Camila quadros


 Abolição como processo parlamentar: Joaquim Nabuco e Evaristo de Moraes



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1.1 Abolição como processo parlamentar: Joaquim Nabuco e Evaristo de Moraes. 
Ainda na década de 1880, o autor Joaquim Nabuco publicou O Abolicionismo
21
, na 
condição de militante desse movimento, a fim de promover a causa da abolição e convencer 
seu grupo social (especificamente, os políticos brasileiros) da necessidade de se fazê-la. Isso 
porque ele acreditava ser um dever do Parlamento encaminhar a libertação dos escravos. Ele 
inicia  seu  trabalho  considerando  que  o  discurso  pelo  fim  da  escravidão  era  anterior  à 
Independência e devido os acontecimentos de 1822, ela foi deixada de lado. Ganhou destaque 
novamente  em  1831,  quando  foi  decretado  o  fim  do  tráfico  de  africanos  escravizados.  Para 
Nabuco, “a primeira oposição nacional à escravidão foi promovida tão somente contra o tráfico. 
Pretendia-se suprimir a escravidão lentamente, proibindo a importação de novos escravos.”
22
 
                                                           
21
 NABUCO, Joaquim. O abolicionismo.
 Coleção Grandes nomes do pensamento brasileiro da Folha de S. Paulo. 
São Paulo: Publifolha, 2000. 
22
 Ibidem, p. 2. 


15
 
 
No  entanto,  segundo  ele,  os  “costumes  públicos”  do  país  só  “progrediram”  no  Segundo 
Reinado, o que finalmente permitiu que o tráfico cessasse definitivamente, com a lei Eusébio 
de Queirós, de 1850.
23
  
Para  Nabuco,  tais  medidas  mantiveram  o  país  na  segurança  de  que  a  escravidão  se 
extinguiria com o passar dos anos. Foi a Guerra do Paraguai que colocou em xeque novamente 
a questão da mão de obra escrava  e impôs  uma nova “crise política”, que resultou na lei de 
1871, vista por ele como uma tentativa a mais no sentido de abalar progressivamente o regime 
escravagista:  
Em 1850, queria-se suprimir a escravidão, acabando com o tráfico; em 1871, 
libertando-se desde o berço, mas de fato depois dos vinte e um anos, os filhos 
dos  escravos  ainda  por  nascer.  Hoje  quer-se  suprimi-la,  emancipando  os 
escravos  em  massa  e  resgatando  os  ingênuos  da  servidão  da  lei  de  28  de 
setembro.  É  este  último  movimento  que  se  chama  abolicionismo,  e  só  este 
resolve o verdadeiro problema dos escravos, que é a sua própria liberdade.
24
 
 
As considerações de Nabuco evidenciam que, para ele, a abolição deveria se realizar 
por meio do legislativo, por meio de leis que fossem extinguindo a instituição cujo final, de 
alguma  forma,  já  estava  determinado.  Para  o  autor,  o  que  os  indivíduos  do  seu  tempo  não 
deviam  permitir  é  que  a  instituição  se  prolongasse  demasiadamente  e,  por  isso,  deveriam 
assumir a responsabilidade histórica de aboli-la por completo.  
A  política  dos  nossos  homens  de  Estado  foi  toda,  até  hoje,  inspirada  pelo 
desejo  de  fazer  a  escravidão  dissolver-se  insensivelmente  no  país.  O 
abolicionismo é um protesto contra essa triste perspectiva, contra o expediente 
de  entregar  à  morte  a  solução  de  um  problema  que  não  é  só  de  justiça  e 
consciência moral, mas também de previdência política.
25
  
 
É  esse  o  objetivo  que  embasa  o  livro,  pois,  ao  longo  dele,  Nabuco  traz  diversas 
justificativas a fim de fortalecer o movimento abolicionista. Assim, ele valoriza o movimento 
abolicionista, mas especialmente aquele que se realizava no âmbito do legislativo.  
Como argumento para convencer, Nabuco retomava o exemplo da Guerra Civil nos 
Estados Unidos, que serviria como exemplo dos riscos que se corria no Brasil e que, de acordo 
com ele, o movimento abolicionista poderia evitar.
26
 Além disso, ele apresentava os motivos 
pelos  quais  a  escravidão  brasileira  poderia  ser  considerada  ilegal,  já  que  a  maior  parte  dos 
africanos  escravizados  havia  entrado  no  país  depois  de  1831,  quando  o  tráfico  já  havia  sido 
                                                           
23
 Ibidem.  
24
 Ibidem.
 
25
 Ibidem 
26
 Ibidem, p. 8. 


16
 
 
proibido. Ele também alegava que a instituição era ilegítima diante do “progresso das ideias 
morais de cooperação e solidariedade”, e continuava: 
Queremos  acabar  com  a  escravidão  por  esses  motivos  seguramente,  e  mais 
pelos  seguintes:  Porque  a  escravidão  arruína  economicamente  o  país, 
impossibilita o seu progresso material, (...) habitua-o ao servilismo, impede a 
imigração, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias (...) 
afasta as máquinas, excita o ódio entre classes, produz uma aparência ilusória 
de ordem, bem estar e riqueza, a qual encobre os abismos de anarquia moral, 
de miséria e destituição, que do Norte ao Sul margeiam todo o nosso futuro. 
Porque a escravidão é um peso enorme que atrasa o Brasil no seu crescimento 
em  comparação  com  os  outros  Estados  sul-americanos  (...)  o 
desmembramento e a ruína do país (...) somente quando a escravidão houver 
sido de todo abolida, começará a vida normal do povo, existirá mercado para 
o  trabalho,  os  indivíduos  tomarão  o  seu  verdadeiro  nível,  as  riquezas  se 
tornarão legítimas (...). Porque só com a emancipação total podem concorrer 
para a grande obra de uma pátria comum, forte e respeitada, (...).
27
 
 
Esse trecho traduz bem as intenções de Joaquim Nabuco. O progresso, a civilização, o 
desenvolvimento  econômico  e  social  do  país,  para  ele,  estavam  diretamente  vinculadas  à 
abolição  e  dependiam  dela.  Ela  era,  portanto,  uma  necessidade.  Ele  evocava  as  noções  de 
progresso, civilização, progresso social, pois estes eram ideais defendidos amplamente naquela 
sociedade.  Associando-os  à  abolição,  o  autor  pretendia  que  esta  fosse  também  socialmente 
aceita.  Outra  concepção  recorrente  é  quanto  à  necessidade  do  movimento  abolicionista 
fortalecer uma luta pela liberdade, que os escravos sozinhos não teriam condições para travar. 
Segundo ele, “deve-se dizer que o abolicionista é o advogado gratuito de duas classes sociais 
que, de outra forma, não teriam meios de reivindicar os seus direitos, nem consciência deles. 
Essas classes são: os escravos e os ingênuos.”
28
 
O viés parlamentar no desenvolvimento do processo pelo fim da escravidão também 
foi  notado  pelo  autor  Evaristo  de  Moraes,  que  não  tinha,  como  Nabuco,  uma  perspectiva 
militante
29
. Ao longo do seu livro
30
 – publicado pela primeira vez em 1924 -, Moraes analisa a 
campanha  abolicionista  desde  a  década  de  1870,  apontando  vários  aspectos  que  foram 
                                                           
27
 Ibidem, p. 29. 
28
 Ibidem, p. 6. 
29
 Ao menos não no âmbito do abolicionismo, pois a abolição já havia sido formalmente realizada. Esse autor, 
entretanto, como mostrou Mendonça, associava a motivação abolicionista à sua militância em favor do que ele 
considerava  que  fosse  a  “emancipação”  dos  operários  na  Primeira  República  que,  na  sua  perspectiva,  estava 
atrelada à constituição de um direito operário, com a intervenção do Estado nas relações de  trabalho. Conferir: 
MENDONÇA,  Joseli  Maria  Nunes.  “Memórias  da  escravidão  nos  embates  políticos  do  Pós-abolição”.  In: 
ABREU,  Martha;  DANTAS,  Carolina  Vianna;  MATTOS,  Hebe.  (Org.).  Histórias  do  pós-abolição  no  mundo 



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