Cap 00 corpo historia 2014. pmd


particular, não se pode afirmar enfaticamente que constituíssem, em sua maio-



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particular, não se pode afirmar enfaticamente que constituíssem, em sua maio-
ria, a linha de frente do capitalismo português. Os colonizadores aqui aportaram
ainda, e em muito, embebidos de uma visão de mundo anterior à cultura capi-
talista, que na época era apenas emergente na Europa.
Esta característica cultural dos colonizadores não será desprovida de con-
seqüências para matizar em muito nossas sensibilidades atuais no Brasil,
notadamente naquilo em que discrepam, em todas as camadas da população, do
que se observa nos países do Primeiro Mundo. Ela imprimiu sua marca em nossas
sensibilidades, assim como o fez no vocabulário das classes populares, nas nos-
sas festas folclóricas, na literatura de cordel, nas nossas crenças religiosas, nos
nossos hábitos alimentares, nas nossas práticas cotidianas.
Em muitos momentos, escrevendo sobre a cultura medieval, tive a impres-
são cristalina de estar passeando pelas nossas cidades e, sobretudo, pelas nossas
favelas, pois no Brasil ou na Europa, para retomar uma citação de Stubbs (The
Constitutional History of England) feita por Alan Macfarlane (1989:199), “con-
forme descemos na escala social, a diferença entre a vida moderna e a medieval
vai rapidamente diminuindo”. Tal presença, na sociedade brasileira, não cessa de
contaminar, diga-se de passagem, até mesmo setores bastante adentrados no uni-
verso moderno e industrial. Acho que o leitor terá, aqui e ali, sensação análoga.
A cultura brasileira é, em medida considerável, ante e anti capitalista, como
costumo dizer. Semelhante afirmativa, talvez exagerada, será fácil de entender e de
confirmar se considerarmos que aqui o capitalismo lançou bases firmes praticamen-


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te apenas nas regiões que receberam imigrantes já razoavelmente doutrinados em
uma cultura capitalista. Foi mais ou menos o caso dos alemães no Sul e, de certa
maneira, dos italianos em São Paulo. O argumento adquire muito mais força e se
torna mais enfático se não nos limitarmos a considerar apenas a faceta européia de
nossa constituição e se trouxermos à cena nossos personagens indígenas e africa-
nos, quase unanimemente adversos à cultura que os vem escravizando e dizimando.
Para fazer essa viagem à Idade Média é preciso tomar alguns cuidados.
Gostaria que antecipadamente me desculpassem os leitores dispensados de alerta
em relação a esses aspectos. Ainda assim, considerei prudente tornar explícitas
algumas armadilhas que estão à espreita e que certamente poderiam inviabilizar
nosso raciocínio de maneira perversa, transformando o nosso ponto de partida
estratégico em um pântano em que nos faríamos inadvertidamente afogar.
Primeiro, mas não em ordem de importância, tomemos cuidado com as
generalizações. Estamos sempre ameaçados pela tendência a acreditar que o outro
seja homogêneo. Com facilidade dizemos: ‘na cultura chinesa...’ – e esquecemos
que aí dentro figura cerca de um quarto da humanidade, um verdadeiro oceano de
experiências e de diferenças, algo muito maior do que se poderá algum dia vir a
conhecer. Analogamente, um cuidado fundamental é lembrar, inclusive para compen-
sar liberdades que adiante tomarei, que a Idade Média não é homogênea e que sob este
rótulo abrigamos, para dela fazer abstração, uma imensa multiplicidade de regiões, de
povos, de grupos e também de classes sociais. Há ainda, sob o termo, uma pluralidade
de tempos, pois esses mil anos que constituem a história medieval não se limitaram
absolutamente a reeditar de maneira monótona o mesmo texto.
É importante, em especial como antropólogo, registrar esse cuidado com a
generalização ou com a atribuição de homogeneidade ao outro. É bastante co-
mum, na mitologia dos antropólogos, situar o nascimento da antropologia na des-
coberta do Novo Mundo. Segundo esse mito de origem, os homens teriam vivido
acomodados a uma espécie de monotonia cultural antes e principalmente durante
a Idade Média. Repentinamente, com a descoberta dos povos americanos, ter-se-
iam despertado uma súbita consciência da diferença cultural e uma curiosidade
particular, anteriormente inexistentes. Cita-se, a este propósito, Montaigne, parti-
cularmente em seu conhecidíssimo ensaio sobre os canibais, como se ele fosse
precursor de um novo saber dedicado à diferença, como se representasse uma
espécie de pai fundador do raciocínio propriamente etnológico.
De fato, algo muda por esta época no que diz respeito ao entendimento da
diferença. Sem embargo, do ponto de vista factual, essa idéia de que a diferença
fosse desconhecida está totalmente equivocada. Como Marc Bloch demonstrou
com toda clareza em seu importante trabalho sobre a sociedade feudal (1968), a
Europa da Idade Média dista muitíssimo da paisagem de semelhança que o racio-
cínio supõe: conhecia e traficava íntima e intensamente com a Ásia, relacionava-


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se com toda a Europa do Norte, mantinha contatos freqüentes com a África,
especialmente com o norte muçulmano, além de ser ela mesma um gigantesco
caldeirão de índoles, de crenças, de religiões, de povos, de destinos, enfim.
A diferença obviamente não nasceu com as grandes navegações ou com o
descobrimento da América. Aquilo que mudou – mas por outras razões que não as
grandes navegações ou as grandes descobertas – foi a atitude diante do outro. A
atitude de tentar compreender o outro como objeto e a postura objetificante ao explicá-
lo é que encontram um nascedouro mais ou menos por essa época. Mas essa atitude
de tornar o outro objeto é também, de certa maneira, um procedimento de negar o
outro enquanto tal. No limite, ela quer domesticá-lo, privá-lo de sua alteridade selva-
gem, reduzir suas ações às próprias, capturar e fazer devorar sua lógica pela do sujei-
to. É necessário que nos precatemos, portanto, contra essa tendência etnocêntrica ao
empobrecimento semiológico da Idade Média – procedimento que consiste em
desqualificá-la para, sobre esta desqualificação, fundar a ilusão de superioridade do
conhecimento que pensa poder abarcá-la.
Ainda nesta direção, é preciso, em seguida, afastar alguns preconceitos.
Afirmei anteriormente que a Idade Média é aquilo contra o que o capitalismo
simbolicamente se definiu. Na visão de mundo deste sistema, aqueles séculos
constituiriam uma espécie de território de barbárie, noite de mil anos, floresta de
pedra, idade das trevas, período da história em que nada ou quase nada cultural-
mente relevante teria acontecido. Tempo em que tudo o que fosse virtude pelo
prisma das idéias capitalistas simplesmente inexistiria. Época em que todas as
‘conquistas’ do futuro permaneceriam ausentes.
Antes de tudo, devemos ver nessas opiniões uma atitude política. O siste-
ma capitalista nasceu, como sabemos, da ruptura das relações sociais, políticas e
econômicas medievais e se definiu por antagonismo a estas. Muitos dos epítetos
que se lançam contra a cultura medieval têm raiz exatamente nesse enfrentamento
– que é globalmente simbólico, mas ao mesmo tempo político e ideológico: os
preconceitos decorreriam automaticamente de o medieval ser o diferente especí-
fico do capitalismo adiantado; seriam a própria concretização dessa alteridade


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