Caminhos do homem: do imperialismo ao Brasil no século XXI, 3º ano



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Quincas Borba

Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora à escolha de um tílburi. Forças íntimas ofereciam-lhe o seu cavalo, umas que voltasse para trás ou descesse para ir aos seus negócios – outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo! – Senhor, vamos tratar de outros negócios! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de levá-lo pela Rua do Ouvidor abaixo até à Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atrás do préstito. Não iria ver a execução, pensou ele; era só ver a marcha do réu, a cara do carrasco, as cerimônias... Não queria ver a execução. De quando em quando, parava tudo, chegava gente às portas e janelas, e o oficial de justiça relia a sentença. Depois, o préstito continuava a andar com a mesma solenidade. Os curiosos iam narrando o crime – um assassinato em Mata-Porcos. O assassino era dado como homem frio e feroz. A notícia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe forças para encarar o réu, sem delíquios de piedade. Não era já a cara do crime; o terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução. Já ali havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão compacta.

“Voltemos”, disse ele consigo. Verdade é que o réu ainda não subira à forca; não o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, por que não fecharia os olhos, como fez certo Alípio diante do espetáculo das feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo; ignorava, não só que fechara os olhos, mas também que os abrira logo depois, devagarinho e curioso.

Eis o réu que sobe à forca. Passou pela turba um frêmito. O carrasco pôs mãos à obra. Foi aqui que o pé de Rubião descreveu uma curva na direção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrário, deixou se estar; lutaram alguns instantes... – Olhe o meu cavalo! – Veja, é um rico animal! – Não seja mau! – Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como os dele. Rubião não podia entender que bicho lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam da lama e retinham ali. O instante final foi realmente um instante; o réu esperneou, contraiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e estro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não mais nada.

MACHADO DE ASSIS, J. M. Quincas Borba. In: COUTINHO, A. (Org.). Machado de Assis – Obra Completa. 3. ed. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1986. v. 1. p. 678-679.
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Outras obras de Machado de Assis também são reveladoras de características da sociedade brasileira da época, como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e diversos contos, dentre eles “Conto de Escola”, “O Alienista”, “Missa do Galo” etc. Nesses trabalhos, há uma importante contribuição do autor para o estudo da sociedade e da cultura do Rio de Janeiro no século XIX. Tais obras podem ser analisadas à luz da História, da Literatura e da Sociologia, em uma perspectiva interdisciplinar.

Nos “tempos de Machado”, a Rua do Ouvidor, localizada na área central da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, era um ponto de encontro da elite intelectual da época, por onde desfilavam os “elegantes, cultos, bem-informados e ricos”, entre fins do século XIX e início do século XX. Um cenário que deslumbrava o escritor e frequentador, como seus personagens, da Rua do Ouvidor.

Machado de Assis viveu o apogeu comercial e cultural “da Ouvidor” – um caminho aberto entre os morros do Castelo e de São Bento, no século XVI – que só ganharia notoriedade a partir de 1808, com a transferência da Corte portuguesa, que tornou livre o comércio, atraindo negociantes estrangeiros. Foram esses imigrantes, franceses e portugueses em sua maioria, que expulsaram da paisagem da Rua do Ouvidor as últimas quitandas, introduzindo em seu lugar artigos, modas e costumes das grandes capitais europeias.

As minuciosas descrições de Machado de Assis do cotidiano da Rua do Ouvidor constituem-se em fontes históricas para o estudo da sociedade, da cultura Corte e da futura capital da República (2.º ano – unidade 2, Capítulo 3).

Outro exemplo de interface entre a História e a Literatura encontra-se no livro O Conto da Ilha Desconhecida, do escritor português José Saramago (1922-2010). Essa pequena grande obra (são apenas 62 páginas) também possibilita a construção de diálogos interdisciplinares por meio da promoção da integração de conteúdos de História, Literatura, Filosofia e Sociologia. Tais diálogos em muito contribuirão para a compreensão do texto, pois este se constitui em uma parábola portadora de imaginação, compaixão e ironia, na qual Saramago emprega uma linguagem figurada que torna compreensível múltiplas realidades.

Nesse livro, Saramago, o único escritor de língua portuguesa premiado com o Nobel de Literatura, desperta a nossa sensibilidade logo nas primeiras páginas. O poder de encantamento de seu texto é surpreendente e, ao mesmo tempo, instigante, pois a ausência de referências temporais e espaciais nos remete a múltiplos contextos históricos.

Dialogando com o texto de Saramago estão nove aquarelas do artista plástico brasileiro Arthur Luiz Piza. A sua arte geométrica, suave e indefinida, contribui para reforçar a subjetividade da narrativa, que nos remete aos contos de fadas, com a presença de pessoas misteriosas e de um rei arrogante e vaidoso, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de ser uma fina ironia com o nosso presente e o nosso passado.

A história se passa em um reino sem nome, governado por um rei, também sem nome, que é assessorado pelo primeiro, segundo e terceiro secretários. O personagem principal é “o homem que queria um barco”, uma pessoa solitária e obstinada, que encontrará na “mulher da limpeza” a companheira para a realização do seu projeto de chegar até a “ilha desconhecida”. José Saramago, utilizando o poder de sugestão da palavra com originalidade e propriedade, cria um universo que pode ser associado às mais diversas realidades a partir de nossas vivências e de nossos pressupostos políticos, filosóficos e ideológicos.

Nem o inconsciente escapa. Quando o herói sonha que o desejo de partir se tornara realidade, os marinheiros do sonho se amotinam e abandonam a embarcação na primeira ilha (conhecida) que aparece. A única pessoa que o acompanha no barco atracado no porto acaba sendo a faxineira do palácio, que se apaixonara por ele na “porta das petições”.

A grandeza de uma obra de arte reside na sua inesgotável sugestividade. É exatamente nesse ponto que se define a diferença entre o escritor e o não escritor. O que distinguirá o escritor será o fato dele saber usar a linguagem de modo diferente, aproveitando aquele poder de sugestão e originalidade que as palavras oferecem. Da criação artística da era dos descobrimentos às utopias revolucionárias, as ilhas
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desconhecidas serão tantas e tão diversas quanto forem as fantasias e aspirações inexplicáveis da nossa transcendência.

Ao longo da História, muitos foram os que sonharam, mas poucos foram aqueles que conseguiram reunir os recursos necessários à concretização do sonho. A pessoa movida por uma paixão poderosa vive um momento de máxima força e máxima fragilidade. Crenças saturadas de desejo, como as que movem o herói de Saramago, podem ser verdadeiras ou falsas. Ser descontente é ser humano.

Muitos foram os homens que ousaram o novo, tentaram o não tentado e pensaram o impensável. Muitos obtiveram sucesso, outros nem tanto. O homem do barco da obra de José Saramago pode ser um desses que ousaram o novo, que ousaram questionar o poder hierárquico de reis e presidentes. O reino criado pelo autor pode ser, também, o Brasil atual, um país no qual os governantes estão muito mais preocupados com a “porta dos obséquios” do que com a “porta das petições”, uma porta que, assim como em nosso país, nem ao menos era aberta totalmente no reino de Saramago. O homem do barco pode ser um brasileiro ou muitos brasileiros. Brasileiros que, em sua maioria, sofrem por viver em um país no qual a palavra cidadania ainda carece de seu sentido real. O rei, assim como grande parte de nossa elite política, apenas ouve bajulações, nunca os pedidos que realizariam os sonhos simples de seus súditos (cidadãos?) de alcançar aquilo que para eles é desconhecido. Esse tema pode ser explorado no 3.º ano (Unidade 2).

Outra possibilidade de construção de diálogos interdisciplinares pode surgir no estudo da Grécia Antiga. O processo de expansão colonial, por exemplo, pode ser percebido por meio das obras de Homero – Ilíada e Odisseia, processo explorado no 1.º ano (Unidade 1, Capítulo 2).

Não há também como desenvolver o estudo do mundo grego sem uma abordagem dos textos teatrais. A palavra teatro, em grego théatron, significa “lugar de onde se vê” (uma plateia). Foi na Grécia Antiga que o teatro, como concebido por nós atualmente, surgiu. A princípio eram realizadas festividades em homenagem ao deus Dionísio, a divindade que simbolizava a paixão, os prazeres da vida e o vinho. Esses rituais transmitiam a ilusão mágica de que os homens faziam parte do “mundo dos deuses”.

Um dos principais gêneros teatrais, a tragédia, também surgiu no mundo grego da Antiguidade. As tragédias gregas falavam sobre realidades e mitos, apresentando histórias conhecidas de todos. Nelas estão presentes heróis legendários, em permanente luta contra o destino; falavam também dos deuses, sempre presentes para recompensar ou punir. O comportamento do herói diante do destino era o centro da ação dramática.

Os atores representavam utilizando túnicas e máscaras, sob a luz de tochas. Na encenação, sempre estava presente o coro, assim como a figura do mensageiro. O estudo de textos teatrais se constituiu em uma “janela”, diante da qual o colega professor poderá abordar temáticas relacionadas à História e à Filosofia.

Retomando Homero, vale relembrar um pouco da história de Ulisses, rei de Ítaca, e de sua mulher, Penélope, que por 20 anos esperou o marido voltar da Guerra de Troia (Ílion, em grego).

Essa história reescrita pelo poeta português Manuel Alegre, em 1971, com o nome de Um barco para Ítaca, possibilita interessantes diálogos envolvendo a História, a Filosofia e a Sociologia. O autor, com essa releitura de Homero, escrita no exílio, pretendeu denunciar o autoritarismo da ditadura salazarista que governava Portugal. Se o escritor também é “filho do seu tempo”, os versos de Manuel Alegre são entendidos com clareza, em especial os que fazem referência à democracia (“o rei somos nós”). Ele quer dizer que o poder de fato pertence ao povo e não aos ditadores “de plantão”. A “Ítaca”, de Manuel Alegre, é, na verdade, Portugal.

O trecho selecionado faz referência ao trabalho de Penélope. Lembre-se, colega professor, de que ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho à noite. Foi a forma que ela encontrou para evitar que um de seus pretendentes, um usurpador, a desposasse enquanto aguardava o regresso de Ulisses.
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Um barco para Ítala

No palácio de Ulisses
Coro
No palácio de Ulisses só a rainha confia
de noite desfiando em seu tapete
o que fiou de dia.

Penélope
No tempo bordarei a minha dor


no tempo (esse tapete) bordarei
o tempo que não passa e que passei
fiando e desfiando por amor.
No tempo estas perguntas: onde e quando?
No tempo que se vai e não me leva
àquele por quem sou rainha e serva
fiando por amor e desfiando.

No tempo que se vai e se repete


no tempo bordarei o meu tapete
num fazer-desfazer que me desfaz.

Enquanto o tempo vai e não me leva


enquanto o tempo passa e não me traz
aquele por quem sou rainha e serva

Mensageiro


Dizem que um velho desembarcou em Ítaca
dizem que um velho desembarcou.
Dizem que é cego mas vê. Dizem que sabe o porquê.

E a quem lhe pergunta pelo rei


a quem lhe pergunta responde:
o rei somos nós.
Disse que o rei somos nós.

E a quem lhe pergunta por Ítaca


a quem lhe pergunta responde:
Ítaca está dentro de nós.

ALEGRE, 1971, p. 56).

Outro interessante exemplo da forma como a História pode estabelecer um rico diálogo com a Literatura e com a Sociologia encontra-se em Os Carbonários, de Alfredo Sirkis, ativista político que se engajou na luta contra a ditadura na década de 1960. Exilado em 1971, retornou ao Brasil beneficiado pela Lei da Anistia (28 de agosto de 1979). Seu livro, como ele mesmo registrou, pode representar uma parte da memória daqueles tempos, que deve ser recuperada e transmitida às novas gerações, para que, como escreveu Chico Buarque, esta “página infeliz da nossa história” não se transforme em uma “passagem
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desbotada na memória das nossas novas gerações”. O período da ditadura é trabalhado no 3.º ano (Unidade 2, Capítulo 1).

No livro, ele relata a sua experiência pessoal no movimento que contestava a ditadura e o processo que o levou a sensibilizar-se (desde os tempos de escola) com as contradições sociais existentes no país. Segundo Sirkis, Os Carbonários foi escrito não apenas para registrar sua militância política, mas, principalmente, para transmitir uma mensagem às novas gerações. É o próprio autor quem afirma na apresentação do livro: “A narrativa se refere a um período de 44 meses, entre outubro de 67 e maio de 71. Não tenho nostalgia daqueles tempos, mas curto as vivências, os despertares, as aventuras. [...] Gostaria sim é que nunca mais na história do Brasil se repetisse uma situação de opressão sangrenta, sufoco total e fechamento brabo que levasse uma geração de jovens a tomar as armas. [...] Creio que é importante recuperar essas memórias e transmiti-las, sobretudo para essa nova geração que desponta com os anos 80”.


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