é intimamente integrante de si. Falaremos,
pois, de uma Idade Média que de certa forma não morreu. Que teve o seu grande
momento, é verdade, talvez não sendo agora mais do que espectro. De uma Idade
Média que passou, por assim dizer, do primeiro plano para uma espécie de basti-
dor. Mas o lençol d’água que ela constitui emerge com freqüência, sobretudo em
momentos dramáticos da nossa política e da nossa psicologia – não raro provo-
cando inundações. Parafraseando o historiador Pierre Nora (1984), ao evocar a


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Idade Média para entender a subjetividade contemporânea, de certo modo incen-
tivo o leitor a buscar não uma gênese, mas uma decifração do que somos à luz do
que pensamos que não somos mais.
Há uma Idade Média positiva. Para encontrá-la não é necessário fazer re-
curso a um princípio filosófico que recuse admitir que homens pudessem existir
mil anos nas mais densas trevas, como se esta fosse uma condição humanamente
suportável. Também não é preciso recorrer à experiência dos antropólogos, que
não registra sociedade que exista em semelhante situação. Basta simplesmente
deixar que os fatos medievais falem por si. Por esse caminho, quando falarmos de
medieval encontraremos, ao contrário, um grande crescimento de populações,
um fervilhar de movimentos e de trocas entre tribos e povos que se cruzavam e
interinfluenciavam. Descobriremos imensa dilatação dos espaços ocupados, ho-
mens se estabelecendo nos mais diversos pontos da Europa, vindos de fora e aí
lançando raízes. Verificaremos enorme florescimento de cidades, dos pequenos
burgos às grandes aglomerações. Saberemos das grandes viagens para a Ásia e
África, das aventuras de pessoas que foram longe e que retornaram com idéias e
imaginários enriquecidos e multiplicados. Visitaremos catedrais, castelos, fortifi-
cações, grandes prédios que são obras de arte, sínteses de uma visão de mundo,
obras nas quais não há um milímetro em que não se possa ver a concretização
artística dos usos, das concepções, do imaginário sagrado ou cotidiano.
Não obstante, não será este lado monumental da Idade Média que nos irá
ocupar para exibir sua positividade. Apenas seguiremos os passos de historiado-
res que, usufruindo da frutífera aproximação entre a antropologia e a história,
procederam mais ou menos como etnógrafos, tentando dar uma resposta ao repto
lançado por Braudel: “como sabem, os homens não comem nem bebem nos livros
de história tradicional” (1987:17). Estes historiadores, dos quais estudos específi-
cos mencionarei no decorrer da exposição, são viajantes que, em vez de se
locomoverem no espaço, se deslocaram no tempo, indo a outra sociedade para
compreendê-la em si, positivamente, fazendo esforço para registrar o banal, o
cotidiano, as pequenas coisas do dia-a-dia.
Como era fabricado o pão? Como era o forno em que este era assado? Qual
a sua localização? Quem tinha acesso a ele? Como eram as relações sexuais?
Quem tinha acesso a quem? Que posições? Com que finalidades? Como as pesso-
as se vestiam? Existia diferença entre roupa de homem e de mulher, de criança e
de adulto, vivos e mortos? Com que periodicidade se trocavam as roupas? Com
que finalidade? O que se comia? Como se preparavam os pratos? Com que aspec-
to eram apresentados? Como eram apreciados? Talheres existiam? Quais? Como
os doentes eram tratados? Onde ficavam? Que medicamentos usavam? Como se
concebiam as doenças? O que se fazia com quem morria? Como eram as exéqui-
as? E a convivência – se é que existia – entre vivos e mortos? Qual o valor da vida?


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Evidentemente, não será minha a tarefa gigantesca de responder a todas
essas perguntas. Cito-as fundamentalmente com intuito de ilustrar um esforço,
um tipo de preocupação, um modo de olhar que consiste em colocarmo-nos, de
certo modo, na posição de um existente daqueles tempos e, desse ponto de vista,
tentar compreender coisas tão ‘ínfimas’ como o olhar, o olfato, o paladar, o tato,
a sensibilidade auditiva, as etiquetas, os prazeres, os desprazeres...
De nossa parte, este esforço requer um grande cuidado, sobretudo para
evitar o anacronismo etnocêntrico de imaginar que os nossos comportamentos,
pensamentos e sentimentos sejam os ‘do Homem’ e que possam ser, conseqüen-
temente, projetados sobre os tempos medievais. Requer também um pouco de co-
ragem. Assim como é necessário ao etnógrafo ter a ousadia de sair do conforto de
sua casa, viajar às vezes milhares de quilômetros em circunstâncias adversas, para
viver em meio a pessoas que sentem e pensam de um modo completamente diverso,
ser-nos-á necessária alguma intrepidez: o destemor de abrir mão de nossa sensibili-
dade burguesa, para tratar de temas – fezes, lixo, sangue, morte – que, por sensibi-
lidade burguesa, normalmente estão afastados de nossa preocupação intelectual.
Na primeira parte deste trabalho, tentarei esboçar um panorama geral da
Idade Média, especialmente no que diz respeito às características mais marcantes
de sua cosmovisão – vida, morte, corpo, alma, espírito, matéria, indivíduo,
sociedade...  Começarei a colocar algumas primeiras idéias, muito amplas, que
nos servirão de ponto de apoio para alçar vôo, seguir trilhas e tentar fugas razoa-
velmente específicas na direção da sensibilidade medieval e seus desdobramentos.
Esta primeira parte é estratégica para realimentar ou dar inteligibilidade ao raciocí-
nio. De modo explícito ou implícito, convidarei constantemente o leitor a retornar
a esta base, ou campo de pouso, no curso dos capítulos da segunda parte.


29
Pa
rte I


31
1
Antes e Depois?
Proponho uma viagem estacionária. Começaremos tateando, desde o mais
geral, tentando destacar alguns fundamentos, alguns princípios de uma organiza-
ção possível, princípios que nos permitam penetrar na cultura medieval e sair dela
enriquecidos. Evidentemente não terei como fazer uma etnografia completa da
Idade Média: não tenho tal capacidade, nem é este o objetivo. Apenas procurarei
colocar em evidência algumas práticas e crenças, selecionadas voluntariamente
em função de meus propósitos. Com base nelas, tentarei depreender padrões ge-
rais a que recorrerei com freqüência, em busca de inteligibilidade a respeito do que
fluiu a partir desse tempo. Buscarei, embora precárias, algumas estruturas de
pensamento que atribuíam significação aos agires e sentires dos seres humanos de
então, e que continuam embutidas em nossos existires. Como “o passado não está
apenas no passado”, para lembrar as palavras de Jacques Le Goff (1985:219),
pretérito e presente formarão para nós uma espécie de globalidade única, em que
o antes e o depois coexistirão de maneira tensa, antagônica e cúmplice.
Sob um vocábulo singular, estaremos abrigando artificialmente
numerosíssimos plurais. O longo medieval, que pôde ser datado “a partir do se-
gundo ou terceiro século de nossa era” (Le Goff, 1980:11), nada tinha do sombrio
silêncio que nele viram os humanistas do Renascimento, os iluministas do século
XVIII ou os crentes nas religiões do progresso, dos séculos seguintes. Nada de
estagnação, absolutamente: a Idade Média constituiu os séculos em que germina-
ram – ainda que paradoxalmente e em muitos casos para parasitá-la e corroê-la –
coisas absolutamente fundamentais no que diz respeito à edificação da modernidade
(Gimpbel, 1976): a nação, o Estado, a universidade, a máquina, o relógio, a conta-
bilidade, a divisão do trabalho, a individualidade...
Não é este todavia o seu lado intrinsecamente mais rico. A Europa medieval
foi uma efervescência de movimentos, migrações, batalhas, trocas, comércio –
interpenetrações que se materializaram, ora na sucessão, ora na contemporaneidade,
em misturas de elementos inteiramente díspares. Em primeiro lugar, os vários
grupos que, desde tempos imemoriais, povoavam aquele território, gente prece-
dente e às vezes resistente à expansão romana: os lusos, os bretões, os bascos, os


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gauleses, os frísios, os batávios, os saxões, os aquitães... Em seguida, a conquista
de parte significativa desses grupos nativos, itálicos, ibéricos, célticos, e sua
romanização – quase nunca inteiramente consumada. Em terceiro lugar, a invasão
desse universo, dessa conjunção romanizada, pelos chamados bárbaros –
germânicos, eslavos, árabes... novas tribos que se vieram adicionar a uma paisa-
gem cultural já sensivelmente heteróclita. Nos prenúncios dos tempos medievais,
a Europa era, assim, um continente cujo conteúdo configurava uma extraordinária
diversidade cultural: cada um desses povos tinha suas tradições, línguas, religiões,
rituais, mitologias, culinárias, organizações sociais…
Ao mesmo tempo – quarto e duplo movimento – esse grande caleidoscópio
de diferenças se expôs, nos séculos propriamente medievais, à pressão de duas
forças que o pretendiam homogeneizar e unificar. A lei do antigo Direito Romano,
essencialmente imperial, por um lado, tentando se impor muito lentamente, com o
Estado. O catolicismo universalista, por outro, aspirando obsessivamente a con-
verter, não obstante se defrontasse com toda sorte de resistência por parte das
populações bárbaras ou pagãs, com as quais desde os primeiros tempos e ainda
por muitos séculos foi obrigado a conviver, em muitíssimos casos fazendo con-
cessões. Desses dois movimentos homogeneizadores, o catolicismo é, sem dúvi-
da, o mais crucial para entrarmos no universo da Idade Média. O Estado, talvez, o
mais significativo para dele sairmos.
Especialmente na Europa ocidental, a Igreja foi a única instituição realmen-
te poderosa e universal, sobretudo depois da queda do Império Romano. Sobre as
circunscrições administrativas do império, a Igreja decalcou as religiosas. Por
exemplo, cada diocese católica correspondia em geral a uma civitas romana
(Pirenne, 1964). Na Idade Média, fazer parte da Igreja era uma escolha voluntária
apenas em teoria: muito ao contrário, e de maneira sempre mais e mais abrangente
e incisiva, na prática a adesão religiosa talvez fosse a mais estritamente obrigatória
das decisões de um ser humano medieval.
Isto valia não apenas para homens simples e comuns: mesmo reis e potentados
tremiam diante da possibilidade ou da ameaça de serem afastados da Igreja. Esta era
onipresente, quer como mosteiro, capela, catedral ou santuário. Reinava dos cam-
pos e das aldeias mais humildes às cidades mais importantes. Suas torres e campa-
nários dominavam a paisagem longínqua e eram o que primeiro os viajantes enxer-
gavam. Em uma Europa caracterizada por admirável variedade de dialetos, leis, culi-
nárias, moedas, padrões de pesos e de medidas, o catolicismo representava o único
idioma partilhado universalmente: o mesmo credo, mesmos rituais, mesmas missas,
celebradas pelos mesmos gestos, que eram encadeados segundo a mesma ordem.
Ainda que se considere o papel desse catolicismo unificador, falar em Idade
Média no singular é referir-se a uma imensa abstração. Do ponto de vista da
cultura, significa fazer uso de uma generalização transbordante, que trata como
coisa única um verdadeiro oceano de diferenças, de contrastes recíprocos e respec-


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tivos. Estes contrastes recíprocos não se tornam semelhança senão pelo fato de,
vistos de fora e de longe, serem genericamente considerados como ‘outros’, isto
é, como ‘diferentes de nós’ – ou seja, como diferentes do nós posterior, do nós
imbuído de catolicismo reformado, de capitalismo, de Estado, de individualismo...
Deste modo, ao falar de Idade Média, no singular, estaremos trabalhando com um
modelo extraordinariamente generalizador e, portanto, muito passível de aqui e ali
ser desafiado e falseado por registros e informações empíricas que a ele não se
ajustem. É bem normal que assim seja.
Contudo, nosso problema apenas começa aí, infelizmente. Não nos basta
tomar precauções contra a tendência etnocêntrica de homogeneizar o outro, atri-
buindo-lhe, um excesso de semelhança, por meio de uma primeira generalização,
ditada pelo nosso ponto de vista ideológico, determinado pelo Estado e pelo cato-
licismo. Realisticamente, nada, ou pouco, conseguiremos, do mesmo modo, se
nos deixarmos afogar no mar das diferenças ‘bárbaras’ e ‘selvagens’, se nos
permitirmos devorar pelo redemoinho insaciável das diferenças ilimitadas. Serei,
por isso, obrigado, embora por razões distintas, a operar com uma espécie de
segunda generalização. Por intermédio desta, tentarei atenuar o excesso de dife-
rença, tornando-a manuseável e procurando dar-lhe uma forma mais ou menos
organizada ou sistemática.
Respeitadas as limitações teóricas, empíricas e também políticas dessas
grandes generalizações, pode-se dizer, simplificadamente, para organizar o pensa-
mento, que coexistiam nos tempos medievais dois tipos de cultura, como Michelet,
obedecendo ao belo estilo de sua pena, já havia registrado (apud Le Goff, 1980:29):
sentado à margem deste grande rio poético da Idade Média, diviso
duas fontes diferentes pela cor de suas águas (...) duas poesias, duas
literaturas: uma cavalheiresca, guerreira, amorosa; cedo esta se torna
aristocrática. A outra, religiosa e popular (…).
Uma cultura, assim, ‘oficial’, aristocrática, que conhecemos razoavelmen-
te bem. A cultura da corte, dos nobres, da Igreja – especialmente de seu alto clero,
com sua liturgia e hierarquia. Era a cultura de língua ‘culta’, de quem sabia ler e
escrever, de quem falava latim, que era uma espécie de idioma internacional dos
intelectuais. Essa foi a cultura da arte considerada digna, preservável, que, por
isso, chegou até nós. Cultura de quem tinha vocação cosmopolita e que voava nas
asas expansionistas da romanização e da cristianização.
É muito importante registrar que aquilo que começou a se constituir aos
poucos, a partir dos séculos finais da Idade Média, não foi apenas uma sociedade
de corte aqui e outra ali. Foi uma aristocracia, uma elite, que abraçou toda a
Europa ocidental, com seu centro em Paris, dependências em quase todas as
demais aristocracias e com afloramentos em todos os outros círculos que arvora-
vam pertencer à boa sociedade. Tais pessoas, com o tempo, serão encontráveis

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