Camila quadros


parte  dos  próprios  negros,  comprando  alforria,  lutando  diretamente  em



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parte  dos  próprios  negros,  comprando  alforria,  lutando  diretamente  em 
diversas revoltas, forçando de uma forma ou de outra, não só de negros, de 
pessoas  também  que  entendiam  que  o  negro  não  podia  continuar  naquela 
condição  de  escravo,  dentro  do  Brasil,  que  aquilo  era  uma  vergonha,  mas 
existiram  muitos  e  muitos  movimentos  anteriores  àquele  ato  simbólico  de 
libertar a escravidão, é a isso que eu me refiro na música.
233
 
 
Essa  resposta  vai  além  do  que  a  canção  apresenta,  pois  percebemos  que  quando  o 
Mestre afirma que a abolição se fez bem antes, ele está se baseando na ideia de que houve um 
processo  abolicionista,  empreendido  não  só  com  as  revoltas  escravas,  como  também  pela 
compra  de  alforrias  e  pela  agência  de  vários  grupos  sociais  em  prol  desta  causa.  Assim, 
conseguimos notar algumas semelhanças com o que foi abordado por autores como Chalhoub 
e  Mendonça,  que  indicaram  a  atuação  escrava  pelas  vias  judiciárias  (com  processos  que 
afrontavam os senhores de escravos). Ainda sobre a abolição, fizemos outra questão ao Mestre: 
“quando o senhor canta ‘abolição (...) e ainda há por se fazer agora’, ao que o senhor está se 
referindo?”. Sua resposta foi: 
Ainda há de se fazer uma abolição sim, de se construir uma abolição quando 
todos tiverem direitos iguais. O negro sofre de uma forma ainda muito grande, 
quer  dizer,  as  coisas  não  têm,  não  são  igualitárias,  basta  que  se  veja  a 
quantidade de negros em condição de cárcere hoje ainda, e uma série de outras 
coisas  mais  que  precisam  ser  atingidas,  esse  preconceito  velado  que  existe 
aqui  no  nosso  país.  Enfim,  uma  gama  de  coisas  que  a  gente  ainda  precisa 
conquistar, pra que se possa falar, realmente, de liberdade, liberdade vinculada 
                                                           
233
 Ibidem. 


77
 
 
à  educação,  a  direitos  iguais,  a  possibilidades  igualadas,  é  muito 
complicado.
234
 
 
Nesse ponto, fica evidente a crítica que o Mestre faz, através de sua canção, à condição 
atual do negro. Como no CD Liberdade, antes de tocar “Dona Isabel”, o Mestre lê o decreto do 
Código  Penal  brasileiro,  de  1890,  perguntamos  a  ele:  “por  que,  no  CD  Liberdade,  o  senhor 
coloca a lei do Código Penal de 1890, como introdução à música ‘Dona Isabel’?”. O que ele 
explicou:  
Pois é, exatamente, pra provocar isso, quer dizer, saber que o negro estava, 
vamos dizer, “liberto”, e, no entanto, suas manifestações eram proibidas, né. 
Qualquer tipo de forma de expressão negra cultural era perseguida. Então, essa 
abolição tem que ser questionada, sem dúvida nenhuma.
235
 
 
Portanto, para o Mestre, ele associa a repressão ao negro, no pós abolição, à condição 
da escravidão, defendendo que através dessas políticas discriminatórias, os negros continuaram 
oprimidos dentro da sociedade brasileira. Se considerarmos o que o autor Antônio L. C. S. Pires 
discorre sobre a criminalização da capoeira durante a 1ª República (o que foi apresentado no 
segundo capítulo deste trabalho), veremos que essas medidas instauradas contra os negros não 
se deram somente por conta da discriminação racial. Elas tinham também um cunho político, 
já  que  no  pós  abolição,  grupos  negros  haviam  se  reunido  para  defender  a  monarquia  (por 
exemplo, a Guarda Negra), o que foi usado como justificativa para a perseguição que sofreram 
depois da Proclamação da República. 
Infelizmente, não pudemos descobrir a data da maioria dessas canções, com exceção 
das duas composições do Mestre Toni Vargas. Pelo fato de notarmos várias semelhanças entre 
elas,  até  mesmo  na  forma  como  elas  são  escritas,  por  exemplo,  o  termo  “dona  Isabel”;  a 
referência de que não foi a “bondade da princesa” que fez a liberdade; o recurso de indagar o 
ouvinte, em relação à história oficial, “que história é essa?”, “quem foi que disse?”. Enfim, são 
características comuns entre as músicas, seja porque, provavelmente, há uma influência entre 
elas (para isso se confirmar, teríamos que saber qual é a mais antiga e a mais recente), ou porque 
elas  se  baseiam  em  uma  mesma  fonte  de  conhecimento,  o  que  também  não  conseguimos 
comprovar agora. 
De acordo com  essas últimas  músicas apresentadas,  vimos  que o fim da escravidão 
não se deu através da princesa e nem pela Lei. A pergunta que surge para essas canções é: se a 
                                                           
234
 Ibidem. 
235
 Ibidem. 


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escravidão teve seu fim, quem o fez? Muitas dessas canções já indicaram a resposta, como o 
corrido “Guerreiro do Quilombo”:  
(...) mas olha um dia pro quilombo eu fugi // com muita luta e muita garra // 
me tornei um guerreiro de Zumbi // ao passar do tempo pra fazenda eu retornei 
// soltei todos os escravos e as senzalas eu queimei // (...) a liberdade foi feita 
com sangue e muita dor // muitas lutas e batalhas // foi o que nos despertou // 
(...) sou Guerreiro do Quilombo, Quilombola.
236
 
 
Com essa canção, podemos notar que a história da abolição ganha novos protagonistas, 
por exemplo, as lutas dos negros, os quilombos e Zumbi dos Palmares, como o grande líder e 
herói negro. Esse corrido “Guerreiro do Quilombo” é interessante, pois seu cantador, o Mestre 
Barrão, repete inúmeras vezes: “sou guerreiro do quilombo, quilombola // lê lê lê ô (coro) // eu 
sou negro dos bantos de Angola // negro nagô (coro)”. A resposta do coro dá a impressão de 
que ela confirma essa afirmação, parecendo que o capoeirista realmente é um quilombola. Essas 
ideias também aparecem na ladainha “Negralização”: 
Quem foi que disse que a minha liberdade // foi o fruto da bondade da princesa 
se enganou // a libertação do negro, não foi bem assim, Camará // foi dura a 
batalha contra o branco ruim, Camará // nossa abolição, conquistada na força 
da cor // com coragem, muita luta, muito sangue e muita dor // nego chorou, 
nego chorou // quando morreu Zumbi, Camará.
237
 
 
Anteriormente,  discutimos  a  disputa  de  memória  que  há  em  torno  das  datas 
comemorativas, o 13 de maio ou o 20 de novembro. A ladainha que apresentamos do Mestre 
Limãozinho  defende a princesa e louva o dia 13 de maio, inclusive com o nome da música. 
Enquanto  a  ladainha  “Rei  Zumbi”,  do  Mestre  Moraes,  além  de  criticar  o  dia  13  de  maio, 
glorifica o dia 20 de novembro (o que também fica evidente já no título da canção): “viva vinte 
de novembro // momento para se lembrar // não vejo no treze de maio // nada para comemorar 
// (...) Zumbi é nosso herói, colega velha // do Palmares foi senhor // pela causa de homem negro 
// foi ele quem mais lutou”
238

O lamento “Eu grito Aiê”, do Mestre Feijão, difere um pouco, pois ao mesmo tempo 
que ele reconhece a importância da princesa Isabel, que enfrentou a “corte”, e fez a abolição 
(“mas a corte não queria // que dona Isabel assinasse a carta de alforria // mas ela assinou”), ele 
não deixa de glorificar Zumbi dos Palmares e valorizar a luta escrava: “rei Ganga-Zumba // que 
foi sangue de Zumbi // e foi Zumbi que gritou a liberdade até o fim // (...) de um povo que sofreu 
//  mas  arrebentou  corrente”
239
.  Esses  últimos  casos  mencionados  são  exemplos  de  que  a 
                                                           
236
 “Guerreiro do Quilombo”, Mestre Barrão. Op. Cit. 
237
 “Negralização”, Cordão de Ouro. Op. Cit. 
238
 “Rei Zumbi”, Mestre Moraes. Op. Cit. 
239
 “Eu grito Aiê”, Mestre Feijão. Op. Cit. 


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construção  dessas  narrativas  históricas,  pelas  músicas  da  capoeira,  se  faz  por  caminhos 
distintos, aparentemente até contraditórios, pois ao mesmo tempo em que há um enaltecimento 
à princesa  Isabel,  há também  em  relação às lutas dos  negros.  Assim  como  não é unânime o 
reconhecimento de datas comemorativas, enquanto alguns celebram o dia da assinatura da Lei 
Áurea, outros reforçam a memória do assassinato de Zumbi. 
De qualquer forma, as canções evidenciam a importância que a história de Zumbi dos 
Palmares tem dentro da capoeira, o que podemos ver na quadra “Corrente não me prende mais”: 
“que pena Zumbi já morreu // e não é essa a nossa vitória // mas ele e outros guerreiros // vão 
estar para sempre em nossas memórias”
240
. A ladainha “Dona Isabel”, do Mestre Toni Vargas, 
também compartilha desse culto ao Zumbi, inclusive ele entra na louvação que acompanha a 
ladainha ao final, a qual é cantada pelo coro da roda:  
(...) viva Zumbi nosso rei negro // que fez-se herói lá em Palmares // viva a 
cultura desse povo // a liberdade verdadeira // que já corria nos quilombos // e 
já jogava capoeira // Iê viva Zumbi // Iê viva Zumbi, Camará (coro) // Iê rei 
de Palmares // Iê rei de Palmares, Camará (coro) // Iê libertador // Iê libertador, 
Camará (coro).
241
 
 
Em  nossa entrevista com  o Mestre, pudemos  esclarecer  alguns  pontos em  relação  a 
esses  versos:  “Por  que  o  senhor  colocou  na  música  a  figura  de  Zumbi  dos  Palmares?”.  Ele 
explicou que,  
Bom, eu sei que hoje se contam muitas coisas controversas sobre a imagem 
de Zumbi dos Palmares, mas, enquanto ícone, ele passa pra gente, através da 
cultura oral, principalmente, é passada uma ideia de Zumbi, como um ídolo, 
como uma figura importante no movimento de resistência do quilombo dos 
Palmares,  e,  consequentemente,  na  história  de  resistência  da  cultura  negra. 
Então, Zumbi, pra mim, acaba representando, como Besouro Preto e outras 
pessoas, um ídolo, uma resistência. Pode ser que hoje a gente já vai descobrir 
historicamente diversas outras vertentes, que já mostram outras coisas, enfim, 
questionam várias coisas. Tudo bem, mas eu não sou historiador, quer dizer, 
então, pra mim, a cultura oral, aquela que é passada de boca a boca, aquela 
que é passada pelos ancestrais, pela ancestralidade, através das músicas, das 
histórias, dos cantos diversos, ela vale. E aí eu tô falando, me referindo a esse 
Zumbi, que é, sem dúvida nenhuma, um ícone pra todos nós
.
242
  
 
Na ladainha, o Mestre Toni Vargas também ressalta que a libertação dos escravos foi 
uma conquista da luta dos negros (“abolição se fez com sangue que inundava este país // que o 
negro transformou em luta // cansado de ser infeliz”). Por isso, fizemos essa outra questão: “da 
                                                           
240
 “Corrente não me prende mais”, Mestre Mancha. Op. Cit. 
241
 “Dona Isabel”, Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 
242
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 


80
 
 
onde veio a ideia para escrever esse verso: ‘Abolição se fez com sangue que inundava este país, 
que o negro transformou em luta’? A qual luta o senhor se refere?”. Ele respondeu que,  
É  muito  complicado  a  gente  falar  de  que  luta,  é  lógico  que  o  sangue  era 
derramado  de  todas  as  formas,  né.  Em  forma  de  resistência,  luta  direta, 
indireta, vergonha, saudade, enfim. É só a gente dar uma olhada nessa história 
e  ver  o  quanto  de  sangue  é  que  foi  derramado,  e  como  aquele  sangue,  de 
alguma forma, serviu como base, pra uma resistência, não é isso? Então, na 
realidade,  é  sobre  isso  que  eu  tô  falando.  E  as  diversas  lutas,  o  negro 
transforma em luta, quando ele começa a dizer não, começa a resistir da forma 
que  for,  seja  fugindo,  seja  se  organizando,  seja,  enfim,  da  forma  que  for. 
Foram muitos tipos de luta, né, uma luta só, é a luta do negro, em geral, é a 
essa que eu me refiro.
243
 
 
Assim como em outras canções, a ladainha “Dona Isabel” também coloca o quilombo 
como  um  lugar  onde  existe  a  verdadeira  liberdade  e,  sobre  isso,  indagamos  o  Mestre  Toni 
Vargas: “quando o senhor canta ‘a liberdade verdadeira, que já corria nos quilombos e já jogava 
capoeira’, qual é essa liberdade?”. Ele disse que,  
É, a liberdade verdadeira é aquela que foi conquistada, né. Quando alguém faz 
um quilombo, foge e faz um quilombo, essa liberdade que ele vai gozar ali, é 
uma  liberdade  que  ele  conquistou,  que  ele  construiu,  por  isso  a  liberdade 
verdadeira, e não uma pseudo liberdade, dada por uma princesa boazinha que 
resolveu... A liberdade, pra mim, não é um presente, ela é uma conquista.
244
 
 
O que podemos compreender dessas canções é que o culto ao Zumbi e aos quilombos 
são maneiras de tirar o negro da posição de vítima e oprimido, para colocá-lo como um agente 
no  processo  de  libertação,  o  qual  não  foi  determinado  pela  princesa,  mas,  sim  pelas  lutas 
escravas. Fica clara a intenção de, através dessas mensagens, fortalecer uma identidade e uma 
história negra feita pelos negros, marcada pela resistência dos africanos e seus descendentes, 
que, apesar de escravizados, nunca se renderam.  
A  partir  dessas  ideias,  conseguimos  estabelecer  semelhanças  com  os  capítulos 
anteriores.  Quando  os  capoeiristas  negam  que  os  negros  são  “vítimas”  da  sua  história,  para 
conferir-lhes o protagonismo, eles estão se opondo a uma historiografia que colocou os escravos 
como  meros  participantes  de  um  sistema  que  entrou  em  crise  e  culminou  com  a  escravidão 
(representada  por  autores  como  Otávio  Ianni  e  Emília  V.  da  Costa,  os  quais  analisamos).  E 
quando eles constroem esse discurso de valorização do negro, junto com sua cultura, formando 
uma  identidade  fortalecida,  eles  corroboram  com  o  que  abordamos  das  autoras  Simone  P. 
Vassalo e Flávia Diniz, sobre as mobilizações políticas e de resistência, que os negros fazem, 
também através da capoeira. 
                                                           
243
 Ibidem. 
244
 Ibidem. 


81
 
 
Assim, notamos de que forma a capoeira é instrumentalizada nessas lutas de resistência 
negra,  representando  uma  via  de  libertação.  Ela  se  torna  uma  das  principais  referências  em 
quase todas as canções que selecionamos, inclusive mencionando sua história, como é o caso 
do lamento “Eu grito Aiê”: “haviam dois reis // um reinado uma história // um defende a regional 
//  outro  defende  a  angola”
245
.  Aqui,  o  Mestre  Feijão  está  se  referindo  aos  Mestres  Bimba  e 
Pastinha,  fundadores  da  Regional  e  da  Angola,  respectivamente,  considerados  patronos  da 
capoeira até hoje.  
Casos como esse são significativos, pois se associam ao que a autora Vassalo discute, 
em relação a atuação desses mestres nas décadas de 1930 e 1940, os quais foram reconhecidos 
como os grandes mestres da capoeira, sendo que Pastinha é reverenciado como o verdadeiro 
“guardião”  da  capoeira  tradicional,  originária  do  tempo  da  escravidão,  a  Angola.  Isso  se 
justifica quando consideramos as questões referentes à ancestralidade na capoeira, de manter 
tradições, caracterizando-a e construindo, a partir dela, uma identidade. O que foi apontado pelo 
Mestre  Toni  Vargas,  na  entrevista  que  realizamos,  e  também  em  toda  a  bibliografia  que 
discutimos acerca da capoeira no capítulo anterior. 
O  aspecto  histórico  da  capoeira  associado  ao  quilombo,  às  senzalas,  ao  período  da 
escravidão, fica evidente nessas músicas, como na quadra “Salve a Princesa Isabel”, do Mestre 
Eziquiel: “ela nasceu na Bahia // mas sofreu transformação // (...) hoje quem joga é o patrão // 
capoeira é liberdade // é luta de escravidão // capoeira é a raiz dentro da libertação // ela nasceu 
na senzala // se criou nos quilombos e nos porões”
246
. A ladainha do Mestre Limãozinho: “mas 
com a sua coragem // com medo de padecer // criaram a capoeira // pra poder se defender”
247

Ou  a  quadra  “Sinhá  mandou  chamar”,  Mestre  Boa  Voz,  “negro  não  quer  saber  //  se  vai  pro 
tronco de madeira // pois o negro esquece tudo // quando tá na capoeira”
248
.  
Assim,  a  capoeira  é  uma  luta,  jogo,  uma  resistência  negra,  mas  também  uma 
brincadeira, uma distração, uma forma de “sair da escravidão”, sem o feitor perceber. O lamento 
“Liberdade para todo negro” é uma boa referência: “e no Brasil acabou criando, um jeito, uma 
maneira  de  se  defender  //  criou  uma  luta  disfarçada  na  dança,  parecia  uma  festança  //  uma 
brincadeira // e o feitor que não dava importância acabou não entendendo // que era capoeira”
249

Esses versos corroboram com aquilo que foi dito pela autora Vassalo, acerca da associação da 
                                                           
245
 “Eu grito Aiê”, Mestre Feijão. Op. Cit. 
246
 “Salve a Princesa Isabel”, Mestre Eziquiel. Op. Cit. 
247
 “13 de maio, dia da abolição”, Mestre Limãozinho. Op. Cit. 
248
 “Sinhá mandou chamar”, Mestre Boa Voz. Op. Cit. 
249
 “Liberdade para todo negro”, Mestre Fantasma. Op. Cit. 


82
 
 
capoeira com o passado da escravidão, como um elo em comum entre os negros, que permite 
formar uma identidade.  
Essa valorização da capoeira, como algo que liberta e enobrece o negro, aparece na 
quadra “Lei Áurea”, do Mestre Capú: “a capoeira não é semente do mal // mata rala lá da serra 
perto do canavial // sua beleza também é sua defesa // essa arte brasileira encheu os olhos da 
princesa”
250
. E na ladainha “Negralização”, do Cordão de Ouro, “e hoje em dia o negro, quando 
joga capoeira // sente orgulho da raça, raça afro-brasileira // traz na cor a história de uma guerra 
de verdade // do negro clamando paz, lutando por liberdade”
251
. O lamento “Dor, dor, dor”, do 
Mestre Toni Vargas compartilha desses argumentos: “minha alma é livre, meu berimbau me 
libertou”
252
.  
É interessante essa associação com o instrumento, pois, conforme vimos no começo 
desse capítulo, um dos principais símbolos preservados na capoeira atualmente é o berimbau. 
Podemos dizer que, se a capoeira é uma vida de libertação, o berimbau é quem a guia. Entre 
nossas referências, a canção “Guerreiro do Quilombo” deixa isso claro, pois antes de começar 
a cantá-la, o Mestre Barrão afirma o seguinte: “é no toque do meu berimbau e nos passos da 
minha  luta,  que  eu  me  encontro  comigo  mesmo  (...).  O  berimbau  (...)  vem  do  coração,  do 
sentimento, é vida, é luta, é liberdade, é minha emoção, Camará”
253
. Ou seja, não só a capoeira 
liberta, o berimbau também. 
Por  conta  dessa  valorização  negra,  através  da  capoeira,  o  que  também  é  feito  pelo 
Mestre Toni Vargas, perguntamos como ele considera que a capoeira contribui na formação da 
identidade  negra,  o  que  apresentamos  acima.  Portanto,  concluímos  nossa  entrevista  com 
seguinte indagação: “o senhor acha que a capoeira é, hoje em dia, uma forma de libertação? Por 
quê?”. Sua resposta foi, 
Olha, eu acho que a capoeira é um instrumento de libertação por várias coisas, 
né,  porque  ela  pode,  de  qualquer  forma,  pela  história  dela  e  tudo,  ser 
continuamente um exemplo de resistência cultural. Eu acho que ela pode te 
dar,  através  de  sua  música,  através  de  um  trabalho  corporal  bem  feito,  dar 
instrumentos pra você se sentir forte, livre, inserido na tua história, né. Agora, 
a capoeira é mágica, cabe ao capoeirista saber interpretá-la, saber utilizá-la, 
como um instrumento de libertação. Eu acho que isso não acontece, se a gente 
não tomar posse disso, se a gente não tomar consciência da importância da 
capoeira, aí, isso também não acontece, não adianta tá ali, porque não é só o 
fato de dar uma aula de capoeira que vai fazer com que ela seja um instrumento 
de libertação. É preciso que a pessoa, que as pessoas que estão à frente, os 
líderes  que  estão  à  frente  disso,  desse  trabalho,  os  agentes  da  cultura, 
                                                           
250
 “Lei Áurea”, Mestre Capú. Op. Cit. 
251
 “Negralização”, Cordão de Ouro. Op. Cit. 
252
 “Dor, dor, dor”, Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 
253
 “Guerreiro do Quilombo”, Mestre Barrão. Op. Cit. 


83
 
 
mergulhem na cultura com sensibilidade e vejam os outros lados da capoeira, 
que não é só esse físico, do golpe, do movimento, né. Percebam essa relação 
da  música  com  a  história,  com  a  ancestralidade,  da  onde  vem  essa  força 
enorme que a capoeira desperta e como essa força pode ser transformadora, 
né.  Eu  acho  que  isso  é  um  trabalho  que  a  gente  vai  ter  que  fazer  e  que, 
certamente, vocês jovens no futuro vão poder, já tão podendo, dar uma grande 
contribuição.
254
 
 
****** 
 
Decidimos encerrar esse capítulo com esse último depoimento do Mestre Toni Vargas, 
pois  acreditamos  que  ele  traduz  os  objetivos  deste  trabalho.  Essa  pesquisa  teve, 
primordialmente, duas intenções principais: primeira, de identificar, através das músicas, quais 
os  discursos  que  a  capoeira  mantém  acerca  da  libertação  dos  negros  no  Brasil,  o  que 
demonstramos  ao  longo  desse  capítulo.  Discutimos  seus  diversos  aspectos,  em  relação  aos 
rituais, à musicalidade, associando a referenciais teóricos, para que ficasse claro a importância 
que as músicas têm na capoeira e como elas ganham significado. Não é somente através das 
letras, as quais por si só já são bem expressivas, mas também por um conjunto de características 
mantidas pelos capoeiristas, que colaboram nesse processo de significação. Nesse sentido é que 
ressaltamos a questão de ser uma cultura oral e o quanto isso interfere, inclusive na pesquisa, 
pois, ao mesmo tempo que essa oralidade permite a repercussão e o alcance dessas canções, ela 
dificulta o acesso a determinadas informações, como a autoria e data.  
A segunda intenção era perceber como a capoeira, através desses discursos, se coloca 
como uma cultura negra, que preserva um legado de lutas, do passado da escravidão, e também 
como uma via de libertação, a qual constitui uma interpretação própria sobre a abolição no país. 
Isso acontece na medida em que os capoeiristas assumem esses “compromissos” com a capoeira 
e contribuem nesse processo, o qual resulta em um fortalecimento da identidade e resistência 
negra.  Talvez,  no  fundo,  este  trabalho  tenha  sido  isso:  uma  capoeirista  aproveitando  seus 
estudos na faculdade, para tentar contribuir, um pouco mais, na escrita dessa história, a qual se 
faz com disputas de memórias, narrativas compartilhadas, e também, neste trabalho, com uma 
pesquisa historiográfica. 
 
 
 
 
                                                           
254
 Entrevista realizada com o Mestre Toni Vargas. Op. Cit. 

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