Camilo castelo branco



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ONDE ESTÁ A FELICIDADE? 
CAMILO CASTELO BRANCO 
 
 
Esta obra respeita as regras do  
Novo Acordo Ortográfico 
 
 


 
 
 
 
A  presente  obra  encontra-se  sob  domínio  público  ao  abrigo  do  art.º  31  do 
Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (70 anos após a morte do 
autor) e é distribuída de modo a proporcionar, de maneira totalmente gratuita, 
o benefício da sua leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a 
sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer 
circunstância.  Foi  a  generosidade  que  motivou  a  sua  distribuição  e,  sob  o 
mesmo princípio, é livre para a difundir. 
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PRÓLOGO 
 
A vinte e um de Março do corrente ano de mil oitocentos e cinquenta e seis, 
pelas onze horas e meia da noite, fez justamente quarenta e sete anos que o Sr. 
João  Antunes  da  Mora,  morador  na  Rua  dos  Arménios,  desta  sempre  leal 
cidade do Porto, estava na sua casa. Até aqui não há nada extraordinário. O 
Sr. João Antunes podia estar onde quisesse. 
A história assim começa fria e desgraciosamente. É uma espécie de Anjo do 
Nascimento. A descrição de uma tempestade, saraiva a estalar nas vidraças, o 
vento norte a assobiar nos forros, o arvoredo secular a ramalhar rangendo, e 
duas dúzias mais de caretas que a natureza faz à humanidade espavorida, e que 
os  romancistas,  desde  Longo  até  nós,  descrevem  com  invariável  frase  em 
todas as ocasiões que lhes não ocorre outra coisa... A mim também me não 
ocorre agora o que vinha dizendo... Penso que a minha ideia era apresentar o 
Sr.  João  Antunes  da  Mora.  Devia  ser  outra  melhor.  Tive-a  e  esqueci-a. 
Qualquer que ela seja, a todo o tempo que tornar, nunca virá tarde: o leitor 
será, então, indemnizado da pobreza, do trivial, do estilo esfalfado com que 
venho  a  depravar-lhe  o  paladar,  afeito  às  apimentadas  iguarias  do  romance, 
cuja  cabeça  vem  sempre,  ou deve  sempre vir,  sacudindo  rajadas  e  fuzilando 
relâmpagos. 


 
 
Seria gastar muita cera com o Sr. João Antunes esse luxo descritivo. Lamartine 
faz de um pedreiro um filósofo: a omnipotência do génio é o Santo António 
destes tempos de incredulidade: faecit mirabilia... 
Quem  é,  pois,  o  morador  na  Rua  dos  Arménios?  Lá  vamos.  O  Sr.  João 
Antunes  da  Mora,  por  alcunha  o  Kágado  natural  da  Lixa,  viera  rapazito  de 
doze  anos  para  o  Porto,  conduzido  pelo  seu  tio  materno,  o  tio  António 
Cabeda,  com  destino  de  embarcar  para  o  Brasil.  Achando-se  no  cais  da 
Ribeira,  com  o  dito  seu  tio,  admirando  o  tamanho  de  um  late,  que  o  bom 
António  Cabeda  denominava  uma  nau  de  guerra  marítima,  corri  grande 
espanto  do  rapaz,  chegou-se  a  eles  um  homem  gordo,  de  jaqueta  de  ganga 
amarela,  e  chinelos  de  ourelo,  perguntando  ao  tio  António  se  o  rapaz 
embarcava. À resposta afirmativa, disse o homem gordo, mandando cobrir os 
admiradores  da  nau  de  guerra  marítima,  que  era  dono  de  duas  lojas  de 
mercearia na Fonte Taurina, e muito desejava meter numa delas um rapaz que 
tivesse boa pinta para o negócio. 
— 
A  respeito  de  pinta  ela  aqui  está  como  se  quer  —  disse  o  tio, 
levantando com orgulho a cara do sobrinho, como o troquilhas que mostra os 
dentes de um cavalo. 
— 
Não  tem  mau  olho,  não  —  disse  o  merceeiro.  —  E  quer  vossemecê 
deixá-lo comigo? O Brasil é em toda a parte. Tenha ele cabeça, e boa aquela 
para o negócio, que o mais em toda a parte se arranja dinheiro. 


 
 
Tu queres ir ou ficar, rapaz? — perguntou o tio, atirando com a perna direita 
sobre o pau de lodo. 
— 
Eu...  —  resmungou  o  rapaz,  fazendo  em  torcidinhas  a  borda  do 
barrete. 
— 
Vá... é decidir!  Isto  é maré de  encambar enguias.  Assim,  como  assim, 
este senhor diz bem: o Brasil é em toda a parte. Queres, ou não queres? 
— 
O  que  vossemecê  quiser;  eu  antes  quero  ficar  mais  perto  da  minha 
gente. Acho que o Brasil é lá por aí abaixo muito longe. 
— 
Está dito! — exclamou o lavrador, assentando uma palmada na espádua 
roliça do bacalhoeiro — o rapaz fica com vossemecê. Trate-mo bem, que ele, 
a  respeito  de  ler  e  escrever,  é  como  se  quer:  e  de  forças?  Isso  então,  com 
licença de vossemecê, levanta-lhe aí do chão duas arrobas nos dentes... Anda 
lá, rapaz. 
João Antunes entrou em casa do patrão, jantou com o tio e disse-lhe adeus. 
Poucos  anos  decorridos,  o  sobrinho  do  tio  António  Cabeda  era  o  primeiro 
caixeiro,  mais  tarde  o  genro  do  seu  patrão,  e  depois  o  seu  herdeiro.  Com  a 
avultada  riqueza,  herdou  também  o  apelido  de  Kágado,  que  o  fôra,  desde 
muito, da antiquíssima ascendência de bacalhoeiros na Fonte Taurina, como 
consta de apontamentos curiosíssimos, que, a serem verdadeiros, recuam esta 
genealogia até D. Moninho Viegas, primeiro conde do Porto, de cujo serviço 


 
 
saíra a estabelecer-se o primeiro Kágado na Fonte Taurina. Legítimo era, pois, 
o orgulho que tinham do seu apelido o 
Sr. João Antunes da Mora, posto que a varonia dos Kágados expirasse no seu 
sogro. 
O  Sr.  João  enviuvara  sem  descendência.  A  linha  colateral,  representada  por 
outros  bacalhoeiros  de  Miragaia,  propusera  ao  viúvo  o  trespasse  das  suas 
mercearias, com avultoso interesse, com o fim de não saírem da família. O Sr. 
João  Antunes  anuiu,  trespassou  o  negócio,  e  retirou-se  com  o  seu  grande 
capital à sua casa da Rua dos Arménios. 
O  Sr.  João,  segundo  o  cálculo  dos  seus  vizinhos,  valia  o  melhor  de  cem 
contos, moeda corrente, sólida, e tangível. 
O capitalista precisava consumir em alguma coisa a sua imensa atividade. Por 
não  achar  expediente  mais  lucrativo,  dava  dinheiro  a  juros  sobre  hipotecas; 
mas,  nas  escrituras,  o  juro  da  lei  era  uma  inocente  mentira.  O  Sr.  João 
emprestava de quarenta por cento para cima, e não cansavam fidalgos que lhe 
fertilizassem  o  dinheiro,  capitalizando  no  título  a  usura  enorme  com  que  se 
divertiam  e  arruinavam.  (Vejam-se  os  filhos  desses,  e  contemporâneos 
nossos.) 
O  nosso  homem  não  desmentira  a  pinta  que  lhe  enxergara  no  olho  do  seu 
defunto  tio,  António  Cabeda.  Usurário,  avarento,  devoto  da  Senhora  das 
Dores  dos  Congregados,  particular  amigo  do  bispo-governador,  relacionado 


 
 
com  famílias  nobres,  e  especialmente  com  o  chanceler,  valendo  mais  de 
cinquenta contos desde que se retirara do negócio, o Sr. João Antunes, posto 
que  adventício  e  intruso  na  veneranda  progénie  dos  Kágados,  era 
inquestionavelmente o mais maroto de todos, sem lisonja. 
Nunca,  porém,  tão  salientes  sobressaem  os  relevos  do  carácter  de  João 
Antunes, como na noite de vinte e um de Março de mil oitocentos e nove. E 
aí está bem cabida a justificação do desazado começo deste romance, nata dos 
romances verídicos, milagre de literatura mercantil, como infelizmente é esta 
em  que  a  desenvoltura  da  imaginação  faz  que  o  leitor  esperto  não  creia  as 
sinceras crónicas de que sou editor, eu, o menos escandaloso dos inventores. 
Os  contemporâneos de  João  Antunes  e  nossos, à simples  intuição da  época 
que  vem  datada,  conhecem  que  a  invasão  francesa  sucedeu,  poucos  dias 
depois daquele em que, na Rua dos Arménios, o bacalhoeiro, às onze horas e 
meia da noite, aflito, impaciente, frenético, de instante a instante, coava pela 
fresta de urna janela de pau a sua vertiginosa cabeça. 
Ao  anoitecer,  João  Antunes  recolhera-se  aterrado.  As  notícias  convergiam 
assustadoras  de  todos  os  pontos.  Os  franceses  entravam  em  Chaves,  e 
desciam,  —  torrente  devastadora,  não  respeitando  haveres,  velhice,  pudor, 
religião — linguagem da gazeta da época. Para maior consternação das almas 
tementes  a  Deus,  entre  as  quais  avultava  a  do  Sr.  João  Antunes,  uma 
participação  do  quartel-general  de  Braga  em  retirada  dizia  que  o  general 


 
 
Bernardim Freire, suspeito jacobino, fôra assassinado pelo povo, e que os fiéis 
vassalos, comandados pelo barão de Eben, tal derrota sofreram no Carvalho 
de  Este,  que  lhe  era  escasso  o  tempo  para  fugirem  na  direção  do  Porto. 
Acrescentavam  os  informadores:  que  os  bárbaros  assolavam,  incendiavam, 
desonestavam  as  virgens,  matavam  as  velhas  desonestadas,  comiam,  como 
antropófagos, as crianças, e, para além do mais, saqueavam. Este, sobre todos, 
horrível verbo do discurso arrepiador, pôs o Sr. João Antunes em miserável 
estado. 
E, para cúmulo de infortúnio, dias antes emprestara o aterrado capitalista cem 
moedas, a juro de oitenta e cinco, ao fidalgo da Bandeirinha, João da Cunha 
Araújo Portocarreiro, tenente-coronel de Infantaria nº 6. A pressa com que o 
devedor  partira  para  a  trincheira  do  seu  comando,  e  a  desordem  em  que  se 
achavam  os  negócios  forenses  foram  causa  de  se  não  lavrar  a  escritura, 
imprudência nunca sucedida nas transações do usurário! 
O pior era que alguns populares da Legião rosnavam que João da Cunha era 
jacobino, e agrupavam partido para facciosamente o prenderem, como rebelde 
a el-rei, nosso senhor. 
E  Antunes  sem  título  das  cem  moedas!  “Se  matam  o  jacobino,  com  que 
documento  hei de apresentar-te à viúva?” Esta fúnebre interrogação custava 
ao ilustre enxerto dos Kágados um estorcegão de dedos, e uma cãibra forte na 
perna direita, afetada por ameaços de paralisia local. 


 
 
A avareza não foi capaz de estimular a natural cobardia do usurário. Antunes 
da Mora, nos acessos frequentes de vertigem pela desesperada sorte das suas 
cem  moedas,  quase  esteve  a  enfiar  pelas  mangas  o  capote  de  camelão,  e 
atravessar  a  cidade,  sem  cinco  réis  na  algibeira  (o  cauto  João  Antunes  não 
acreditava  na  honradez  dos  fiéis  vassalos,  e  tinha  razão)  até  à  bateria  do 
Bonfim,  para  onde  fôra  destacado  Portocarreiro,  o  devedor  que  a  mente 
alucinada  lhe  afigurava  insolúvel.  A  natureza,  porém,  recalcitrava:  as  pernas 
falhavam  à  coragem  do  sórdido  credor,  e  um  suor  frio,  acompanhado  de 
súbita  revolução  de  intestinos,  redobrava  as  angústias  do  infeliz  Gobsek, 
muito conhecido dos leitores de Balzac. 
Porque  se  não  deitava  ele na  sua  cama de  bancos  de pinho,  procurando  no 
sonho, ao menos, realizar um título autêntico das fatais cem moedas? 
Não  se  deitava,  primeiro  porque  não  tinha  sono;  segundo,  porque,  a  serem 
exatas  as  notícias  de  Braga,  a  marcharem  os  franceses  sobre  o  Porto,  era 
necessário acautelar os farrapos da cama, únicos sujeitos ao saque; terceiro e 
último motivo, é porque o Sr. João Antunes esperava alguém pelas traseiras 
marradas,  que  dava  no  ar  livre,  jogando  com  a  cabeça  fôra  da  fresta  com  a 
rapidez de uma catapulta. 
Não passou vivalma na Rua dos Arménios até à meia-noite. 
O bacalhoeiro fitava o ouvido na direção de Miragaia, quando ouviu o rumor 
de passos. Apoiou o queixo na fresta, ampliou com a mão a concha da orelha, 


 
 
e  esperou  até  convencer-se  que  era  finalmente  chegado  o  seu  vizinho 
barqueiro António Correia, por alcunha o Moiro. 
— 
Senhor João! — bradou da rua o barqueiro. 
— 
Cá estou à tua espera, rapaz. Então que me dizes? 
— 
Que hei de eu dizer-lhe, Senhor João? Que o levaram trinta milhões de 
diabos... 
— 
A quem? 
— 
Ao fidalgo da Bandeirinha. 
— 
Santo nome de Deus! Lá se me vai o meu dinheiro! Vocês mataram-no 
de todo? O homem já não fala? 
— 
Nem um triste pio! O caso foi assim: prendemo-lo para o trazermos ao 
bispo;  mas,  às  duas  por  três,  o  bispo  era  capaz  de  o  pôr  no  olho  da  rua, 
porque  os  grandes  acodem  uns  pelos  outros.  Quando  chegámos  ao  Padrão 
das  Almas,  o  senhor  Raimundo  José  Pinheiro  fez  uma  prédica  ao  povo  em 
que dizia que o melhor era dar cabo de todos os jacobinos. Palavras não eram 
ditas,  o  Francisco  Reteniz  mete  uma  bala  na  cabeça  ao  fidalgo,  e  eu,  como 
quem não quer a coisa, fui-lhe arrumando com a chanfaina pela cernelha. O 
jacobino  pediu  que  o  deixassem  confessar,  mas  foi  como  se  nada.  Fervia  a 
tapona de criar bicho, que era um louvar a Deus! Aquele lá fica estatelado no 
Padrão das Almas... Amanhã há de ter companheiros... A coisa não fica aqui. 


 
 
O  Luís  de  Oliveira  espicha.  O  chanceler  há  de  levá-lo  também  o  Diabo. 
Todos os presos da Inconfidência hão de ser feitos em postas na Relação... 
João  Antunes  já não  ouvia  o  sanguinário  vizinho.  A  palavra  “chanceler”  foi 
como  um  jorro  de  chumbo  candente  que  lhe  caiu  sobre  os  ventrículos  do 
coração,  tapando-lhos.  Antunes  não  respirava:  as  contrações  do  diafragma 
tiravam-lhe pelos intestinos rugidores. É que todos os choques morais desta 
organização  excêntrica  feriam-lhe  imediatamente  com  o  estômago  e  órgãos 
subjacentes. Enfermidade por certo original e única! Desventura suprema para 
um  capitalista  aterrado  na  fatal  época  da  invasão  dos  franceses!  Golpes 
repetidos de cólera esporádica que o miserando sofria no baixo-ventre, a cada 
ameaça de saque, a cada assalto imaginário aos seus cento e cinquenta contos 
de réis! 
Mas o programa do barqueiro, a respeito do chanceler, porque é que perturba 
assim João Antunes? 
Vamos vê-lo. Agora, sim: os pálidos terrores recuam diante do usurário. Ei-lo 
envergando  o  capote  de  quartos,  cerzindo  às  orelhas  a  carapuça  de  torçal, 
enfiando as canelas trémulas nas fartas meias de lã. Desce precipitadamente o 
caracol perigoso da escada, cose à fechadura a orelha perspicaz, abre e fecha 
mansamente a porta desconjuntada. E, depois, perna aqui, perna acolá, o Sr. 
João  Antunes  parou  na  Rua  de  Cedofeita,  à  porta  do  chanceler-governador 
das justiças, Manuel Francisco da Silva e Velga Magro de Moura. (O estirado 


 
 
do nome é pouco de novela; mas tolere-se à lealdade do conto a impertinência 
dos  apelidos,  que  constituem  em  Portugal  a  propriedade  única  de  muitos 
filhos dalgo.) A porta foi-lhe aberta ao terceiro toque. O tilintar acelerado da 
campainha significava a perturbação do importuno, que, a urna hora da noite, 
quebrava o sonho tranquilo do magistrado. 
A  voz  gosmenta  do  antigo  bacalhoeiro  era  bem  conhecida  aos  criados  do 
chanceler. Foi-lhe franqueada a porta, e conduziram-no, sem prévia licença, ao 
quarto do amo. 
João Antunes da Mora apresentou entre os cortinados do leito do governador 
uma cara pavorosa. Os pequeninos olhos, de uma cor equívoca, encovara-os a 
opilação  da  pálpebra  superior,  efeito  do  susto  horrível  que  lhe  incutira  o 
assassino  do  fidalgo  da  Bandeirinha.  Ao  correr  das  faces,  esponjosas  e 
vermelhas, em tempos de próspera segurança, o cáustico do terror sorvera-lhe 
os  sucos  oleosos,  deixando-lhe,  na  aridez  da  pele,  traços  de  uma  agonia  só 
comparável à do avarento que vê rolar num abismo todo o seu capital! 
— 
Que tem, senhor Meta?! — disse alvoroçado o chanceler. 
— 
Graças  a  Deus  que  ainda  está  vivo!  —  exclamou,  impando,  João 
Antunes. 
— 
Que ainda estou vivo?! Essa é boa! Pois esperava encontrar-me morto? 
Longe vá o agoiro! Sente-se aí... Que é isso? 


 
 
— 
Sabe  vossa  excelência  o  que  deve  fazer  já,  já,  sem  mais  preâmbulos? 
Fuja, senão matam-no... Fuja!... 
— 
Matam-me!  —  atalhou  impressionado  o  governador,  sentando-se  no 
leito. 
— 
É o que lhe digo... matam-no, senhor chanceler... 
— 
Porquê?! 
— 
Isso  é  que  eu  não  sei.  Vossa  excelência  está  condenado  a  ser  morto 
amanhã corri Luís de Oliveira, e com os presos da Inconfidência. 
— 
Mas que mal fiz eu? Quem é que me mata? 
— 
Os mesmos que mataram hoje o tenente-coronel João da Cunha, que lá 
se me foi com cem moedas, sem título, nem testemunhas. Eu que lho digo... é 
porque o sei de um dos próprios matadores do fidalgo da Bandeirinha. 
— 
Será por eu ter querido salvar ontem o desgraçado João da Cunha? 
— 
Não  sei  porque  é.  A  grande  questão  é  vossa  excelência  fugir  quanto 
antes... 
— 
Isso é impossível! O meu posto de honra é este: não o largo. 
— 
Qual  posto  nem  meio  posto  de  honra!  Aqui  não  há  honra  nem 
vergonha. Cada qual salve o seu dinheiro e a sua vida das unhas da canalha, 
que  a  vossa  excelência  já  devia  ter  metido  na  enxovia,  carregada  de  ferros. 


 
 
Enfim, não há tempo a perder. Vossa excelência fará o que quiser... Eu venho 
buscar o meu caixãozinho. 
— 
O  seu  caixão  está  acolá  no  gavetão  daquela  papeleira,  tal  qual 
vossemecê  o  lá  deixou;  mas  diga-me:  essa  terrível  notícia  que  me  dá  tem 
algum fundo de verdade? 
— 
Já disse a vossa excelência o que sei. Se quer o conselho de um amigo, 
fuja; se não tem medo, não dou nada pela vida da vossa excelência. 
— 
Isso  é  um  terror  pânico!  Vossemecê  ouviu  isso  a  algum  farrapilha  de 
cáfila de ladrões, que assassinaram João da Cunha, e não se lembra que essa 
quadrilha amanhã há de ser amarrada com uma grilheta, e conduzida à ordem 
do bispo para o Castelo da Foz... 
— 
Sabe que mais, meu senhor? Eu não queria estar entre a pele e a camisa 
do bispo. Mais dia, menos dia, descobrem que ele é jacobino, e matam-no. Se 
eu tivesse tempo, ainda ia hoje avisá-lo. 
— 
Para que fugisse? — disse o chanceler, sorrindo. 
— 
Está bem visto. 
— 
Já vejo que vossemecê tem partida a mola real da cabeça. Ora, Senhor 
João  Antunes,  agora  conheço  a  razão  etimológica  do  apelido  do  Kágado. 
Enquanto a mim, vossemecê sonhou que me matavam, e por essa ocasião lhe 
roubavam  o  seu  pecúlio.  Acordou  atarantado,  e  correu  a  buscar  o  seu 


 
 
dinheiro,  inventando  urna  descosida  peta  para  justificar  o  improviso  da 
resolução.  Não  tinha  precisão  de  tanto.  Assim  como  me  fez  depositário  do 
seu  cofre,  podia  levantar  quando  bem  lhe  aprouvesse  o  depósito.  Era 
escusado  vir  meter  medo  à  criança  de  cabelos  brancos.  Eu  chamo  um  meu 
criado para lhe conduzir o cofre. 
Nada... não é preciso, senhor chanceler. Eu cá me arranjo. Oxalá que a vossa 
excelência não tenha de arrepender-se do desprezo com que recebeu o meu 
aviso. 
— 
Não hei de ter, se Deus quiser. 
— 
Pois Deus o queira. 
— 
Vá, vá-se deitar descansado; ponha o caixão debaixo do travesseiro, ou, 
para mais segurança, adormeça de bruços sobre ele, e acorde com ideias mais 
alegres.  Amanhã,  se estiver  de pachorra,  apareça  por  aqui,  contar-me-á  com 
mais sossego o seu sonho sanguinário. 
O chanceler ria-se, enquanto João Antunes gemia para erguer do gavetão da 
papeleira um caixão volumoso de dois palmos de altura, com outros tantos de 
largueza.  De  sobre  o  joelho,  gemeu  de  novo  sobraçando-o  com  admirável 
energia,  e  retirou-se  seriamente  cómico,  enquanto  o  governador  vibrava  a 
mais sonora e conscienciosa das gargalhadas. 


 
 
João  Antunes  atravessou  incólume  da  Rua  de  Cedofeita  à  dos  Arménios, 
sentando-se  para  resfolegar  algumas  vezes.  Na  sua  rua,  àquela  hora,  reinava 
um silêncio tumular, quando o barqueiro, seu incómodo vizinho, não estendia 
os delírios da costumada bebedeira até de madrugada. 
O capitalista fechou-se por dentro; acendeu a bugia; reconheceu a identidade 
do  caixão,  analisando  um  a  um  os  cartuchos  das  peças,  e  os  valores  em 
brilhantes,  na  maior  parte  penhores  de  empréstimos  feitos  às  principais 
fidalgas do Porto. O caixão era de uma forma apropriada. Tinha uma tampa, 
que se abria com uma chave de segredo, para deixar ver seis pequenas gavetas, 
também  fechadas  cada  uma  com  diferente  chave:  precaução  estúpida,  de 
pouca  importância  para  o  ladrão  que  tivesse  um  braço  para  transportar  o 
caixão  e  um  prego  para  abri-lo,  muito  do  seu  vagar.  Cinco  destas  gavetas 
continham  moedas  em  oiro  e  em  papel.  A  alegria  cintilava  nos  olhos  do 
usurário; mas o sombrio susto contrastava em calafrios, que o não deixavam 
digerir plenamente o quilo da sua felicidade. 
Desceu ao andar térreo da pequena casa. Era um quadrado sem pavimento, 
frio como um subterrâneo, sem sinal de vida, apenas trilhado pelo lavrador de 
S.  Cosme,  que  de  ano  a  ano  vinha  levantar  os  espólios  acumulados  e 
regateados. Era esse um ramo de comércio que o hábil economista taxara num 
cômputo infalível: o produto devolviam-lho em nabos. 


 
 
No mais escuro do recinto álgido e escuro, o Sr. Antunes cavou um fosso de 
quatro palmos, escutando o menor ruído, e desconfiando até dos ecos surdos 
da enxada. Depois, mergulhou um como derradeiro olhar de profundo amor 
sobre  o  caixão,  e  depô-lo  carinhosamente  na  cova,  como  Joung  faria  à  sua 
filha querida. Calcou e recalcou a terra, cobrindo-a de lixo, de arestas de pedra, 
e cavacos de madeira apodrecida. 
Eram  três  horas  da  manhã.  O  Sr.  João  Antunes  comeu  duas  sardinhas  de 
escabeche, afogou-as em meia garrafa de vinho, e deitou-se. Quando, porém, 
o sono parecia afagar-lhe as pálpebras roliças, acometeu-o uma ideia fúnebre 
— a perda das cem moedas emprestadas ao fidalgo da Bandeirinha —, e não 
houve  mais  reconciliar  o  sono.  Rompia  a  manhã;  rufavam  os  tambores  das 
baterias  do  sul,  erguia-se  um  motim  sinistro  de  todos  os  lados,  mistura 
confusa  de  vozes,  de  clarins,  de  estridor  de  carretas,  de  toque  de  sinos 
remotos a rebate. João Antunes lançou-se fôra da enxerga, saudou o primeiro 
raio de sol, que lhe resvalou nas faces lívidas, desceu ao sepulcro provisório 
do seu dinheiro, aplaudiu-se da perfeição com que o fizera, e saiu, mais seguro 
que nunca, do seu depósito confiado às entranhas da terra. 
O usurário ia tentar um desesperado esforço, aconselhado pela insónia, para 
salvar as suas cem moedas emprestadas ao defunto brigadeiro João da Cunha. 
A  casa  da  Bandeirinha  ficava-lhe à  mão.  Nessa casa  devia  existir  a  viúva do 
desgraçado  jacobino.  João  Antunes,  indeciso,  estacou  minutos  diante  do 


 
 
heráldico  portão  dos  Portocarreiros.  Venceu,  porém,  a  sordidez,  e  o 
desalmado  puxou  com  decisão  de  credor  a  campainha.  Veio  falar-lhe  um 
criado lacrimoso. O bacalhoeiro, modelando a voz em piedoso diapasão, disse 
que  muito  precisava  falar  à  Sra.  D.  Maria  Rira,  sobre  negócios  de  muito 
transcendência. 
A  infeliz  viúva,  abandonada  de  todos,  rodeada  de  pequeninos  filhos,  mais 
corajosa  do  que  é  permitido  a  uma  mulher  que  perdera,  horas  antes,  um 
marido extremoso, precisava de alguém que a aconselhasse, que se condoesse 
do seu infortúnio, que lhe desse para seus filhos um esconderijo. O nome de 
João  Antunes,  noutra  ocasião,  ser-lhe-ia  importuno;  tal  hóspede,  sempre  vil 
em  negócios  de  dinheiro,  precavê-la-ia  contra  o  ardil  de  alguma  nova 
traficância. Neste momento de aflição extrema, a desolada viúva precisava de 
alguém, amigo ou inimigo, porque as suas lágrimas eram de condoer as feras, e 
as feras deviam apiedar-se da sua viuvez. 
Foi, pois, recebido João Antunes numa alcova, onde D. Maria Rira, rodeada 
de  criadas,  com  duas  meninas  nos  braços,  de  quarto  em  quarto  de  hora, 
sucumbia  desmaiada,  e  voltava  à  terrível  consciência  da  vida  para  invocar  o 
seu  marido,  a  essas  horas  acutilado,  com  a  face  na  terra  ensanguentada, 
esperando que uma corda o arrastasse nas ruas do Porto. 


 
 
— 
Que  desgraça,  senhor  Mora!  —  exclamou  a  viúva  correndo 
impetuosamente ao encontro do impassível bacalhoeiro — Que desgraça! O 
meu marido morto... as minhas filhinhas sem pai... o meu querido marido!... 
— 
Conforme-se com a vontade de Deus, excelentíssima senhora. 
— 
Não posso conformar-me com a vontade de Deus... 
— 
Não blasfeme, Senhora Dona Maria!... A nossa Senhora das Dores dos 
Congregados lhe perdoe. 
— 
Pois  hei  de  crer  que  Deus  permitisse  a  morte  vil  que  o  meu  marido 
teve?  Por  quem  é,  Senhor,  não  diga  que  é  Deus  a  providência  deste 
acontecimento!... O que eu sofro! O que tenho de sofrer! 
— 
Com vossa excelência não é nada. 
— 
Comigo?! Comigo é tudo. Eu sou a mulher desse honrado militar que 
os  infames  mataram.  Quero  pedir  aos  homens  justiça  contra  os  assassinos! 
Vingança,  Deus  de  justiça,  vingança,  que  mataram  o  pai  destas  meninas,  o 
marido desta viúva, que de joelhos vos pede vingança, justiça e misericórdia! 
D. Maria terminou a invocação por um trémulo de todas as fibras. O escarlate 
sanguíneo  do  rosto  demudou-se  em  repentina  lividez.  As  lágrimas 
borbulharam-lhe das pálpebras cerradas, e os pasmos nervosos, contorcendo-
lhe  os  dedos,  em  forma  de  garras,  davam  àquele  misto  de  horror  e  lástima 


 
 
uma  forma  especial  de  morrer,  uma  trabalhosa  agonia  com  intervalos  de 
delírio. 
João Antunes, como ninguém o mandava sentar, sentou-se o mais espontânea 
e acomodadamente que pôde, murmurando em tom compassivo: 
— 
Valha-nos a Senhora das Dores dos Congregados! Tudo são trabalhos 
neste mundo. Todos temos que sofrer... 
— 
E  voltando-se  para  as  criadas,  que  amparavam  a  viúva  desfalecida, 
perguntou  no  mesmo  tom:  —  Esses  fanicos  costumam  durar  muito  à 
senhora? 
— 
Isto não são fanicos... — respondeu de mau humor a velha Genoveva, 
criada  antiga  da  casa,  e  inimiga  do  usurário,  cujas  manhas  ela  conhecia  tão 
bem como sua ama. 
— 
Se vossemecê — continuou ela enraivecida — chama a isto fanicos, é 
capaz de dizer que a senhora está fingindo estes desmaios. 
— 
O  santinha,  eu  sempre  ouvi  chamar  fanicos,  ou  faniquitos,  a  essas 
coisas.  Eu  também  fui  casado,  e  a  minha  mulher  (Deus  lhe  fale  na  alma) 
também tinha esses fanicos. 
— 
Destes?  Antes  ela  os  tivesse...  Parece  que  Deus  escolhe  os  bons  e  os 
que  fazem  mais  falta  para  pagarem  pela  maldade  dos  que  não  fazem  falta 
nenhuma... 


 
 
— 
Que  quer  você  dizer  com  isso?  —  interpelou  formalizado  o  ex-
bacalhoeiro, que não era literalmente estúpido. 
— 
Já disse... Sabe que mais, senhor João? Vossemecê não vem cá a coisa 
boa; o melhor é que não venha afligir ainda mais minha ama. Vossemecê que 
lhe quer? 
— 
O que eu lhe quero ainda me não esqueceu: você é muito confiada, — 
não é assim que os donos desta casa costumam pagar os favores que devem. 
Ah! já vejo que vossemecê vem em boa ocasião para que lhe paguem favores. 
Vem muito a propósito... Sabeis vós que mais?  — disse ela com arremesso, 
voltando-se  para  as  criadas  —  levem  daí  essa  meninas,  que  estão  a  chorar, 
enquanto eu levo a senhora para a cama... Senhor João, venha noutra maré. 
— 
Todas as marés são boas... Quando o senhor João da Cunha (Deus lhe 
fale na alma) me pediu cem moedas antes de ontem, eu não lhe disse que não 
era boa a maré. 
— 
Eu volto já  — disse a criada conduzindo ao colo a ama sem sinal de 
vida.  E,  voltando,  assumiu  ares  de  senhora,  e  atordoou  um  pouco  o 
imperturbável estoicismo do usurário. 
— 
Então que quer vossemecê: dinheiro? 
— 
Sendo possível,  quero  o  meu  dinheiro; não  sendo possível,  quero  um 
título, ou um penhor, porque sou pobre, não tenho num ano o rendimento 


 
 
que a Senhora Dona Maria Rira tem num mês e passo muitas necessidades, e 
trabalho muito na minha agência para viver sem vergonhas do mundo e ser 
útil aos meus amigos, quando eles não querem o meu prejuízo. Ora aí está. O 
auxílio  da  Nossa Senhora das  Dores  dos Congregados  me  falte  se o  que  eu 
digo não é pura verdade. Emprestei ao fidalgo cem moedas, e preciso saber se 
a  fidalga  está  pronta  a  tomar  sobre  si  o  pagamento;  aliás,  eu  provarei  com 
todo o Porto que não sou capaz de pedir aquilo que se me não deva. 
— 
Mas vossemecê não vê que é uma dor de coração pedir dinheiro a uma 
infeliz viúva no dia em que lhe mataram o seu marido? 
— 
Enfim, morrer deste, ou daquele modo, tudo é morrer. Você diz que a 
viúva é infeliz; não estou por isso; infeliz sou eu, se perder o meu dinheiro; 
enquanto ela, se rica era, rica fica; o marido não levou as quintas consigo para 
o outro mundo. Eu não digo que quero já o dinheiro; mas como há viver e 
morrer, e eu estou resolvido a fugir amanhã aos franceses, não sei para onde, 
preciso  de  levar  um  documento  que  a  todo  o  tempo  seja  resgatado  pela 
senhora. 
— 
Quem lhe há de falar a ela em tal coisa? 
— 
Falo-lhe eu, que, louvado Deus, não tenho papas na língua. Vá você lá 
ao quarto da senhora, e diga-lhe, se ela estiver em jeito de me ouvir, que eu 
preciso falar-lhe para descanso de ambos nós. 
— 
Eu não vou lá com essa embaixada. 


 
 
— 
Pois então esperarei que a Senhora Dona Maria me fale. Eu daqui não 
vou sem título ou dinheiro. 
— 
Se houvesse aqui um homem nesta casa, vossemecê iria... 
— 
Com que então ameaça-me!... Valha-me Nossa Senhora das Dores dos 
Congregados... Por bem fazer, mal haver... É o que acontece a quem dá o seu 
dinheiro...  Pois  sempre  lhe  digo,  senhora  velha  criada,  sem  vergonha  nem 
temor de Deus, que tanto se me dá que haja cá homens como mulheres. Não 
tenho medo nenhum. É o que eu lhe digo! E não me faça ferver o sangue, que 
se  não  temos  despautério,  e a  coisa dá de si!  Olhe  que eu  sou  capaz  de  lhe 
meter um meirinho pelas portas dentro! 
Genoveva acreditava na perversidade do usurário, e receou muito mais do que 
as  infames  ameaças  dele  prometiam.  A  ousadia  com  que  até  aí  lhe  falava, 
sufocou-a o medo, por alguns minutos; mas, um rápido pensamento alentou-a 
de toda a sua coragem. Retirou-se da sala, onde João Antunes ficou sozinho, 
calculando as consequências da sua resolução, e dando-se os parabéns de ser 
tão patife, Genoveva voltou, e arremessou-lhe à cara um rolo de papel. 
— 
Aí  tem,  seu  malvado;  aí  tem  duas  ações  da  Companhia;  são  o  meu 
salário de cinquenta anos de serviço nesta casa. Quando a fidalga lhe pagar as 
cem moedas, você há de restituir-me as minhas ações; e, se mas negar (que é 
muito  capaz  disso),  tantos  demónios  o  acompanhem  para  as  profundas  do 


 
 
Inferno  quantos  foram  os  minutos  que  eu  trabalhei  para  ganhar  esse 
dinheiro!... 
— 
Não sou capaz de ficar com o alheio. Você não me conhece. 
João  Antunes  retirava-se  doido  de  contentamento.  O  arremesso,  que  lhe 
impeliu à cara de greda o rolo de papel, recebeu-o como se recebe a maviosa 
insolência de amante ciumenta, que nos dá um beijo onde nos deu o beliscão. 
Radioso de glória, com passo firme e pescoço ao alto, como quem volta de 
triunfar  em  perigosa  empresa,  o  intruso  na  sórdida  fieira,  dos  Kágados,  por 
estar  perto  da  Cordoaria,  donde  vinha  o  rugido  de  um  grande  reboliço, 
caminhou para lá, cosendo-se bem com as algibeiras, para não ser explorado 
por algum dos fiéis vassalos, que vomitavam os pulmões, bradando: “Viva a 
santa religião, e morram os jacobinos!” 
Com  efeito,  a  populaça,  em  cardumes,  aglomerava-se  em  redor  da  Relação, 
vozeando  infernalmente.  Acabava  de  chegar  à  Porta  do  Olival  um 
redemoinho de homens, fardados uns, outros esfarrapados, garotos, mulheres 
esquálidas  com  o  peito  nu,  e  as  pernas  salpicadas  de  lama.  Uma  salva  de 
chuças,  baionetas,  espadas  e  espingardas,  cruzando-se,  tocando-se  e 
baralhando-se no ar, ajuntavam ao alarido das vozes o tinido aspérrimo dos 
ferros: e ao quadro da canalha infrene, ébria, terrível e omnipotente, os laivos 
sanguíneos da carnagem. 


 
 
Era, pois, a canalha que fruía a sua hora de triunfo, de século a século. Era o 
tribuno de um dia aclamado nos comícios da taverna. Podem estranhar o agro 
desta linguagem. Acharão talvez insolência nos epítetos com que denegrimos 
as revoltas populares, que os de má-fé política tratam sempre de justificar com 
alguma  causa  sublime,  e  até  corri  a  inviolável  providência  do  progresso. 
Notem, porém, que o povo sanguinário, a que aludem essas e outras linhas de 
igual  desprezo,  não  abraçava,  repelia  a  ideia  da  reforma;  não  apregoava  a 
liberdade, assassinava os apóstolos dela; não vinha ao teatro da rebelião trocar 
a existência por um sorvo do ar livre que soprava do lado da França, embora 
impregnado  do  aroma  do  sangue;  vinha  estrangular,  na  garganta  dos  raros 
precursores da liberdade em Portugal, a palavra tímida da redenção. 
João  Antunes  reconhecera  de  longe  o  seu  vizinho  barqueiro,  e  o  carniceiro 
António de Sousa, amigo do seu vizinho. Com tais proteções, afoitou-se a ver 
de perto o que era que ocupava o centro daquela multidão. Mais perto viu o 
cadáver  de  João  da  Cunha,  amarrado  pelo  pescoço,  fraturado  em  todas  as 
saliências  do  rosto,  despedaçado,  enfim,  porque  viera  arrastado  desde  o 
Padrão das Almas. 
João  Antunes  sentiu  os  seus  crónicos  incómodos  de  intestinos.  Levou 
maquinalmente a mão ao abdómen revoltoso, como nós a levaríamos à cabeça 
esvaída.  Quis  retirar-se;  mas  não  o  ajudavam  as  pernas  vacilantes.  E  já  não 
podia  recuar. Foi  de envolta  nas  turbas,  que  se  aglomeraram em  redor  dele. 
Achou-se à porta da Relação, e presenciou, à força, uma cena em que devia 


 
 
representar um papel digno doutro homem. Vai ver-se como um infame pode 
passar por boa pessoa. Ver-se-á também como a avareza alarga a esfera das 
suas  funções  até  onde  se  não  encontra  um  resto  de  sentimento  nobre...  e, 
contudo, é mais admirável ainda a facilidade com que as grandes infâmias se 
escondem. 
Os chefes da anarquia eram Constantino Gomes de Carvalho, soldado pé-de-
castelo  da  fortaleza  da  Foz;  Francisco  José  Reteniz,  soldado  da  legião; 
António  Correia,  por  alcunha  o  Moiro  (vizinho  de  João  Antunes),  e  o 
carniceiro  António  de  Sousa.  Eram  estes  os  ferventes  apóstolos  da  revolta 
contra os jacobinos; foram estes os fautores do memorável dia vinte e dois de 
Março  de  mil  oitocentos  e  nove:  dia  de  vergonha  e  de  opróbrio  para  esta 
cidade, que deixou acutilar, no seu seio, por mãos, infames, alguns dos seus 
mais honrados filhos, primeiros mártires de uma ideia tão pouco aproveitada... 
e  que  tão  cara  pagaram  a  fama,  que  a  história  não  conhece,  quarenta  anos 
depois do sacrilégio. 
Estava  o  usurário  suando  copiosamente  entre  as  compressas  da  populaça, 
quando de diferentes centros da multidão saíram estes brados: “Queremos os 
presos da Inconfidência! Morra o Luís de Oliveira! Morra o Vicente José da 
Silva!” 
Ao prospeto facinoroso seguiu-se a execução. O carcereiro, quase de rastos, 
abriu as portas. O primeiro preso arrastado é o brigadeiro Luís de Oliveira. Os 


 
 
repelões  que  sofrera  até  à  porta  da  cadeia  foram  tão  originais,  ou  tão  em 
harmonia corri o instinto dos “fiéis vassalos do trono e do altar”, que o pobre 
homem vinha quase nu, enquanto o seu casaco, calças e colete eram trocados 
pelos andrajos dos bravos propugnadores da independência nacional. 
Abraçado a uma imagem da Virgem Mãe de Deus, Luís de Oliveira pedia de 
joelhos  que  o  deixassem  confessar.  Uns  dos  amotinados  diziam  que  sim, 
outros  que  não,  até  que  o  patriota  Constantino  Gomes  de  Carvalho,  por 
encurtar  razões,  e  obviar  uma  desinteligência  facciosa,  houve  por  bem 
enterrar-lhe  o  gume  de  uma  espada  no  pescoço.  Momentos  depois,  o 
brigadeiro não tinha uma feição: era uma úlcera, onde b verme esquálido da 
plebe cevava a ferocidade. 
Após este foram assassinados dez ou doze da Inconfidência. Formou-se uma 
longa arreata de cadáveres: a canalha ovante rugia um alarido de imprecações, 
um  como  hino  de  infernal  triunfo.  Deram  por  todas  as  ruas  da  cidade  o 
açougue  em  espetáculo.  Passaram  a  Vila  Nova,  arremessando-os  do  Cais da 
Bica ao Douro. 
João  Antunes  não  acompanhara  o  préstito  dos  canibais.  A  sua  situação  não 
saberei  eu  dizer  se  era  menos  atribulada  que  a  do  preso  arrancado  pelo 
carrasco da enxovia, e, morto, apenas respirava o ar livre. E a razão era esta: o 
usurário, aturdido com as rápidas evoluções da carnagem, esqueceu-se de que 
levava no bolso dos fartos calções de belbutina um rolo de papéis. Ilaqueado 


 
 
na rede que as pinhas de povo lhe faziam, toda a sua atividade era pouca para 
evadir-se  a  uma  formal  esmagadela.  Lutara  em  vão  um  quarto  de  hora. 
Sentira-se  três  vezes  escorchar  na  parte  mais  sensível  dos  intestinos 
melindrosos. Por último, consegue escoar-se por uma clareira, onde devia ser 
solenemente acutilado Vicente José da Silva. É então que se lembra de apalpar 
a algibeira... 
O  mais  certo  é  que  os  “honrados  moradores  da  cidade”  tiraram 
plenissimamente a utilidade das moradias, porque não saíram de casa. Dez mil 
assassinos arregimentados viriam da Maia ou de Valongo? Devemos crer com 
a tradição e testemunho, ainda vivo, dos contemporâneos da invasão francesa 
que  eram  muito  do  Porto  os  anarquistas  da  invasão,  E,  se  o  não  eram,  o 
número  “dos  honrados  moradores  do  Porto”  como  reza  a  sentença,  era 
diminutíssimo... 
Não encontra o rolo! Ressuma-lhe um suor frio dentre os óleos espremidos na 
pressão. Sente náuseas, consequência do revolvimento subitâneo das vísceras. 
Leva automaticamente à cabeça esférica as mãos convulsas. Arranca do íntimo 
um rugido como o do macaco entalado na cauda. Descora, cambaleia, cai, não 
direi como o abeto das montanhas, mas como o grego Lúcio metamorfoseado 
em jumento, sob o peso do seu infortúnio! 
João Antunes foi transportado em braços à casa de um sapateiro na Porta do 
Olival, ministraram-lhe aspersões de água choca de uma celha em que a sola 


 
 
amolecia;  imprimiram-lhe  valentes  solavancos,  capazes  de  ressuscitarem  um 
morto;  capitularam-no  de  bêbado,  como  hoje  se  capitula  um  bêbado  de 
colérico,  e  mandaram-no  ao  Diabo,  quando  a  nada  se  movia  o  bruto 
miserando. 
Por  fim,  João  Antunes  revive,  e  encara  em  redor  de  si  uma  boa  dúzia  de 
mariolas,  destacados  do  grosso  do  exército,  que,  a  essas  horas,  arrastava  os 
cadáveres,  a  hecatombe  oferecida  à  pátria,  à  religião,  e  ao  amantíssimo 
príncipe, que comia bananas no Brasil. 
Mal desperto ainda, o avarento revirou os olhos pávidos em torno, e teve a 
imprudência de chamar ladrões dos seus papéis aos beneméritos patriotas que 
o rodeavam. Palavras não eram ditas, o infeliz acordou de todo, tangido por 
quatro  homéricos  pontapés,  que  lhe  comunicaram  uma  atividade  nova. 
Casualmente,  passava  o  meirinho  geral  com  ordens  para  o  carcereiro,  e  o 
padre  Domingos  de  Queirós,  sargento  de  artilharia.  Conheceram  João 
Antunes, e empregaram esforços de tocante eloquência para o arrancarem às 
unhas  do  povo.  O  triste  contava  ao  padre-sargento  e  ao  meirinho  a  ímpia 
espoliação que sofrera, ele, tão amante da religião!, tão fiel vassalo do seu rei!, 
tão devoto da nossa Senhora das Dores dos Congregados, como era público e 
notório! 
Lágrimas  e  súplicas  inúteis.  Aconselharam-no  que  se  acomodasse,  para  não 
perder o precioso capital da vida. Não tinha, porém, pernas que o levassem 


 
 
dali,  onde  o  infando  crime  fôra  perpetrado.  Esperava  ver  o  seu  vizinho 
barqueiro;  talvez  ele,  por  tralhas  ou  malhas  lhe  restituísse  as  suas  ações  da 
Companhia, o penhor das suas choradas cem moedas. E esperou. 
Às duas horas da tarde voltava a plebe, pedindo cabeças. 
João Antunes viu de longe o seu vizinho; correu a encontrá-lo; mas o outro 
não lhe deu grande importância, posto que muitas vezes, a título de vigilante 
guarda  da  sua  casa,  lhe  arrancasse  para  vinho  alguns  cobres,  espremidos 
primeiro entre os dedos avaros do merceeiro. 
— 
Lá vai! — exclamou o barqueiro. — Eu não lho disse? 
— 
Quem, António? — disse João Antunes. 
— 
O chanceler, o jacobino, o herege! Morra o chanceler, que nos queria 
mandar arrancar na Relação por matarmos o jacobino da Bandeirinha! 
— 
Morra!  Morra  o  chanceler!  —  respondiam  compactas  centenares  de 
vozes roucas, cansadas, exalando a hálito pútrido de aguardente. 
Vinha,  pois,  o  enfermo  chanceler  numa  cadeirinha  para  ser  supliciado  no 
cadafalso  raso,  encharcado  ainda  de  sangue  das  outras  reses.  O  magistrado, 
que motejara o aviso do Kágado, vinha quase morto naturalmente. Perto da 
cadeirinha,  avultava  frei  Manuel  da  Rainha  dos  Anjos,  com  o  seu  hábito,  e 
com a sua veneranda fisionomia, e corri a sua tocante eloquência falando às 
turbas, tão depressa enfurecidas como amansadas, na sua estúpida consciência 


 
 
dos  deveres,  Dizia  o  frade  que  conduzissem  o  preso  à  presença  do 
reverendíssimo  bispo-governador,  para  ser  mais  solenemente  sentenciado  à 
pena última, se a merecesse. Recorrera o bom do religioso à astúcia, quando 
viu impotente a palavra sacrossanta do seu ministério de paz. 
João Antunes presenciara a cena, e teve um desses palpites que assaltam raras 
vezes o homem entalado nas costas do infortúnio. “Só assim poderei salvar o 
meu  dinheiro!”,  rugiu  ele  lá  dentro  das  soturnas  cavidades  que  o  verme  da 
avareza lhe minara na alma. 
E, chegando ombro a ombro com o barqueiro, disse-lhe ao ouvido: 
— 
António!, queres ganhar vinte peças? 
— 
Olá  se  quero!...  Quer  o  senhor  João  que  eu  dê  cabo de algum  diabo-
alma? 
— 
Não: quero que salves o chanceler. 
— 
Isso não pode ser! 
— 
Pode... recebes hoje mesmo as vinte peças. 
— 
Mas, senhor João, vossemecê bem vê que os capitães do povo não sou 
eu só; é o Constantino, o Reteniz, o carniceiro e eu... 
— 
Pois dá-se a cada um dos outros dez peças. 
— 
Dez é pouco. 


 
 
— 
Doze. 
— 
Vinte, como a mim. 
— 
Vinte é muito: quinze. 
— 
Espere aí que eu volto já. 
O  barqueiro  deu  um  assobio  com  os  dedos;  ouviram-se  apitos  semelhantes; 
num segundo estavam todos quatro em conferência, afastados um pouco da 
populaça,  que  parecia  comovida  pelas  instantes  lamúrias  do  confessor  do 
chanceler.  Entretanto,  João  Antunes  calculava...  mas  o  parlamentário  não  o 
deixou tirar a prova real dos seus cálculos. 
— 
Está  dito:  sessenta  e  cinco  peças  para  rodos  —  disse-lhe  o  Moiro  ao 
ouvido. — O homem vai ser remetido ao bispo, e de lá dêem-lhe a escapula. 
Sabia? 
— 
E  não  fazem  isso  pelas  sessenta  peças?  É  uma  conta  redonda!  — 
replicou jovialmente o usurário. 
— 
Nada  de  regatear,  senhor  João!  Se  quer,  quer;  senão  está  ali,  e  está  a 
mergulhar no Douro! 
— 
Pois bem: está feito o contrato; mas tu nunca hás de dizer que eu te fiz 
esta proposta. 
— 
Não, que se vossemecê o disser, não torna a dar um pio! Ouviu? 


 
 
— 
Ouvi: nem uma palavra a tal respeito. 
O barqueiro fez um aceno ao tribuno-chefe, que era o carniceiro. O carniceiro 
bradou: 
— 
Rapazes! O jacobino vai ser remetido ao senhor bispo-governador, para 
ser condenado e justiçado de modo que agrade à santa religião e a el-rei, nosso 
senhor. Deixemo-lo ir, e vamos dar cabo de alguns hereges, que ainda estão 
na  cadeia  do  outro  chanceler  da  Relação,  do  abade  de  Lobrigos  e  do 
Penteeiro.  E  victo  sério!  Neste  homem  ninguém  toca!  Vai  um  dos  chefes 
acompanhá-lo ao paço do senhor bispo. Que é do Moiro? 
— 
Aqui estou! 
— 
Vai tu com ele, e viva o príncipe regente, nosso senhor! 
— 
Viva! 
— 
E viva a santa religião! 
— 
Viva! 
— 
E viva o povo portuense! 
— 
Viva! 
— 
Morram os jacobinos, os hereges, e os fidalgos que não são cá da nossa 
aquela de patriotismo! 


 
 
— 
Morram! A multidão abriu passagem à cadeirinha. Seguiam-na de perto 
o frade, o usurário e o barqueiro. João Antunes disse ao ouvido do frade: 
— 
Fui eu que o salvei. 
— 
Pois  bom  foi.  Eu  logo  vi  que  a  minha  palavra  era  froixa  para  poder 
tanto, sem auxílio divino. 
— 
Não diga nada a vossa reverência. Calemo-nos. Apeado da cadeirinha, o 
governador das justiças subiu as escadas do paço encostado ao confessor e ao 
seu velho amigo bacalhoeiro. 
— 
Bem mo dizia vossemecê, senhor João Antunes — murmurou o pálido 
chanceler. 
— 
Avisei-o. Vossa excelência riu-se de mim, e quem o salvou fui eu. 
— 
Vossemecê?! 
— 
Sim, senhor. 
— 
Pensei que foram as exclamações do meu padre confessor. 
— 
Não é gente disso... Boas exclamações são o dinheiro. 
— 
Fez bem, meu amigo... Cá em cima falaremos... Quem é aquele homem 
que fica ao pé da cadeirinha? Parece-me que é um dos que me prenderam. 
— 
Tal e qual. Foi com ele que eu fiz o contrato da sua vida. 


 
 
E ele vem buscar o dinheiro? Se o houver à mão.. . senão eu lho darei lá. Não 
será necessário... O bispo há-se ter dinheiro... É muito? 
— 
Duzentas peças: são quatro os chefes; cinquenta para cada um. 
— 
Dera  muito  mais  para  não  passar  por  este  sobressalto:  pela  vida  dera 
tudo;  e  a  obrigação  em  que  me  deixa  o  meu  salvador  não  se  paga  com 
dinheiro. Vossemecê é um honrado homem! 
D.  António de  S.  José  de  Castro  veio  receber  nos  braços  o  governador  das 
justiças. 
— 
Venho para vossa excelência me sentenciar – disse o magistrado. 
— 
Está sentenciado a ser meu hóspede — disse o bispo, sorrindo. 
Pouco  depois,  foi  chamado  ao  interior  do  palácio  João  Antunes,  e  recebeu 
duzentas peças e um fervoroso abraço de gratidão. 
O usurário vinha pelo ar, não obstante o peso. Lucrava cento e trinta e cinco 
peças  de  comissão.  Roubado  em  seiscentos  mil  réis,  valor  das  ações  da 
Companhia, achava-se com duzentos e sessenta e quatro mil réis de mais?, em 
indemnização dos pontapés. Nunca tão lucrativo lhe correra o negócio! 
O  barqueiro  recebeu  as  sessenta  e  cinco  estipuladas,  e  correu  a  distribuí-las 
mas  não  correu  tanto  que  não  entrasse  numa  taverna  da  Porta  de  Carros  a 
beber  um  quartilho  do  Alto  Douro,  enquanto  João  Antunes  entrava  nos 
Congregados  a  rezar  a  estação  quotidiana  à  sua  devotíssima  Senhora  das 


 
 
Dores. Feita a reza, entrou numa estalagem a dejejuar-se, e esteve em riscos de 
perder a digestão com um par de murros, por desavenças com o estalajadeiro 
a  troco  de  uns  quebrados  no  meio  quartilho  de  vinho.  Tinha  magníficas 
torpezas o Sr. João. 
E, depois, correu a casa a saudar o sarcófago do seu dinheiro. Estava ali a sua 
vida, o seu sangue, cuja correria ele ativou, engrossando-o com mais cento e 
trinta e cinco peças, que entalou por entre as outras. 
Quatro  dias  depois  das  gloriosa  cenas  que  descrevi  em  face  dos  genuínos 
documentos, o exército francês acampava na Agra de S. Mamede, a meia légua 
do  Porto.  Travavam-se  as  primeiras  escaramuças,  em  que  a  guarnição  da 
cidade é sempre sovada, por assim dizer, a bofetões do adestrado inimigo. É 
deliciosa,  porém,  de  sensato  riso  uma  descrição  dos  sucessos,  manuscrito 
preciosíssimo no seu género, estranho parto de mentira e péssimo estilo, que 
devemos à lucubração ociosa de um frade, e que me veio à mão por favor de 
um ilustre antiquário. Segundo ele, era um gosto ver fugir vinte mil franceses, 
comandados por Soult, por Loison, por Delaborde, por Quesnei, e por tantos 
outros dos que viram as pirâmides e assustaram a Europa, abalada pelo braço 
de ferro de Bonaparte. Eram estes os que fugiam a uma guarnição de seis mil 
maltrapilhos,  de  trezentos  padres,  dirigindo  a  artilharia,  composta  por  meia 
dúzia de obuses, que até então serviram de lastro a navios mercantis, e para 
esse  efeito  faziam  amontoados  em  armazéns  de  Miragaia!  O  bom  do 
historiador,  não  podendo  combinar  o  sucesso  da  invasão  momentânea  com 


 
 
rasgos de tanto patriotismo nos defensores, foge pela tangente da Providência, 
e diz que o Senhor nos quisera punir com o látego da sua cólera, representada 
no marechal Soult. Seria isso? 
Seria. Não obstante, João Antunes, no dia vinte e seis, para evadir-se à cólera 
do  Senhor,  que  muito  respeitava  depois  da  Senhora  das  Dores  dos 
Congregados, quis passar a Vila Nova de Gaia, e de lá farejar as vicissitudes da 
guerra.  Certíssimo  ia  ele  de  que  o  seu  dinheiro,  sepultado  quatro  palmos 
abaixo  da  crusta  do  globo,  passara  ao  domínio  dos  mundos  subterrâneos, 
onde  só  um  furo  ao  alto  feito  pelos  antípodas,  poderia  empalmá-lo. 
Felizmente o bacalhoeiro jubilado não sabia nada de antípodas. 
O  pior  foi  que  o  não  deixaram  passar  para  além  do  rio.  A  plebe  despótica 
obstruíra  a  passagem,  quebrando  a  comunicação  das  barcas,  e  vociferava 
contra  a  cobardia  dos  fugidiços  aos  franceses,  que  não  entrariam  nunca  no 
Porto. Outros, menos, felizes do que o Sr. João Antunes, fugindo ao saque, 
foram  assaltados  pelas  guardas  “patriotas”.  Devemos  acreditar  piamente  o 
frade  historiador:  “...sendo  outros  logo  na  mudança  esbulhados  de  parte  do 
seu  precioso  (pelas  sentinelas),  pretextando  ser  necessária  a  revista  do  que 
levavam”. Boa gente! Há destes “patriotas”... 
Soult  condoera-se  deste  punhado  de  imbecis,  que  lhe  faziam  negaças  das 
destroçadas  baterias.  Enviou  ao  Porto  um  parlamentário,  propondo  uma 
benéfica paz. O parlamentário foi despido das suas insígnias e acutilado. Um 


 
 
legítimo rancor passou por cima da miserável defesa. Os franceses entraram, 
como  poderiam  ter  entrado  quatro  dias  antes.  Os  “bravos”  defensores 
reservaram  os  derradeiros  assomos  de  heroísmo  para  a  fuga,  e  valeu-lhes 
muito  a  reserva.  Fugiam  intrepidamente.  Diz,  porém,  o  frade,  que  pelos 
modos  foi  dos  últimos  a  fugir,  que  se  fizeram  aí  galhardias  inauditas.  “E 
justo”,  conta  ele,  “mostrar  à  posteridade  o  valor  incansável  e  a  maior 
intrepidez que assaz mostrou na Bateria 14 — S. Pedro ao Lindo Vale — o 
padre Domingos de Queirós, natural desta cidade, e sargento da companhia 
dos  artilheiros  eclesiásticos,  que  fez  sobre  o  inimigo  o  mais  bem  acertado 
fogo,  causando-lhe  notável  dano,  conservando-se  com  o  mesmo  valor  e 
intrepidez até à entrada do inimigo, botando fogo à pólvora, de que se seguiu 
a morte a muitos, e ficar todo queimado.“ Foi pena que ficasse queimado o 
ilustre padre Domingos de Queirós, sargento de artilharia! Excelente pessoa! 
Múcio Cévola de sotaina, que se queimou espontaneamente, instando consigo, 
não sabemos quantos padres seus camaradas! Como tens sido ultrajado, mártir 
do  Gólgota,  pelos  que  servem  o  azeite  da  lâmpada  do  teu  templo,  há 
dezanove séculos!... 
Tentar  descrever  João  Antunes,  quando  lhe  disseram  que  os  franceses 
entraram pela Prelada, é um absurdo.  
Perdeu  a  cabeça.  Galgava  o  pequeno  recinto  da  sua  casa,  de  ângulo  para 
ângulo,  com  as  unhas  fincadas  na  cabeça  hirta.  A  Rua  dos  Arménios,  há 
pouco  deserta,  estava  sendo passagem  dos  que  fugiam  do  Cidral,  do  Monte 


 
 
dos judeus e das travessas circunvizinhas. 
 
À ponte! À ponte! — era o grito de todos. Antunes teve um intervalo lúcido: 
fugir  como  os  outros.  O  seu  dinheiro  ficava  inacessível  ao  saque:  afora  o 
dinheiro, a velha roupa da cama, três cadeiras desconjuntadas, não lhe davam 
grande  aflição.  Um  livro  de  assentos  com  algumas  públicas-formas  de 
escrituras,  esse  tomou-o  ele  debaixo  do  capote  inseparável,  e  entrou  na 
torrente dos fugitivos. A onda engrossava cada vez mais. A gritaria era uma 
dissonante  e  infernal  mistura  de  exclamações!  Crianças  gritando  pelas  mães 
que se esqueciam dos filhos. Velhos suplicando de mãos erguidas aos filhos 
que  os  não  deixassem.  Damas  mimosas  vagindo  a  cada  pisadela,  que  lhes 
esmagava o calçado de seda. Mulheres esfarrapadas disputando, a murro, cada 
passo, que davam no caminho da suposta salvação, Frades e freiras, soldados 
e  meretrizes,  confundidos,  embaralhados,  rezando,  praguejando,  dando-se  à 
proteção da Virgem, e invocando a omnipotência de Satanás. 
E  neste  vórtice,  que  redemoinhava  pela  Porta  Nobre,  ia  João  Antunes 
embrulhado,  revolvido,  ofegante,  esfarrapado,  furioso  umas  vezes,  outras 
contrito, fazendo promessas onerosas à Senhora das Dores, e arrependendo-
se da imprudente prodigalidade; rangendo os dentes de raiva a cada apertão, e 
aventurando  um  pontapé  traiçoeiro  na  criança,  que  lhe  tolhia  o  passo; 
apertando ao peito o livro dos assentos e as públicas-formas das escrituras, e 
levantando,  frenético,  a  gola  do  capote  rebelde,  que  os  empuxões  lhe 


 
 
desaprumavam  do  dorso  derreado...  Agonia  indescritível!  Expiação 
tormentosa  de  todas  as  maroteiras  dos  Kágados,  desde  o  servo  de  D. 
Moninho Viegas até ao sobrinho de António Cabeda! 
A  enxurrada  chegara  à  ponte.  Todos  sabem  como  aí  se  fizeram  três  mil 
cadáveres.  Os  alçapões  estavam  abertos,  por  descuido  ou  por  traição.  A 
multidão entulhou as barcas: o peso quebrou as entenas estrondosamente; as 
fauces  do  abismo  engoliram  massas  compactas,  jorros  de  centenares  de 
corpos, famílias vinculadas no derradeiro abraço. 
Se da aglomeração de gritos pôde ouvir-se distinto um rugido inimitável, esse 
rugido foi de João Antunes da Mora. 
Morrera um grande maroto; mas a espécie não se perdeu. 


 
 
CAPÍTULO I 
 
Os romances fazem mal a muita gente. Pessoas propensas a adaptarem-se aos 
moldes que admiram e invejam na novela, perdem-se na contrafação, ou hão 
de em pábulo ao ridículo. Nestes últimos tempos, há muitos exemplos desta 
verdade, e tanto mais sensíveis, quanto a nossa sociedade é pequena para se 
nos  esconderem,  e  intolerante  para  admiti-los  sem  rir-se.  Homens,  sem 
originalidade, ou originalmente tolos, macaqueiam tudo que sai fôra da esfera 
comum.  Crédulos  até  ao  absurdo,  aceitam  como  reais  e  legítimos  os  partos 
excêntricos de cabeças excêntricas, e prometem-se dar tom a uma sociedade 
mesquinha, onde não aparecem o Zaffie da Salamandra, o Trêmor de Lelia, o 
Brúlart de Atar-Gull, o Vautrin do Père-Goriot, o Leicester de Luxo e Miséria, 
enfim) o homem fatal. Estes imitadores são perigosíssimos, ou irrisórios. Não 
topando na vida ordinária o lugar que lhes compete, querem conquistá-lo por 
força.  E,  depois,  das  duas  uma:  ou  atingem  o  apogeu  da  perversidade, 
calcando  a  honra,  cuspindo  na  face  da  sociedade,  e  caprichando  em 
abismarem-se  com  as  vítimas;  ou  —  o  que  quase  sempre  acontece  — 
imaginam-se  homens  excecionais,  sonhando  como  Obbermann,  raivando 
como  Hamlet,  escarnecendo  a  virtude  como  Byron,  amaldiçoando  como 
Fausto e acusando sempre o mundo ignóbil que os não compreende. 


 
 
Se  vos  impacientam  reflexões,  leitores,  encurtemos  o  prefácio  de  uma 
apresentação. 
Quero mostrar-vos o Sr. Guilherme do Amaral. Ides conhecer uma vítima dos 
romances. 
Este rapaz, de vinte e tantos anos, é da província da beira Alta. Nasceu e viveu 
até aos dezoito anos na aldeia dos seus pais. Aos quinze foi a Coimbra estudar 
preparatórios para  formar-se  em  qualquer faculdade.  Voltando  de  férias,  viu 
morrer a sua mãe, e, como já não tinha pai, emancipou-se aos dezoito. A sua 
casa rende doze mil cruzados. Guilherme do Amaral considera-se livre e rico. 
A sua paixão predominante não era a caça, nem a pesca, nem os cavalos: era o 
romance.  Comprou  centenares  de  volumes  franceses,  leu  de  dia  e  de  noite, 
decorou páginas, que lhe  eletrizaram o coração combustível, afeiçoou-se aos 
caracteres do grosso terror, como diz J. Janin; achou piegas o amor etéreo de 
Romeu, de Petrarca, de Bernardim, de Antony e de Rastignac... 
Impregnado desta lição escandecida, olhou em torno de si, e viu-se só. Queria 
mundo, queria ar, ansiava nutrição para a fome de impressões fulminantes. 
Resolveu deixar a pitoresca aldeia, e escreveu sobre a campa da sua mãe um 
adeus  romântico,  em  estilo  apocalíptico,  e  tal  que  ela,  se  o  ouvisse,  não  o 
entenderia.  Foi  para  Lisboa.  Apresentou  algumas  cartas  de  valiosa 
recomendação:  teve  excelente  acolhimento.  A  sua  entrada  nos  salões 


 
 
impressiona  os  finos  observadores,  e  não  é  indiferente  às  mulheres.  Isto 
passa-se em 1843. 
Guilherme  do  Amaral  deve  à  natureza  alguns  favores  externos,  que  não 
desmentem o molde interior em que ele ajusta a sua torcida vocação. É pálido; 
tem  olhos  grandes,  negros  e  ardentes;  não  os  lança  com  a  penetração  da 
curiosidade,  ou  da  análise  mordaz;  ajeita-os  a  não  sei  que  suave  melancolia, 
espécie de dolorosa intusceção, vista mais profunda para o íntimo de si que 
para as indiferentes frivolidades, que o rodeiam. 
No  baile,  passeia  quase  sempre  fumando  na  sala  deserta,  onde  se  fuma.  Aí 
responde, na frase mais concisa, à s perguntas benévolas dos que o intitulam 
amigo, e ele apenas conhece, ou finge apenas conhecer. Se vem ao salão onde 
giram as valsas vertiginosas, encosta-se ao batente da porta, amortece a vista, 
inclina  a  cabeça  sobre  o  ombro,  franze  a  testa  como  causticada  pelo 
aborrecimento, vê o seu relógio, onde é meia-noite, boceja como enfastiado, e 
retira-se  ao  seu  quarto.  Aí  abre  um  romance,  e  lê  até  às  quatro  horas  da 
manhã. 
E vive assim um ano. Não tem um amigo intimo; não tem uma mulher que 
lhe queira; não conhece mesmo, dentre tantas, a organização especial onde o 
seu carácter poderia ajustar-se. 
Algum dos seus conhecidos perguntou-lhe um dia: 
— 
Quantos anos tem, Guilherme? 


 
 
— 
Vinte e um. 
— 
Há quantos anos vive na sociedade? 
— 
A minha sociedade não é neste mundo. 
— 
Se  assim  dissesse  o  pontífice,  corriam  melhor  as  coisas  da  Igreja...  O 
senhor está cansado... 
— 
Estou. 
— 
Deve  ter  tido  uma  vida  tempestuosa,  terríveis  naufrágios  no  mar  das 
aspirações... 
— 
Sinto-me morto; mas não sei quando vivi. 
— 
Alguma  existência  anterior  à  atual.  Há  homens  que  têm  uma  vaga 
reminiscência de uma vida anterior. 
— 
É possível? 
— 
Não lhe dou como sistema a minha opinião; mas, ao vê-lo de vinte e 
um anos, amputado do grande corpo social, creio em todas as maravilhas da 
metempsicose.  Ramé,  em  184,  julgava  ser  o  Ramus  de  1540.  O  pior  é  que 
morreu doido... Queira dizer-me: não ama? 
— 
Não posso amar: ponho a mão sobre o peito, e retiro-a gelada. 
— 
Tem por consequência uma imagem quimérica, que o furta aos amores 
mais ou menos sensuais deste mundo? 


 
 
— 
Sonho uma imagem: não a encontrarei na face da terra. 
— 
Que juízo faz das mulheres deste globo? 
— 
Péssimo: mentira, matéria, venalidade, corrupção. 
— 
Tem-nas experimentado? 
— 
Não: não quero. Há em mim a preexistência de todas as desilusões. A 
cobra cascavel pressente-se de longe pelo ruído que faz, rojando-se. Dispenso 
as experiências ociosas. 
— 
Deve parecer-lhe bem infame este mundo! Como julga os homens? 
Como os julgou Vautrin, o homem estoico de Balzac. 
— 
Vautrin é má autoridade; se bem me recordo, era um forçado das galés. 
— 
Que  importa!  A  desgraça  desvendara-o:  tinha  a  ciência  das  lágrimas: 
fez-se  um  filósofo,  mais  crível  que  Rousseau,  nas  longas  vigílias  do  seu 
infortúnio. 
— 
Quer adotá-lo como mestre? 
— 
Sou absolutamente original: não estudo ninguém. 
— 
Amou? 
— 
Nunca: penso que já respondi a essa pergunta. 


 
 
— 
Não tinha ainda respondido. Eu, na sua posição, recolhia-me à tebaida 
da minha aldeia. A vida de Lisboa deve provocar a sua intolerante indignação. 
— 
Não vejo essa vida provocante. Até hoje, a vista do meu espírito não 
desceu.  A  águia,  por  enquanto,  libra-se  entre  as  nuvens.  Quando  descer, 
deixarei um rasto de sangue... 
O  interlocutor  de  Guilherme  do  Amaral  sorriu-se.  No  dia  seguinte, 
reproduzia-se  nos  cafés,  nas  praças,  e  nas  salas  o  diálogo,  recebido  com 
gargalhadas.  O  provinciano,  empalado  na  mordacidade  sarcástica  do  seu 
conhecido,  passou  ao  domínio  do  ridículo,  do  “desfrute”,  como  diziam 
maviosamente as mulheres, já de si indesfrutáveis. Um literato denominou-o 
Vautrin de cuecas; outro, Artur de feira da ladra; outro, Byron de escabeche; 
outro, Zaffie  de  tamancos; outro,  Leicester  empalhado. Esgotaram  todos  os 
pseudónimos  da  caricatura;  inverteram  em  irrisão  a  funeral  seriedade  do 
provinciano,  imolando-o  à  zombaria  das  mulheres  como  um  suplício 
merecido, por ousar ultrajá-las. 
Um folhetim, sem personalizá-lo, escrito por certo Maxime de Trailles (vide 
Balzac) que então era o primeiro no estilo da zombaria, e no sarcasmo oral, — 
hoje,  espécie  de  conde  Talorme  de  Mery  (vide  Amor  e  Roma),  exerce  as 
funções diplomáticas do seu modelo... esse folhetim, acinzelado de modo que 
não escondia a menor feição de Guilherme, deu ao provinciano a publicidade 
galhofeira,  para  ele  não  tinha  ainda,  fôra  de  uma  pequena  roda.  Para  maior 


 
 
afronta,  remeteram-lhe  o  jornal  em  carta  fechada,  aconselhando-o  que 
deixasse  Lisboa,  e  voltasse  ao  “ninho  seu  paterno”  a  cultivar  o  repolho  e  a 
batata.  Os  chascos,  as  ironias  e  as  injúrias  eram-lhe  aí  tão  cáusticas,  tão 
pungentes  à  sua  vaidade,  que  Amaral,  juvenil  de  mais  para  sacudir  a  farpa, 
sentiu-a  no  coração,  envergonhou-se  de  si  próprio,  concentrou-se  na 
consciência da importância que lhe davam, e arrependeu-se de ter parodiado, 
tanto à letra, os monstruosos moldes dos seus romances. 
Estava,  portanto,  o  aflito  rapaz  muito  longe  do  cinismo  indispensável  para 
arrostar  as  insolências  do  folhetinista,  justamente  aquele  que  lhe  arrancara, 
num diálogo, as extravagantes teorias. 
Guilherme  do  Amaral,  os  poucos  dias  que  esteve  em  Lisboa,  viveu-os 
encerrado  no  seu  quarto  de  hospedaria.  Ninguém  o  procurou  durante  esses 
dias; mas, na véspera da sua saída, quando visitava, despedindo-se, as pessoas 
que o apresentaram, encontrou uma, que lhe disse o seguinte: 
— 
Faz  bem  saindo  de  Lisboa.  Isto  aqui  não  é  o  que  a  vossa  senhoria 
imaginou de lá. As excentricidades são aqui bem recebidas; mas é necessário 
que o excêntrico não toque na chaga irritável desta gente. Vossa senhoria disse 
ao seu amigo, ou conhecido... que as mulheres eram a mentira, a venalidade e 
a corrupção. Disse, talvez, a verdade; mas isso não se diz a toda a gente. O 
excêntrico  pode  embriagar-se  todos  os  dias,  que  ninguém  por  isso  o 
ridiculariza:  o  mais  que  fazem  é  lamentá-lo.  Pode  ser  desordeiro,  e  visitar 


 
 
todas as noites o corpo da guarda, que ninguém o achincalha. Pode calotear, 
seduzir, infamar reputações... não é por isso expulso pelo marido da mulher 
infamada; o que, porém, não pode, é fitar a luneta com soberano desprezo nas 
mulheres  das  salas,  e  dizer:  “Tudo  isto  me  enoja.”  O  senhor  é  célebre:  é, 
talvez, um cético, exagerando a moda; seja-o muito embora, mas não o diga 
aos  homens,  diga-o  às  mulheres,  que,  muito  longe  de  se  ofenderem, 
lisonjeiam-se com a esperança de o conquistarem, galvanizando-o à força de 
descargas  elétricas,  de  sorrisos  voluptuosos.  Está  cansado?  Deite-se,  durma, 
não venha à sociedade, aplique-se os tónicos gerais da solidão, que vigorizam 
o  espírito  e  convalescem  os  desejos  saciados.  A  sala  não  serve  para  todos. 
Ora, se o seu cansaço é uma ficção, um irrefletido amor de celebridade, como 
amigo lhe aconselho que se deixe disso. Viva como toda a outra gente. 
Coma,  beba,  durma,  ame,  aborreça,  seduza,  infame,  defenda  as  mulheres 
infamadas  pelos  outros,  bata-se  com  os  maridos  das  suas  condessas  de 
Restaud, jogue a sua casa, indemnize-se das perdas, imitando o seu censor, o 
signatário  pseudónimo  do  folhetim  em  que  a  vossa  senhoria  é 
zombeteiramente pintado... Quer o meu amigo a celebridade do salão? Nada 
de  convícios  e  recriminações  contra  as  mulheres.  Profundo  silêncio  com  os 
homens; mas, com elas, uma eloquência lânguida, uma lamuriante saudade por 
um anjo, que sonhou aos quinze anos, de modo que, bem apurada a visão, o 
anjo venha a ser a mulher com quem fala, e pouco depois a outra com quem 
falar, e depois a outra, até à dona da casa, embora tenha cinquenta anos. De 


 
 
cara a cara, sem testemunhas, pode-se dizer a uma mulher tudo, que afronta o 
seu amor-próprio: ela sofre, cala-se, e resigna-se; mas, diante de um homem, 
isso é muito sério. Está provado por isso que a honra não está na consciência, 
está na opinião pública: nós sentimo-nos desonrados quando os outros dizem 
que  o  fomos.  Ao  ouvido  de  uma  mulher,  diga-lhe:  “Vossa  excelência  é 
mentira,  é  venalidade,  é  corrupção”;  ela  rir-se-á,  se  estiver  perfeitamente 
desenvolvida; e, se o não estiver, cala-se por vergonha, e desenvolve-se; aos 
homens,  nem  uma  palavra  em  desabono.  Se  lhe  convém  dizer  que  as  suas 
ilusões morreram de apoplexia fulminante, diga-o sem entono dogmático, sem 
o  pedantismo  chulo  de  certos  parvos  que  dão  preleções  de  ceticismo  no 
alcoice, encostados ao ombro nu das mulheres perdidas. Não sei que mais lhe 
diga.  Nada  de  arremedos.  Leia,  mas  não  imite;  e,  a  querer  sair  da  natureza, 
invente  alguma  novidade,  que  o  não  comprometa  com  os  caprichos  da 
opinião em voga. Se é moda ser cético, seja-o, mas vá dando provas de que 
acredita como S. Tomé, ao menos naquilo que toca... O meu amigo, seja feliz. 
Se não há nada a esperar dos meus conselhos, stulta est gloria... pior para si... 
 
Quarenta  e  oito  horas  depois,  Guilherme  do  Amaral,  prodígio  de  memória, 
repetia,  num  quarto  de  hospedaria,  no  Porto,  a  lição  do  seu  oficioso 
preceptor. 


 
 
CAPÍTULO II 
 
Não caiu em terra ingrata a semente. Guilherme do Amaral, como todos os 
homens  sem  originalidade,  indefinidos  na  consciência  própria,  bisonhos  da 
experiência  das  coisas,  que  individualiza  a  índole  das  pessoas,  aceitou  as 
teorias  do  cavalheiro  lisbonense  como  boas  para  o  uso  ordinário,  sem 
contudo saírem da esfera extraordinária. 
O  que  repugnava  ao  provinciano  era  a  vida  comum,  o  vegetar  trivial  das 
vocações  vulgares,  o  insosso  desperdício  de  júbilos  tolos,  e  de  aspirações 
tacanhas  em  que  a  mocidade  consumia  o  vigor  do  espírito  entre  o 
contentamento  de  vestir  uma  casaca  elegante  e  as  doçuras  de  ver  à  tarde  o 
namoro na janela. Viver à feição das máximas, que o amigo condoído lhe dera 
em Lisboa, convinha-lhe, frisava com a sua nova índole, poupando-se à irrisão 
com que fôra galardoado por inexoráveis críticos, que não valiam, ao meu ver, 
tanto como ele, e larga indemnização de ridículo teriam de dar-lhe, se Amaral 
lhes pedisse meças. 
Guilherme não conhecia ninguém no Porto; mas, à mesa redonda da Águia de 
Oiro,  encontrou  rapazes  de  província,  seus  conhecidos  da  feira  de  Viseu,  já 
relacionados no Porto, e prontos a apresentá-lo à aristocracia, à mediocracia, e 
à população importante dos botequins. Guilherme não rejeitou. 


 
 
Dava  um  baile  nesses  dias  o  barão  da  Carvalhosa.  Um  cavalheiro  de  Viseu 
pediu  uma  carta  de  convite  a  um  seu  amigo,  provinciano,  rico,  valendo  o 
melhor de trezentos mil cruzados, solteiro, muito sisudo, e excelente partido 
para  uma  menina.  O  barão  deu  pressurosamente  a  carta,  e  foi  repetir  à 
baronesa  as  informações  que  ouvira.  Ultrapassando  as  leis  da  etiqueta,  foi 
deixar um bilhete a Guilherme do Amaral. Na véspera do baile, recebeu com a 
mais expansiva cordialidade o provinciano, apresentando-o à sua mulher, e às 
suas  duas  filhas,  e  convidando-o  para  o  jantar  do  aniversário  da  sua  filha 
Margarida, no domingo posterior ao baile. Tudo isto parecia uma boa estreia a 
Guilherme. Agradava-lhe a franqueza da sociedade portuense; mas dispunha-
se a não desmentir a melancolia do seu novo sistema, nas libações prazenteiras 
de um festim. 
Uma hora depois que Amaral entrara no baile do barão da Carvalhosa, todas 
as mulheres sabiam que o provinciano era solteiro, rico, e muito sisudo. 
— 
Dizem  que  é  rico  —  murmurava  ao  ouvido  da  sua  amiga  uma 
interessante menina de olhos lânguidos, tez macilenta, e sorriso melancólico. 
— 
Já ouvi dizer — respondeu a prima. 
— 
Ouviste!? E será muito rico? 
— 
Penso que sim; meu tio conselheiro falou em trezentos mil cruzados. 
— 
Sim?! Não terá namoro? 


 
 
— 
Penso que não, ao menos no Porto. Disse a Margaridinha que tinha a 
certeza de que não. 
— 
Queres tu ver que ela... 
— 
Tem as suas vistas? Acho que sim... 
— 
Mas ela não namora há três anos o Henrique de Almeida? 
— 
Que é isso? É um passatempo. 
— 
Pensei que era um namoro sério. O Henrique de Almeida é um rapaz 
de talento, e boa figura... 
— 
E que mais? 
— 
Não tem trezentos mil cruzados; mas... 
— 
Mas... ficas aí. Porque não namoras tu rapazes de talento, que há tantos 
disponíveis por aí? Eu sei de dois ou três que te fazem versos, pintando-te de 
modo  que  quem  te  não  conhecer,  julga  que  tu  não  és  personagem  deste 
mundo, e andas por aqui nos bailes mundanos fugida da corte celestial... 
Sempre és, Francisquinha!... Má... eu bem sei onde queres chegar... 
— 
É fácil de saber... O caso é que a tua palidez romântica, os teus olhos de 
virgem da saudade, o teu sorriso de dolorosa resignação tem enganado muita 
gente, e tu, no fim de contas, és como eu, como minha prima, como deves 
ser... Vê como ele olha para ti... 


 
 
— 
Ele! quem? 
— 
O tal parvalheira. 
— 
Ah!... Eu não lhe acho nada de parvalheira. 
— 
Sim? Ainda bem... 
— 
Veste com certa elegância... 
— 
Mas não vem frisado, nem traz gravata branca. 
— 
É o bom tom. Fica-lhe tão bem aquele desalinho... Eu gosto daquilo! E 
ele olha para mim?... 
E muito! ó Francisquinha, eu vou erguer-me para dizer alguma coisa à minha 
tia; hás de ver se ele me segue com os olhos. 
— 
Pois  sim.  Demorou-se  alguns  segundos,  com  a  tia,  mastigando  uma 
frioleira. 
— 
Sim? — perguntou ela de lá com os olhos. 
— 
Sim — respondeu a prima vigilante com um gesto afirmativo, 
Aproximaram-se. 
— 
Vamos agora para a outra sala, e veremos se ele me segue. 
Foram: mas Guilherme do Amaral não se deixou da postura sombria em que 
o deixaram encostado ao alisar de uma janela. 


 
 
— 
Ele  não  vem!  —  disse  a  menina  pálida,  mordida  na  sua  vaidade.  — 
Chama o teu mano, que está ali. 
O mano veio. 
— 
Ó  primo,  já  conhece  um  rapaz  da  província,  chamado  Guilherme  do 
Amaral? 
— 
Já me foi apresentado. Quer que lho apresente, prima? 
— 
Não... Ele parece triste... 
— 
É; mas muito agradável, e diz muito bem o pouco que diz. Pode ouvir-
se falar. Quer que lho apresente? 
— 
Não, primo... Ouvi dizer que a Margaridinha... 
— 
É  seu  namoro?  Isso  é  uma  calunia.  O  rapaz  veio  há  cinco  dias  de 
Lisboa, e não teve ainda tempo de tirar o coração da bagagem. 
— 
Tem graça! Que diz ele das senhoras do Porto? 
— 
Diz a verdade: que são belas, elegantes, espirituosas... 
— 
Com quem falou ele já? 
— 
Isso  não  sei:  mas  se  ele  falar  com  a  minha  prima,  confirmará  o  justo 
conceito que lhe merecem as senhoras portuenses. Quer que lho apresente? 


 
 
— 
Não! Olha que cisma! Acha que estou morta por falar com ele?!... Sabe 
se ele se demora no Porto? 
— 
Não sei, minha amável prima; decerto se demorará se os seus olhos o 
prenderem. 
— 
Bonito! Está de açúcar em ponto! Ora diga-me: ele não dança?! 
— 
Não sei, prima. 
— 
Ainda o não vi dançar... Pergunte-lhe... 
— 
Quer ser seu par, priminha? 
— 
Eu! Que seca! Acha que estou morrendo de amores por ele? 
— 
Não digo tanto; mas ... confesse que simpatiza... 
— 
Não antipatizo... é-me indiferente... Ele aí vem. 
— 
Apresento-lho? 
— 
Ora!... Guilherme do Amaral, passando pelo cavalheiro que conhecia a 
sua prima a fundo, deu-lhe um sorriso de cerimoniosa graça, com um ligeiro 
cortejo de cabeça às damas. 
— 
Senhor Amaral — disse ele —, consinta que o apresente à minha prima 
e à minha mana. 


 
 
— 
E uma honra que me lisonjeia muito. Vossa excelência parece que tem 
piedade de um forasteiro, relacionando-o com pessoas tão estimáveis — disse 
Amaral. 
— 
Segue-me que não sou egoísta: quero que todos, e especialmente quem 
pode compreender-lhe o merecimento, sintam o prazer das suas relações.  A 
minha  prima  considero-a  nesse  caso;  minha  mana...  é  minha  mana,  e  seria 
irrisória a sua apologia na minha boca. 
— 
Ora o primo! 
— 
Ora o mano! 
Murmuraram ambas, requebrando-se com certa galanteria já muito velha. 
— 
Creio  que  lhes  fez  justiça,  minhas  senhoras  —  disse  Guilherme, 
alisando a luva da mão esquerda. 
A orquestra anunciara uma polca. D. Francisca foi roubada ao grupo pelo seu 
cavalheiro. A prima não estava comprometida. 
— 
Eu não aceitei par — disse ela. — e a vossa senhoria não vai dançar? 
— 
Não, minha senhora; eu não danço. — Não! Não gosta! 
O  primo  apresentante  retirara-se.  Guilherme  ofereceu  o  braço  à  lânguida 
Cecília, conduziu-a a um sofá e sentou-se na cadeira próxima. Em frente desse 
sofá viera sentar-se. 


 
 
O  barão  com  duas  amigas.  Margarida,  agitando  aceleradamente  o  leque, 
revirava  os  belos  olhos  sobre  Cecília,  e  dizia  às  amigas  com  forçada  graça 
alguma sátira que as fazia rir. Cecília fez-se desentendida, olhando vagamente, 
de vez em quando, para elas, e deleitando-se mais com o frémito do leque em 
estudados  movimentos  do  que,  ao  que  parecia,  com  a  conversação  do 
cavalheiro. 
Pelo que vejo, um baile deve ser-lhe uma coisa muito aborrecida! — replicava 
ela às razões que Amaral lhe dera de não dançar. 
— 
Não  aborreço  os  bailes,  minha  senhora.  Gozo;  mas  o  meu  órgão  do 
gozo é um sexto sentido, todo espiritual, todo celeste. Não preciso fatigar-me, 
nem comprimir ao seio as flores, que vicejam nos cabelos de um anjo, para lhe 
aspirar o perfume. O hálito do homem é uma profanação. De longe, recebem-
se  mais  fortes  as  sensações,  e  o  espírito  está  mais  seu,  mais  desembaraçado 
para saboreá-las. 
— 
E sente muito? 
— 
Muito. 
— 
Pelo passado, pelo presente, ou pela esperança? 
— 
O meu passado é uma peregrinação nas trevas, procurando a luz. 
— 
E encontrou-a? 


 
 
— 
Não  a  encontrei.  Sentei-me  fatigado  à  beira  do  meu  trabalhoso 
caminho,  e  esperei.  O  presente  é  uma  ânsia  do  infinito,  uma  sede  de  amor, 
uma súplica fervente de quem pede ao céu o orvalho, que faz reverdecer a flor 
queimada. 
— 
E o céu não o escuta? 
— 
É surdo: os anjos já não pedem pelos homens... 
— 
E a esperança? E um túmulo que vejo no meu abismo! Que ideia tão 
melancólica! Não pense assim! Há de encontrar uma larga indemnização aos 
seus sofrimentos... Vejo que tem muita, mas muito triste poesia no coração... 
— 
E a poesia da morte, a grinalda de flores, que vem com a mortalha, a 
flor  sem  brilho  que  despontou  sobre  a  sepultura...  Entristeço-a,  minha 
senhora? 
— 
Muito!  Começo  a  interessar-me,  a  compartir  dos  seus  sofrimentos... 
Ainda que quisesse ser alheia às suas dores, não poderia. 
— 
Agradeço,  como  se  agradece  uma  gota  de  água  no  deserto,  a  sua 
piedade. Vossa excelência tem sofrido? 
— 
Eu!... 
— 
A sua palidez parece-me o colorido que deixam as lágrimas na face não 
aquecida ao sol da Primavera dos amores. 


 
 
— 
Viu a minha alma, senhor Amaral. 
— 
Amou? 
— 
Não  amei,  se  o  amor  é  só  possível  na  terra.  Crê  nas  visões?  Eu  tive 
uma;  devorei-me  em  mentirosas  esperanças,  procurando-a...  Não  a  vi  em 
formas humanas. 
— 
Encontramo-nos, pois, à beira do mesmo abismo... 
— 
É o que eu ia dizer-lhe... 
— 
Não temos lugar neste festim servido pelo acaso, ou pela Providência. 
Somos  almas  expulsas  da  união  dos  corpos:  vagaremos  de  esfera  em  esfera 
com  os  corações  abertos  para  recebermos  a  metade  da  existência  que  não 
tivemos aqui. 
E é certo que nunca a teremos?!... Impossível! Não diga isso... não queira ser o 
algoz  de  uma  esperança,  que  me  fala  no  coração,  como  o  eco  delicioso  das 
suas palavras. 
— 
E uma esperança, que mente. 
— 
Deixe-me  sonhar  uma  ventura,  que  julguei  impossível  até  este 
momento... que o despertar converte em realidade de espinhos. 
— 
Deixe-me  crer  que  há  no  mundo  quem  possa  levantá-lo  desse 
abatimento. 


 
 
— 
É  invocar  o  morto,  sobre  que  pesa  uma  loisa  menos  pesada  que  o 
esquecimento. 
O  cavalheiro  de  Lisboa  era  capaz  de  meter,  num  abraço  entusiasta,  duas 
costelas  dentro  ao  discípulo,  se  pudesse  presenciar  o  diálogo,  que  o  leitor 
decerto não entendeu melhor que eu, nem melhor que eles. 
Entretanto, Margarida, visivelmente despeitada, dizia às amigas: 
— 
Que estará dizendo aquela tola? 
— 
Naturalmente, umas palavras do ar que ela lá sabe, e só ela entende. 
— 
Ó meninas! — disse a filha do barão. — Não o veem a ele, que parece 
que  está  a  dormir?  Olhem  que  modo  aquele  de  encostar-se!  Parece  que  se 
deita sobre o ombro dela! 
— 
Aquilo são posições românticas. 
— 
Acho-as  indecentes!  E  ela!...  Forte  pateta!  Como  pende  a  cabeça 
enternecida... Pensa que se gosta muito daquelas gaifonas!... Tem feito aquilo 
com dúzia e meia de namoros que lhe tenho conhecido. A mania dela é que 
ninguém compreende o seu coração. Três dias antes de algum baile, não come 
nada, e bebe vinagre para se fazer macilenta, e dar aos olhos aquele pasmo de 
coelho morto. Sempre se veem coisas! Não tem nada de seu, e imaginou que 
arranjava  marido  rico  e  novo  com  aquelas  momices  estudadas  ao  espelho. 
Como  não  acha  senão  poetas  pobres  que  lhe  façam  corte,  e  esses  não  lhe 


 
 
convém, vira-se para os brasileiros, e diz lá umas trapalhices, que ela sabe, a 
homens, que vêm perguntar ao meu pai se ela tem legítima. Pensa a tola que o 
parvalheira está morrendo por ela! Em ele sabendo a peseta que ali está, há de 
chorar o tempo que tem desperdiçado com ela... 
— 
Tu tens ciúmes, Margaridinha... 
— 
Eu!  De  quê?  Bem  me  importa  a  mim.  É  que  me  custa  a  ver  aquela 
poetisa de água doce, pronta sempre a meter-se à cara de todo o homem que é 
rico. Aquilo é uma vergonha para o nosso sexo; pois não é assim? 
— 
Tens razão, menina; eu, se fosse a ti, desenganava-o. 
— 
Tomara eu ter quem lho dissesse; mas não queria de modo nenhum que 
se suspeitasse que eu tinha interesse nisso. 
— 
Queres tu que o Mesquita lho diga? Eu já os vi juntos, e não há nada 
mais fácil ... Pode ser que ainda hoje se falem... Ah!, ele está acolá ... 
A  serviçal  amiga  pediu  a  um  cavalheiro  que  chamasse  o  indicado  Mesquita, 
seu  conhecido  namoro.  Falou-lhe  quase  ao  ouvido  alguns  minutos.  O 
submisso emissário partiu, lisonjeado da comissão. 
Cecília retirara-se pelo braço da prima, a quem dizia: “Aquele homem é um 
anjo:  encontrei  sobre  a  Terra  o  meu  sonho;  amo-o  com  delírio,  com 
clemência, com frenesi.” 


 
 
Mesquita sentou-se ao pé de Guilherme, que ficara, aparentemente, absorvido 
num dos seus espasmos adquiridos pelo hábito do arremedo. 
— 
Parece que está triste, senhor Amaral... 
— 
Um pouco triste. Em mim é normal esta situação. 
— 
Quem  vem  de  Lisboa,  onde  todas  as  damas  são  física  e  moralmente 
interessantes, deve achar bem fastidiosos os nossos bailes... 
— 
Pelo contrário. Agora mesmo acabo de ouvir uma senhora que tem um 
sistema divino de exprimir-se. 
— 
Dona Cecília Pedrosa? 
— 
Penso que sim; não lhe sei ainda o nome, porém deve ser essa, porque 
as  informações  que  lhe  dou  não  podem  caber  a  muitas,  sem  que  eu  queira 
menosprezar  as  outras.  É  aquela  que  ali  vai  de  vestido  escarlate.  — 
justamente. E muito espirituosa; é pena que seja tão leviana. 
— 
Leviana? Que é leviana na sua opinião, meu caro senhor? 
— 
É uma mulher, que tem tido trinta namoros; que diz a todos a mesma 
página  de  um  romance,  que  decorou;  que  namora  hoje  um  poeta,  que  lhe 
chamou  Safo,  amanhã  um  estúpido,  que  lhe  passou  duas  vezes  a  cavalo  à 
porta; depois  um  delegado com esperanças  de  ser  juiz;  depois  um  brasileiro 
com  cinquenta  contos,  etecetera,  etecetera,  e  diz  a  todos  que  não  foi 
compreendida até ao momento em que os encontrou. Todos eles, à exceção 


 
 
do  poeta,  que  é  a  ostra  do  sentimento,  retiram-se  do  melhor  modo  que 
podem,  e  ela  fica  sempre  esperando  o  último  com  dinheiro,  para  ser 
compreendida. É uma tola excêntrica! 
Guilherme sorriu-se, e convidou o informador a passearem na sala do fumo. 
Esperava  este  alguma  expansão  do  provinciano  a  respeito  de  Cecília;  mas  o 
precavido Amaral nem uma palavra aventurou. 
Entrava um jornalista, justamente o poeta caudatário de Cecília. Mesquita, no 
desempenho da sua melindrosa missão, queria desempenhar-se com destreza. 
Para  justificar  a  opinião  que  dera  de  Cecília,  apresentou  a  Guilherme  o 
jornalista, e perguntou-lhe: 
— 
Namoras ainda Cecília? 
— 
Hei de namorá-la toda a minha vida. 
— 
Mas sempre infeliz Otelo, atraiçoado sempre! 
— 
Que  me  importa  a  mim?!  Tu  não  compreendes  como  eu  amo  aquela 
mulher. 
— 
Delirantemente. 
— 
Qual delirantemente! E uma especulação literária. 
— 
Não entendo; e a vossa senhoria entende, senhor Amaral? 
— 
Não, senhor. 


 
 
— 
Eu lhes digo. O meu amor àquela mulher tem quatro estações em cada 
ano,  e  cada  estação  tem  três  meses.  Amo-a  em  Janeiro,  Fevereiro  e  Março. 
Cada  semana,  escrevo-lhe  uma  poesia  palpitante  de  ternura.  No  fim  de  três 
meses  são  doze  poesias.  Depois,  Abril,  Maio  e  Junho,  são  para  o  ciúme: 
escrevo doze poesias enfurecidas, tétricas, e incisivas como o rugido do chacal 
ao qual roubaram a fêmea. Julho, Agosto e Setembro, escrevo doze poesias de 
ceticismo, estilo híbrido, despedaçador, lancinante, cáustico, enfim, um quírie 
de  insultos  contra  as  mulheres.  Em  Outubro,  Novembro  e  Dezembro, 
escrevo  doze  poesias  de  desalento,  estilo  lamuriante,  pieguice  brava,  um 
memento  de  fazer  chorar  as  mulheres  dos  nossos  alfaiates,  um  adeus  de 
Chatterton  à  vida,  uma  maldição  de  Gilbert  à  sociedade,  uma  coisa  horrível 
que  eu  escrevo  sempre  depois  de  jantar,  com  o  pesadelo  de  uma  digestão 
laboriosíssima. No fim do ano de quarenta e oito semanas, tenho quarenta e 
oito  poesias,  que  vendo  a  um  editor  por  cinquenta  moedas,  o  mínimo. 
Compreenderam-me agora? 
Mesquita  ria  desentoadamente;  Guilherme  respondeu  com  um  quase 
impercetível  sorrir  de  desprezo,  que  o  jornalista  recebeu  como  recebia  os 
desdéns  desprezadores  de  Cecília.  E  prosseguiu,  voltando,  em  desforço,  as 
costas ao “parvalheira ignaro e soez” como ele esperava brevemente intitulá-lo 
numa coleção de quadras chistosas, dignas de Tolentino. 
— 
Agora diz-me tu, Mesquita, se esta mulher não é uma preciosidade! — 
prosseguiu  o  jornalista.  —  Quando  os  poetas,  à  mingua  de  inspiração,  se 


 
 
calam  como  as  cigarras  em  Setembro,  eu  canto  todo  o  ano,  e  já  vou  no 
terceiro da publicação da minha atormentada existência. Sem Cecília, acredita 
que eu não fazia um verso, e Cecília, sem mim, acredita também tu que não 
teria uma quadra séria, nem uma imortalidade tão barata. Ora, é assim que se 
ama:  tudo  que  não  é  isto,  é  ser  inferior  ao  século...  Plaudite  cives!  Temos 
sanduíche  e  vinho  do  século  XVIII.  Não  se  fala  mais  de  mulheres:  cedant 
arma! 
E encastoou a luneta no olho direito para medir a profundidade do tabuleiro e 
a legenda das garrafas. 


 
 
CAPÍTULO III 
 
Mesquita já tardava à ansiedade de Margarida. As informações obtidas não lhe 
pacificaram  a  caprichosa  curiosidade.  Disse  que  Guilherme  elogiara 
ardentemente  a  esperteza  de  Cecília.  Alegou,  como  serviço,  o  episódio  do 
jornalista, do qual não colhera o fruto desejado. Na opinião dele, informador, 
Amaral  amava  Cecília,  fascinado  pela  verbosidade  das  bas-bleu, 
escandalosamente  empalmada  nos  romances.  Margarida  arquejava, 
disfarçando com o leque o rubor, que lhe não ia mal no rosto, de um branco 
desbotado.  Ergueu-se  com  a  energia  de  uma  resolução  irrefletida,  e 
desapareceu entre os grupos, encostada ao braço da sua prestante amiga. Ao 
passarem de uma sala para a do toucador, viram noutra, menos frequentada, 
Guilherme  do  Amaral  e  Cecília,  de  braço  dado,  e  um  ar  de  inteligência 
misteriosa na conversação, como se pudessem, sem escândalo, namorados de 
três anos, em véspera de noivado, passear assim juntos, sós e íntimos! 
Margarida,  enraivecida  por  tão  sérios  estímulos,  esqueceu-se  de  afastar  da 
ponta do pé impetuoso a primeira roda de folhos do vestido, e entalou-se de 
modo que lhe foram na ponta do sapato de cetim branco. Assanharam-se as 
iras.  Fugiu-lhe  dos  lábios  nacarinos  uma  exclamação  colérica,  de  tal 
indecência, que ninguém ousaria esperá-la deles, a não ser a inseparável amiga, 
que não tinha nada a estranhar, nem explicações de palavras equívocas a pedir. 


 
 
Na saleta do toucador estavam senhoras, trocando-se mutuamente os favores 
do enfeite. Esta, a quem uma espiral de cabelos encaracolados a ferro caíra nas 
evoluções da polca, faltava-lhe chorar, porque a trança rebelde não cedia ao 
afanoso  encaracolar  dos  dedos.  Aquela,  amarrotada  na  manga  perdida  do 
vestido de rendas, ansiava querendo retirar-se do baile. Aquela outra desairada 
de  um  ombro,  porque  o  decote  do  corpete  de  cambraia  lhe  fugia  da  linha 
artística da espádua, rogava pragas à Guichard. Faltava Margarida com o seu 
quinhão de amargura. 
Não era, porém, o rasgado folho do vestido o que lhe fazia saltar o coração de 
encontro  às  barbas  de  baleia.  Queria-se  só  com  a  sua  amiga.  Passaram,  por 
isso, ao quarto imediato, onde as criadas, de cócoras e às escuras, espreitavam, 
rindo sarcasticamente dos infortúnios das damas desarvoradas. 
Intimou-as  para  que  saíssem,  e  desafogou  a  boa  alma  comprimida  nestes 
angélicos queixumes: 
— 
Aquela trapalhona faz-me subir a coca ao nariz! Há de ouvir-me, ou eu 
não  hei de ser  quem sou... Eu  farei  que  ela  não  torne a  pôr o pé na  minha 
casa... És minha amiga, Cristina? 
— 
Vem a tempo essa pergunta... Que queres tu? Uma carta anónima? 
Por agora não; o que eu quero é que digas à Cecília que eu preciso falar com 
ela em particular. 


 
 
— 
Agora?! 
— 
Sim; pois porque não há de ser agora? 
— 
E aonde? 
— 
Aí fora nessa saleta. Vais? 
— 
Vou;  ponto  é  que  ela  esteja  desengajada  da  contradança  que  vai 
principiar. 
— 
Depressa. Cristina encontrou Cecília na mais sentimental das atitudes, 
suspirando  palavras,  que  Amaral  escutava,  passando  com  uma  certa 
displicência as mãos pelos longos feixes da cabeleira. 
Ouvido  no  meio  segredo  o  recado,  Cecília,  com  uma  graciosa  curva,  pediu 
escusada  vénia  ao  provinciano,  e  entrou  na  toilette,  onde  se  achou  sozinha 
com Margarida. 
— 
Preciso que nos entendamos, Cecília — disse a filha do barão, atirando 
com uma perna para cima da outra, mau hábito adquirido com o exemplo da 
sua mãe, que nunca o pudera esquecer dos seus bons tempos de tecedeira. 
— 
Que  nos  entendamos?!  Faz-me  rir  esse  ar  de  imperiosa  formalidade 
com que me intimas! 
— 
Nada  de  palavrões;  fala  como  a  outra  gente;  eu  não  leio  nem  decoro 
novelas. 


 
 
— 
Pior para ti, menina, que não tens gosto, nem memória. Ora diz lá, sem 
te  azedares:  que  temos  de  misterioso,  para  que  nos  entendamos  melhor  do 
que nos temos entendido até aqui? 
— 
Quero  falar-te  a  respeito  desse  sujeito,  que  tu  não  tens  largado  esta 
noite. 
— 
Que  eu  não  tenho  largado!  Acho  muito  licenciosa  a  frase!  Eu  não 
agarro ninguém, menina! 
— 
Nada de risotas. É preciso que saibas que tal homem não velo a minha 
casa para te dar um rendez-vous. 
— 
Nem eu quero imaginar que a tua casa tenha servido de rendez-vous a 
alguém. Seria rebaixá-la muito! ... Queres tu dizer, Margarida, que o tal sujeito 
é teu namoro? 
— 
Não sei se é, nem se não é. 
— 
Queres,  pois,  que  eu  lho  pergunte?  Não  tenho  a  menor  dúvida.  As 
amigas servem para as ocasiões. 
— 
Estás a gozar comigo? 
— 
Não estou a zombar contigo. Isto em mim é ignorância do fim a que 
queres chegar. 


 
 
— 
Pois  a  bom  entendedor  meia  palavra  basta.  Não  te  faltam  namoros 
antigos.  Andam  nessas  salas  às  dúzias;  escusas  de  andar  à  pesca  de  homens 
com as tuas caramunhas românticas. 
— 
À  pesca  de  hoyiens.  Dás-me  honras  de  Cleópatra,  que  dizem  que 
pescava imperadores romanos... 
— 
Aí vens tu com a tua ciência, e a tua ciência não te vale de nada. Pensas 
que  os  homens  ficam  a  morrer  de  amores  quando  te  ouvem,  e  são  os 
primeiros a rir-se. 
— 
Paciência,  menina!  Que  hei  de  eu  fazer-lhe!  Ainda  bem  que  a  tua 
ignorância os faz chorar de pena... 
— 
Cuidas  que  o  Guilherme  te  dá  grande  importância?  Não  há  muitas 
horas que ele esteve a rir-se de ti na sala, onde se fuma, com outros rapazes. 
— 
Ora vejam que mau! Sou ridícula aos olhos dele? 
— 
És. 
— 
Pois então que receias da competência, Margarida? A gente tem ciúmes 
de  quem  nos  prevalece  em  merecimentos.  Eu,  pobre  mulher,  de  quem  um 
homem escarnece, poderei ensaiar a estúpida vaidade de to usurpar?... Não me 
entendes? Eu me explico doutro modo... 
— 
Não é preciso; eu não sou tão ignorante como tu me fazes. O que te 
digo é que percas as esperanças... 


 
 
— 
De quê? Da conquista? 
— 
Sim. 
— 
Estão  perdidas,  minha  querida  amiga;  mas  ainda  assim,  quero  ver 
morrer a minha ilusão com heroísmo. já agora que me picas o amor-próprio, 
hei de ver até que extremo sou vítima da zombaria de Guilherme... 
— 
Queres dizer que o namoras? — atalhou a inconsequente caluniadora, 
batendo com o leque no joelho. 
Quero dizer que me ofereço voluntariamente ao sacrifício. Parece-me que o 
nosso Páris é melancólico. Simpatizo com ele, desejo-lhe bem, e, se posso ser-
lhe um motivo de riso, consigo roubá-lo à sua tristeza, e tenho-lhe feito um 
bom serviço, não achas? — Acho que és uma grande tola, é o que eu sei. 
— 
Tens razão: sou urna grande tola em te ouvir. Boas noites, Margarida. 
— 
Hás de ouvir-me mais duas palavras... 
— 
Só  duas?  Pois  sim,  mas  não  me  amarrotes  os  punhos  do  vestido.  A 
gente  não  se  agarra  assim  como  as  mulheres  da  porta  da  rua...  Margarida 
corou, compreendendo a pungente alusão à sua mãe. 
— 
Eu te prometo que o teu namoro começou na minha casa, e na minha 
casa há de acabar. 
— 
E que mais? 


 
 
— 
Ele há de ter muito quem lhe diga o que tu tens sido. 
— 
E que tenho sido eu, Margarida? 
— 
Uma leviana, uma doida. 
— 
Muito agradecida. Mais nada? 
— 
Agora, boas noites. 
— 
Pois  sim,  boas  noites;  mas  não  perderás  muito  tempo,  ouvindo-me 
também  duas  palavras.  Eu  tinha  a  perguntar-te,  minha  ajuizada  menina, 
quando  devo  entregar-te  um  maço  de  cartas,  um  cordão  de  cabelo,  uma 
charuteira  de  massa  e  uma  anel  de  oiro,  que  certo  cavalheiro  da  província 
remeteu ao meu mano, para que te entregasse. Não te perturbes, menina; são 
fraquezas  que  reciprocamente  nos  perdoamos:  tens  tido  os  teus  acessos  de 
leviandade e doidice, mas isso não diminui o teu merecimento. Os objetos que 
eu possuo são coisas que comprometem uma menina, se ela não tem bolsinho 
próprio  para  comprar  uma  charuteira  com  a  bonita  pintura  de  Susana  no 
banho, e um anel com um brilhante de algumas moedas; mas, enfim, coisas 
passadas entre mulheres não transpiram de nós, que nos protegemos na nossa 
fraqueza. Queres isto amanhã? 
— 
Tu pensas que me aterras com todo esse palavreado? Estou na mesma. 
— 
Isso  sabia  eu,  Margarida;  tu  não  te  aterras  facilmente,  nem  tens  as 
virtudes da Fedra. 


 
 
— 
Da...? 
— 
Era cá uma mulher que dizia que não era daquelas, que, vergonhosa paz 
tendo no crime, sabem ter um rosto que não cora jamais. 
— 
Estás-me insultando? 
— 
Não, menina. Para que ergues assim a voz? 
— 
Posso erguer a voz, que estou na minha casa. 
— 
Mas eu é que não tenho obrigação de ouvir-te... 
— 
Mas tens obrigação de ter vergonha. 
— 
E tenho-a mais mortificadora do que tu. 
— 
Do que eu? 
— 
Olha que vamos descendo ao nível de regateiras... Adeus. 
A melhor parte do diálogo fôra ouvido não só pelas criadas, vizinhas da saleta, 
mas por um rancho de senhoras, que pararam, perplexas, quando entravam. 
Cecília  chamou  o  seu  pai,  que  jogava  o  bóstone  e  saiu  pelo  braço  de  um 
cavalheiro, encarregado das honras do baile. 
Passando por Guilherme, que fumava no corredor da saída, parou, desligou-se 
do condutor, e disse-lhe a meia voz: 


 
 
— 
Se  me  escarneceu,  fez  mal,  que  eu  não  lhe  merecia  o  escárnio;  se  o 
caluniam,  não  lhe  digo  que  se  justifique,  porque  o  tempo  há  de  justificá-lo. 
Boas noites. 
Amaral pasmou, e emudeceu; depois saiu. Um quarto de hora passado, sabiam 
todos os homens e mulheres a descompostura que as duas damas se deram, 
por causa do “parvalheira melancólico”. 
O  jornalista  tirava  apontamentos  para  uma  sátira,  que  fez  as  delícias  da 
maledicência,  e  quase  o  expulsou  dos  bailes  do  barão.  Este,  sabedor  da  “ 
pouca-vergonha”,  como  ele  classicamente  denominava  o  sucesso,  deu  ao 
diabo  os bailes  e  as mulheres. Margarida  retirou-se, incomodada,  para  o  seu 
quarto, às três horas da manhã. Às cinco, finalmente, disseram os jornais que 
todos os hóspedes se retiraram penhorados das atenções dos donos da casa. 
Mentiram  descaradamente.  Cecília  não  tinha  razões  para  ir  penhorada  das 
ditas atenções. 
O caso é que o “melancólico parvalheira” recebeu nessa noite o diploma de 
leão.  Até  as  velhas disseram  que o  queriam  conhecer;  mas  já  era  tarde...  em 
relação a elas, e em relação ao movimento do planeta. 


 
 
CAPÍTULO IV 
 
Os dois últimos capítulos, que já lá vão a grande aprazimento do leitor, e, mais 
ainda, da leitora, são uma excrescência neste romance: dispensavam-se bem, 
se eu não quisesse historiar o miserável processo de que resultou a magnífica e 
estrondosa nomeada de Guilherme do Amaral. 
Quão diversas de Lisboa as coisas lhe corriam aqui! Nem de rastos o expulso 
pelo  escárnio  da  capital  pagará  as  obrigações  que  deve  àquele  bom  homem, 
que lhe ensinou um novo sistema de vida. 
Se quereis saber no que ficaram as desavenças de Margarida e Cecília, lede as 
quatro páginas seguintes; — se vos não importa, passai-as em claro, e achareis 
adiante descrições rasgadas, arrojos de génio, coisas, enfim, que não saberíeis 
nunca, se eu vo-las não dissesse, ingratos! 
Guilherme do Amaral, pagando a visita ao irmão de Cecília, pediu explicação 
do intrincado problema em que ela o deixara. A refletida dama deu-se uns ares 
de  mártir,  contando  com  maviosas  lágrimas  parte  do  diálogo  corri  a  sua 
imaginária  rival.  Guilherme,  que  já  sabia  parte  do  escândalo,  fez-se  imbecil, 
não  atinando  com  o  pomo  da  discórdia.  Esta  ficção  melodramática  não 
agradou a Cecília. Queria-o mais explícito, ou ao menos ouvir-lhe uma frase 
honestamente romântica, que se parecesse com uma declaração. Amaral não 
se decidia por uma nem por outra. Cecília aventurou uma pergunta perentória: 


 
 
— 
Qual de nós lhe é indiferente, Amaral? 
— 
Nenhuma, minha senhora. 
— 
Ama a ambas? 
— 
Não  amo  nenhuma...  Respeito-as  ambas;  mas  não  posso,  como 
Prometeu, roubar do céu o fogo, que incendeia o coração sem vida, ermo e 
tenebroso como a eterna noite do túmulo. 
— 
Essa linguagem... 
— 
Não é nova para vossa excelência. já me defini. Aproximamo-nos pelo 
infortúnio,  não  nos  poderemos  vincular  pela  felicidade.  Quando  se  ofereça 
ocasião, muito ao meu pesar, será esta a linguagem persuasiva que empregarei 
com a senhora dona Margarida, com todas as senhoras, que tiverem a piedade 
estéril de tocar na mortalha de um cadáver. Eu sou o símbolo da desesperança 
sobre a terra. A Jericó, prometida ao proscrito expulso de Israel, não sorrirá 
aos meus olhos ávidos. Morrerei, como Jersey, chamando a mulher fantástica 
das minhas dolorosas visões. 
Que  valentia  de  estilo!  Que  cinzel  de  mestre  nos  arabescos  desta 
farandolagem! Que roldana tão certeira no polimento desta elocução de bilros! 
E  Cecília  gostava  muito  disto:  foi  isto  o  que  a  decidiu.  Se  até  ali  as  suas 
paixões  eram  brincadeiras,  ou  artifícios  de  habilidosa  especulação,  a  coisa 
agora era séria. Umas mulheres vence-as a gentileza, outras a valentia, outras o 


 
 
talento,  outras  o  dinheiro,  outras  a  estupidez,  outras  a  bondade.  Cecília 
venceu-a o estilo. 
Repudiada  cortesmente,  de  dia  para  dia,  aumentava-se-lhe  a  palidez  natural, 
entristecia-se,  definhava-se,  ermava,  consultava  as  estrelas,  ouvia  suspirosa, 
alta  noite,  o  monótono  murmurar  da  fonte  vizinha,  e  lia  de  preferência 
Antony, Jocelin, Raphael, e Amaury. Deu preocupações à sua família, e tomou 
leites de jumenta com águas de Entre Ambos-os-Rios. Com três meses deste 
bem  indicado  tratamento,  e  banhos  do  mar,  restabeleceu-se,  isto  quanto  ao 
corpo.  A  alma,  porém,  segundo  dizem  os  ideólogos,  é  um  ente  muito  mais 
melindroso nas suas enfermidades. 
A  alma  de  D.  Cecília  entrou  em  próspera  convalescença,  logo  que  um 
cavalheiro do  Porto, chegado  de  uma longa  viagem,  se declarou  cansado da 
vida, enojado da sociedade, e capaz de se aplicar um tónico de ácido prússico. 
Graças ao estilo com que estas coisas eram ditas, a ilustre enferma entendeu 
que  era  aquele  o  homem  dos  seus  sonhos,  de  que  resultou  sonhar-lhe  nos 
braços, mas honestamente, porque toda e qualquer senhora pode sonhar nos 
braços do seu marido. 
Tenho a satisfação de anunciar que foram felizes uma eternidade de oito dias. 
Atualmente não se entendem, e continuam ambos a sonhar, cada um  na sua 
cama, com visões encantadoras, que se vão realizando todos os dias, menos 
pavorosas que as de Macbeth... 


 
 
Agora,  D.  Margarida.  Esta  fez  todos  os  mornos  imagináveis  para  fazer-se 
entender de Amaral, no jantar do seu aniversário. O provinciano, porém, tinha 
o  desplante  de  encará-la  com  a  mais  estoica  indiferença,  por  duas  frívolas 
razoes:  primeira,  porque  era  espadaúda,  campesina,  carnosa  de  feições,  com 
ameaças  de  obesidade,  e  comia  muito.  Segunda,  porque  era  ingenuamente 
estúpida. 
Não  é  o  mel  para  a  boca  dos  Amarais.  Nem  ele  soube  compreender  esta 
mulher,  nem,  depois  dele,  veio  outro  que  a  divinizasse  como  ela  merece. 
Como  quer  que  seja,  Margarida  teve  o  bom  senso  de  não  apaixonar-se. 
Tiraram-na disso as suas amigas, e parece que uma carruagem, e um camarote 
de assinatura no teatro lírico, concorreram muito para o evacuamento de uma 
hidropisia  de  amor,  que  ameaçou  vinte  e  quatro  horas  a  sua  existência 
preciosa. D. Margarida está ainda solteira, realizando os proféticos receios de 
Guilherme: engordou, fez-se vermelha, e não inveja os braços proverbiais de 
Júlia  Grisi.  Vê-se  no  teatro,  comendo  rebuçados,  rindo  desentoadamente, 
pendurando-se no parapeito do camarote, como a sua mãe, outrora, sobre o 
tear, e persistindo na constância de dizer muita parvoíce a respeito de qualquer 
coisa. É uma senhora verdadeiramente feliz com os seus trinta anos. 
Agora,  comecemos  pelo  princípio.  Um  homem  de  medíocre  esperteza, 
estreando-se brilhantemente como Guilherme do Amaral, não dava de mão a 
duas aventuras lisonjeiras, que vinham roubá-lo à obscuridade. 


 
 
Quem quer que fosse esse homem, praticava uma necedade, que viria a custar-
lhe  cara.  Cecília  e  Margarida  eram  mulheres  que  davam  reputação;  mas  não 
estavam  no  caso  de  servir  a  imoralidade  de  um  conquistador.  Casar  com 
qualquer das duas  não  era  glória para  o  provinciano.  Seduzi-las como  quem 
seduz  uma  mulher  do  povo,  era  um  comprometimento  muito  grave,  uma 
desonra,  que  lhe  importaria  o  ódio  e  a  vingança,  e,  pelo  menos,  a  fuga, 
deixando um rasto de infâmia. 
Amaral era um modelo de bom juízo, desde que desfivelou a máscara que os 
lisboetas lhe apuparam. 
Não eram aquelas as mulheres que lhe convinham. O prestígio, que elas lhe 
davam,  aproveitou-o  sem  desonestar-se.  Fez-se  conhecido,  celebrizou-se, 
estremou-se do lixo vulgar: era isso o que ele queria. Colocara-se num ponto 
da  escala  donde  tinha  de  descer.  Desceu,  sem  risco  de  fraturar  uma  perna. 
Achou  onde  nutrir  a  alma  de  Epicuro,  conservando  livre  para  a  quimera  a 
alma de Platão. Houve-se de modo que ninguém lhe pediu contas, porque os 
que deviam saldá-las tinham-se remido da dívida muitos anos antes... E, por 
isso,  se  andava  mal  com  Deus,  não  acontecia  o  mesmo  com  as  mulheres  e 
com  os  homens.  Era  benquisto,  piedosamente  consolado  nas  suas  tristezas, 
imitado (mas só na parte moral) por muitos, e recebido ao pé das senhoras, 
que sabem o que dizem e o que fazem, com certa confiança de que ele não 
abusava diante de gente. Isto é verdade. 


 
 
E  assim  viveu  um  ano,  sem  pisar  um  calo  à  moralidade  pública,  matrona 
respeitável,  que  respeita  muito  pouca  gente,  e  nunca  teve  pecha que  pôr no 
carácter imaculado do seu benjamim. 
E  assim  correu  vagaroso  um  ano.  Guilherme  aborreceu-se,  e  planizou  uma 
viagem.  Aborreceu-se,  porque  as  fezes  do  prazer  são  a  saciedade,  e  o 
verdadeiro prazer não o conhecera ele. O gozo era-lhe fácil; mas o gozo de 
um  dia  é  a  véspera  do  enojo;  é  a  gulodice  do  mel,  que  vem  do  estômago 
encruado  ao  paladar  em  hálito  azedo.  Não  encontrou,  entre  tantas,  uma 
amiga; e quem não conheceu a mulher amiga, põe a mão sobre o coração, e 
não  encontra  aí  a  flor,  que  se  rega  nas  lágrimas,  quer  de  alegria,  quer  de 
recíproca tristeza. 
Amar  é  um  sentimento  profanado  por  aquela  palavra  vulgaríssima.  Amaral 
não amara ninguém. Valido da impostura hábil, venceu resistências froixas; as 
vencidas,  porém,  caíam  como  as  ninfas  de  Camões,  na  ilha  dos  Amores: 
“Deixavam-se ir dos galgos apanhando.” 
Se,  abandonadas,  faziam  trejeitos  de  damas  doloridas,  isso  era  o  ciúme,  o 
pudor retardado, o fastio, que se demorava nelas mais do que nele, ou hábito 
de  ninguém  se  conformar  com  a  sorte  decretada  em  cima.  Nunca  ele  viu  o 
que  são  lágrimas  de  mulher  abandonada,  quando  mais  de  rastos  se  humilha 
aos caprichos do homem, que faz o salto da fuga com o pé sobre o coração da 
que fica para calar a vergonha, e morrer nessa luta desigual. O que ele viu foi 


 
 
aquilo  por  onde  devia  terminar  a  sua  carreira  de  homem  apostado  a  tirar, 
segundo  as  circunstâncias,  urna  vantagem  real  dos  desejos  nobres,  outra  da 
impostura,  e  a  derradeira  do  cinismo.  Começara  a  colher  flores  nas  lagoas 
pontinas: saiu inficionado. 
O sangue, que lhe vinha do coração nobre aos pulmões viciados de podridão, 
corrompera-se.  O  coração  deu-lhe  um  abalo,  quando  se  viu  pobre  das 
sensações íntimas que vão entalhar uma ação nobre, uma imagem santa, uma 
data gloriosa na consciência. Entristeceu-se. O que dantes era artifício, dava-o 
a natureza demudada agora. 
Foi por isso que Amaral resolveu uma viagem de alguns anos. 


 
 
CAPÍTULO V 
 
Era uma noite, vinte e oito de Junho de 1845, véspera do milagroso apóstolo 
S. Pedro. 
Sabeis como, nesta religiosíssima cidade do Porto, se festejam todos os santos 
da corte celestial, e particularmente Santo António, S. João e S. Pedro. Este, 
mais  prestante  que  todos,  pela  importante  missão  de  claviculário  da  bem-
aventurança, gloria-se de ser festejado anualmente na cidade da Virgem com 
uma  porção  fabulosa  de  estoiros,  um  inferno  indescritível  de  fogueiras,  e  o 
consumo  sobrenatural  de  pipas  de  vinho,  fritadas  de  linguiça,  postas  de 
pescada, e bebedeiras sem cifra conhecida no Bezout. 
S. Pedro de Miragaia é, incontestavelmente, de todos os Pedros santos o mais 
querido. Aquele espaçoso areal não basta para os jorros de povo, que afluem 
das  ruas  sobranceiras.  Surgem,  como  por  magia,  as  fileiras  de  lâmpadas 
variegadas; os mastros de palha e alcatrão, que fedem e abrasam; as orquestras 
militares,  que  consomem  metade  do  tempo  vozeando  nas  trompas 
estridulosas,  e  outra  metade  nas  libações  homéricas,  fornecidas  pela 
liberalidade  dos  mordomos;  as  tendas  gratas  à  gastronomia  suja  da 
farrapagem, que as atulha, dando vivas ao santo, e praguejando obscenidades e 
insolências contra a taverneira tardia no ministrar da meia canada por cabeça; 
finalmente,  o  areal  de  Miragala  é  um  misto  de  todas  as  regalias  que 


 
 
entusiasmam  o  populacho,  azando-lhe  ocasião  para  que  naquelas  caras 
sobressaiam todas as linhas grotescas de uma alegria estúpida. 
No longo quarteirão de casas, que se estende ao longo do arraial, vereis nessa 
noite  caras  suportáveis,  que  o  reflexo  meio  fantástico  da  iluminação  vos 
afigura  belas.  Vereis  outras,  realmente  belas,  colocando-se  de  modo  que  a 
projeção tíbia da luz as favoreça, na exposição noturna, aclarando-as aos olhos 
do paciente amador, que passeia em baixo sorvendo pelos pés a humidade da 
areia. 
Entre  estes,  mencionada  noite,  podíeis  ter  visto  Guilherme  do  Amaral,  só, 
com os olhos mergulhados além nas trevas do rio Douro, absorto, recolhido 
nesses  esconderijo  de  tristeza,  que  o  homem  de  algum  senso  íntimo  leva 
consigo a toda a parte. Como ele, ajuizado desprezador desses júbilos boçais, 
viera ter a Miragaia, não o saberia dizer. Achava-se aí, sem saber ao que viera, 
e  sentia  não  ter  asas  de  querubim  ou  de  hipogrifo  para  transportar-se  ao 
deserto da Líbia, ou pelo menos ao seu quarto da Águia de Oiro. 
Neste  pensamento,  cuja  impossibilidade  o  incomodava,  caminhou  pela 
primeira  travessa  escura  e  despovoada  que  se  lhe  ofereceu.  Atravessou  um 
beco  de  aspeto  pavoroso  e  nojento  trilho:  desembocou  numa  rua,  que  o 
conduziu  a  outra,  na  direção  oposta  da  Águia  de  Oiro,  para  onde  queria 
caminhar. 


 
 
Achou-se  bem,  apesar  do  fétido  nauseento  que  ressumava  das  fisgas  das 
portas.  Não  via  ninguém,  ninguém  o  via,  nem  o  mais  ligeiro  sussurro:  era 
caminhar na escavação de uma rua de Pompeia, pela vista, e no aqueduto de 
despejos  de  uma  cidade,  pelo  cheiro.  O  romanesco  tem  seus  caprichos 
sórdidos.  Amaral  não  trocava  aquela  atmosfera  enjoativa  pelos  perfumes  de 
nardo e rosas do toucador de alguma das suas numerosas admiradoras. 
No  extremo  dessa  rua  parou,  suspenso  pelos  gritos  de  quem  chorava  não 
longe dele. Avizinhou-se de uma porta, e observou que os gemidos saíam de 
uma casa térrea. Distinguiu estas palavras: 
— 
Minha mãe, minha querida mãezinha do meu coração! Encostou-se ao 
batente  da  porta.  Ouvia  sempre  a  mesma  exclamação,  não  respondida  por 
nenhuma outra. 
Bateu como o cabo do chicotinho três vezes na porta. Foi-lhe imediatamente 
aberta; mas a pessoa que abrira a porta recuou, surpreendida, em ar de fechar-
lha na cara. 
Não  tenha  medo,  menina  —  disse  cortesmente  Guilherme,  sustendo  com  a 
mão a porta. 
— 
Pensei que era o meu primo... — replicou trémula a mocinha. 
— 
Ouvi  gritar,  e  julguei  que  podia  fazer  algum  serviço  à  pessoa  que 
chorava tanto. 


 
 
— 
Era eu... 
— 
Pois que tem, menina? 
— 
Minha mãezinha, que morreu agora de repente! 
— 
Sim? Talvez seja algum ataque de apoplexia... Se me dá licença, eu entro 
para examiná-la. 
— 
Faz favor de entrar. Deus nosso Senhor o oiça ... se a vossa senhoria 
fosse cirurgião... 
— 
Não  sou  cirurgião;  mas  se  ela  estiver  viva,  darei  as  providências  para 
que não morra sem os últimos recursos. 
— 
Amaral  atravessara  um  quadrado  de  vinte  palmos,  pouco  mais  ou 
menos,  dividido  doutro  por  uma  esteira  de  enfardar  costais,  em  forma  de 
biombo.  Era  aí  dentro  que,  sobre  um  leito  de  pau-cerdeira,  limpamente 
enroupado, com a sua coberta de chita escarlate, jazia, com a face para abaixo, 
e o corpo inclinado para o soalho uma mulher. Guilherme sondou-lhe o pulso 
e  a  testa:  voltou-a  de  rosto,  ergueu-a  ao  alto,  e  sentiu-a  hirta,  gélida  e 
inteiriçada. 
— 
Que me diz, meu senhor? — exclamou a filha, erguendo as mãos. 
— 
Digo-lhe  que  está  morta,  e  sinto  que  tenha  morrido  uma  mãe,  que 
merece tão sentidas lágrimas a sua filha. Menina, olhe que a dor do coração 
não  se  alivia  gritando:  bastam  as  lágrimas.  Agora  o  que  importa  é  tratar  de 


 
 
enterrar  a  sua  mãe.  Ora  diga-me:  vossemecê  é  sozinha?  Não  tem  pai  nem 
irmãos? 
— 
Não, senhor: tenho um primo que é fabricante, e vem por aqui algumas 
vezes: mas logo hoje anda no arraial de S. Pedro, e eu não tenho por quem o 
mande chamar. 
— 
Que queria a menina ao seu primo? 
— 
Queria ver como há de ser isto: tenho medo de aqui ficar sozinha; não 
sei o que hei de fazer... Tenho medo de endoidecer... 
— 
Pois não há de endoidecer, menina; tudo se faz do melhor modo que é 
possível. Vossemecê não tem nenhuma vizinha que a receba em casa? 
— 
Tenho, sim, senhor; mas foi para o arraial fritar peixe. 
— 
Como se chama ela? 
— 
Chama-se a tia Ana do Moiro. 
— 
Espere um pouco, tenha paciência, não se assuste; e feche a sua porta 
que eu vou chamá-la. 
O senhor é mandado por Deus... mas ela não deixa o arraial para vir cá. 
— 
Há  de  deixar...  Guilherme  saiu  vivamente  impressionado.  Era  uni 
quadro novo, uma excitação de sentimentos, que vibravam pela primeira vez. 
Os  olhos  da  alma  iam-lhe  todos  preocupados  no  lance  angustioso  de  uma 


 
 
filha,  abraçada  ao  cadáver  da  sua  mãe,  seu  arrimo  partido  num  instante, 
olhando em redor, para contemplar-se ouvida pelo silêncio do desamparo. Se, 
todavia, pudesse abstrair os olhos do espírito daquela cena, e fixar os do rosto 
na filha dessa mulher morta, teria visto uma linda rapariga. 
A passo rápido chegou a Miragaia, e perguntou a uma taverneira se conhecia a 
senhora Ana do Moiro. 
— 
E  aquela  que  acolá  está  dando  um  prato  de  peixe  àquele  senhor  de 
chapéu branco. 
Amaral,  quando  a  peixeira  lhe  perguntava  se  queria  pescada  ou  solha, 
respondeu: 
— 
Vossemecê há de conhecer umas suas vizinhas, que são mãe e filha... 
— 
A tia Rosa carpinteira? 
— 
Não sei se é essa; é uma que tem um primo fabricante. 
— 
Primo não, sobrinho; primo vem ele a ser da prima, isto é, da filha da 
tia Rosa, que se chama Augusta. 
— 
Pois  então  é  isso,  vinha  eu  dizer-lhe  que  a  tia  Rosi  morreu  agora  de 
repente. 
— 
Morreu?! Ora essa! Que me diz o senhor? Pobre mulher! 


 
 
— 
O que eu queria era que vossemecê fosse fazer companhia à filha na sua 
casa. 
— 
Ia, ia, assim me Deus salve... Mas não posso deixar cá o meu arranjo!... 
— 
Eu  ainda  não  lhe  disse  tudo.  Entregue  vossemecê  o  seu  arranjo  a 
alguém, que eu dou-lhe meia moeda. 
— 
Dá? Olhe lá o que diz!... 
— 
Eu sei o que digo; receba-a já, aqui tem cinco pintos, e venha comigo. 
A filantrópica Ana do Moiro, espantada com semelhante caso, entregou à filha 
a direção do fogareiro em que rugia a sartã, e seguiu Guilherme. 
— 
Eu vou admirada com isto! É a primeira vez que vejo o senhor! Vossa 
senhoria, ainda que eu seja confiada, costumava ir a casa da tia Rosa, Deus lhe 
fale na alma? 
— 
Não, senhora. Foi hoje a primeira vez... 
— 
Sempre  há  coisas!  E  como  vossa  senhoria  dá  este  dinheiro  sem  mais 
nem ontem! Aqui há coisa, e se houver, oxalá a rapariguinha, a ter de ser má, 
cala em mãos de quem lhe saiba dar o merecimento. 
— 
Vossemecê está enganada; eu não me importa saber os merecimentos 
da rapariguinha. 


 
 
— 
Não  que  isto  é  um  modo  de  falar.  Cada  qual  lá  se  entende,  como  o 
outro  que  diz...  Ora  a  pobre  tia  Rosa!  Ainda  hoje  esteve  a cantar  à  porta, e 
parecia estar para muito... A gente anda neste mundo bem enganada! 
— 
Que modo de vida era o dela? 
— 
Vivia pobre; mas era muito arranjadinha. Ela dobava seda, e a filha faz 
alças de homem a quatro vinténs a dúzia. O pai era carpinteiro, e levava muito 
bem a sua vida; mas já está no reino da verdade. O que lhe valia a elas era não 
pagarem renda: a casinha é delas: mas agora, se não tiver quem lhe dê algum 
arranjo, a rapariga vende a casa. 
— 
A rua é esta? — perguntou Guilherme. 
— 
É, sim, senhor. Bem se vê que a vossa senhoria não anda afeito a estes 
becos. 
— 
Como se chama esta rua? 
— 
É a Rua dos Arménios. Vivo aqui há perto de cinquenta anos, e já aqui 
viveu o meu pai, Deus lhe perdoe, que era barqueiro, e chamava-se António, 
por  alcunha o  Moim.  Não  o  conheci;  mas  isso  é  que  era  um  homem!  Teve 
uma rixa com os franceses, má raios os partam, matou dois à navalhada, mas 
por fim também o mataram... É aqui... 
Guilherme  do  Amaral  não  prestava  a  menor  atenção  às  desventuras 
genealógicas da peixeira, procurando do lado direito a casa da mulher morta. 


 
 
Bateram,  e  entraram.  A  filha  do  antigo  assassino  do  fidalgo  da  Bandeirinha 
entendeu  que  era  da  tarifa  carpir  sobre  o  cadáver  da  sua  vizinha,  e  fez  que 
choramingava, abraçada a Augusta, com o mais estúpido fingimento. 
— 
Deixem-se  agora  de  choradeiras  —  disse  Amaral.  A  menina  vai  para 
casa  da  sua  vizinha.  De  manhã  mandem  dizer  ao  pároco  que  morreu  esta 
mulher. Não sei se a menina precisa de dinheiro: mas acho que sim. Aqui lhe 
deixo com que possa suprir as suas precisões, e sinto não poder consolá-la da 
perda da sua mãe. Tenha paciência, menina. Este golpe sofri-o eu já, e sei que 
se não cura senão com o tempo. Ande, vá com a senhora Ana. Eu amanhã 
virei, ou mandarei saber se precisa de alguma coisa. 
— 
Mas eu queria saber a quem devo tantas esmolas... disse ela, soluçando. 
— 
De que lhe servia saber quem eu sou? Nem a menina me conhece, nem 
que me conhecesse estava em melhor situação para agradecer-me. 
— 
Eu  poderei  pagar-lhe  com  o  meu  trabalho,  se  Deus  me  der  vida  e 
saúde. 
— 
Pois  converta  o  trabalho  em  bem  seu.  Adeus.  Amaral  saíra, 
experimentando  os  gozos  da  consciência, esses  momentos  únicos  em  que  o 
homem  se  conhece  abrasado  de  uma  faísca  divina,  esse  galardão  obscuro, 
íntimo, todo do coração, que só a caridade nos dá. 
A vizinha foi a primeira, na ausência de Amaral, a tocar no dinheiro. 


 
 
— 
Ui! — exclamou ela, quando o viu, antes de lhe tocar. 
— 
Que é? — perguntou Augusta. 
— 
Duas peças! 
— 
Valha-me  Deus!...  —  disse  a  órfã  pendendo  a  cabeça  para  o  seio.  — 
Tudo isto me parece um sonho... Será aquele senhor um como há tantos casos 
de mandados de Deus! 
Será, será, o Diabo o jure! — disse a filha do Moiro, associando o testemunho 
do Diabo à obra de Deus. — Arrecada esse dinheiro, que tens para um pouco 
de  tempo,  rapariga.  Eu  se  fosse  a  ti,  comprava  um  cordãozinho,  que  é 
dinheiro que tens na gaveta, depois de pagar algumas dívidas da tua mãe. 
— 
Minha mãe, graças a Deus, só devia a vossemecê dezoito vinténs. 
— 
Ainda  bem!  Não  sabes  quanto  me  consola  cá  por  dentro  não  teres 
outras dívidas a pagar... 
— 
O que eu vou fazer deste dinheirinho é mandar dizer missas por alma 
dela. 
— 
Deixa-te disso.  A  tua  mãe era  uma devota  do senhor  S.  Pedro, que  é 
amanhã o seu dia, e há de abrir-lhe as portinhas do céu... Deixemos aqui uma 
candeia cheia de azeite, e vamos para minha casa. Anda daí. 


 
 
Augusta regou de lágrimas a face da sua mãe. Abraçou-a, beijou-a, chamou-a 
ainda como quem espera um milagre, alucinada a imaginação com a crença do 
enviado  de  Deus.  O  cadáver,  porém,  não  estremecia  entre  os  braços 
convulsos da crédula jovem. 
Fecharam a porta, e saíram. Enquanto Augusta chorava inconsolável em casa 
da vizinha, a previdente peixeira cansava a invenção na descoberta do melhor 
emprego às duas peças. 


 
 
CAPÍTULO VI 
 
Dois  dias  depois,  Guilherme  do  Amaral  foi  à  Rua  dos  Arménios,  com  a 
intenção de estudar de dia a suposta miséria daquela casa, que não pudera ver 
à luz mortiça da candeia, e mais ainda para cumprir a promessa que fizera de 
socorrer mais algumas necessidades da órfã. Não há intenções mais puras! 
Era meio-dia; estava fechada a porta, e aberta apenas uma fresta da pequena e 
única janela ao rés da rua. Guilherme parou em frente. Augusta viu-o, e correu 
a abrir-lhe a porta, como a um parente, ou a pessoa ansiosamente esperada. 
— 
Faz  favor  de  entrar?  —  disse  ela,  corando.  —  A  casa  não  é  própria; 
mas... 
— 
Todas  as  casas  são  boas,  quando  vive  nelas  o  contentamento,  ou  a 
esperança de gozá-lo um dia. Como está, Augusta? 
— 
Obrigada a vossa senhoria; eu ontem passei o dia na cama, e levantei-
me agora, porque me dizia o coração que a vossa senhoria viria. 
— 
Pois dizia-lhe o coração que eu viria aqui? Augusta baixou os olhos e 
sorriu-se de um modo que tornava mais sensível o pejo. 
— 
Porque se não senta? — disse Amaral, disfarçando. 
— 
Estou bem, meu senhor. 


 
 
— 
Sente-se, Augusta: sou eu que peço, ou que mando. Augusta sentou-se, 
levantando  os  olhos  a  medo  para  o  que  já  lhe  não  parecia  um  enviado  de 
mandados superiores. 
— 
Que tenciona fazer? — prosseguiu o hóspede, reparando na rara beleza 
daquela obscura mulher. 
— 
Eu, senhor? 
— 
Sim: tenciona viver sozinha, sem parentes... 
— 
Eu não tenho senão um primo, que também é órfão; mas cada um vive 
na sua casa. 
— 
Eu sei que o seu modo de vida é fazer alças. E, sim, meu senhor. Foi a 
tia Ana que lho disse?  
— 
Foi.  
— 
Quanto ganha por dia nesse trabalho?  
— 
Fazendo serão, ganho três vinténs.  
— 
E vive com isso?  
— 
Até  aqui  vivia,  porque  a  minha  mãe  ganhava  quatro  vinténs  a  dobar 
seda: daqui em diante será o que Deus quiser. 
— 
Mas isso não lhe chega... A menina se tivesse uma casa onde pudesse 
servir como criada de sala, levava muito melhor a sua vida. 


 
 
— 
Não duvido que sim; mas eu quero viver e morrer onde viveu e morreu 
a  minha  mãe  e  o  meu  pai,  que  Deus  tenha  na  sua  santa  glória.  Diz-me  o 
coração,  que  se  eu  sair  da  minha  casinha,  hei  de  ser  desgraçada.  Conheço 
muitas  raparigas,  que  foram  servir,  e  poucas  deram  boa  saída.  Quase  todas 
andam por aí, hoje numa casa, e amanhã noutra, e, quando Deus quer, mais 
pobres e infelizes do que saíram da sua miséria atrás dos ganhos. 
— 
Uma das coisas que me admiram, não é tanto o seu bom juízo, como a 
menina estar ainda solteira. Quantos anos tem? 
— 
Vinte, meu senhor. E não tem querido casar-se? Augusta fez-se da cor 
da cereja, e não respondeu. 
— 
Não  tem  de  que  envergonhar-se  —  disse  Guilherme,  empenhando-se 
na  conversa  com  vivo  interesse,  a  que  o  coração...  ou  a  fantasia  já  não  era 
estranha. — Eu não quero ser seu confessor; isto foi uma pergunta que não 
deve magoá-la. 
— 
Vossa  senhoria  não  me  magoou;  mas...  não  sei  se  a  gente  deve  dizer 
tudo o que sente. 
— 
Pelo  menos,  aquilo  que  nos  não  envergonha  pode  dizer-se  a  toda  a 
gente; e o que nos envergonha, ou se não diz, ou se diz a um confessor. 
— 
Eu  não  tenho  querido  casar  com  o  rapaz  que  me  quer,  há  mais  de 
quatro anos. 


 
 
— 
É algum oficial de ofício? Desculpe-me a liberdade com que pretendo 
saber os seus segredos. 
— 
E fabricante. 
— 
Talvez o seu primo, em quem me falou já... 
— 
Foi alguém que lho disse? 
— 
Nada, não, menina: botei-me a adivinhar. Gosta dele? 
— 
Gosto dele; mas não quero casar; queria que ele fosse meu amigo, que 
olhasse por mim como sua prima e mais nada. 
— 
Não lhe tem amor, é o que quer dizer... 
O diálogo foi interrompido por passos, que subiam os degraus da escada. 
— 
Posso entrar, Augusta? — disse uma voz. 
— 
É o meu primo — disse ela sobressaltada. 
— 
Diga-lhe que entre... pois porque se assusta? 
— 
Entra, Francisco... — disse a rapariga com receio. 
O fabricante, vendo o estranho hóspede da sua prima, levou a mão ao boné, 
fez menção de retirar-se. 
— 
Venha  cá,  senhor  Francisco...  —  disse  familiarmente  Guilherme.  — 
Aqui não há nada que o faça sair. 


 
 
— 
Este senhor — disse a descorada Augusta — é aquela pessoa que eu te 
disse, Francisco... 
— 
Ah!  já  sei...  Tu  dizias  que  era  uma  alma  vinda  do  Céu,  e  eu  sempre 
acreditei  que  era  pessoa  deste  mundo...  —  disse  o  artista  com  boçal 
desembaraço, mas também com graça. 
— 
E  muito  deste  mundo,  senhor  Francisco;  mas  quem  devia  aqui  estar, 
quando morreu a sua tia, era vossemecê. Quem tem uma prima solteira não a 
deixa pelas patuscadas do arraial. 
— 
Aconteceu  ir  espairecer  até  lá  nessa  noite;  mas  enfim,  a  vontade  de 
Deus foi levar a minha tia, e quem cá fica não se deve matar. 
Augusta  fez  uma  visagem  de  aborrecida  a  esta  resposta  disparatada.  Amaral 
compreendeu-a,  e  julgou  descobrir  naquela  mulher  uma  coisa,  especial,  um 
instinto  não  vulgar,  reprimido  pelas  circunstâncias.  Esvoaçou-lhe  por  lá  um 
pensamento, que o fez refletir alguns segundos, enquanto o fabricante dizia a 
sua prima o lugar em que, pouco mais ou menos, a sua mãe fôra sepultada, e o 
padre a quem encomendara cinquenta missas por alma dela. 
— 
Mandou dizer cinquenta missas por alma da sua mãe? — interrompeu 
Amaral. 


 
 
— 
Mandei, sim, meu senhor, do dinheiro que a vossa senhoria me deixou, 
e ainda tenho muito com que possa mandar dizer algumas por alma do meu 
pai... 
— 
É  boa  maneira  de  gastar  o  dinheiro...  —  disse  o  fabricante 
ironicamente. 
— 
Eu acho que é bem empregado o dinheiro que nos serve de suavizar a 
saudade,  desempenhando  a  obrigação  em  que  os  vivos  ficam  para  com  as 
pessoas que nos morreram. Fez a menina muito bem. 
Augusta abaixou a cabeça com certo ar de inteligência. Francisca abrira a boca 
ao arrazoado de Guilherme, sinal significativo de que o não entendera. 
E, voltando-se para ele, Amaral continuou: 
— 
Então vossemecê é fabricante? 
— 
Sim, senhor. Trabalho em Lordelo nos teares, há cinco anos. 
— 
Quanto lhe fica por dia? 
— 
Dois tostões; pouco é. 
— 
E hoje deixou o trabalho? 
— 
Não, senhor. Temos hora e meia de sesta no Verão, e eu venho sempre 
ver a minha prima. 
— 
Deve ser muito amigo dela, e ajudá-la a viver com as suas posses. 


 
 
— 
Isso é que ela não quer... já quis mandar vir dispensa para nos casarmos, 
e ela não diz que não, mas também não diz que sim. 
— 
Mas um primo para ser bom à sua prima não precisa de ser seu marido. 
E o que eu lhe tenho dito... — atalhou Augusta com satisfação, vaidosa de ter 
já dito o que era agora repetido por Amaral. 
— 
Eu  não  duvido  —  replicou  o  fabricante  —,  mas  como  casados  era 
outra coisa: assim não podemos viver juntos... 
— 
Podemos, podemos... — interrompeu Augusta. 
— 
Este  senhor  que  diga  se  uma  rapariga  como  tu  pode  viver  com  um 
rapaz sem dar que falar. 
Amaral sorriu ao requerimento imbecil do seu testemunho, e respondeu: 
— 
Eu acho que pode... 
— 
Mas... — disse ele — onde há lume logo fumega. Eu tenho-lhe amor de 
raiz há quatro anos, perto de cinco, e se ela estivesse comigo, e viesse algum 
conversado falar-lhe namoro, não sei o que seria, dava por paus e por pedras, 
e as más-línguas tinham de dizer que eu tinha má vida com a minha prima. 
Se tu te calasses, fazias bem melhor... — disse Augusta muito envergonhada, e 
com  um  gesto  natural  de  aborrecimento,  que  agradou  muito  a  Guilherme; 


 
 
porque  nem  as  estudiosas  mulheres  da  sala  exprimiriam  melhor  um  nojo 
fingido. 
— 
Isto que eu digo não tira nem põe: foi a respeito de dizer este senhor 
que te ajudasse a viver. 
— 
Mas  vossemecê  pode  ser-lhe  útil  sem  viver  de  companhia  com  ela; 
poupar uma quarta parte do seu salário, que junto ao da sua prima chegaria 
para  ela  se  sustentar;  e,  quando  lhe  aparecesse  um  casamento  proveitoso, 
deixá-la  casar,  visto  que  ela  não  quer  ser  sua  mulher.  O  casamento  quer-se 
feito livremente. 
Francisco amuara, escovando a copa do boné com a mão. Augusta fixara em 
Amaral os seus negros olhos, húmidos de lágrimas de reconhecimento, e ao 
mesmo  tempo  cativos  daquele  pasmo  de  fascinação,  que  a  mulher  inocente 
não sabe esconder com o leque, ou neutralizar com o sorriso desdenhoso. 
Amaral  não  precisava  ser  tão  penetrante  como  era  para  espionar  a  secreta 
inquietação da prima do artista. Uma mulher deve ter sido enganada dez vezes 
para saber enganar um homem de medíocre esperteza; e Augusta não sofrera 
nunca  uma  só  das  deceções,  que  habilitam  a  impostura,  envenenando  a 
ingenuidade.  Os  lábios,  se  falassem,  poderiam  mentir,  porque  o  pudor  tem 
disfarces; mas, silenciosos, não. O que mais a denunciava eram os olhos, onde 
o  alvoroço  íntimo,  o  fogo  súbito,  que  a  queimava  dentro,  se  refletia  em 


 
 
brilhos de uma alegria espontânea, em languidez de pejo, que reage contra as 
expansões indiscretas da candura. 
Amaral cedia, neste momento, ao orgulho, e perguntava-se se não era aquela a 
sua primeira conquista gloriosa. Seria fácil em demasia, crendo-se amado? Não 
era, não. Só cabe aos tolos a convicção de que despedem torrentes magnéticas 
dos  olhos,  prostrando  corri  elas  as  vítimas,  que  os  recebem.  Bom  é  que  a 
irrisão  os  moleste,  para  que  eles  não  sejam,  sobre  a  Terra,  a  única  espécie 
perfeitamente  feliz.  Ora,  Guilherme  do  Amaral  não  era  daquele  grande 
número de que faz menção a sagrada escritura; poderia pelo contrário e sem 
lisonja,  reputar-se  um  génio,  o  Bentham  da  Deontologia  do  coração,  o 
Herschel das mais apuradas lentes, para da grande distância que vai dos olhos 
ao coração da mulher, ler tudo o que lá dentro se esconde a elas mesmas. 
Por  divertir  a  conversação  de  um  assunto  em  que  não  era  honesto  fazê-la 
durar, Guilherme, olhando em redor de si, disse com benigno sorriso: 
— 
Quem vê esta casa de fôra não imagina como ela está asseada, fresca, e 
encantadora por dentro. 
— 
Casa de pobres — atalhou Augusta, recebendo o reparo com modéstia, 
mas gloriando-se de merecê-lo. 
— 
Casa de pobres — disse Guilherme —, mas de pobres que não devem 
invejar  o  luxo  dos  ricos  salões,  onde  o  descontentamento  e  muitas  vezes  a 
vergonha é a alfaia negra no meio desse brilho. 


 
 
Amaral falava nesta ocasião para si. Augusta adivinhara a ideia sem conhecer a 
frase. Francisco não entendeu frase nem ideia. 
— 
Minha  mãe  —  disse  a  costureira  —  era  muito  amiga  do  asseio.  Este 
paninho vermelho que enfeita a cómoda custou muito barato; eu é que fiz a 
franja  branca,  que  lhe  dá  graça.  Estas  cadeiras  fê-las  o  meu  pai,  que  era 
carpinteiro, e todos estes móveis foram arranjados por ele. Tínhamos ali, onde 
estão  as  esteiras,  um  tabique;  mas  haverá  um  ano  que  ele  caiu,  e  nunca  o 
pudemos mandar erguer. 
— 
Esta  casa  —  perguntou  Guilherme  —  não  teve  por  cima  outro 
sobrado? O teto dá ideia disso por ser liso... 
— 
Já teve, mas houve aqui um fogo que queimou o andar de cima. 
— 
Desde que a menina aqui está? 
— 
Não,  meu  senhor,  eu  lhe  conto  o  que  o  meu  pai  contava.  No  tempo 
dos franceses morava aqui um homem com fama de muito rir... Quando eles 
entraram no Porto, como vossa senhoria há de ter ouvido dizer, muita gente 
afogou-se na ponte, que por sinal lá está o painel das alminhas. O homem que 
morava aqui foi um dos que se afogaram, ou então mataram-no os franceses, 
porque nunca mais apareceu. Como ele tinha fama de ser rico, entraram aqui 
dentro os franceses, mas dizia o meu pai que eram portugueses... 


 
 
— 
E  até  o  principal  —  interrompeu  o  fabricante  acho  que  era  um 
barqueiro, pai daquela Ana, que a vossa senhoria foi buscar ao arraial. 
— 
Seria; mas a gente não deve fazer carga à sua alma com uma coisa que 
não se sabe ao certo — atalhou Augusta. — Fosse quem fosse, o caso é que 
os ladrões, não achando nada, desesperaram-se e botaram fogo ao enxergão. 
Quando  acudiu  gente  já  não  podiam  valer  ao  andar  que  tinha  a  casa;  ardeu 
todo, menos o sobrado. Passado muito tempo,  o meu pai, que morava aqui 
perto,  tratou  de  saber  quem  eram  os  herdeiros  de  tal  homem,  e  comprou 
muito barata esta casinha, com tenção de compor este baixo, porque não tinha 
dinheiro para levantá-la como ela era. Botou ao chão as paredes do andar de 
cima, e solhou esta loja, que era térrea, e abriu aquela janela, porque era muito 
escura.  Aqui  nasci,  e  sempre  que  pude,  desde  pequena,  arranjava  papel  de 
cores para tapar a caliça da parede que já é muito velha. 
— 
E deve ter soberba da sua bonita casa, Augusta disse Amaral, erguendo-
se. — Eu estou sendo aqui de mais, e por isso retiro-me. 
— 
Já?! — perguntou ela com inocente familiaridade. 
— 
Não  quero  estorvar  o  seu  primo  de  empregar  os  meios  com  que  se 
amansam  as  meninas  cruéis  —  replicou  ele,  sorrindo,  e  surpreendendo  nos 
olhos dela todos os segredos do coração. 
— 
Nós não temos nada a dizer — murmurou Augusta, engasgando-se, e 
torcendo entre os dedos a ponta do lenço preto do pescoço. 


 
 
— 
Isso é verdade... — disse o fabricante com maliciosa inocência ou alvar 
ingenuidade. — A gente conversa em coisas que não valem dá cá aquela palha. 
Enquanto ela costura nas alças, eu sento-me ao pé, e estamos horas sem dizer 
nada um ao outro. De há tempos para cá, deu em se fazer muito séria comigo, 
e não me dá palavra. Enquanto a mim, anda aqui mandinga de casório entre 
nós... 
— 
Jesus  me  valha!  —  atalhou  ela.  —  Não  faça  caso,  meu  senhor...  Este 
meu primo não é escorreito, e, começando a taramelar, não pensa o que diz, 
nem se lhe dá de mentir. É bom rapaz; mas tem uma língua que chega além 
do rio... Com que consciência dizes tu que eu... Valha-me Nossa Senhora! E a 
ti também... 
Estas  palavras,  ditas  em  boa  graça,  exprimiam  zanga  e  aborrecimento.  O 
fabricante, se dissesse bocadinhos de oiro, seria sempre, ao pé de Guilherme, 
um  grosseirão.  Compará-lo  era  aborrecê-lo;  ouvi-lo,  depois  do  hóspede,  era 
para Augusta uma quase vergonha de ter tal parente. Estas grandes e pequenas 
impertinências  que  ela  sentia  contra  o  fabricante  rudemente  falador  eram 
indícios  manifestos  de  uma  grande  ou  pequena  miséria,  chamem-lhe  como 
quiserem, à qual as marquesas de Luís XIV, e a costureira de alças da Rua dos 
Arménios,  chamaram  amor.  Mas  o  amor  de  Augusta,  assim  de  improviso, 
explica-se?  Perfeitamente;  é  uma  palavra  que  se  explica  por  outra:  mulher. 
Será: porém, o amor não é assim para todos os homens. “Aqui estou eu”, diz 
o leitor, “que tenho consumido a mocidade sem deparar uma dessas mulheres 


 
 
de fibras flexíveis que se dobram sob a mão magnética da minha vontade. “ 
Pior  para  o  meu  amigo:  mas  nada  de  instaurar-se  em  regra,  particularmente 
em relação a mulheres, que são todas excetuadas. Guilherme do Amaral tinha 
um condão. Não era obra diabólica de magia negra ou branca, nem manhas 
cavilosas de sedutor professo. Era a omnipotência da fascinação. Não sabem 
o que é isto? E um fluido, que atua independente da vontade, e faz que uma se 
lance  cegamente  nos  vestígios  ensanguentados  de  outra  vítima,  atrás  do 
mesmo algoz, como as mulheres de Henrique VIII; com a relevante diferença 
que o monarca inglês transmitia a cadeia magnética pelos diamantes da coroa: 
e o homem fatídico, o rei tirano dos espíritos, exerce num olhar profundo a 
sua atração infernal. 
E  onde  se  afere  a  intensidade  do  seu  magnetismo  é  na  presteza  com  que 
escraviza  a  mulher  cultivada  até  à  negação  de  todo  o  idealismo,  e  a  mulher 
inocente até à ignorância dos meios de furtar-se ao domínio desse homem. 
E  estes  monstros  existem?  Sim,  minhas  cautas  senhoras.  Existem.  Não  lhes 
digo que se acautelem, porque seria inútil. 
Por  consequência,  Augusta...  Nada  de  consequências  intempestivas!  Eu  não 
autorizo  ninguém  a  lamentar  primeiro  que  eu  a  minha  galante  costureira  da 
Rua dos Arménios. É tão linda! Mal diria João Antunes da Mora, por alcunha 
o Kágado, quarenta e cinco anos antes, que aquele saguão infecto deveria ser 
habitado  pela  cara  mais  fragrante,  mais  engraçada,  mais  travessa,  mais 


 
 
inteligente que eu tenho na minha galeria de mulheres, cuja imortalidade está 
ao meu cargo! 
O capítulo seguinte pode lê-lo toda a gente. 


 
 
CAPÍTULO VII 
 
Tinham decorrido quatro horas de aturada cogitação na vida de Guilherme do 
Amaral, quando ele, juiz suficiente de si próprio, decidiu que amava a pobre 
costureira de suspensórios. Estas quatro horas foram as decorridas desde que 
ele se despediu da Rua dos Arménios, onde o deixámos no anterior capítulo, 
até que se vestiu para assistir a um jantar de despedida, que lhe era dado pelo 
marido de D. Cecília. 
Aí, como é de estilo, depois de esgotadas as saudações à ilustre dona da casa, 
voltaram-se as atenções, um pouco alcoolizadas, para Amaral. Alguns maridos 
suspeitos  foram  os  primeiros  a  recitar  as  virtudes  do  provinciano.  Damas 
insuspeitas aceitaram a opinião  dos  seus  maridos  com estrepitosos aplausos. 
Combinavam-se perfeitamente. 
Velo, depois, o sentimentalismo da esfalfada etiqueta carpindo a saída de um 
mancebo, a todos os respeitos, lustre e ornamento da boa sociedade. Era tudo 
pretexto  para  beber:  bailava  a  lágrima  nos  olhos  rúbidos  dos  convivas,  ao 
mesmo  tempo  que  o  férvido  champanhe  os  ressarcia  dos  líquidos  perdidos 
pelas glândulas lacrimais. 
Um deputado, com a cara ainda iluminada da auréola oratória, conquistada em 
lides parlamentares sobre o fabrico de azeite de purgueira (vide o Diário do 


 
 
Governo  de  1843),  de  pé,  arfando  as  paridas  ventas  ao  resfolegar  da 
inspiração, cabelos hirtos, e olhos injetados de sacro fogo, falou assim: 
— 
Damas e cavalheiros! Silentium orecundius, É muda a expressão, fala o 
silêncio!, traduziria eu, com a consciência de ter dito o mais que pode dizer-se 
na presente conjuntura... — Engasga-se, e crava os olhos num cupido pintado 
no  teto  —  pode  dizer-se  na  presente  conjuntura...  se...  se...  —  Uma  dama 
imprudente funga um froixo de riso contagioso... — se a voz da amizade, da 
honra, e do dever me não inspirassem no momento solene deste angustiado 
adeus. — “Apoiado!”, exclamação do barão da Carvalhosa, e careta de aplauso 
ao  vizinho.  Sim,  senhores:  o  cavalheiro  que  a  fortuna  nos  deu,  a  fortuna 
caprichosa  no-lo  rouba!  —  Sensação;  silêncio  apenas  quebrado  pelo  silvo 
agudíssimo  de  um  sorvo  de  pitada.  —  Em  verdes  anos,  não  o  conhecereis 
mais  prudente,  mais  cauto,  mais  instruído,  mais  respeitador  dos  sãos 
costumes, mais... mais... 
“Mais honrado!...“, aditamento dum... Orgon, representante do de Molière — 
justamente  mais  honrado  que  esse  de  todos  nós  querido,  de  todos  nós 
respeitado, de todos nós... — “Bom é que não diga de todas nós”, observação 
maliciosa, à parte, de uma dama que conhecia perfeitamente as outras  — de 
todos  nós  saudade  pungentíssima,  e  gloriosíssima  recordação!  —  “Apoiado! 
apoiado!”,  palavras  do  barão  da  Carvalhosa,  secundadas  por  vários 
comendadores, que não adormeceram ainda. — Sim, senhores! O cavalheiro 
Guilherme  do  Amaral,  a  todos  os  respeitos  benemérito  dos  nossos 


 
 
encomiásticos elogios, vai partir!!!! (Quatro pontos de admiração que ele tinha 
no rascunho, estudado quinze dias, à razão de duas horas por dia.) O modelo 
exemplaríssimo  dos  mancebos,  que  nas  suas  virtudes  nos  afigura  uma 
senilidade precoce, vai partir! — Guilherme recomenda, em oração mental, o 
orador ao Diabo — O tipo da inteireza, da retidão, da probidade... vai partir! 
E nós ficamos! Ficamos, sim! Ficamos nós!... E que não haja um íman que o 
prenda! E que não haja um grilhão suavíssimo que o algeme! E que não haja... 
que não haja... 
“Um  bacamarte!...“,  murmúrio  de  um  jornalista  malcriado  sem  graça 
nenhuma,  que  não  haja...  —  “Uma  comissão  revisora  de  speeches!...“,  o 
mesmo insolente a meia voz para uma dama que tem o mau gosto de rir-se — 
que  não  haja  um  amigo  que  o  restitua  aos  seus  amigos!...  —  Estrondosos 
bravos e arrotos. — Pois bem; cumpra-se o destino! Ficaremos para saudá-lo 
todas as vezes que nos reunirmos com a efusão cordial com que eu proponho 
um  brinde  ao  nosso  meritíssimo  amigo  Guilherme  do  Amaral!!  —  Gritaria 
caótica;  bebem  prodigiosamente:  um  comendador,  por  desculpável  engano, 
leva aos lábios a taça da água morna, onde lavara os dedos. Duas senhoras, a 
rir, estalam quatro colchetes. O orador está radioso. 
Amaral, atenuado o calor do entusiasmo, ergue-se com o copo em punho. Um 
“psiu”  unânime  estabelece  o  silêncio  momentâneo  das  orgias  ilustradas.  As 
damas, todas olhos e ouvidos, não pestanejam. Os homens gordos desapertam 
os  coletes  compressores  para  saborearem  com  todas  as  comodidades  as 


 
 
delícias do orador à barra. O deputado, com ares protetores, estende o braço 
como  a  pedir  a  religiosa  mudez  das  respirações.  O  próprio  barão  da 
Carvalhosa não ousa levar ao nariz a voluptuosa pitada, que inutiliza, para não 
quebrar com o sorvo estrídulo o silêncio universal. 
— 
Vivamente impressionado — diz Amaral com a mais cómica seriedade 
—  pela  tocante  eloquência  do  senhor  conselheiro,  inveja  de  Demóstenes,  e 
honra  da  pátria,  mal  posso  articular  as  notas  confusas  de  um  hino  de 
reconhecimento,  que  o  coração  egoísta  fecha  em  si,  e  não  confia  aos  lábios 
profanadores.  –  “Bravo,  ótimo!”,  exclamação  do  deputado,  que  bate  solfa 
com a cabeça a cada acentuação silábica do orador patusco.  
— 
Se a inspiração é mãe de ideias grandes, quantos embriões perdidos nas 
mágicas  entranhas  dela!  Quantas  emoções  divinas  afogadas  pela  rudeza  da 
palavra humana! Quantas expansões do íntimo arrefecidas no gelo dos lábios! 
É que a língua humana não está feita ainda. Bem disse o ilustrado cavalheiro, 
que me precedeu, num sonoro verso: “É muda a expressão, fala o silêncio!” 
E,  demais,  a  minha  posição  é  especialíssima.  Eu  sou  o  devedor  de  tantos 
credores; e dívidas de amor só as paga o amor, o amor silencioso, o amor cuja 
linguagem balbuciam os anjos, o amor, que faz seu ninho nas fibras íntimas 
do seio, e aí morre, quando o peso de urna pedra fria lhe esmaga o santo asilo.  
— 
“Belíssimo, inimitável, originalíssimo!”, troveja o deputado, arrancando 
aos convivas que, com honrosas exceções, não entenderam nada, um rugido 


 
 
de  admiração.  —  É  esse  amor  que  impele  o  homem;  todos  os  cálculos  da 
cabeça abortam, não vingam se os não sanciona beneplácito da força motriz, 
que  roda  os  eixos  desta  máquina  quebradiça,  chamada  vida.  A  prova  desta 
asserção  vou  dar-vo-la,  senhoras,  para  as  quais  ela  não  é  precisa,  porque  o 
amor em vós é o espírito vital; e a vós também, cavalheiros, mais ou menos 
combalidos da podridão deste século, donde a inspiração fugiu espavorida, e 
tanto para longe, que poucos a reconhecem se ela desce do céu ao regaço da 
humanidade. — Uma senhora velha chora, e a filha, que está em frente, ri-se. 
D. Cecília pisa o pé de uma sua vizinha, que se apoquenta na persuasão de que 
a  pisadela  foi  um  choque  do  seu  pé  com  o  principal  joanete  do  barão 
imediato.  O  orador  prossegue  no  seu  descabelado  improviso.  —  Quereis, 
pois,  a  prova?  Ouvi-a.  Não  há  ainda  um  quarto  de  hora,  que  eu  de  fugida 
traçava o vasto roteiro das minhas viagens. Perguntava eu a mim mesmo em 
que palmar da Ásia, em que floresta do novo mundo, em que oásis do deserto, 
em que latitude do oceano, ou em que necrópole dos impérios devastados, de 
hoje a um ano, recordaria as saudosas pessoas, que vieram a azedar-me, num 
festim  de  risos,  as  lágrimas  ocultas,  que  eu  verteria  depois...  —  Sensação. 
Alguns que devem aos vinhos secos o sexto sentido da poética sensibilidade, 
têm  os  olhos  aguados:  vê-se  que  Virgílio  não  mentira  quando  disse:  sunt 
lacrimae rerum, posto que eu emendaria: sunt lacrimae vini. 
— 
Lágrimas de cálida saudade me cairiam da face sobre o fuste de alguma 
coluna de Nínive. De lá volveria, como o israelita nas margens do saudoso rio, 


 
 
para  o  ocidente  os  olhos  melancólicos  à  maneira  do  proscrito  que  não 
conhece os homens, que  o  encaram, a  lua que  o  ilumina, a brisa  que  o  não 
refrigera,  as  flores  que  o  não  incensam  com  os  perfumes  da  pátria!  –  “Que 
diabo diz ele?!”, pergunta um comendador ao membro municipal seu vizinho. 
Resposta: “Não entendo patavina.” — Vede quão amargo me seria este adeus 
ao canto do globo, onde se acoitam, como pedestais deste belo céu, todas as 
graças, todas as maravilhas da criação, todos os êxtases do amor do poeta, da 
admiração do artista, das abstrações do filósofo! Eu não devia deixar a pátria, 
especialmente  o  Porto,  onde  vivi  os  doces  e  fugitivos  instantes  da  minha 
juventude, já agora fanada como a flor esquecida na haste, aos ardores do sol, 
sem  gota  de  água  reanimadora!  —  “Que  tremenda  estopada!”,  observação 
judiciosa do jornalista, ansioso por fumar.  — Não devia... e, contudo, Deus 
me é testemunha — “Legítimo clássico!”, reflexão, a meia voz, do deputado a 
uma espécie de barão, que o não entendeu. — Deus me é testemunha que eu 
seguia  de  rastos  o  meu  destino,  e,  neste  instante,  emancipo-me  da  tutela 
ignóbil  do  destino,  para  declarar  com  a  ufania  que  me  dá  a  consciência,  de 
proceder como devo, que não tenho? coragem. de vos deixar; serei vosso, se 
vos mereço; não irei ressequir ao sol de estranhas plagas as flores de amizade 
com que fui coroado aqui! A vós, senhoras, que tendes o condão de soprar 
uma cintila em cinzas apagadas! A vós, senhores, que vos honrais lisonjeando 
a amizade... uma ovação sincera, uma saúde fervorosa! 
— 
De pé, de pé! — gritaram uns. 


 
 
— 
Sobre as cadeiras! — urraram outros. 
— 
Exceto as damas! — disse Guilherme. 
— 
As damas inclusive! — bradou um parvo. 
O deputado pede a palavra: não o atende ninguém. O jornalista, aproveitando 
a desordem, acendeu o charuto. A velha, que chorava, afetada do contágio, fez 
bravuras com uma perna ferida de gota. As damas, imprudentes nas libações, 
não curavam já da simetria dos boucles, Aquela cena preliminar de uma orgia 
não lhes parecia nova, nem excessiva. Pareciam feitas para o festim, como as 
mulheres  da  corte  de  Baltasar.  Uma  queria  pedir  a  palavra,  se  a  não  pisam 
dolorosamente nesse momento. Outra pedia familiarmente ao criado um copo 
de champanhe... 
E Guilherme do Amaral, que não perdera um só episódio, nem bebera coisa 
que  lhe  anuviasse  os  olhos  penetrantes,  dizia,  na  sua  consciência:  “Isto  faz 
nojo!  A  boa  sociedade  é  isto!  Eis  aqui  a  taverna  servida  com  cristais  da 
Saxónia! Mais alguns copos  de  vinho,  e  estes homens despirão  as  casacas, e 
estas mulheres agitarão no ar os tirsos de bacantes! “. 
Este  fragmento  era  uma  reminiscência  do  sistema  que  em  Lisboa  tão  mau 
pago lhe dera. Lá, estas convulsões de ódio ao género humano eram ditas em 
voz alta. No Porto, o escarmentado rapaz reduzia isso a monólogos, e tinha 
juízo. Não se fiava de nenhum amigo, não tivera um só lapso arriscado, uma 
dessas  facilidades  gratas  à  vaidade,  que  molestam  a  reputação  da  mulher,  já 


 
 
sentenciada, e destroem a reputação do homem, frivolamente jactancioso. Ela 
não perdeu nada, e ele perdeu tudo! Isto é um absurdo, e, porque o é, creio 
nele, como Santo Agostinho: quod absurduin, credo. 
O  homem  que  mais  de  perto  tratava  Guilherme  era  o  indecente  jornalista-
poeta, que tive a ousadia de apresentar-vos no baile do barão da Carvalhosa. 
Como Amaral poderia relacionar-se com tal carácter, não sei, nem ele o sabia. 
O facto, porém, deve ter uma tal ou qual explicação. O cantor de Cecília, sua 
fecunda  inspiração  de  quarenta  e  oito  poesias  por  ano,  era  um  falador,  que 
não  impacientava:  riqueza  e  nervo  de  pensamentos,  crítica,  sarcasmo,  riso 
fulminante,  ironias  apimentadas,  que  faziam  saltar  a  língua  aos  que  lhas 
provavam,  experiência  comprovada  a  preço  de  todas  as  suas  quimeras, 
desenvoltura  tolerada  ao  seu  talento,  ou  imposta  à  força  pelo  terror  da  sua 
pena  molhada  em  fel...  seriam  estas  as  qualidades  que  atraíram  Amaral? 
Foram;  nem  o  poeta  tinha  outras  que  lhe  granjeassem  estima,  ou  desprezo, 
visto a olho nu, e não estudado vagarosamente. 
O provinciano principiara por onde devia acabar: antes de sair da sua aldeia, 
falava  da  sociedade,  como  se  recolhesse  ao  lar  dos  seus  avós,  pedindo  aos 
deuses penares o tesouro da paz, que perdera nas tormentosas borrascas do 
grande  mundo.  Todo  ele,  portanto,  era  uma  falsificação;  todos  os  seus 
pensamentos  e  palavras  (as  obras  excetuam-se)  um  artifício.  Não  sabia  do 
coração mais do que os romances lhe ensinaram: não entrara no âmago disto, 


 
 
a  pôr  o  dedo  sobre  a  úlcera;  não  se  provara  em  medições  de  formidável 
sofrimento, essas que são a envenenada iguaria, que abunda na mesa do poeta, 
quando ele é desse pequeno número, que se atravessa na torrente dos factos, 
apregoando teorias de uma moral abstrusa e inexequível. 
Se praticasse com o Mentor de Lisboa, alguns dias mais, saberia muito, não 
ouviria  com  tanto  empenho  as  preleções  baratas  do  jornalista.  E  ninguém, 
como este, poderia dar-lhas tão importantes. 
A desilusão não era um cálculo, nem a imoralidade uma vocação no autor das 
quarenta  e  oito  poesias.  Descreu,  porque  era  mentira  tudo  o  que  lhe 
prometera  a  infância;  teve  razão  para  descrer.  Desmoralizou-se,  porque 
precisava comungar no orçamento social; não era silfo para viver do ar, nem 
abelha que se desjejuasse no pólen das flores: teve razão de desmoralizar-se. E 
quem  mais  logicamente  explicava  a  sua  desmoralização  era  ele.  Vencia  e 
convencia,  a  ponto  de  Guilherme  do  Amaral,  em  rasgos  de  sinceridade, 
confessar que a corrupção do poeta era de todas a mais racional. 
E era este justamente o jornalista que, no jantar dado a Amaral, capitulara de 
estopador o discurso do seu nobre amigo que lhe afinava a ânsia de fumar. 
O provinciano, para não perder nada, reparou no jornalista, durante o quarto 
de hora de delírio que se seguiu à sua estirada proposta. Viu-o sentado fôra da 
mesa,  com  as  pernas  em  cruz,  deliciando-se  orientalmente  no  fumo,  e 
torcendo para Guilherme um lance de olhos muito expressivo de zombaria, e 


 
 
um riso de escárnio, mais picante ainda pela “atitude” do charuto ao canto dos 
lábios. 
Os convivas passaram à sala próxima, onde o café era servido. Guilherme deu 
o braço à dona da casa, a poética Cecília, casada de sete meses, que teimava 
em  dizer  que  não  brotara  ainda  a  flor  ideal  do  seu  sonhado  jardim.  Diria 
muitas  outras  coisas,  se  o  maligno  poeta  se  não  postasse  ao  lado  dela, 
recitando,  em  aparente  abstração,  uma  quadra,  muito  conhecida,  da  sua 
cantara  intitulada  A  Bacante,  coisa  repulsiva,  que  parecia  escrita  sobre  a 
sórdida  banqueta  de  uma  taverna.  Cecília  erguera-se,  e  um  poeta  ocupou  a 
cadeira vaga ao pé de Guilherme. 
— 
Fizeste fugir Cecília, com algum epigrama dos teus...  — disse Amaral, 
risonho. 
— 
Nada,  eu  não  faço  epigramas  às  donas  da  casa  onde  janto,  senão  na 
véspera, ou  no  dia seguinte. Estava  recitando,  na  mais santa idealização dos 
meus êxtases, uma poesia íntima. Se ela fugiu, foi decerto à tua prosa. 
— 
És um cínico de alto quilate! És o Carlos Herrera dos meus romances. 
— 
E tu serás o Dom Basílio dos meus. És um assombro! Como tu podes 
contar com o voto de toda esta gente para a próxima legislatura, isso é que eu 
não  sei  como  se  faz!  Quem  te  deu  o  privilégio  da  virtude  na  imoralidade, 
Amaral? Fala franco! 


 
 
— 
Pois eu sou imoral? 
— 
Tu  és  um  génio!  És  o  Escoro  subtilíssimo  da  caricatura!  És  capaz  de 
provar  a  todos  estes  maridos  que  trazes  cilícios  sobre  os  rins!  Sê  uma  vez 
sincero; indemniza-me de tantas sinceridades que tenho tido contigo; quero só 
uma;  responde:  como  estavas  tu  por  dentro,  quando  disparavas  aquela 
metralha de ironias a esta gente no teu brinde? Se vais mentir, cala-te. 
— 
Não minto; respondo: ria-me. 
O jornalista deu-lhe um abraço, de pé, exclamando: 
— 
És  um  grande  homem!  Se  o  mármore  não  fosse  o  galardão  póstumo 
dos tolos, tinhas uma estátua em vida. Serás feliz até à morte! Vê que estou 
inspirado, profetizando o teu destino. O último dia das tuas velhacadas será a 
véspera da tua beatificação. Mestre! Não posso recuar; se pudesse, seria o teu 
discípulo  premiado...  Vou  tomar  café...  Não  viste  ainda  uma  salva  de  prata 
com charutos de contrabando?... Ela aí vem... 


 
 
CAPÍTULO VIII 
 
Pois  se  Guilherme  do  Amaral,  segundo  a  sua  crível  confissão,  ria 
interiormente, quando reconsiderava a viagem, que as saudades dos generosos 
portuenses não consentiam, como  se explica esta  mudança?  Há  por  ventura 
um motivo sério que a explique? 
Há, não pode deixar de haver. Amaral retirava-se saciado do Porto, enjoado 
seriamente  deste  delicioso  burgo,  que  devia  ser  simbolizado  por  um  João 
Antunes  da  Mora  de  greda,  a  rir  de  um  pobre  forasteiro,  que  abre  a  boca, 
espreguiçando-se, até deslocar as maxilas. A demora do paquete impacientava-
o até ao momento em que saiu da Águia de Oiro, e maquinalmente se deixou 
ir  entre  o  enxurro  da  plebe,  que  desaguou  em  Miragaia,  na  véspera  de  S. 
Pedro. 
Quando visitou, segunda vez, a órfã da Rua dos Arménios, as suas tenções de 
viajar eram as mesmas; os preparativos continuavam, e a esperança de se ver 
barra fôra, exclamando: fuge crudeles terras, fuge litus avarum, era insofrida. 
Foi,  pois,  Augusta,  a  pobre  costureira  de  suspensórios,  a  filha  do  defunto 
carpinteiro,  que  passou  uma  esponja  sobre  o  mapa-múndi,  que  o  viajante 
prometia trilhar em dez anos de peregrinação, atrás de um desenjoativo. Era 
muito; mas realmente era! 


 
 
Amaral  viu  esta  mulher  como  até  ali  não  vira  alguma,  a  olho  nu,  sem  a 
impossível  formosura  ou  a  monstruosa  deformidade  das  novelas,  sem  os 
ensaios prévios da sedução, sem o doble artifício que o desejo da celebridade 
lhe ensinara, privando-lhe de liberdade a natureza ingénua, crente e expansiva. 
Um  amor  natural  e  espontâneo,  gerado  na  simplicidade  do  coração, 
alimentando-se de si, sem ostentar-se às emulações dos outros, abastardar-se 
no jogo de pequenas misérias, que são a iguaria apetitosa da mulher saciada, 
esse amor ainda Guilherme o não sentira, e muita vezes perguntara ao espírito 
em  liberdade  se  ele existia fôra da  inocência,  ou somente  nos arrobamentos 
das almas propensas ao fantástico. 
A  esta  pergunta  respondera  Augusta, a  mulher  simples,  a  frescura  dos  vinte 
anos com toda a seiva dos quinze, os lábios de rosa sem a mácula de um beijo, 
os olhos de uma  ternura voluptuosa, como ela se mostra sem os atavios do 
fingimento,  olhos  donde  não  caíra  ainda  uma  lágrima  sobre  uma  ilusão 
desvanecida. 
A  índole  móvel  de  Amaral  recebeu  como  facto  o  que  era  apenas  urna 
impressão  nova,  exagerou  a  felicidade  em  perspetiva,  porque  o  coração, 
faminto  do  verdadeiro  amor,  rejuvenescia  da  velhice  prematura,  oferecia-se 
para os júbilos da afeição ingénua, cheio de vigor, imaculado do lodo em que a 
impostura o atascara, abrindo-se aos anélitos do ar puro, do santo amor que se 


 
 
nutre de esperanças, e adora o reflexo do seu objeto no céu, no lago, na flor, 
na madrugada, no silêncio, nas trevas, e nos sonhos mais luminosos que o dia. 
O que ele viu em Augusta era tudo o que podia ser, e o mais que não podia 
ser. O génio, apurado pelo desejo, enfeita a natureza de matrizes, que ela não 
tem. A mulher, observada por um desses infelizes parias, que vivem longe de 
nós  por  excursões  no  deserto  da  aspiração,  transfigura-se,  diviniza-se,  é  o 
querubim de um dia, a luz efémera de uma bem-aventurança impossível sobre 
a Terra. 
Foi assim que a costureira, única, pela inocência, entre todas as mulheres, que 
Amaral  conhecera,  se  lhe  afigurou.  Era  no  acaso  feliz  de  encontrá-la  que 
Amaral  se  entretinha,  acumulando  esperança  sobre  esperança,  quando  o 
jornalista, pontual conviva ao almoço, entrou no quarto. 
A  verdade  é  expansiva;  a  mentira  retrai-se,  esconde-se  até  aos  olhos  dos 
depravados.  Amaral  sentia  o  que  sentiria  aos  quinze  anos,  estreando-se  na 
carreira  das  paixões,  por  um  amor  sublime.  Queria,  agora,  um  amigo,  um 
confidente,  um  homem,  que  ele  tivesse  associado  à  sua  hipocrisia,  para 
convertê-lo à verdade das afeições puras. Mais perto de si vivera só o poeta; 
mas já foi dito que Amaral, integérrimo observador do sistema que trouxera 
de  Lisboa,  não  tirara  nunca  a  máscara  diante  de  homem  nenhum.  O  poeta 
arrancara-lha  muitas  vezes:  surpreendeu-o  nas  emboscadas  traiçoeiras; 
conhecia-o,  e  dava-lhe  uma  distinta  prova  de  estima,  espionando-o,  sem 


 
 
denunciá-lo à vindicta pública. Era uma virtude. Oú diable Ia vertu ta-t-elle se 
nicber! 
Guilherme,  desde  a  noite  do  dia  anterior,  na  sala  de  Cecília,  entendeu  que 
devia  grandes  obrigações  ao  jornalista,  língua  viperina,  satírico  inexorável 
contra  todas  as  virtudes  impostoras,  mas  tolerante  com  as  dele.  Em  tal 
homem, este facto incrível era um direito legítimo à confiança, e, da parte de 
Guilherme, uma ingratidão negar-lha. 
— 
Vem cá — disse Amaral ao jornalista —, senta-te aqui na cama. Vamos 
conversar como dois poetas da tua força moral, ou da minha. 
— 
Visto que vamos falar seriamente, chega-te para lá, que me quero deitar. 
A inteligência concebe melhor na postura horizontal. Diz lá. 
— 
Como  explicas  tu  o  meu  plano  de  não  viajar  desde  ontem?  — 
interrogou  Amaral,  dando-se  no  sorriso  fátuo  uns  ares  de  homem 
incompreensível para o resto do género humano. 
— 
Do mesmo modo que o teu plano de viajar amanhã. Isso não me faz 
pensar  um  momento.  Deduzo  que  não  és  um  homem  trivial.  Tencionar 
executar  é  a  qualidade  inerente  aos  espíritos-ostras,  que  se  agarram  muito 
tempo à mesma ideia. Dou-te os parabéns por nunca saberes o que farás. O 
talento é assim. 
— 
Há outra explicação mais razoável na minha mudança. 


 
 
— 
Impressionou-te  alguma  das  mulheres  do  jantar  de  ontem?  Faz-me 
justiça. Eu conheço aquela gente há um ano... 
— 
O mesmo dizem elas ao teu respeito... Eles... não. Pois que é? 
— 
O amor. 
— 
O amor! A quem? 
— 
Não conheces: é uma mulher do povo, uma costureira. 
— 
Conheço  muitas  costureiras,  particularmente  as  da  Guichard,  as  da 
Theodorina e as da Andrillac... 
— 
Não é dessa gente: é uma costureira que trabalha na sua casa, e ganha 
três vinténs por dia. 
— 
Isso  é  um  capricho  de  um  homem  cansado.  Não  é  preciso  que  me 
descrevas  a  mulher:  imagino-a  mais  viçosa  e  linda  do  que  ela  é  realmente; 
afigura-se-me de uma candura estúpida, capaz de desmaiar se tu lhe ofereceres 
o  teu  guarda-chuva  na  rua.  É  tudo  isto;  mas  o  que  tu  sentes  por  ela  é  um 
capricho de vinte e quatro horas. 
— 
Será?!  Mas,  se  eu  te  disser  que  sinto  em  mim,  pela  primeira  vez,  os 
elementos de uma paixão séria? 
— 
Resisto à prova, qualquer que ela seja, e digo-te que essa rapariga nem 
ao menos há de marcar na tua vida uma época de sentimento. Essas mulheres 


 
 
têm  um  trono de  vinte  e  quatro  horas,  e  aos  pés  uma  voragem,  onde  caem 
sem  deixarem  de  si  sequer  uma  lembrança.  O  profeta  da  experiência  fala-te 
pela minha boca indigna. Eu já tive alucinações semelhantes. 
— 
Tu estavas corrupto quando te alucinaste: não tinhas uma fibra inteira 
no coração. Eu não amei ainda, tenho o coração robusto, o meu amor não é 
uma  alucinação;  a  primeira  que  descer  até  lá,  deve  ter  uma  grande 
superioridade sobre mim, e sobre todas as outras: há de perpetuar-se na minha 
existência, há de entrar como elemento do meu ser, há de encher este vácuo 
glacial que sinto na vida. 
— 
Aí estás tu com as frescas reminiscências do último romance! Enquanto 
a  mim,  vens  de  ler  as  pieguices  amorudas  de  algum  roué  parisiense  com  a 
inocentinha grisette... Diz-me cá: tu podes suportar uma mulher estúpida vinte 
e quatro horas? 
— 
Eu não suporto a mulher estúpida e má; mas o anjo da simplicidade e 
do amor tem sempre tesouros do coração a dar-me, e tantos que eu não dou 
metade  deles  por  toda  a  tua  ciência,  e  a  das  mulheres  espirituosas,  no  teu 
conceito.  Não  quero  ciência,  quero  amor:  dispenso  os  dotes  da  cabeça  que 
corrompem o coração. 
Pois  bem:  eu  tenho  dito  em  poesia  tudo  isso  e  muitas  outras  coisas. 
Aconselho  aos  enjoados  dos  esplendores  da  sociedade,  e  dos  seus  amores 
sensuais, a cataplasma angélica de uma rapariguinha patriarcal, toda pejo, toda 


 
 
acanhamento. Mas a ti, homem problemático, digo-te que te mente o coração, 
se  é  que  tu  não  lhe  mentes  a  ele.  Aí  vai  uma  profecia:  nenhuma  mulher, 
Aspásia  ou  Julieta,  encherá  o  vácuo  glacial  que  te  incomoda...  Aí  vem  o 
almoço... 
O tabuleiro foi colocado no meio da cama; o jornalista flanqueou-o com as 
pernas  em  anfiteatro,  passando  para  os  pés  do  leito;  o  provinciano,  com  as 
dele,  fez  um  triângulo,  e,  nesta  solene  e  grave  postura,  continuaram  a 
discussão dos profundos segredos da alma. 
— 
Eu tenho imaginado delícias com esta mulher! dizia Guilherme. — Sei 
que  me  ama,  sem  ela  mo  ter  dito:  é  destes  peitos  transparentes  que  deixam 
estudar o coração... E um prazer que faria a soberba de um parvo, mas que 
produz em mim urna sensação de glória... Vinte anos, a virgindade da alma, a 
beleza,  um  terreno  inculto  com  os  embriões  de  todas  as  flores  no  seio...  a 
minha linda cativa! 
Estás delicioso; mas o chá é péssimo... Onde mora a pequena? 
— 
Aqui! — respondeu Amaral, pondo a mão no seio, e sorrindo. 
— 
Bonito! Fala sério: quero ver a costureira — atalhou o vare com a boca 
túmida de costeleta. 
— 
Não a profanarás com os olhos. 


 
 
— 
Enquanto tu a divinizarás com as mãos... Que péssima distribuição de 
gozos! Tenho notado que precisamos mais de uma boa organização do amor 
que da organização do trabalho... Queres mais costeleta? Não está má... chega-
me  essa  pimenta...  Com  que  então,  a  rapariguinha  só  pode  viver  à  sombra, 
como o lírio do vale!... Confias muito pouco nela, ou em ti, ou em mim!... És 
um ingrato! Nunca concorri contigo... tendo mil e uma ocasiões de... 
— 
Muito  agradecido,  meu  generoso  amigo...  devo-te  finezas  que  não  se 
pagam com a simples denúncia da morada de uma rapariga... 
— 
Já a tens sob a tua paternal proteção? 
— 
Não; vou tratar disso. 
— 
Dás-lhe uma linda casa de campo. 
— 
Justamente. 
— 
Rodeada  de  florestas  druídicas,  onde  virão  gemer  as  brisas  da  tarde: 
uma fontinha, fazendo um terceto sonoroso com a rã e a cigarra; um sofá de 
cortiça enramado de hera e coberto das melenas virentes do chorão... E ela, de 
ombro nu, colo de cisne, e braço de Diana caçadora, em rosca voluptuosa à 
roda  desse  bem-aventurado  pescoço...  E,  depois,  o  leito  nupcial  de 
contrabando...  cortinados  brancos,  suspensos  nos  bicos  de  dois  pombos, 
transparentes com as pinturas mitológicas dos amores e das graças, uma luz 
quebrada, um perfume de madressilva colhida por dedos de ágata; um tapete 


 
 
que ensurdece os passos, passos de fada, o fantástico poisar da ondina, mais 
ligeira que um sonho de manhã; e por fim... uma carga de aborrecimento de 
tanta felicidade... o desejo implacável de outra vida... de outra asneira. 
É  um  fragmento  do  teu  folhetim  de  hoje?  É  o  folhetim  da  vida,  meu  caro 
Amaral! A verdade está, severa e nua, debaixo destes enfeites do estilo. O que 
tem  feito  mal  a  muita  gente  não  é  a  mentira;  é  o  invólucro  das  palavras 
artificiosas  com  que  se  doira  a  algema  que  as  verdades  lançam  ao  pulso  do 
homem.  Em  verdade,  em  verdade  te  digo,  como  se  diz  no  Oriente,  que  de 
hoje  a  um  ano  não  serás  mais  feliz,  e  terás  feito  uma  desgraçada.  Deixa  a 
rapariga. Essas mulheres não servem para nós. 
— 
“Para nós!” O plural é absurdo. já te disse que estou morto, e tenho o 
vigor de  todas  as  crenças,  creio na  virtude,  espero do verdadeiro  amor  uma 
felicidade duradoura, dou a esta pobre costureira o meu coração, e ela há de 
restituir-mo sem as manchas com que me retiro da sociedade magnificamente 
torpe, torpissimamente faustosa. 
— 
Aí te vem a cólera dos advérbios... Não te irrites. 
Faça-se a tua vontade. Retiro a censura... Pode ser que um homem excêntrico 
depare a ventura fôra da esfera onde gravitam os homens. A costureira será a 
flama de um alquimista moral. Procura o absoluto do coração, como o herói 
de  Balzac,  mas  não  te  arruínes  como  ele.  Encontrarás,  talvez,  a  verdade 
abraçando  uma  tolice.  Aquele  dentre  vós  que  se  crê  sábio  abrace  a  loucura 


 
 
para encontrar a sabedoria: são palavras de S. Paulo, que encontrei, e embuti 
hoje  como  pude  no  meu  folhetim,  em  que  falo  de  Catulo  e  Jeremias  a 
propósito da Norma... 


 
 
CAPÍTULO IX 
 
Desembaraçado  do  poeta,  Guilherme  do  Amaral  foi  à  Rua  dos  Arménios. 
Augusta, como sempre, estava sozinha. A familiaridade com que Amaral lhe 
estendeu a mão impressionou-a; não recusou a sua; mas o rubor dizia quanto 
aquele uso lhe era estranho, e a liberdade custosa. 
— 
Porque cora assim, Augusta? Um aperto de mão é um sinal de amizade, 
uma  ação  inocente,  que  qualquer  menina  faz  diante  de  um  pai...  Eu  quisera 
não ser para Augusta um homem tão estranho que a fez corar, se lhe aperta a 
mão.  Não  me  responde?  Esse  seu  silêncio  é  arrependimento  de  abrir  a  sua 
porta a um homem que não conhece? 
— 
Não, senhor, eu por agora não tenho de que me arrepender... 
— 
Nem  espero  que  venha  a  ter;  e  para  que  não  seja  injusta  comigo, 
arrependendo-se por alguma suspeita, devo desde já dizer-lhe que sou um seu 
verdadeiro  amigo...  Não  acredita  que  eu  seja  seu  amigo?  Olhe  para  mim, 
Augusta; não a quero ver assim envergonhada; ou está comigo como se está 
com um irmão, ou eu não torno aqui. 
— 
Porquê?  Eu  não  sou  capaz  de  dizer  a  vossa  senhoria  palavras  que  o 
magoem... Sou-lhe muito obrigada... 


 
 
— 
“Obrigada!”  Ofendeu-me,  Augusta,  quando  me  prometia  não  me 
magoar! “Obrigada!” A que favores! 
— 
Não são pequenos... 
— 
Basta! A tal respeito nem mais uma palavra. Augusta dispensa os meus 
serviços, e os serviços que eu posso fazer-lhe não a obrigam a receber-me na 
sua casa, se o seu coração lhe repreende a confiança que me dá. O que nos 
prende não são os serviços, é a simpatia, é o desejo de tomar como nossos os 
sofrimentos ou os prazeres de uma outra pessoa. Eu sinto por Augusta o que 
só pode sentir um pai por uma filha; desejo-lhe a sua felicidade; queria elevá-la 
até onde a sua ambição a elevasse; queria, enfim, dar tudo o que tenho, e ser 
mais  do  que  sou  para  ouvir-lhe  dizer:  “Guilherme,  devo-te  o  céu,  que  me 
deste neste mundo. “ 
Augusta  não  ousava  fixar  Amaral.  Sentia  um  sobressalto  no  coração, 
semelhante ao efeito de um susto. Frios e calores iam e vinham ao belo rosto, 
que acusava fielmente as emoções de dentro. Gostava e sofria, desejava e não 
desejava  aquelas  palavras,  umas  graves  como  as  do  amor  paternal,  outras 
suavíssimas  de  certa  doçura  que  não  vêm  nas  palavras  de  um  pai.  Não  se 
lembrava que estava só, e, contudo, parecia-lhe que tais palavras era mau ouvi-
las  uma  rapariga,  sozinha.  Felizmente,  Guilherme  cedeu  ao  impulso  da 
inspiração.  Não  era  o  fingimento  que  o  auxiliava  na  expedição  da  frase.  O 
espírito frio tem a habilidade de aquecer a palavra submissa à impostura. Nele, 


 
 
não,  pelo  menos  nesse  instante.  Disse  o  que  nunca  disse  da  abundância  do 
coração, que pela primeira vez falava, na sua linguagem nativa, embalsamada 
com  os  perfumes  próprios,  vestida  simplesmente,  grata  aos  ouvidos,  não 
viciados pela música dos conquistadores por estilo. 
— 
Eu dou liberdade à minha alma, Augusta — prosseguiu ele, tomando-
lhe a mão. — Repare bem na firmeza das minhas palavras... Esta segurança só 
a  dá  o  amor  e  a  honra.  Eu  amo-a,  Augusta;  mas  este  amor  não  pede 
sacrifícios,  nem  inventa  seduções,  nem  sal  do  caminho  da  verdade,  para 
esconder-se nos atalhos da impostura. Amo-a há vinte e quatro horas, como 
se  a  conhecesse,  amando-a,  desde  criança.  Se  me  disser  que  este  amor  não 
pode ser recompensado, beijo-lhe esta mão com reconhecimento, e digo-lhe: 
fez bem, Augusta, em desenganar o homem que poderia fazer mais infeliz do 
que é... 
— 
Vossa senhoria não vê que eu sou uma pobre? — disse ela, retirando a 
mão trémula. 
Que tem a riqueza com o coração, Augusta? Pois só poderia amar-me sendo 
rica? 
— 
Ninguém procura uma rapariga pobre... Isso era bom se o senhor fosse 
um oficial de ofício. Dizia a minha mãe que uma rapariga que quer ser mais do 
que é, por mais que seja, ficava sempre menos do que era. 


 
 
— 
E pensa que eu tenho a vaidade de dizer-lhe que pode valer ainda mais 
do que vale? Não, Augusta: a menina, sendo o que é, não pode invejar mulher 
nenhuma.  Se  soubesse  o  que  tenho  sido,  julgava-se  neste  mundo  primeira 
entre  todas  as  mulheres.  Amava-me  com  dedicação,  porque  diria,  vendo-se 
tão  amada,  que  nenhuma  outra  poderia  impressionar-me  tanto...  Augusta, 
temos  um  belo  futuro.  Seja  minha,  diga-me  que  dá  ao  meu  coração  todo  o 
domínio sobre a sua vontade. 
— 
Eu não entendo o que a vossa  senhoria diz...  — atalhou a costureira, 
assustada, afigurando-se o perigo da sua imprudência. 
— 
Não  me  entende?  Diga  antes  que  me  não  ama...  Não  me  pode  amar, 
Augusta? 
A  rapariga  baixava  os  olhos  em  significativo  silêncio,  quando  o  pontual 
fabricante  entrou,  pedindo  licença  já  com  um  pé  dentro  da  casa.  Augusta 
estremeceu. Guilherme fixou-o com superioridade e aborrecimento. 
Francisco,  embaçado  com  a  repetida  surpresa,  gaguejou  um  cumprimento  à 
prima,  sem  dirigir  sequer  um  gesto  ao  hóspede,  e  sentou-se  com  grosseira 
liberdade.  Guilherme  sofria  no  seu  orgulho,  e  sentia-se,  como  se  diz, 
falsamente situado na presença do artista silencioso e da costureira vexada. A 
fisionomia dela exprimia aflição; a do primo, cólera comprimida. 
Amaral  era  pouco  inventivo  em  conflitos  sérios.  Não  lhe  ocorreu  uma 
frivolidade  com  que  sair-se  do  aperto.  Vê-lo  assim  era  julgá-lo  imbecil 


 
 
provinciano, pilhado nas tralhas de uma esparrela! Ergueu-se, fez um gesto de 
cabeça  a  Augusta,  e  disse,  olhando  com  a  sobranceria  do  desprezo  sobre  o 
fabricante: 
— 
Passe muito bem, menina. Não há notícia de um desenlace tão prosaico 
em cena que prometesse tanto! Augusta abaixara a cabeça, cortejando-o, sem 
responder-lhe. Francisco, corri os cotovelos sobre os joelhos, embrulhava um 
cigarro, e assim permaneceu até que o hóspede saiu. 
— 
Que  te  quer  este  homem,  Augusta?  —  perguntou  Francisco  sem 
aspereza. 
— 
Que me há de querer? Passou por aqui, e entrou. 
— 
A  falar  a  verdade,  esta  rua  não  está  afeita a  ver destes  passeantes... A 
apostar que tu não sabes o que ele te quer? 
— 
Eu não... 
— 
Ele ainda to não disse? 
— 
Não me disse nada.. . que me há de dizer ele?! 
— 
Ainda és de bom tempo... Achas que estes petiscos dão ponto sem nó? 
Eu logo vi que as duas peças levavam água no bico... pudera não... já não há 
quem dê nada por serdes vós senhor quem sois... O que eu te digo é que te 
guardes, Augusta... 


 
 
— 
Bem guardada estou eu... Bem digo eu que me não conheces, Francisco. 
— 
Isso são lérias, rapariga... Quem me avisa meu amigo é... Eu que te digo 
isto,  é  porque  me  bacoreja  no  peito  que  este  homem  não  vem  cá  somente 
para saber da tua saúde. 
— 
Pois deixá-lo... está enganado comigo... 
— 
Todas  assim  o  dizem,  Augusta,  e  ao  lavar  dos  panos  é  que  são  as 
contas. 
— 
Então que queres que lhe diga? Que não torne cá? 
— 
Acho que era o mais acertado. 
— 
Isso é que eu não faço; não sou malcriada nem ingrata. Um homem que 
acudiu  às  minhas  aflições,  quando  eu  aqui  estava  com  o  corpo  morto  da 
minha mãe nos braços, à porta fechada, e demais a mais foi chamar a tia Ana 
do  Moiro,  e  me  deu  uma  esmola  de  três  moedas,  hei  de  mandá-lo  sair  da 
minha casa? Isso é ação que eu não faço por coisa nenhuma... Deus me livre! 
— 
E  se  ele  te  disser  que  te  quer  bem,  e  te  seduzir  como  estes  senhores 
fazem às raparigas pobres como tu? 
— 
Se me seduzir!... E tu sabes que ele me quer seduzir?! 
— 
Acho que sim. 
— 
Porquê? 


 
 
— 
Porque és nova e bonita, e vales bem as três moedas. 
— 
Não digas isso! Tu tens muito má língua! Nenhum homem pode falar 
com uma rapariga sem ser para seduzi-la!... E se ele for meu amigo? 
— 
Ah! Tu já assim estás?... Boa vai ela!... Não te faças desgraçada, Augusta. 
Vê lá o que fazes... Olha que ele não casa contigo... 
— 
E eu já disse que ele queria casar comigo?! 
— 
Pelo  domingos  se  tiram  os  dias  santos—  Tu  já  tens  lá  no  coração  a 
moléstia...  Enquanto  a  mim,  o  homem  já  te  encheu  a  cabeça  de  teias  de 
aranha... Estás servida... Para boa sorte te criou a tua mãe... Se ela fosse viva, 
não vinha cá este homem... Hás de dar-lhe muito gosto com este namorado... 
Lá virá o tempo em que torças a orelha, e não hás de tirar sangue... 
— 
Acomoda-te, Francisco! Não me aflijas! Eu ainda não fiz nada porque 
perca. 
— 
Mas podes fazer... 
— 
A graça de Deus não me há de abandonar... 
— 
O mal é teu, Augusta. Parece mesmo que o Diabo as arma! Quero casar 
contigo para te ganhar o pão, e tu fazes-te fina; aparece um patavina que te dá 
duas  peças  de  mão  beijada,  e  tu  recebe-lo  em  casa,  pensando  que  o  santo 
rapaz anda por este mundo a dar peças às raparigas pobres... Andará, andará; 
mas o pior é o resto... 


 
 
— 
Santo  nome  de  Jesus,  que  me  fazes  perder  a  cabeça!  Que  hei  de  eu 
fazer? 
— 
Queres tu que eu lhe diga que não venha cá? 
— 
E tu sabes onde ele mora? 
— 
Sei.  Vi-o  no  domingo  entrar  para  uma  hospedaria  na  Batalha,  e 
perguntei se ele morava ali; disseram-me que sim. 
— 
E que mais soubeste dele? 
— 
Soube que era um fidalgo da Beira, muito rico, tem lacaios, e dá-se-lhe 
excelência lá na hospedaria. 
— 
Mas não é casado?... — atalhou com veemência a costureira. 
— 
Boa vai ela! já te lembras se ele casará contigo! Pois não!... Vão-se ler os 
banhos domingo... pois não leste!... 
Augusta, acaba com isto enquanto é tempo... Queres que eu lhe diga que não 
venha a tua casa? 
— 
Não... 
— 
Não! Então fala assim de uma vez para sempre... Gostas do paralta? 
— 
Não gosto nem deixo de gostar... As coisas fazem-se doutro modo... Eu 
bem sei o que hei de fazer. Não se te importe a minha vida... 


 
 
— 
Não vai a arrenegar, rapariga... Estás no teu direito. Assim como assim, 
o que eu te digo são palavras que leva o vento... Tu te arrependerás... Fica-te 
com Deus... 
O fabricante ia sair, quando a prima o segurou pelo braço, chorando. 
— 
Vem cá, Francisco; não sejas meu inimigo. 
— 
Agora sou!... Se eu não fosse teu amigo, dizia-te que fizesses tolices e 
comesses a isca que ele te deu no anzol das tais duas peças... Pensa, e faz o 
que quiseres. Amigo hei de eu sê-lo teu até à morte... Quando me procurares 
hás de achar-me... Se não queres casar comigo, porta-te bem, que te não hão 
de  faltar  maridos;  mas  pano  com  nódoa  não  vale  a  quarta  parte...  Adeus, 
Augusta; são horas de ir para o trabalho... 
A  costureira,  sozinha,  chorou  muito.  E  que  lágrimas!  As  primeiras,  as 
primícias  do  fel  que  paga  o  primeiro  amor!  Coitadinha,  a  fascinação  era 
invencível! O primeiro raio de sol desabrochou de repente a flor toda, todos 
os perfumes lhe vieram do selo, não escondeu um só polmo do seu néctar à 
primeira abelha que lhe tocou. 
Mas  a  profecia,  rudemente  inexorável,  do  fabricante,  era-lhe  um  agoiro  de 
perdição  infalível.  A  generosidade  de  Guilherme  pareceu-lhe  um  meio  de 
perdê-la e as visitas posteriores e as palavras que lhe ouvira, uma hora antes, 
tudo vinha confirmar as suspeitas de Francisco. Vejam quão pouco basta para 
matar a inocência! 


 
 
Mulher, como todas, Augusta queria suspeitar as intenções de Guilherme; mas 
não  queria  que  os  outros  lhas  descobrissem.  Queria  ter  de  lutar  contra  a 
tentação; mas não queria que o seu primo a adivinhasse. Assim é pois que a 
consciência  transige  com  a  consciência,  e  muitas  vezes  é  a  opinião  de 
estranhos que lá desperta a inquietação e o remorso. 
Um hora a chorar e a pensar devia preceder uma resolução qualquer. Augusta 
fechou a sua porta, e entrou na da tia Ana do Moiro. 
— 
A que vens, Augustinha? Vens com olhos de chorar? É o mafarrico do 
teu primo, que te persegue? Manda-o ao Diabo; Deus me perdoe, se peco. 
— 
É  outra  coisa,  tia  Ana...  Vossemecê  não  disse  muitas  vezes  a  minha 
mãe... 
— 
Deus lhe fale na alma... 
— 
Que lhe queria comprar a casa? 
— 
Disse, e não se me dá de ficar com ela pelo que disserem os louvados. 
E tu queres vendê-la? 
— 
Eu digo-lhe, tia Ana: preciso de três moedas; se eu lhas pagar dentro de 
seis meses, com juro, fica sendo a casa minha, e, senão, vossemecê dá-me o 
que  faltar,  com  a  condição  de  eu  ficar  na  casa,  enquanto  viva,  pagando-lhe 
aluguer. 


 
 
— 
Tudo  se  pode  fazer:  mas  que  diacho  de  razão  tens  tu  para  vender  a 
casa? 
— 
Preciso de dinheiro... 
— 
Estou  dando  no  vinte!  Enquanto  a  mim,  tu  tiveste  algumas  histórias 
com aquele senhor, que te deu as duas peças, e queres pagar-lhas.. Fala para aí, 
menina... Bem sabes que coisa que se me diz, é pedra que cai num poço. 
Augusta  não  pôde  estancar  as  lágrimas;  e,  como  se  elas  não  bastassem, 
confessou  tudo  à  vizinha  matreira,  para  quem  as  intenções  do  generoso 
protetor da rapariga eram maliciosas antes de o serem. 
— 
Isso  são  arrufos,  Augusta,  não  te  aflijas!  —  disse  a  filha  do  Moiro, 
fazendo-se conhecedora do caso. 
— 
Vossemecê está enganada... — disse a costureira, soluçando, ferida pela 
suposição da vizinha. — Eu não tenho dares nem tomares com o tal senhor... 
— 
Não?! — atalhou ironicamente a peixeira. — Pois eu havia de jurar que 
ele  te  queria  muito!...  Há  dois  dias  que  o  vejo  entrar  na  tua  casa  sempre  à 
mesma hora, e da fama já te não livras, rapariga... 
— 
Santo nome de Jesus! já me não livro da fama? Pois falam de mim?! 
Pudera  não...  Pois  pensavas  que  as  vizinhas  não  têm  olhos?!...  A  gente  não 
guarda cabras... 


 
 
— 
A luz me falte, tia Ana, se eu fiz coisa porque perca! 
— 
Pois sim, sim: mas que queres? Vão lá tapar as bocas ao mundo! Eu, se 
fosse a ti, tanto se me dava que falassem como que não. És tu livre? Não tens 
pai nem mãe; cada qual toma o rumo por onde lhe faz conta. E ele teu amigo. 
— 
Eu sei cá se é meu amigo ou se não é!.. . Tanto se me dá que seja como 
que não... Vossemecê empresta-me o dinheiro? Acabemos com isto... — já te 
disse que sim, conta com ele, mas quero que me digas o que foi isso. Assim 
como assim tudo se sabe... 
— 
Eu  lhe  conto,  tia  Ana.  O  tal  sujeito  chama-se  Guilherme,  não  é  do 
Porto, está numa hospedaria na Batalha e é fidalgo. 
— 
Cáspite! Ainda o queres melhor?! 
— 
Deixe-me contar-lhe... Ele disse-me que era muito meu amigo, que me 
tinha amor de pai, e que me queria fazer feliz. 
— 
Olha a tolinha! E tu não... 
— 
Eu não lhe disse que sim nem que não... Disse-me uma palavras que me 
fizeram chorar, e, não sei porque era... ao mesmo tempo gostava de ouvi-lo 
falar  assim.  Tinha-lhe  medo,  e  não  queria  que  ninguém  estivesse  ao  pé  de 
mim; era uma coisa que eu não sei dizer-lhe o que era. Só a lembrança dele me 
fazia  esquecer  a  minha  mãe.  Parece  que  adivinhava  quando  ele  vinha;  o 
coração tremia-me e subia-me um calor à cara que nem de febre. Quando ele 


 
 
me disse hoje que me tinha amor, eu senti uma alegria cá dentro, que me fazia 
endoidecer. Então depois, entrou o meu primo, e ele esteve um bocado sem 
dizer nem palavra, e saiu com má cara. O Francisco começou a dizer-me que 
o que ele queria era seduzir-me, e abandonar-me... Sempre chorei, tia Ana! 
— 
Deixa-o falar... O Francisco o que ele queria sabemo-lo nós... Às vezes, 
Augusta, estes homens ricos casam com raparigas pobres, e são muito amigos 
delas. Só do meu conhecimento há três casadas hoje no Porto com figurões: 
uma,  que  era  criada  de  servir  das  senhoras  Lacerdas,  é  baronesa;  outra,  que 
tinha um estanquinho na Rua do Príncipe, está casada com um figurão, que é 
assim a modo destas coisas do Governo; outra, que me comprou muito peixe 
fiado, quando o amigo andava lá por fôra na emigração, anda de carruagem, e 
faz  que  me  não  conhece...  Coisas  do  mundo...  Mas  diz  o  que  queres  fazer 
agora? 
— 
Quero dar-lhe as três moedas, e não quero que ele torne a minha casa. 
— 
Então não gostas dele? 
— 
Gostava, se ele me quisesse para bom fim; mas, como diz o meu primo, 
estes senhores não casam com raparigas como eu. 
— 
Pois  faz  como  quiseres,  Augusta...  não  te  digo  uma  nem  duas.  O 
dinheiro vou dar-to já, se o queres. 
— 
Pois se faz favor... Olhe lá, tia Ana, será melhor mandar-lho? 


 
 
— 
Como quiseres; se tu queres, levo-lho eu. 
— 
Pois sim... Mas seria melhor que ele o recebesse da minha mão... Não 
vá ele tomar como desfeita... 
— 
Pois sim... 
— 
E ele, depois, decerto não tornará a minha casa. 
— 
Se tu o impontas, como há de ele tornar? Só se não tiver vergonha. 
— 
Mas eu não queria fazer-lhe desfeita... 
— 
O  rapariga,  eu  não  te  entendo,  assim  me  Deus  salve!  Queres  que  ele 
venha ou não venha? 
— 
Queria  que  ele  não  viesse;  mas  não  se  me  dava  que  ele  fosse  meu 
amigo, 
— 
Como  há  de  ele  ser  teu  amigo  sem  te  ver?  Longe  da  vista,,  longe  do 
coração. 
— 
Eu queria que ele... 
— 
Diz lá o que querias; não morras embuchada. .. a gente entende-se pelas 
palavras... 
— 
Queria que ele viesse a minha casa, de vez em quando; mas não queria 
dever-lhe nada... 


 
 
— 
Pois então paga-lhe as três moedas; mas olha que ele não tas aceita. 
— 
Não que então mando-lhas. 
— 
Isso é outro caso, mas depois não esperes por ele mais... 
— 
É o mesmo... Dê-me o dinheiro... 
— 
Vê lá, menina; não dês um pontapé na fortuna... Olha que ela vem uma 
vez, e nunca mais torna... 
— 
Que fortuna?! 
— 
Se ele te quer fazer feliz, anda para diante... 
— 
Não me dê esses conselhos, tia Ana... Tenho medo que  a minha mãe 
venha do outro mundo repreender-me... 
— 
Faz o que quiseres, Augusta. 
A costureira saía da casa da vizinha com as três moedas, quando Guilherme 
do  Amaral,  pela  terceira vez,  batia à  porta dela.  Augusta,  se não  fosse  vista, 
escondia-se: tal era a perturbação e o tremor instantâneo. Era tarde para fugir. 
Foi,  sem  ver  o  caminho  que  trilhava.  A  tia  Ana,  da  janela,  fazia  um  aceno 
familiar  com  a  mão  a  Amaral,  que  lhe  correspondeu.  Neste  aceno  dizia  ela 
mimicamente: “Conte comigo se eu for necessária.” 
A tia Ana negociaria a honra de Augusta como o seu pai negociara a vida do 
chanceler. 


 
 
Augusta,  erguendo  apenas  os  olhos  para  Guilherme,  que  lhe  cedera 
cortesmente o passo da porta, entrou na sua casa, esquecendo ou ignorando a 
delicadeza da primazia na entrada ao hóspede. 
— 
Dá-me licença, Augusta? — disse ele com acanhamento impróprio. 
— 
Faz favor de entrar... 
— 
Eu venho restituir-lhe a paz que lhe roubei, menina. Quis fazê-la feliz, e 
não  pude.  Entrei  nesta  casa  com  a  tenção  de  ser  bom,  e  retiro-me  talvez, 
deixando, em vez de amizade, ódio; em vez de saudade, esquecimento. Nunca 
eu ouvisse os seus gritos, Augusta, quando aqui vim guiado a esta rua por um 
acaso. Foi para ambos nós infelicidade vê-la eu. Para mim porque a amo com 
paixão; para Augusta que me queria, talvez, amar e não pode. Alguém tomou 
posse do seu coração primeiro que eu. Não tenho ódio a quem a merece, seja 
quem for. Se é seu primo, seja feliz com ele... 
— 
Meu primo! — atalhou ela estremecendo de emoção. — O senhor está 
enganado comigo... 
— 
Pois se não é seu primo, seja quem for... 
— 
Não é ninguém. 
— 
Ninguém? Para que mente, Augusta? Não tem necessidade de enganar-
me... É outro amor que a não deixa ver o muito que a estimo, a felicidade que 


 
 
lhe preparo, e o desprezo em que tenho todas as coisas deste mundo desde 
que a conheço. Augusta, diga que me não pode amar porque ama outro... 
A  costureira  deixou  ver  em  todo  o  seu  esplendor  o  brilho  dos  olhos 
inteligentes, fixando-os no rosto insinuante de Guilherme. 
— 
Vai  dizer-me  a  verdade...  —  continuou  ele.  —  Vai  dizer-me  que  não 
pode ser minha, porque é doutro. 
— 
Não sou de ninguém, já lho disse... 
— 
Mas  o  seu  primo,  há  pouco,  mostrou-se  ofendido  de  me  encontrar 
aqui... 
— 
Meu primo não tem nada comigo... O senhor já sabe que ele quer casar 
comigo, e eu não caso com ele... 
— 
Nem com outro? 
— 
Com outro? Isso não sei... é consoante o coração me disser... 
— 
E de mim, não lhe diz nada o seu coração... 
— 
Do senhor?... Se eu fosse rica, ou o senhor pobre como eu... 
— 
Quereria ser minha?... 
— 
Mulher... decerto queria... 
— 
Então, não lhe sou tão aborrecido como eu pensava... 


 
 
Nunca foi... E ama-me?... Não me responde? já sentiu por outra pessoa o que 
sente por mim? 
— 
Nunca! 
— 
jura-me que nunca? 
— 
Por esta luz que me ilumina. 
— 
Então porque me não diz que é minha? Porque me não segue? Porque 
não  sai  desta  casa  para  outra  em  que  se  veja  senhora  de  tudo,  que  faz  a 
felicidade deste mundo? 
— 
Sair daqui?!... 
— 
Pois que dúvida tem em deixar uma casa que não é digna de si?... 
— 
As coisas não se fazem assim depressa... Antes disso... 
— 
Diga... “antes disso”... o quê? 
— 
Vossa senhoria bem pode entender-me... Eu quero viver com honra... 
e, quando sair daqui, há de ser para entrar na igreja... 
— 
Já? 
— 
Pois o senhor para que fim me quer? 
— 
Para adorá-la... e no futuro... 


 
 
— 
Bem mo diziam a mim... O senhor o que quer é fazer-me infeliz... Pois 
isso, não. Enquanto puder trabalhar,  hei de viver com honra como  a minha 
mãe viveu; em me faltando as forças, pedirei uma esmola. 
— 
Isso quer dizer que me não ama... 
— 
Então que hei de eu dizer ao senhor? Se amar é botar uma rapariga a 
perder, mau amor é o seu... 
— 
E  eu  quero  pô-la  a  perder?  Augusta,  não  se  fie  nos  embustes  do  seu 
primo. Confie-se em mim, e deixe à minha vontade a nobre recompensa de a 
fazer  minha  esposa,  quando  algum  tempo  se  tiver  passado...  Antes  de  ser 
minha mulher, queira que eu conheça bem o seu génio; e, se ele se conformar 
com o que eu imagino que a menina  é, então a farei senhora de tudo que é 
meu, aos olhos do mundo, porque aos meus olhos já o é... 
— 
E se o meu génio lhe não agradar? 
— 
Há de agradar. 
— 
Mas suponha que não? Quantas pessoas parecem aquilo que não são!... 
— 
Se essa desventura acontecesse, Augusta, nunca precisaria trabalhar... 
— 
Porquê? 
— 
Dava-lhe um dote com que poderia viver independente... 


 
 
— 
Agora é que eu entendi tudo — atalhou ela, como despertando à beira 
de  um  abismo.  —  Tenho  visto  o  que  o  senhor  quer...  Eu  não  me  vendo... 
Tenho vinte anos, mas sei, por ouvir dizer, o que vai pelo mundo. Vivo bem 
na minha pobreza, não invejo ninguém, e por isso não aceito os seus favores, 
porque não preciso deles. 
— 
Não  seja  ingrata,  Augusta...  Eu  nunca  lhe  fiz  favores,  mas  deve 
agradecer-me os desejos de ser-lhe útil... 
— 
Já  me  fez favores  que  eu  muito agradeço. Deixou-me  três  moedas  de 
oiro, mas elas aqui estão; perdoará serem em prata... 
Amaral recuou diante da mão que lhe oferecia o dinheiro. 
— 
Ofende-me cruelmente, Augusta! Eu não lhe mereço isto! 
— 
Não é pelo ofender... Então precisava, e agora não preciso... Faz favor 
de aceitar? 
— 
Não aceito. 
— 
Pelo amor de Deus, receba este dinheiro... 
— 
Não  me  trate  assim,  Augusta!  Se  tem  escrúpulos  de  honra  em  aceitar 
esse dinheiro, dê-o pela minha intenção aos pobres; mas, por quem é, antes 
me diga que me despede, eu não voltarei; o que não posso sofrer é que me 
empurre como um vil credor pela porta fôra... 


 
 
— 
Eu  não  o  mando  sair,  senhor  —  interrompeu  ela  comovida,  com  as 
lágrimas a fio. 
— 
Pois que maneira é esta de tratar uma pessoa que, se lhe não fez bem, 
também lhe não fez mal? Disse-lhe que a amava: isto ofendeu-a? 
— 
Não, senhor... 
— 
Disse-lhe  que  a  queria  fazer  feliz  com  o  meu  amor  e  com  a  minha 
riqueza, pouca ou muita... Isto ofendeu-a?... Responda, Augusta... 
— 
O senhor quer fazer de mim sua amiga, e não sua esposa. 
— 
Minha amiga! Que feliz eu seria se a pudesse fazer minha amiga... 
— 
Quer  amar-me  de  um  modo  que  eu  não  possa  aparecer  com  a  cara 
descoberta... Todos hão de dizer:... “Aquela rapariga é a amiga de fulano... “ 
— 
E que digam? Que lhe importa o que disserem, se Augusta vive só para 
mim? Se eu tivesse de ser maltratado pelo meu pai, pela minha família, pelo 
meus  amigos,  por  todo  o  mundo,  bastava-me  o  amor  de  Augusta,  para  eu 
desprezar  tudo  que  a  não  respeitasse...  Pois  a  menina  persuade-se  que  só  o 
casamento faz a felicidade e a honra de uma mulher? Está muito enganada, e 
tem  razão,  porque  não  sabe  nada  do  mundo.  A  mulher  casada  não  é  feliz 
quando se não conforma com as inclinações do marido, e vive num contínuo 
inferno de portas adentro. A mulher casada não tem honra, quando, obrigada 
por um mau marido, esquece os seus deveres, ou julga que não tem nenhuns 


 
 
com um marido que falta aos seus. Entendeu-me, Augusta? Nunca ouviu falar 
como eu falo? 
— 
A quem havia eu de ouvir essas palavras? Eu não conheço senão o meu 
primo, e oxalá que... não conhecesse mais ninguém... 
— 
Pois bom é que me caiba a mim abrir-lhe os olhos para ver as coisas 
como elas são; a não ser eu, poderia ser que outro lhe deixasse a experiência, e 
também  o  remorso.  Eu  não.  Digo-lhe  isto,  com  a  certeza  de  que  não  será 
minha.  Quisera  poder  preveni-la  contra  as  tentações  de  algum  sedutor  que 
venha, depois de mim, inquietar a sua doce tranquilidade. Ora pois, Augusta, 
eu vou retirar-me, e a menina fica feliz... 
— 
Feliz!... Eu nunca mais posso ser feliz... Por isso é que eu digo que oxalá 
eu nunca conhecesse senão o meu primo... Esse não me fazia bem nem mal... 
— 
E eu que mal lhe fiz!... 
— 
Não sei, senhor Guilherme... 
— 
Quer dizer que a ofendi, sim? 
— 
Fez-me infeliz ... Eu nunca mais posso ter descanso... não o tornando a 
ver... 
— 
E  um  anjo,  Augusta!  —  exclamou  Guilherme,  beijando-lhe  a  mão  e 
calando a impetuosa eloquência do júbilo, que ela não compreenderia. 


 
 
E talvez compreendesse. Amaral desconfiava que não. Bem se vê, durante este 
estirado diálogo, como ele procurava nivelar a frase à curta capacidade de uma 
costureira.  Não  sabia  o  provinciano  que  há  fenómenos  de  inteligência  na 
mulher, uma espécie de adivinhação, luz súbita que lhe aclara o entendimento, 
enquanto  lhe  soam  aos  ouvidos  incultos  as  palavras  de  um  arfante, 
magicamente harmoniosas. 
Entre  parêntesis:  eu  disse  uma  vez,  a  uma  rapariga  do  campo,  coisas 
monstruosas  de  ternura  em  estilo  de  drama.  Creio  mesmo  que  misturei  na 
minha  alocução  lancinante  um  fragmento  dos  Dois  Renegados,  tragédia  em 
voga.  A  rapariga  fixava-me  uns  olhos  pávidos  de  penetrante  inteligência.  E 
entendeu-me, creio eu. Querendo explicar o fenómeno, lembro-me que fiz, de 
outra vez, parar uma doninha, escutando-me um arpejo de violão! Segredos da 
mulher e da doninha. Hú mihi? qualis erat!... 


 
 
CAPÍTULO X 
 
Cedendo  a  mão  ao  casto  e  fervoroso  beijo,  Augusta  sentiu  aquecer-lhe  o 
sangue  o  fogo  daqueles  lábios.  Não  tinha  ânimo  de  retirar  a  mão,  nem 
Guilherme  vontade  de  largá-la.  Se  era  muito  conceder,  ela  não  se  mostrava 
arrependida; se era pouco do muito que havia a gozar, ele não pedia mais. Era 
esse o mútuo enlevo de duas almas, que deviam assim unidas tocar o céu, se 
nesse  instante  a  morte  as  despisse  do  invólucro  material,  pérfido  agente  de 
todas as loucuras. Mas a morte não ousaria tanto, ao vê-los tão embriagados 
nas  momentâneas  delícias  da  vida.  O  que  ela  faria  era  passar,  sorrindo  da 
brevidade do gozo humano e da sede insaciável da alma, enquanto não desata 
os nós, que a prendem à fonte das águas impuras cá de baixo. 
E os lábios sôfregos de Guilherme continuavam a libar não sei que doçuras da 
mão extraordinariamente delicada da costureira. A ansiedade de delícias novas 
impacientava-se. Como a abelha, que salta de uma em outra flor, o sequioso 
amante  buscou  pascer  a  fome  do  ideal  nos  lírios  do  colo  alvíssimo.  Ao 
movimento  inesperado,  Augusta  fez  um  sinal  de  despeito;  mas  não  fugiu. 
Cingida na cintura pelo braço convulsivo, tremeu como o braço que a cingia, 
mas por sensação diversa. Ao sentir no pescoço o roçar áspero de um bigode, 
e  a  calidez  cáustica  dos  beiços,  fez  um  esforço  impetuoso,  soltando-se  dos 
braços  e,  desta  vez,  fugiu,  escarlate  como  a  romã,  meigamente  ressentida, 


 
 
como a Haidée num dos contos de Byron, que não cito textualmente, porque 
não é das coisas mais moralizadoras que eu conheço. 
Augusta! — disse Amaral, sem persegui-la. Não me voltes as costas! Olha para 
mim...  Não  achas  tão  agradável o  “tu”  na boca  de  um  homem que  te  ama? 
Trata-me  assim  também.  Ora  diz:  “És  o  meu  Guilherme...  e  eu  sou  a  tua 
Augusta.” Não queres dizer? Má! Também a não quero tratar por tu... 
— 
Trate-me como quiser; mas eu... não devo... 
— 
Deves, Augusta. Eu não sou só teu irmão, nem teu amigo; sou mais que 
o  teu  marido,  sou  teu,  de  alma  e  coração,  teu  por  toda  a  vida,  embora  não 
sejas minha. Não és? 
— 
Sou... uma infeliz, se o senhor quiser que eu seja... 
— 
Eu! Poderei eu fazer-te infeliz? Hás de ainda arrepender-te do que me 
dizes... Quando não tiveres nada a desejar nesta vida, olharás com tristeza para 
isto  que  foste  antes  de  me  conhecer.  Augusta!  De  hoje  em  diante  não  há 
mulher nenhuma que não inveje a tua sorte. Há muitas que ao verem-te, linda 
como és, hão de morder-se de raiva. Os teus vestidos serão os mais ricos, a 
tua casa a mais asseada, os teus desejos os mais depressa adivinhados, Eu hei 
de adorar-te como mulher a quem devo a felicidade, que todas as outras me 
roubaram. Serás o meu anjo-da-guarda. Nunca sairei de ao pé de ti. Nasceste 
mulher, hei de fazer-te senhora. Antes de um ano abrirás um livro ao pé de 
mim, e lerás os infortúnios dos amantes infelizes, enquanto nós nada teremos 


 
 
que nos assemelhe na nossa sorte à deles. Passado um ano, não te conhecerás. 
Educada  pelo  meu  amor,  serás  tudo  o  que  pode  ser  um  mulher  de  alto 
nascimento.  Entrarás  numa  sala,  e  as  que  te  não  conheceram  na  Rua  dos 
Arménios  perguntarão  donde  veio  mulher  tão  bela,  e  tão  espirituosa.  Será 
então  que  os  teus  olhos,  cheios  de  lágrimas  de  reconhecimento,  virão 
encontrar nos meus o orgulho de te possuir... 
No  seu  arrebatamento,  Guilherme  esqueceu-se  que  falava  com  uma 
costureira,  e  por  pouco  não  se  perde  na  nevoenta  fraseologia  com  que 
apaixonara Cecília, com que embriagara Margarida, e com que aturdira muitas 
cabeças vertiginosas. 
Coisa  espantosa!  A  costureira  entendeu-o,  sem  dicionário!  Repetiria,  pouco 
mais  ou  menos,  as  expressões  sumptuosas  que  a  encantavam!  Iria,  como  as 
pedras de rojo ao som ida lira de Anfião, atrás daquele harmónico de palavras, 
ainda mesmo que elas fossem as flores onde se esconde a víbora. 
Mas não eram. Guilherme do Amaral nunca fôra tão sincero. O seu coração, 
crença,  esperança  e  orgulho  estavam  nesse  prospeto  de  ventura,  talvez 
mentiroso como todos os prospetos com grande recheio de promessas. 
Se ele se enganar, a culpa não é dele: culpai a inconsequente natureza. Se ela 
mente,  como  pode  ser  responsável  a  vítima!  Não  basta  ao  homem  ser 
atraiçoado  por  ela!  Quem  perde  senão  o  pobre  sonhador  de  venturas 
impossíveis! Julgam-no mau, porque o infeliz não encontra o gozo duradoiro, 


 
 
que a imaginação lhe impõe? Condenam-no, porque ele se devora em paixões 
incessantes,  e  envelhece  na  mocidade?  Injuriam  o  sequioso  viajante  no 
deserto, porque não encontra uma gota de água? 


 
 
CAPÍTULO XI 
 
O  jornalista  era  um  profeta.  Os  antigos  videntes  fê-los  a  santidade;  a 
corrupção  faz  os  profetas  contemporâneos.  No  homem  gasto,  vão-se  as 
ilusões,  e  fica  a  experiência.  Ora  a  experiência  é  o  sexto  sentido,  a  intuição 
luminosa  do  futuro,  a  presciência  das  induções  infalíveis  de  um  princípio 
imoral. E a única superioridade dos corrompidos sobre os puros. 
O  leitor  recorda-se  daquelas  íntimas  confidências  de  Guilherme  ao  seu 
comensal, num almoço na Águia de Oiro. 
O  poeta  ia  adiante  dos  projetos  do  provinciano,  delineando  a  arquitetura 
romanesca da casa em que a sedutora costureira contaria por palpitações do 
coração os minutos da encantada existência do seu efémero amante. 
Para averiguarmos a importância profética do jornalista, procuremos Augusta. 
Na  Rua  dos  Arménios,  não.  A  tia  Ana  do  Moiro,  conversando  com  o 
Francisco fabricante, diz que Augusta fechara a porta, levara a chave. No dia 
imediato  àquele  em  que  lhe  pedira  e  restituíra  três  moedas.  O  fabricante 
chorava  como  uma  criança  ao  pé  da  filha  do  barqueiro,  que  não  tinha  jeito 
nem vontade de consolá-lo. Para ambos era claro que Augusta se entregara à 
descrição  de  Guilherme;  todavia  nenhum  sabia  onde  ela  estava.  O  artista, 
instigado  pelo  ciúme  e  pela  cólera,  fôra  à  Águia  de  Oiro  informar-se  do 


 
 
hóspede;  mas  os  criados  disseram-lhe,  o  mais  laconicamente  que  puderam, 
que o Sr. Amaral saíra da hospedaria. 
Eu tenho obrigação de contar o que o fabricante não sabia, nem a Sra. Ana do 
Moiro, nem os serventes da hospedaria. 
Sabem onde é o Candal? É essa pitoresca colina que se levanta por detrás das 
ruínas  de  um  castelo,  donde  Gaia,  a  formosa  moira,  espreitava  a  frota  do 
godo, seu querido roubador, segundo a mitologia deste maravilhoso torrão do 
Ocidente.  Como  estendal  de  fadas,  de  longe  braqueiam  as  risonhas  casas, 
olhando  soberbas  para  o  Porto,  com  o  garbo  de  camponesas,  frescas  e 
toucadas  de  flores,  sem  inveja  aos  peristilos  de  pórfido,  aos  mosaicos  das 
alterosas  paredes,  às  opulentas  gradarias  de  bronze.  De  cada  quebrada  do 
monte  sobranceiro  rebentam  jorros  de  água  argentina,  que  se  desenrolam 
sobre  a  imensa  alcatifa  de  esmeralda,  que  vem  do  sopé  dos  edifícios,  tão 
límpida,  a  sujar-se  nos  becos  imundos  de  Vila  Nova,  taverna  que  dá  vinho 
para todo o mundo, asquerosa como nenhuma outra taverna do mundo. 
Fujamos daqui para o alto. Lá, sim. De cada copa de madressilva julgais ver, 
rociada  de  orvalho,  surgir  urna  dríade,  encostada  à  urna  das  águas,  que 
rumorejam entre os silvados. O poeta sobe de lá nos êxtases do idílio a todos 
os  céus  da  imaginação  rejuvenescida.  Os  cânticos  de  Sintra,  cantados  cá, 
parecem  seus.  Os  amores  famosos  de  dois  poetas,  que  além  choraram, 
Bernardim  e  Camões,  concebem-se  aqui,  explicam-se,  entram  no  espírito 


 
 
como  um  quinhão  de  dor  suave,  e  da  saudade  lúcida  dos  amores  de  outro 
tempo. Não sabeis o que é o Candal, se o não vedes assim. 
Por lá passara um dia Guilherme, quando o Sol se atufava no mar, deixando 
sobre o oceano larga esteira de prata, em cintilantes escamas. Era essa, pois, a 
hora da saudade, a do meditar anelante, a hora da poesia, que desce do céu ao 
coração de todo o homem. 
Amaral, sem testemunhas, com os seus instintos, não falsificados à feição da 
celebridade,  que  se  procurava,  era  poeta,  era  sonhador,  despia  a  face  da 
máscara  abrasadora,  sorvia  o  ar  puro  da  natureza,  sentia-se  convalescer  da 
dolorosa enfermidade do tédio, e ansiava outro mundo melhor que o seu. 
Foi  no  Candal  que  ele  sentiu  mais  lúcida  a  intermitente  da  poesia.  Parara, 
contemplando o ocaso do Sol, que durante dois anos não saudara, desde que 
esquecera essa hora, tão misteriosa na sua aldeia. A emoção, que primeiro lhe 
acordara  a  sensibilidade  entorpecida,  foram  saudades  da  sua  mãe,  imagem 
santa, que vinha pedir-lhe uma lágrima tardia. Depois, uma a urna, as saudades 
da sua vida infantil; o prado mais querido, a árvore de mais doce sombra, o 
regato  de  mais  plácido  murmúrio,  a  flor  valida,  a  montanha  das  tradições 
medonhas,  o  velho  rafeiro  que  lhe  lambia  as  mãos,  o  escabelo  de  pedra  no 
átrio da velha capela onde lera o Renê, o seu mais predileto livro dos quinze 
anos.  Depois,  desce  à  vida  do  homem  prematuro.  Encontra  uma  tediosa 
uniformidade  de  cenas:  amor  sem  paixão;  impostura  de  insensato,  que  se 


 
 
quisera destacar do vulgo, dando-se a importância de herói de um medíocre 
romance.  Teve  vergonha  de  si:  viu-se  miserável,  ignóbil,  e  mais  trivial  que 
todos os fátuos do seu conhecimento. 
Deste lodaçal levantou-se agarrado às asas do querubim da esperança. Alteou-
se  até  Deus,  deixando  em  baixo  o  ateísmo  que  abraçara  sem  convicções  de 
ateu;  que  abraçara,  porque  era  incompatível  a  virtude  com  a  sua  mentirosa 
personificação. De lá, observou a terra a olho nu, e viu que a felicidade não 
era  uma  quimera de  infelizes?.  Imaginou  a mulher  amada,  reclinando-se nos 
braços  do  amante,  do  amigo  sincero,  do  benquisto  dos  homens,  dela  e  de 
Deus.  Mas  a  mulher  arriada,  onde  estava  ela?  A  que  zona,  a  que  torrão  do 
Globo levaria o poeta o eco da sua invocação? 
As mulheres do seu mundo passaram-lhe diante dos olhos, e ele voltou a face 
enojada  para  não  vê-las.  Eram  frívolas,  transfiguradas  como  ele,  destras  na 
impostura, recebendo a mentira pomposa com mais amor que a verdade nua. 
O  desalento  enturvou-lhe  o  espírito,  a  luz  de  um  momento  empalideceu, 
como  o  clarão  da  Lua,  que  então  se  erguia  sobre  as  cumeadas  da  cidade 
caraira. Amaral descera o monte de Gaia, triste e abatido, como o amigo, que 
volta de acompanhar ao cemitério o que lhe era confidente nas lágrimas. 
Parou ainda, volvendo a face para o local onde tantas reminiscências amargas, 
tantas esperanças doces se enlaçaram, destruindo-se. 


 
 
“Foi  ali...”,  disse  ele.  “Nunca  me  esquecerá  o  sítio  nem  a  hora..  .  Se  eu  for 
menos infeliz um dia, virei aí recordar a hora de hoje. “ 
Isto  passara-se  a  vinte  e  oito  de  Junho,  justamente  na  véspera  do  arraial  de 
Miragaia. 
Impressionado  pela  coincidência  da  meditação  com  o  encontro  de  Augusta, 
Amaral, supersticioso como aqueles que veem além do que é palpável, atribuiu 
a influxo providencial o mero acaso dessa costureira, que chorava, abraçada ao 
cadáver  da  sua  mãe.  Sem  o  precedente  do  Candal,  Guilherme  não  seria  tão 
acessível à formosura real, e ao idealismo romanesco de Augusta. 
Amando-a, e tentando-a, julgou fácil convencê-la. Fantasiou, como já vimos, o 
que  há  de  melhor  na  vida,  o  amor  verdadeiro,  o  amor  sem  emboscadas,  a 
perfeição do amor. Não sabia ele que além da perfeição está o fastio: não lera 
esta  verdade  eterna  proferida  por  uma  mulher:  “O  amor  só  vive  pelo 
sofrimento; cessa com a felicidade; porque o amor feliz é a perfeição dos mais 
belos sonhos, e tudo que é perfeito, ou aperfeiçoado, toca o seu fim.” 
O  leitor,  assim  elucidado,  explica  a  existência  de  Augusta  no  Candal,  se  me 
dispensa de lhe dizer que foi aí transportada numa sege, dois dias depois que a 
Sra. Ana da Rua dos Arménios a vira sair e não voltar. 
A casa em que ela vive é a que mais perto alveja de Guilherme, na tarde das 
suas  tristezas  cismadoras.  É  uma  bonita  casa.  Não  alardeio  cópia  de 


 
 
conhecimentos em alvenaria; deixo o sestro das descrições arquitetónicas aos 
que se contentam com prender a admiração de algum mestre de obras. 
Sei  que  era,  e  é,  muito  vistosa  a  casa,  com  as  suas  quatro  janelas  de 
transparentes azuis e escarlates, com as suas cornijas pintadas de azul-celeste, 
as  portas  azuis  também,  o  pátio  não  espaçoso,  mas  copado  de  acácias,  de 
mimosas  e  amoreiras,  que  o  assombram,  debruçando-se  sobre  os  muros  da 
quinta, que circuita o pequeno edifício. No jardim há a miniatura da floresta, a 
frescura  dos  caramanchões,  a  álea  dos  loureiros  antiquíssimos,  as  japoneiras 
com  as  últimas  camélias,  os  rainúnculos,  as  pompónias,  a  rosa  de  todas  as 
cores,  o  mirro,  a  tulipa:  variado  matiz  do  branco,  que  diz  candura;  do 
escarlate,  que  diz  paixão;  do  azul,  que  diz  fidelidade;  do  amarelo,  que  diz 
glória; do verde, que diz esperança. 
E todas as flores falavam assim ao coração de Guilherme, quando, atarefado 
com  a  realização  das  suas  esperanças,  dava  ordens  sobre  ordens  para  que  a 
casa se mobilasse do mais elegante, e do mais rico. O dinheiro é milagroso, no 
nosso  tempo,  como  a  vara  de  Moisés  em  tempos  melhores.  A  casa  foi 
magicamente alcatifada, cortinada, mobilada, perfumada... era uma azáfama de 
homens,  rapazes  e  mulheres,  que a  impaciência de  Guilherme  julgava  ativos 
como ostras! 
Em dois dias formara o Éden o provinciano, que mostrou um gosto superior 
ao  que  devia  esperar-se.  Entrou  a  Eva,  e  com  ela  o  inseparável  Adão,  sem 


 
 
lesão de costela, nem receios de ser “mistificado” por alguma cobra das selvas 
vizinhas, descendente de outra que Milton fez falar melhor que um deputado 
dos nossos. 
Augusta  já  não parece  a  mesma.  Lucrou muito  com a  mudança.  Um  pouco 
avelada  das  vivas  cores  do  rosto,  isso  sim;  mas,  por  isso  mesmo,  mais 
interessante. Vão-lhe bem os olhos pisados, e a morbidez do olhar. O vestido 
de lustrina preta, que lhe cai em folhos sobre o verniz do sapato, não parece 
vestido em tal corpo pela primeira vez. Ana, elegância, donaire, flexibilidade, 
tudo isto, ou lho ensinou a arte, ou viera da natureza, para quando o acaso lho 
prosperasse.  Como  ela  veste  uma  luva  da  cor  do  leite,  menos  alva  que  o 
antebraço,  comprimido  em  pulseira,  que  lhe  talham  relevos  de  graciosas 
roscas! Nem mais garbosa uma andaluza lançaria dos ombros a mantilha! Cai 
fatigada sobre uma cadeira de estofos, com a graça imperial de uma duquesa, 
extenuada de galopar no rasto de uma lebre! Como é que se faz tanto de uma 
costureira em quarenta e oito horas! 
A omnipotência do instinto: não conhecemos outra resposta. 
Achais  fútil  a  razão?  Tendes  olhos  e  não  vedes.  Ide  aos  salões.  Se  não 
conheceis os modelos da elegância, informai-vos. Lá achareis fenómenos mais 
curiosos  que  o  de  Augusta.  A  mão  que,  há  poucos  anos,  agitava  um  abano 
diante  de  uma  fornalha,  vê-la-eis  agitar  um  leque,  abri-lo  e  fechá-lo, 


 
 
comprometê-lo  num  olhar  travesso  e  num  sorrir  malicioso...  enfim,  “são 
coisas deste mundo”, como dizia a Sra. Ana do Moiro. 
Agora,  devemos  ouvi-la.  Seria  mais  pasmoso  ainda  que  a  sua  expressão 
mudasse  na  razão  direta  do  apuramento  das  formas!  Faltava-nos  ver  esse 
prodígio filológico. 
— 
Gostas da tua casa, Augusta? — perguntou Guilherme. 
— 
Da minha, ou da nossa? — corrigiu ela com meiguice. 
— 
Da nossa... 
— 
Gosto muito... Não sei para que é tanta riqueza! 
— 
Para ti. 
— 
Para mim? Eu vivo bem com pouco... O que eu quero é o teu amor, e 
mais nada. 
— 
O meu amor é tudo que vês... Menti-te? 
— 
Não... perdoa-me.  
— 
Já me pedes perdão?! 
— 
Hei de pedir-to sempre, Guilherme... 
— 
Mas tu estás triste!... 
— 
Não se chora de alegria? 


 
 
— 
Como tu és linda! Vê-te àquele espelho... 
— 
Ora!... Não brinques comigo... Eu sou linda somente aos teus olhos... 
Quem o feio ama, bonito lhe parece... 
— 
Esse anexim não é do bom tom; não o tornes a dizer. 
— 
Que é anexim? 
E um dito do povo... Tu já não és povo. 
— 
Pois emenda todas as tolices que eu disser, sim? 
— 
Amanhã  de  manhã  tens  aqui  um  mestre  de  primeiras  letras;  de  tarde 
vem outro de piano: quero que estudes muito, sim? 
— 
Todo o tempo que tu quiseres. 
— 
Se em seis meses souberes escrever, dou-te dez mil beijos... 
— 
Está dito... dez mil beijos, e um já por conta... 
— 
Dois,  três,  quatro...  fico-te  devendo,  no  caso  de  não  faltares  ao 
contrato,  nove  mil  novecentos  e  noventa  e  seis  beijos...  Depois,  hás  de 
aprender a falar francês; depois, italiano; e, se tiveres boa voz, hás de ser uma 
perfeita cantora. 
— 
E terei eu habilidade para aprender tanta coisa? 


 
 
— 
Tens. Tu não sabes o que és. Há três dias que vives comigo: és outra 
mulher.  Eras  um  pérola  perdida.  Em  seis  meses  aparecerás  na  sociedade,  e 
rirás da ignorância de muitas mulheres, que lá passam por espirituosas. 
— 
Pois tu queres tirar-me daqui? 
— 
Não; mas quero que te vejam, porque tenho orgulho de ser feliz... 
— 
E eu não queria que ninguém me visse. 
— 
E eu não queria que “alguém” me visse... “alguém”, e não “ninguém...“ 
— 
Não  torno  a  dizer  assim,  Guilherme.  Não  deixes  passar  nenhuma... 
“nenhuma” não, alguma asneira... 
— 
A palavra “asneira” não é bonito em boca de senhora; é melhor dizer: 
“erro”... 
— 
Bonito! Assim é que eu gosto... Tens muita paciência em me ensinar... 
E que eu quero fazer de ti a primeira entre todas. Hás de sê-la. O último amor 
que desampara o homem é o amor combinado com o orgulho. Quero estar 
prevenido para me alimentar desse, quando os outros me faltarem... 
Augusta não o entendera. Não importa. A ideia era um pouco confusa. Acha-
se  mais  inteligível  na  ampliação  de  Madame  de  Girardin.—  “Ama-se  com 
todos  os  amores:  amor  de  natureza,  amor  de  coração,  amor  de  orgulho...  é 


 
 
preciso não esquecer este último... Amar com orgulho, ter vaidade do que se 
ama, é apenas um luxo, mas é um luxo que muito bem parece... “ 


 
 
CAPÍTULO XII 
 
— 
Tem  tido  notícias  do  seu  amigo  Amaral?  —  perguntou  D.  Cecília  ao 
jornalista, na praia dos Ingleses, em S. João da Foz — Visitou-o?! Eu pensei 
que ele não deixava ver a ninguém a romântica costureira. 
— 
Segue-se que o meu amigo deposita nela uma ilimitada confiança. 
É bonita, como se diz? Não posso dizer-lhe que é bonita, porque este adjetivo 
anda por aí em concordância com muitos substantivos, que o não merecem. É 
mais  que  bonita.  A  imaginação  não  associa  um  composto  de  feições  assim! 
Rafael dava um traço negro sobre a cabeça de todas as suas madonas, se visse 
Augusta. 
— 
Sim?! Ora vejam!... É espirituosa?... 
— 
Isso é outra coisa: o talento é a arte que a desenvolve; a formosura é um 
dom  natural.  Não  tem  tempo  ainda  de  ser  espirituosa;  mas  será,  com  dois 
anos  de  estudo,  um  prodígio.  Há  três  meses  que  vive  com  Guilherme,  e 
escreve,  e  lê  com  admirável  correção.  Não  conhece  a  música;  mas  inventa 
harmonias  ao  plano.  Adivinha  tudo.  Conversa  sem  pretensão  naquilo  que 
sabe. Os ares são de uma perfeita senhora, afeita desde criança à convivência 
com  as  ilustrações,  e  ao  estudo  dos  bons  modelos  na  arte  de  prender  os 


 
 
espíritos.  A  gente  esquece-se  de  que  esta  mulher  foi  uma  costureira  de 
suspensórios, três meses antes. 
— 
Faz-me  rir  o  seu  entusiasmo!  Os  poetas  têm  coisas!  Uma  costureira 
assim era capaz de fazer a sua felicidade, não era? 
— 
Não, minha senhora. 
— 
Não?!...  Excentricidade!  Que  mais  ambiciona?  Os  amores  de  uma 
costureira  aqueceram  o  vácuo  glacial  do  seu  amigo,  que  de  certo  era  mais 
difícil de contentar que a vossa senhoria. 
— 
Mais  difícil,  não...  Eu  tenho-me  contentado  com  bem  menos...  Vossa 
excelência não ignora que eu vivi muito tempo palpitando na esperança do seu 
amor... 
— 
Não  sei  a  que  vem  a  reflexão...  Não  se  fala  de  mim...  O  que  devo 
observar-lhe  é  que  os  instintos  do  senhor  Guilherme  do  Amaral  são  bem 
rasteiros!... Desceu muito da sua posição, abismou-se na lama. Uma senhora 
terá repugnância em estender-lhe a mão... Dava-se tanta importância!... Vejam 
no que deu todo aquele orgulho!... Inacessível a tanta gente boa, e tão fácil à 
sedução de uma costureira. 
— 
Inacessível, não, minha estimável senhora dona Cecília. Guilherme era 
acessível a toda a tentação: deixava-se ir ao convite dos olhos provocadores da 
“gente boa”. E, pelo conhecimento que tenho do meu amigo, protesto contra 


 
 
a calúnia. Amaral desempenhou, como cavalheiro que era, lealmente todos os 
encargos  da  boa  sociedade  com  a  boa  gente.  se  a  vossa  excelência  não  foi, 
atendida na sua concorrência ao mercado... 
— 
Que diz?! 
— 
Digo  que  Amaral  a  não  atendeu,  porque  tinha  virtudes  do  século 
catorze, misturadas à corrupção do dezanove. Não obstante... (não se agonie, 
minha senhora; estamos conversando na mais santa intimidade), não obstante, 
o meu amigo nem sempre resistiu às numerosas tentações. Adormeceu, como 
Homero, algumas vezes; teve fraquezas ingénitas à degenerada raça humana, 
que  não  parece  ser  a única  degenerada, porque  todas as outras  raças  fazem, 
com mais escândalo, o que a nossa tem a virtude de acautelar. Devemos ao 
bom  senso das  senhoras as precauções,  que  nos  poupam  a  uma  degradação 
completa. 
— 
Não  entendo...  Vossa  senhoria  está  desmanchando  em  prosa 
ininteligível uma poesia libertina... Quer dizer que a costureira do seu amigo 
vale  mais  que  as  pessoas  delicadas,  que  receberam  mais  ou  menos 
cordialmente o senhor Amaral? 
— 
Entendo que sim... 
— 
A grosseria não parece sua. E minha, e não vendo a originalidade. Dê-
me  licença,  que  vou  tomar  o  meu  banho.  já  me  chamou  três  vezes  a 
banheira... 


 
 
— 
Tenha  uma  pouca  de  crueldade  com  a  sua  banheira,  senhora  dona 
Cecília;  mas,  para  satisfação  de  ambos  nós,  conceda  que  eu  dê  uma  sucinta 
explicação  da  minha  grosseria.  A  costureira  vale  mais  que  as  cordialíssimas 
admiradoras  de  Guilherme,  porque  a  costureira  não  tinha  uma  cordialidade 
elástica, pronta a estender-se na mão de cada qual que puxava por ela. Amou 
um homem único, e esse homem queria um amor único, um coração virgem, 
um rosto que exprimisse, no fogo do rubor, a primeira emoção. A costureira... 
não  sonhou  tipos,  nem  sabia  que  os  tipos  sonhados  desfilavam  depois, 
vestidos  de  fraque  e  bota  de  polimento,  diante  da  fantástica  sonhadora, 
sempre  à  espera  do  último.  A  costureira  era  uma  mulher  simples,  com  a 
cabeça, e o coração, e o estômago no seu lugar. Pensa, ama e come como a 
“boa  gente”;  mas  a  boa  gente  não  pensa  nem  ama  como  ela.  Quem  puder 
entender que entenda. 
— 
E  um  caos  a  sua  explicação!  Não  tive  a  glória  de  entendê-lo.  Pois, 
então,  simplifiquemos:  vossa  excelência  não  vale  a  costureira,  ainda  mesmo 
com o suplemento das minhas poesias, que são cento e quarenta e quatro. 
Cecília, vermelha de cólera, voltou as costas ao jornalista, que, sentado numa 
pequena  cadeira  de  pinho,  ficou  esboçando  na  areia  uma  cabeça  com  um 
enorme  nariz.  Depois  foi  pedir  fogo  ao  marido  de  Cecília  para  acender  um 
charuto.  Voltou  a  sentar-se,  e  fez  profundas  considerações  sociais,  que 
publicou no folhetim do dia imediato, com grave desfalque da sua já abalada 
reputação de homem honesto. 


 
 
Ainda assim, era ele o único homem recebido em casa de Guilherme. 
A primeira vez que viu e ouviu Augusta, abraçou o amigo, exclamando com 
sincero  entusiasmo:  “Tinhas  razão!  Renego  das  minhas  teorias.  A  felicidade 
duradoira é possível com esta mulher. Deves amar muito a tua obra. A alma 
que  ela  tem  é  tua:  deste-lha.  Enamoras-te, cada  vez  mais, de  um  novo dote 
que lhe dás. Pigmalião amava a sua estátua; tu amas a mulher que estremece 
debaixo  da  tua  mão  a  cada  retoque  do  teu  génio  criador.  És  feliz!  És  o 
segundo  Jeová  desta  criação.  A  natureza  deu-lhe  o  primor  do  corpo;  tu,  o 
primor da alma. Quando esta mulher te enjoar, suicida-te, porque não há mais 
nada para ti. 
Estas palavras valeram muito à reputação do poeta. Desde este dia, Amaral foi 
seu  amigo, amigo  sem  reserva,  sem desconfiança,  Dois  grandes  sentimentos 
simultâneos: o amor de Augusta, a amizade do literato; pode ir mais longe a 
ambição do homem rico, aos vinte e dois anos? 
Amaral não tinha outra. Todo absorvido na sua obra, como dissera o poeta, 
nada  o  distraía  da  atmosfera  de  rosas  em  que  o  sol  de  todas  as  manhãs  o 
saudava com os sorrisos benéficos de Deus. De mês a mês, vinha ao Porto 
receber a avultada mesada, que se arbitrara. Não visitava ninguém. Fugia para 
a sua Augusta, que vinha sempre esperá-lo e abraçá-lo com frenesis de alegria, 
no alto de Vila Nova. 


 
 
O jornalista concorria duas noites de cada semana, e respirava ali — dizia ele 
—  o  ar  balsâmico  da  verdadeira  poesia.  Falando  coisas  de  literatura  com 
Guilherme, Augusta ouvia-os calada, mas dizia, nos olhos penetrantes, que os 
entendia. Em coisas do coração, Amaral escolhia assuntos do último livro lido 
por Augusta, e ele interpretara nos lugares obscuros, ou fingia ignorar nos que 
deviam  ser  mistério  para  uma  leitora  ignorante.  Augusta,  nessas  análises, 
convidada  por  Amaral,  falava  pouco  e  com  timidez;  mas  ouvi-la  momentos 
era  apurar  o  prazer  de  ouvi-la  sempre.  Os  gabos  animadores  do  jornalista, 
recebia-os  corando,  e  os  elogios  secretos  do  amante,  agradecia-os  com 
lágrimas. 
Em tardes serenas passeavam a cavalo. Augusta era sempre bela; mas sobre o 
selim, instigando com a espora o cavalo a graciosos corcovos, era inimitável. 
Amaral revia-se na “sua obra”, com orgulho de artista, e ternura de amante. 
Como  transparecia  radioso  o  rosto  dela  pelo  amplo  véu  azul-ferrete!  Que 
gentileza,  se  o  cavalo  galopava,  e  o  véu,  solto  ao  vento,  deixava  ver  o  seu 
sorriso de confiança e alegria! 
Rossi-Caccia cantava então no Porto. Amaral queria dar uma impressão nova 
a Augusta, que nem de teatro lírico ouvira falar na Rua dos Arinénios. 
— 
Iremos amanhã ao teatro — disse ele. 
— 
Iremos... 
— 
Não recebes com prazer esta resolução? 


 
 
— 
Recebo com prazer todas as tuas vontades, Guilherme. 
— 
Vi-te empalidecer agora... 
— 
Não é nada... 
— 
Dou-te a escolher: queres ir, ou não ir? 
— 
Não ir. 
— 
E dás-me a razão? 
— 
Dou ... Em parte nenhuma posso ser mais feliz do que sou aqui ... Para 
que hei de eu ver coisas novas, se vejo tudo o que desejo? 
— 
Mas as impressões novas não tolhem o gozo das antigas.,. 
— 
A tua vontade, Guilherme. 
— 
Eu  desejava  que  ouvisses  uma  das  primeiras  cantoras  da  Europa... 
Desejo eu mesmo ouvi-la; mas não sem ti. 
— 
Iremos... Que tempo se está no teatro?... Três horas? 
— 
Pouco mais ou menos. — São três horas, que não passarão tão depressa 
como as nossas daqui... Não importa, vamos ao teatro... 
Foram. Apenas se ouviu correr a chave de um camarote, estando o pano em 
cima,  convergiram  as  atenções  para  a  segunda  ordem.  Augusta  foi  saudada 


 
 
com  uma bateria  de binóculos.  Viram  aparecer  uma  bela  mulher,  vestida de 
preto, sozinha, sentar-se, e não mais tirar os olhos do palco. 
— 
Quem  é?  —  perguntava  D.  Cecília  a  D.  Margarida,  sua  vizinha  de 
camarote. (Tinham-se reconciliado no jantar de despedida de Guilherme.) 
— 
Não sei... será da província... 
— 
É vistosa! 
— 
Daqui parece-o. 
— 
Eu só lhe vejo o perfil. 
— 
Também eu. Pela imobilidade parece parvalheira. 
— 
E todos os óculos da plateia voltados para lá!... Que espanto! 
— 
Será ela ... 
— 
O quê? ... 
— 
Alguma ... 
— 
Nada... não vinha ao teatro italiano para a segunda ordem... 
— 
Mas  sozinha...  Estas  reflexões  de  uma  adorável  “inocência”  foram 
cortadas pela aparição de Guilherme do Amaral. O ciciar dos camarotes fez o 
contralto do rumor, em basso profundo, que correu na plateia. O provinciano, 
que  adquirira  nome  de  excêntrico,  fixava  o  óculo  na  atriz,  e  voltava  para 


 
 
Augusta  o  rosto  afetuoso  da  amabilidade  de  um  namorado.  Camarotes  e 
plateia eram-lhe indiferentes. Nem por lá passeou um desses olhares que não 
dizem nada. 
— 
Não  admiras  o  descaramento,  Cecília?!  —  disse  a  filha  do  barão  da 
Carvalhosa. 
— 
É incrível!... Está toda a gente espantada!... 
— 
Será da beleza da costureira... 
— 
Qual beleza! Ela não é nem metade do que diziam... 
— 
E muito amarela. 
— 
Amarela,  não,  é  pálida;  mas  aquele  penteado!...  Quem  usa  agora  de 
cachos!? 
— 
E não a achas tão estreita dos ombros? 
— 
Acho... o que lhe faz o seio é o algodão... 
— 
A mão é grande, 
— 
Está feito!... Isso não tem ela mau... mas a maneira de pegar no óculo 
não desmente a antiga costureira de suspensórios... 
— 
Mas olha os tolos, que não tiram de lá a vista!... 
— 
Hão de dizer bonitas coisas na plateia... 


 
 
— 
É uma falta de respeito à opinião pública... 
— 
Uma imoralidade. 
— 
Um caso novo... 
— 
Está desacreditado o tal leão de costureiras. 
— 
É  digno  dela...  Descera  o  pano,  e  abriu-se  a  porta  do  camarote  de 
Guilherme.  Era  o  jornalista,  a  quem  o  amigo  cedeu  o  lugar.  Nada  mais 
urbano, mais reverencioso que a postura do poeta conversando com Augusta. 
— 
Está satisfeita, minha senhora? 
— 
Estou bem. 
— 
Gostou da Rossi-Caccia? 
— 
Não  posso  compará-la  porque  é  esta  a  primeira  vez  que  entro  num 
teatro; mas o juízo de Guilherme é muito favorável à cantora. 
— 
E o seu coração precisa de juízos alheios? 
— 
A julgá-la pelo coração, não julgo nada. Guilherme disse-me o enredo 
da história, e sensibilizou-me. A música não pode tanto como as palavras dele. 
Eu  li  não  sei  aonde  que  o  amor  da  música  era  um  sinal  dos  espíritos 
cultivados. Eu não posso dar esse sinal. 
— 
Até  o  excesso  da  modéstia  lhe  fica  bem...  É  de  crer  que  a  vossa 
excelência continue a frequentar o teatro. 


 
 
— 
Por vontade de Guilherme. 
— 
E por sua, não? 
— 
Não, senhor. Tenho saudades do nosso gabinete. Este barulho atordoa-
me... Tanta gente faz-me uma impressão dolorosa. 
— 
Já viu os camarotes? 
— 
Ainda não,  nem  me  interessam.  São senhoras  que  me  não  conhecem, 
nem eu conheço. 
— 
E tu, Guilherme, conheces estas senhoras?... 
— 
Não  sei:  não  as  vi  ainda.  Dá-me  esse  óculo.  Amaral,  de  um  relance 
fugitivo, conheceu as principais famílias. Encontrou as lentes voltadas para o 
seu óculo, e sorriu-se para o poeta, que o entendeu às mil maravilhas. 
Augusta  reparou  no  sorriso,  e  corou.  Compreendê-lo-ia?  Finda  a  ópera,  o 
jornalista deu o braço a Augusta. Amaral mandara chegar a sege. A turba da 
espionagem  importuna,  que  se  acotovela  ao  pórtico,  abriu  alas  para  a 
passagem  de  uma  mulher,  cuja  beleza  produzia  a  impressão  do  espanto,  do 
respeito, da ternura, e até do susto. Há mulheres que fazem isto. 
Na  porta  travessa,  onde  tocam  as  carruagens,  estavam  grupos  de  senhoras, 
que  Amaral  cortejou  ligeiramente,  quando  subia  à  carruagem  para  tirar  uma 
banqueta de veludo-carmesim, onde Augusta poisou o pé esquerdo na garbosa 
subida. O jornalista dera-lhe a mão, erguendo bem sonora a voz: 


 
 
— 
Tenha vossa excelência uma feliz noite. Adeus, Amaral... até amanhã. 
Dentro da carruagem, Augusta apertou ao coração Guilherme, murmurando 
em tom de súplica: 
— 
Seja esta a primeira e última vinda ao teatro, sim, meu anjo? 
— 
Porquê, filha?! 
— 
São  as  primeiras  horas  de  tristeza  que  sofro  na  tua  companhia. 
Conheço que vivo só para ti, e nada do que me rodeia me pertence. Se amas o 
teatro,  vem  tu...  não  te  prives  de  algum  prazer;  e,  quando  voltares  a  casa, 
encontrarás nos meus braços amor e contentamento. 
— 
Mas que impressão foi essa?! Ofendeu-te o olhar de alguém?... 
— 
Não sei se alguém me olhou... eu não vi ninguém; sei que o sangue me 
faltava no pulso, e me subia em ondas à cabeça. Eu estive para pedir-te, no 
segundo  acto,  que  nos  retirássemos.  Estava  doente,  sentia  um  desgosto 
profundo, uma vontade de chorar, que não sei como ta explique... uma coisa 
semelhante ao pressentimento de grande infortúnio para ti... para mim, não... 
— 
Efeitos do nosso último romance... 
— 
Não, meu querido Guilherme, os romances não me dão nem me tiram 
a tranquilidade... 


 
 
Apenas apearam na sua silenciosa casinha do Candal, Augusta correu ao seu 
gabinete de leitura, lançou-se sobre uma cadeira, e exclamou: 
— 
Ai!... Que desafogo!... Sou outra vez feliz!... Achei a vida!... 
Guilherme, com um beijo, confirmou-lhe a restauração da perdida felicidade. 


 
 
CAPÍTULO XIII 
 
Augusta  olvidaria  de  todo  o  fabricante?  Respondendo  a  todas  as  perguntas 
que me fazem, não respondo a esta. É certo que ela nunca falou em Francisco, 
e Guilherme meditava tudo o que dizia para não despertar lembranças da Rua 
dos Arménios. 
O que posso afirmar é que o fabricante não olvidou Augusta. 
Já sabem as baldadas diligências que ele empregara, farejando o esconderijo da 
prima.  Não  era  simples  curiosidade  de  estranho,  ou  zelo  de  parente:  era  o 
amor,  capaz  de  uma  loucura,  e  o  ciúme,  capaz de  uma  vingança,  como  elas 
costumam ser nesta espécie de indivíduos. 
Eram  passados  oito  meses  de  inúteis  averiguações,  quando  Francisco 
lobrigou, na Rua das Flores, Guilherme do Amara]. O primeiro abalo que este 
encontro  lhe  fez  foi  um  ímpeto  de  raiva,  que,  em  lugar  deserto,  importaria 
uma boa facada. Depois, a reflexão reagiu, e o artista, coberto com a esquina 
da Ponte Nova, esperou que Amaral saísse de uma ourivesaria, para expiar-lhe 
os passos. 
Não esperou muito segundos. Amaral saíra, e o fabricante seguira-o de longe, 
até vê-lo entrar numa sege de praça no Largo de S. Domingos. A sege trotou 
para Vila Nova, e o fatigado artista, além da ponte, já a não viu voltar para a 


 
 
Rua Direita (direita como a linha reta de um ébrio). Recuperadas as forças, foi 
muito do seu vagar seguindo o trilho dos cavalos; mas as lajes da calçada não 
denunciavam nada. 
Perguntando  a  um  barqueiro  se  vira  ali  passar  uma  sege,  soube  tudo  que 
desejava. A sege, disse o barqueiro, levava um fidalgo que morava no Candal, 
e era patrão de uma sua filha, criada de cozinha. 
O fabricante disfarçou como pôde a sua curiosidade, e seguiu o caminho do 
Candal.  Perguntou  a  um  lavrador  onde  morava  um  fidalgo  chamado 
Guilherme,  viu  a  casa,  rodeou-a  por  longe,  e  voltou  para  o  Porto.  Se  se 
demorasse até noite, poderia ver passar para o Porto, na mesma sege, Augusta 
e Guilherme, 
Nessa  noite  o  fabricante  não  dormiu.  Era  chegada  a  hora  de  uma  vingança 
oito  meses  meditada.  Na  incerteza  de  sair-se  bem  da  tentativa,  Francisco 
entendeu que devia adiá-la para a noite seguinte, a fim de confessar-se, com a 
louvável esperança de entrar puro no Céu, dado o caso infausto de ser morto, 
matando.  (Este  entendia  o  sacramento  da  penitência  à  maneira  dos  que  se 
confessam para minorar as penas do suicídio. Não são estes, contudo, os que 
molestam mais a religião, nem os padres que os absolvem. O que faz mal são 
os  romances  e  as  bulas.)  No  dia  seguinte,  Francisco  não  foi  à  fábrica,  e  fez 
saber  ao  patrão  que  se  despedia  por  algum  tempo.  O  patrão,  seu  amigo  e 
protetor, procurou-o, e encontrou-o chorando. 


 
 
— 
Que tens, Francisco? Porque te despedes da minha casa? 
— 
Não há remédio, patrão... Cada qual vem a este mundo com a sua sina. 
— 
Mas  que  tens,  homem?  Eu,  já  há  muito  que  ando  desconfiado  de  ti! 
Dantes eras um rapaz alegre, contente sempre, e, há meses a esta parte, vejo-te 
assim a modo de cismático! Que diabo tens? 
— 
São os meus pecados, patrão. 
— 
Diz lá, homem; tudo se remedeia, quando há amigos para as ocasiões. 
— 
O meu mal não tem remédio... Assim como assim, vou-lhe contar tudo. 
Eu não lhe disse, há mais de três anos, que queria casar com uma rapariga, que 
era minha prima? 
— 
Disseste, e depois nunca mais falaste nisso. 
— 
É porque ela andou a empatar o casamento, até que, haverá oito meses, 
fugiu de casa com um casaca, e está com ele. 
— 
E agora que lhe queres? 
— 
Quero dar cabo dele.  
— 
És  um  asno,  homem!  Que  te  importa  a,  ti  a  rapariga!  Faltam  ele 
mulheres! 
— 
Não há nenhuma como ela; por mais que eu queira não a posso varrer 
da  lembrança;  quando  estou  a  comer,  e  me  lembro  dela,  fica-me  o  bocado 


 
 
arrancado na garganta; tenho passado noites em claro; aborrece-me tudo; não 
sei como trabalho; nem me presta a féria... Tinha-lhe um amor de raiz, mesmo 
amor cá de dentro. Assim me Deus salve, que não lhe tenho a ela raiva! 
— 
E ele que culpa tem? Um cão, quando lhe botam um osso, aboca-o... 
— 
Não diga isso, patrão, e perdoará!... A ele é que eu tenho alma de lhe 
trincar os fígados... Foi ele que lhe entrou pela porta dentro com três moedas, 
como  quem  vai  comprar  urna  vaca.  Estes  homens  ricos  que  se  servem  do 
dinheiro para fazer a desgraça da gente pobre merecem um tiro. Ela estava, 
mansa  e  queda,  na  sua  casa;  para  que  veio  ele  roubar-ma?  Porque  tinha 
dinheiro,  e  eu  precisava  ganhá-lo  para  comer.  Uma  rapariguinha  não  tem 
culpa de se deixar cair na rede; eles é que são os malvados, que não têm pena 
de botar a perder uma mulher... 
— 
E tu casavas corri ela agora? 
— 
O que seria, isso é que eu não sei, patrão... Tenho-lhe uma paixão de 
morrer.  Está-me  a  parecer  que  casava  com  ela,  se  pudesse  dar  cabo  do  tal 
tratante! 
— 
Pois  então,  rapaz,  digo-te  que  não  tens  vergonha  nenhuma!...  Pois  tu 
casavas com urna rapariga que andou por lá a correr fadário?! 
— 
Deixe-me, patrão... Eu já não regulo bem da cabeça... Aquela mulher dá 
comigo doido... A minha vontade era meter esta faca no pescoço... 


 
 
— 
Está quieto, rapaz... Não sejas asno... Anda daí comigo. 
— 
Para onde me leva? 
— 
Vamos à fábrica... lá falaremos. Tenho lá dois teares de pano, que só tu 
podes governar. De hoje em diante ficas sendo meu contramestre, ganhando 
oito  tostões  por  dia.  Amanhã,  se  quiseres  casar  com  a  filha  do  Manuel  da 
Severa, ou com a Felizarda do Cabeço de Cima, não te dizem que não. Podes-
te  estabelecer,  quando  quiseres,  que  eu  dou-te  abono  e  dinheiro  para  meia 
dúzia de teares... Anda daí, Francisco... 
— 
Não vou. Assim como assim, a minha sorte foi tirada de baralha. Não 
me importa ser rico, nem pobre... Há de ir por diante a minha ideia... 
— 
Qual ideia? 
— 
Hei de esfregar aquele pandilha que me roubou a minha prima. 
— 
E se eu te prender como regedor? Francisco abriu os olhos raiados de 
lágrimas e sangue para a fisionomia severa do patrão. 
— 
Pois vossemecê tinha alma de me prender?! 
— 
Olá,  se  tenho!  Pois  eu  não  te  hei  de  livrar  de  fazeres  uma  asneira?! 
Queres  ir acabar  a  uma  forca?  Pensas  que  se  mata  um  homem como  quem 
mata um cão?! E se ele primeiro te meter uma bala na cabeça? Ora não sejas 
cabeçudo! Anda comigo, e já! 


 
 
Francisco saiu maquinalmente; entrou na fábrica, sentou-se ao tear, trabalhou 
meia hora; mas o patrão, reparando na desordem em que ele trazia os fios das 
canelas,  mandou-o  sair  e  andou  por  lá  explicando-lhe  as  obrigações  de 
contramestre. 
Ao fim da tarde, perdeu-o de vista um instante. Procurou-o; mas não houve 
encontrá-lo. 
Francisco — dissera uni operário — descera, com a clavina do patrão, para as 
bandas do Oiro, e passara para além do rio num barco. 
O  jornalista,  conforme  prometera  a  Guilherme  na  saída  do  teatro,  foi  ao 
Candal passar a noite. 
Quando parou o cavalo em frente da casa, ouviu o rumor de um vulto, que a 
escuridão não deixava ver entre uma toiça de carvalhos. 
Afirmou-se, e não só descobriu a massa escura do quer que era, que se movia, 
mas ouviu o estalar de um perro de arma de fogo. 
Não disposto a morrer sem explicação prévia, o poeta exclamou: 
— 
Olé! Veja lá que não se engane! Se quer conhecer-me, aproxime-se. 
— 
Não é preciso — disse o fabricante —, pode passar. 
O jornalista bateu no portão: um criado recebeu o cavalo: e Augusta, abrindo 
urna janela, disse para fôra: 


 
 
— 
És tu? 
— 
Pela  pergunta  —  disse  o  jornalista  —  vejo  que  Amara]  não  está  em 
casa. 
— 
Ah! É vossa senhoria? Queira subir. 
— 
É admirável!... Guilherme a estas horas por fôra! — disse, já na sala, o 
jornalista,  um  pouco  enfiado,  como  quem  não  está  afeito  ao  estalido  dos 
ferros. 
— 
Recebeu uma carta da província — disse Augusta — pedindo-lhe uma 
procuração  por  causa  de  uma  demanda,  e  quis  que  ela  fosse  no  correio  de 
amanhã.  Por  enquanto  não  me  dá  grande  preocupação,  porque  saiu  ao 
escurecer. 
— 
Eu sinto muito dar-lhe preocupação com esta saída, minha senhora... 
— 
Que é? 
— 
Decara desta casa está um homem, que aperrou uma arma, quando eu 
parei como lhe fiz saber que não seria eu a pessoa esperada, o homem disse-
me que podia passar. Receio que a espera seja para Guilherme. 
— 
Santo Deus! Que hei de eu fazer?! 
— 
Mandar um aviso a Guilherme. 
— 
Mas quem pode ser esse homem?! Guilherme não tem inimigos... 


 
 
— 
Quem sabe, minha senhora! Todos os homens distintos têm inimigos... 
— 
E a voz desse homem. 
— 
Pareceu-me  a  voz  de  um  homem  grosseiro,  de  um  assassino 
comprado...  Se  vai  mandar  recado  a  Guilherme,  aconselho-lhe  que  o  criado 
saia pela porta da quinta; não, não vá o assassino tolher-lhe o passo. 
— 
Diz  bem...  Augusta,  trémula  e pálida de  susto,  mandou  o  criado,  cuja 
vontade era espreitar o vulto, do muro da quinta, e mandar-lhe para lá duas 
balas. Augusta não aprovou a lembrança. 
Quando  ela  dava  esta  ordem,  achava-se  presente  o  hortelão,  que  disse  ter 
visto, pouco depois do anoitecer, um homem, de clavina, subir pelo lado de 
Santo  António  de  Val  Piedade.  Era  um  rapaz  de  vinte  e  tantos  anos,  com 
jaqueta e boné, assim a modo de artista — acrescentou ele. 
Augusta  exclamou  um  “Ah!”.  Foi  grito  de  uma  lembrança  súbita.  Terrível, 
como o remorso, devia ser o sentimento, que a fez soltar esse grito! Mais do 
que vergonha e medo, a lividez súbita, que lhe assomou ao rosto, assustou o 
jornalista. 
— 
Que é, senhora dona Augusta? Não há nada a recear. Guilherme entrará 
pela porta travessa, e dará, antes de entrar, providências para que o assassino 
seja preso. 
— 
Vossa senhoria dá-me licença que eu me retire por alguns momentos... 


 
 
— 
Oh!  minha  senhora...  O  que  lhe  peço  é  mais  ânimo...  Tenho  já 
remorsos de assustá-la... 
— 
Não deve tê-los.. . Devo-lhe um favor impagável... Eu volto já... 
Augusta, furtando-se à vista dos criados alvoroçados, desceu ao pátio, abriu o 
portão e foi direita à toiça de carvalhos  caraira. A transição repentina para a 
escuridade  tornava-lhe  mais  tenebrosa  a  noite.  Um  baixo  socalco  da  tapada 
estorvou-lhe o passo, ao sair da estrada: teimou em saltá-lo e caiu. Erguendo-
se, ouviu rumor na folhagem, e destacou da massa escura da selva um vulto, 
que parecia mover-se, recuando. 
— 
Francisco! — murmurou ela. 
O vulto retirava-se, dando-lhe a certeza de que se não enganara. Augusta deu 
alguns passos, repetindo: 
— 
Francisco, meu primo... não me fujas, é Augusta que te chama... 
O fabricante parou, parvo de surpresa, pasmado, como o leitor e eu, menos 
boçais que o fabricante, ficaríamos em semelhante conflito. E Augusta, cheia 
de resolução, foi ao pé dele: 
— 
Porque não me respondes, Francisco? 
— 
Que queres de mim? — disse o fabricante, mais comovido que ela. 
— 
Para que é esta arma? Que vens tu aqui fazer? 


 
 
— 
Venho  mostrar  ao  senhor  Guilherme  que  um  pobre  também  sabe 
vingar-se como se vingam os ricos. 
— 
Vingar-se... de quê? Que mal te fez o senhor Guilherme? Se alguém te 
fez mal, fui eu... 
— 
Tu eras uma rapariga inocente... não soubeste o que fazias... Ele é que 
te botou a perder... 
— 
E que tens tu com a minha perda!? 
— 
Que tenho eu com a tua perda? Sou teu primo, e devo defender-te na 
falta do teu pai. 
— 
Defender-me de quê? 
— 
De estares aí de portas adentro com esse homem, que te  há de atirar 
com dois pontapés qualquer dia para o meio da rua. 
— 
E, se me atirar à rua, eu vou pedir-te alguma esmola? 
— 
Ainda que ma não peças, hei de eu dar-ta, para te não ver andar por aí 
esfarrapada. 
— 
Cala-te! Tu não sabes como eu sou amada por Guilherme... 
— 
Faz ele muito bem; o amor eu lho darei... 
— 
Pois tu pensas que eu consentia que lhe pusesses as mãos? 


 
 
— 
Isso é o que veremos... Se não for hoje, será outro dia... 
— 
Tu  queres  matar-me,  Francisco!  Vens  de  propósito  fazer-me 
desgraçada...  Pensas  que  me  fazes  tua  amiga  praticando  uma  infâmia!  Se 
ferisses Guilherme, eu era capaz de te cravar um punhal no coração. Tenho 
um  primo  assassino!...  Que  vergonha!  Sal  deste  lugar...  De  hoje  em  diante 
aborreço-te como um malvado, que me quis privar do único bem que tenho 
nesta  vida...  Sai  daqui,  indigno,  quando  não  chamo  os  criados,  e  mando-te 
entregar à justiça como um malfeitor, que espera com uma arma um homem 
que nunca lhe fez mal. 
— 
Então  foi  para  isso  que  vieste  cá?  —  atalhou  o  fabricante  com 
mansidão. 
— 
Pois que pensavas? Querias que eu te viesse pedir perdão? De quê? Que 
direito tens sobre mim? Quem te encarregou de zelar a minha honra? Pois tu 
queres comparar-te ao homem que eu amo, miserável! Ousaste vir aqui com 
uma arma para o matar covardemente? Não posso ver nas tuas mãos isto... 
Augusta,  sem  grande  esforço,  arrancara-lhe  da  mão  a  arma,  e  arrojara-a  a 
alguns passos com pasmosa energia. 
O fabricante estacara, imóvel, estátua do idiotismo, diante de tanta coragem, e 
fulminado  pela  torrente  de  epítetos  que  saíam  de  uns  lábios  frementes  de 
raiva. 


 
 
— 
Sai daqui! — prosseguiu ela, empurrando-o. 
— 
Vê lá o que fazes, Augusta! Não me empurres, porque eu não te trato 
mal! 
— 
Não me tratas mal?! Queres matar o meu único amparo, o homem que 
eu adoro de joelhos, o anjo que me dá o Céu nesta vida... e dizes que me não 
tratas mal? 
A  apóstrofe  impetuosa  foi  interrompida  por  passos,  perto,  e  luzes,  que 
vinham de um e doutro extremo da estrada. 
— 
Foge! — exclamou ela. — Foge, que te prendem! 
— 
Deixá-los  prender..  que  me  matem  até..  eu  não  dou  um  passo  para 
fugir... 
— 
Foge! Foge! Francisco!... 
— 
Não  fujo,  já  te  disse.  Ao  clarão  dos  archotes,  vira  Augusta  homens 
armados, e, à frente deles, Guilherme com um par de pistolas aperradas. 
— 
Quem está aqui? — exclamou Amaral. 
— 
Sou eu! — disse Augusta com resolução. 
— 
Tu!... E quem é esse homem? 


 
 
— 
Aproxima-te, e conhecê-lo-ás. Guilherme levou-lhe à cara uma lanterna, 
quando  dois  criados  lhe  lançavam  as  mãos.  Ficou  perplexo,  procurando  a 
explicação nos olhos de Augusta. 
— 
Este homem não trazia uma arma de fogo? 
— 
Trazia — disse o fabricante — atirou-ma para ali esta esta mulher. 
— 
Retirem-se,  e  deixem-nos  —  disse  Amaral  aos  criados,  e  voltando-se 
para o artista: 
— 
Que vinha você fazer aqui com uma arma? 
— 
Guilherme!  —  atalhou  Augusta  com  a  veemência  de  uma  súplica  — 
não perguntes nada, eu te contarei tudo. Deixa-o ir, que ele não torna aqui... 
— 
Isso ainda eu o não disse... — acudiu o fabricante. 
— 
Então que quer? — disse Amaral. 
— 
Não quero nada... 
— 
Quer que o mande sossegar alguns anos numa enxovia? 
— 
Lá isso... como o senhor quiser... 
O jornalista vinha animado do melhor espírito contra o assassino, ignorando 
todos  os  precedentes  da  estranha  aventura.  Guilherme  pediu-lhe  que  se 
retirasse. O poeta retirou, perguntando-se se andava ali paródia da Linda de 
Chamounix. 


 
 
— 
Vá-se  embora,  homem...  —  disse  Amaral.  —  As  suas  balas  não  me 
podem  ferir...  Entenda  que  deve  a  vida  à  sua  prima;  mas  não  lhe  prometo 
poupá-lo se tentar segunda vez esta loucura. Eu vou-lhe buscar a sua arma... 
Aqui a tem... Retire-se... 
O  fabricante  recebeu a  arma.  Amaral,  com as pistolas na  mão, seguia-o  nos 
menores movimentos. A precaução era inútil. Francisco seguiu vagarosamente 
o caminho que trouxera, dizendo: 
— 
Adeus,  Augusta.  Teria  dado cinquenta  passos,  e  ouviu-se a  detonação 
de  um  tiro.  Guilherme  correu  com  Augusta  na  direção  do  fabricante. 
Encontraram-no prostrado, escorrendo sangue. 
— 
Donde lhe atiraram? — perguntou Guilherme. 
— 
De  parte  nenhuma...  Fui  eu  que  me  matei.  Chegaram  os  criados. 
Amaral mandou transportar aquele homem a sua casa, e recebeu nos braços 
Augusta desfalecida. 
O poeta, que também viera, dizia consigo: 
— 
Horrível mistério! Um romance para o futuro!  
O  heroísmo  dramático  do  fabricante  parece  a  paródia  de  algum  feito 
estrondoso,  praticado  por  herói  de  romance.  A  Margarida,  de  Emília  de 
Girardin, tem um conde que se mata assim, pouco mais ou menos. O artista, 


 
 
porém,  se  não  foi  original,  não  sabia,  decerto,  que  plagiava.  No  que  ele  foi 
mais feliz que os suicidas do nosso conhecimento, é que não morreu. 
Transportado a casa de Guilherme, foi observado pelo jornalista, que sabia de 
tudo, inclusivamente de cirurgia. Observou que a bala não ferira a laringe nem 
a  faringe,  nem  as  ramificações  arteriosas  ou  venosas  de  mais  melindre. 
Atravessando  o  músculo  esternoclidomastóideo,  a  bala  saíra  por  debaixo  da 
maxila inferior, sem, por grande fortuna do artista, lhe lesar este importante 
instrumento da mastigação! O facultativo confirmou o prognóstico do poeta, 
e Francisco entrou em curativo. 
Augusta  era  a  sua  enfermeira:  só  ela  entrava  no  seu  quarto.  O  fabricante, 
proibido  de  falar,  encarava  a  sua  prima  com  os  olhos  sempre  rasos  de 
lágrimas.  Às  ligeiras  perguntas  dela  sobre  o  seu  estado,  o  convalescente 
respondia  corri  o  acanhamento  do  pejo,  É  que  o  luxo  do  quarto  que  lhe 
deram,  e  o  luxo  no  trajar  da  prima,  e  as  excelências,  que  ouvia  dar-lhe  no 
quarto próximo, concorria tudo a vexá-lo por ousar apresentar-se como primo 
de  Augusta,  e  rival  do  fidalgo,  senhor  de  toda  aquela  riqueza.  E,  depois,  o 
amor  com  que  a  sua  prima  velava  a  sua  doença,  as  frequentes  visitas  do 
cirurgião,  a  generosidade  dela  em  não  mais  lhe  falar  na  sua  loucura,  a 
importância que lhe davam, a ele, pobre fabricante, em paga de uma intenção 
homicida,  estes  estímulos  não  feriram  debalde  a  sua  gratidão.  Francisco 
esquecia  o  seu  velho  amor,  e  sentia-se  em  dívida  de  respeito  e  amizade  ao 
generoso amante de Augusta, que nunca viera ao seu quarto. 


 
 
Quando, corri vinte dias de curativo, se ergueu do leito, disse-lhe Augusta que 
o  senhor  Guilherme  vinha  falar-lhe.  Francisco  fez-se  vermelho.  Tinha 
vergonha  de  encarar  o  homem  que  lhe  pagara  com  benefícios  a  intenção 
premeditada de matá-lo. 
— 
Senhor Francisco — disse Guilherme com afabilidade —, tenho muito 
prazer com o seu restabelecimento. Não venho repreendê-lo. Vossemecê fez 
o que muita gente faz com melhor inteligência do que a sua para conhecer o 
que são loucuras. Quis mostrar-lhe que a sua prima não é infeliz, nem se faz 
má com a mudança de fortuna. Sei que lhe disse a ela que tinha vontade de 
sair desta casa logo que tivesse forças para trabalhar. Eu venho dizer-lhe que 
pode aqui viver como se esta casa fosse sua. 
— 
Muito obrigado,  senhor  Guilherme;  eu não  tenho  serventia  nenhuma, 
por isso tanto faz dizer como não dizer que estou pronto no seu serviço. Sou 
um rapaz criado no trabalho, tenho o meu ofício, e para lá torno. 
— 
Mas,  se  vossemecê  quiser  habilitar-se  para  ser  mais  que  um  simples 
operário,  eu  dou-lhe  os  meios  para  estabelecer-se  no  comércio,  ou  na 
indústria... Eu tenho quem me ofereceu já esse favor; agradeço a boa vontade 
da vossa excelência, mas não preciso, nem quero ser mais do que o meu pai. 
Vou  estabelecer-me,  se  Deus  quiser,  com  uma  fábrica  de  tecidos,  e  não  me 
faltará pão. 


 
 
— 
Como quiser; mas vá na certeza de que tem um amigo em mim, e em 
Augusta uma protetora. 
— 
Eu  bem  o  sei;  e  a  vossa  excelência  perdoará  as  minhas  loucuras...  A 
gente nem sempre regula bem. 
— 
Não tenho que perdoar-lhe. Bem castigado foi por si próprio. Voltou 
contra si a pontaria da arma que devia matar-me. Não falemos mais nisso... 


 
 
CAPÍTULO XIV 
 
Este episódio alterou a desculposa felicidade de Augusta. A sua alegria perdeu 
muito da intimidade espontânea. Os sorrisos já não lhe vinham da consciência 
como um beneplácito à sua posição de mulher engrandecida pela desonra. O 
amor  imenso,  a  sujeição  forçada  à  continuação  do  crime,  não  lhe  eram 
incentivos,  como  são  em  tantas  de  igual  estado,  para  obedecer  cegamente  à 
fatalidade, habituar-se à culpa, sufocando o tardio grito do remorso. 
Era uma mulher muito original, com virtudes muito inconsequentes, não era? 
Pois melhor lhe fôra — transigir com o vício, remediar-se com o irremediável, 
seguir  enfim  o  sistema  da  submissão  aos  factos  consumados.  É  o  que  faz 
muita gente melhor que a sensível costureira. 
O que ela não sabia fazer, como muita gente faz, era fingir-se, estereotipar a 
graça no rosto, captar, como a escrava do harém, com blandícias contrafeitas, 
o sorrir voluptuoso do seu senhor. 
Amaral  sentira  a  diferença,  e  debalde  interrogava  o  silêncio  resignado  de 
Augusta. 
— 
Donde vem — dizia ele — uma melancolia que não está no teu génio? 
— 
Eu sou feliz, Guilherme... 


 
 
— 
Ninguém o dirá... Se eu tivesse feito coisa que te afligisse até provocar-
te arrependimento de seres o que és, não estarias mais triste... 
— 
Pois vês em mim algum sinal de arrependimento?... 
— 
Todos  os  sinais.  Eras  outra  antes  da  ida  ao  teatro,  ou  antes  dos 
acontecimentos com o teu primo... 
— 
O  teatro  não  me  podia  fazer  mudar...  os  acontecimentos  com  o  meu 
primo, não admira nada que me deixassem uma triste recordação. 
— 
Tudo  isso  passou,  Augusta...  O  teu  primo  está  bom  e  feliz...  Estes 
homens  têm  crises  morais,  que  se  não  demoram  muito.  Falta-lhes  a 
inteligência, que é a pedra onde se afia o gume da dor. Têm o trabalho como 
distração,  e  as  necessidades  pequenas,  todas  satisfeitas,  como  recompensa... 
Pois  devo  eu  crer  que  a  tua  tristeza  sejam  saudades  ou  compaixão  do  teu 
primo? 
— 
Nem saudades, nem compaixão, Guilherme. Se há alguém que mereça 
compaixão... 
— 
És tu?! 
— 
Não,  não  sou  eu...  —  emendou  ela,  abraçando-o.  Perdoa-me  esta 
loucura... Sou muito ditosa contigo; não quero compaixão senão de ti... 
— 
Qual é o sofrimento que a merece, filha? 


 
 
— 
Não sofro... não sofro... 
— 
E, contudo, choras! 
— 
Pois que queres? Uma mulher, por mais feliz que seja, tem necessidade 
das lágrimas como do ar... chora-se insensivelmente, quando se é feliz, como 
se respira, quando se dorme... 
— 
Não me satisfaz a explicação... Eu quero saber porque choras... — Não 
sei, meu amigo. 
— 
Que desejas? Nada para mim, que nada tenho a desejar... tudo para ti... 
quero que sejas muito feliz. 
— 
Não o parece... os teus sofrimentos não me podem dar alegria. 
— 
Eles  passarão...  E,  contudo,  não  passavam...  Augusta  esquecera  os 
livros, a música, as flores, os passeios a cavalo, e até o instintivo engenho (o, 
sobre  todos,  mais  precioso  talento  em  mulheres)  com  que  se  vestia  para 
surpreender  o  amante  com  atrativos  novos.  Guilherme  não  merecia  isto.  A 
consciência,  ao  mesmo  tempo  que  o  não  acusava,  instigava-o  a  ter  com 
Augusta  uma  explicação  mais  explícita.  Antes,  porém,  desse  acto  custoso, 
consultou  o  jornalista,  confidente  inalterável  das  suas  mais  escondidas 
tenções. 
— 
Como explicas a tristeza de Augusta? 
— 
Enquanto a mim, aquilo é efeito de algum romance... 


 
 
— 
Não é. 
— 
Se me dás a certeza de que não é... 
— 
Dou. 
— 
Então, tudo se explica. Dás licença que eu dê a minha opinião. 
— 
E boa a pergunta! 
— 
A mulher quer que tu cases com ela. 
— 
Ora!... 
— 
É o que te digo. 
— 
Especula, por consequência? 
— 
Não  especula:  cede  a  um  sentimento  honesto.  A  inteligência,  que  lhe 
apuraste  de  mais,  desenvolveu-lhe  ambições,  que  ela  nunca  teria.  Entrou  na 
consciência  da  sua  desonra.  Quer  reabilitar-se  como  as  heroínas  dos 
romances, em que certas mulheres até ao penúltimo capítulo cambaleiam com 
a sua honra sobre uma corda bamba. 
— 
Será isso? 
— 
E, se for, que fazes?... Casas? 
— 
Não. É tenção que nunca tive. 
— 
Nem prometeste? 


 
 
— 
Claramente não... se bem me lembro... 
— 
Mas  de  um  modo  equívoco,  sim;  pois  fizeste  mal.  Se  tivesses  lido  a 
sátira de Boileau contra o equívoco, não caías na imprudência de o dizer. 
— 
Mas, desde que está comigo, nunca roçámos de leve por tal assunto. 
— 
Isso não é argumento. 
— 
Creio que te enganas... Hoje mesmo hei de sondá-la a tal respeito. 
— 
Pergunto eu: amas ainda muito Augusta? 
— 
Amei-a muito, e posso dizer que a amo ainda; todavia, desde que a vejo 
corresponder-me friamente, tenho arrefecido um pouco... Foi mau contrariar-
me... 
— 
Contrariou-te? 
— 
Pois que é entristecer-se quando eu me alegro? Pôr-me na obrigação de 
lhe perguntar o que tem de hora a hora, é enfadar-me. Bem sabes que tudo 
que é obrigação pesa, e eu não quero algemas. Se eu a contrariasse, pedia-lhe, 
ou  não  lhe  pedia  absolvição  da  culpa;  não  lhe  tenho  dado  causa  ao  menor 
desgosto, e custa-me a representar de humilde... revolta-me o predomínio, que 
ela quer exercer sobre mim... Sabes tu que todas as mulheres são semelhantes, 
logo que atingem um determinado grau de inteligência!? 


 
 
— 
Ainda  agora  descobriste  esse  dogma?  Isso  é  velho.  A  mulher  de 
inteligência cultivada na escola do savoir-vivre, cal hoje, reabilita-se amanhã, 
recai  depois,  convalesce  em  poucas  horas,  e  caminha  sempre  na  alternativa 
com  a  face  voltada  para  o  Sol.  As  que,  caídas  uma  vez,  nunca  mais  se 
levantam, são as máquinas de pura massa de ossos e músculos e membranas: 
são as estúpidas, que não engenham o colete de salvação com que se zomba 
dos naufrágios do podre lenho, onde a virtude anda por aí à mercê das vagas, 
que são tu, e eu, e outros muitos do nosso conhecimento. Apre!, que me ia 
faltando o fôlego! Um período, deste tamanho, num livro, desacreditava-me! 
Em  resumo,  queria  eu  dizer,  que  Augusta  prefere  ser  tua  mulher  a  ser  tua 
amante. Ora agora, tu optarás. 
— 
Quero-a  para  amante,  e  é  impossível  que  ela  insista  na  opinião 
contrária. 
— 
E se insistir? Se te entalar entre os dois bicos de um dilema? 
— 
Prescindo  da  sua  companhia  especulativa.  Estou  certo  que  ela  não 
prescindirá. 
— 
Também o creio... Diz-me cá: na tua casa não entra padre nenhum com 
uma pouca de mais moral que os abades de Luís XV? 
— 
Em minha casa entras só tu. 


 
 
— 
Pois de mim está certo que lhe não inspiro o escrúpulo da incontinência 
nos costumes. Aqui há só a recear que ela penda para a mística. Se escrupuliza, 
se se fanatiza, deixa-te... Sabes tu que tenho uma suspeita muito razoável? 
— 
Qual suspeita? 
O teu amor a Augusta já não admite cristalização nenhuma. 
— 
“Cristalização!,” Não entendo. 
— 
É porque não leste a Fisiologia do Amor, de Stendlial. Cristalização são 
as  belezas  imaginárias,  as  variantes  formas,  as  luminosas  cambiantes,  que  tu 
associas  à  mulher  que  te  faz  pensar  duas  horas,  fremente  de  esperanças  e 
desejos. É associar o maravilhoso ao ordinário. Ora, tu já não imaginas nada a 
respeito de Augusta. Os cristais fundiram-se: ficou a mulher... 
— 
Que eu amo ainda. 
— 
Não te iludas, Amaral... Eu fui terrível profeta... 
— 
Não profetizaste... Amo Augusta; se a não amasse, era-me indiferente a 
melancolia dela. 
— 
Mas não te sentes disposto a consolá-la de modo que ela não duvide da 
alta estima em que a tens? 
— 
Casando-me  com  ela?  Pelo  amor  de  Deus!  Estás  cómico!  Pois 
realmente vens aconselhar-me o casamento? 


 
 
— 
Eu  aconselho  o  casamento  a  todo  o  homem  que  vive  dezoito  meses 
com  urna  mulher,  e  ao  cabo  desta  eternidade  de  amor  ainda  diz  sem 
impostura:  “amo-a”.  Mulher  que  se  ama,  depois  da  convivência  de  dezoito 
meses, ama-se toda a vida, quer seja amante, quer seja esposa, Como estou na 
minha hora de sinceridade, deixa-me dizer-te que não achas mulher que valha 
tanto  como  Augusta.  Se  te  desligas  dela,  comparar-te-ei  ao  avarento  que 
amontoou um tesouro, e, embriagado da sua fortuna, passava as  noites e os 
dias  contemplando-o;  e,  no  frenesi  do  seu  contentamento,  endoideceu,  e, 
doido, arrojou o tesouro pela janela à rua. 
O  tesouro  é  essa  mulher  simples,  imaculada,  santa,  perante  a  corrupção  e  a 
doblez de todas as que conheceste. Imaginaras um anjo; o anjo saiu das tuas 
mãos  perfeito.  Fizeste  de  um  coração  em  bruto  o  que  Fídias  fizera  do 
mármore. Nenhum homem fizera tanto, e nenhuma mulher fôra tão maleável 
às inspirações de um homem. O amor pode muito, transfigura muitas índoles, 
dá formas novas à mulher magnetizada; mas não é omnipotente, não produz o 
milagre que se viu e que se vê todos os dias operar em Augusta o teu amor... 
Tu és um ingrato a Deus e a ela, se a abandonas! 
— 
Eu disse que a abandonava?! 
— 
Preciso  eu,  porventura,  que  mo  digas?!  Tu  estás  sendo  para  mim  um 
homem  de  cristal:  vejo-te,  sem  a  vista  dupla  do  mesmerismo,  as  menores 
operações do espírito. Os teus reparos, enfastiados na melancolia de Augusta, 


 
 
são  como  os  abrimentos  de  boca  no  quarto  acto  do  melhor  drama.  Há  um 
ano,  a  tristeza  de  Augusta  seria  para  ela  um  novo  título  à  tua  admiração: 
chamar-lhe-ias  poeta,  rêveuse,  natureza  privilegiada,  espírito  que  entendia  o 
idioma dos arcanjos. Hoje, esse rosto assombrado já te não parece tão belo, e 
as lágrimas do coração silencioso incomodam-te. 
— 
E  incomodar-me-iam  em  qualquer  tempo,  admitindo  a  tua  explicação 
do casamento. 
— 
Pois é a explicação que mais honra Augusta. Não te parece bem natural 
este  desejo  numa  mulher,  que  tu  elevaste  às  alturas  da  tua  inteligência?  Eu 
acho até muito lógica essa nobre ambição. Há um ano, Augusta era ainda a 
mulher  do  amor,  e  só  do  amor-paixão;  hoje,  há  ali  o  espírito  que  se  dá  em 
troca doutro espírito; a inteligência esposando a inteligência; a ideia clara do 
dever e da honra dominando os arrebatamentos da paixão, e ensinando-lhe o 
que é a, plenitude da felicidade sobre a Terra. 
— 
E o casamento? 
— 
Deve sê-lo quando a mulher é Augusta, e o homem, a não ser o que tu 
devias ser, é aquilo que eu penso que seria. 
— 
Pois tu casavas?! 
— 
Com a primeira herdeira e a primeira beleza do Globo, No; mas, na tua 
situação, com Augusta, sim. 


 
 
— 
És uma maravilha! 
— 
Olha, Amaral, não ofendes a minha modéstia; em verdade te digo que 
sou  maravilha...  Não  grites  a  palavra  ironicamente...  Maravilhoso  és  tu 
também: mas para mim, és urna coisa legível como um anúncio em parangona 
na quarta página de um jornal... Aí vai outra profecia... O fio que te prende a 
Augusta pode ser amanhã cortado pela primeira Cecília que queira absolver-te 
dos  erros  passados,  impondo-te  a  penitência  de  te  absteres  dos  amores  da 
costureira afidalgada. 
— 
E um ultraje, que eu desmentirei... 
Se há aqui um ultraje, não é a ti, é à natureza, matrona que eu respeito pelos 
seus  disparates,  pela  importância  que  ela  se  dá  nos  seus  desvarios.  O 
“conhece-te!” do filósofo antigo é uma tolice. Quem é que se conhece? Quem 
pode  responsabilizar-se  pelos  seus  actos  de  amanhã?  Não  está  definida  a 
virtude nem o crime. Tu hoje levantas uma mulher do nada com o entusiasmo 
de um inspirado do Céu; amanhã arrojas essa mulher ao nada com a força de 
um instrumento, que obedece ao braço imperioso de uma vontade superior. 
Não sabes se foste ontem, ou és hoje virtuoso... Somos lamentáveis, meu caro 
Guilherme. A depravação da raça humana prova-se em ti, e em mim, nesses 
que julgam beber mais puras as águas da fonte da ciência. A inteligência é a 
corrupção  ostentando-se  em  toda  a  sua  luz.  O  sandeu  esconde-se;  nós 
galardoamo-nos com o escândalo... Não sei a que vem esta nesga de filosofia... 


 
 
Nem eu. Vinha a propósito de serem onze horas da noite, e eu não ter ainda 
escrito o folhetim de amanhã... Vou rabiscá-lo no teu escritório. Augusta deve 
ter  notado  a  demora  da  nossa  palestra.  Pede-lhe  que  toque  a  Casta  Diva 
enquanto eu escrevo. 
Hoje  escreverás  sem  música...  Vou  decifrar  o  enigma,  que  me  parece 
indecifrável depois da tua explicação. 


 
 
CAPÍTULO XV 
 
Augusta  passeava  no  jardim.  O  gosto  era  extravagante  numa  noite  de 
Fevereiro, fria 'e ventosa. Amaral foi encontrá-la aí, encostada ao parapeito de 
um mirante de pedra, voltada para o mar, que, lá em baixo, rugia, enegrecido 
por turbilhões de nuvens. 
— 
Achas isto encantador, Augusta? — perguntou, sorrindo, Amaral.  
— 
E não é encantador? Eu acho... 
— 
Não sentes frio? 
— 
Ainda  não...  Estou  aqui  há  meia  hora,  e  não  queria  sair  sem  que  tu 
viesses ver... 
— 
O quê?... Creio que não vês nada, Augusta... 
— 
Vejo as trevas... não é assim que a gente infeliz vê sempre o seu futuro? 
— 
Isso depende da maneira de ver as coisas. Cada qual tem o seu vidro de 
aumento  ou  diminuição.  Ninguém  vê  como  deve  ver.  E  tu  que  vês  no  teu 
futuro? 
— 
A continuação do presente... 
— 
E o presente não te é agradável? 


 
 
— 
É;  embora  mo  não  invejem,  eu  também  não  invejo  as  venturas  de 
ninguém. Mais felicidade que a que sinto, só pode dar-ma a sepultura. 
— 
Desejas a morte? 
— 
Desejo-a, antes de morrer no teu coração... 
— 
E crês que podes morrer no meu coração? 
— 
Posso; pois não posso? Que privilégio tenho eu mais que as outras? 
— 
Não entendo... Queres dizer que eu tenho esquecido outras antes de ti? 
— 
Quantas  terás  tu  esquecido,  Guilherme!...  Não  me  refiro  a  essas;  é  às 
que tenho conhecido nos romances, onde se aprende tudo que é do coração... 
— 
São, portanto, os romances que operam esta espantosa mudança no teu 
carácter!... 
— 
Eu não mudei, Guilherme. Não me disseste tu que me querias dar um 
sexto sentido, que me faltava? Pois é esse sentido que me faz sofrer. Melhor 
fôra que nunca mo desses. 
— 
Romanticismo, minha Augusta... Não exageres o tipo que te adaptaste. 
Os resultados são sempre maus... Eu sei o que é isso... A natureza não quer 
que a violentem com artifícios... 
— 
Queres dizer, Guilherme, que a minha tristeza são artifícios?... Não sei 
com que fim!...  Pensas que é amar-te menos o esconder-me aos teus olhos? 


 
 
Não é, não. Não posso amar-te mais, porque é impossível que outra te ame 
tanto... 
— 
Outra!... Que outra? 
— 
Eu não digo que ames outra... Não me queres entender, ou te enfastiam 
as minhas impertinências... Olha, Guilherme, se eu pudesse usar de artifícios, 
mostrava-me sempre alegre, para te ver sempre alegre e carinhoso. Pensas que 
eu não adivinho que me vou tornando aborrecida? E quereria eu sê-lo?!... 
— 
Aborrecida,  nunca...  Sofro,  é  verdade,  porque  me  inquieta  o  segredo 
dos  teus  pesares...  Ninguém  sofre  de  imaginação  exclusivamente:  há sempre 
uma causa. Qual é a causa em ti? É uma pergunta feita mil vezes; nunca me 
respondes. 
— 
Se  eu  não  posso,  porque  a  não  sei...  Será  uma  doença  do  corpo,  que 
principia pela alma... 
— 
Não  explicas  assim  coisa  alguma.  A  vinda  do  teu  primo  ou  a  ida  ao 
teatro são os dois acontecimentos que eu tenho para datar a tua diferença de 
costumes, de gostos, de amizade, de tudo. 
— 
De amizade, não, Guilherme... Não me mortifiques assim... a calúnia é 
terrível! 
— 
Respondes francamente ao que vou perguntar-te? jura!... 
— 
Não preciso jurar: respondo. 


 
 
— 
Querias ser o que eras antes de me conhecer? 
— 
Queria. 
— 
Está tudo explicado... O teu sofrimento é remorso... 
— 
Remorso,  não,  nem  arrependimento.  Depois  de  te  haver  conhecido  e 
amado,  não  posso  arrepender-me.  Eu  creio  que  o  arrependimento  de  amar 
começa no coração, e, para isso, é preciso que ele odeie e não ame. Eu amo-te 
muito, Guilherme. Não quisera ter-te conhecido, isso sim. A estas horas, seria 
o que são as mulheres da minha qualidade: a pobre costureira sem orgulho de 
ser  amada,  sem  ambições  de  parecê-lo;  sem  a  crítica  para  comparar-se  às 
outras mulheres, ignorando o mundo, ou vendo-o muito diferente do que ele 
é.  É  o  que  seria,  não  te  conhecendo,  Guilherme...  E  o  que  fui,  não  posso 
tornar a sê-lo. 
— 
Mas que te fiz eu? Que desejos tens que eu te não satisfaça? 
— 
Não me fizeste senão engrandecer: essa é que foi a minha desgraça. Os 
desejos  que  me satisfazes... são  todos;  não  me  queixo da  menor  falta...  Não 
falemos nisto, meu filho. Princípio a ter frio, e tu?... 
— 
Vamos,  Augusta..,  Parece-me  que  a  estação  da  minha  felicidade 
acabou... E mais uma mentira, uma deceção como outras muitas. 
Augusta  disse  algumas  palavras  frívolas,  dessas  que  o coração pode,  apenas, 
balbuciar,  se  o  comprimem  angústias  grandes,  como,  na  mulher  que  muito 


 
 
ama, o pressentimento, o susto, a surpresa terrível da ingratidão, que, até esse 
instante, lhe parecera crime impossível. 
Amaral  não  respondera,  ou  não  a  entendera.  Entrou  no  escritório,  onde  o 
jornalista escrevia aceleradamente a quarta tira do seu folhetim. Guilherme ia 
falar, quando o escritor, sem levantar os olhos do papel, lhe fez com a mão 
sinal de silêncio, murmurando: 
— 
Não me tolhas a inspiração... Encontrei uma ideia com que posso salvar 
a humanidade aflita. Eureka!. Espera... 
Continuou a escrever alguns segundos, e depôs a pena com os júbilos radiosos 
de quem acabava de salvar a humanidade aflita. 
— 
Agora, fala... 
— 
Tens  razão;  és  um  mágico...  sabes  tudo  o  que  vai  no  coração  dos 
outros: Augusta lembra-se de casar comigo. 
— 
Confessa, pois, que sou um homem impagável!... 
— 
Não teve, ainda assim, a coragem de mo dizer em estilo chão... 
— 
E tu tiveste a coragem de lhe dizer, em correto português, que não... 
— 
Eu não lhe disse nada. Contristou-me... Não queria ouvir-lhe tal... De 
ora avante todos os sorrisos dela estão envenenados. 
— 
E ela disse que abandonava o posto no caso negativo? 


 
 
— 
Não...  é  cedo  ainda  para  me  estipular  condições,  e  creio  que  nunca 
chegaremos a esse extremo. 
— 
Também o creio. 
— 
É natural que um delicado desengano a restitua à antiga tranquilidade. 
— 
De costureira? — Não... 
— 
Ah!, entendo... de femme entretenue. 
— 
E, se não acerto no alvo, viveremos mal. Para evitar o espetáculo das 
lágrimas, terei de procurar o riso noutras partes.  
— 
E isso, é isso.. . Os homens!... 
— 
Sorris? 
— 
É  a  maldita  profecia  a  realizar-se.  Estudos  do  coração...  Quem  te 
estudar, Guilherme, Stendllal ou Balzac. Eu bem sei o era preciso a  Augusta 
para reconquistar o terreno que perdeu. O amor puro e santo da mocidade já 
lá vai; o amor-apetite esfriou; o amor-vaidade, o único possível em ti, já não 
recebe estímulos. Augusta devia perder o pejo para te arrebatar de novo. 
— 
Perder o pejo! Que disparate! 
— 
Não é disparate. Se ela obedecesse a todos os teus caprichos... 
— 
Caprichos!... Quais? 


 
 
— 
Que alimentam a lavareda do teu orgulho. Tu amavas esta mulher se os 
outros  ta  invejassem.  Amava-la  se  ela  tivesse  a  sagacidade  de  trair-te...  ao 
menos  com  os  olhos  num  subtil  disfarce...  de  um  camarote  para  a  plateia. 
Amava-la se ela hoje se vestisse o mais sedutoramente que se pode, e ferisse 
lume nas calçadas do Porto com as patas do teu cavalo de Alter. A cada olho 
desejoso  que  a  seguisse,  sentias  uma  palpitação  de  soberba.  Quando  de  um 
grupo  se dissesse:  “Que  bela  mulher!”,  respondias  tu:  “É  minha!”  E este  “é 
minha”, que ninguém ouve, é uma expressão embriagante, só comparável à do 
avarento  que  abraça  um  cofre,  exclamando:  “É  meu!”.  A  mulher,  assim 
desejada,  deixa  de  ser  o  que  nos  parece  a  nós,  e  é  aquilo  que  parece  aos 
outros. O homem que arria apaixonadamente não cura de saber o valor que os 
outros  dão  à  mulher  que  ama.  Mas  este  não  é  teu  amor.  Se  o  amor,  por 
qualquer condescendência, declina, o amante, cego ontem, abre hoje um olho, 
e  duvida  se  ela  efetivamente  é  aquilo  que  lhe  parecia  ontem.  Na  dúvida, 
pergunta aos outros: “Que vos parece aquela mulher?” Se a delicadeza ou boa-
fé  responde:  “É  uma  excelente  mulher”,  a  cristalização  continua.  (Eu  já  te 
disse  o  que  era  a  cristalização.)  Se  a  má-fé  ou  a  grosseria  responde:  “Não 
presta”,  o  amador  indeciso  odeia  a  indiscreta  resposta,  e  persiste  na  dúvida, 
que é sempre de pior partido para a mulher, sujeita à alta e baixa do mercado. 
Augusta  não  sabe  estas  importantes  teorias;  sabendo-as,  e  amando-as, 
sacrificava-te a vergonha, de todos os sacrifícios o mais penoso que a mulher 
faz, com testemunhas de vista. Se ela tivesse uma escola anterior à que tem, 


 
 
preparava-te  com  finura  uma  emoção  reparadora  da  sensibilidade  que  se  te 
consome nesta vida monótona do Candal. Tu precisavas hoje de um duelo, de 
um grande escândalo, por causa de Augusta. A questão é que os outros nos 
encareçam a mulher, que se nos vai barateando no trato de todos os dias, sem 
perigos  a  afrontar,  nem  intervalos  de  saudade  a  sentir.  O  coração  apático 
morre  de  apoplexia.  Isto  assim  não  te  convém,  Guilherme:  faltam-te  ainda 
vinte anos para te emancipares do arbítrio das loucuras. A vida tranquila no 
sereno regaço de uma mulher, na tua idade, é  uma anomalia. Não podes ter 
senão amantes; mas estas amantes devem ser mais corrompidas que Augusta. 
Segue-se da estirada preleção que eu sou um grande perverso... só posso amar 
a corrupção. 
Não  digo  “amar”.  Amar  é  um  sentimento  privilegiado  de  certas  almas,  que 
não  são  as  nossas,  faça-se-nos  justiça.  Desejar  é  outra  coisa.  O  laço  que  te 
prende  a  Augusta,  há  dezoito  meses,  não  é  amor.  E  a  submissão  do 
instrumento  ao  braço,  a  docilidade  de  Augusta  obedecendo  à  tua  vontade 
orgulhosa. Imaginaste que era delicioso fazer de uma costureira urna senhora, 
e empenhaste nisso as forças do teu espírito. de uma rapariga sem educação 
nem  princípios  quiseste  fazer  uma  literata,  e  puseste  nessa  obra  miraculosa 
todas  as  forças  da  tua  vontade.  Acabada  a  obra,  não  tinhas  mais  que  fazer. 
Reviste-te nela alguns dias com amor de artista. Exausta a admiração, pensaste 
se seria possível idear-lhe belezas novas. Não era. O espírito avarento achou-
lhe  ainda  imperfeições.  Descoroçoaste-te,  desiludiste-te,  pareceu-te  estulta  a 


 
 
glória do que fizeste, porque te não servia de nada. Até aqui foste prudente 
como Pedro. 
O pior é daqui em diante... Que tencionas fazer a esta mulher? 
— 
Não  sei...  nem  penso  nisso.  Por  enquanto  viveremos  como  temos 
vivido. Tu vais aos extremos, quando as coisas estão no princípio. Augusta há 
de  reconciliar-se  com  o  desengano:  convencida  de  que  não  pode  ser  minha 
mulher, há de desvelar-se em ser uma boa amante. Os escrúpulos, se o são, 
desaparecem.  O  amor,  se  ele  existe,  há  de  reagir  contra  as  conveniências. 
Prezas-te de conhecer muito do coração; mas hoje adormeceste à sombra dos 
teus gloriosos folhetins. .. 
— 
A propósito de folhetins, deixa-me concluir o de amanhã. 


 
 
CAPÍTULO XVI 
 
Um tio materno de Guilherme do Amaral, rico proprietário da província da 
Beira  e  deputado  às  Cortes  Constituintes,  emigrara  em  1828,  e  casara  em 
Bruxelas. 
Em 1845, o exilado, que não sentira nunca saudades da pátria, veio a Portugal, 
de passeio, com a sua filha única, 
O  pretexto  era  uma  viagem  recreativa  para  Leonor;  mas  a  causa  oculta  era 
afastá-la  de  um  casamento  inconveniente  para  que  a  sentia  cegamente 
inclinada. 
O pai demorou-a alguns dias na sua velha casa da Beira Alta, contra a vontade 
de Leonor, que não podia ver-se, na estação invernosa, rodeada de florestas e 
penedias, e guinchos lamentosos das corujas. Aí soube ele que o seu sobrinho 
Guilherme  residia  no  Porto,  solteiro  ainda,  gozando  bom  nome,  apesar  de 
alguns desatinos de rapaz rico. 
O seu pensamento era grande. Casar a sua filha com o primo era, além de um 
enlace de família e haveres, cortar de uma vez o vínculo débil, ou robusto, que 
poderia ainda prender o coração de Leonor ao estudante belga. 


 
 
Leonor, indiferente a conhecer o seu primo, em quem o pai lhe falava muitas 
vezes, desejava ver o Porto, e passar aqui o Inverno, mais suave, com os bailes 
e o teatro lírico. 
Outros  motivos  mais  fortes...  sabia-os  ela,  A  sua  vontade  encontrou  a 
benevolência paterna, e a pronta execução. Vieram para o Porto. Antecipou-
os uma carta, sobrescritada a Guilherme, e por ele recebida no dia imediato ao 
do capítulo anterior. 
Dizia o seguinte: 
Guilherme. 
Teu tio Teotónio Vaz chega ao Porto no dia 24 do corrente. Vai hospedar-se 
na Águia de Oiro, e deseja abraçar-te e apresentar-te a sua filha e a tua prima. 
Teu afetuoso tio. 
Guilherme  não  mostrou  a  Augusta  esta  carta.  Esta  reserva  é  um  sinal  de 
quebra  na  intimidade.  Amaral  não  se  impunha  já  a  obrigação  suave  dos 
amantes,  verdadeiramente  amigos;  pareceu-lhe  uma  puerilidade  mostrar  a 
Augusta uma carta tão simples de um tio a um sobrinho. 
Na tarde do dia 24, o sobrinho do Sr. Teotónio Vaz foi ao Porto, sem dizer a 
Augusta que negócios o chamavam, ou que horas demoraria. Primeira vez que 
isto  aconteceu.  Apeou  na  Águia  de  Oiro,  e  procurou  o  hóspede,  que  lhe 
disseram ter chegado ao meio-dia. Foi abraçado pelo seu tio, que lhe chamava, 


 
 
com as lágrimas nos olhos, o filho da sua querida irmã, que, em pequenino, 
tantos piparotes lhe dera nas orelhas! Teotónio, enternecido com a lembrança 
dos  piparotes,  estava  patético!  Amaral,  que  mal  se  recordava  dos  piparotes, 
custava-lhe a suster o riso diante da respeitável saudade do seu tio. 
— 
Leonor! — disse Teotónio com a voz trémula de emoção —, vem ver o 
teu primo... 
Leonor saiu do quarto próximo. Amaral ficou surpreendido a tal ponto que 
mal  podia  gaguejar  um  cumprimento.  É  que  a  sua  prima  fazia  acreditar  na 
existência  dos  anjos:  a  sua  aparição  instantânea  era  uma  coisa  mágica,  um 
eclipse,  que  escurecia  todas  as  realidades  conhecidas,  uma  inovação  de 
impressões em coração gasto de recebê-las todas. 
Leonor estendeu a mão afetuosamente ao seu primo. Falava pessimamente o 
português,  mas,  com  tanta  graça,  que  as  damas  portuguesas,  se  a  ouvissem, 
estudariam  o  modo  de  falarem  assim:  dificuldade  que  algumas  vencem  sem 
estudo. 
Guilherme, para evitar-lhe embaraços, falou em francês, coisa que o seu tio, 
com  dezasseis  anos  de  residência  na  Bélgica,  não  conseguira  nunca.  A 
conversação travou-se em assunto fértil. Vieram as comparações do clima, da 
civilização,  do  Governo,  da  agricultura,  entre  as  duas  nações  conhecidas  de 
Leonor. 


 
 
E o mais é que a prima do nosso amigo era uma excelente faladora, e  o seu 
pai,  orgulhoso  dela,  fazia  um  aceno  afirmativo,  e,  o  que  mais  é  ainda,  uma 
careta célebre a cada agudeza palavrosa da menina. 
Guilherme  via,  maravilhado,  tanta  beleza,  e  tanto  desenvolvimento.  Quem 
falava mais era ela, e sempre interessante, em tudo engenhosa, senhora de si, 
sem constrangimento, dando mais importância ao que dizia do que à pessoa a 
quem o dizia, falando como quem se escuta e se admira, correndo no pulso de 
jaspe,  por  distração,  a  pulseira,  enquanto  o  primo,  cada  vez  mais  tímido, 
falava. 
Neste momento desfizeram-se as últimas lâminas da cristalização de Augusta. 
A costureira passou de relance entre Leonor e Guilherme. Ia nua de todo o 
prestígio,  desenfeitada  de  todos  os  arrebiques  que  a  imaginação  lhe  dera... 
Pobre Augusta!... Se ao menos as tuas lágrimas remissem as mulheres da tua 
condição!... 
Eram  oito  horas  da  noite,  quando  Teotónio  Vaz  interrompeu  a  incansável 
loquela da filha, dizendo que a sege os esperava. Foram ao teatro. Guilherme 
deu o braço à sua prima, e chamou a atenção dos frequentadores do vestíbulo. 
Entre  estes  estava  o  jornalista.  Enquanto  Amaral  parava  diante  de  uma 
cadeirinha, que tolhia o passo das escadas, o poeta disse-lhe quase ao ouvido: 
etecetera,  etecetera.  Amaral  sorriu-se;  e  Leonor,  que  ouvira  e  entendera, 
procurou  o  leitor  de  Victor  Hugo  com  os  brilhantes  olhos.  O  poeta 


 
 
desaparecia entre os grupos que o rodeavam, perguntando-lhe que maravilha 
era aquela. 
— 
E alguma outra costureira? — perguntou um. 
— 
Onde vai este homem desencantar estas mulheres?! disse outro. 
— 
Daria carta de alforria à outra? 
— 
Quando teremos as duas no campo da igualdade. 
— 
Esta é um anjo. 
— 
Mas a outra é mais mulher. 
— 
Um bocado de cada uma deve dar uma excelente infusão. 
— 
Portanto, voto por ambas. 
— 
Estão  enganados  —  atalhou  o  poeta.  —  Aquela  mulher  é  prima  do 
Amaral. E a outra, que vocês esperam no campo da igualdade, lá irá ter... mas 
ao verdadeiro campo da igualdade... ao “Prado do Repoiso”. 
— 
Ao cemitério! Estás fúnebre, poeta elegíaco!... Não pareces o Balzac da 
Rua  de  Santo  António!  É  a  vossa  mania,  bardos  da  desventura,  abrir  uma 
sepultura  a  cada  sofrimento,  sem,  ao  menos,  perceberdes  os  direitos  de 
coveiro...  Estas  mulheres  não  morrem  assim...  Renascem  das  larvas  como  a 
borboleta, e têm sobre a borboleta a vantagem de se não queimarem na chama 


 
 
fosfórica das paixões de lume pronto, como eu creio que são as paixões do teu 
ilustre amigo. 
O  orador  riu-se  do  seu  epigrama,  e  o  poeta  pediu  aos  circunstantes  que  se 
rissem por piedade daquela sensaboria pretensiosa. 
Estava  o  pano  em  cima.  Cada  qual  foi  sentar-se,  segundo  a  indicação  dos 
camarotes.  O  jornalista  colocou-se  na  melhor  linha  de  observação  para  o 
camarote de Teotónio Vaz. 
Observou  ele  que  Leonor  media  com  o  óculo  de  alto  a  baixo  todos  os 
camarotes, não se dedignava de responder, mais ou menos de passagem, aos 
curiosos da plateia, atendia quase nada ao palco, e nada, em toda a extensão da 
palavra, ao que o seu primo parecia dizer-lhe. Primeira observação. 
Notou ele mais que, no intervalo do segundo— para o terceiro acto, entrara 
na plateia superior um homem desconhecido, tipo francês, bem vestido, muito 
airoso. Que este homem fixara uma luneta em Leonor, e Leonor, desde esse 
momento, raro levantou os olhos do desconhecido. Segunda observação. 
Terceira e última: que, à saída do teatro, o francês, que ninguém vira no Porto 
antes dessa noite, fôra postar-se em frente da escada que desce dos camarotes, 
e  Leonor,  ao  passar,  lhe  dera  o  mais  significativo  e  destemido  de  todos  os 
sorrisos: facto escandaloso que todos observaram, exceto Guilherme, e o seu 
tio, que era míope. 


 
 
O  jornalista  entrou  na  Águia  de  Oiro,  entreteve  um  quarto  de  hora 
esgaravatando umas costeletas, e pôs de sentinela o criado para avisar Amaral, 
quando saísse do quarto do seu tio, que ele o esperava ali. 
Saíram juntos, e entraram na Hospedaria Francesa, residência do poeta. Eles a 
entrarem,  e  o  francês  a  entrar  com  eles.  O  francês  cantava  a  cavatina  da 
Semíramâ,  e  o  indiferente  Amaral  assobiava  com  toda  a  gaucherie  de  um 
provinciano  um  rondó  do  Guilherme  Tell.  O  poeta  não  assobiava  nem 
trauteava: ia triste e reconcentrado. 
— 
Conheces — perguntou ele — esse homem que vai subindo? 
— 
Não: pareceu-me estrangeiro. 
— 
É o namoro da tua prima. 
— 
Zombas? 
— 
É o namoro da tua prima. Dizem que os olhos do amante veem tudo: 
os teus, hoje, cegou-os uma catarata escandalosa! Pois tu não viste nada? 
— 
Pareceu-me que ela olhava alguém da plateia com teimosa atenção... 
— 
Era  aquele  homem  que  foi  cortejado  nas  escadas  com  um  sorriso 
angélico, quando desciam. 
— 
Palavra de honra?! 


 
 
— 
Juro-te pela minha honra e pela honra das onze mil virgens, incluindo 
tua gentil prima. 
— 
Não gracejes... 
— 
Então isto é mais sério do que eu pensava!... Tu amas a tua prima? 
— 
Com delírio... Isto é incrível... em mim! Mas a verdade... a verdade atroz 
é esta... A minha mulher fatal... é ela... apareceu enfim! 
— 
Penso que vais ser punido, Guilherme... 
— 
Punido!? Que é ser punido? 
— 
Desprezado. 
— 
Quem sabe? Eu não lutei ainda... Será tão poderoso o rival!... 
— 
Este homem, enquanto a mim, segue-a... É a primeira vez que o vejo. 
— 
Mas o meu tio há de auxiliar-me. 
— 
Pois  tu  já  apelas  para  o  auxílio do  teu  tio contra  a  tua  prima?!  Isso é 
uma fraqueza, urna conquista inglória, uma ignomínia para um leão! Não caias 
nessa, que é pior para ti. Uma mulher detesta o perseguidor, que se serve do 
parapeito da  sua  família  para  rendê-la.  Pela  piedade,  movem-se  muitas;  pelo 
rigor, algema-se uma mulher; mas a alma fica-lhe livre. Tu és, às vezes, inferior 
ao que pensas de ti. Eu não quero saber como são esses amores fulminantes... 
sei  que  há  monstruosidades  nesse  género...  Vê-se  uma  mulher,  à  luz  de  um 


 
 
relâmpago, e fica a gente a apalpá-la nas trevas. O que eu não prescindo de 
saber é como tu te investes de um direito adquirido sobre a tua prima! 
— 
Essa pergunta é tosca— não me parece tua. 
— 
Não? E que hoje não conheces ninguém. Que diabo de homem tu és! 
Eu dava a minha reputação literária por conhecer-te! já sondaste bem o que 
sentes pela tua prima? Será isso vaidade? 
— 
Não: é um amor infantil, uma paixão capaz de lágrimas e de sangue... 
— 
Um duelo em perspetiva... 
— 
Que dúvida... Não podem viver dois homens que amam Leonor. 
— 
E, contudo, há apenas cinco horas que a viste... 
— 
Que importa? já te disse que há uma mulher fatal para cada homem... 
— 
E um homem fatal para cada cento de mulheres... Faltam-te noventa e 
nove...  A  primeira  já  lá  vai...  Deus  se  compadeça  daquela  nossa  irmã. 
Apliquemos a Augusta o parce sepultis? 
— 
Não falemos agora em Augusta... 
— 
É  uma  hora  da  noite.  Que  lágrimas  terá  chorado  a  pobre  mulher! 
Falemos nisto, que é patético... 
— 
Mudemos de assunto. 


 
 
— 
E que eu não estou disposto a falar de outra coisa. 
— 
Muito boas noites. 
— 
Adeus, Guilherme. Os meus respeitos à Senhora Dona Augusta. Cá te 
espero amanhã. 


 
 
CAPÍTULO XVII 
 
As  várzeas  do  Candal  branquejavam  cobertas  de  neve.  O  frio  cortava  as 
carnes.  E  o  Doiro  rugia  em  baixo,  alagando  os  muros  débeis  com  que  lhe 
ousam mãos fracas reprimir a fúria das enchentes. 
Era essa a noite em que Augusta, desde as nove horas da noite, esperava, na 
janela, Guilherme. A febre da ansiedade não lhe deixava sentir o frio, que lhe 
pisava as faces de manchas azuladas. A maceração da alma não cedia forças ao 
sentimento para  a  maceração do  corpo.  A alma  é  avara  de sensibilidade nas 
grandes aflições. 
Augusta,  naquelas  longas  horas,  dos  sentidos  externos  só  tinha  o  ouvido  a 
levar-lhe ao coração o menor ruído que se lhe afigurava ser Guilherme. 
Eram duas horas quando Amaral apeou. Viu Augusta na janela, e sentiu duas 
sensações  contraditórias:  compaixão  e  aborrecimento.  O  extremo  zelo 
aborrecia-o. A compaixão, pior ainda neste caso que o aborrecimento, era, em 
Amaral, uma virtude estéril, a piedade por um mendigo a quem se diz: “Deus 
o  favoreça.”  O  que  ele  não  queria  era  ter  de  dar  uma  explicação  da  sua 
demora. 
Augusta,  sem  o  menor  sinal  de  ressentida,  veio  ao  encontro  de  Guilherme, 
exclamando: 


 
 
— 
Que preocupação me deste, meu filho! Tiveste algum incómodo? 
— 
Não. Porque te não deitaste? 
— 
Era-me impossível... Se tu me tens dito que te demoravas, era melhor 
para meu descanso... Para a outra vez diz-me que te demoras, sim? 
— 
Pois sim. 
— 
Ceaste? 
— 
Ceei. 
— 
Com o teu amigo? 
— 
Sim. 
— 
Estiveste sempre com ele? 
— 
Não... estive no teatro. 
— 
Fizeste  bem,  meu  Guilherme.  Eu  gosto  que  tu  te  divirtas,  se  achas 
prazer no teatro... Mau... porque me não disseste que ias ao teatro?! 
— 
Porque não tinha tenção de lá ir. 
— 
Era a Norma? 
— 
Não: era o... era o... era o Barbeiro de Sevilha. 


 
 
— 
Fizeste bem... Mas tu estás triste, Guilherme!... Não queres olhar para 
mim!... Enganas-me... Alguma coisa tens... Diz-me o que é... Bem sei que me 
não queres afligir, mas a incerteza é maior aflição. 
Não  tenho  nada,  Augusta...  E  um  desses  acessos  de  melancolia,  que  são 
próprios da minha organização. 
— 
Serei eu a causa!... Talvez seja... A minha tristeza terá contribuído para a 
mudança que noto no teu génio... Não quero que sofras. Eu prometo nunca 
mais  dizer-te  coisa  que  te  entristeça.  Esquece  tudo  o  que  ontem  te  disse. 
Vivamos  felizes.  Eu  farei  tudo  o  que  tu  quiseres.  Vamos  ao  teatro,  vamos 
onde tu quiseres que eu vá contigo, sim? 
— 
Eu não te convido a acompanhar-me a parte nenhuma... 
— 
Não  me  convidas,  mas  eu  é  que  desejo  ir...  Quando  houver  teatro, 
iremos ambos, sim? 
— 
Agora... é impossível, 
— 
Porquê, Guilherme?! 
— 
Tenho um tio no Porto, e há certas relações... que devem esconder-se 
de um tio. 
— 
Tens razão... As lágrimas, de improviso, saltaram dos olhos de Augusta. 
A serenidade com que ela disse: “ Tens razão... “ foi um heroísmo dos muitos 
que passam ocultos entre a mulher ferida no coração e o homem que lhos não 


 
 
compreende, ou lhos recompensa, cravando-lhe mais dentro do peito o ferro 
do escárnio ou do desprezo. 
Guilherme,  enjoado  das  lágrimas,  ergueu-se  com  arremesso,  entrou  no  seu 
quarto, e fechou-se. já não foi pouco generosa a tolerância de a deixar sozinha 
com  as  suas  lágrimas!...  Muitos  há  que  vituperam  essa  fraqueza,  raivando 
contra a facilidade impostora de chorar... 
Augusta  não  queria  acreditar  que  este  rápido  incidente  fosse  uma  realidade. 
Como  não  tinha  a  experiência  dos  factos  para  convencer-se  do  fastio  de 
Guilherme,  consultou  de  relance  a  reminiscência  dos  seus  romances.  Viu 
mulheres  infelizes,  muitas  amantes  abandonadas  na  mais  extremosa  estação 
do seu amor, muitas sacrificadas a uma frívola reverência aos bons costumes. 
Assim atormentada por numerosos exemplos, creu-se aborrecida. A paixão, a 
vaidade, o ciúme, a vergonha coligaram-se em grupo de demónios no coração 
da pobre mulher. Foi essa uma noite de suplícios inexplicáveis! Amanheceu-
lhe  a  luz  de  um  horroroso  dia  no  local  onde  Guilherme  a  deixara,  extática, 
morta,  imóvel,  como  assombrada  por  um  raio.  Aí  velo  ele  encontrá-la,  e  o 
aspeto de Augusta impressionou-o. A desfiguração era espantosa. Sete horas 
de  inferno  araram-lhe  o  viço  das  feições,  como  ferro  candente  que  por  lá 
passasse.  Lividez,  maceração,  e  espasmo  cadavérico  nos  olhos,  os  lábios 
talhados pelo crestar da febre, todos os sintomas de urna longa tísica no seu 
fim... tal era a fisionomia de Augusta. 


 
 
Não se precisam virtudes para simpatizar com dores semelhantes. Saint-Preux, 
Don  Juan  e  Lovelace  tinham  intermitentes  de  piedade.  Porque  as  não  teria 
Guilherme do Amaral, espírito medíocre, sem tipo, sem caracter, coisa trivial 
no mais trivialíssimo dos géneros? 
— 
Que  tens,  Augusta?  —  disse  ele  afetuosamente,  tomando-lhe  a  mão 
abrasada. — Não me respondes!... 
— 
Que  hei  de  eu  responder-te,  Guilherme...  Tudo  está  acabado,  entre 
nós... Morreste para mim... 
— 
És louca! Que motivos te dei para me julgares morto para ti?! 
— 
Oh meu Deus!... Precisarás tu falar, Guilherme!... Uma mulher que ama 
não  se  pode  enganar...  Não  era  preciso  falares-me  tão  claro...  Valho  menos 
que a amizade de um teu tio em quem nunca me falaste... Que homem é esse 
que  pode  tanto,  tanto,  como  eu  nunca  pensei  pudesse  mulher  alguma!?  Há 
seis meses querias que eu me mostrasse... contigo... em toda a parte; vencias a 
minha  repugnância  com  razões  fortes;  dizias-me  que  eu  era  a  tua  vida,  e  a 
sociedade o teu odioso inimigo ... Hoje... envergonho-te... 
— 
Não me envergonhas, Augusta... Atormentas-me com a injustiça. Que 
lucras em fazer-me sofrer assim? 
— 
Que  lucro!...  Pergunta-me  como  é  doloroso  ao  coração  arrancar  estas 
palavras  que  eu  me  arrependo de proferir, visto  que  te  impacientam... ou te 


 
 
magoam!... Guilherme, não sofras por mim... O que tu quiseres... faz de mim 
o que quiseres; não te constranja a minha companhia... Queres tu, filho?... Eu 
vou abrir-te a minha alma... Não, não, é cedo ainda... O sacrifício oferecido 
não  teria  mérito  nenhum...  Eu  hei  de  ser  nobre  na  desgraça,  já  que  o  não 
posso ser na sociedade... Não terei vergonha de mim própria; ao menos isso 
será uma consolação à mulher que te envergonha na presença de um tio... 
— 
Outra vez!... 
— 
Não  te  impacientes,  Guilherme...  Vem  cá...  Sê  meu  amigo,  que  to 
mereço. 
E não sou eu teu amigo, Augusta?! ÉS?... Sou, sê-lo-ei sempre. Pois então não 
tenho  razão  de  chorar.  Perdoa-me.  Guilherme  almoçou  ao  pé  de  Augusta. 
Não trocaram duas palavras. A situação dele era penosa, como um remorso. 
Raras  vezes  a  expiação  assim  principia  simultânea  com  a  culpa.  A  “culpa”, 
digo  eu,  e,  porventura,  terei  dito  um  grande  absurdo.  Qual  era  a  culpa  de 
Amaral? Amar uma mulher, que lhe desfazia a cristalização de outra. 
Moralistas,  dai-nos  uma  figa  de  azeviche  para  afugentar  o  demónio  da 
tentação: trá-la-emos devotamente sobre o espírito fraco, o espírito maleável, 
que se presta a todas as formas, este camaleão íntimo, que varia de cor a cada 
novo  raio  de  luz  dos  últimos  olhos,  que  o  fixam.  Corrigi  os  defeitos  do 
sistema nervoso de Guilherme. Transfundi-lhe um sangue mais sereno, menos 
irritável, nas artérias. Dai-lhe o remanso da paz no regaço de uma mulher, seja 


 
 
ela  rainha,  ou  costureira.  Remi-o  da  infelicidade,  que  traz  consigo  a 
inconstância.  Fazei  que  ele  não  chegue  aos  trinta  anos,  detestando  as  vinte 
variedades de mulheres?  que conheceu, e detestando-se  por  ter  abusado das 
fáceis  regalias,  que  o oiro, a juventude  e a sedução lhe  serviam  em  mesa de 
risos e venenos, como nos festins dos Bórgias. Arrancai-lhe do fundo do seio 
o  espírito  inquieto,  que  principia  por  travessuras,  e  acaba  em  ciúmes 
rancorosos: insuflai-lhe lá uma alma nova, pacífica, fácil de nutrir-se, parca, e 
suscetível  de  adormecer  na  paz  podre  de  uma  amizade  burguesa  e 
estupidamente  feliz...  Moralistas,  quando  tiverdes  descoberto  o  processo  de 
encadear o espírito, devereis erguer um cadafalso para os infames voluntários 
que arremessarem a mulher ao abismo... 
O almoço correra triste como a comunhão de um agonizante. E forte o símile; 
mas é exato. 
Guilherme mandou arrear o cavalo, deu um abraço em Augusta, e disse: 
Vou  hoje  jantar  com  o  meu  tio.  Até  à  noite.  Não  chores,  Augusta...  Eu  te 
pagarei em amor todos os teus sofrimentos. O melhor céu tem tempestades... 
A nossa há de passar ... Acredita que ninguém se faz voluntariamente infeliz ... 
 
 
 


 
 
“D.  João,  num  momento  de  humor  sombrio,  dizia-me,  em  Thorn:  “Há  só 
vinte variedades de mulheres, e logo que se conhecem duas ou três de cada 
variedade começa o fastio. “  
Stendhal — Fisiologia do Apiôr, cap. LIX.  
O autor conhece vinte e uma variedades. 


 
 
CAPÍTULO XVIII 
 
Amaral, no dia seguinte, encontrou o jornalista na Batalha. 
Vens muito a tempo — disse o poeta inexorável no epigrama. 
— 
De quê? 
— 
Queres  ver  o  francês  que  te  mostrei  ontem?  Repara  nesse  homem 
encostado  além  à  vidraça  do  Cruz  cabeleireiro...  Viste?  Agora,  faz  um 
semicírculo  com  os  olhos,  e  vê  a  tua  prima  por  detrás  de  uma  vidraça  na 
Águia de Oiro... Viste? Não per turbes este inocente colóquio de duas almas, 
que se comunicam magneticamente. Respeito às paixões alheias! 
Guilherme  não  sabia  responder  às  ironias  do  poeta.  Cravou  as  esporas  no 
inocente  cavalo,  e,  de  quatro  galões,  entrou  estrepitosamente  no  pátio  da 
hospedaria. Leonor vira-o, e não se deslocou. 
O Otelo foi conduzido ao quarto do seu tio, que desmontou os óculos para 
abraçar o seu sobrinho. 
— 
Estava agora — disse ele — escrevendo à minha mulher, e falando de 
ti, corri vaidade de ser teu tio. Não imaginava encontrar-te tão belo rapaz, e 
tão ajuizado, segundo me contam cá os criados deste hotel, onde estiveste um 
ano de hóspede. A tua prima ficou simpatizando muito contigo... 


 
 
— 
Há alguém com quem ela simpatiza mais, meu caro tio. 
— 
Sim? Essa é boa! Porque dizes tu isso, Guilherme? 
— 
Porque tenho olhos. 
— 
Explica-te; eu não entendo essa charada. 
— 
Se o meu tio tem interesse em entendê-la tenha a bondade de vir a esta 
janela... 
— 
Pois que é? 
— 
Não é necessário abri-la... Queira reparar na primeira janela do primeiro 
andar daquela casa caraira ... 
— 
Não veja nada... sou muito míope... Espera ... aqui está um óculo... 
Teotónio viu pelo óculo, e não se demorou na observação. 
— 
E ele!... — disse o velho, trémulo. 
— 
Pois conhece-o? 
— 
Perfeitamente... É o meu demónio inseparável... o anjo mau da minha 
filha... Escuta-me, Guilherme... Aquele homem é um belga, um estudante, um 
aventureiro. Há dois anos que eu descobri o namoro da minha filha com ele.. . 
Maldita hora em que a tirei do colégio!... Tenho feito tudo o que se pode fazer 
para cortar estas relações. Tive Leonor em Paris... o demónio lá foi ter. Levei-
a para Londres, ele com ela. Viajei o ano passado na Itália, o maldito sempre 


 
 
atrás de nós, em Veneza, em Florença, em Roma. Agora, que me julgava em 
terra desconhecida para o tratante, ele aí está comigo! Isto há de acabar aqui, 
Guilherme. Ajuda-me a salvar a tua prima da perseguição deste malvado... 
— 
De que modo, meu tio? 
— 
Sê franco: tu gostas da tua prima? 
— 
Quem não há de amar aquele anjo? 
— 
Queres ser meu filho? Queres casar com ela? 
— 
Isso  não  depende  só  da  minha  vontade.  O  tio  bem  vê  que  não  é 
honroso  para  mim  aceitá-la  impelida  por  força...  Seria  uma  fatalidade  para 
ambos o nosso casamento. 
— 
Estás  enganado.  As  mulheres  têm  destas  criancices.  “Amam  por 
capricho,  e  esquecem  por  capricho”,  diz  a  minha  mulher,  que  não  é  parte 
suspeita, e tudo que diz, a respeito de mulheres, é um Evangelho, Faz-lhe a 
corte desenganadamente, e verás como ela se volta. 
Creio que se engana, meu tio. Eu posso tentar, mas, se não venço, apesar do 
seu bom auxílio, posso retirar-me muito ferido da peleja. Com o amor não se 
luta por vaidade; e, visto que me manda ser franco, dir-lhe-ei que, desde que vi 
a  minha  prima,  sinto  uma  confusão  de  ideias,  uma  paixão  nascente,  urna 
esperança,  e  um  desalento...  mistura  terrível  de  céu  e  de  inferno...  que  não 
posso — explicar-lhe. 


 
 
— 
Pois bem; explica-te com ela, e mãos à obra. Logo que ela te pareça um 
pouco inclinada para ti, tira-se dispensa, e faz-se o casamento mesmo naquela 
igreja  —  apontando  para  Santo  Ildefonso.  —  Não  há  tempo  a  perder.  Eu 
chamo-a,  e  daqui  a  pouco  ficas  só  com  ela.  Explica-te,  ouviste?  Nada  de 
namoros de criança. Diz a minha mulher que as mulheres gostam de clareza, 
quando é necessário esclarecê-las de uma dúvida... 
Teotónio  chamou  Leonor.  A  menina entrou  com  menos  afabilidade  que  no 
dia  anterior.  Exprimia  no  franzir  do  sobrolho  o  enfado  com  que  vinha. 
Apenas apertou a mão do primo, sentou-se perto da janela para ser vista do 
belga.  Duas,  três  palavras,  um  lance  furtivo  de  olhos  para  a  janela  do 
cabeleireiro.  Amaral  mordia  o  lábio  inferior.  Teotónio  bufava  por  detrás  do 
lenço de assoar. 
— 
Eu volto já — disse o velho, quando já não podia reprimir a zanga. 
— 
Onde vai, papá? 
— 
Vou mandar buscar uma carruagem. 
— 
Para isso escusa ir; eu toco a campainha, e o criado vem. 
— 
Nada... não é preciso... Eu tenho que dizer à dona da casa. 
E Amaral entendia bem a cruel significação deste incidente. Leonor não queria 
ficar  só  com  ele.  Receava  alguma  liberdade  de  expressão.  Era,  talvez,  uma 
desconfiança suscitada por palavras do seu pai... 


 
 
O bom senso não abandona sempre um amante. Guilherme adivinhara. 
— 
Parece-me que lhe sou importuno, prima... 
— 
De modo nenhum... pelo contrário, estimei muito conhecê-lo. 
— 
E eu dera a minha vida por não conhecê-la. Leonor abaixou os olhos: 
não era pudor, era uma repreensão. 
— 
Eu não sou decerto culpada... 
— 
Nem  eu  a  culpo...  Ainda  lhe  não  disse  que  a  fazia  responsável  pelos 
meus desgostos... 
— 
Teria graça se o primo me fazia responsável pelos seus desgostos... Eu 
tenho o prazer de conhecê-lo desde ontem à tarde... 
— 
Mas a vida que passou não é vida. Os infortúnios presentes e os futuros 
são os que se contam... 
— 
Não entendo os seus infortúnios... O primo está brincando comigo, e 
eu não sei se lhe mereço o sentimento da ironia. 
— 
Eu não brinco, Leonor... Esta liberdade fez subir o sangue ao rosto da 
impaciente menina: não era pejo, era cólera. Desforrou-se da ofensa, fixando 
com mais penetração o belga, que não saía do posto. 


 
 
— 
Peço-lhe  que,  ao  menos  por  delicadeza  —  disse  Guilherme  sorrindo 
com  afetada  graça  —  enquanto  me  dá  a  honra  de  lhe  falar,  dê  tréguas  às 
exigências de alguém que a contempla. 
Leonor estremeceu, surpreendida. Teve um mais cálido assomo de cólera; mas 
a razão reagiu, e Leonor, saí da, dois anos antes, da inocente atmosfera de um 
colégio, sorriu-se corri o desdém das nossas damas de quarenta e cinco anos, e 
quarenta e cinco surpresas dessa ordem... Oh!, a França é o país abençoado 
das  mulheres;  ali,  aos  dezasseis  anos,  é-se  perfeita;  conhecem-se  todas  as 
evasivas nos apertos, faz-se de um olhar e de um sorriso uma arma, que dá em 
terra com o orgulho astucioso de um fátuo. 
— 
Esse  sorriso  —  prosseguiu  o  desarvorado  conquistador  é  muito 
significativo, prima. 
Eu  estimarei  que  o  primo  lhe  conheça  a  significação...  Sabe  que  tenho  a 
censurá-lo  de  muita  liberdade  com  uma  pessoa  que  conhece  há  menos  de 
vinte horas? 
— 
Pois censure, mas não me crimine por isso, nem me ofenda... Esse seu 
reparo é um insulto... 
— 
E essas palavras, na Bélgica, em França e em Inglaterra, nunca se dizem 
a uma senhora. Em Portugal não há muito respeito às mulheres, salvo se um 
primo pode dizer o que quer a uma prima... Eu não lhe digo o que quero, nem 
o que penso da sua educação.. 


 
 
— 
A minha educação, primo, foi boa. Aprendi a respeitar a vontade dos 
outros, e, fôra do colégio, tenho uma tão respeitável como ilustrada mãe, que 
me  manda,  sobre  todas  as  vontades,  respeitar  as  vontades  do  coração  dos 
outros... 
— 
Compreendi-a. 
— 
E aborrece-me por isso? 
— 
Não posso nem devo... Lastimo-me. 
— 
E um abuso de palavras sentimentais. Seja meu amigo, primo. 
— 
Sê-lo-ei... mas... muito longe das suas franquezas... Receio que elas me 
matem... 
— 
Werther é conhecido em Portugal? 
— 
É, sim, prima... mas em Portugal há orgulho... Aqui não há mulher que 
valha a pena do suicídio. .. E as que vem de fôra... 
— 
Também o não merecem... Certa estou eu disso... 
— 
Dispõe da minha vontade? — disse Guilherme, erguendo-se. 
— 
Retira-se?  Eu  chamo  o  pai.  Leonor  tocou  uma  campainha.  Veio  um 
criado. 
— 
Diga ao meu pai que o primo vai sair. 


 
 
— 
O senhor Teotónio Vaz — disse o criado — saiu... 
— 
Quando? 
— 
Agora mesmo. 
— 
E onde esteve ele até agora? — redarguiu ela sobressaltada. 
— 
No quarto da vossa excelência. Leonor lançou os olhos de revés para a 
casa  caraira,  e  não  viu  o  belga.  Assustou-se...  Guilherme  apertou-lhe  a  mão 
com hipócrita cordialidade, e saiu. 
Suspeitoso de que o seu tio procurava o seu demónio, encaminhou-se para lá: 
chegando  ao  pátio  do  cabeleireiro,  viu-os.  Era  tarde  para  recuar:  quis 
disfarçar-se, subindo, no momento em que o belga proferia com altivez estas 
palavras: 
— 
Não tem direito algum a privar-me que eu viaje onde viaja a sua filha. 
Um  passaporte  legal  garante-me  passagem  em  toda  a  superfície  do  Globo. 
Hoje estou aqui: de hoje a um ano estarei com os antípodas. 
Guilherme parara. O francês perguntou: 
— 
O cavalheiro quer alguma coisa? Creio que não é chamado aqui. Amaral 
titubeou na resposta: 
— 
Se não sou chamado... apresento-me, sem o ser... 
— 
É o meu sobrinho... — disse Teotónio Vaz. 


 
 
— 
Estimo muito... — replicou o belga —, mas nem por isso tem direito a 
intervir no nosso encontro. 
— 
Tenho o direito a pedir-lhe uma satisfação à menor palavra insultuosa 
que dirija ao meu tio — redarguiu Amaral. 
— 
E eu as mais santas disposições para dar-lhe a satisfação, posto que não 
sou capaz de insultar ninguém – disse serenamente o belga. 
— 
Mas  que  tem  o  senhor  com  a  minha  filha?  —  replicou  Teotónio, 
cruzando os braços. 
— 
O  que  tenho  com  a  sua  filha?  Uma  aliança  do  coração,  que  não 
prejudica a honra do pai nem a da filha. 
— 
Mas  este  senhor  —  atalhou  Guilherme  —,  que  é  pai,  repele  essa 
aliança... não a quer... 
— 
Não tem remédio senão aceitá-la. 
— 
Não tenho remédio! Essa é muito interessante! É a maior bestialidade 
que tenho ouvido!... 
— 
Não é uma bestialidade tão grande como a faz, cavalheiro. O amor não 
se amolda a vontades estranhas. O senhor, como pai, tem livres os direitos de 
tiranizá-la;  eu,  como  homem,  posso  amá-la  eternamente...  Não  quero  mais 
nada... Vivo deste amor, à antiga, é assim que amavam nossos vigésimos avós. 


 
 
— 
Olhe que eu não me rio, senhor! Falo muito sério... É preciso que se 
retire quanto antes de Portugal... quando não... 
— 
Queira terminar a ameaça... 
— 
Quando não... tenho ao meu favor a lei... o senhor é meu perseguidor... 
— 
Não tenho esse mau gosto, cavalheiro... O perseguido, se aqui há vítima 
e algoz, sou eu... 
— 
E um homem sem honra... — atalhou o velho, batendo as duas maxilas 
em convulsiva raiva. Homem sem honra, só pode chamar-me um doido, ou 
um infame. O doido vitupera impunemente; mas o senhor não tem senão os 
cabelos brancos a protegê-lo. 
— 
Meu  tio  não  recorre  à  proteção  dos  cabelos  brancos...  Eu  sou  seu 
sobrinho... Não dou, peço reparação e pronta. 
— 
Como queira, e quando queira. Moro na Hospedaria Francesa, quarto 
número nove. 
O belga saiu com uma cortesia e um sorriso de melíflua urbanidade. 
— 
Vem comigo a casa... — disse Teotónio, tomando o braço do sobrinho. 
— 
Não vou... 
— 
Porque não vens? Não quero duelos. 
E impossível não o haver... 


 
 
— 
Não quero, já te disse... Guia-te pela minha cabeça... Eu sei tudo que 
passaste  com  a  minha  filha...  Vem,  e  faz  de  conta  que  não  tivemos  este 
encontro. 
— 
Eu tenho dignidade, meu tio!... 
— 
Bem o sei... basta seres o filho do meu irmão... és da nossa família; mas 
os  brios,  guarda-os  para  outras  ocasiões...  O  nosso  caso  não  se  leva  à 
pancada... Guia-te pela minha cabeça. .. 
— 
Pois  bem...  se  temos  alguma  coisa  a  dizer,  subamos  para  a  sala  do 
cabeleireiro. 
Subiram, e fecharam-se. 
— 
Eu vou — disse Teotónio — imediatamente retirar-me de Portugal. No 
primeiro paquete, embarco para Inglaterra. Tu deves acompanhar-nos. 
— 
Eu!... 
— 
Guia-te pela minha cabeça. A tua prima há de ignorar a nossa saída, e o 
infame perseguidor não saberá tão cedo o nosso destino... 
— 
E depois? 
— 
Minha filha, em se desenganando, ama-te; e, ao primeiro sinal, casas. 
— 
Meu tio parece uma criança? Pois entende que ela pode esquecer esse 
homem!? Não sabe nada do coração humano. 


 
 
— 
Sei mais do que tu. Guia-te pela minha cabeça. Eu estive com a minha 
mulher  no  mesmo  caso  em  que  estás  com  a  minha  filha.  Amava  um  outro; 
esse outro era um espadachim, e desafiou-me. Qual desafio nem meio desafio! 
Se eu fôra tolo! Que diabo de vitória era a minha se ele me passasse o peito 
com  um  florete!  Ponto  é  ter  a  gente  um  pai  do  seu  lado,  e  uma  pouca  de 
prudência... Guilherme, vens connosco? 
— 
Não posso resolver-me já... 
— 
Podes, não tens a quem pedir licença... 
— 
Resolvo até à noite. 
— 
Depois de amanhã parte o paquete. Não há tempo a perder... Espero-te 
para  jantares  comigo.  .  .  Nem  uma  palavra  suspeita  do  que  passamos  a 
Leonor... Entendes? Guia-te pela minha cabeça... 


 
 
CAPÍTULO XIX 
 
O  jornalista,  durante  esta  cena,  estivera,  na:  mais  tranquila  beatitude  de 
espírito, fumando um charuto, encostado ao último frade (de pedra: nada de 
equívocos  anacrónicos)  da  Rua  de  Santo  António.  Presenciara  os  gestos,  e 
adivinhara tudo. 
Quando Guilherme saiu, a primeira pergunta do jornalista foi esta: 
— 
Quem são os teus padrinhos? 
— 
Vamos  a  tua  casa...  —  disse  Amaral,  acendendo  um  charuto,  com  os 
olhos fitos, por debaixo da aba do chapéu, nas janelas da Águia de Oiro, onde 
a sua prima não estava. 
No corredor da Hospedaria Francesa, onde já dissemos que morava o poeta, 
encontraram-se com o belga, que dava a um criado, que o não entendia, este 
recado: 
— 
Se aqui vierem procurar-me, diz que me não demoro: ou que esperem, 
ou que voltem às duas horas. 
E, reparando nos dois que entravam, continuou: 
— 
Naturalmente procuram-me. 


 
 
— 
Não,  senhor  —  disse  o  poeta.  E  seguiram  seu  caminho.  O  belga 
também seguiu o seu, assobiando. 
Guilherme não era desmedidamente corajoso. O ânimo frio com que o rival o 
interrogara  aquecera-lhe  um  pouco  a  face.  Forte  em  muitas  coisas,  a  sua 
organização  não  se  dava  o  melhor  possível  com  os  ímpetos  de  bravura. 
Poderia  bater-se  em  duelo  cinquenta  vezes:  isso  não  provava  mais  do  que 
bater-se uma só, e todo o homem se bate por causa de uma mulher, ou dá um 
tiro na própria cabeça. 
Quem o conhecia bem era o jornalista. 
— 
Que temos? — perguntou este, saltando para cima da cama, seu sofá de 
receção, e encruzando as pernas em atitude de califa. 
— 
Temos a realização das tuas fatais profecias.  
— 
Já me não lembra a última... 
— 
Minha prima detesta-me. 
— 
Que ingenuidade! E tu adora-la? 
— 
Não sei bem o que sinto. 
— 
Em todo o caso, não a detestas... 
— 
Não. 


 
 
— 
Aí  está  o  que  eu  não  ousaria  profetizar...  Ainda  há  falta  de  brios, 
Guilherme... Metade da tua alma está  afetada de lepra. Desces às dimensões 
do pigmeu... Como se pode amar assim? 
— 
Não sei: há uma palavra que explica tudo: “expiação”. 
— 
Nada explica. Todo o homem tem arbítrio, consciência e amor-próprio. 
O mais vil de todos faz um esforço, e salva-se do vexame e da ignomínia. 
 
— 
Vexame e ignomínia!... que palavras tão estrepitosas!... julgas-te sempre 
em  plena  exaltação  de  folhetim  descabelado!  Onde  está  aqui  o  vexame  e  a 
ignomínia?! 
— 
Na covardia com que te ajudas de um pai para violentar a vontade de 
uma mulher... E pueril a pergunta... 
— 
Tens  frases  duras...  Não  sei  se  admire  mais  a  tua  rudeza,  se  a  minha 
resignação!... Deixa cair a máscara, tartufo... 
— 
Eu  sou  teu  amigo,  Amaral  —  prosseguiu  o  poeta,  vindo  sentar-se 
gravemente  ao  lado  de  Guilherme.  —  És  o  primeiro  homem  a  quem  falo 
assim, é s o primeiro e o último para quem não sou dissimulado. Arquiva os 
diferentes assuntos que temos discutido, e, mais tarde, estuda o carácter deste 
homem de reputação odiosa... Adiante. Que há? Um duelo, não é assim? 
— 
Não há duelo. O meu tio não quer que eu me bata. 


 
 
— 
É um excelente tio; e tu um excelente sobrinho. Aqui não há ironia. E 
depois? 
— 
Meu tio vai para Inglaterra, e quer que eu o acompanhe. 
— 
Vais? 
— 
Não sei ainda. Promete-me Leonor, já desenganada das esperanças que 
pôs no belga. 
— 
E convém-te essa mulher? 
— 
Se  me  convém!...  Não  devo  mentir-te...  Eu  amo-a...  Sem  a 
contrariedade, amá-la-ia menos. Paixão, orgulho, demência, sinto tudo... 
— 
Recebo  a  demência  como  explicação.  Factos  consumados  não  se 
remedeiam. Casado com a tua prima, serás feliz? 
— 
Feliz!... Quem é feliz? 
— 
Ninguém; mas infeliz com desonra nem todos os maridos o são. 
— 
Queres dizer... 
— 
Que  as  mulheres,  casadas  por  violência,  nem  sempre  têm  as  virtudes 
cristãs  da  Angélica  de  Balzac.  É  pena  que  eu  tenha  de  observar  ao  homem 
feito na grande sociedade o que se diz a um provinciano inexperto. julgas-te 
com  méritos  superiores  aos  do  Cristiano  de  Bernard?  Não  receias  ser 
humilhado aos olhos da tua mulher pela astúcia de um Gerfaut? Desculpa as 


 
 
reminiscências  do  romance,  porque é lá  que  tu bebeste as  sãs  e  as  péssimas 
doutrinas do teu código moral. 
— 
Eu acho imortal o interrogatório... 
— 
Pois vela a face com o alvo amicto do pudor, meu angélico amigo. E 
esta a hora solene das verdades duras. Esperas fascinar a tua prima antes ou 
depois de ser tua mulher? Tem a bondade de responder. 
— 
Antes: a pergunta é ociosa e sandia. 
— 
Paciência...  eu  sou  o  sandeu...  julgue-nos  o  futuro.  Argumentemos  na 
mais cândida boa-fé... Não amas a tua prima, Amaral. Deixa-me lisonjear a tua 
vaidade com esta ideia. A minha suspeita faz-te honra. Não podes amá-la já, 
nem  a  amarás  jamais.  já,  não:  porque  o  homem  verdadeiramente  amante 
desconfia  sempre  de  si,  receia  sempre  a  sua  inferioridade  para  merecer 
recompensa  da  mulher  que,  muitas  vezes,  não  exige  grandes  méritos  nem 
grandes provas... Não a amas, porque a viste ontem, foste hoje repelido,  hás 
de  sê-lo  amanhã,  e,  contudo,  é  tão  fátuo  o  teu  orgulho  que  te  prometeste 
vencer a resistência... e vencê-la como? Associado à astúcia, ao capricho, ou à 
violência  do  pai.  Não  a  amarás  jamais.  Concedida  a  hipótese  de  que  a  tua 
prima  vai  ser  tua  mulher,  a  só  ideia  de  que  a  possuis  por  estratagemas 
cavilosos, e indignos do homem generoso e honrado, ser-te-á uma acusação 
da consciência, que te não doe hoje, mas há de pungir-te o ânimo frio, depois 
da  posse.  Casado,  não  poderás  amá-la  por  hábito.  Estás  passando  por  uma 


 
 
crise  decisiva.  É  uma  febre,  uma  congestão  moral,  que  a  reflexão  não  cura, 
porque as circunstâncias tanto apressam o desfecho que te não deixam refletir. 
Tens uma única evasiva. Refaz-te de valentia de ânimo: sê varonil, e diz: “Não 
quero ser vil! Hei de ser honrado por amor de mim! Desprezo a mulher, que 
só pode entregar-se-me forçada por um assédio de violências, de que eu serei 
o instrumento desonroso na mão do pai.” 
Guilherme estava abalado. Nunca o jornalista lhe parecera tão severo, nem tão 
respeitável.  Se  quisesse  replicar-lhe  com  uma  dessas  zombeteiras  liberdades 
próprias de mancebos, não poderia. A palavra, não autorizada pelos anos do 
poeta, mas solene de seriedade, de comoção e de entusiasmo, soava-lhe como 
conselhos de um velho, como austeras reflexões de um pai amigo, ou de um 
irmão extremoso. 
Amaral  erguera-se  com  o  ímpeto  da  aflição,  que  sacode  maquinalmente  o 
corpo, e nos obriga a andar léguas, no pequeno âmbito de uma sala, sem nos 
cansarmos, sem nos percebermos. 
O  poeta  não  quis  acumular  sensações  no  espírito  do  seu  amigo.  Calou-se, 
enquanto ele, atirando em feixes os cabelos para o alto da cabeça, ia e vinha de 
ângulo a ângulo do quarto. 
— 
E Augusta?!... — murmurou Amaral, como se a pergunta fosse feita à 
sua consciência. 
— 
Que dizes? — perguntou o jornalista, fingindo não ter ouvido. 


 
 
— 
Nada... 
— 
E  Augusta?!,  pergunto  eu,  se  nada  disseste...  —  replicou,  sorrindo,  o 
poeta. 
— 
Isto é uma fatalidade!... 
— 
Escreve Anátema nessa parede, como o alquimista de Notre Dame. Eu 
serei o Victor Hugo decifrador desse terrível enigma... Se não queres discutir 
passeando, como os filósofos peripatéticos, senta-te aqui... 
— 
Vou sair. 
— 
Vais para o Candal? 
— 
Não: hoje janto com o meu tio. 
— 
Mas são duas horas... é muito cedo. 
— 
Tenho alguns passos a dar. 
— 
Aprestes de viagem? 
— 
Penso que sim... 
— 
Por  consequência,  perdi  o  meu  latim...  O  demónio  da  loucura  pôde 
mais  que  a  razão  de  um  jornalista  consciencioso...  Estou  vencido,  não  é 
verdade? 


 
 
— 
Nada de valentias hipócritas! Não posso... não posso vê-la ir... O meu 
orgulho  é  atrozmente  ferido.  Nunca  experimentei  o  ciúme:  nunca  me  vi  de 
pior partido em frente de um rival: é vergonhoso ceder essa mulher, sem ter 
esgotado todos os recursos. Hei de vencer! Hei de fasciná-la! Hei de obrigá-la 
a pedir-me que lhe não fale nesse homem esquecido, e desprezado... e, depois, 
se a minha vaidade quiser mais larga vingança, desprezo-a! 
— 
A quem? 
— 
A ela... a minha prima! 
— 
E quantas covardias, para alcançar esse incerto triunfo? 
— 
“Covardias!...  “  pois  sim,  covardias,  se  assim  o  queres;  mas  triunfo 
“incerto... “ não!... É certíssimo... tenho a consciência do que posso. 
— 
E Augusta? 
— 
Não sei. 
— 
Essa  pobre  mulher  deve  ter  um  tal  ou  qual  peso  nas  tuas 
considerações... Que figura faz ela? Um empecilho, que se afasta com a ponta 
do pé, não é assim? 
— 
Não. Augusta não é mulher que se afaste com a ponta do pé... As que 
se afastam assim, caem num abismo. Augusta não cairá. Se quiser ser virtuosa, 
pode sê-lo, sem renunciar às regalias que tem. A casa onde vive ficará sendo a 
sua  casa;  os  criados  que  me  servem  serão  os  seus  criados;  terá  tudo  que 


 
 
ambicionar,  porque  eu  tenho  o  dinheiro  com  que  se  assegura  um  futuro 
abundante a uma mulher. 
— 
E entendes que Augusta está assim paga e satisfeita? 
— 
Se não estiver assim paga e satisfeita, como queres tu que eu salde as 
minhas contas?! Queres que eu case com ela!? Ora, meu amigo,. guarda a tua 
moral  para  os  folhetins,  e  não  me  faças  blocos  de  virtudes,  que  te  não  vão 
bem  à  fisionomia.  Parece  que  queres  fazer  de  mim  um  piegas!  Vai  impor  a 
responsabilidade  do  matrimónio  aos  teus  numerosos  conhecidos,  que 
aumentam todos os dias a estatística da prostituição! Vê lá quantos desses, ao 
cabo de dezoito meses, garantem às mulheres, que seduziram com um capote 
e um vestido, a subsistência brilhante de toda a vida!... É sentir muito ao vivo 
as dores alheias!...  Eis-me aqui  sozinho,  no  momento  mais  crítico  da  minha 
vida!  Quando  esperava  de  ti  os  alentos,  que  um  simples  conhecido  me  não 
negaria, encontro, no meu único amigo, ironias, diatribes, vaticínios ofensivos 
à minha vaidade de homem, e, no fim de tudo, propõe-se-me como remédio 
eficaz  o  casamento  com  uma  costureira  a  quem  não  prometi  solenemente 
casamento  e  com  quem  devo  casar  pelo  simples  facto  de  que  ela  quer  ser 
minha  mulher!  És  importantíssimo!  As  costureiras  deviam  cotizar-se  para  te 
mandarem de presente uma grosa de camisas! 
— 
E olha que preciso delas, meu caro Amaral... Acabas de fulminar-me!... 
Não  tenho  que  te  responda...  A  costureira  deve  ser  imediatamente  expulsa, 


 
 
porque teve a audácia de lembrar-se de ser honrada. E não só expulsa! Voto 
que seja afogada, como Messalina, pelo alçapão de uma catraia! A costureira é 
urna mulher infame, que teve o descoco de reputar-se credora da tua amizade, 
pelo simples facto, tão glorioso para ela, de tu a tirares da Rua dos Arménios, 
onde  tinha  o  péssimo  gosto  de  viver  com  honra,  trabalhando  no  ridículo 
exercício dos suspensórios! Voto que a costureira seja queimada como Joana 
d'Arc! A costureira... 
— 
Tapa  lá a  torneira do  espírito  —  interrompeu  Guilherme, vestindo  as 
luvas,  em  ar  de  retirar-se.  —  A  ironia  é  insulsa  e  parvoinha  como  os  teus 
folhetins moralizadores, em que o bom senso encontra os tours de force de 
um conde de Almaviva, embuçado no capote de D. Basílio... Até à noite... Se 
tiveres a benevolência de me esperar no Guichard, às oito horas, falaremos... 
 
Às  oito  horas,  Amaral  e  o  jornalista,  apartados  dos  grupos  ruidosos,  que 
fomentavam, no Café Chichard, a derrota de uma companhia lírica, tiveram o 
seguinte diálogo: 
— 
Em poucas palavras, diz-se tudo. Não posso demorar-me, que tenho de 
acompanhar a minha prima ao teatro. Acho-a doutros humores. Enquanto a 
mim, Leonor persuade-se que eu pacifiquei o pai e o belga. O meu tio parece 
confirmar a minha suspeita com a sua alegria. Esta ou outra razão, seja qual 
for, fez nela urna incrível mudança desde manhã até tarde. 


 
 
— 
Pode ser um disfarce... 
— 
Será; mas o que eu quero é que ela me dê tempo... A grande questão é 
familiarizar-me.  Nem  todas  as  mulheres  sucumbem  ao  improviso  de  uma 
impressão:  aquela  é  das  que  demoram  muito  a  cristalização,  como  tu  lhe 
chamas. 
— 
Mandas-me  concluir  do  teu  humorístico  programa:  que  vais  para 
Inglaterra, depois de amanhã. 
— 
Justamente. 
— 
E hoje vais dar a Augusta o abraço de despedida... 
— 
A esse respeito, falaremos depois do teatro... São oito e um quarto. Até 
logo. 
Amaral  e  o  jornalista entraram  na sege.  Apearam à porta da  Águia de  Oiro; 
um subiu, e o outro foi para o teatro. 


 
 
CAPÍTULO XX 
 
Quarenta  e  oito  horas  depois,  o  jornalista,  sinceramente  melancólico,  ao 
anoitecer, entrava em casa de Augusta, no Candal. 
— 
A senhora — disse uma criada — está na cama. 
— 
Doente? 
— 
Bem doente. Vossa excelência não viu no Porto o senhor Guilherme? 
— 
Vi... 
— 
E recebeu hoje uma carta para lhe entregar? 
— 
Recebi; mas não lha entreguei. 
— 
Não?! Porquê? 
— 
Diga à senhora dona Augusta que eu preciso muito falar-lhe; que se não 
levante,  se  não  pode;  a  familiaridade  com  que  me  trata,  dispensa-nos  de 
cerimónias. 
O  poeta  esperou.  Augusta  erguera-se  impetuosamente,  e  viera  procurá-lo  à 
sala. Vinha desfigurada. O roupão escuro aumentava o sinistro misterioso da 
fisionomia. Os cabelos, negros como o ébano, luzentes como os olhos, caíam-
lhe até à cintura. A pavidez, a imobilidade, esse torpor cadavérico dos olhos, 
que se cravam na visão impalpável da febre, assustaram o poeta. 


 
 
— 
Onde está Guilherme? — perguntou ela, apenas entrou na sala. 
— 
Senhora dona Augusta... sente-se... 
— 
Diga onde está Guilherme...  — disse ela com impaciência.  — Porque 
não entregou a minha carta? 
— 
Só respondo às suas perguntas quando a vir mais tranquila. 
— 
Que  flagelo,  meu  Deus!...  Por  quem  é,  senhor...  Responda-me: 
Guilherme morreu? 
— 
Não, minha senhora. 
— 
Está doente? 
— 
Também creio que não. 
— 
“Crê”... ou sabe de certo? 
— 
Creio, porque há três horas que ele saiu do Porto. 
— 
Para onde? 
— 
Foi-lhe necessário ir a Inglaterra... 
— 
Sem  mo  dizer  a  mim?!...  Oh,  santo  Deus,  que  perdi  o  amor  de 
Guilherme! 
Augusta caíra sobre uma cadeira, soluçando. 


 
 
— 
Senhora dona Augusta... não perdeu o amor de Guilherme... Foi uma 
saída repentina, que o não deixou vir despedir-se. 
— 
Não me iluda, senhor... Há três dias que daqui saiu Guilherme. .. Nem 
mais uma palavra, nem um bilhete... Que desprezo! Que lhe fiz eu para isto?... 
Diga-me...  seja  sincero  comigo...  Se  eu  não  valho  nada  para  vossa  senhoria, 
abandonada por Guilherme, compadeça-se de uma pobre mulher... Explique-
me este horrível segredo... Eu sei tudo amanhã... que importa sabê-lo hoje?! 
Sou uma infeliz... abandonada, é verdade? 
— 
Não, minha senhora: a prova de que não é abandonada... 
— 
Qual é?... Diga, diga, pelo amor de Deus!... E que a vossa excelência fica 
sendo o que era nesta casa: senhora de tudo, com os mesmos criados, e, para 
assim se conservar, receberá pontualmente uma mesada de cem mil réis... 
— 
Isso  nada  explica...  Não  pergunto  se  estou  pobre;  pergunto  se  estou 
abandonada... se não devo esperar aqui mais Guilherme... 
— 
Pudera iludi-la, dizendo-lhe que sim; mas eu não sei se Amaral fica em 
França com a sua prima... 
— 
A sua prima? Que prima? 
O  jornalista,  inconsiderado,  já  não  podia  engolir  a  palavra  imprudente. 
Augusta instava: 
Que prima é essa? E uma filha desse tio, chegado há pouco da Bélgica. 


 
 
— 
Tenho  compreendido  tudo...  —  disse  com  estranha  serenidade  a 
costureira. — De que serve o resto do segredo!. Agora, se não quer dar-mas, 
dispenso as suas explicações. Está tudo claro como a luz do Sol. Guilherme é 
da  sua  prima:  pertence  à  sua  prima.  Sou  livre,  livre  sim,  embora  arraste  o 
grilhão da desonra... Que tem isso?... Que mais queria uma costureira?... 
E sorria-se; mas que sorriso aquele! O suor escorria-lhe da cara sobre as brasas 
vivas da face. Tremia toda ela. As convulsões do coração denunciavam-se nos 
arquejos do peito. Os braços caíam-lhe prostrados a cada arremesso com que 
afastava  da  testa os cabelos desatados.  O jornalista  fixava-a  como  objeto de 
estudo; mas o coração doía-lhe, e o respeito compassivo a tamanha angústia 
emudecia-o. O sorriso de Augusta era a crispação que vem aos lábios, do fogo 
íntimo, o prenúncio, quase sempre infalível, de demência fulminante, e, raras 
vezes,  a  ironia  pungente  com  que  os  infelizes  recebem  os  reveses.  O  poeta 
não  sabia  optar  entre  estes  dois  sentimentos.  Augusta  avultava-lhe  na 
imaginação,  excitada  pelo  belo  horrível,  como  ente  extraordinário,  heroína 
deslocada  neste  século  de  trivialidades,  tipo  fértil  de  observações,  e  futura 
inspiração de um drama. 
Augusta erguera-se de improviso: não queria chorar na presença do jornalista, 
e  sentia  borbulharem-lhe  nos  olhos  torrentes  de  lágrimas.  Contê-las  era 
sufocar-se,  morrer  sem  um  gemido  surdo,  cair  sem  glória,  morrer  sem 
penitência. Ergueu-se a custo, apertou a mão ao amigo de Guilherme, e pediu-


 
 
lhe desculpa, sorrindo  ainda  com a  graça  que  vos  entristece, e  vos deixa no 
coração uma imagem para toda a vida. 
O jornalista quis estorvar a saída, apertando-lhe a mão, sem largá-la. Augusta 
fez  um  esforço  senhoril,  vencendo  a  resistência  da  mão  trémula,  que  a 
segurava. 
— 
Que vai fazer, senhora dona Augusta? 
— 
Vou  recolher-me  à  cama...  Sinto-me  pior  do  corpo  que  do  espírito... 
Quero viver... devo amparar-me, e necessito de repoiso... Adeus. 
Este adeus tinha o trémulo de um último adeus... O poeta ia replicar, quando 
ela saiu apressadamente. Aterrado, acusando-se da pouca habilidade com que 
se  houvera  na  explicação  do  sucesso,  o  jornalista  deixou  o  Candal, 
acumulando na imaginação todas as desgraças, desde a demência ao suicídio. 
Nessa  noite  quis  escrever  sob  a  pungente  impressão,  e  não  pôde.  Era, 
portanto, verdadeira a sua pena! 
A  meia-noite,  o  poeta  ouviu  o  rumor  de  cavalos  que  saíam  do  pátio  da 
hospedaria. Perguntou ao criado quem saíra, e soube que o estrangeiro partia 
para  Vigo,  e  fizera  tirar  passaporte  para  Inglaterra.  Sem  colher  mais 
informações,  por  julgar  inútil  averiguá-las,  soube  que  duas  horas  antes  um 
criado da Águia de Oiro viera trazer ao belga um bilhete de uma senhora, que 
lá se hospedara quatro dias; o qual bilhete, escrito a lápis, e aberto, o criado 
vira, mas não entendera, porque era em francês, com duas linhas somente. 


 
 
Eram onze horas do dia imediato, e o jornalista recebeu três grossas chaves e 
o seguinte bilhete: 
 
Il. Sr. — Queira V. S.a ser o depositário dessas chaves, que pertencem à casa 
do Sr. Guilherme do Amaral, Os criados foram pagos e despedidos. De V. S. 
a, agradecida veneradora Augusta. 
 
O poeta fez entrar no seu quarto o portador. Era um dos criados. 
— 
Como se entende isto? — perguntou ele. 
— 
Eu sei cá! A senhora, ontem à noite, pagou-nos e disse-nos que às nove 
horas da manhã deveríamos sair todos, menos eu. 
— 
E depois? 
— 
Deixe-me tomar fôlego, pelas almas, que eu não sei o que digo, nem o 
que vi!... Uma coisa assim!... Não se acredita o que eu vi!... 
— 
Pois que foi? 
— 
A senhora andou a pé toda a noite, e fez-me ir buscar a um sótão do 
forro uma caixa de pinho, que eu nunca tinha visto, e fechou-se com ela no 
quarto.  De  madrugada  andou  a  passear  no  jardim:  sentava-se,  ora  aqui,  ora 
acolá, e chorava que parecia morrer! De tudo que ela dizia, só pude, por uma 


 
 
fresta  da  cozinha,  ouvir-lhe  duas  palavras:  “Era  aqui...”  Não  sei  o  que  ela 
queria  dizer  com  isto;  mas  o  caso  é  que  se  sentava  no  tal  sítio,  e  dava  uns 
gritos  abafados,  que  me  cortavam  o  coração.  As  oito  horas  as  duas  criadas 
mandaram-lhe  pedir  licença  para  se  despedirem.  A  senhora  veio  à  sala,  e 
abraçou-as:  parecia  já  outra;  não  tinha  nos  olhos  sinal  de  ter  chorado.  As 
criadas perguntavam-lhe se tinham dado motivo para serem despedidas, e ela 
respondia que não, que lhe perdoassem, e que fossem boas. Valha-me Deus! 
Eu  não  pude  ter  mão  em  mim!  Fui-me  ter  corri  ela,  e  disse-lhe:  “Vossa 
excelência que tem?” “Não tenho nada, Gregório; sou uma criada de servir, 
que acabou o seu ano. “ Assim me Deus salve que tudo isto me parecia um 
sonho!... 
— 
E depois? 
— 
Deixe-me  descansar...  eu  estou  cá  por  dentro  mais  aflito  do  que 
ninguém  pensa...  Depois  que  os  criados  se  despediram,  a  senhora  disse-me 
que chamasse um carreteiro. Fui pedir a um lavrador que me emprestasse o 
seu criado. Quando voltei, a senhora dona Augusta tocou a campainha, e eu 
fui ao seu quarto. Ai, senhor! Quando entrei não sei como não caí com a cara 
no sobrado!. 
— 
Pois que era?! 
— 
A senhora dona Augusta estava outra!... 
— 
Pálida, descorada ... 


 
 
— 
Não era só isso ... 
— 
Pois quê? 
— 
Estava  vestida  como  uma  criada  de  servir!  Tinha  um  vestidinho  de 
chita,  umas  chinelas,  um  lenço  de  algodão  na  cabeça,  e  um  capotinho 
redondo... 
— 
Sim?! — atalhou o poeta estupefacto.  
— 
E  tal  e  qual...  Deu-me  para  chorar...  Não  podia  vê-la  assim...  “Oh 
senhora”, disse eu, “isto que é?” — “É uma criada que se retira sem soldada”, 
disse ela a sorrir-se, que parecia uma santa. “Pois a senhora vai assim à rua?” 
— “Vou como vim”, respondeu ela, caindo a soluçar sobre a borda do leito. 
Santo  nome  de  Jesus!  Tenho  cinquenta  anos,  e  não  me  consta  uma  coisa 
assim! Pois o senhor Guilherme será um malvado, que atire assim à rua um 
anjo como a minha ama? Diga-me, senhor, se me sabe dizer: isto que é? Que 
demónio entrou naquela casa? Onde está meu amo, que me quero ir ter com 
ele, e sou capaz de lhe partir a cabeça numa parede?! 
Mas, diga-me, senhor Gregório: Dona Augusta, depois, saiu? 
— 
Mandou-me pôr às costas do carreteiro a caixa de pinho, que por sinal 
não pesava nada, e saiu, entregando-me esse bilhete e as chaves. Perguntei-lhe 
o que devia fazer aos dois cavalos, que ficam na cavalariça: respondeu-me que 
a  vossa  senhoria  daria  ordens  a  esse  respeito.  Quando  chegámos  ao  cais  de 


 
 
Vila  Nova,  despediu-se  de  mim,  entrou  num  barco,  pagou  ao  carreteiro,  e 
pediu-me a minha palavra de honra de a não seguir, nem dizer o caminho que 
ela levou. 
— 
Desembarcou na Ribeira? 
— 
Já disse a vossa senhoria que lhe dei a ela a minha palavra de honra de 
não dizer onde a senhora dopa Augusta desembarcava. 
— 
Mas eu interesso-me na sorte dela, e o senhor Gregório deve dizer-me 
o que viu. 
— 
Isso é que eu não digo nem ao próprio senhor Guilherme. A palavra de 
um homem não se quebra. 
— 
Viu se ela foi para as bandas de Miragaia? 
— 
E o senhor a dar-lhe... E escusado... não digo nada. Que me diz vossa 
senhoria a respeito dos cavalos? 
— 
Não sei... hei de pensar.. . 
— 
Não que é preciso trazê-los já, ou então ir para lá alguém tomar conta 
dos animais. 
— 
Vá o senhor Gregório... 
— 
Perdoará, mas não vou... Não tenho alma de entrar mais naquela casa, 
enquanto lá não estiver a senhora dona Augusta. 


 
 
— 
Mas quem há de ir? 
— 
Isso não é comigo: vá quem o senhor quiser, menos eu. Não quero ser 
criado de tal amo: quem põe fôra de casa uma senhora daquele modo é capaz 
de me dar um tiro à falsa fé. As chaves aí estão: vossa senhoria fará o que lhe 
parecer. Não quero saber de mais nada. 
— 
Mas  ajude-me  a  dar  algum  expediente  a  isto...  Aquela  casa  não  pode 
ficar assim abandonada: está cheia de objetos de valor, e pode ser roubada... 
— 
Queimada seja ela... que me importa a mim? Fui despedido... 
— 
Mas não o foi pelo legítimo dono da casa.. . 
— 
Pois  diga-me  onde  ele  está,  que  me  quero  despedir...  Foi  para  a 
província? 
— 
Não: foi para Inglaterra. 
— 
Pois  que  tenha  por  lá  muita  saúde.  ..  Para  tratar  assim  aquela  boa 
senhora, escusava sair do Porto... Fosse ela minha filha, ou parenta, cego eu 
seja se o não perseguisse até nas profundas do Inferno! Eis aqui para que um 
pai  cria  uma  filha...  Quem  tem  a  culpa  sei  eu...  Se  houvesse  uma  lei  que 
trancasse  na  Relação  os  sedutores,  não  se  viam  por  aí  tantas  raparigas 
perdidas... Enfim, Deus lá sabe o que faz... O meu senhor, não o enfado mais; 
o que tinha a dizer está dito. Tenha vossa senhoria muita saúde, e se escrever 


 
 
ao  senhor  Guilherme  diga-lhe  que  ainda  há  homens  de  carácter,  capazes  de 
dizer nas bochechas de qualquer fidalgo a verdade nua e crua. 
O  criado  saiu.  Simultaneamente  a  estes  tocantes  esclarecimentos  do 
compassivo criado, Augusta abria a porta da sua casa da Rua dos Arménios. 
Dezanove  meses  eram  corridos  depois  que  aquela  porta se fechara.  Nem  ar 
nem  luz  entrara  ali.  Da  couçoeira  da  porta  e  das  fisgas  das  janelas  pendiam 
grandes teias de aranha sobrepostas. A lingueta da fechadura ferruginosa não 
corria  forçada  pelo  braço  débil  de  Augusta.  O  galego  que  levava  a  caixa  de 
pinho venceu a resistência, e entraram. 
Augusta, apenas respirou o ar represado, recuou para a rua, mandando abrir a 
janela. Parecera-lhe  respirar o  miasma  que ficara  no  leito da  sua  mãe  alguns 
dias depois que a levaram morta. 
A esse tempo a filha do barqueiro, que ouvira ranger a chave, viera à janela, e 
conheceu a costureira. 
— 
És tu, Augusta? — exclamou ela pasmada. Augusta, antes de responder, 
fez  um  esforço,  que  lhe  custou  uma  angústia  indefinível,  uma  vergonha 
semelhante às dores sem nome. 
— 
Sou eu... — balbuciou ela, sentando-se no degrau. A Sra. Ana do Moiro 
saltou  para  a  rua,  cruzou  os  braços  diante  da  costureira,  deu  três  balanços 
solenes à cabeça e murmurou: 


 
 
— 
Quem te viu e quem te vê, rapariga! 
— 
Pois  não  sou  a  mesma?  —  disse  Augusta,  convertendo  em  inocente 
pergunta o grito atribulado que lhe viera do coração, onde a estúpida peixeira 
enterrara um punhal. 
— 
A  mesma!  Vê-te  a  um  espelho,  rapariga!  Estás  magra,  amarela,  e 
recosida  como  a  pele  de  um  bacalhau!  E  a  dizerem-me  que  te  viram  muito 
linda e muito asseada aí para os Carvalhos, com um criado de farda a cavalo, e 
com um figurão ao teu lado!... Com que então, deixou-te o tal pandilha?... 
— 
Senhora Ana, peço-lhe por piedade que me deixe... respondeu Augusta, 
entrando em casa e pagando ao carreteiro da caixa. 
— 
Ó menina, não chores; eu sou sempre a mesma amiga... Enfim, isto não 
a vai matar. O que te sucedeu a ti, sucede a muito boa gente. Como te ficaram 
as boas mãozinhas que tens para a costura, não te há de faltar que fazer. O teu 
primo  ainda  não  casou;  e  tomara  ele  que  tu  o  quisesses,  mesmo  com  o  teu 
erro... 
— 
já lhe pedi que me deixasse, senhora Ana. Peço-lhe pelas dores de Maria 
Santíssima que me não diga nada... faça de conta que eu não estou aqui... 
— 
Pois eu venho dar-te ânimo, e tu mandas-me por fôra da tua casa?! Boa 
vai ela! 


 
 
— 
Não preciso de ânimo... Tenho muito ânimo, senhora Ana. Agradeço-
lhe as suas boas tenções, mas acredite que me mortifica... 
— 
Pois então, adeusinho... A Sra. Ana saiu, rosnando: “E como ela vem 
espevitada!...  Pensará  ela  que  ficou  sendo  fidalga  por...  “  As  reticências 
também  ela  as  pôs  na  língua,  até  ao  momento  propício  de  traduzi-las  em 
linguagem muito chá à primeira vizinha, que o demónio da maledicência lhe 
deparou. 
Augusta fechara a porta. Vai dar-se nesta mulher o que não pode ser dito, e só 
adivinhado  pela  experiência  de  lances  semelhantes.  Com  as  costas  voltadas 
para a luz, Augusta permaneceu imóvel alguns segundos, de pé, com os braços 
pendidos e as  mãos  enlaçadas.  Fixava os  olhos  como  espavoridos  no fundo 
escuro, onde pendia ainda a esteira que formava o tabique do quarto da sua 
mãe.  É  de  crer,  porém,  que  o  não  visse,  nem  visse  diante  de  si  a  mistura 
confusa  de  recordações  cruéis  convertidas  em  imagens,  umas  de  remorso, 
outras de condenação, que lhe apontavam aquelas quatro paredes, como célula 
de expiação e leito de agonia. 
Depois,  passou  a  mão  esquerda  pela  testa  banhada  de  suor  frio,  e  com  a 
direita  procurava  perto  de  si  um  encosto.  É  que  lhe  tremiam  as  pernas,  e 
fugiam-lhe  os  sentidos.  Sentou-se,  e  encostou  os  cotovelos  aos  joelhos  e  a 
face às mãos. As lágrimas vieram, como um hálito de ar à extrema sufocação, 
por  fim.  Parecia  reanimar-se.  Lançou  dos  ombros  o  capote:  foi  ao  pé  do 


 
 
cântaro, tomou com a mão convulsiva a caneca de água, e depô-la, recuando o 
braço, como se tocasse a mão glacial de um cadáver?. 
— 
Que sede, meu Deus! — murmurou ela. — Quem me dera uma gota de 
água... 
Recaiu,  prostrada,  na  cadeira.  Tremores  nervosos  vinham-lhe,  de  instante  a 
instante, como aqueles abalos que precedem o adormecer, e causam o penoso 
sentimento da deslocação das entranhas. 
A  humidade  do  pavimento  regelara-lhe  os  pés,  e,  apesar  da  febre,  o  frio 
generalizara-se.  Augusta  envolvera-se  no  capote  e  sentara-se  sobre  a  cama, 
abraçando-se com os joelhos. Era, assim nessa postura, a imagem da demência 
tranquila.  Dir-se-ia  que  ela  viera  já  demente  do  Candal  para  a  Rua  dos 
Arménios, ou que as ideias aturdidas não tinham a lucidez precisa para ver a 
razoável  situação  do  seu  infortúnio.  E  que  não  proferia  uma  palavra,  não 
soltava  um  grito,  não  procurava  um  instrumento  de  suicídio,  não  caía  de 
joelhos invocando a piedade do Senhor. 
 
Urna hora assim devia preceder a execução de uma terrível ideia. 
Augusta saltara do leito, e, cambaleando, fechara o postigo e trancara a porta. 
Era  completa  a  escuridade  e  o  silêncio  subterrâneo.  Fora-lhe  assim 


 
 
compreensível o terror das antigas emparedadas! Deitou-se. Cruzou as mãos 
sobre o peito, e disse no fundo do seu coração: 
“Meu  Deus,  em  desconto  dos  meus  erros,  aceitai  as  minhas  dores;  tenho 
sofrido  mais,  muito mais do  que poderia gozar,  se fosse  sempre  feliz; agora 
abreviai  a  minha  agonia;  espero  aqui  a  morte,  não  a  demoreis  pela  vossa 
misericórdia. “ 
E  cerrou  os olhos. Mas  o  turbilhão das  imagens  febris  fulgurava  no  seio da 
escuridade. Ao lampejo desses orbes de lume, que se aglomeram nas trevas, se 
fechais  os  olhos  e  os  comprimis,  iluminava-se  o  vulto  de  Guilherme  do 
Amaral, qual o vira, pela primeira vez, naquele quarto. Augusta, então, erguia-
se com ímpeto, abrindo os olhos e estendendo os braços para a escuridão. O 
delírio  era  instantâneo.  A  razão  espancava-a  com  o  flagelo  da  realidade.  A 
costureira recaía na atroz certeza do seu infortúnio, e deixava cair a cabeça de 
encontro à parede gélida, que lha não refrigerava. 
“Não  me  ouvis,  meu  Deus?...  “  murmurava  ela,  erguendo  os  braços, 
ajoelhando-se  e  caindo  com  a  face  sobre  as  mãos,  banhada  de  lágrimas. 
“Minha santa mãe, pedi no céu a minha morte! Resgatai uma filha... “ 
Augusta soltara um grito, quando o coração orava assim uma serene prece. 
Este  grito  era  o  despertador  das  angústias,  dos  frenesis,  por  assim  dizer, 
adormecidos  na  atrofia  em  que  a  deixara  o  jornalista,  vinte  e  quatro  horas 
antes. 


 
 
E,  quando  assim  a  dor  ia  reassumir  toda  a  sua  energia,  bateram  à  porta  de 
Augusta. 


 
 
CAPÍTULO XXI 
 
Depois que o severo Gregório saíra, deixando as chaves da casa abandonada, 
o  jornalista  formara  entes  de  razão,  e  deduzira  de  todos  que  a  heroína, 
superior ao que ele a imaginava, passava do Candal para a Rua dos Arménios. 
Amador da tragédia, e curioso investigador de tudo que pudesse aumentar o 
seu grosso cabedal de experiência, o poeta, neste caso, não era só observador: 
entrava de coração no enredo do futuro romance, que devera ser de lavra sua, 
se o não encarregasse a pessoa menos hábil que ele. 
E,  portanto,  o  jornalista  saiu  logo,  procurando  a  Rua  dos  Arménios,  que 
nunca  vira.  A  única  pessoa  encontrada  a  jeito  a  informá-lo  era  a  Ana  do 
Moiro,  que,  da  janela  para  a  rua,  traduzia  literalmente  a  uma  vizinha  as 
reticências  que,  ainda  agora,  deixaremos  em  jeroglífico  à  penetração  dos 
leitores. 
O jornalista, cortejando primeiro a Sra. Ana para captar-lhe a atenção, pediu-
lhe  o  favor de  lhe  dar  umas  informações.  A  peixeira  desceu  à  porta  da  rua, 
dizendo  que  o  não  mandava  subir,  porque  a  sua  casa  não  era  própria  para 
fidalgos. A filha do barqueiro tinha o bom senso de dar diplomas gratuitos de 
foro grande a todo e qualquer cidadão enfardado numa quinzena, que era o 
invólucro favorito da época. Com tais diplomas, a Sra. Ana, se não tirava nem 
aumentava  nada  a  condição  dos  agraciados,  também  lhe  não  aumentava  “o 


 
 
ridículo”,  nem  lhe  tirava  da  algibeira  os  direitos  de  mercê.  A  Sra.  Ana, 
portanto, era a única pessoa de quem eu receberia um título. 
Tem vossemecê a bondade de me dizer — disse o jornalista — se conheceu, 
há cerca de dois anos, nesta rua, uma costureira chamada Augusta? 
— 
Se  conheci!...  Olhe...  vê  acolá  aquela  casinha  sem  sobrado,  com  uma 
porta pintada de verde? É a casa dela. 
— 
E sabe dizer-me se Augusta terá aparecido aqui desde que abandonou 
aquela casa? 
— 
Eu  digo-lhe:  a  rapariga desde  que  saiu de  casa com  um  sujeito, que a 
seduziu, a primeira vez que voltou lá foi hoje. 
— 
Sim?! Vossemecê tem a certeza de que ela veio cá hoje? 
— 
Pois se eu estive com ela, há de haver hora e meia! 
— 
Muito obrigado... E sabe dizer-me se ela estará em casa? 
— 
Está, sim, senhor. Tenho estado sempre à janela, dei fé de ela fechar o 
postigo, e não voltou a entrar nem sair ninguém. 
Agradecido... Aqui tem vossemecê uma pequena recompensa do serviço que 
me fez. 
Ana aceitou sem repugnância um cruzado novo; mas não prescindiu de saber 
quem lho dava. 


 
 
— 
Então vossa senhoria conhece Augusta? 
— 
Conheço... 
— 
E conhece também o senhor Guilherme, que tão mau pago lhe deu? 
— 
Pois vossemecê conhece o senhor Guilherme? 
— 
Está bom se conheço! Sei todas estas coisas desde o seu princípio. Foi 
ele quem me foi chamar ao arraial de Miragaia, na véspera de São Pedro, para 
vir estar com ela, quando lhe morreu a mãe... Ora diga-me, ainda que eu seja 
confiada, o senhor Guilherme deixou a rapariguinha? 
— 
Não, senhora... 
— 
Então foi ela que lhe fugiu? 
— 
Também não... Se vossemecê me dá licença, não me demoro mais... 
— 
Pois vá, vá com Deus; eu não me importa saber a vida alheia; e, se for 
necessário alguma coisa, estou aqui pronta. Nós somos uns para os outros. 
O jornalista colou o ouvido à fechadura da porta, e não ouviu rumor algum. 
Voltou-se  para  a  janela  da  peixeira,  e  disse-lhe,  por  acenos,  que  não  ouvia 
nada. A Sr.? Ana, frenética e serviçal, desceu para a rua, e veio confirmar ao 
poeta que Augusta estava em casa, dando-lhe como prova o estar a chave por 
dentro. 


 
 
Foi  nesse  comenos  que  Augusta  soltara  um  grito,  e  o  jornalista  batera  na 
porta. 
— 
Estará ela a matar-se!... — disse a vizinha. 
— 
É  muito  possível...  —  confirmou  o  literato,  batendo  com  mais  força, 
sem ouvir outro grito, nem alguma resposta. 
— 
O  mais  acertado  —  acrescentou  a  peixeira  —  é  arrombar  o  postigo; 
com dois murros vai dentro. 
— 
Entendo que sim. Palavras não eram ditas, a filha de António Correia 
fazia  pé  atrás,  e  imprimia  tal  choque  nas  rótulas  do  postigo  que  nem  as 
portadas internas resistiram ao impulso. Ouviram um segundo grito... 
— 
Ainda é tempo... — disse o poeta. — Salte vossemecê pelo postigo, e 
abra-me a porta. 
Ana, em menos tempo do que o preciso para contá-lo, saltou dentro, tirou a 
tranca, abriu a porta, e correu ao fundo, onde Augusta, sentada na cama, com 
os  braços  estendidos  para  o  clarão  súbito  da  luz,  e  os  olhos  terrivelmente 
esgazeados, parecia não entender o que se passava na sua casa. 
O poeta disse ao ouvido de Ana: 
— 
Vossemecê tenha a bondade de retirar-se até que eu a chame, que talvez 
seja aqui necessária. 


 
 
Ana  saiu  chofrada  um  pouco  por  não  ser  precisa  desde  logo.  Custava-lhe 
muito não estar em momento com os sucessos. 
— 
Que é isto?! — disse ele, tomando a mão de Augusta, que parecia não o 
ter ainda conhecido. — Não conhece o seu amigo?! Senhora dona Augusta... 
— 
“Dona”  Augusta...  —  murmurou  ela,  sorrindo.  “Dona”,  Augusta  sou 
eu? 
— 
E... é a mais nobre de todas as mulheres; é a mulher que se levanta da 
queda com majestade superior à que tinha antes de cair... 
Zombaria... — atalhou ela, deixando voar nos lábios um sorriso de escárnio 
de si mesma. 
— 
Zombaria?!  Não,  senhora!  Eu  creio  que  a  mão  da  Providência  me 
conduz aqui... não vim para zombar da vossa excelência. 
— 
“Vossa excelência!... “ Pelo amor de Deus!... Não vê o que eu sou? 
— 
E um anjo, é a mais nobre de todas as vítimas, é um ente superior, que 
deve existir para que os incrédulos se espantem... A minha amiga... deixe-me 
dar-lhe  este  nome...  A  minha  amiga,  receba-me  no  seu  coração  como  se 
recebe um irmão... chore muito na minha presença, conversemos muito nos 
seus infortúnios... mas viva, tenha orgulho de viver... seja superior à desgraça 
para se não confundir com as vítimas que sucumbem ... Eu prometo restituir-
lhe o amor de Guilherme... 


 
 
— 
Não restituirá... Esse homem morreu para mim... atalhou ela acenando 
negativamente  e  pasmando  os  olhos  num  ponto  imaginário.  Pouco  depois, 
uma  torrente de  lágrimas  e soluços  lhe embargam  a  voz.  Era  isto  mesmo  o 
que o jornalista queria conseguir, e esperava não conseguir tão cedo. Houve 
silêncio  de  alguns  minutos.  O  poeta  não  esperava  das  consolações  por 
palavras  tirar  o  proveito  que  as  lágrimas  dão.  Deixou-a  chorar,  até  que  ela, 
soluçando, lhe disse: 
— 
Muito  agradecida...  Parece-me  que  estou  melhor...  Permita  Deus  que 
este alívio se demore... 
— 
Há de permitir... É minha amiga? 
— 
E devo eu ser sua amiga?... Pois sim... sou... 
— 
Faz-me o que lhe vou pedir? 
— 
Que é? Farei, se puder. 
— 
Deixe  esta  casa  logo  que  eu  lhe  dê  uma  outra  em  que  viva 
acompanhada  de pessoas  que a estimem;  e  se, passado algum  tempo,  quiser 
tornar para aqui, tornará. 
— 
Não posso fazer o que me pede... Não teime nesse oferecimento, que 
nem lhe sei agradecer, porque me está propondo um inferno,  pensando que 
me faz bem... Isso era morrer sem ao menos poder chorar... Não, não aceito... 
Se é meu amigo, não me torne a dizer tal coisa. 


 
 
— 
Que tenciona fazer? 
— 
Preciso morrer, e morrer aqui... 
— 
Eu  morreria  de  pesar  se  a  deixasse  livremente  cumprir  essa  louca 
tenção. Há de viver, senhora dona Augusta, porque lhe prometo de restituir-
lhe Guilherme, antes de dois meses, com a súplica do perdão nos lábios, e o 
coração mais nobremente apaixonado do que até aqui... 
— 
Não  queira  enganar-me,  porque  eu  não  me  engano...  já  lhe  disse  que 
esse homem morreu para mim... 
— 
E não me deixa ser o instrumento da Providência? Não me dá tempo 
que  eu  ceda  a  uma  força  oculta,  que  me  manda  esperar  pela  volta  de 
Guilherme?!  O  senhora  dona  Augusta,  em  nome  da  sua  mãe  lhe  peço  que 
espere,  que  creia  na  recompensa  da  virtude,  que  creia  um  pouco  no  meu 
poder, que me ajude a alimentar a esperança de a ver outra vez feliz com o 
homem que, neste momento, não sabe que mártir deixou... Não me atende? 
— 
Queria; mas não posso: Deus, se quisesse que eu esperasse, inspirava-
me... Não espero nada... Acabou tudo. 
— 
E quererá Deus que a vossa excelência se suicide? julga que é um acto 
meritório a desesperação? 


 
 
— 
Não  sei,  senhor  ...  Não  me  repreenda.  Que  pode  interessar  a  Deus  a 
minha vida? Como hei de eu consolar-me? Morro, porque não posso viver ... 
Se eu pudesse ser feliz, era-o... 
— 
A esperança... 
— 
Em quê? 
— 
Em  mim...  Desde  este  momento  começo  a  trabalhar.  Sei  que  posso 
muito no coração de Guilherme... Confia em mim? 
— 
Se  eu  pudesse  viver...  esperava!...  —  respondeu  ela  com  a  face 
iluminada por um relâmpago de esperança. 
— 
Pois bem... — acudiu o literato com o entusiasmo das almas nobres e 
demasiado crédulas. — Ajude-me, minha amiga... 
— 
Como? 
— 
Vivendo, desejando viver, sujeitando-se à minha vontade... 
— 
Sair daqui? Isso não. 
— 
Pois  bem,  fique...  mas  dê-me  o  prazer  de  velar  pela  sua  vida, 
melhorando-lhe,  quanto  eu  puder,  a  sua  situação.  Eu  mando-lhe  para  aqui 
uma criada. 
— 
Não preciso... não aceito... 
— 
Resiste ao menor desejo!... E ingratidão! 


 
 
— 
Não diga tal, que me magoa mais do que pode imaginar... 
— 
Consente, ao menos, que esta sua vizinha, que veio comigo, a sirva? 
— 
Pois sim, enquanto eu não puder trabalhar. 
— 
Deixa-me dar ordens à minha vontade? 
— 
Não,  senhor...  Essa  mulher  virá  falar  comigo;  eu  lhe  pedirei  o  que 
preciso. 
— 
E virei aqui todos os dias vê-la. 
— 
Não, não venha, de joelhos lhe pediria este favor se não contasse com a 
sua generosidade. Não me visite... Eu lhe farei saber o meu estado... Se eu me 
vir  em  perigo de  vida,  virá  então,  porque  lhe  quero deixar  algumas  palavras 
para o seu amigo. 
— 
Não  confia  em  mim!...  Pensei  que  lhe  merecia  a  condescendência  de 
poder visitá-la!... 
— 
Merece-a;  mas,  se  o  seu  fim  é  aliviar  os  meus  sofrimentos,  creia  que 
seria  inútil  a  sua  vinda  a  este  sepulcro...  O  que  eu  não  puder  fazer  sozinha 
comigo, ninguém o fará. 
— 
E não deseja que eu lhe dê notícias de Guilherme? 
— 
Não desejo, nem quero... Se o Guilherme fosse infeliz, interessava-me 
saber que o era, para ao menos imaginar o modo de lhe ser útil, ou chorá-lo, 


 
 
se  nada  pudesse.  Guilherme  não  é  infeliz...  As  minhas  lágrimas  não  lhe 
pesarão na consciência... Vá, meu amigo, mande-me a minha vizinha... Tenho 
muita sede... não há aqui uma gota de água. 
O  jornalista  saiu,  entrou  nas  escadas  da  Sra.  Ana,  deu-lhe  dinheiro,  todo  o 
dinheiro  que  tinha,  e  muitas  palavras  afetuosas,  com  promessa  de  lhe  dar 
todos  os  sábados  uma  igual  quantia  para  suprir  a  todas  as  precisões  de 
Augusta 
A Sra. Ana, espantada da liberalidade do novo pretendente, segundo ela, foi 
desveladamente servir a costureira, começando pela limpeza da casa. 
Augusta chamou-a,— e disse-lhe: 
— 
Senhora Ana, é chegada a ocasião de lhe vender a casa: compra-ma? 
— 
Compro, filha; mas que precisão tens tu de a vender? 
— 
Mais precisão que nunca. Não tenho cinco réis meus. 
— 
Estás enganada! Olha... aqui estão doze cruzados novos, que me deu o 
senhor que de cá saiu, e ficou de me dar todos os sábados outro tanto. 
— 
Pois quando lhe vierem dar no sábado o outro tanto, vossemecê terá a 
bondade de restituir o que recebeu agora. 
— 
Deixa-te disso, Augusta... 
— 
Não me contradiga, senhora Ana. Compra-me a casa? 


 
 
— 
Já te disse que sim... 
— 
Pois dê-me hoje algum dinheiro, e mande-a avaliar quando quiser. 
— 
Pois sim, filha. 
— 
Vossemecê dá-me uma gota de água? Morro de sede. 


 
 
CAPÍTULO XXII 
 
O jornalista era uma bela alma. Mártir da opinião pública, raros homens tenho 
conhecido que tanto como ele se pagassem do galardão da consciência. Menos 
ainda  hei  visto  que  tão  legítimo  e  razoável  desprezo  tenham  votado  ao  tão 
estúpido como infame júri que por aí o condenava, absolvendo infamíssimos 
“virtuosos” dos muitos e tantos que por aí refervem, que eu desconfio que tu 
sejas um deles, leitor. Se o não és, e te julgas ofendido, deixas de ser mau para 
ser tolo. Como quiseres. 
O  jornalista  vinha  eu  dizendo,  que  era  uma  bela  alma.  Sentir  assim, doer-se 
tanto, admirar com tão patético entusiasmo o heroico infortúnio de Augusta, 
são virtudes muito raras no homem, que, pela sua posição em contacto com 
todas as desgraças, oriundas do vício, perde a sensibilidade, e chega a encará-
las com a impavidez do cinismo. 
Ele não.  A  imagem da  costureira,  idealizada  como  ele  costumava  idealizar a 
desgraça,  não  lhe  esquecia  um  instante,  ao  seu  pesar.  O  folhetim  do  dia 
seguinte àquele em que a vira, foi uma elegia em prosa, um abstruso elevar-se 
para dores fantásticas, que ninguém teve coragem de ler até final. Nesse dia 
escreveu dez páginas de um álbum, uma longa meditação, que naturalmente 
fez  adormecer  a  dona  do  dito  álbum,  que  esperava  uma  qualquer  coisa  em 
linhas com letras maiúsculas no princípio, dedicada a ela, formosa senhora, a 


 
 
ser verdade o dito dos poetas seus conhecidos, com lábios de rubim, dentes 
de marfim, mãos de ágata e pescoço de alabastro. Toda ela, pelos modos, era 
um mosaico. 
Se eu pudesse haver à mão o álbum, transcreveria aqui a Meditação do amigo 
de  Guilherme  do  Amaral.  Transluzia  desse  hino  uma  dor  sincera,  uma 
correção  a  devassos,  boa  cópia  de  máximas  para  uso  dos  nossos  velhos,  e 
preciosíssimas  lições  para  costureiras  que  soubessem  ler,  e  para  leitoras  que 
não são costureiras. 
É  impossível.  O  álbum  já  não  existe.  A  sua  ilustrada  dona  casou  com  um 
homem  sério,  avesso  a  poesias  e  romances,  incendiário  obscuro,  espécie  de 
Maomet  chulo,  que  manda  aquecer  os  semicúpios  com  os  folhetins  e 
brochuras  poéticas  empalmadas  traiçoeiramente  no  toucador  da  sua  mulher. 
O  álbum  desapareceu  em  faúlas  no  fogão,  de  envolta  com  um  molho  de 
carqueja, visto que o cônjuge irracional não podia meter o dente no primeiro, 
podendo muito bem metê-lo no segundo género de combustível. 
Apesar destes e doutros, o poeta era um nobre coração. No dia seguinte ao do 
encontro na Rua dos Arménios, procurou ele a Sr. a Ana do Moiro, e soube o 
que  se  passara.  Augusta  repelira  o  dinheiro  caritativo,  recebera  três  moedas 
por  conta  da  casa,  tomara  alguns  caldos  de  galinha,  e  proibira  à  enfermeira 
falar-lhe em Guilherme do Amaral. 


 
 
O  jornalista  mandou-lhe  entregar  uma  carta.  Eram  consolações  das  que  se 
recebem com lágrimas. 
Dois  dias  depois,  soube  ele  que  essa  carta  fizera  chorar  muito  Augusta:  o 
poeta ficou satisfeito do resultado, que previra. Era o literato de opinião que 
todas as dores se diluem no choro, e as incuráveis são as que se recolhem ao 
coração,  embebendo as lágrimas  e o  sangue.  “As  lágrimas  represadas”, dizia 
ele  num  dos  seus  folhetins  ininteligíveis,  “sobem  ao  cérebro,  cristalizam  e 
produzem  a  demência,  ou  a  morte”.  Os  médicos  riram  conscienciosamente 
desta  patologia,  e  não  deram  até  hoje,  da  demência  e  da  morte,  por  amor, 
outra explicação melhor. Tudo o que eles têm dito é inferior a isto. 
Oito dias depois, o poeta procurou a Sr.? Ana. 
— 
Tenho muito que lhe contar... — disse ela. 
— 
Triste ou alegre? 
— 
Não  põe  nem  tira.  Eu  digo-lhe,  meu  senhor.  Não  sei  se  a  vossa 
senhoria  sabe  que  Augusta,  antes  de  ir  para  o  senhor  Guilherme,  tinha  um 
casamento meio ajustado com um primo. 
— 
Já sei. 
— 
O bom do rapaz, depois que ela desapareceu, andava como a cobra que 
perdeu a peçonha. Vinha onde a mim, e chorava que era uma coisa! Parecia 
que morria ou endoidecia. De noite chorava em frente da porta dela, e estava 


 
 
ali  horas  e  horas  ao  frio  e  à  chuva,  que  parecia  mesmo  uma  aventesma. 
Depois, não o vi um pouco de tempo, e perguntei ao patrão o que era feito 
dele.  Disse-me  que  desconfiava  que  se  tinha  botado  a  afogar.  Rezei-lhe  por 
alma  ao  deitar  da  cama,  e  vai  senão  quando  uma  tarde  rebenta-me  aqui  o 
Francisco,  muito  amarelo,  dizendo  que  tinha  estado  doente  no  hospital. 
Sempre lhe direi que ganhei um medo! “Pois tu não morreste?”, disse-lhe eu. 
“Não, não morri ... “ 
— 
E o mais é que não tinha morrido... Sempre acontecem coisas! 
— 
E depois? 
— 
Depois, meu amiguinho e senhor, passados dias, o Francisco  voltou a 
andar  por  aqui  de  noite;  mas  já  não  fazia  diabruras.  ..  Coitado...  chorava,  e 
mais  nada!  Parecia  um  tolinho!...  Antes  de  ontem,  à  meia-noite,  vinha  eu 
saindo de casa de Augusta para recolher a minha gata, que estava a miar na 
rua, e dou com ele perfilado com a porta. “És tu, Francisco?”, disse-lhe eu, 
preparando um murro para se fosse outro, porque, como o outro que diz, eu 
não conheço flamengos à meia-noite. “Sou eu, tia Ana. Vossemecê foi arejar a 
casa de Augusta?” — “Não, rapaz; fui dar de cear à tua prima, “ — “A minha 
prima!”, gritou ele, e foi dito e feito! Entrou pela porta dentro que parecia um 
doido; foi ao pé dela, e arregalou os olhos para a rapariga, que estava mesmo 
aterradinha...  E  quer  vossa  senhoria  saber  o  que  eles  fizeram?  Deram  em 
chorar, chorar, chorar, que pareciam duas crianças. 


 
 
— 
E não falavam? 
— 
Nem  um  pio!  Augusta  deu-me de  olho para  que  eu  saísse,  e  ficou  só 
com ele. Quando tornei, Francisco tinha saído. Eu ia-me deitar num enxergão, 
que  botei  aos  pés  da  cama  dela,  e  a  rapariga  disse-me:  “Não  se  deite  por 
enquanto que tem de abrir a porta ao meu primo.” E vai eu disse: “Pois ele 
vem  cá  ainda  hoje?”  —  “Foi  buscar  a  cama  dele,  e  quer  dormir  aí  fôra 
enquanto eu estiver doente.” E de feito às duas horas da noite entrou a cama 
do rapaz pela porta dentro, e ele deu as boas-noites a Augusta e deitou-se. O 
resto é que a vossa senhoria não sabe... 
— 
Que é?... 
— 
Ontem  veio  ele  ter  comigo,  e  pediu-me  se  eu  lhe  vendia  a  casa  da 
prima, sem lhe dizer nada a ela, que me dava vinte mil réis de ganho. Deixei-a 
ir, e ele passou-me logo o dinheiro. Cá enquanto a mim o rapaz quer sustentar 
Augusta à custa dele, e quer que ela pense que o dinheiro sou eu que o dou 
pela casa. E sabe que mais? A rapariga às duas por três casa com ele. 
Esta reflexão da Sra. Ana matou algumas ilusões ao jornalista. O desfecho do 
drama parecia-lhe ridículo, e indigno do seu folhetim e da sua Meditação!... 
— 
E porque suspeita vossemecê que ela case com o fabricante? 
— 
Porque a vejo sempre a chorar ao pé dele, e o bom do rapaz bota-lhe 
umas  olhadelas  tão  meigas  que,  pelas  tralhas  ou  pelas  malhas,  dali  ao 


 
 
casamento não vai longe. E, a falar a verdade, ela que mais quer? O Francisco 
é contramestre, e ganha na fábrica de Lordelo oiro tostões por dia... 
— 
Ora diga-me: vossemecê não conseguirá que eu fale com ela? 
— 
Não fico por isso. Eu já lhe disse que faria bem conversar um pouco 
com a vossa senhoria, e ela disse-me que por enquanto não. Não sei que lhe 
faça... deixe-a arrijar. 
O  jornalista  retirou-se  com  a  descosida  narração  da  peixeira:  levava  o 
entusiasmo  muito  desvanecido,  a  admiração  afroixada,  e,  enfim,  a  poesia  da 
tragédia um pouco convertida “de lúcidos cristais em água chilra”. Não seria 
tão  completa  a  deceção,  se  a  tagarela  da  vizinha  contasse  as  coisas  doutro 
modo. 
Não há dúvida que a costureira, vendo  o seu primo, chorou; e o fabricante, 
vendo  Augusta,  não  chorou  menos.  Isto  é  natural.  Aquele  homem,  cinco 
meses antes, tentara contra a própria vida, por não podei— tentar contra a do 
homem que lhe roubara a mulher ali deitada no pobre leito, que ele quisera 
enflorar  com  as  coroas  de  uma  paixão  santa  e  nobre.  Cinco  meses  antes, 
Augusta  velara  as  noites  ao  pé  do  seu  primo,  pensara-lhe  o  ferimento  do 
pescoço, e quisera cicatrizar-lhe, em balde, com afagos e extremos de amiga, a 
chaga eterna do coração. Para Augusta, nada mais santo nem mais verdadeiro 
que o profundo amor do fabricante; para Francisco, sobre a Terra, nenhuma 
mulher,  que  valesse  mais  que  a  sua  prima,  ainda  ingrata,  ainda  desonrada, 


 
 
ainda abandonada, ainda sem a beleza que, em menos de cinco meses, raros 
vestígios  conservava  do  que  fôra.  Eram,  pois,  bem  naturais  essas  lágrimas, 
quando a mulher era Augusta, e o homem esse que vimos em menos de cinco 
minutos praticar, no Candal, dois arrojos de heroísmo, raras vezes reunidos: 
poupar  a  vida  do  rival,  por  amor  da  amante;  suicidar-se,  para  não  ver  sem 
castigo o crime. 
Quando a vizinha saíra, Augusta estendeu a mão a Francisco, e aproximou-o 
de si murmurando: 
— 
Soubeste que eu estava aqui? 
— 
Não. 
— 
Ias passando na rua? 
— 
Não... estava parado... 
— 
Porque viste luz? 
— 
Foi porque venho algumas vezes aqui. 
— 
A minha porta? 
— 
Sim... mas não esperava ver-te mais nesta casa. 
— 
Eras meu amigo? 
— 
Tu és sempre minha prima... Devo-te muitas obrigações... 


 
 
— 
E vens agora pagar-mas? 
— 
Não  precisas  de  mim,  Augusta;  e  oxalá  que  nunca  precises,  mas,  se 
precisares,  não  tens  outro  parente;  amigos  terás  muitos,  mas  amigos  pelo 
sangue sou eu só. 
— 
Estás vingado, Francisco. 
— 
Eu  não  me  queria  vingar,  Augusta...  Se  estás  desgraçada,  sabe  Deus 
quanto me custa ver-te assim... Não me digas nada do que sé passou... Eu faço 
ideia... 
— 
De  que  fui  abandonada?...  Pois  sim,  não  falemos  nisso...  Brevemente 
terei de falar muito na minha vida ao confessor... 
— 
Pois tu estás assim doente?! 
— 
Não vês que estou quase morta? 
— 
Pois  não  hás  de  morrer,  Augusta...  Não  te  aflijas  tanto.  O  passado, 
passado. já mandaste chamar cirurgião? 
— 
Não há cirurgia para a minha enfermidade... 
— 
Pois que tens tu? 
— 
E isto que vês... alguns dias a preencher. 
— 
Dás licença que eu venha aqui passar as noites? 


 
 
— 
Não, meu primo... fica longe a fábrica, e seria necessário aqui ficares. 
— 
Ficarei... hoje mesmo. 
— 
Não... 
— 
Por quem és, dá-me este prazer. Faz agora cinco meses que tu passavas 
as noites a pé ao meu lado... 
Francisco saíra, como disse a Sra. Ana, e voltara com a cama às duas horas da 
noite. 


 
 
CAPÍTULO XXIII 
 
Francisco  visitava  todas  as  manhãs  a  fábrica,  e,  por  consentimento  do  bom 
patrão, voltava para a Rua dos Arménios a jantar com a sua prima. O cirurgião 
vinha diariamente observar o curativo de uma doença incógnita. Ignorando os 
precedentes, o intérprete da natureza contemplava os sofrimentos de Augusta 
como se o pusessem em frente dos jeroglíficos indianos para traduzi-los. Não 
obstante, o bom desejo que o hábil facultativo tinha de triunfar alguma vez de 
uma moléstia rebelde inspirou-lhe uma farmácia digna de melhores resultados. 
Augusta  queixava-se  de  uma  agonia  no  coração,  um  mal-estar  indefinível 
semelhante  ao  deslaçar-se  de  todas  as  fibras  do  peito.  Elucidado  assim,  o 
cirurgião aplicou-lhe uma cataplasma de linhaça com óleo de amêndoas doces 
no estômago, e leites de jumenta na Primavera. Excelente medicina, que lhe 
não fez mal nenhum! 
O fabricante, sem consultar Augusta, mudou de assistente. Veio um médico 
dos mais nomeados, e não era injusto o nome que tinha. Apenas lhe tateou o 
pulso, e devassou um pouco a vida da enferma, declarou que Augusta estava 
no primeiro período da gestação. O fabricante pediu explicação das palavras, e 
empalideceu, ouvindo-a. O médico consciencioso despediu-se: não tinha nada 
a  fazer  contra  o  processo  regular  da  doença:  limitou-se  a  oferecer  o  seu 
préstimo oito meses depois. 


 
 
Francisco mudara de rosto, e a costureira não sabia a causa. Interrogava-o, e 
ele respondia sorrindo; mas para Augusta a significação de tal sorriso era mais 
expressiva do que seriam as lágrimas. 
— 
Disse-te  o  médico  que  eu  morria?...  Que  importa!...  Não estejas  triste 
por isso... 
— 
O médico não me disse que morrias... 
— 
Pois então, que tens? Porque te sentas tão triste ao pé de mim? Se te 
aborrece esta vida, não te constranjas, Francisco... Vai para o teu trabalho, que 
me dás mais prazer... 
— 
Aborreço-te aqui? 
— 
Assim  desse  modo,  não  digo  que  me  aborreças,  mas  penalizas-me... 
Diz-me o que tens. 
— 
Nada, Augusta... Tenho pena de te ver sofrer... 
— 
Isto está por pouco... já hoje tive vómitos, e lancei sangue... 
— 
Esses  vómitos,  Augusta...  não  são  o  que  tu  pensas.  Francisco  saíra 
aceleradamente do quarto da sua prima. 
— 
Vem cá — exclamou ela com veemência.  — Olha, Francisco, eu não 
entendi o que disseste... 
— 
Eu volto logo, Augusta. .. Vou à fábrica... 


 
 
— 
Espera um momento... tira-me as suspeitas... 
— 
Isso é fácil... A Ana do Moiro  há de explicar-te melhor do que eu os 
teus incómodos... Alguma coisa havias de trazer do Candal... 
E  saiu,  arrependendo-se  logo  das  últimas  palavras.  Augusta  compreendeu 
tudo, sem recorrer aos esclarecimentos da vizinha. A novidade da emoção era 
um  misto  de  vergonha,  de  medo,  de  júbilo  e  de  remorso.  As  faces  pálidas 
fizeram-se  escarlates;  os  saltos  do  coração  impeliam-lhe  o  sangue  em  jatos 
abrasadores  à  cara.  Queria  erguer-se  sem  saber  para  que  fim:  procurava  em 
redor de si alguma coisa sem saber o que era; sentia ânsias de falar sem saber 
com quem. 
— 
Se ele o soubesse!... — murmurou ela. — Se alguém lhe dissesse... 
— 
O quê? — perguntava a Sr. a Ana, que entrara insensivelmente, porque 
Francisco deixara aberta a porta. — Que tens, Augusta? Estás tão vermelha, e 
com  os  olhos  tão  guichos!...  Parece  que  vendes  carradas  de  saúde,  rapariga! 
Alguma novidade te deram que te alegrou... Não respondes? 
Augusta  a  significação  de  tal  sorriso  era  mais  expressiva  do  que  seriam  as 
lágrimas. 
— 
Disse-te  o  médico  que  eu  morria?...  Que  importa!...  Não estejas  triste 
por isso... 
— 
O médico não me disse que morrias... 


 
 
— 
Pois então, que tens? Porque te sentas tão triste ao pé de mim? Se te 
aborrece esta vida, não te constranjas, Francisco... Vai para o teu trabalho, que 
me dás mais prazer... 
— 
Aborreço-te aqui? 
— 
Assim  desse  modo,  não  digo  que  me  aborreças,  mas  penalizas-me... 
Diz-me o que tens. 
— 
Nada, Augusta... Tenho pena de te ver sofrer... 
— 
Isto está por pouco... já hoje tive vómitos, e lancei sangue.. . 
— 
Esses  vómitos,  Augusta...  não  são  o  que  tu  pensas...  Francisco  saíra 
aceleradamente do quarto da sua prima. 
— 
Vem cá — exclamou ela com veemência.  — Olha, Francisco, eu não 
entendi o que disseste... 
— 
Eu volto logo, Augusta... Vou à fábrica... 
— 
Espera um momento... tira-me as suspeitas... 
— 
Isso é fácil... A Ana do Moiro  há de explicar-te melhor do que eu os 
teus incómodos... Alguma coisa havias de trazer do Candal... 
E  saiu,  arrependendo-se  logo  das  últimas  palavras.  Augusta  compreendeu 
tudo, sem recorrer aos esclarecimentos da vizinha. A novidade da emoção era 
um  misto  de  vergonha,  de  medo,  de  júbilo  e  de  remorso.  As  faces  pálidas 


 
 
fizeram-se  escarlates;  os  saltos  do  coração  impeliam-lhe  o  sangue  em  jatos 
abrasadores  à  cara.  Queria  erguer-se  sem  saber  para  que  fim:  procurava  em 
redor de si alguma coisa sem saber o que era; sentia ânsias de falar sem saber 
com quem. 
— 
Se ele o soubesse!... — murmurou ela. — Se alguém lhe dissesse... 
— 
O quê? — perguntava a Sra. Ana, que entrara insensivelmente, porque 
Francisco deixara aberta a porta. — Que tens, Augusta? Estás tão vermelha, e 
com  os  olhos  tão  guichos!...  Parece  que  vendes  carradas  de  saúde,  rapariga! 
Alguma novidade te deram que te alegrou... Não respondes? 
— 
É febre... penso eu... 
— 
Deixa-te disso... eu falei ao senhor doutor, que veio hoje de novo, e ele 
disse-me que não era de preocupação a tua doença. 
— 
E não lhe disse mais nada? 
— 
Não: nem sequer receitou para a botica. Sabes o que hás de fazer? Sal 
dessa cama, que faz doença. Dá o teu passeio pela cidade com o teu primo, e 
deixa-te de caldos de galinha, que não põem substância... 
— 
Não posso... não tenho forças... 
— 
Isso é o que te parece... Vocês, as raparigas de agora, são uns tolhiços... 
Eu cá nunca soube o que é estar três dias de cama... Se comesses um bocado 
de carne assada na brasa e bebesses um gotúrio do choco, punhas-te aí fina 


 
 
em quinze dias... Deixa-me dizer-te uma coisa enquanto estamos sós. Aquele 
senhor do dinheiro, há três dias que não mandou saber de ti, desde que eu lhe 
disse que tu lhe não falavas por enquanto... 
— 
Eu desejava falar-lhe agora. 
— 
Sim. Pois isso é fácil: eu sei onde ele mora, e vou hoje lá, se queres. 
— 
Mas eu não queria que o meu primo o visse. 
— 
Digo-lhe que venha amanhã entre as nove e as onze, que é a hora em 
que o Francisco está na fábrica. 
— 
Pois sim... não se esqueça, não? Lá ir vou eu; mas, rapariga, eu acho que 
ele já não é para ti o mesmo homem, desde que sabe que o teu primo cá vem. 
— 
Não  importa:  eu  estou  certa  que  ele  virá,  e,  se  não  vier,  paciência... 
escrevo-lhe uma carta... 
— 
Pois isso era o mais acertado... Isto de homens, é para onde lhe dá... Eu 
bem me custa andar com recadinhos e cartinhas de namoro; mas, enfim, sou 
tua amiga... 
— 
Está enganada, senhora Ana... Eu não tenho namoro com esse senhor. 
— 
Faz-te fina!... Vocês pensam que metem figas nos olhos às velhas!... Boa 
vai ela!... 
— 
Não preciso do seu favor, senhora Ana... Deixe-me... 


 
 
— 
Não te atrigues, Augusta; eu estou a brincar... 
— 
Não sofro tais brincadeiras... queira deixar-me, que tenho a cabeça em 
lume... 
— 
Tu pareces de vidro, rapariga! Não se te pode dizer nada!... Pois, quer 
queiras, quer não, vou falar com o tal senhor. 
— 
Não vá, que o não recebo. .. E digo mais.. . prescindo dos seus serviços; 
não torne a entrar nesta casa. 
— 
Essa  agora  é  mais  fina!...  Assim  é  que  pagas  as  obrigações  que  me 
deves!?... 
Augusta caíra em si. Antes que a vizinha se alegasse credora de obrigações, já 
a costureira se sentia mordida na consciência pela ingratidão. Demais a mais 
expulsava  de  uma  casa,  que  já  não  era  sua,  a  própria  dona,  que  poderia 
expulsá-la a ela!... 
— 
Desculpe-me...  —  acudiu  Augusta,  tomando-lhe  a  mão.  —  Eu  sofro 
muito...  não  sei  o  digo...  Perdoe-me,  senhora  Ana...  Sou  muito-digna  de 
compaixão... 
— 
Está bom... não chores... Isso é génio... 
— 
Oh,  meu  Deus,  que  muito  desgraçada  sou!...  exclamou  Augusta, 
soluçando, escondendo a face nas mãos, e levantando-a, de instante a instante, 
para desafogar em gemidos a dor, que parecia sufocá-la. 


 
 
— 
Que tens tu, menina?! — disse meigamente a peixeira, abraçando-a. — 
O que te fazem para chorares assim? Queres que eu vá chamar o tal sujeito? 
— 
Vá, vá, pelo amor de Deus!... É preciso este sacrifício, e esta vergonha... 
vá, senhora Ana. 
— 
Para vir amanhã? 
— 
Hoje, hoje... 
— 
E o teu primo? 
— 
Não importa... que venha hoje... logo que possa, se não morro, morro 
sem ar, suicido-me, se Deus me não mata!... 
A intrépida filha do barqueiro saiu aterrada, e, mal entrou em casa a buscar o 
capote, corria  à  desfilada,  quanto  as  socas  lhe permitiam, para  a Hospedaria 
Francesa. 
O  jornalista,  sem  averiguar  o  motivo  da  imprevista  chamada,  foi  à  Rua  dos 
Arménios. A portadora do convite entrou primeiro a anunciá-lo. O fabricante 
estava ao pé da sua prima, e fixou-a surpreendido, como quem lhe perguntava 
se o sujeito anunciado era Guilherme do Amaral. 
— 
Francisco — disse Augusta —, está aí uma pessoa a quem preciso falar. 
Tem paciência, retira-te alguns minutos. Não é quem tu pensas... 


 
 
— 
Seja lá quem for, Augusta. — Eu não te pergunto quem é. Estás na tua 
casa;  podes  mandar  chamar  quem  quiseres:  basta  que  eu  venha  sem  ser 
chamado... 
— 
Tens razão, meu amigo... Verdadeiro, só tu... Não sou ingrata... 
O fabricante passara pelo jornalista, e cortejou-o. Augusta sentara-se na cama, 
e  humedecia  os  lábios  para  poder  falar,  como  se  o  obstáculo  à  palavra  não 
estivesse no coração. 
— 
Finalmente — disse o poeta — fez-me justiça, senhora dona Augusta ... 
— 
Fiz-lha sempre... 
— 
Mas negou-me a sua casa... 
— 
Quis obsequiá-lo assim, poupando-o ao desgosto de aturar uma mulher 
demente. 
— 
E, agora, restaurou o perdido juízo? 
— 
Não, senhor... Assim morrerei... 
— 
A luz é muito pouca, mas parece-me que a vejo mais animada. 
— 
A  sofrer...  decerto...  tenho  obrigação  de  me  conservar...  é  necessário 
esperar com vida a conclusão dos meus infortúnios antes da morte... 
— 
Pois  não  espera  esquecer-se  do  passado,  perdoando  o  mal  que  lhe 
fazem? 


 
 
O  passado  nunca  mais  me  esquecerá...  Até  aqui  a  desgraça  era  só  minha... 
morreria  comigo;  mas...  algum  tempo  mais...  e  a  minha  desgraça  será  um 
legado de vergonha e indigência... 
— 
Não compreendo... 
— 
Nem eu sei o modo de me explicar. 
— 
Ah! — exclamou o poeta —, compreendi... E é forçoso que o filho de 
Guilherme do Amaral seja o herdeiro da vergonha e indigência da sua mãe!? 
As palavras “filho de Guilherme do Amaral”, os olhos de Augusta cintilaram 
de alegria, refletindo o seu brilho vivaz no rosto risonho. Foi um relâmpago 
de  júbilo:  as  trevas,  porém,  cerraram-se,  apenas  os  lábios  imprudentes  do 
poeta deixaram fugir duas horríveis expressões: “vergonha” e “indigência”. O 
brilho  dos  olhos  embaciara-se  de  lágrimas,  o  encarnado  vigoroso  das  faces 
desmaiou até ao amarelo do cadáver. A transição assim súbita impressionara o 
jornalista, e impossibilitou-a a ela de responder. 
— 
Há  uma nova base para as  minhas  esperanças, senhora dona  Augusta 
—  continuou  o  jornalista,  atinando  com  o  motivo  da  sua  vinda  —  : 
Guilherme do Amaral voltará brevemente a Portugal... 
— 
Sabe-o já? — atalhou ela com sobressalto. 
— 
Não o sei dele; mas agoiro-o do que sei das minhas profecias, que me 
não mentem nunca. Amaral está provando? uma dolorosa lição, o que o fará 


 
 
voltar ansioso  a consolar-se no coração do anjo que deixou. Essa ânsia será 
redobrada,  quando  souber  que  o  seio  da  mulher  que  mais  amou,  além  das 
palpitações da saudade, sente os enternecimentos de um filho, cujos primeiros 
vagidos serão chamar o seu pai... 
— 
Como é doce ouvi-lo, senhor... É assim que se arranca uma infeliz aos 
braços  da  morte...  —  murmurou,  com  débil  voz  e  entusiasmo  no  olhar 
vertiginoso, a costureira, quase levando aos lábios a mão do poeta. 
— 
Fez  bem  em  me  chamar...  —  prosseguiu  ele  verdadeiramente 
comovido. — Quero ser eu o solicitador de duas causas santas: a da mãe e a 
do filho. Se tal é a minha infelicidade que eu nada consiga, direi que Amaral 
não tem no coração uma fibra pura, e é mais infame do que tudo que pode 
inventar-se corri o talento, mais que todos os modelos de cinismo, que ele viu 
nos romances da sua paixão. 
— 
Não fale assim de Amaral... É impossível que ele não ame o seu filho... 
Podem  cansar  os  carinhos  da  mulher,  mas  os  da  inocência,  sem  culpa,  sem 
exigências, isso não... Há de escrever-lhe? 
— 
No  próximo  paquete  para  Londres.  Tive  carta  dele:  dizia-me  apenas 
que chegara. 
— 
E ao meu respeito nem urna palavra? 


 
 
— 
Talvez não tivesse tempo.. Eram só duas linhas. Amaral, a estas horas, 
pensa que a vossa excelência está no Candal, chorando, sim; mas esperando a 
volta que realmente devera esperar. Foi precipitada no seu capricho; porém, 
não  a  acuso;  as  almas  nobres  são  arrojadas:  traçam  o  quadro  majestoso,  e 
executam-no, se é preciso, com o sangue das veias. 
— 
Pois fiz mal em sair? 
— 
Fez;  obedeceu  muito  depressa  ao  brioso  desforço...  Vossa  excelência 
fê-lo mais por vaidade do que por outro qualquer sentimento. Consulte-se, e 
verá  que  a  sua  transição  voluntária  para  esta  situação  foi  uma  espécie  de 
soberba no infortúnio. Repeliu com a ponta do pé os favores do homem que 
lhe retirava as provas de outra paixão mais persuasiva. 
— 
Sem  ele  de  que  me  servia  o  luxo?  Era  ter  sempre  diante  dos  olhos  o 
preço porque fôra comprada... 
— 
Pois  aí  tem  o  que  é  a  soberba:  é  estimar-se  em  muito  mais do  que  o 
preço porque se considerou vendida... Não falemos nisto, a não querer vossa 
excelência tornar para o Candal. 
— 
Não, não quero... Pois aconselha-me esse passo?! 
— 
Não  lho  aconselho;  mas,  se  o  desse,  não  incorria  no  desprezo  de 
ninguém. 
— 
Incorria no meu próprio desprezo. 


 
 
— 
É respeitável esse sentimento... Não a contrario. O que eu quisera é que 
a vossa excelência não experimentasse a menor privação. 
— 
Não  experimento  nenhuma;  e  de  todo  o  coração  lhe  agradeço  os 
favores, que eu aceitaria se não tivesse outros recursos. 
— 
Basta...  Volverei  quando  vossa  excelência  me  ordenar,  ou  quando 
entenda que devo informá-la da gloriosa empresa que tomei ao meu cargo. 
O jornalista saíra. É muito de notar a delicadeza deste homem a respeito do 
fabricante.  Nem  uma  só  palavra  que  obrigasse  a  defender-se  Augusta  das 
gratuitas  suposições  da  Ana  do  Moiro.  O  poeta  nunca  pudera  convencer-se 
que  Augusta  fôra  costureira,  e  estava  na  vulgar  situação  de  uma  costureira. 
Dizia  ele,  e  ainda  diz,  que  lera  sempre  na  cara  daquela  mulher  um  destino 
superior, muito superior à sua condição. Nenhuma outra lhe impusera tanta 
reverência nos modos e tão pensada reflexão nas palavras! 
Era poeta... 
Sabeis o que é ser poeta? É querer encravar a roda teimosa das coisas deste 
mundo, e sair com o braço partido. 
O  fabricante  viera  sentar-se  ao  pé  da  sua  prima,  disfarçando  a  comoção, 
escondendo-a  quando  podia,  a  favor  da  escuridão  do  quarto.  Se  Augusta  o 
visse  lívido,  com  os  olhos  aguados,  e  os  beiços  contraídos,  retraindo-se  ao 
gemido e à respiração convulsa, julgar-se-ia amada, apaixonadamente amada, 


 
 
na posição a que descera, querida ainda, quando podia esperar apenas do seu 
primo extremos de piedade. 
Francisco,  para  dizer  alguma  coisa,  perguntou-lhe  se  ficara  melhor  com  a 
certeza  de  que  o  seu  mal  não  era  de  morte.  Esta  pergunta,  inocentemente 
feita,  magoou  Augusta,  que  não  respondeu.  Corridos  alguns  segundos,  o 
fabricante perguntou se queria tomar um caldo. Augusta disse que não, com 
desabrimento.  O  artista  soltou  um  suspiro  trémulo,  que  denunciou  as 
lágrimas, em vão represadas. 
— 
Porque choras tu, Francisco? 
— 
Eu não choro... estás enganada. 
— 
Pois eu não vejo!. .. Vem aqui ao pé de mim... E, passando-lhe a mão na 
face, prosseguiu: — Isto que é, senão lágrimas? Não tenhas pena de mim, que 
eu já fui mais digna de compaixão do que sou agora... Estou muito melhor... A 
esperança é a medicina dos desgraçados... Não há mal que não traga um bem. 
Talvez dos meus sofrimentos de hoje dependa a minha felicidade de amanhã. 
— 
Oxalá. 
— 
Tu não conheceste o sujeito que esteve comigo? 
— 
Não. 
— 
Recordas-te  de  um  homem  que  viste  uma  noite,  no  Candal,  quando 
esperavas... 


 
 
— 
Recordo... não falemos nessa noite, Augusta. 
— 
Pois sim, não falemos, nem é preciso falarmos. Queria dizer-te que este 
sujeito é o único amigo de... 
— 
Está bom... eu sei o que me queres dizer... Que me importa a mim que 
ele seja ou deixe de ser amigo do tal senhor?! 
Não  te  irrites,  Francisco...  Eu  não  te  quero  dar  satisfações  da  minha  vida. 
Estou conversando; se me não queres ouvir, ou não podes, retira-te!... Valha-
me  Deus!  Tu  não  acabas  de  entender  que  sou  tua  amiga,  e  que  não  tenho 
razão  nenhuma  para  esconder  de  ti  os  meus  crimes,  se  são  crimes!...  Esses 
teus modos ásperos não me comovem nem me assustam. O que me pesa é 
que tu não te convenças de que sou infeliz porque quero sê-lo, e não sei que 
haja alguém, neste mundo, que possa tomar-me conta das minhas ações. 
— 
Tens  razão,  Augusta...  Faz  o  que  quiseres;  mas  não  me  leves  a  mal  a 
amizade  que  te  tenho.  Tudo  que  eu  te  disser  é  para  teu  bem.  O  tempo  te 
mostrará que eu não queria tomar-te conta das tuas ações; se quisesse, mal de 
mim!... Bem se te dá a ti dos meus conselhos... Faz a tua vontade, Augusta; 
mas não me mandes sair da tua casa, porque eu prometo não me intrometer 
nas  tuas  ações.  Faz  de  conta  que  eu  estou  aqui  para  guardar  a  tua  porta,  e 
chamar  o  médico,  se  te  for  preciso.  Deus,  que  me  trouxe  a  tua  casa,  para 
alguma coisa é. Enquanto não tornares a ser o que eras, és minha prima, e eu 
tenho como obrigação de te fazer companhia. Depois... 


 
 
Augusta ouvira impassível a confissão sincera do artista, e não lhe respondera. 
A esperança de reconquistar o amor de Guilherme seria capaz de exacerbar-
lhe  a  boa  índole  contra  o  seu  primo,  se  ele  não  desse  do  seu  zelo  uma 
explicação tão humilde. Humilhada julgava-se também ela no seu orgulho de 
amante  de  Guilherme,  abaixando-se  a  dar  explicações  dos  seus  actos  ao 
fabricante.  Posto  que  tornasse  à  condição  donde  saíra,  não  queria  por  isso 
considerar-se menos do que era, ou do que imaginava ser. Pelo contrário: o 
que  o  poeta  lhe  dissera,  exaltando-a  pelo  facto  de  deprimir-se,  é  o  que  ela 
queria que o seu primo também dissesse, ainda que o não entendesse assim, 
porque  não  era  poeta.  A  renúncia  das  regalias  do  Candal,  enquanto  a  mim, 
não era virtude, examinada em todas as suas faces. Se fosse, como dizem que 
são as virtudes cristãs, Augusta receberia todas as humilhações como espinhos 
de penitência. Estenderia a mão a receber esmolas do seu primo, e acolheria 
com  agradecidas  lágrimas  todas  as  repreensões  vindas  dele,  ou  da  filha  do 
barqueiro. Mas bem  veem  que não  era assim.  A  costureira  rejeitava  favores, 
rejeitava a proteção moral do fabricante, irritava-se à menor contrariedade da 
maliciosa  vizinha,  acolhia  com  exaltação  as  frases  romanescas  do  jornalista, 
que viera visitá-la à pobre pocilga, e, até aí, a respeitara como se a visitasse no 
seu opulento gabinete do Candal. O poeta, sim: só ele soubera compreender a 
sua queda voluntária: só ele derramava flores sobre a sua miséria: só ele, com 
os raptos da admiração, lhe fazia sentir a grandeza do seu sacrifício. 


 
 
A linguagem rude do fabricante devera, portanto, crifastiá-la mais ainda, se o 
temerário  alimentava  a  louca  esperança  de  fazer-se  amado,  agora  que  a 
indigência e a desonra a tornavam menos preciosa. 
Eis aqui o orgulho da mulher, que não pode cair nunca da nobre altivez, que, 
mesmo no infortúnio, a distingue. É esta soberba cunho de superioridade. Por 
ela, podia vaticinar-se à costureira um destino grandioso, qualquer que fosse a 
vereda  por  onde  esse  destino  devesse  vir-lhe  ao  encontro.  Mulher  tal  não 
podia  viver  costureira;  não  podia,  ainda  que  o  quisesse,  devorar-se 
obscuramente num quarto pobre da Rua dos Arménios. A presteza prodigiosa 
da  sua  educação  literária,  no  Candal;  a  lucidez  daquele  espírito,  que  pudera 
cativar  dezoito  meses  os  volúveis  desejos  de  Guilherme;  a  aspiração  que 
vinha, agora, à menor contrariedade, reagir contra as algemas que ela própria 
se  lançara:  ai  estão  sobejos  indícios  de  que  o  ciclo  das  alegrias  ou  dos 
infortúnios de Augusta não se fechara ali. 
Esperemos, pois, as eventualidades. 


 
 
CAPÍTULO XXIV 
 
Londres, 12 de Fevereiro de 1847. 
 
Meu caro... 
Recebo a tua carta. Preveniste a minha ânsia. Eu desejava uma longa hora de 
conversação  contigo.  Era  feliz  quando  a  recebi,  e  o  coração,  assim,  quer 
expansões: a felicidade dá-nos um ar de soberba, que só amigos toleram. 
Falemos  primeiro  de  Augusta.  Espanta-me  a  resolução  desesperada  dessa 
mulher!  É  excecional!  Se  não  posso  amá-la,  admiro-a;  acho-a  deslocada  no 
século,  e  quisera  ver  bem  desenhado  num  romance  esse  tipo.  Vejo-a  de  cá 
pelo prisma da poesia: é um quadro histórico da minha vida, o único de que 
levo  saudades  na  peregrinação  que  tenho  a  cumprir.  Não  sei  que  fúnebre 
poesia  assombra essa heroína  obscura!  Se  a  vejo  tão  radiosa,  tão  inteligente, 
tão  senhoril,  como  a  vimos  no  Candal,  e  a  comparo  à  mulher  da  Rua  dos 
Arménios... sinto esta melancolia íntima, esta coisa indefinível, que faz chorar 
o coração, quando os olhos, esterilizados pelo sopro glacial da experiência, já 
não brotam lágrimas. 
Tenho  dó  dessa  mulher!  Antes  a  queria  ver  passar  de  amante  em  amante, 
corromper-se,  esquecer-se  de  mim,  odiar-me,  até:  antes  isto,  que  imaginá-la 


 
 
assim, devorando-se de saudades inúteis, inúteis sim, porque não posso amá-
la,  não  venço  o  fatalismo,  não  posso  desdar  os  nós,  como  Laocoonte,  das 
serpentes que se me enroscam no coração. 
Já  é  tributar-lhe  um  grande  culto,  meu  amigo,  lamentar  a  mulher  que  não 
posso amar! Quantas vítimas, em igual condição, que nos não deixam sequer 
uma  sombra  na  estrada  lúcida  dos  Prazeres?  Quantas  esquecidas  no  dia 
imediato ao da paixão mentirosa? 
É o mais que posso sentir! Não sei o que possa fazer-lhe... Impressionaram-
me as tuas pungentes razões; mas queres tu impô-las ao coração, tu, homem 
da experiência, inexorável síndico dos mais ocultos instantes do espírito!? 
Porque não aceita ela os meios amplos que lhe dou? Porque não vive rica de 
oiro,  se  lhe  furtam  as  riquezas  do  coração?  Porque  não  há  de  ela,  com  o 
dinheiro  do  seu  primeiro  amante,  resistir  às  seduções  de  um  segundo?  O 
dinheiro reabilita, e amnistia todos os crimes. 
Meu amigo, exerce a tua imperiosa influência sobre a pobre mulher. Faz que 
ela  torne  para  o  Candal,  ou  para  onde  queira.  Aumente-se-lhe  a  mesada,  se 
assim  é  preciso,  que  eu  dou  ordem  franca  Para  que  as  tuas  ordens  se 
cumpram.  Se  fosse  possível  casar-se  ela,  com  que  prazer  eu  não  daria,  sem 
publicidade  desonrosa  para  algum  de  nós,  um  dote  que  a  tornasse  mais 
interessante  a  um  marido de  meios,  que  há  tantos  e  tão...  inocentes!?...  Será 
isto possível? 


 
 
Não li sem emoção as novas razões que me dás para eu não dever abandoná-
la.  E,  porventura,  abandonei-a  eu?  Quantas  mulheres  casadas  invejariam  a 
sorte  de  Augusta?  Todas.  Quantos  maridos,  saciados  das  mulheres,  lhes 
garantem  uma  subsistência  brilhante,  enquanto  eles  se  afastam  em  busca 
doutras emoções? Nenhum. 
A existência de um filho não aumenta as atenções que devo à mãe. Esse filho 
terá um futuro; protegê-lo-ei sempre, como se fosse meu legítimo filho; amá-
lo-ei desde hoje para abraçá-lo, quando possa, com fervor de pai... Que mais 
queres de mim? 
Que te conte a minha vida? Seis dias depois que estava em Londres, encontrei 
o belga! Quem diria a este homem o destino de Leonor?! Preveni o meu tio. 
Era difícil saber em Londres a nossa residência. Vivemos nos arrabaldes, e a 
polícia está prevenida para se não descobrir a casa campgtre em que o meu tio 
espera converter o coração da filha. 
E incrível o agrado com que ela me tem recebido. Escuta-me, serenamente, as 
inequívocas tentativas que faço. Ouve o pai em pueril acatamento, e, se não 
responde, também não reage. 
Até  hoje  suspeitei  que  a  minha  prima  premeditava  um  golpe  decisivo  nas 
minhas  importunas  perseguições.  Enganei-me:  venho  de  sentir  uma  alegria 
improvisa, uma demência momentânea! 


 
 
Se  soubesses  como  amo  esta  mulher!  Basta  que  eu  te  diga  que  meditei  um 
suicídio! Imagina, pois, que frenesis de júbilo eu sentiria no momento em que 
ela,  apertando-me  carinhosamente  a  mão,  me  disse:  “Primo,  tenho 
experimentado o seu amor, e não posso ser-lhe ingrata! Diga ao meu pai que 
me não tenha aqui encerrada, que eu prometo ser uma boa filha, incapaz de 
resistir à vontade suprema do seu pai!...“ Que te disse eu? Esta mulher devia 
sucumbir! Não me cega a vaidade, mas descubro em mim a superioridade, que 
despedaça as mais robustas cadeias de dois espíritos. Se o meu amor fosse um 
simples capricho, a minha vingança começava hoje. Não era; menti quando to 
disse. Não posso ressentir-me de uma resistência que me atormentou, e está 
hoje sendo a minha glória, a minha ventura, o meu triunfo! 
É nestes lances que se afere o verdadeiro amor. O homem devia sujeitar-se a 
esta  dolorosa  provação,  queimar-se  neste  incendiário  caminho,  para  sair 
purificado, sem as fezes das ilusões do momento, que germinam, mais tarde, o 
fastio. 
Hei  de  amar  sempre  esta  mulher.  Os  prazeres  consecutivos,  sempre  novos, 
nunca  me  darão  tempo  a  sentir  nos  pulsos  as  algemas  do  homem  casado. 
Leonor  é  rica...  e,  se  o  não  fosse,  amá-la-ia  eu  menos?  Não.  Viajaremos, 
iremos ao Oriente, meu sonho querido; sentar-me-ei com ela sobre as ruínas 
dos impérios arrasados, e errarei por lá sonhando sempre delícias novas nos 
braços dela. Isto é que é a felicidade. É nestes momentos que o homem crê 
em Deus, e reputa a criação uma obra perfeita. 


 
 
A minha vida até aqui o que tem sido!? Uma deceção continuada, uma ansiosa 
esperança mentindo sempre, um trabalho impotente de imaginação adorando 
fantasias, que a realidade atroz me não dava. 
O que foi Augusta? Uma aberração do natural, um artificio alimentado com 
oiro;  mas  a  mulher,  nua  de  prestígio,  lá  estava  gélida  e  estéril  debaixo  dos 
europeus. O que foram essas dúzias de conquistas inglórias, que presenciaste? 
Fogos-fátuos, relâmpagos de um mundo de luz, todo luz, luz perene em que 
hoje abri os olhos... 
Sorris ao meu entusiasmo? Aqui não há poesia, não há exaltação de folhetim, 
não guindo o lirismo do estilo às etéreas criações do talento, nutrido das frias 
reminiscências do coração, quais são as tuas. 
O homem natural é este: sou o Adão primitivo, extasiado perante as delicias 
da  natureza,  como  Buffon  o  descreve  no  Éden.  Oh!  o  mundo  é  belo,  e  eu 
tenha pena dos que não podem vê-lo com eu neste momento! Amigo, quando 
este  prisma  me  cair  partido  aos  pés,  também  eu  baterei  com  a  face  sobre  a 
sepultura. 
Adeus: parte o paquete, Alonguei-me sem te dizer que és o primeiro e único 
amigo de Guilherme do Amaral. 


 
 
CAPÍTULO XXV 
 
O  jornalista  recebera  esta  carta  no  momento  em  que  a  Sra.  Ana  o  vinha 
chamar  de  mando  de  Augusta.  Grande  embaraço!  Queria  não  mostrar-lha; 
mas escasseavam-lhe recursos de fantasia para entretê-la na quimera, que, por 
fim, seria desmentida, e mais cruel a desilusão. Foi, na incerteza do que faria. 
Entrou  melancólico,  contrastando  a  ansiedade  risonha  de  Augusta,  que 
esperava uma boa nova. 
— 
Teve carta? — exclamou ela. 
— 
Tive ... 
— 
Ah! ... Deixe ver. . 
— 
Não a tenho aqui. 
— 
Não?... Está triste!... Sei tudo... Guilherme não volta. 
— 
Voltará; mas por enquanto não... 
— 
Meu Deus!... — exclamou ela, desafrontando-se de um peso imaginário, 
que lhe carregava nas pálpebras. 
— 
Espere, senhora dona Augusta... Guilherme é seu amigo... 


 
 
— 
Meu amigo!... Que zombaria! — murmurou, caindo na profundeza do 
desengano. 
— 
Estima-a;  quer  vê-la  feliz,  e  crê  que  só  pode  sê-lo  com  vida  honesta, 
sem  privação  nenhuma,  dispondo  de  meios  de  que  muito  poucas  senhoras 
podem dispor... 
— 
Oferece-me dinheiro?... Oh!, que ultraje! 
— 
Não é ultraje, senhora! É o mais que pode fazer um amigo, um irmão, 
um  pai...  Enquanto  que  ao  seu  filho,  desde  já  lhe  chama  seu  legítimo  filho, 
tem um futuro, é preciso que a vossa excelência seja pai e mãe, e por amor 
dele se resigne a ser uma espécie de viúva, que chora saudades do seu esposo, 
mas deseja viver, deseja riquezas para comprar, com elas, riquezas do espírito 
para o seu filho... 
— 
Riquezas!... Uma herança de desonra... 
— 
Pelo  amor  de  Deus,  não  tratemos  de  refinar  o  moral  ao  ponto  de 
discutirmos o que é honra... Vossa excelência não tem o direito a exigir no seu 
favor  reformas  à  condição  humana.  Poderia  ter  encontrado  um  desses  que 
vulgarmente  passam  por  honrados  e,  a  estas  horas,  não  teria  amor,  nem 
estima, nem um berço onde embalasse o seu filho. Não é isto querer medi-la 
pela craveira das mulheres que recebem afrontas destas, choram três dias, e, 
ao  quarto,  procuram  suavizar  as  saudades  com  o  primeiro  que  se  oferece  a 
distrair-lhas. Não, , minha senhora. Eu sou o primeiro a julgá-la merecedora 


 
 
doutro  destino,  nascida  para  tudo  que  é  magnífico  pelo  amor,  e  grandioso 
pelos instintos nobres; mas essas virtudes, raro atendidas neste pérfido jogo de 
paixões  vis  em  que  nos  falseamos  uns  aos  outros,  passam  quase  sempre 
desapercebidas.  Vossa  excelência  não  pode  reputar-se  absolutamente  infeliz. 
Verá  que  há  de  ainda  colher  consolações  das  lágrimas  que  hoje  semeia.  A 
consciência da sua fidelidade à simples memória do pai do seu filho há de dar-
lhe assomos de alegria. O sorriso angélico dessa criança, medrando em belezas 
e inteligência, à sua vista, virá com o bálsamo do amor cicatrizar-lhe as feridas 
que hoje sangram. Dona Augusta será apontada como modelo das mães, e até 
das vítimas de uma paixão mal indemnizada. Repare que sinto o que digo. Eu 
juro  pelos  seus  sofrimentos,  que  sou  incapaz  de  trazer  aos  lábios  uma 
consolação frívola, uma impostura reprovada pela consciência. Tenho-lhe dito 
o que só podem dizer amigos, e vou daqui sem pesar de me ter esquecido uma 
só ideia com que deva demovê-la ao fatal propósito em que está... 
— 
Que quer que eu faça, senhor? 
— 
Que se recolha ao Candal. 
— 
Nunca! Nunca! Nunca! 
— 
Augusta estremecera a cada uma dessas exclamações, como se a farpa 
de uma serpente lhe entrasse no coração. 


 
 
— 
Não  tenho  mais  que  lhe  diga...  —  murmurou  com  severidade  o 
jornalista,  ressentido  da  impotência  do  seu  discurso,  e  até  ferido  na  sua 
vaidade de orador persuasivo. Devo retirar-me, não é assim? 
— 
Quando queira; mas... não me condene sem me ouvir... Eu não quero 
neste mundo coisa alguma senão o amor de Guilherme: não vivo... não posso 
viver  sem  ele.  O  Candal  seria  um  incessante  despertador  do  meu  perdido 
paraíso...  Toda  a  minha  felicidade  de  um  dia,  transformada  em  horrível 
solidão, aí, nesse mesmo quarto, nessas salas, nesse jardim, debaixo desse céu 
onde  vivi,  onde  amei,  onde  morri...  ó  senhor...  não  posso,  não  posso...  ia 
morrer vagarosamente, morrer em todos os minutos, assistir à passagem dos 
dias, dos anos, sem esperança, sem voz alguma, que me minta, ao menos, que 
me afigure possível tornar ao que fui, ao amor daquele homem... Sou menos 
desgraçada aqui... o meu filho morrerá no meu seio, não poderá sobreviver-
me, não abrirá os olhos à luz do mundo, não pedirá uma esmola ao verdugo 
da sua mãe... Se não morrer... se Deus me quer punir com a vida... trabalharei 
para sustentá-lo, pedirei esmola para educá-lo... Educá-lo, meu? Deus!... Para 
quê?  Não,  não.  Eu  era  mais  feliz  se  me  deixassem  na  escuridão  da  minha 
ignorância...  Seria  bom  apurarem-me  a  sensibilidade  com  a  delicadeza  dos 
sentimentos... mostrarem-me a luz e fugirem-me... darem-me ambições de um 
ideal  que  eu  só  sabia  desejar  e  não  quereria  nunca  ver  realizado?...  Foi  uma 
loucura... uma crueldade... O meu filho será um operário... um jornaleiro, um 
homem que se encoste a uma pedra, e adormeça cansado de trabalho... Não 


 
 
me  creia  demente,  senhor...  É  um  propósito  que  não  desmentirei...  e  para 
levá-lo ao fim preciso de viver obscura e pobre na casa onde morreram meus 
pais,  entre  estas  quatro  paredes  onde  nasci,  trabalhando  em  suspensórios, 
trocando o trabalho de cada dia por um bocado de pão, velando as noites para 
granjear  o  almoço  do  dia  seguinte,  ensinando  ao  meu  filho  com  fingido 
contentamento a alegria na miséria. Eis aqui o meu futuro. É uma tenção que 
me não sairá da alma enquanto a vir escrita no céu... e proferida pelos lábios 
da minha pobre mãe, que, há vinte meses, morreu nesta mesma cama... Que 
horrível lembrança!... Um cadáver a sair, e a desonra a entrar... Agora, sim... o 
que eu sinto... é um sofrimento horroroso... O meu Deus, meu Deus, tende 
compaixão de mim!... 
Augusta erguera as mãos suplicantes, e o poeta em pé, com os cabelos hirtos, 
testemunhava trémulo, e até supersticioso, aquele lance. Queria ocorrer com 
palavras; todas, porém, lhe pareciam vãs e frias, Voltou com religioso tremor 
as  mãos  de  Augusta,  e  sentiu-as  de  gelo.  Aquela  cara  cadavérica  pendeu 
lentamente  para  os  braços  dele,  e  duas  lágrimas,  ao  longo  das  faces  roxas, 
caíram-lhe nas mãos já frias, como as últimas que fogem dos olhos com a luz. 
Augusta desmaiara. O poeta encostou-a ao travesseiro, e correu a chamar Ana, 
ao mesmo tempo que o artista aparecia na extremidade da rua. Pouco depois, 
entrava  o  primeiro  cirurgião,  deparado  às  diligências  ansiosas  do  literato. 
Augusta tornara a si; mas o facultativo disse que a não contrariassem, porque 


 
 
a  demência  era  o  desfecho  natural  daqueles  ataques  repetidos,  qualquer  que 
fosse a causa. 
Dois  meses  depois  desta  cena,  que  ameaçava  o  trágico  desfecho  vaticinado 
pelo facultativo, o poeta passeava a cavalo nas pitorescas alamedas de Lordelo, 
e viu ao longe, a um lado da estrada, uma mulher que lhe pareceu Augusta, 
sentada na  raiz  de  um  pinheiro.  Parou  o cavalo, e  afirmou-se. Na  incerteza, 
não ousou saltar a baixa parede que o separava do pinhal. Quem quer que era, 
parecia fixá-lo também. 
Instantes  depois,  o  jornalista  indeciso  viu  um  homem,  com  um  jumento  à 
rédea, subindo do recosto de uma pequena colina em direção a Augusta. Era 
ela, não podia deixar de ser, porque o homem era o fabricante. Esperou. 
Augusta  sentara-se  nas  andilhas,  ajudada  por  Francisco,  que,  a  par  com  ela, 
erguia, um guarda-sol para lhe não darem de frente os raios ainda quentes do 
Sol no ocidente. 
O jumento vinha saltar num portelo a pouca distância do poeta. Perto dele, o 
fabricante  parou,  e  alguma  coisa  disse  a  Augusta  que  a  fez  empalidecer. 
Todavia, não alteraram o roteiro. 
O jornalista apeou, lançou as rédeas ao pescoço do cavalo, e foi cumprimentar 
Augusta.  O  artista  recebeu-o  afavelmente,  e  foi  pegar  nas  rédeas  ao  cavalo, 
que não quisera parar. O literato não consentira; mas o fabricante instara. 


 
 
— 
Tenho  tido  o  prazer  de  me  informar  das  suas  melhoras  progressivas, 
minha senhora — disse o poeta. 
— 
Estou melhor... dizem que estou. 
— 
E  eu  também  o  digo...  Vejo-a  magra,  e  descorada;  mas  está  em 
convalescença. 
— 
Mandam-me dar alguns passeios à tarde; é um sacrifício que eu faço ao 
meu primo; de quarto em quarto de hora, preciso apear-me para descansar. 
— 
Mas  a  vista  deste  belo  panorama  deve  ser-lhe  muito  saudável  para  o 
espírito... 
— 
Isto deve ser agradável para quem não sofre do corpo... A matéria, se 
sofre, tem impertinências despóticas sobre a alma... e a vossa senhoria como 
passa? 
— 
Bem, minha senhora. 
— 
Disseram-me, pouco depois que esteve na Rua dos Arménios, que saíra 
do Porto. 
— 
É verdade, minha senhora... e naturalmente sabe que estive... 
— 
Nada, não sei... 
— 
Na província da Beira Alta... 
— 
Ah! ... já sei... não falemos nisso... Li nos jornais... 


 
 
— 
Que leu nos jornais, senhora dona Augusta? 
— 
Vou-me recolhendo, que arrefece a tarde... 
— 
Minha  senhora,  eu  desejo  o  seu  completo  restabelecimento...  Vossa 
excelência  creia  que  eu  capricho  em  ser  pontual  nas  minhas  afeições... 
Qualquer ocasião que me dê no seu serviço é urna nova prova de estima. 
— 
Muito agradecida... Vamos, Francisco. 
O  fabricante  não  ouvira  bem  as  palavras  entrecortadas  do  diálogo;  reparou, 
porém, que a sua prima de lívida se tornara encarnada, e projetava dos olhos a 
irradiação ameaçadora da congestão cerebral, que há um mês a não assaltava. 
— 
Eu não to disse, Augusta? — murmurou ele. 
— 
Não  é  nada:  isto  passa...  É  preciso  habituar-me  a  encarar  as 
testemunhas da minha vergonha... 
— 
Não digas isso assim... 
— 
Basta que o sinta, não é verdade, Francisco? 
— 
Não posso ouvir-te falar em vergonha... Dava a minha vida para que te 
esquecesses do passado... 
— 
Também eu a dava... só dando-a... só morrendo é que se esquece... 
— 
Que te disse ele?... Falou-te em... 


 
 
— 
Em  Guilherme?...  Não...  Disse-me  que  estivera  na  Beira  Alta...  Foi 
talvez o encarregado de enviar as certidões para o casamento... Eu disse-lhe 
que já o sabia... Fiz bem?... Fiz... fiz muito bem... Quis que ele soubesse que 
me não importava... Era uma dor infame a minha saudade, se eu a sofresse... 
uma ignomínia, uma vergonha sobre outra vergonha... Fiz muito bem... Não 
sinto nada... tenho-lhe ódio... Se fosse homem... matava-o... 
— 
Que  tens,  Augusta?  —  acudiu  sobressaltado  o  fabricante,  vendo-a 
vermelhecer  cada  vez  mais,  e  agitar-se  em  ímpetos  convulsivos  sobre  as 
andilhas. 
— 
Matava-o,  sim!  —  disse  ela,  como  se  não  ouvisse  a  interrupção.  — 
Deixa-me ter o meu filho... Oxalá que seja um homem...  Hei de dar-lhe um 
punhal e dizer-lhe: “Aquele homem, que te não chama filho, cobriu de lama a 
tua mãe; tirou-a do regaço da inocência e lançou-a no inferno de toda a vida; 
arrancou-lhe  uma  coroa  de  flores,  e  encravou-lhe  outra  de  espinhos.  Vinga-
me, filho; lava-me com o sangue dele este ferrete da face. A tua mãe arrasta-se 
desonrada, há dez, há vinte, há trinta anos... Mata-o, filho e depois... e depois... 
“ 
Augusta  caíra  de  bruços  sobre  os  braços  de  Francisco.  Os  últimos  sons 
daqueles lábios, que espirravam sangue, foi uma gargalhada com aquele timbre 
arrepiador da demência. 


 
 
O fabricante lançou fôra as andilhas, montou a cavalo, tomou a sua prima nos 
braços e conduziu-a à fábrica do seu patrão, que era perto. 
Francisco não receava a demência da sua prima. Sabia que o acesso acabava 
pela  perda  dos  sentidos,  recuperados  meia  hora  depois.  Assim  fôra.  Ao 
anoitecer, Augusta entrava na casa da Rua dos Arménios, e recebia das mãos 
da Sra. Ana um caldo confortativo. Deitara-se, e conversara com o seu primo 
até  alta  noite.  Adormecera  tranquilamente,  enquanto  ele,  velando,  com  os 
olhos  cheios  de  ternura,  parecia  contar-lhe  as  pulsações  do  coração  que 
arquejava debaixo do lençol guarnecido de alvíssimas rendas. 
Desde essa tarde do encontro, Augusta nunca mais saiu. Nem ela queria, nem 
o seu primo instava. Erguia-se às horas em que Francisco visitava a fábrica. 
Sentava-se  a  trabalhar  em  roupas  brancas,  e  depunha  a  agulha  quando  o 
fabricante lha tirava com delicada violência. Lia dois jornais que o artista trazia 
de  Lordelo,  e  parecia  deleitar-se  com  os  folhetins  do  jornalista,  onde  ela  se 
conhecera  representando  sob  a  epígrafe:  Estudos  do  Coração  Humano.  As 
alusões eram lisonjeiras; mas o remate do entrecho não era o seu. A mulher 
meio fantástica do poeta endoidecia; e ela raciocinava ainda para conhecer que 
a doida tivera muito pouca coragem no sofrimento. O seu primo não lia; mas, 
lendo, não encontraria os pontos de contacto. 
Eram passados cinco meses depois que o médico prognosticara a enfermidade 
de  Augusta.  Os  sintomas  externos  já  não  deixavam  dúvida.  O  fabricante 


 
 
observara a sua prima que já não era fácil esconder-se aos olhos da Ana do 
Moiro. 
— 
E achas que devo esconder-me? 
— 
Parece-me que sim. Não me disseste, Augusta, que tencionavas criar o 
teu filho ocultamente? 
— 
Disse... mas já me não lembra com que fim o disse... 
— 
Eu também o não sei... 
— 
Ah!... já me recordo... não quero que ele em tempo algum conheça a sua 
mãe para se não envergonhar... Tens razão, Francisco; devo esconder-me de 
toda a gente, menos de ti... E tu disseste-me que, a todo o tempo, farias que o 
meu filho conhecesse o seu pai... 
— 
Disse, e torno a dizer... 
— 
Pois sim; mas não repisemos este assunto... Não posso falar nisto. 
— 
Talvez que não faças o que dizes, quando o vires... 
— 
Não farei?... Nesse caso não quero vê-lo... Daqui a quatro meses hás de 
ter preparada uma ama, sim? 
— 
Tudo está ao meu cargo... 
— 
Pareces-me  um  anjo,  Francisco!  Como  Deus  te  fez  bom!  Tu  não  me 
odeias? 


 
 
— 
Não, minha amiga, sou sempre teu primo, teu irmão. 
— 
Quem  dirá  o  coração  que  tens!...  Nunca  tiveste  um  instante  de 
aborrecimento ao pé de mim? 
— 
Não: o que me custa é ter de te deixar sozinha algumas horas. 
— 
Então, por lá, sentes muitas saudades da tua Augusta? 
— 
Só  Deus  o  sabe!  Quando  me  recolho,  trago  o  coração  aos  saltos  de 
alegria por te ver... e às vezes é de medo com o susto de te encontrar pior. 
— 
Que nobre alma!... E não te lembras que te desprezei por um homem 
que me desprezou? 
— 
Não fales nisso, Augusta... 
— 
Não sentes o prazer de te vingar, sendo a Providência que te vinga? 
— 
Não: se Deus me ouvisse, eras tu feliz. Se te visse outra vez feliz com 
esse homem, não te aborrecia. 
— 
Não vês que tenho lágrimas nos olhos? 
— 
Mas não quero que chores... Não sei a que vêm essas lágrimas agora... 
— 
São boas sempre: as de gratidão são doces... são as que deve chorar um 
filho  no  seio  da  sua  mãe..  Há  de  ser  tão  santo  o  amor  de  mãe!..  Olha, 
Francisco... e se eu criasse o meu filho? 


 
 
— 
Faz a tua vontade, Augusta... 
— 
Não, não quero: toda aquela mãe que não poupa o seu filho à vergonha 
de ter nascido sobre umas palhas não é boa mãe. 
— 
Eu  posso  fazer  que  o  teu  filho  durma  em  cama  de  prata.  Tenho 
créditos para muito mais. 
— 
Não, meu caro amigo... Não perjuro... O juramento de uma desgraçada 
é mais infalível que a palavra de um rei... Disse, há de cumprir-se. Ainda que 
eu queira outra coisa, alguma vez, arrebata-me o meu filho dos braços, sim? 
— 
Não  sei,  Augusta...  O  teu  filho  é  meu  sobrinho...  hei  de  querer-lhe 
como se fosse também meu filho... 
— 
Pois tu não fazes o que disseste? 
— 
Hei de fazer o que tu quiseres no momento em que ele vier à luz. 


 
 
CAPÍTULO XXVI 
 
Ao  escurecer  de  um  dia  de  Agosto  de  1847,  entrara,  na  casa  da  Rua  dos 
Arménios,  o  médico  que,  oito  meses  antes,  se  despedira,  oferecendo  o  seu 
préstimo  para  oito  meses  depois.  Não  faltara  à  sua  palavra,  visto  que  a 
natureza também não faltara à sua. 
A  Sra.  Ana  do  Moiro,  que  o  vira  entrar,  dizia  a  uma  vizinha  que  a  pobre 
rapariga estava  muito  doente,  e  há  mais de  três  meses  que  se não  erguia da 
cama.  Acrescentava  que  a  cara não  era  de doença,  até lhe parecia  nutrida,  e 
muito  cheia  do  peito;  mas  —  observava  a  vizinha  —  seria  “ostrução”,  ou 
estaria “hidrólica”. 
Repararam elas que o fabricante saíra, quando o médico entrou. “Irá à botica”, 
dizia  uma.  “Mas  o  médico  não  teve  tempo  de  receitar”,  emendava  a  outra. 
“Então não seria o médico?”, replicava a Sra. Ana. “Não seria, não: o Diabo o 
jure!”, concluía a vizinha. 
E o mais é que o artista não saía para longe da porta... Ia e vinha, parava e 
retrocedia, umas vezes limpava o suor, outras fitava o ouvido inutilmente na 
direção da porta. 
— 
Quer  vossemecê ver que  o  sujeito  que  entrou  é  o  tal  Guilherme,  que 
pôs o Francisco no andar da rua? 


 
 
— 
Também  me  está  parecendo  isso!  Eu,  se  fosse  vossemecê,  ia  até  lá 
como quem não quer a coisa. 
— 
Nessa não caio eu. Não me abriam a porta, e Augusta está mesmo uma 
espevitada da breca; por dá cá aquela palha prega um recado que leva o coiro e 
cabelo... Olhe... lá torna o Francisco para a porta. 
— 
Pois olhe que não é outra coisa... é o figurão que fez as pazes com ela. 
Oxalá,  que  a  pobre  da  rapariga  tem-lhe  amor  de  raiz.  Se  vossemecê  a  visse 
aqui  há  tempos,  quando  lhe  davam  os  fanicos!...  Chamava  por  ele,  e  dizia 
umas  palavras  assim  a  modos  de  estrangeiras,  que  eu  estava  pasmadinha  a 
ouvir-lhas. O Francisco não me deixava lá parar nessas ocasiões; mandava-me 
embora e eu nunca pude perceber nada do que ela dizia; mas aquilo enquanto 
a mim, era paixão de alma. 
— 
Seria o Demónio que se lhe meteu no corpo, salvo este? 
— 
Não,  tia  Antónia  Melra,  pelos  modos  o  Demónio  não  era.  Bom 
Demónio, enquanto a mim, é o amor de raiz, que não deixa arranjar a gente a 
sua  vida  quando ele pega deveras.  Olhe  que  eu  já  sei  o  que  isso  é.  Quando 
andei de namoro com aquele granadeiro da polícia, vossemecê bem se lembra, 
que cheguei a tomar verdete. 
— 
Ora, se lembro, e se não fosse a mãe de Augusta vossemecê espichava. 


 
 
— 
Deus lhe fale na alma... foi ela que me botou pelo gargalo abaixo uma 
tigela  de  azeite...  eu  fiquei  muito  tempo  na  cama,  que  me  pus  mesmo  um 
pelém. Que leve o Diabo paixões e mais quem com elas medra! Não é assim, 
tia Melra? 
— 
Diz bem, tia Ana, já esse dito era muito do seu pai, Deus lhe fale na 
alma. 
— 
Vossemecê ainda se lembra do meu pai? 
— 
Ora se lembro! Era um mocetão valente como as armas! O tio António 
Moiro,  aquilo  foi  uma  pena  matarem-no  os  franceses,  e  foi  a  troco  de  ele 
querer defender a casa do homem que morava... 
— 
Onde mora Augusta:.. isso sei-o eu bem. 
— 
Diziam  que  era  tão  rico  o  tal  João  Antunes...  e  nunca  se  soube  onde 
ficou a riqueza! Parece-me que o estou vendo!... Era um pacabote baixo, com 
uma  cara  escaveirada,  não  dava  os  bons-dias  a  ninguém,  e  andava  sempre 
embrulhado  num  josezinho  de  camelão...  Parecia  mesmo  um  pobre.  Eu  era 
então  rapariguinha  de  dezasseis  anos,  quando  foi  pelos  franceses,  e  ele 
chamou-me  uma  vez  lá  dentro,  e  disse-me,  se  eu  lhe  botasse  umas  costas 
numa  camisa,  que  me  dava  os  bocados  de  linho  que  não  servissem.  Veja 
vossemecê que sovina ele era... O mais certo é que os franceses o mataram, e 
lhe pilharam o dinheiro... Olhe, tia Ana, lá se abriu a porta de Augusta... 


 
 
É o tal homem que sai... E lá está parado a falar com o Francisco. Ele aí vem... 
Olhe vossemecê, que está mais perto, se o conhece. 
— 
Não lobrigo nada... O Francisco lá entrou... 
Augusta está prostrada numa profunda letargia. Os braços nus escorrem um 
suor  frio,  e  as  faces  parecem  mortas.  Francisco  desdobra  um  lençol,  que 
envolve um objeto colocado sobre uma caixa ao pé da cama. É uma criança 
recém-nascida, ou antes, nunca nascida, se o nascimento começa pela vida. Os 
lábios do artista roçam com um beijo a face angélica do pequenino cadáver. 
Augusta,  como  se  o  ardor  daquele  beijo  se  refletisse  nas  faces  dela,  abre  os 
olhos espavoridos, arrevesando-os? convulsivamente. 
— 
Augusta... — murmurou Francisco, depondo o feto no lençol. 
— 
Dá-mo — balbuciou ela. 
— 
Para quê? 
— 
Deixa-me beijá-lo. 
— 
Pois não sabes? 
— 
O quê? 
— 
Está morto. 
— 
Morto! — exclamou ela, esforçando-se, até se sentar no leito.  — Dá-
mo, dá-mo, que é impossível que esteja morto... 


 
 
— 
Disse-o o médico, Augusta. 
— 
Não importa... quero vê-lo... Passou-lho aos braços. Augusta aqueceu-
o,  com  beijos,  e  banhou-o  de  lágrimas,  como  se  lágrimas  e  beijos  de  mãe 
pudessem ressuscitar um filho!... 
— 
Está morto!... já não duvido... Senti-o morrer... bem me lembra quando 
foi... — E, depois de um êxtase de alguns minutos, prosseguiu, banhada em 
lágrimas: — Uma vez que me disseram... que me disseram, não... lembras-te 
quando me trouxeste aquele jornal que dizia... “Guilherme casa”... Foi então... 
senti  uma  dor  agudíssima,  um  estremecimento  nas  entranhas...  Eram  os 
paroxismos  desta  criança...  Ei-la  aqui  morta...  Deus  o  quis...  Não  pedirás 
contas à tua mãe, meu anjo!... Não dirás ao teu pai que tens direito à parte do 
coração que a sua mãe perdeu... Não pedirás uma esmola... Não amaldiçoarás 
quem te lançou ao mundo... Vai, vai para o Céu, anjinho; pede ao Senhor pela 
tua  mãe...  pede-lhe  que  me  leve  junto  de  ti...  que  as  minhas  aflições 
purificaram-me para eu poder seguir-te na bem-aventurança... Vai, meu filho... 
quis-te  Deus...  Foram  as  minhas  lágrimas  que  te  resgataram  do  cativeiro  do 
mundo... 
Augusta recaíra no letargo. O artista viera à porta, onde ouvira rumor de quem 
espreita, roçando a face nos rótulos do postigo. Deram-lhe de fôra um sinal 
convencionado. Abriu a, porta. 
— 
E vossemecê?... Entre; mas já não é precisa: o menino nasceu morto. 


 
 
— 
Pois  pena  foi  que  não  fosse  batizado...  era  um  anjinho...  —  disse  a 
destinada  ama  de  leite,  dando  a  razão  teológica  em  conformidade  com  os 
melhores praxistas. 
— 
Vá vossemecê ao quarto... arranje lá o que for necessário, enquanto eu 
preparo um caldo. 
— 
E a mãe está mal? 
— 
Penso que não, graças a Deus. Está muito quebrantada. 
— 
Pudera não; isso não há de ser nada; ponto é que não se aflija, senão 
sobe-lhe o parto à cabeça. 
Com este rasgo de erudição obstétrica, a sisuda aldeã foi, como experiente que 
era, finalizar as necessidades inerentes à puérpera. 
Francisco  ministrou  o  caldo  à  sua  prima,  que  o  tomou  maquinalmente,  e 
adormeceu com uma serena placidez. 
Duas  horas  depois,  voltou  o  médico,  e  disse  que  não  havia  nada  a  recear, 
prometendo tornar no dia imediato. A ama inútil retirou-se a amamentar o seu 
filho, a quem negava a nutrição para alimentar um filho alheio, prometendo 
lançar o seu na roda dos expostos. 
 


 
 
Era  dia.  Francisco  passara  a  noite  contemplando  o  filho  da  sua  prima,  e 
observando o menor estremecimento da mãe. 
Augusta acordara sobressaltada, pedindo o filho com gemidos que partiam o 
coração. 
— 
Está ali... O que lhe queres, Augusta? O menino está no Céu. Oxalá que 
Deus  nos  tivesse  chamado  na  idade  dele.  Agora  do  que  se  trata  é  de  o 
enterrar. 
— 
Pois sim, Francisco... Vai enterrá-lo ao pé da minha mãe... 
— 
Pois  queres  que  se  dê  a  saber  isto  ao  pároco?  Então  para  que  te 
escondeste tanto! Isso não tem jeito... Se o levo à igreja, devo dizer de quem é 
filho... 
— 
Sim?!  Não  quero,  não  quero...  —  exclamou  Augusta  com  estranha 
resolução. 
— 
E, se ninguém o sabe, para que há de saber-se agora que ele está morto? 
— 
Lembras-te de alguma coisa? 
— 
Se quisesses, enterrava-se aqui... 
— 
Aqui?! 
— 
Sim,  Augusta.  Não  é  pecado,  porque  não  é  cristão;  sem  a  água  do 
batismo é como se não fosse nada. 


 
 
— 
E não está no Céu? 
— 
Isso é de fé. 
— 
Deve  estar...  Que  importa  o  mais?...  Pois  sim...  enterra-o  aí...  terei 
sempre os seus ossos comigo... 
— 
Tu  prometeste  que  saías  desta  casa  para  a  minha  de  Lordelo,  que 
comprei com essa condição... que tem que o menino aí fique? 
Ficará sendo esta casa a sua sepultura... Virei visitá-la muitas vezes. Mas... não 
será um crime... Francisco? E se o acham enterrado? 
— 
Quem?! Esta casa nunca mais se abre. 
— 
Pois não abre?! Esta casa é da Ana do Moiro. 
— 
É minha, que lha comprei eu... é tua, Augusta... 
— 
O  que  tu  tens  sido  para  mim,  Francisco...  —  disse  Augusta  com  os 
olhos  vidrados  de  lágrimas,  e  uma  doçura  de  expressão  encantadora  para 
quem a ouvia, mas dolorosa como um remorso para ela. 
— 
Não chores, senão arrenego-me... Não fiz senão o meu dever. Vamos ... 
mãos à obra ... Queres dar um beijo no menino? 
— 
Sim... quero... Não posso... tira-mo dos braços, por misericórdia... Faz o 
que quiseres... Que vida, meu Deus!... 
— 
Augusta, não chores assim... Queres ver o sítio da sepultura? 


 
 
— 
Não, não... Corre-me essa cortina, Francisco... 
O fabricante afastou uma troixa de roupa amontoada a um canto, e levantou 
uma  tábua  curta; depois  cavou, abalando a  terra  com  um  ferro  de  monte, e 
tirou-a na pá da enxada. Mediu com o cabo a profundidade: tinha apenas um 
palmo.  Continuou  a  escavação,  alargando  a  abertura  da  cova.  Eram  já  dois 
palmos.  Estendeu  o  cadáver  na  sepultura,  e  pareceu-lhe  que  ficava  muito  à 
flor da terra. Enterrou quanto pôde a alavanca, bateu em corpo duro, mas que 
não  dava  o  som  de  pedra.  Escavou  corri  a  sachola,  com  as  mãos,  e  com  o 
ferro  desencabado  para  mais  prestes  deslocar  a  pedra  que  o  estorvava,  ou 
cavar outra cova, sendo a pedra imóvel. 
O  gume  da  sachola  raspara  em  pau.  “É  algum  bocado  de  trave  velha,  que 
ficou enterrada quando foi o fogo”, refletiu ele. Mas a superfície desse pau era 
lisa  como  tábua,  tinha  quatro  lados,  e  não  vacilava  por  nenhum  deles.  Quis 
introduzir a ponta de um ferro por qualquer dos quatro lados, não pegava em 
nenhum. — Isto tem a forma de um caixão! — disse ele a meia voz. 
— 
Que é?! — perguntou Augusta. 
— 
Não é nada... Eu falo-te já. 
— 
Falaste em caixão... 
— 
E cá uma coisa... E prosseguiu na tarefa com ansiosa freima. Correu a 
mão por um dos lados do suposto caixão: encontrou uma argola. Estremeceu, 


 
 
sem saber porque estremeceu. Quis exumar o quer que era, tirando com toda 
a força pela argola: não fez sequer vacilar  o objeto. Raciocinou, procurando 
outra  argola  do  lado  oposto:  lá  estava.  Acurvou-se  sobre  o  fosso:  puxou 
valentemente por ambas, ergueu um caixão quadrado. 
— 
Augusta! — exclamou ele. 
— 
Que é?! 
— 
Não sei... lá vou... 
Afastou com o ombro a cortina, e poisou o caixão sobre a cama de Augusta. 
— 
Que é isto?! — disse ela. 
— 
Não sei... desenterrei-o... Vou ver... Aqui há uma fechadura... espera. 
Foi  buscar  um  formão,  entalou-o  no  friso  formado  entre  a  tábua  da  tampa 
falsa  e outra  que se  abria à  maneira de  alçapão.  A  fechadura  estalou.  Viram 
seis  gavetas fechadas.  Abriu a  primeira,  eram  rolos de  papel amarelado  pelo 
tempo. 
— 
Dinheiro! — exclamou ele, desembrulhando o primeiro sofregamente. 
— 
Oh, meu Deus! — disse como assustada Augusta. 
— 
São  peças...  outra  também  de  peças...  dinheiro  em  papel...  outra  de 
peças... 


 
 
Faltava abrir duas. Eram brilhantes soltos, adereços completos, anéis, pontes, 
cruzes, pulseiras, cadeados, fivelas, medalhas, colares... 
Que riqueza! — exclamou o fabricante com o entusiasmo do delírio, com os 
olhos chamejantes de um brilho febril. — Isto é teu... é nosso, Augusta! 
— 
Meu!... Meu!... Não pode ser... — replicou Augusta, arrastando-se até ao 
caixão insensivelmente. 
— 
Sim!... É teu... És rica, és riquíssima, Augusta... Não há fidalga mais rica 
do que tu!... Foi Deus que assim o quis! 
— 
Isto  é  um  sonho!...  —  murmurou  ela,  não  podendo  suster-se  sob  o 
peso da impressão. 
— 
Não é sonho... E Deus que te dá esta riqueza... 
— 
Em paga do meu filho? Não a quero... 
A terra que cobrira o tesouro de João Antunes da Mora, durante trinta e oito 
anos, cobre hoje a ossada do filho de Guilherme do Amaral. 
Agora, leitora, ponha o livro sobre a sua mesa de estudo, sobre o livro ponha 
o cotovelo, à palma da mão direita encoste a sua face formosa, e adormeça, 
cinco  anos,  sobre  os  acontecimentos  que  viu  desenvolvidos  com  uma 
fidelidade  digna  de  melhor  emprego.  Passados  cinco  anos,  acorde,  e  leia  o 
capítulo seguinte. 


 
 
CAPÍTULO XXVII 
 
Correram,  pois,  cinco  anos.  O  jornalista  não  obtivera  direta  nem 
indiretamente  informações  de  Amaral.  Soubera,  apenas,  de  um  provinciano, 
vindo ao Porto, que o seu amigo, pouco depois que saíra de Portugal com o 
seu  tio,  fizera  vender  a  um  brasileiro  a sua  melhor  quinta  na  Beira-Alta por 
quarenta mil cruzados. 
Afeito  com  os  homens,  e  homens  como  eles,  o  poeta  desculpava  o 
esquecimento  de  Guilherme,  porventura embelezado nas  delícias  fantasiadas 
na  carta  que  o  leitor  viu.  De  lá,  nas  grandes  capitais,  relacionado  com  as 
grandes  sociedades,  a  pátria  devia  parecer-lhe  mesquinha  coisa,  e  os  amigos 
que deixara nela, uma lembrança fugitiva sem traços no coração. 
Querendo  explicar  doutro  modo  o  silêncio  do  seu  amigo,  o  jornalista 
justificava-o com o azedume que a sua última carta devia causar-lhe, por ser 
uma censura agra à má índole do desprezador de Augusta e ao baixo carácter 
do perseguidor da prima. 
Como quer que fosse, o patrono da costureira, galardoado pelos aplausos da 
consciência, não lamentava a quebra de uma falsa amizade. 
Para o poeta, contente no seu procedimento nas complicadas situações deste 
obscuro drama, a vida de Augusta era um quadro triste em que ele deliciava a 


 
 
imaginação, propensa a tristezas, ou depravada no gosto, depois que provou 
de  todos  os  venenos  da  alegria.  Pensava  ele  que  desempenhara  com  honra 
todos os deveres de homem honesto para com Guilherme, sem desvirtuar a 
consideração  que  deu,  e  poucos  teriam  dado,  à  costureira  da  Rua  dos 
Arménios. 
O  leitor  não  quer  que  lhe  moralizem  os  sucessos,  porque,  bendito  seja  o 
Senhor, não lhe falta bom juízo próprio para moralizá-los. Aqui o que precisa 
saber-se,  e  quanto  antes,  é  o  que  fez  Augusta  daquele  dinheiro  e  daqueles 
brilhantes. A curiosidade é justa, até porque eu, distinto mexeriqueiro destas 
trapalhadas humanas, a primeira coisa que perguntei quando me contaram esta 
história foi justamente o que a rapariga fez ao dinheiro. 
Porque  a  verdade  deve  dizer-se:  todas  as  perguntas  são  frívolas  quando  se 
trata de perguntar solenemente quantas ações Augusta comprou do caminho-
de-ferro... Parvoíce!... 
O  caminho-de-ferro  nem  sequer  ainda  então  pesava  na  imaginação 
fomentadora  dos  Colberts  embrionários.  A  incubação  do  ovo  não  estava 
ainda no seu período final. 
Tudo isto passou-se naquele tempo, que éramos bárbaros, e os caminhos-de-
ferro,  incompatíveis  com  a  nossa  selvajaria,  estavam  ainda  no  catálogo  das 
utopias. Isto agora é outra coisa. Daqui em diante até o romance nacional há 
de ter mais vida, mais lances, mais animação. O autor andará com ele de terra 


 
 
em  terra,  graças  à  facilidade  do  transporte,  respigando  aqui  e  além  cenas 
palpitantes da vida do próximo e da próxima. A cor local ser-lhe-á mais barata 
e mais correta. O leitor terá propício azo de saber como se vive a dez léguas 
da sua casa, e fará então inteira justiça aos beneméritos filhos da pátria, que, 
primeiros,  desceram  das  regiões  da  quimera,  para  nos  favorecerem  com  a 
viabilidade  pública,  manancial de  todas as  riquezas  e elemento  indispensável 
para a extração dos cereais e dos romances. 
Nisto  pensava  o  jornalista,  num  momento  de  fervor  patriótico,  quando  lhe 
entregaram a seguinte carta, carimbada em Madrid: 
 
Meu caro 
Se  ainda  vives,  dou-te  os  parabéns.  Se  morreste,  “repoisa  lá  no  céu 
eternamente. “ Amanhã parto por terra para Lisboa. Tenciono aí demorar-me, 
e  depois...  não  sei  o  que  será  de  mim.  Aparece,  se  tens  ainda  uma  vaga 
recordação do teu amigo 
Guilherme do Amaral. 
 
N. B. Vou hospedar-me no Hotel de Itália, Rua de S. Francisco. 
 


 
 
A  julgar  do  rosto  do  poeta,  esta  carta  parecia  causar-lhe  um  extraordinário 
prazer!  Deixou  numa  conjunção  suspenso  um  período  arrepiador  do  drama 
que escrevia. Saltou para o meio do quarto, e executou quatro piruetas, rindo-
se para a carta com os mais seguros sintomas de idiota feliz. 
Mal  se  tinham  aquietado  os  pensamentos  cómicos  que  lhe  tumultuavam  na 
cabeça,  e  tais  que  lhos  não  podemos  devassar  por  enquanto,  recebe  outra 
carta, vinda de Lisboa pelo vapor. 
Riu-se  para  o  sobrescrito,  exibiu  segundo  espetáculo  de  piruetas  e  leu, 
sorrindo sempre: 
 
Meu amigo 
Deixou  de  cumprir  a  sua  palavra.  Esperamo-lo  no  Vesúvio?  e  V.  S.  a  nem 
sequer nos diz a causa da sua falta! É todo de literatura, e a mulher que o amar 
tem  de  sucumbir  a  tão  poderosa  rival.  Seja-lhe  infiel,  e  venha  no  próximo 
vapor conversar com os seus amigos. O meu marido diz que V. S. a não gosta 
da nossa hospedagem. Desminta-o não se demorando. Bem conhece quanto é 
caro à sua velha amiga 
Baronesa de Armamar. 
 


 
 
“A  grande  comédia!...“,  pensava  consigo  o  poeta,  passando  do  riso 
descomposto a uma seriedade trágica. “ A grande comédia humana! Pois não 
é  tudo  isto  um  acaso  aqui  na  terra!  Podem  imputar-se  estes  disparates  ao 
providencial  governo  de  um  Deus  justiceiro,  razoável,  e,  sobretudo,  sério! 
Acaso, e mais nada!” 
Esta  oração  mental,  pouco  edificante,  foi  interrompida  por  um  criado,  que 
anunciava a Sra. Joaquina. O leitor ainda não conhece a Sra. Joaquina, e vai 
assistir a uma cena importante, da qual nem por isso ficará sabendo melhor a 
razão  porque  a  Sra.  Joaquina  se  acha  figurando  quase  nas  últimas  páginas 
deste exemplar romance. 
A  Sra.  Joaquina  entrou  com  um  menino  no  colo.  É  uma  bonita  criança  de 
quatro ou cinco anos, vestida de xadrez escarlate, com guarnições de arminho 
nos  pulsos  e  no  pescoço,  e  um  bonito  gorro  de  veludo  preto  com  pluma 
branca sobre os encaracolados cabelos loiros que lhe ondeiam nas espáduas. 
O pequeno salta dos braços da Sra. Joaquina, rindo e pulando, para os braços 
do poeta, que o enche de beijos. 
— 
Estava  morto  por  cá  vir  —  disse  a  mulher,  compondo-lhe  as  saias 
arregaçadas  —  Desde  antes  de  ontem  que  ninguém  o  atura.  Está  sempre: 
“Papá , papá; quero ir ao meu papá... “ 


 
 
— 
Pois fez muito bem em trazê-lo... Se não viesse hoje, tinha de mandá-la 
chamar, senhora Joaquina, porque me parece que vou fôra da terra, e demoro-
me alguns dias, se não forem meses. 
— 
O papá vai-se embora? — perguntou o menino. 
— 
Vou, mas torno, Joãozinho. — Tem saudades de Mim? 
— 
Não queria que fosse... Se vai, choro, e quebro a loiça à mãe Joaquina. 
— 
Olha o mau! — replicou a ama. — É com que lhe dá! Às duas por três, 
quebra-me a loiça, e se eu lhe ralho, deita-se ao chão, e dá em espolinhar-se, 
que  parece  mesmo  que  tem  no  corpo  coisa  ruim.  Vossa  senhoria  bem  lhe 
pode ralhar, senão há de dar contas a Deus do mimo que dá a este traquinas... 
Olhe  a  fazer  beicinho!  Vê  como  está  melindroso?  Não  se  lhe  pode  dizer 
nada... 
— 
Não chore, Joãozinho — disse, acarinhando-o, o amigo de Guilherme. 
— Faça uma careta bem feia à mãe Joaquina... 
O  pequeno  fez  a  mais  feia  das  caretas  que  sabia,  e  riu-se  depois  com  a 
satisfação de uma solene vingança. 
— 
Já se ri? — disse a ama. — Dê-mo cá, que lhe quero dar muitos beijos 
como castigo! Sempre lhe quero!... 
Se mo tirassem, assim me Deus salve, que eu botava-me às dezoito braças... 


 
 
— 
E  porque  hei  de  eu  tirar-lho,  senhora  Joaquina?  Vossemecê  tem  sido 
uma  boa  ama.  Joãozinho  decerto  não  tem  sentido  a  falta  da  sua  mãe,  que 
Deus lhe levou tão cedo. 
— 
Ainda bem que lhe deixou um tão bom pai... Poucos fazem pelos filhos 
que não são de matrimónio o que a vossa senhoria faz por este. Ande lá, que 
Deus há de ajudá-lo e nunca lhe há de faltar com quem pôr este menino onde 
quiser. E olhe que ele sabe agradecer-lho. É uma coisa que faz pasmar, o amor 
que este menino tem ao seu pai. Assim que diz papá, riem-se-lhe os olhos, e 
todo ele parece de arames. Bendito seja o Senhor! O que é o sangue! 
— 
Sim, decerto, é o sangue... — disse, sorrindo para a criança o jornalista. 
—  Ora,  pois,  senhora  Joaquina,  vossemecê  vai  receber  o  ordenado  de  dois 
meses adiantados. Sabe a quem se há de dirigir no caso de eu me demorar, e 
lhe seja preciso algum extraordinário? 
— 
Ao  mesmo  senhor  onde  vou,  quando  vossa  senhoria  está  por  Lisboa 
alguns meses? 
— 
Justamente. Eu parto depois de amanhã. 
— 
E eu também — atalhou o menino. 
— 
Também quer ir, Joãozinho? 
— 
Sim, papá, quero ir contigo, senão quebro a loiça à mãe Joaquina. 


 
 
— 
Isso  não  se  faz,  menino.  Não  sou  seu  amigo  se  quebrar  a  loiça,  e 
quando voltar mando-o para um colégio, e não me torna a ver. 
— 
Então  dê-me  um  tambor  e  uma  pipia,  e  uma  espingarda  e  um 
barquinho. 
— 
Pois  sim,  amanhã  lá  mando  essas  coisas:  mas,  se  fizer  travessuras  à 
senhora Joaquina, nunca mais lhe dou brinquedo nenhum. 
— 
Olha como ele está lindo! — atalhou a ama com amoroso entusiasmo. 
— Parece um anjo! Ainda lhe não perguntei uma coisa, meu senhor, e ando 
morta por perguntar-lha. 
— 
Diga lá, senhora Joaquina. 
— 
A mãe deste menino era assim bonita? Perdoe-me o atrevimento. 
— 
A mãe deste menino... a mãe deste menino... — tartamudeou o poeta. 
— 
Está no céu, papá — atalhou o menino com estranha vivacidade. 
— 
Quem lhe disse que estava no céu, Joãozinho? 
— 
Foi a mãe Joaquina. 
— 
Pois se ela morreu, onde há de ela estar? – perguntou a ama. 
— 
Eu não sei onde ela está... — disse o jornalista como se falasse consigo, 
pela reconcentração com que o disse — Se eu soubesse onde ela está — dava-
lhe tudo, menos... este filho... 


 
 
Joaquina não o entendeu, e o leitor, por mais que esperte o entendimento com 
o beliscão da curiosidade, não compreenderá melhor. 


 
 
CAPÍTULO XXVIII 
 
Em Março de 1851, doze dias depois da cena misteriosa do anterior capítulo 
— de todos eles o mais ressabiado do tempero romanesco — o jornalista pela 
terceira vez procurava Guilherme do Amaral, em Lisboa, Rua de S. Francisco, 
Hotel de Itália. 
O  sobrinho  de  Teotónio  Vaz  apeava  à  porta  da  hospedaria,  quando  o  seu 
amigo  retirava,  quarta  vez,  sem  encontrá-lo.  O  poeta  pasmou,  vendo-o 
sozinho, e quase o não conhecia pelas longas barbas que o desfiguravam. @ 
Isso  é  que  é  pontualidade!  —  exclamou  Guilherme,  abraçando  o  perplexo 
jornalista. 
— 
Vens só?! 
— 
Com um criado. 
— 
A tua família? 
— 
Família! 
— 
Sim... tu não és casado? 
— 
Credo!  Que  pergunta  à  queima-roupa!  Eu  sou  lá  casado,  homem?  O 
meu anjo-da-guarda é um perfeito cavalheiro... Salvou-me dessa emboscada... 
Estás pasmado! Será que eu já não sei falar português! 


 
 
— 
Falas corretamente... eu é que já não entendo língua nenhuma viva... 
— 
Vamos para cima... Rapaz, recolhe os cavalos. Patrão, um bom quarto 
com uma boa sala. janto às sete horas da tarde, com este meu amigo, que fica 
sendo meu hóspede. 
— 
Não posso... — acudiu o poeta. 
— 
Porque não podes? 
— 
Estou hospedado em casa de um amigo intolerante. 
— 
Pois tu tens algum outro amigo? Isso é vaidade. É algum marido com 
reumatismo?... És chamado a neutralizar as impaciências da cônjuge avessa ao 
reumatismo matrimonial? Conta lá isso, bardo do pátrio Douro... 
— 
Ia  dizer-te  que  vens  estragado  das  viagens, mas  agora  me  lembra  que 
não foste já muito são de cá... Isso é que é saber falar a linguagem picaresca do 
cinismo! ... Muito tens que me contar, meu caro Guilherme!... Pela amostra, 
vejo  que  se  aproveita  muito  por  lá,  e  não  há  nada  para  purificar  corações 
como é rebatizá-los com a água lustral do Seria... 
— 
Eu falo-te já, meu homem. Deixa-me mudar de fato, e lavar a cara com 
estas límpidas águas da pátria estremecida, e depois lá vou soltar a parlenda, e 
provar-te, com auxílio  de  Aristóteles,  que  não  há asneira  que não  tenha  um 
feliz resultado. Espera aí um pouco, e entretanto abre essa mala e tira-me para 
fôra  essa  trapalhada.  Os  meus  baús  chegam  amanhã.  Lá  é  que  eu  trago  os 


 
 
meus  ricos  apontamentos  de  viagem,  que  vem  a  ser  o  padrão  das  minhas 
glórias  literárias.  Vou  tornar-me  um  troféu  nacional,  o  mimo  da  pátria,  o 
primeiro  plástico  e  estético  do  país.  Isso  é  que  tu  não  esperavas,  decerto... 
Trago o  músculo do coração,  de  vazio  que  era, cheio de  grãos de  mostarda 
que dá cem por um... 
— 
A do Evangelho? 
— 
Tu verás o que é... Ora aqui está uma ceroula sem nastro! Prova-se que 
o casamento é necessário para a ceroula. Ainda te não perguntei se és casado... 
Em  que  diabo  pensas  tu  que  não  me  respondes?!  Se  não  me  enganam  as 
cortinas da alcova, estás meditando com uma cara seráfica... 
— 
Estou recordando os nossos bons tempos... 
— 
E verdade, que é feito da Cecília? 
— 
Está ótima. 
— 
Gorda, hem? 
— 
E fresca, apesar de três filhos... 
— 
Que se parecem tanto com o pai como contigo, hem? 
— 
Estás bonito, Amaral!... 
— 
E as filhas do barão da Carvalhosa? 
— 
Agora é visconde. 


 
 
— 
Casaram? 
— 
Não. 
— 
Devem estar velhas... E Augusta? 
O  poeta  ergueu-se  de  um  ímpeto  de  cólera,  e  voltando  as  costas  ao 
interlocutor foi para a janela que dizia para o Chiado, assobiando por disfarce. 
— 
Não respondes? — disse Guilherme, saindo da alcova, e vindo para o 
espelho da antecâmara compor serenamente o laço da gravata. 
— 
És um cínico! — murmurou o poeta, sem encará-lo. 
— 
Pois tu que pensas? Vem cá: tu queres saber como se fazem os homens 
assim?  A  história,  suposto  que  compreenda  a  minha  vida  nos  últimos  seis 
anos, é muito simples, e diz-se em menos de quinze minutos. Eu tencionava 
guardá-la para a hora do jantar; mas, se me não dás a honra da convivência, aí 
vai  a  história.  Senta-te:  sê  todo  ouvidos:  vais  ouvir  de  língua  pecadora  o 
cântico  mais  inocente,  mais  angelical,  mais  arroubado  do  coração  humano, 
como ele devia ser naqueles tempos em que a humanidade se sustentava de 
bolota, e bebia as águas límpidas dos regatos. Vai sendo grande o prefácio... 
Agora  começo.  Sei  que  recebeste  uma  carta  minha  de  Londres,  escrita  em 
Fevereiro de 1847; e outra em que te pedia urna certidão de banhos corridos. 
— 
A última que recebi. 


 
 
— 
Foi  a  última,  não  há  dúvida  nenhuma.  Depois  dessa  carta,  a  não 



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