Campus de erechim curso de licenciatura em pedagogia rosangela dos santos pereira ribeiro



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3. ANÁLISES: AS PRINCESAS E SUAS HISTÓRIAS  

 

Nesta  seção,  são  analisadas  e  interpretadas  as  quatro  obras  selecionadas  para  a 



composição  do  presente  Trabalho  de  Conclusão  de  Curso:  O  Fantástico  mistério  de 

Feiurinha;  Príncipes  e  princesas,  sapos  e  lagartos;  As  Belas  Adormecidas  e  algumas 

acordadas e, por fim, Até as princesas soltam pum

 

 



3.1 O FANTÁSTICO MISTÉRIO DE FEIURINHA 

 

Bandeira (1991), na obra O Fantástico Mistério de Feiurinha, apresenta a história de 

várias  princesas  que  decidem  procurar  Feiurinha,  uma  vez  que  se  encontra  desaparecida.  O 

livro  de  Pedro  Bandeira  apresenta  uma  proposta  relacionada  às  histórias  de  princesas 

tradicionais.  Nele, as  princesas  parecem  mais humanas, mais  próximas  das pessoas comuns; 

preocupam-se com  a extinção de  suas felicidades e, angustiadas,  buscam  a ajuda do escritor 

para investigar o sumiço de Feiurinha. 

Presencia-se,  aqui,  uma  história  que  conta  com  um  autor  que  escreve  suas  histórias, 

pois o personagem-narrador é um escritor, e o leitor pode se deparar com o mundo da ficção 

impressa  em  papel,  o  livro.  Esta  personagem,  no  momento,  está  sem  inspiração.  Não 

consegue  escrever  nenhuma  boa  história  ficcional.  Esse  momento,  sem  produtividade  na 

escrita, é quebrado pela presença de uma personagem enviada pelas princesas – Caio.  

Percebe-se,  na  obra,  uma  ligação  entre  dois  mundos:  o  maravilhoso,  das  princesas, 

conectado  ao  mundo  do  narrador-personagem-escritor.  Uma  espécie  de  túnel  do  tempo  que 

liga  o  passado  com  o  presente;  o  mundo  antigo  com  o  mundo  atual;  o  mundo  rural  com  o 

mundo urbano. 

Esse  narrador-escritor  depara-se,  de  repente,  com  algumas  personagens  daquele 

mundo tradicional dos livros infantojuvenis: as princesas. Elas chegam para que ele as ajude a 

encontrar  Feiurinha.  São  elas:  Dona  Branca  de  Neve,  Dona  Cinderela,  Dona  Rosa  Della 

Moura  Torta,  Dona  Belo-Fera,  Dona  Rapunzel  Encantado  e  Dona  Bela  Adormecida 

Encantado. 

A  líder  da  investigação  é  Dona  Branca  Encantado.  Ao  descrevê-la,  o  narrador 

apresenta uma personagem um pouco diferente daquela que aparece nos contos tradicionais:  



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“A Senhora Princesa Dona Branca Encantado! Branca de Neve! Ali, na minha frente! É claro 



que  um  pouco  mais  velha  e  ligeiramente  mais  gorda,  mais  ainda  a  grande,  a  incomparável 

Branca de Neve!” (p.44). 

Todas  essas  princesas  estão  grávidas  de  seus  respectivos  príncipes.  Todas,  também, 

mais velhas; com aparência menos bela e menos jovem. Todas próximas de completarem as 

bodas de prata em seus casamentos. Cada uma com suas características de princesa de seus 

contos tradicionais, mas com alterações acentuadas pelo tempo e pela vida. 

O  que  se  percebe  é  que  aquele  mundo  tradicional,  antigo,  agora,  está  diferente.  O 

mundo mudou, e as princesas também.  

Segundo Barbosa, (1982, p. 18): 

 

 



Os  contos  modernos  parecem,  realmente,  desconstruir  estereótipos.  Percebe-se 

também  que  o  autor  desconstrói  o  papel  exercido  pela  mulher  nos  contos 

tradicionais  proporcionando  um  momento  para  refletir  sobre  os  estereótipos.  As 

personagens femininas eram frágeis e passivas nos contos de fadas clássicos. Temos 

como exemplo dessa tendência contemporânea, nessa obra, a postura dos príncipes e 

princesas.  Coragem,  força  e  esperteza  parecem  ser  consideradas  atributos 

primordialmente masculinos. O que é lido como natural na masculinidade pode ser 

lido  como  não-natural  e  ameaçador  na  feminilidade.  O  “natural”  seria  que  a 

personagem  feminina  tivesse  seus  medos  e  fosse  frágil,  características 

tradicionalmente ligadas ao feminino. Essas histórias, como tantas outras do gênero 

descrevem as princesas muito mais destemidas, autônomas e não são mais submissas 

aos príncipes. 

 

 

Em  sua  exposição,  a  autora  deixa  claro  que  os  contos  modernos  parecem  querer 



desfazer  estereótipos.  A  autora  condiciona  a  reflexão  de  que,  nos  contos  clássicos,  as 

personagens  femininas  desempenham  papéis  do  sexo  frágil.  E,  na  obra  contemporânea,  em 

análise,  as  atitudes  das  princesas  são  constituídas  de  coragem,  energia  e  inteligência, 

características,  até  então,  atribuídas  somente  ao  sexo  masculino. A  partir  desse  contexto,  as 

histórias descrevem princesas independentes e não mais obedientes aos príncipes. 

De  todas  as  personagens  da  história  de  Pedro  Bandeira,  somente  Chapeuzinho 

Vermelho  não  é  princesa  e  não  está  casada  com  algum  príncipe:  “Estou  cansada  de  ser 

solteirona  e  aguentar  aquela  vovó  caduca.  Tenho  procurado  feito  louca,  mas  só  encontro 

príncipes casados[...].” (p.16). Ela destoa do conjunto da obra, justamente por ser o oposto das 

outras personagens. No entanto, foi convocada pela Dona Branca Encantado para fazer parte 

do  grupo  que  investiga  o  sumiço  da  princesa  Feiurinha.  Assim  como  as  outras  princesas, 

Chapeuzinho Vermelho apresenta-se diferente do que era nas antigas histórias maravilhosas, 




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conforme  descreve  o  autor:  “Dona  Chapeuzinho  sentou-se  confortavelmente,  colocou  a 



cestinha ao lado (ela não largava aquela bendita cestinha!), tirou um sanduíche de mortadela e 

pôs-se a comer (aliás, Dona Chapeuzinho tinha engordado muito desde aquela aventura com o 

Lobo Mau).” (p.14). 

A preocupação desse grupo de personagens dos contos maravilhosos é com o sumiço 

da Feiurinha, mas, também, consigo mesmas. O medo dessas princesas é de que o sumiço da 

Feiurinha  represente  um  presságio  do  sumiço  de  todas  elas,  princesas  dos  contos 

maravilhosos. 

A  relação  das  princesas  entre  si  também  não  é  o  que  se  espera  de  personagens  tão 

distintas  das  histórias  tradicionais.  Elas  têm  ciúmes  umas  das  outras.  De  vez  em  quando, 

chamam-se por apelidos que não são carinhosos, como quando Chapeuzinho Vermelho chama 

a atenção de Dona Branca, afirmando que, se tem uma coisa que Dona Cinderela Encantado 

detesta, é ser chamada de gata borralheira. “Sua... sua Gata Borralheira! Aquela era a maior 

ofensa que alguém poderia fazer para Cinderela.” (p.22). 

Outra  peculiaridade  que  se  distingue  da  narrativa  tradicional  é  que  as  princesas 

reclamam de dores, como Rapunzel. A princesa se queixa de muita dor de cabeça, pelo motivo 

de seu marido, o príncipe, esquecer-se de levar a chave da porta do castelo e usar suas tranças 

para subir. “Não aguento mais de dor de cabeça!” (p.23). 

Algumas princesas se apresentam mal-humoradas. Cada princesa conta um pouco de 

sua  história  e  coloca  defeitos  nas  histórias  de  suas  amigas,  como  se  pode  conferir  pelo 

excerto:  “Você  adivinhou.  Dona  Bela-Fera  Encantado  também  estava  esperando  nenê  e 

também ia fazer Bodas de Prata. Só que também bocejando.” (p.28). 

Depois  de  muitas  discussões,  ciúmes,  raivas  e  fofocas,  as  princesas  conseguem  se 

entender  e resolvem partir em  busca de  Feiurinha, já que  esse  é um  problema que  as  deixa 

muito angustiadas e preocupadas. 

Segundo  Barbosa  (1982),  Bandeira  utiliza  a  intertextualidade  como  uma  estratégia 

para  modificar  a  obra  original  e  proporcionar  o  encontro  de  personagens  famosas  de 

diferentes histórias, com um mesmo propósito: encontrar a princesa e amiga Feiurinha. Com 

essa estratégia, o  escritor procura estabelecer um diálogo intertextual com  as narrativas dos 

clássicos,  mas,  também,  dar  sequência  às  histórias,  agregando  novos  acontecimentos  ao 

finalizá-las. 

Para desvendar o desaparecimento da princesa, só há uma solução: conhecer a história 

de Feiurinha, e como ninguém se lembra da mesma, as únicas saídas são a busca da história 

nos livros de histórias, ou partir em busca do autor. Caio torna-se o responsável em pesquisar 



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os grandes autores dos contos de fadas. Ele não encontra nenhum grande autor como Perrault 



ou os irmãos Grimm, mas encontra um autor chamado Pedro, iniciante e sem informações a 

seu respeito. 

Ao se encontrarem no apartamento do narrador-escritor, as princesas são apresentadas 

à história de Feiurinha, através da narrativa oral da empregada da casa, Jerusa. É esse “[...] o 

momento em que Jerusa, serviçal e legítima representante da cultura popular, narra a história 

da  tal  heroína,  resgatando-a  do  esquecimento  e  devolvendo-a  à  vida”  (LUIZ,  2015,  p.119). 

Destaca-se, nesta análise, a importância da presença da empregada Jerusa ao narrar a história 

da  princesa  Feiurinha,  dando-lhe  vida  a  partir  do  escritor  contemporâneo  que,  a  partir  do 

mistério  do  desaparecimento  da  princesa,  aproxima  as  sete  grandes  heroínas  da  literatura 

clássica. Aqui, a oralidade da história é recuperada como fonte da literatura, como em séculos 

passados, transformada em texto por meio da escrita do escritor. 

Com a narração que escutara há mais de setenta anos de sua avó, Jerusa oportuniza a 

todos: princesas, Chapeuzinho e Caio, momentos de felicidade. A narrativa oral, tradição de 

tempos  imemoriais  é  o  início  de  uma  nova  história,  assim  como  fora  para  todas  as  outras 

princesas:  “Feiurinha  é,  na  verdade,  um  relato  passado  de  geração  a  geração  por  meio  da 

tradição oral,  e que  apenas resistiria  ao tempo  ao ser „materializado‟ em um  texto.” (LUIZ, 

2015, p.124). Nesta história, o que se torna visível é a fórmula da produção de tradição oral 

em tradição verbal escrita, apontando para a perpetuação daquilo que é traduzido para o papel

como  é  o  caso  de  todas as  princesas  representadas  na  história.  Elas  só  permanecem  porque 

alguém escreve suas histórias. 

Seguindo a mesma lógica, o autor possibilita ao leitor refletir sobre a ideia de ser feliz, 

levando-o à constatação de que a ideia de ser feliz para sempre não existe, mas depende de 

cada um  adquirir e manter a felicidade  a partir de atitudes positivas. Ele  também  ressalta a 

importância da tradição oral. A contação de histórias e a literatura têm a função de ajudar o 

leitor a descobrir novos significados e atribuir sentido à vida. As princesas são apresentadas 

por outro ponto de vista; são dinâmicas, à frente de seus problemas, resolvem os obstáculos 

que lhes são colocados e não são dependentes de seus maridos.  

É relevante destacar que as princesas dos contos contemporâneos têm aspectos físicos 

mais  naturais,  assumem  seus  cabelos  brancos,  apresentam-se  um  tanto  mais  gordas  e 

envelhecidas, grávidas, identificando-se com a mulher contemporânea. 






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