Cap 00 corpo historia 2014. pmd



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RODRIGUES, JC. O corpo na história [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1999. 
Antropologia e saúde collection, 197 p. ISBN: 978-85-7541-555-9. Available from: doi: 
10.7476/9788575415559
. Also available in ePUB from: 
http://books.scielo.org/id/p9949/epub/rodrigues-9788575415559.epub
 
 
 
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O corpo na história 
 
 
José Carlos Rodrigues 


O Corpo na História


FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ
Presidente
Paulo Gadelha
Vice-Presidente de Ensino, Informação e Comunicação
   Nísia Trindade Lima
EDITORA FIOCRUZ
Diretora
   Nísia Trindade Lima
Editor Executivo
   João Carlos Canossa Pereira Mendes
Editores Científicos
   Carlos Machado de Freitas e Gilberto Hochman
Conselho Editorial
Claudia Nunes Duarte dos Santos
Jane Russo
Ligia Maria Vieira da Silva
Maria Cecília de Souza Minayo
Marilia Santini de Oliveira
Moisés Goldbaum
Pedro Paulo Chieffi
Ricardo Lourenço de Oliveira
Ricardo Ventura Santos
Soraya Vargas Côrtes
C
OLEÇÃO
  A
NTROPOLOGIA
 
E
  S
AÚDE
Editores Responsáveis: Carlos E. A. Coimbra Jr.
  Maria Cecília de Souza Minayo


O Corpo na História
                       
José Carlos Rodrigues
3
a
 Reimpressão


Copyright © 1999 do autor
Todos os direitos desta edição reservados à
F
UNDAÇÃO
 O
SWALDO
 C
RUZ
 / E
DITORA
1
a
 edição: 1999
1
a
 reimpressão: 2001 | 2
a
 reimpressão: 2007 | 3ª reimpressão: 2014
Projeto gráfico e editoração eletrônica
   Angélica Mello
Capa
   Danowski Design
Ilustração da capa
   A partir de desenho de Hans Arp, Indian Ink , 1917
Preparação de originais e copidesque
  M. Cecília Gomes Barbosa Moreira
Revisão
  Beatriz de Moraes Veira
Catalogação na fonte
Centro de Informação Científica e Tecnológica
Biblioteca Lincoln de Freitas Filho
2014
E
DITORA
 F
IOCRUZ
Av. Brasil, 4036 – 1
o
 andar – sala 112 – Manguinhos
21040-361 – Rio de Janeiro – RJ
Tels: (21) 3882-9039 e 3882-9007  /  Telefax: (21) 3882-9006
editora@fiocruz.br / www.fiocruz.br
R696c
Rodrigues, José Carlos
O Corpo na História/ José Carlos Rodrigues. – Rio de Janeiro : Editora
Fiocruz, 1999.
198 p. (Coleção Antropologia e Saúde)
ISBN: 85-85239-16-6
1.Antropologia
CDD. - 20. ed. - 301.2


Dedico este trabalho à
inesquecível alegria de minha irmã,
Maria Júlia,
repetindo com o poeta:
Mas as coisas findas,
Muito mais que lindas,
Essas ficarão...


... corpo, alma, sociedade,
 tudo se mistura.
... ainda existem muitas luas mortas, ou pálidas,
ou obscuras no firmamento da razão.
Marcel Mauss
S
UMÁRIO


Apresentação ............................................................................................. 11
Introdução .................................................................................................. 15
PARTE I
1. Antes e Depois? ...................................................................................... 31
2. Fusão e Separação .................................................................................. 41
3. Espírito e Matéria .................................................................................... 55
4. Seriedade e Riso ...................................................................................... 65
PARTE II
5. Proximidade e Distância .......................................................................... 83
6. Cidade e Campo ...................................................................................... 97
7. Higiene e Vigilância ............................................................................... 109
8. Indivíduo e Decomposição .................................................................... 121
9. Alcovas e Corredores ............................................................................ 137
10. Exterior e Interior ................................................................................ 155
Conclusão ................................................................................................. 173
Referências Bibliográficas .................................................................... 193


11
Apresentação
Aqui estão os resultados parciais de um estudo que venho desenvolvendo
há alguns anos, tendo inicialmente por objeto as representações sociais do corpo e
da morte. Agora, ainda nas trilhas desta problemática, proponho percorrer algu-
mas das inesgotáveis formas de (in)sensibilidade na cultura ocidental – contatos cor-
porais, suportabilidade de odores, rumores, sabores... Digo que estes resultados são
parciais porque fico convencido, a cada passo da pesquisa, que mais venho aprenden-
do sobre minhas lacunas de conhecimento do que obtendo satisfação com o que
penso ter aprendido.
Apesar disso, pude reunir uma quantidade não desprezível de informa-
ções, sobre as quais foi possível formular algumas poucas idéias. Entre essas
informações, uma parcela ponderável provém de pesquisas de historiadores,
sob a forma de variados estudos acerca de temas específicos e localizados,
relativos ao corpo: hábitos de toilette, representações da morte, odores, pudo-
res, horrores... Tais estudos históricos correspondem, em geral, à orientação
que receberam de Marc Bloch no seu clássico A Sociedade Feudal (1968):
“Uma história verdadeiramente digna desse nome, mais que as tímidas tentati-
vas a que nos obrigam hoje os meios postos à nossa disposição, dará às ques-
tões do corpo o espaço que elas merecem”.
Sendo antropólogo, tentei ser um aprendiz desses historiadores. Ao mesmo
tempo, procurei transbordar a especificidade temática das pesquisas localizadas
que estes realizam. Arrisquei-me, aqui e ali, a esboçar um quadro amplo e genéri-
co, em que as pesquisas históricas singulares poderiam receber um tratamento
globalizante em termos de cultura.
Esta dimensão generalizadora não se limitou a situar os dados que os
historiadores nos fornecem, mostrando o que significam no âmbito de um
sistema de relações sociais específico, a sociedade ocidental moderna. Este
transbordamento se esforçou também por colocar em evidência algo do que
penso ter sido possível aprender com os ensinamentos sobre concepções cor-
porais que continuamente nos oferecem os povos e os tempos, dos quais os
antropólogos sempre puderam extrair verdadeiros tesouros.
Reconheço que, na aventura que convido o leitor a compartilhar, corro
seriamente o risco de desagradar a ambos. Ao historiador, pelo que lhe pode pare-


12
cer falta de rigor com a cronologia, desatenção ao detalhe e generalização precipi-
tada. Ao antropólogo, possivelmente, por trabalhar com material de segunda mão,
por aparentemente cultuar divindades que não são as oficiais da tribo e por apre-
sentar um trabalho de gabinete, não de campo.
Entretanto, foi conscientemente que resolvi passar por estes perigos. Jul-
guei necessária a organização do presente estágio de meu trabalho de pesquisa.
Esta tarefa, em grande medida, requeria a elaboração de um texto em que eu
fizesse o exercício de articular algumas informações e algumas idéias desse setor/
estágio de meus estudos, assim como a submissão de meus dados e pensamentos
ao crivo de um público mais extenso e, talvez, mais exigente. Isto por um lado.
Por outro, os riscos a que resolvi me expor correspondem a ossos mais
ou menos inevitáveis do ofício intelectual. Se a diferença entre as ciências é de
ponto de vista, e não de objeto empírico, freqüentemente se é obrigado a passar
pelo constrangimento de abordar temáticas que poderiam pretensamente ‘per-
tencer’ ao feudo de outra disciplina. Quase sempre, nestes casos, procura-se
reduzir o acanhamento, decorrente desta invasão de domicílio, recorrendo-se à
justificativa de se estar realizando um estudo inter, multi ou transdisciplinar,
buscando-se quase magicamente uma prévia absolvição, ungindo-se com o ar-
gumento bem comportado da colaboração entre disciplinas. Em decorrência,
estas continuam, como sempre, essencialmente separadas, como se as tradicio-
nais fronteiras disciplinares fossem petreamente inalteráveis. Não concordo muito
que as coisas devam ser assim.
Embora reconheça que, em planos específicos, durante as últimas três ou
quatro décadas, um diálogo muito rico entre a antropologia e a história nos tenha
brindado com resultados extraordinários, não acredito que tenham sido os méritos
da inter, trans ou multidisciplinaridade o que de mais precioso se pôde retirar desta
experiência. Penso que seja exatamente a indisciplinaridade o ensinamento maior
que se deve usufruir de diálogos deste tipo e mesmo de enfrentamentos entre
disciplinas diversas: irreverência contra a propriedade privada de campos teóricos
e empíricos; insolência contra a canonização de métodos.
Não me parece, absolutamente, que as lições contidas em obras como as
de Georges Bataille, Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault, Edgar Morin, Gilles
Deleuze, Jean Baudrillard, entre tantos outros, possam ser acomodadas nos esca-
ninhos desta ou daquela disciplina específica. Muito menos concordo que sejam
inter, multi ou trans qualquer coisa. Fazendo um jogo irônico com as palavras de
Lévi-Strauss, embora seguindo seu exemplo, diria, aos que vierem me cobrar um
trabalho disciplinar de antropólogo, que a antropologia também “leva a tudo, com
a condição de se sair dela”.
 É muito importante para mim deixar registrados alguns agradecimentos.
Ao departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense, ao qual


13
uma versão inicial deste trabalho foi apresentada como tese em um concurso
público para professor titular. Na ocasião da apresentação acadêmica deste traba-
lho, tive a honra de ser examinado pelos professores Luiz de Castro Farias, Roberto
DaMatta, Roberto Cardoso de Oliveira, João Baptista Borges Pereira e Sylvio Coelho
dos Santos. Destes examinadores, auferi comentários que me sugeriram algumas
pequenas modificações, ao mesmo tempo que me encorajaram à publicação. Sou-
lhes agradecido pelo que me ofereceram de boa-fé.
Em virtude da circunstância acadêmica de sua origem, o leitor poderá
encontrar nas páginas seguintes uma argumentação e uma linguagem capazes de
interessar também ao não-especialista. Isto acontece porque penso que uma
tese para professor titular no campo das ciências sociais deva ser um exercício
intelectual que demonstre a habilidade de seu autor para interligar pesquisa, ensi-
no e extensão, funções primordiais da universidade. Tal capacidade se deve ma-
nifestar principalmente por sua abertura pessoal, assim como a de seu campo
acadêmico, à curiosidade de outros.
Por estas razões, procuro neste livro bem mais do que organizar para mim
e para meus colegas (antropólogos e pesquisadores especializados em temas como
representações do corpo e da morte, mentalidades e sensibilidades corporais) um
material segmentar, relativo a assuntos sobre os quais venho trabalhando há mais
de vinte anos, pelo menos desde a preparação de minha dissertação de mestrado,
entre 1971 e 1974, que resultou na publicação de meu primeiro livro, Tabu do
Corpo (1979). Tenho também a ambição de fazê-lo interessante e de dirigi-lo a um
público amplo. Esquematizando as coisas (e, de certo modo, exagerando-as bas-
tante), mais do que afirmar verdades – idealmente tarefa do cientista – preferiria
por meio deste trabalho suscitar idéias – por excelência missão do professor.
Sou grato igualmente ao departamento de Comunicação Social da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro, pois, a exemplo do primeiro, nele tam-
bém pude encontrar as condições que propiciaram a realização de mais este traba-
lho, apesar de todas as dificuldades que sabemos fazer parte de nosso cotidiano
universitário. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), que me tem apoiado durante praticamente toda a carreira como pesqui-
sador e professor, concedendo-me seguidamente bolsas de aperfeiçoamento,
mestrado, doutorado no exterior, pesquisa especial e produtividade científica. Com
muita freqüência, este suporte incentivou também meus alunos e ex-alunos,
alguns dos quais são hoje brilhantes professores e pesquisadores.
Agradeço a Ivone Barros, que transcreveu fitas e fichou livros, muitas
vezes trabalhando até alta madrugada, ajudando-me em atividades indispensáveis
para o bom andamento do que Wright Mills chamava de "artesanato intelectual",
tarefas que, em face de meus presentes compromissos profissionais, são-me
praticamente impossíveis de realizar pessoalmente. Expresso gratidão a meus alu-
nos, dos quais muitos, tendo assistido a cursos em que expus parte do material e


14
das idéias aqui contidos, incentivaram-me a dar-lhes forma escrita. Deles se pode-
rá sentir a influência a cada linha, como resposta a suas perguntas, dúvidas, silên-
cios, opacidade ou cintilância de olhares – esses olhares que são como verdadeira
bússola para o professor.
A meus amigos, que souberam compreender as muitas e prolongadas au-
sências que este trabalho exigiu. Entre estes, sou especialmente grato a Marcio
Goldman pelo socorro que sempre me pôde prestar nas minhas quase
incontornáveis dificuldades de lidar com computadores, sem falar da solidarieda-
de fraternal e da troca intelectual nas conversas que em certos momentos foram
cotidianas. Quero também lembrar Mônica, Marisa, Márcia, Monique, Mário,
Myres... para, diplomaticamente, entre tantos e tantos amigos, mencionar explici-
tamente apenas alguns daqueles cujos nomes o destino quis que tivessem essa
mesma inicial.
Agradeço também a minha mãe e a meus irmãos, que aceitaram minha
inconstância durante a realização deste trabalho, mesmo sem entender muito bem
o porquê ou o para quê dela. Também a meu pai, que faleceu quando eu estava
absorvido, trabalhando. Quero agradecer sobretudo à minha filha, Aline, descul-
pando-me imensamente pela aparente distância a que a solidão deste estudo tantas
vezes me obrigou.


15
Introdução
A história leva a tudo, com a condição de se entrar nela.
Jacques Le Goff
Neste trabalho tentei uma consideração especial de nossa cultura ocidental.
Procurei oferecer dela uma apreensão global, quer do ponto de vista dos grandes
processos que caracterizaram sua formação, quer, sobretudo, do ângulo dos pe-
quenos fluxos que configuraram as mentalidades e sensibilidades dos seres huma-
nos em que ela se materializou. De modo mais específico, dediquei meus esforços
a colocar em evidência alguns dos movimentos que vieram a constituir historica-
mente esse fenômeno que se chama correntemente de ‘subjetividade’ contempo-
rânea – uma derivação direta, como veremos, da individualidade moderna.
Proponho, para desenvolver meu projeto, uma espécie de pacto com o
leitor: sugerir mais do que afirmar; insinuar tendências que ele poderá testar no
laboratório de si mesmo, mais do que invadir o seu espaço. Procurarei falar o
mínimo sobre aquilo que, suponho, o leitor possa ver por si só, procurando ofere-
cer-lhe a oportunidade – ora factual, ora conceitual – de dialogar intimamente com
os dados e as idéias que estarei apresentando. Por essa via, espero que o leitor
dialogue com o meu texto e consigo mesmo.
Gostaria de destacar, de início, ainda que para solicitar alguma complacên-
cia ao leitor que deles vier a sentir alguma falta nestas páginas, que os grandes
processos econômicos e políticos estão de certo modo razoavelmente bem estu-
dados. Isto é bastante compreensível, pois nossos historiadores e teóricos sempre
se dedicaram aos mesmos. A história das mentalidades, por outro lado, embora
recente, também tem recebido nas últimas duas, três ou talvez quatro décadas,
uma ênfase muito intensa. Em tais áreas existem bibliografias enormes, institutos
de pesquisa, arquivos, cursos e até cátedras universitárias específicas. No entan-
to, não tem havido uma atenção similarmente notável dedicada ao que eu designa-
ria de uma ‘história da sensibilidade’, seguindo os passos de Lucien Febvre (1987).
Nesse sentido, as tentativas têm sido um pouco esparsas, além de consideravel-
mente assistemáticas. Sei que serei compreendido em minhas dificuldades.
Um dos objetivos deste trabalho é transportar a atenção do leitor para o fato
de que a sensibilidade que temos hoje – seja auditiva, tátil, gustativa, olfativa,
visual – tem uma história e, especialmente, uma significação. Seguindo diversas


16
pistas que os historiadores nos fornecem e sendo quase meramente um discípulo
desses etnógrafos de nós mesmos (Lévi-Strauss, 1967), pretendo tornar bastante
claro que nossos sensos estéticos, nossas reações à violência, nossos sentimentos
de medo, nossos cuidados com saúde, nossas preocupações com higiene, com
horários, com exatidão e cálculo, nossas preferências amorosas e sexuais, enfim,
coisas que parecem tão familiares e naturais aos nossos olhos, não existiram sem-
pre e têm por trás de si um passado rico em detalhes e em variações. O passado
não está apenas no passado: ele constituiu nossa sensibilidade e continua de certa
forma, como veremos, a ser presente.
A estratégia que empreguei para o tratamento deste assunto é a que consi-
dero a mais fundamental da antropologia: comparar e contrastar, tentar entender
como o mesmo pode ser outro, como o familiar pode vestir a roupa do estranho,
como o semelhante pode ser diferente e vice-versa. De modo bastante específico
e voluntário, procurei priorizar o contraste, dando ênfase a tempos e circunstân-
cias em que as questões que estudaremos aconteceram de maneira diversa daque-
la a que estamos habituados.
Procurei conscientemente exagerar o contraste. Por meio dele – por cujo
excesso poderei mesmo ser objeto de críticas, provavelmente justas – tentei situar
como é a nossa sensibilidade atual. Esforcei-me igualmente por dar uma idéia de o
que ela representa histórica e politicamente. Acontece que neste trabalho o con-
traste é também uma estratégia de comunicação com o leitor. Procurei, tanto
quanto me foi possível, permitir que o contraste falasse por si e revelasse o que
teria a dizer sobre nós. Pareceu-me que este seria o caminho mais seguro para
chamar a atenção sobre algo que é tão familiar ao leitor, que correria o risco de não
ser percebido. Mas esta observação se aplica também a mim. Eis mais ou menos
o ponto que pretendi ajudar a resolver mediante o contraste: assim como o olho
não se vê a si mesmo, nossa sensibilidade não é muito sensível a si.
Mas, por que razão sensibilidade? Não estaria eu incorrendo no erro de
repetir o que já foi feito no âmbito da história das mentalidades ou das idéias?
Penso que seja preciso uma palavra sobre isto. Não quero me envolver em uma
discussão bizantina sobre nuances de conceitos, muito menos sobrecarregar o
leitor com tal exercício. Todavia, é preciso lembrar, de início, que mentalidades e
idéias não necessariamente coincidem com sensibilidade. Aquilo que os homens
pensam (ou dizem que pensam) e o que sentem não se coaduna obrigatoriamente
– seja-me permitido e desculpado lembrar esta obviedade.
Um exemplo rasteiro disso: se fizermos uma enquete sobre o que as pessoas
pensam a respeito do racismo, chegaremos a um determinado resultado (nos meios
liberais ou de esquerda, possivelmente repúdio ao mesmo). Chegaríamos ao mes-
mo resultado se, nestes mesmos meios, o objeto da pesquisa fosse o que as pes-
soas efetivamente sentem em relação ao contato corporal entre raças, sobre a
alimentação em comum etc.? Questão análoga poderia ser levantada sobre a rela-


17
ção entre os sexos, as regras de higiene, a tolerância com os deficientes físicos, o
tratamento a filhos adotivos, a doação de órgãos, e assim por diante.
Impossível, todavia, quando se trabalha com sensibilidades, não estar tra-
balhando com mentalidades e idéias, ou mesmo com os macroprocessos econô-
micos e políticos. A diferença, aqui, não é tanto de objeto. Na verdade, é sobretu-
do uma diferença de estratégia de abordagem do tema. Nos grandes processos de
decadência do mundo medieval, de conquista do Novo Mundo, de formação do
reino capitalista, por exemplo, há as idéias, as mentalidades, mas também as sen-
sibilidades. Parte do propósito deste trabalho será tentar mostrar que assuntos
deste teor não são dissociáveis e procurar exibi-los como interdependentes, isto é,
os mesmos entrelaçamentos tecem simultaneamente o gigantesco e o microscópi-
co. Transitarei, assim, livremente, de um para outro, embora procurando, como
esforço específico, privilegiar as dimensões da sensibilidade.
O ponto de partida será a Idade Média. Referencial, na verdade, em gran-
de medida arbitrário. Como Lévi-Strauss (1970) sabiamente observou, todas as
sociedades humanas têm atrás de si um passado da mesma extensão e da mesma
profundidade. Qualquer corte no tempo é, assim, algo arbitrário. Pensemos, apenas
como ilustração, nos povos americanos. Não têm eles atrás de si um passado ante-
rior à colonização, mais remoto que a Descoberta, ainda mais profundo que as
migrações pelo estreito de Behring e que, no limite, como o passado de todos os
homens, atinge o sul da África? Qualquer corte temporal, portanto, tem valor sobre-
tudo estratégico. Não pode ser tomado como absoluto. De fato, poderia ter sido
feito em quaisquer outros pontos – Grécia, Roma ou Antigo Egito – se esses fossem
relevantes para o problema em estudo.
Não obstante, por seu valor estratégico, o corte que resolvi fazer neste
trabalho também é em grande parte motivado. Em primeiro lugar, porque as men-
talidades e as sensibilidades medievais são aquilo contra o que a cultura capitalista
e, mais adiante, a cultura industrial se definem. Estas culturas se posicionam dian-
te da cultura medieval e afirmam enfaticamente para elas mesmas: isto é o que não
queremos ser, isto é o que renegamos da maneira mais convicta e radical. De
certo modo, a Idade Média constitui, se posso dizer assim, o outro específico da
civilização moderna e contemporânea. E esta parte de nós, de nossa tradição cul-
tural e histórica, que, paradoxalmente, no plano dos ideais, não cansamos de recu-
sar, consiste, como espero demonstrar no fluir dessas linhas, em excelente
referencial para contrastar e relativizar nossas próprias concepções e sensibilidades.
Encontramos em nossa cultura contemporânea uma relação, digamos as-
sim, quase antagônica entre nossos sonhos, nossa maneira de ser, nossa sensibili-
dade, nossas atitudes, mentalidades etc., e seus correspondentes medievais. No que
diz respeito à Antigüidade, até cultivamos uma certa afinidade idealizada. O
Renascimento, por exemplo, valorizou a estética antiga; a legislação romana reapare-


18
ceu com força no Estado moderno; a filosofia grega se transformou em referencial no
Classicismo... Deste modo, se, por um lado, estou praticando um gesto arbitrário,
por outro é possível presenciar, na escolha da Idade Média como ponto de partida,
uma motivação estrategicamente relevante para o estudo que pretendo desenvolver.
Espero que as páginas seguintes deixem este ponto inteiramente compreensível.
Em segundo lugar, um assunto mais polêmico: a escolha da Idade Média
como ponto referencial de minha reflexão sobre a sensibilidade hodierna não se
revela totalmente imotivada, simplesmente porque nas sociedades industriais con-
temporâneas há muito de medieval. Este traço é especialmente verdadeiro se tiver-
mos em mente aqueles segmentos habitualmente chamados de ‘pobres’ ou de
‘classes populares’. Como as páginas seguintes deixarão fortemente sugerido,
estas serão, sem dúvida, as últimas a abandonar os padrões de comportamento,
pensamento e sentimento que existiam antes da emergência do capitalismo. De
maneira implícita ou explícita, deverei retornar diversas vezes a este aspecto.
Em terceiro lugar, gostaria de observar também que há muito de medieval
na cultura brasileira (DaMatta, 1993a,1993b), embora não seja este um tema
privilegiado do presente trabalho. Bastaria lembrar, sobre isso, que o País foi
colonizado por portugueses e que Portugal, à época da colonização, não era
vanguarda do capitalismo europeu. Dos portugueses que para cá vieram, em



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