Cap 00 corpo historia 2014. pmd


participantes vão embora, levando dele a imagem de alguém vivo, e não a de um



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participantes vão embora, levando dele a imagem de alguém vivo, e não a de um
defunto – e isto para mais facilmente poderem desprezar o fato de que uma morte
aconteceu. Nas versões mais leves, temos os drive-thru funerals, estabelecimentos
nos quais – na época do fast food, da fast spirituality e do fast sex – é possível assinar
o livro de condolências sem sair do automóvel, certamente para olvidar bem rápido,
antes do próximo compromisso agendado. Quanto ao morto, é possível que vá confor-
tavelmente habitar uma dessas moderníssimas sepulturas equipadas com bateria solar,
em que, como diz o anúncio, poderá “escutar sempre” as suas músicas prediletas.


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Eis o ponto em que acaba por desaguar esse processo que começou nas
primeiras sepulturas individuais do século XII: quase mil anos de história, certamen-
te ainda inacabada. À medida que se estabelece no poder, a burguesia vai impondo
também aos outros as suas angústias de morte, que são, sobretudo e fundamen-
talmente, modos de vida. Com o decorrer dos séculos, não será somente da bur-
guesia o privilégio desses sofrimentos. Seguindo os passos e as aspirações das
elites, logo será a vez de os pequenos burgueses terem os seus fantasmas, susci-
tados pela angústia da morte. E chegará também o tempo dos proletários, operários
e mesmo camponeses, pois, cada dia mais, estes segmentos se vão embebendo dos
novos sonhos, tornando-se cúmplices das concepções de universo e do projeto
existencial da sociedade capitalista, industrial e de consumo. Apesar das resistências
que sempre demonstraram – sobre as quais nunca será excessivo insistir.


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Alcovas e Corredores
A separação de corpos e de individualidades que a história ocidental vem
exibindo não se refere apenas ao contato entre cadáveres, nem às relações entre
estes e os vivos. Não é apenas táctil e não se verifica exclusivamente na morte.
Está sobretudo na vida, é também visual, olfativa, gustativa, auditiva... No decor-
rer desta história, os diferentes sentidos vão gradativamente manifestando-se na
delimitação das fronteiras disso a que se poderá chamar ‘meu corpo individual’.
Este trabalho contínuo de demarcação de territórios individuais está associado às
práticas mais concretas do cotidiano e ilustra cristalinamente que existe uma his-
tória da apropriação privada do eu, assim como há uma história da propriedade
dos bens de produção.
Se quisermos entender as modificações de mentalidades e de sensibilidades
que vieram a produzir a espécie de ser humano que hoje constituímos, é estrategi-
camente interessante seguir a pista que nos oferecem as transformações por que
passaram os ambientes imediatos que enquadraram o que havia de mais corriquei-
ro, cotidiano e significativo das vidas humanas. Refiro-me às habitações, especi-
ficamente às suas partes e seus componentes. Nas residências, as sociedades
costumam materializar e tornar visíveis estruturas sociais e intelectuais abstratas,
de difícil observação alhures. Além disso, normalmente as moradias põem à dis-
posição – para a utilização de seus membros, mas também para o olhar perscrutador
do analista – aqueles equipamentos adequados ou necessários à viabilização de um
modo particular de existir individual e coletivamente. A casa é, pois, um “locus em
que necessidades simbólicas e sociais estão articuladas com necessidades técni-
cas”, para usar as palavras de Pierre Bourdieu (1979:135). A experiência tem
mostrado que o estudioso da vida social poucas vezes se arrepende de obedecer
às buscas sugeridas por este filão.
Entretanto, esta estrada não deixa de apresentar dificuldades respeitáveis, na
medida que pretendamos nos aprofundar no tempo. Na maior parte das vezes, o que
permaneceu das casas medievais, sobretudo das menos ricas e imponentes, foi
ruína. A arqueologia não exibe muito mais do que restos mortais, que apenas por
meio de recursos paralelos (textos, iconografia etc.) podem revelar alguma coisa


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sociologicamente segura. Muito do que era fundamental nos cotidianos nem restos
mortais nos legou. Foi o caso, por exemplo, de boa parte das mobílias e instrumen-
tos feitos em madeira, das tapeçarias e dos objetos de decoração feitos de material
têxtil ou outros perecíveis – mas os inventários nos falam deles e nos asseguram
terem sido razoavelmente numerosos.
Já fiz uma rápida referência ao fato de que as casas medievais apresenta-
vam um aspecto muito mais público e coletivo do que aquelas em que hoje passa-
mos parte considerável de nossas vidas. Fechavam-se menos em si e representa-
vam um corte mais gradual do que qualitativo em relação ao exterior. Abriam-se
para campos e ruas, tinham portas e janelas franqueáveis sem grandes cerimônias.
Fundamentalmente, a existência no medievo, como vimos, transcorria ao ar livre.
As casas da Idade Média não eram lugares de enclausuramento, mesmo em seus
interiores. Seus cômodos eram poucos, mas de natureza multifuncional. Seus
móveis também não eram numerosos, embora se destinassem à utilização simultâ-
nea por muitos (bancos coletivos em vez de cadeiras individuais, por exemplo). E,
se a compararmos às casas de hoje, poderemos afirmar com toda tranqüilidade
que se destinavam a um número enorme de usuários.
A hospitalidade era uma das características mais espontâneas e evidentes
da vivenda medieval. Todo homem que merecesse este título abria as portas de
sua casa, convidava à sua mesa e oferecia abrigo sob seu teto (Duby, 1978). Tal
traço não era de forma alguma um distintivo de riqueza material, nem um acon-
tecimento restrito aos grandes dias. Não: a hospitalidade era uma regra geral e
plenamente cotidiana, que se teatralizava na sala, se houvesse uma, no quarto,
com freqüência, ou na cozinha, mais comumente. Até mesmo o eremita era
homem de encontros e acolhimento, pois seu abrigo sumário muitas vezes ser-
via de etapa para o viajante desgarrado. Toda a literatura medieval dá testemu-
nho dessa função geral de guarida (Dalarun, 1990). Naqueles tempos ainda não
existiam lugares funcionalmente predefinidos para a hospitalidade. Também não
havia instantes especificados: com exceção talvez das ocasiões de doença,
morte ou festividades, era habitual que os hóspedes chegassem sem avisar, no
momento em que bem entendessem e que se demorassem por tempos que cer-
tamente nos pareceriam absurdos.
Os visitantes podiam ser os mais diversificados. Em grande parte a popula-
ção do Ocidente continuava a ser nômade: era o caso principalmente dos chefes –
reis, nobres, bispos, com os séquitos numerosos que sempre os acompanhavam.
Tanto podia um humilde camponês receber em seu casebre um nobre em viagem
com sua comitiva, como deveria este abrir suas portas para camponeses, aldeões,
magistrados, fidalgos. A hospitalidade era um atributo essencial da nobreza, de
forma tal que se observava neste meio social algo bem próximo de uma
interpenetração entre o privado e o público, quase osmose.

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