Caminhos do homem: do imperialismo ao Brasil no século XXI, 3º ano


TRABALHANDO COM FONTES HISTÓRICAS



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TRABALHANDO COM FONTES HISTÓRICAS

No início da década de 1950, Fidel Castro, um jovem advogado, e seu irmão, Raul Castro, organizaram, durante 14 meses, um pequeno grupo de combatentes treinados para iniciar a derrubada da ditadura de Batista. Preparou-se, assim, o assalto ao quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953.

Nessa tentativa, setenta revolucionários morreram e vários outros foram presos.

Fidel foi condenado a 15 anos de prisão. Sua defesa no Tribunal de Exceção de Santiago de Cuba foi, posteriormente, publicada em um livro intitulado A História me absolverá. O fim de sua fala expressa o firme sentimento de quem tinha a certeza de estar lutando por transformações significativas em prol da maioria dos cubanos. Fidel Castro (1982, p. 49-50) afirmou:

“Não temo, como não temo a fúria do tirano miserável que arrancou a vida de setenta de meus irmãos. Condenai-me, não importa. A História me absolverá”.

A seguir, é transcrito um trecho de sua defesa, no qual ele faz uma grave denúncia a respeito da mortalidade infantil em Cuba.

Seus olhos inocentes parecem olhar para o infinito...”

De tanta miséria só é possível livrar-se com a morte. Para isso, sim, o Estado ajuda: a morrer. Noventa por cento das crianças do campo são devoradas pelos parasitas, que nelas se infiltram da terra pelas unhas dos pés descalços. A sociedade comove-se diante do noticiário do rapto ou do assassinato de uma criatura, mas permanece criminosamente indiferente diante do assassinato em massa de milhares e milhares de crianças que morrem todos os anos por falta de recursos, agonizando nos estertores do sofrimento. Seus olhos inocentes – onde se observa o brilho da morte – parecem olhar para o infinito como se pedissem perdão para o egoísmo


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humano e para que não caia sobre os homens a maldição de Deus. E quando um pai de família trabalha quatro meses no ano, como pode comprar roupas e medicamentos para seus filhos? Crescerão raquíticos; aos trinta anos não terão um dente são na boca, terão ouvido dez milhões de discursos, e, finalmente, morrerão de miséria e decepção. O acesso aos hospitais do Estado, sempre repletos, só é possível mediante a recomendação de um político influente que exigirá do desgraçado seu voto e o de toda a sua família para que Cuba continue sempre igual ou pior.

CASTRO, F. A história me absolverá. 4. ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982. p. 49-50.

Professor, neste momento você pode sugerir aos estudantes uma pesquisa sobre as políticas públicas direcionadas à realidade deles. A pesquisa pode explorar áreas atendidas por essas políticas ou áreas que carecem de políticas mais sérias na região em que vivem. Alguns setores que podem ser explorados são a educação, a saúde e a segurança.

Registre em seu caderno:



1. Em sua opinião, algumas das observações contidas no discurso de Fidel Castro, de 1953, ainda podem ser consideradas atuais diante do quadro socioeconômico e político de alguns países da América Latina nas primeiras décadas do século XXI? Por quê?

Professor, sugira aos estudantes que pesquisem a respeito de rádios de guerrilha (mais raras na atualidade), mas que podem existir no modelo de rádios comunitárias.

Os guerrilheiros cubanos contaram com o apoio de camponeses, estudantes e trabalhadores. Em 1958, iniciaram-se as operações da Rádio Rebelde, controlada pelos guerrilheiros e que transmitia do território livre cubano “de Serra Maestra” para todo o país. Apesar da forte repressão da ditadura, os guerrilheiros empreenderam uma grande ofensiva em meados de 1958.

Fidel Castro, Che Guevara e Raul Castro lideraram três frentes de luta. No dia 1º de janeiro de 1959, as tropas fiéis ao governo se renderam e as principais lideranças políticas do regime – inclusive o ditador Fulgêncio Batista – abandonaram o país.

Em um primeiro momento, o novo governo foi composto por lideranças revolucionárias e setores da própria burguesia, identificados com os ideais nacionalistas. Inicialmente, foram mantidas as estruturas capitalistas, e Fidel Castro chegou, inclusive, a visitar os Estados Unidos logo após a tomada do poder. Para o governo norte-americano, aparentemente, o que havia ocorrido em Cuba fora uma “simples troca de guarda”: um ditador já desgastado havia caído e uma nova liderança política assumira o poder, o que parecia indicar que os interesses econômicos norte-americanos seriam preservados.



© Andre St. George CORBIS/Latinstock

Na foto, vemos Fidel Castro com dois guerrilheiros. Serra Maestra, Cuba, c. 1950.

Fidel Castro ficou 22 meses na prisão. Quando saiu, em 15 de maio de 1955, foi para o México reorganizar a resistência rebelde, criando o Movimento 26 de Julho, em referência ao dia da tentativa de tomada do quartel de Moncada. O novo grupo, do qual faziam parte seu irmão, Raul Castro, e Camilo Cienfuegos, entrou clandestinamente em Cuba e, a partir de Sierra Maestra, ponto culminante da ilha, organizou o movimento revolucionário que utilizou a guerrilha como estratégia de luta.


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O ano de 1960 marcou uma “virada” nas relações com os Estados Unidos à medida que o governo revolucionário transferiu a maioria dos meios de produção para o Estado. Várias empresas norte-americanas foram nacionalizadas – inclusive as refinarias – e foi realizada a reforma agrária, dando acesso à terra a milhões de camponeses.

Já em março de 1960, o governo revolucionário, pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária, havia expropriado cerca de três quintos do território cubano e tornado exploráveis 100 mil hectares de novas terras, ocupadas com o cultivo de arroz, algodão, feijão e amendoim.

Como reação ao caráter anti-imperialista da revolução, explicitado em 1960, os Estados Unidos organizaram, em abril de 1961, um desembarque de contrarrevolucionários na Baía dos Porcos. Após três dias de duros combates, estes, que imaginaram uma mobilização popular a seu favor – o que não aconteceu –, foram derrotados.



No mapa abaixo, é destacado o local no qual exilados cubanos, treinados, armados e financiados pelo governo norte-americano – que por meio da CIA deu apoio logístico à operação – desembarcaram em Cuba com o objetivo de derrubar o governo revolucionário.

Elliott Erwitt/Magnum Photos/Latinstock

Fidel Castro no encontro da Assembleia Geral da ONU. Nova York, Estados Unidos, 1979.

Em 1960, ainda não havia ficado claro para as autoridades norte-americanas o duplo caráter do movimento revolucionário: anti-imperialista e socialista. O nacionalismo marcou os dois primeiros anos após a tomada do poder. No entanto, as relações com os Estados Unidos tornaram-se tensas à medida que o governo cubano assinou uma série de acordos com os países do Leste Europeu e em particular com a União Soviética, além de acusar o governo norte-americano de dar asilo a contrarrevolucionários e incentivar ações de sabotagem contra Cuba. Com a nacionalização de empresas estrangeiras, ainda em 1960, a opção pelo socialismo foi explicitada.



Mario Yoshida

Fonte: ATLAS histórico escolar. Rio de Janeiro: Fename, 1977.
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As relações entre Estados Unidos e Cuba entraram em colapso após a frustrada tentativa de desembarque na Praia Girón, na Baía dos Porcos. Assim, a inserção no bloco socialista não tardou. Em maio de 1961, o governo cubano abandonou totalmente sua aparente posição de “não alinhamento” em relação à conjuntura da Guerra Fria, aproximando-se decisivamente da União Soviética.

Em janeiro de 1962, por pressão dos Estados Unidos, Cuba foi excluída da Organização dos Estados Americanos (OEA), em decisão tomada em sua 8ª Assembleia Geral. Enquanto 14 países aprovaram a resolução, Cuba votou contra, e seis delegações se abstiveram. O Brasil do presidente João Goulart, representado pelo chanceler San Tiago Dantas, foi um deles. Os outros foram Argentina, Bolívia, Chile, Equador e México. Abster-se era o máximo de ousadia que os Estados Unidos “toleravam” na OEA.

Nesse contexto, Cuba teve de enfrentar, ainda, o bloqueio econômico norte-americano, com graves consequências para sua economia.

Em outubro de 1962, as relações entre Cuba e Estados Unidos tornaram-se ainda mais tensas quando o governo norte-americano, sob a presidência de John Kennedy, detectou, por meio de fotografias aéreas, a instalação de bases de lançamento de mísseis nucleares soviéticos. A reação norte -americana se traduziu em um bloqueio naval para impedir que navios da União Soviética aportassem na ilha com equipamentos e armamentos para as bases. Durante treze dias, o clima entre as duas superpotências tornou-se ainda mais agudo, uma vez que houve o risco de uma guerra nuclear. Para muitos estudiosos, a “crise dos mísseis” é considerada o auge da Guerra Fria.

Uma saída política para o conflito foi negociada: a União Soviética, então sob a liderança de Kruschev, retirou os mísseis e, em contrapartida, o governo norte-americano se comprometeu a desativar mísseis instalados na Turquia e que estavam apontados para o território soviético. Além disso, o acordo previa uma política de não intervenção militar norte-americana em Cuba.

Uma das prioridades do governo revolucionário, apesar de todas as dificuldades decorrentes do embargo norte‑americano e das pressões dos Estados Unidos sobre a “comunidade internacional”, para que esta isolasse a ilha, foi a área social, com destaque para a educação e a saúde. O analfabetismo foi erradicado e o atendimento médico foi totalmente estatizado.

No fim do século XX, Cuba passou a enfrentar graves dificuldades em virtude do colapso do socialismo e da desagregação da União Soviética, país que, no contexto da Guerra Fria, em muito subsidiou a economia cubana com a venda de petróleo em condições especiais, por exemplo.



Ao mesmo tempo, as pressões norte -americanas se intensificaram e se traduziram na aprovação pelo Congresso da Lei Helms -Burton, em 1995, que penalizava empresas – inclusive estrangeiras –, que mantivessem negócios com Cuba.

Europa Filmes



O filme Treze dias que abalaram o mundo é uma representação, na perspectiva norte-americana, dos episódios relacionados à “crise dos mísseis”
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©Carlos Latuff

As dificuldades impostas ao povo cubano em decorrência de um bloqueio econômico que já dura décadas têm sensibilizado lideranças políticas em todo o mundo, em especial na América Latina. A própria ONU já manifestou oficialmente sua posição contrária à manutenção do embargo.

Apesar de tudo isso, os indicadores sociais cubanos na última década do século XX eram extremamente expressivos, conforme se pode perceber pela análise dos seguintes dados:




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