Caminhos do homem: do imperialismo ao Brasil no século XXI, 3º ano


TRABALHANDO COM FONTES HISTÓRICAS



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TRABALHANDO COM FONTES HISTÓRICAS

Com a obra José Bonifácio, a fundação da pátria, o artista Eduardo de Sá (1866-1940) procurou transmitir uma ideia de harmonia social – na realidade inexistente – em um país no qual a maioria absoluta de sua população estava excluída dos direitos básicos da cidadania, quadro ainda mais agravado, considerando-se que cerca da metade da população (aproximadamente dois milhões de habitantes) era composta por homens escravizados, para os quais a independência nada significou.



Eduardo de Sá representou, em torno da figura de D. Pedro I, imagens representativas das etnias branca, negra e indígena, que, ao interagirem ao longo do período colonial, formaram a base do povo brasileiro. A intenção do pintor foi a de idealizar uma convivência harmoniosa, base para a construção da unidade nacional.

Assembleia Legislativa, Rio de Janeiro (RJ).



José Bonifácio, a fundação da pátria (c. 1800), de E. de Sá. Óleo sobre tela.
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No primeiro plano, o artista retratou José Bonifácio de Andrada e Silva (1763‑1838), o “patriarca da independência”, dando forma à bandeira do Império, “símbolo sagrado da unidade”. José Bonifácio destacou-se no processo da independência, atuando como ministro e conselheiro do príncipe D. Pedro. Em uma concepção conservadora, defendeu uma “separação sem revolução” em torno da monarquia, a qual deveria garantir a unidade do país.

Representações como essa tinham por objetivo construir a ideia do “nacional” na cultura brasileira ao longo do século XIX. A Proclamação da República (1889) manteve a ideia da construção do “nacional”, introduzindo novos personagens, como Tiradentes, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek (JK), Tancredo Neves, entre outros.

É importante considerar que essas representações constituem um paradoxo entre o país real e aquele idealizado pela perspectiva dos grupos dominantes.

Registre em seu caderno:

1. Em 1822, no contexto da independência política do Brasil, dos 4 milhões de habitantes, os escravizados representavam cerca de 50%, os índios eram aproximadamente 700 mil e a maioria esmagadora do restante da população era formada por mestiços, negros alforriados e brancos pobres. Nenhum desses sujeitos históricos gozavam de direitos políticos e não tinham acesso à cidadania. Tomando como referência os dados apresentados, redija um texto opinativo contrapondo-se à ideia de harmonia, paz social e unidade nacional sugerida pela fonte iconográfica apresentada na página anterior.

Ainda no século XIX, procurou-se fixar o índio como símbolo maior das origens da nação, que, conforme se observou, ainda estava longe de ser construída. Afinal, a ideia de nação pressupõe inclusão social e acesso à cidadania.

No entanto, o índio que se procurou legitimar como símbolo da nacionalidade não correspondia à realidade. Ele deveria ser um “índio de alma branca”, idealizado e em conformidade com determinados valores culturais europeizantes que eram assimilados pelas elites brasileiras.

Esse “modelo” de índio pode ser percebido na literatura romântica da época e está bem representado na obra Iracema, de José de Alencar. Também a ópera O guarani, de Carlos Gomes, é exemplar nesse sentido.

Com a República, esse quadro de dependência cultural em relação às concepções estéticas europeias não se alterou. Considere que, no fim do século XIX e princípio do século XX, são inaugurados, respectivamente, o Teatro Amazonas, em 1897, e o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1909, inspirados nos estilos arquitetônicos então dominantes na Europa. O “colonialismo cultural” permanecia, embora, contraditoriamente, houvesse a preocupação com a construção do “nacional” na cultura brasileira.

Após 1889, procurou-se fixar Tiradentes como o símbolo maior da unidade nacional. A data de sua execução (21 de abril) passou a ser oficialmente feriado nacional, assim como o 15 de novembro (data da Proclamação da República).

Tiradentes participou de um movimento (Conjuração Mineira de 1789) que ficou apenas no plano das intenções e, portanto, não apresentou qualquer tipo de ameaça à ordem social, uma vez que a estrutura escravista não foi
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questionada. Tiradentes pôde, assim, ser apresentado como um mártir acima das divergências, adequado a todos os grupos sociais. Na busca de uma identificação maior com a “tradição cristã do povo”, idealizou-se a figura de Tiradentes como um “Cristo cívico”, conforme foi observado pelo historiador José Murilo de Carvalho.



Museu de Arte de São Paulo (SP).



Moema (1866), de V. Meirelles. Óleo sobre tela, 129 cm × 190 cm.

A pintura também se vale de uma temática bastante sensível ao contexto do romantismo e revela um índio que só existe no plano do imaginário: quase branco e com traços físicos europeizados. Nessa pintura de Victor Meirelles de Lima (1832-1903), intitulada Moema, essa perspectiva pode ser percebida. O artista retratou o corpo da jovem deitado à beira do mar, em uma pose sensual, com a tanga presa apenas a um dos lados dos quadris, a perna esquerda apoiada em uma rocha e os cabelos soltos espalhados na areia. O mar aparece difusamente por detrás e, ao longe, percebe-se a mata, onde se sobressaem algumas árvores e palmeiras. Essa obra apresenta, em sua composição, uma índia idealizada, sem qualquer relação com a realidade. Imagens como essa reforçavam o imaginário de uma elite branca que detinha o poder no período imperial e buscava a identidade para a nação, cujas origens deveriam ser nobres e heroicas, tão ao gosto dos românticos do século XIX.




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