Camila quadros



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Encontro17.03.2020
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INTRODUÇÃO 
Iniciava mais uma aula comum na academia. Todos, ocupamos nossos lugares na sala, 
em “formação”, conforme manda o professor Kaveira. Eu era iniciante e tudo ainda era uma 
grande novidade. Colocaram um CD, para treinarmos, o berimbau tocou e uma voz forte falou: 
“Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil (...)”. Seguiu-se a leitura do decreto 
n.º 847, de 1890, acerca da criminalização da capoeira na 1ª República, sobre o qual nunca tinha 
ouvido falar. Depois disso, o “Iêê” veio intenso, indicando o início da capoeira e então aquela 
voz, carregada de emoção e energia, cantou: 
Dona Isabel que história é essa // dona Isabel que história é essa, oiá iá // de 
ter feito abolição // de ser princesa boazinha que libertou a escravidão // eu tô 
cansado de conversa, tô cansado de ilusão // abolição se fez com sangue, que 
inundava este país // que o negro transformou em luta // cansado de ser infeliz. 
// Abolição se fez bem antes // e ainda há por se fazer agora // com a verdade 
da favela // e não com a mentira da escola. // Dona Isabel chegou a hora // de 
se acabar com essa maldade // de se ensinar aos nossos filhos // o quanto custa 
a liberdade. // Viva Zumbi nosso rei negro // que fez-se herói lá em Palmares 
//  viva  a  cultura  desse  povo  //  a  liberdade  verdadeira  //  que  já  corria  nos 
quilombos // e já jogava capoeira // Iê viva Zumbi // Iê viva Zumbi, Camará 
(coro) // Iê rei de Palmares // Iê rei de Palmares, Camará (coro) // Iê libertador 
// Iê libertador, Camará (coro) // Iê viva meu Mestre // Iê viva meu Mestre, 
Camará (coro) // Iê quem me ensinou // Iê quem me ensinou, Camará (coro) // 
Iê a capoeira // Iê a capoeira, Camará (coro)
1
 
 
O CD continuou a tocar músicas dedicadas a comunidades no Rio Janeiro. Uma delas 
dizia que o negro era forte, da periferia, era escravo, assim como o avô; outra afirmava que o 
negro era um cidadão considerado. Uma mais -  a canção “Dor, dor, dor” lamentava as dores 
negras, dizendo que “o sangue jorra do chicote do feitor” e “da caneta do doutor”, concluindo: 
“dona Isabel, sua lei não adiantou”.  
Tudo aquilo me impressionou muito. Meu professor me falou que o nome do CD era 
“Liberdade”,  que  a  primeira  canção  se  chamava  “Dona  Isabel”  e  que  seu  compositor  era  o 
Mestre Toni Vargas, um dos mestres do Grupo Senzala, no qual eu havia entrado há poucos 
meses. 
Desde aquela aula, até hoje, são passados cinco anos e, ao longo desse tempo, ouvi 
muitas vezes a ladainha “Dona Isabel” e o lamento “Dor, dor, dor”, nas muitas rodas e eventos 
de  capoeira  de  que  participei.  Foi  a  partir  disso  que  surgiu  o  interesse  por  estudar  temas 
relacionados à história do negro no Brasil. Primeiramente, ainda na graduação, dediquei-me ao 
tema da Abolição, em uma pesquisa realizada no âmbito do PET – História, sob a orientação 
                                                           
1
 
Música 
retirada 
do 
CD 
Liberdade
do 
Mestre 
Toni 
Vargas, 
localizada 
em: 
. Acesso em 16 de nov. 2017. 


11
 
 
da  Prof.ª  Dr.ª  Joseli  M.  N.  Mendonça.  Nesse  trabalho  pesquisei  sociedades  abolicionistas, 
especialmente no Paraná.  
Nesses anos, também pude conhecer várias outras canções da capoeira, que tratavam 
sobre o fim da escravidão. Por isso, para a monografia, decidimos tomá-las como fontes, sobre 
as  quais  tínhamos  o  objetivo  de  investigar  o  que  diziam  acerca  desse  tema.  Para  isso, 
precisávamos estudar de que forma esse assunto já havia sido abordado por autores, entre eles 
historiadores, além de compreender como se deu a construção da capoeira contemporânea. 
Sendo assim, no primeiro capítulo, estudamos diversas interpretações sobre a abolição, 
feitas ao longo da história. Nosso trabalho começou pelos autores Joaquim Nabuco
2
 e Evaristo 
de Moraes
3
, em seguida contemplamos historiadores, como Octavio Ianni
4
, Emília V. da Costa
5

Clóvis Moura
6
, Lana L. da Gama Lima
7
, Célia M. M. de Azevedo
8
, Sidney Chalhoub
9
 e Joseli 
M. N. Mendonça
10
. Através dessas leituras, compreendemos que o fim da escravidão no Brasil 
foi  analisado  por  inúmeras  vertentes,  as  quais,  de  maneira  geral,  destacaram  o  aspecto 
legislativo, as questões econômicas que estavam em voga, as pressões escravas, advindas das 
revoltas e de processos judiciais travados contra os senhores de escravos. Assim, alcançamos o 
objetivo de entender de que forma a abolição foi interpretada.  
No segundo capítulo, nos dedicamos a pesquisar sobre a história da capoeira, pois seria 
importante para entendermos como foi formada a capoeira contemporânea. Por isso, buscamos 
em diversos referenciais teóricos
111213
, os aspectos que a caracterizaram ao longo tempo, desde 
                                                           
2
 NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Coleção Grandes nomes do pensamento brasileiro da Folha de S. Paulo. 
São Paulo: Publifolha, 2000 
3
 MORAES, Evaristo de. A campanha abolicionista: 1879 – 1888. 2ª edição. Brasília, UnB, 1986. 
4
 IANNI, Octavio. As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil meridional. São Paulo: 
Difusão Europeia do Livro. 1962. 
5
 COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 3º edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989, especialmente 
Capítulo IV: Transformações na economia cafeeira. pp. 181-226. 
6
MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas. 2ª edição. Editora Conquista: 1972.  
7
 LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia Negra e Abolicionismo. Editora Achiamé. Rio de Janeiro: 1981. 
8
 AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 
9
  CHALHOUB,  Sidney.  Visões  da  Liberdade:  uma  história  das  últimas  décadas  da  escravidão  na  corte.  São 
Paulo: Companhia das Letras, 1990. 
10
 MENDONÇA, Joseli Maria Nunes Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição 
no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 1999. Coleção 
Várias Histórias. 
11
  TORRES,  Felipe  C.  Capítulo  14:  “Reflexões  sobre  a  capoeira  e  o  espaço  público  urbano  em  sua  trajetória 
histórica.”  In:  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões;  FIGUEIREDO,  Francine  Simplício;  FILHO,  Paulo 
Andrade  Magalhães;  MACHADO,  Sara  Abreu  da  Mata  (Org.).  Capoeira  em  múltiplos  olhares:  estudos  e 
pesquisas em jogo. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016. Coleção UNIAFRO, 13. 
12
 CONDURU, Guilherme Frazão. As metamorfoses da capoeira: contribuição para uma história da capoeira. 
Revista Textos do Brasil. Edição 14º - Capoeira. Ministério das Relações Exteriores. 
13
  PIRES,  Antônio  Liberac  Cardoso  Simões.  Culturas  Circulares.  A  Formação  Histórica  da  Capoeira 
Contemporânea no Rio de Janeiro. Editora Progressiva, Curitiba, 2010 


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seus  primeiros  registros  (no  fim  do  século  XVIII  e  início  do  XIX),  passando  pelo  período 
imperial e republicano. Desta maneira, concluímos que a capoeira já assumiu muitas formas: 
começou  como  uma  luta,  um  jogo,  uma  brincadeira  dos  escravos,  provavelmente  urbanos, 
testemunhadas  em  depoimentos  das  milícias  e  por  retratos  de  cronistas  viajantes.   
Posteriormente,  esses  capoeiras  se  aproximaram  da  política  institucional,  estabelecendo 
vínculos partidários, passaram a se organizar em grupos, que atuavam em eventos públicos e se 
posicionavam politicamente (por exemplo, a favor da monarquia, no final do Império). Essas 
ações  dos  capoeiristas  tiveram  um  custo,  que  foi  a  criminalização  da  prática,  durante  a  1ª 
República,  quando  muitos  foram  apreendidos,  sob  a  justificativa  de  causarem  desordens  e 
tumultos à ordem pública.  De algo proibido, a partir da década de 1930 ela passou a ser um 
símbolo  da  cultura  nacional,  o  esporte  genuinamente  brasileiro,  carregado  do  passado  da 
miscigenação do branco com o africano. Mestre Bimba e Pastinha conduziram esse processo, 
fundando,  em  suas  academias,  os  estilos  Regional  e  Angola,  respectivamente,  tornando-se 
“patronos” da capoeira. E, a partir da década de 1970, a capoeira ganha um novo sentido, uma 
cultura  negra,  de  resistência,  herdeira  do  passado  da  escravidão,  contribuindo,  assim,  para  a 
formação  da  identidade  negra.  Portanto,  entender  esses  caminhos  foi  importante  para 
identificarmos quais aspectos foram mantidos pela capoeira atual, que relações ela estabelece 
com o passado e como isso colabora para a construção de memórias, sendo que, algumas delas, 
pretendíamos identificar em nossas fontes, a fim de reconhecer quais discursos a capoeira tem 
sobre a abolição. 
Por fim, baseado no que havíamos apresentado, pudemos analisar nossas fontes, as 15 
canções cujas letras tratam do tema da Abolição no Brasil.  Conhecemos algumas no convívio 
com  a capoeira e outras  com  pesquisas  na internet.  A partir delas, notamos  diferentes temas 
abordados, por exemplo a escravidão, sendo que muitas mencionam a África e as condições de 
vida dos escravizados, o trabalho nas lavouras e as violências sofridas. Com relação ao fim da 
escravidão, há divergências, pois muitas defendem a princesa Isabel, acreditam que, através da 
Lei  Áurea,  os  negros  puderam  gozar  da  liberdade.  Enquanto  outras  tecem  severas  críticas  à 
Isabel (a qual, muitas chamam por “dona” e não “princesa”), afirmam que a liberdade não foi 
feita  pela  Lei  e  algumas  nem  sequer  admitem  que  os  negros  são  livres,  pois  associam  à 
discriminação e marginalização, que ainda persistem na sociedade.  
Procuramos interpretar essas canções, considerando o contexto em que elas se inserem, 
ou seja, os rituais da roda; as referências à ancestralidade; as memórias que estão em disputa; o 
efeito  que  elas  causam  nos  capoeiristas;  as  relações  com  a  história  e  a  constituição  de  uma 


13
 
 
identidade negra, por meio delas, que valoriza os negros e denuncia as mazelas sociais sofridas 
por eles. Nesse sentido tivemos alguns referenciais teóricos importantes, como o autor Petrônio 
Domingues
14
 e, principalmente, as autoras Simone P. Vassalo
15
 e Flávia Diniz
16
. Além disso, a 
metodologia  adotada  foi  baseada  no  historiador  Marcos  Napolitano
17
,  em  seu  estudo  sobre 
música, pois ele estabelece conceitos relevantes para esse tipo de pesquisa histórico-cultural, 
os quais, na medida do possível, tentamos empregar ao longo do nosso trabalho. 
Sendo assim, nossas fontes nos levaram para versos como esses: “salve, salve, salve a 
princesa Isabel no mundo inteiro // com a pena e o papel // acabou com o cativeiro // (...) não 
existem mais escravos // hoje quem joga é o patrão”
18
. Ou oposto disso: “a história nos engana 
// diz tudo pelo contrário // até diz que abolição // aconteceu no mês de maio // a prova dessa 
mentira // é que da miséria eu não saio”
19
. E muitas que compartilhavam da seguinte mensagem: 
“e hoje em dia o negro, quando joga capoeira // sente orgulho da raça, raça afro-brasileira // traz 
na cor a história de uma guerra de verdade // do negro clamando paz, lutando por liberdade”
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As  canções  também  nos  permitiram  compreender  o  valor  e  os  significados  que  a  capoeira 
carrega,  constituindo  narrativas  e  memórias  próprias,  compartilhadas  entre  os  capoeiristas, 
através de músicas, interpretadas com sinceridade, emoção e energia (conhecida como “axé”, 
pelos capoeiristas), valorizando ainda mais a história e a cultura negra. 
Assim, esperamos que esse trabalho contribua no conhecimento sobre a abolição, por 
um outro viés, pois as canções colaboram para entendermos que a história se faz com diversos 
instrumentos. Reconhecer isso é importante para valorizarmos essa cultura negra, a capoeira, 
como protagonista na escrita de sua história. 
 
 
 
                                                           
14
  DOMINGUES,  Petrônio.  Movimento  Negro  Brasileiro:  alguns  apontamentos  históricos.  Revista  Tempo 
[online]. Universidade Federal Fluminense, vol.12, nº 23, 2007. 
15
 VASSALO, Simone Pondé. “Capoeiras e intelectuais: a construção coletiva da capoeira "autêntica". Estudos 
Históricos. Rio de Janeiro, nº 32, 2003. 
16
 DINIZ, Flávia. Trânsito musical e identidade na capoeira angola. I Simpósio Brasileiro de Pós-Graduandos em 
Música. XV Colóquio do Programa de Pós-Graduação em Música da UNIRIO. Rio de Janeiro, novembro de 2010. 
Pp. 892 – 902. 
17
 NAPOLITANO, Marcos. História e Música – história cultural da música popular. 3ª edição. Belo Horizonte: 
Autêntica, 2016, especialmente o capítulo III, “Para uma história cultural da música popular”. pp. 77 – 111. 
18
  Localizada  em:  .  Acesso  em  16  de 
nov. 2017. 
19
  “Rei  Zumbi”,  feita  pelo  Mestre  Moraes,  do  grupo  de  Capoeira  Angola  Pelourinho  (GCAP),  localizada  em: 

Acesso em 16 de nov. 2017.  
20
 “Negralização”, reproduzida pelo grupo Cordão de Ouro. Não conseguimos identificar a data dessa composição, 
localizada em: . Acesso em 16 de nov. 2017. 

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