Caminhos do homem: do imperialismo ao Brasil no século XXI, 3º ano



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PRIMEIRA PARTE

Pressupostos teórico-metodológicos da coleção



1. O sentido do conhecimento histórico

Para que serve a História? Por que estudá-la? O colega professor, provavelmente em alguma oportunidade, já se deparou com essas perguntas em sala de aula. Os estudantes sempre querem saber o “porquê” e “para que” estudar fatos e processos que, segundo muitos deles, “já passaram”.

De maneira geral, os estudantes questionam os motivos pelos quais devem estudar o passado, uma vez que nem sempre entendem com clareza a relação deste com o presente. Por essa razão, consideram que esse conhecimento é desnecessário, pois, como muitos afirmam, “o passado já passou”!

A História, assim concebida, já vem sendo questionada há muito tempo. Na realidade, há algumas décadas, o conhecimento histórico se reveste de outro sentido, conforme destacou o historiador brasileiro contemporâneo Edgar Salvadori de Decca:

A História carrega uma série de outras possibilidades e entendimentos, faz pensar sobre como e por que as coisas acontecem, como os acontecimentos se efetivam e produzem a realidade, quais as tensões em jogo, quais as vontades presentes.

(DE DECCA, 1993, p. 7).

Esse historiador nos lembra, ainda, que “para os historiadores são justamente outras possibilidades de explicar o universo social que provocam fascínio e mostram que a História vai além desse estranho gosto por um passado morto”, e que a abordagem da cultura histórica deve relacionar presente e passado.

Afinal, como escreveu o historiador francês Marc Bloch (1886-1944), a incompreensão do presente nasce da ignorância do passado.

É nessa perspectiva que se concebe o papel da História como um eficaz instrumento para a formação de uma geração mais consciente. No momento em que os estudantes percebem o sentido do conhecimento histórico, e como ele é produzido, certamente estarão mais aptos a fazer parte desta geração que se pretende construir. E, certamente, perceberão que o estudo da História vai muito além das perspectivas memorialísticas.

Por essas razões, a preocupação com o sentido do conhecimento histórico norteou a produção desta coleção, elaborada com o objetivo de propiciar aos estudantes instrumentos para que se apropriem do conhecimento histórico por meio de práticas de ensino e aprendizagem coerentes com a proposta teórico-metodológica que orientou a sua escrita.

A reflexão sobre o sentido do conhecimento histórico é muito importante, pois apesar de a palavra “história” ser bastante familiar – e as pessoas acreditarem que conhecem o seu significado de forma bem clara –, o seu sentido é bastante complexo.

Como bem observou a historiadora brasileira contemporânea Vavy Pacheco Borges, explicitar a acepção de História não é uma tarefa simples:

Há certas definições que parecem desnecessárias. História é um termo com o qual convivemos diariamente desde a infância. A maior parte das pessoas [...] se considera em condições de respondê-la, coisa que não se daria, por exemplo, se se perguntasse “o que é Semiótica?”. Mas, ao tentar uma resposta a “o que é História?”, a pessoa se enrolará, não chegando a nenhuma definição precisa, ou dirá, com um certo desinteresse, refletindo um consenso mais ou menos geral: “A História é o que já aconteceu há muito tempo”.

(BORGES, 1980, p. 7).


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Esse senso comum (“a História é o que já aconteceu há muito tempo”), comentado pela historiadora Vavy Borges, precisa ser repensado com urgência, uma vez que, conforme destacou o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) em sua obra Era dos extremos, o jovem de hoje vive em uma espécie de “presente contínuo”.

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca.

(HOBSBAWN, 1995, p. 13).

O presente contínuo a que se refere Hobsbawm, ou o “aqui e agora” – tão enfatizado pelos jovens estudantes que vivem em um mundo marcado pela sensação de “aceleração do tempo” –, tem ganhado maior relevância na mesma proporção em que o passado é considerado velho e descartável.

É natural, portanto, que o colega professor se sinta, inclusive, angustiado com essa questão. Mas não devemos nos sentir sozinhos. A historiadora Ana Maria Monteiro, professora de Didática e Prática de Ensino de História da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também manifestou sua inquietude ao afirmar:

Por que estudar História? Para que estudar o passado se o importante é o presente? Ouvidas com frequência pelos professores, essas perguntas inquietam. Quando feitas pelos alunos expressam de algum modo a falta de sentido no que lhes é ensinado. Os professores se esforçam para dar respostas convincentes, advertindo-os para a importância de se conhecer a dinâmica e as transformações das sociedades, mas a sensação, muitas vezes, é de que isso não é compreendido. [...] Num mundo onde os meios de comunicação acentuam a importância do tempo presente, em que o aqui e o agora parecem ocupar todas as atenções e o antigo é qualificado como velho e descartável, o estudo da História torna-se difícil, desafiador e, para muitos, desnecessário. Felizmente ainda há os que acreditam que a História é indispensável para compreender a sociedade, superando visões imediatistas ou fatalistas, que naturalizam o social, omitindo seus significados histórico e cultural.

(MONTEIRO, 2004, p. 85).

É muito significativo, também, que o colega professor, em seu ofício e desde os primeiros contatos com os estudantes, procure sensibilizá-los para o “gostar de História”, como nos ensinou o filósofo, jornalista e político italiano Antonio Gramsci (1891-1937):

[...] Acredito que de História você goste, como eu gostava quando tinha a sua idade, porque ela se ocupa dos homens vivos e de tudo o que se refere aos homens, ao maior número possível de homens, a todos os homens do mundo, enquanto se unem entre si em sociedade, e trabalham, lutam e melhoram a si mesmos. [...]

(GRAMSCI, [entre 1948 e 1951]).

De fato, ensinar e aprender História não são tarefas fáceis. Embora História seja vida (expressão da ação dos seres humanos no mundo), o conhecimento produzido a esse respeito oferece inúmeros desafios.

Não se pode ter acesso direto ao passado, mas, por outro lado, não pode existir um presente sem conexão com o passado. Por meio do estudo deste, é possível perceber e identificar as continuidades e as
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rupturas, elementos fundamentais para a compreensão da historicidade de cada indivíduo e da historicidade da sociedade da qual todos fazem parte. Como o historiador não tem acesso direto ao passado, a produção do conhecimento histórico será sempre uma representação deste. Não por acaso, o historiador francês Pierre Nora afirmou:

A História é a sempre incompleta e problemática reconstituição do que já não existe. A memória sempre pertence à nossa época e está intimamente ligada ao eterno presente; a História é uma representação do passado.

(NORA, 1993, p.7).

O conhecimento histórico também ganha sentido ao propiciar a formação do pensamento histórico, ou seja, a compreensão das relações que os diversos grupos humanos estabelecem entre si por meio das ações dos múltiplos sujeitos históricos, embora nem sempre a tais ações seja atribuído o valor que elas podem ter. A importância de tudo que diz respeito ao ser humano e, por conseguinte, à história, foi bem percebida pelo historiador francês Marc Bloch (1886-1944), segundo Bloch (1965, p. 11), “A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele.”.

Por essa razão, e por outras explicitadas anteriormente, é que, ao longo dos três livros que compõem esta coleção, o colega professor e os estudantes se deparam, no decorrer de seus estudos, com diversos vestígios que fazem parte da memória social e que foram contextualizados e “interrogados” a fim de propiciar uma melhor compreensão do processo de produção do conhecimento histórico. Com isso, discute-se, também, a importância da ampliação e do uso de diferentes fontes no ensino, com ênfase no trabalho de leitura e na interpretação de documentos escritos e visuais, desenvolvido a partir de múltiplas atividades.

O conhecimento histórico também ganha sentido ao colocar o colega e os estudantes em contato com o patrimônio cultural da humanidade, revelando, embora de forma limitada, como ele foi arduamente construído.

A preocupação com o sentido do conhecimento histórico – que pressupõe as múltiplas possibilidades de explicar o universo social – não exclui, evidentemente, o domínio de determinados conteúdos, que são elementos constituidores de uma “cultura histórica”. No decorrer de cada livro, ela foi contemplada a partir de pressupostos definidos pela Matriz de Referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias – área de História, publicada pelo MEC em 2009, embora sem pretensão de exaustividade.

Os conteúdos foram selecionados a partir de critérios temáticos baseados nessa Matriz, mas organizados cronologicamente, considerando a história europeia como base, incluindo referências às histórias africana, americana e brasileira.

Na perspectiva da articulação da cultura histórica, com o sentido do conhecimento histórico, concebe-se o papel da História como um eficaz instrumento para a formação de uma geração mais consciente, conforme salientou o historiador brasileiro contemporâneo Luciano Figueiredo (2003) “poucos de nós duvidamos que o conhecimento do passado é a trilha mais segura para uma presença mais consciente no mundo”.

No momento em que os estudantes compreenderem o sentido do conhecimento histórico e de como ocorre a sua produção, certamente terão mais condições de se perceberem como sujeitos históricos, capazes de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana. É nessa perspectiva que, no estudo de diversos temas, houve a preocupação não apenas com o conhecimento histórico, mas também com os processos de construção e (em alguns casos) de desconstrução deles, revelando, inclusive, os interesses – principalmente ideológicos – que permeiam tais processos. É o que se fez, por exemplo,
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no 3.º ano (Capítulo 2, Unidade 2), no que diz respeito à apropriação da imagem de Tiradentes por sujeitos históricos diversos, uma constante a partir da Proclamação da República (1889). Ora apresentado como um mártir que deu a vida pela liberdade e pela causa republicana, ora como um “cristo cívico” ou mesmo, no contexto político da Era Vargas (1930-1945), sem barba e em trajes militares, em uma clara alusão ao seu passado de alferes de cavalaria.

O sentido do conhecimento histórico pressupõe, ainda, a compreensão por parte dos estudantes de múltiplas realidades, de situações concretas de sua vida cotidiana e do seu tempo, condições essenciais para a formação e o desenvolvimento da cidadania. Por essa razão, na elaboração desta coleção, houve a preocupação em reconhecer as diferentes experiências históricas das sociedades, estudadas a partir da priorização de determinados temas, reflexo das tendências teóricas norteadoras, que abrangem desde o marxismo até a Nova História Cultural.

No estudo da Antiguidade Clássica, contemplado no 1.º ano, por exemplo, ganhou destaque o escravismo antigo, uma das diferentes formas de organização da produção. Na sequência e, nessa mesma perspectiva, o estudo do feudalismo também foi evidenciado neste 1.º ano da coleção. Nos outros dois anos, outras formas de organização da produção, como o capitalismo e o socialismo, foram contempladas, respectivamente, nos contextos da “Era das Revoluções” e dos grandes processos revolucionários do século XX.

Ainda em relação ao mundo greco-romano, mas na perspectiva das formas de organização social e do pensamento político, foram destacadas a cidadania e a democracia em detrimento de uma narrativa política geralmente hegemônica e da abordagem de temas já consagrados.

O sentido do conhecimento histórico também fica evidenciado quando os estudantes percebem que estudar História é criar a possibilidade de buscar explicações para as ações dos seres humanos no passado e no presente. É realizar uma viagem por outros tempos e espaços e, por meio da investigação, tentar compreender os caminhos por eles escolhidos, enfatizando as ações sociais, econômicas e culturais ao longo do tempo, mesmo em uma época em que não apenas a cultura histórica parece ser pouco relevante para muitos estudantes, mas o próprio sentido do conhecimento histórico também. Em relação a essa questão, o historiador italiano Massimo Mastrogregori, editor da revista Storiografia (Roma), escreveu:

Observando a presença do passado na situação atual, descobre-se um difícil estado de interação entre o grande peso do passado em nossa cultura, na própria materialidade de nossa civilização e a ação tenaz de forças atuando no sentido de dissipar toda a experiência em visões evanescentes. Não será talvez o caso de admitir que aquele mencionado horizonte de cognoscibilidade esteja desaparecendo, que ninguém mais acredita na religião do passado, fora os altos clérigos da memória, que são crentes por profissão: os milhares de arquivistas, historiadores, professores, administradores, curadores etc.?

Não será que, sobretudo, aquela ideia de ter ou de ser capaz de conhecer o passado tornou-se sem sentido e a existência de outra possibilidade brilhando no horizonte em que o passado é pura descontinuidade, um depósito de fragmentos incompreensíveis? [...] Entendemos que o passado pode ser conhecido e possivelmente superado, mas nunca eliminado. A relação com o passado, qualquer que seja, é feita de experiência.

(MASTROGREGORI, 2009, p.86-87).

O estudo da História, com base em uma perspectiva crítica, deve, necessariamente, assumir um papel relevante na formação de uma geração mais sensível ao compromisso de se construir uma sociedade pluralista, na qual o respeito às diversidades étnica, cultural e religiosa seja ponto fundamental. Em outras palavras, desenvolver uma sociedade com um profundo viés humanista e marcada pela tolerância, solidariedade e preocupação constante com a ética, a qual entendida como pressuposto indispensável ao convívio social.


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